Reboco Caído nº28 versão digital

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Reboco Caído nº28 versão digital

  1. 1. Pag 1 REBOCO CAÍDO#28 Editorial Contatos com o Reboco: fsb1975@yahoo.com.br www.twitter.com/RebocoCaido www.rebococaido.tumblr.com www.facebook.com/RebocoCaido www.rebococaidozine.blogspot.com.br Caixa postal: 21819, PortoAlegre, RS cep.:90050-970 www.fabiodasilvabarbosa.tumblr.com Vento frio Por Fabio da Silva Barbosa aproveitando a depressão noturna a melancolia solitária deste aposento fico observando o vento nas árvores a chuva fina caindo só o nada a preencher leio algumas frases tortas escritas há algum tempo no intuito de começar uma história lembro da senhora dormindo na calçada será que arrumou um lugar seco para ficar vejo os galhos balançando dobrando quantas pessoas agora por aí encarando essa noite fria sem ter onde ir uma voz grita alguma coisa quebrando o silêncio o que será que aconteceu passa um carro as árvores continuam a resistir os galhos balançam com mais força lixo voando pela rua tomo mais um gole o vento continua a soprar pela cidade fria Este número fiz na intenção que fosse o último de 2015, encerrando o ciclo comemo- rativo de meia década do Reboco Caído. Mas, devido a falta de tempo e de grana, acabou ficando como o primeiro de 2016. O final de ano foi bem corrido, mas produtivo. O e-mail de guerrilha ou informativo digital – Reboco Caído tá rolando, aconteceu a quarta edição da TARDE MULTICULTU- RALSEMFRONTEIRAS(destaveznaCasa Viva de PortoAlegre), tô na luta para lançar novos livros, fazendo novos contatos, co- nhecendo novos espaços e possibilidades... experimentando, testando... Um monte de coisas, como sempre.Acapa desta edição é do guerreiro Borges Kxias. Começamos com um dos meus contos, depois o release en- viado pela Devastadoras. Alguns escritos depois temos materiais de colaboradores e poemas do Doomn, retirados do zine Poesia Caótica. Temos também um da guerrilheira Gioconda Belli. E daí por diante. *Em memória de Milton Santana *Forte abraço para a galera da Toca do Samba, Casa Viva, Vida Torta e para Helena Ortiz. Tamo junto.
  2. 2. REBOCO CAÍDO #28 Pag 2 Por Fabio da Silva Barbosa Polenta era um cara tranquilo. Não gosta- va de se incomodar. Dizia que religião e política não se discutem. “Isso sempre acaba em problema e problema não é co- migo”. Mesmo querendo, não conseguiu apren- der muita coisa no colégio. Arranjou um trabalhinho qualquer que fosse pagar o feijão com arroz dos filhos e da compa- nheira. “E vamos levantar as mãos para o céu. Tem gente que não tem nem isso”. Sