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Reboco caído nº32 vs digital

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zine Reboco Caído - versão digital do número 32

Publicada em: Educação
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Reboco caído nº32 vs digital

  1. 1. Pag 1 REBOCO CAÍDO- 32 Contatos Reboco Caído: fsb1975@yahoo.com.br www.twitter.com/RebocoCaido www.rebococaido.tumblr.com www.facebook.com/RebocoCaido www.rebococaidozine.blogspot.com.br Caixa postal: 21819 Porto Alegre, RS cep.: 90050-970www.fabiodasilvabarbosa.tumblr.com Editorial Como sempre, o Reboco não é para ser apenas lido. É para ser lido, questionado, pensado, refletido, rejeitado, execrado... e quem sabe mais... Ler e apenas aceitar estas linhas por vir como a verdade, seria abrir mão do direito de levantar novas hipóteses, formas de pensar, agir, perspectivas. Mas se quiser apenas aceitar, tudo bem. Cada um com seu cada um. As vezes também me deparo com escritos que passam a impressão de é isso. Mas daí o pensamento não para e a ideia inicial se transforma em outra. O pensamento tá cada vez mais acelerado. A mente não para. Passa por momentos de conflitos internos e externos. A capa, de Tiago Morés, já mostra bem do que estou falando. Começo expondo os escritos de Monotelha e Rojefferson. Sigo então com minhas explosões mentais. Sem saber se é benção ou maldição, chego aos jardins secos e meto uma do Jonatan Ortiz. Danço com a morte, sem a preocupação do homem que acumula e que não sabe sobre a existência das forças da natureza que estão além de seus domínios (figura muito bem retratada pelo mestre Hélio). E depois de mais uma derrota humana, chego a conclusão que estamos em algum tipo de hospício modelo, onde documentos registram nossa triste figura decadente. Não temos mais tempo para abstrações, mesmo que sejam em nanosegundos, pois a guerra já começou e está tudo bem assim (ou assado... vai saber... tudo é questão de como se vê... ou não?... mesmo não tendo mais tempo, eis uma abstração. Azar!). Virando a página, encontramos com Jesuana Prado, um trecho de uma entrevista que respondi pro mano Diego e, na página seguinte, ilustração do mesmo mano que fez a capa. Esqueci de encaixar o memórias de um preso no meio da viagem, mas vai ser encontrado no folhear deste zine. O você é perfeita também ficou de fora – e isso só para mostrar que nada é perfeito. Se ficou mais alguma coisa de fora, será encontrada durante a leitura. Importante ressaltar que está tudo em desacordo com as regras ortográficas, assim como todas as outras. Sobre Dilma e Temer, nada vou dizer. Esse governo tá uma merda, mas o anterior não era dos melhores. Nunca conheci um governo que pudesse dizer: Esse sim. Cada um, ao seu modo, trata de não causar mudanças realmente significativas. O que gera o problema sempre fica intocável.Através da repressão, da alienação ou das migalhas que caem de suas mesas, eles mantém o povo sempre ordeiro e obediente. Continuam a servir aos financiadores de campanha, grandes empresário, latifundiários, banqueiros... Servem a quem tem grana. Mudam apenas a metodologia, a camuflagem...
  2. 2. REBOCOCAÍDO-32 Pag 2 Por Rojefferson Moraes Aperta a fome O sapato aperta O cinto estala Aperta a fome Meninos ainda Vão à escola Com bucho Vazio de tudo Aperto Vida é quase cemitério Estudar é tortura Aprender é piada Raiva é mistério Poderia esperar O mundo apressa A perna corre Olhos fundos No fundo do copo Com suco sem açucar Na hora do recreio Socorro Por MonoTelha Madrugada em trapo pesadelo a fria favela das nossas vidas há desespero e tiroteio de angústia uma febre para esquentar o coração estou ficando louco de cidade tumefacta nadando no lodo horroroso tortura na vala de lágrima um beco sem saída para o futuro correndo no fogo cruzado pedaços de coração e churrasco me internem em baixo da terra hospício da mamãe natureza morta a camisa de força unissex vestida roupa para que o chão engula A dor como calor desumano meus becos do sentir e gemido frio esse barraco corpo pouco e desabando cansado de esperar para que apanhe resiste doente em precipício social a dor girando louca pela comunidade inocência caçada como culpa pútrida vomita bílis e vida horrível triste A solidão uiva uma avenida brasil carros passando em cadáveres carne dada aos vermes Vila Depressão de Olaria Mau estar da Penha Subúrbios da zona morte baixada fluminense em queda estamos em um inferno febril a dor e o sofrimento se beijam esquina do esquecimento número zero bairro da desatenção macabra alucinações da realidade em vomito uma repressão chamada cidade Deito no canto do gemido a solidão sendo cobertor comunitário domo os nossos infernos gastos pesadelos acordados ninam é uma triste resistência popular onírica realidade da desgraça dorme profundo subúrbio dos dias carnes periféricas do açougue mental apodrece na sequência do sonho desperta daqui a pouco para o horrível acorda a comunidade em extinção balas da munição monetária somos os corpos hospitalares carcaças na escola esmola pedaços do resto de esperança inocentes tratados como lixo banquete para o luxo e luto Socorro para esse mundo louco horror triste quase prefiro estar morto O menino diz: Não CREIO! A menina: RECEIO! Pauso as palavras E me parto ao meio.
  3. 3. Pag 3 REBOCOCAÍDO-32 Benção ou maldição? Por Fabio da Silva Barbosa aí está o homem depressão ziguezagueando mesmo parado arrastando sua cruz chamada corpo e mente um peso enorme que carrega por escolha por não querer se acomodar por não querer ser feliz não quer se iludir não quer as mentiras vendidas nos merca- dos não quer desistir o único caminho concebível é continuar a infelicidade é a felicidade a derrota é o prêmio a queda é o motivo para levantar os obstáculos motivos para superar não vê graça em programas humorísticos não acredita na tal geração zueira não sente que deve se enquadrar caminha pelo deserto da solidão cansado de discursos vazios e inconsis- tentes de hipócritas e medíocres de teorias e retóricas de tudo que só serve para criar novas eli- tes demagogas mas para onde ele vai não sabe não existe zona de conforto para o louco andarilho sem paz e sem descanso é assim que acredita não tem certezas ou convicções tudo pode mudar a qualquer momento sem parar dorme acordado mora andando ama odiando sua calmaria é tempestade sua luz é escuridão já nasceu crucificado pela maldição ou pela benção (?) Jardins secos Por Fabio da Silva Barbosa o dia nasce a noite nasce tudo nasce e morre as pedras resistem mas aí são outras coisas drogas e mortes valendo mais que a vida apresentada a fumaça sobe a poeira sobe os corpos caem estamos perdidos em nossos quintais em nossos corpos e mentes não quero ser mais um bom exemplo de toda essa derrota compulsiva Por Jonatan Ortiz Borges Experimenta carregar No peito Um eterno espinho… Só depois vem falar Do jeito Que bebo E da quantidade Do meu vinho.
  4. 4. Pag 4REBOCOCAÍDO-32 Mestre Hélio André Vidal de Souza O homem queria comprar o vento O homem queria comprar a terra O homem queria comprar o mar O homem cercou os rios Inundou tudo e falou ser dele Veio a morte levou o homem Sem nada por ele pagar Sua casca levado ao fogo Virou cinza lançado ao mar Parte dela o vento levou Que de adubo serviu a terra Veio a chuva e lama virou Escorreu pro rio Que ele comprou O canoeiro lançou a flecha No caminho feito no Rio E no reflexo do espelho d'água Viu a face de um triste homem Que a natureza absorveu Jogando na canoa O peixe que Tupã lhe deu O canoeiro partiu Da mesma forma que o viu O homem queria comprar o vento O homem queria comprar a terra O homem queria comprar o mar O homem queria comprar os rios Veio a morte levou o homem Sem nada por ele pagar. Por Murilo Pereira Dias Viva a derrota humana para sua criação tecnológica!!! A desconexão humana com seus semelhantes!!!!Adistância ao estar ao lado!!!!Asaudade sem largar sua mão!!! Um aroma perdido!!! Apenas imagens!!!! Nós nos tornamos imagens para ganharmos quantas curtidas por dia??? Sem intrigas, sem intenções, seremos sinceros nova- mente??? Fotos antigas não valem mais!!! A fome do inútil aumenta, não valemos mais que imagens curtidas!!!!! Se na rua viram a cara, fingindo não reconhecer, quanta falácia tudo isso!!!! Hospício Modelo Por Fabio da Silva Barbosa doença social hipocrisia moral doença social tudo tão banal medos neuroses psicopatias depressão doença social todos tão iguais doença social competições canibais alterações de humor oligofrenia alienação crise existencial doença social retardo total doença social hipnose geral subalternidade decadência ilusão agressão doenças sociais mundos irreais doenças sociais tudo e nada mais
  5. 5. Pag 5 REBOCOCAÍDO-32 explosões de raiva te descontrolam re- petidas vezes o futuro, o passado e o presente são o mesmo inferno não há nada para crer moscas e urubus são os únicos a se apro- ximar doença social doenças sociais doença social apatia, egoísmo, limitação e muito mais Documentos Por Fabio da Silva Barbosa Juca nasceu, foi registrado, catalogado, numerado… Já era considerado alguém perante… Perante a quem? Juca cresceu, continuou acumulando nú- meros, papéis, registros e protocolos Ganhou até crachá Um dia Juca morreu Continuaram na busca por certificados, números, registros e oficializações Tudo para Juca ser alguém mesmo de- pois de morto Nunca poderia deixar de ser alguém Indigente nunca Fez tudo como dizia o manual O mais triste é que Juca se foi sem ao menos saber quem era ———————–XX——————— Pegou fila no posto de saúde, conseguiu número e pegou a fila para marcar a con- sulta. Chegou de madrugada e já era quase de tarde. - Identidade. Deu o documento na mão do rapaz do balcão. - Comprovante de residência. - Como assim? - Alguma conta em seu nome. Luz, tele- fone, água… - Não tenho. - Como não? Todo mundo recebe pelo me- nos conta de luz ou água. - Moro em um terreno com várias casinhas e pago essas contas junto com o aluguel. - Mas deve ter uma conta. Ou vocês não têm luz e água lá? - Vem pro dono das casas. Posso pedir para ver se ele me empresta, mas não sei se vai querer. Ele é muito grosseiro. - Tem de ser em seu nome. - Isso vai ser difícil. Com certeza tá com o nome dele. - Ele pode fazer uma declaração em cartó- rio dizendo que você mora lá no terreno de onde vem a conta. - Não sei se ele vai querer. É complicado. E isso de cartório é pago? - Telefone não tem? - Não senhor. - Conta em banco. Documento bancário ser- ve. - Não tenho. - E como recebe salário? - Trabalho fazendo uma coisinha aqui e ou- tra ali. O dinheiro pinga na mão. - Sem comprovante de residência não dá. - Mas tô precisando ir ao médico. - Vai no pronto socorro então. - Já fui. Disseram que meu caso não era emergência e que tinha de procurar o posto. - Infelizmente não posso ajudar. Dá licença que a fila tá grande atrás do senhor. - Mas… - Próximo. ———————–XX———————— - Pra parede. Parado. - Calma aí… Que isso?… - Tá limpo. Vira. O que tem nesse saco? - Latinha que tô catando para… Pera aí… Tá jogando tudo no chão… - Documento. - Não tenho. - Como não? - Fui roubado outro dia enquanto dormia na
  6. 6. Pag 6REBOCOCAÍDO-32 rua. Levaram minhas coisas. - Quem rouba mendigo? - Não vi quem foi. Quando acordei, sumiu tudo. Não tinha nada lá. - Tá me fazendo de idiota, vagabundo? - Ai… Que isso… Para de me bater… Do outro lado da rua uma senhora passava com uma menina pela mão. - Coitado do moço, vovó. Porque a polícia tá batendo nele? - Esses vagabundos são assim, minha filha. Se não fizer desse jeito, eles não respeitam. Alguma coisa ele deve ter feito. Não deve ser a toa. Decadente Por Fabio da Silva Barbosa estrelas cadentes despencam alvejadas pela metralhadora sistemática que não poupa outras formas de ver e agir cavalos correm em chamas carregando o mundo nas costas sangue e suor salgando o tempero apimen- tado da luta nada vezes nada matando o paladar aprimorando o dissabor vida e morte morte em vida vida morta compactando a mortadela humana comida feita de restos alimentos que não alimentam a poeira espacial entupindo narizes que já não sentem o aroma fedor cadavérico na areia limpa ouvidos virgens ensurdecendo vidas oferecidas ao apito da fábrica pagas com a miséria e o terror tarados pregando a moral no meio da suruba vidas contaminadas pela mentira, pelo ódio e pelo medo vidas trocadas pela rotina, pela mesmice e pelo comodismo uniforme, lei, repressão falsidade ideológica enganação agrotóxicos extinção radiação Abstrações em nanossegundos Samuel da Costa Não há tempo para abstrações Sucumbir à quimérica companhia De imortais deusas e deuses *** Não há tempo para arrefecer Na mística bruma encantada Muito menos embrenhar-se No mítico vergel Embair-se pelo abissal canto Da sacrossanta Kianda *** Não há mais tempo Para deleitar-se complacentemente Sobre a sombra de uma árvore Tendo a hialina companhia Da divinal musa encantada Se perder entre sussurros Ou prantos poéticos Se se perder Para além do infinitude Do ser absoluto da negra Valquíria Pois o mundo real arde Em chamas em nanossegundos Bem assim Por Fabio da Silva Barbosa Existem vezes que descrevo fatos reais e vezes que solto a viagem. Hora sou bio- gráfico e hora retrato o que ouvi falar. Tem o momento de misturar tudo. Misturo o que vi, ouvi, inventei… Cada experiência
  7. 7. sua fúria sua ira a respiração com aquele barulhinho as- mático como um leve ronronar os pés estranhos cabelos sempre despenteados a vida não é fácil vamos cortando as ruas escuras como se tivéssemos asas sem nos importar com mais nada sei que banho não é seu forte ainda mais nesses dias de inverno não tem o menor problema isso cai bem em nosso inferno marcas no corpo e na alma sofrimentos tatuados não esperamos estar certos não precisamos estar errados seu tique ressaltando ainda mais essa beleza tão excêntrica como é difícil querer seu bem mais que você mesmo quer para você o perigo não assusta viemos de uma vida destruída filme de terror real sofrimentos banalizados queria estar sempre junto a ti fazer muito mais que o pouco que posso sempre amigo e companheiro por esse mundo horrível que nos cerca abominável mundo insano racistas e homofóbicos a procriar sua doutrina lixo apodrecendo os corações mas estaremos sempre imunes a isso Pag 7 REBOCOCAÍDO-32 é uma experiência. Essa é a beleza de ser escritor. Posso ser menino, menina, velho e até morto. Posso dizer que fiz o que não fiz ou me ver como observador de mim. As pos- sibilidades são infinitas. Posso dizer uma coisa querendo dizer outra ou dizer exata- mente o que estou querendo dizer e pronto. Esta história que segue é verídica, não tem nada oculto ou figurado. Foi exatamente as- sim: Estava andando pela estrada, pedindo caro- na, quando avistei uma árvore bem convida- tiva. Sentei tirando a mochila e encostei em seu tronco. Algum tempo se passou enquan- to aquela brisa gostosa me aliviava do calor. Foi exatamente nesse momento que ele pu- lou da grama para minha barriga. Pensei que fosse um grilo, mas era um ser do povo tresderi. Ele se apresentou e me falou so- bre seu povo. Nunca tinha ouvido falar. Per- guntei se eram como duendes, mas ele riu dizendo que duendes não existiam. Disse que gostou de mim e que apresentaria seu ani- mal de estimação. Eis que surge um grande dragão alado. Fiquei de pé em um salto. O tresderi caiu no chão. O dragão ficou nervo- so. Me apavorei e corri mato a dentro. Me perdi e não consegui encontrar o caminho de volta. A estrada sumiu. Agora estava em um deserto. Caminhei por alguns anos sem comer ou beber água. Não aguentando mais, desabei. Nesse momento fui abduzido por um disco voador. Depois disso nunca mais me vi. Você é perfeita Por Fabio da Silva Barbosa gosto de estar ao seu lado mesmo não nos entendendo mesmo sendo tão diferentes nada se compara ao seu abraço seus frágeis braços suas costelas aparecendo
  8. 8. Pag 8REBOCOCAÍDO-32 nossa vivência e nossa condição nos vacina contra a imbecilidade alheia a dor nos fortalece para a peleja seu sorriso insano é muito mais que tudo sua inteligência e perspicácia sem igual ser iluminado clareando meu rumo seus piolhos a caminhar pela cabeça suja são apenas mais algumas lembranças que encherão meu coração de ternura Memórias de um preso Por Fabio da Silva Barbosa Estávamos no fundo do pavilhão dividindo o último cigarro que eu tinha ganhado no jogo de cartas. Linguiça era parceria. Sem- pre dividia os cigarros dele comigo tam- bém. Dividia com os outros quando não tinha jeito, mas nosso lance era outro. Coi- sa de irmão. Quando ele chegou ao presídio passou por todas as dificuldades que um preso novo passa. Sorte que a acusação dele ajudava a ganhar o respeito dos outros. Foi conde- nado por matar um policial. Ele dizia que era inocente, mas isso todo mundo dizia (ou pelo menos a maioria). - Foi uma briga de bar. O cara me desaca- tou e disse que era policial. Na hora da raiva falei que ia matar ele. No dia seguin- te apareceu morto e vieram logo em cima de mim. Linguiça desenhava bem e começou a ta- tuar a galera. No início tatuava a própria perna para treinar. O pessoal foi gostando e pedia para ele rabiscar geral. Teve uma época em que a tuberculose to- mou conta do pavilhão. Fiquei estragado. Um dia nem conseguia levantar.Arapazia- da começou a gritar que tinha preso doen- te. O carcereiro olhou e voltou com ou- tros. Cada um com um pedaço de pau. Nes- se dia perdi todos os dentes. Só pararam de me bater quando respondi que não ti- nha ninguém doente ali. Linguiça me deu a maior moral até eu conseguir ficar recu- perado. Quer dizer, bem até hoje não tô, mas… O fato é que essa foi a última vez que vi o cara. Nossa última lembrança foi aquele cigarro dividido no fundo do pavilhão. Vi- eram buscá-lo no meio da noite e eu nun- ca mais vi. Alguns diziam que foi transfe- rido, outros que foi acerto de contas. O fato é que aqui a vida é assim. As coisas acontecem e ás vezes não se tem certeza de nada. Dois anos depois: Não sei o porquê de terem ido buscá-lo no meio da noite, mas com o tempo des- cobri que foi transferido e que já estava em liberdade. Acabei de poder sair tam- bém. Ontem fiz uma despedida com o pes- soal do pavilhão. Tinha escondido uma ponta num pequeno buraco da parede e peguei um pouco antes de anoitecer. Foi difícil tirar da parede, mas quando conse- gui parecia que o Brasil tinha feto gol na copa do mundo. Foi uma gritaria danada. O carcereiro veio logo ver o que tava acontecendo. - Nada não. O pessoal tava contando piada. Ele saiu meio desconfiado. Dividimos aquela perna de grilo entre os mais chega- dos. A coisa dava só para dar um gosto na boca, mas já valeu. Ganhei o mundo, andei algumas quadras e confirmei o que já tinha pensado. Como não tinha onde ir, iria procurar minha anti- ga parceria de prisão. Passei pela área dele e ninguém sabia me dizer para onde tinha ido. Rodei por botecos e locais citados em algumas das histórias que tinha me conta- to nos papos de cadeia. Eram papos que só se compartilhavam com os firmezas. Linguiça sumiu na poeira. Teria de me ar-
  9. 9. Pag 9 REBOCOCAÍDO-32 rumar sozinho mesmo. Três anos depois: De volta na tranca, soube por um amigo que conheceu Linguiça: “Mataram ele por causa de umas paradas pouco legais em que andou se metendo. Parece ter sido chinelagem braba, passou a perna em quem não devia”. Isso, pelo menos, foi o que o cara me falou. Se era verda- de ou mentira, nunca tive como saber. A última lembrança do mano Linguiça con- tinuou sendo aquele dia no fundo do pa- vilhão. O cigarro, a fumaça. O motivo que me fez parar de novo atrás das grades? A vida não é fácil e é mais complicada do que se pensa. Mas tá. Isso já é outra treta. Qualquer dia eu conto. Mulher Por Jesuana Prado Sou filha de um ventre gentil de uma pátria que não é. Sou filha da luta que não pode se calar, que grita, labuta nas ruas, guetos, favelas. sou filha da revolta por não me submeter, rebeldia pura por não obedecer a um macho, opressor, que quer bater, amedrontar, ameaçar meu ser mulher. Não sou nem nunca serei inferior sou filha, sou mulher, não sou, Não somos obrigadas a nada! Nada! Esta é a única ordem. Ninguém nos obrigará a ter os filhos que não queremos ter, a casar, ser normal. Somos anormais, únicas, diferentes. Permanecemos em luta contra o machismo e o patriarcado. Podem nos chamar de feministas, é uma honra que acalentamos em nossas al- mas Que pulsa em nossos sangues que escorrem em fluxos menstruais que também é fluxo quando não vencemos a luta contra o feminicídio que assola, abate em um solo nada gentil. Não me venha com flores mortas cheirando a segregação. Me venha com punho cerrado para marcharmos em luta até que nenhuma mulher tenha seu sangue jorrado. Dia da mulher é dia de luta, todo dia é. “Não adianta encher a estante de livros inscritos no manual de quem gosta de coisas diferentes e nunca ter lido Diego El Khouri, Mazinho Souza, Carlos Bruno, Jesuana Prado... entre outros. Poderia fazer uma lista enorme, mas acho que já deu para enten- der. Se não deu, ilustro de outra forma. De que adianta ter lido todos os livros da gera- ção beat, se não leu Ivan Silva? Não adianta nada. As ideias não continuam seus cami- nhos. Estaciona no que foi assimilado e não assimila o que está acontecendo. O cara se acha moderno, mas está sempre um passo atrás do hoje. E há também o que só caminhe de ré. O próprio conceito de moderno já é algo passado. Aí vem a cegueira dizendo que hoje não acontece nada, que antigamente que era bom. Tem coisa acontecendo a todo momento e em toda parte, só que as pessoas não se interessam em conhecer. Ficam esperando as novidades virem pela tv , pelas fms ou o lançamento da LPM.”
  10. 10. Para pedir o seu, entre em contato direto com o autor pelo e-mail fsb1975@yahoo. com.br ou com a editora pelo candeeirocartonera @gmail.com Edição Limitada e numerada Salada Cascuda (Resenha de David Beat) Fabio da Silva Barbosa, um dos expoentes mais atuantes da cena zineira, lançou mais um dos seus muitos projetos (que não fi- cam engavetados por muito tempo devido à verve constante do autor). “Salada Cascuda” não é apenas uma reunião de con- tos e poemas. O processo todo artesanal que foi empregado na confecção do livro inclui capa de papelão levando recorte e colagens, produzidos um a um, tornando cada exemplar único; no lugar dos famo- sos grampos, um barbante de crochê para prender o miolo. Como se não bastasse o cunho estético, temos todo o conteúdo acidulante dos escritos que te leva para re- flexões existencialistas e te convida ao pensar. Palavras-Marginais Porto de Lenha-Editora Formato:14x21cm; Formato Impresso; c/ orelhas Acapa - Aparte de cima mostra o clima de terror e opressão imposto. Algo de cima para baixo. Na parte de baixo vemos, mes- mo cercada pela opressão, a resistência. A mudança que vem de baixo. Uma mu- lher negra com o megafone bradando suas palavras marginais. Palavras de quem so- fre e é perseguida. Pode ser também uma figura trans.Atrás a bandeira brasileira ras- gada e pintada de preto, cor da bandeira anarquista, firmando o caráter libertário das lutas populares e o internacionalismo (ideias que destroem a noção limitadora de pátria). Quando pedi para Diego El Khouri fazer a capa, sabia que incorpora- ria a ideia dessas palavras marginais. Para comprar com a editora: www.portodelenhalivraria.com Direto com o autor: fsb1975@yahoo.com.br

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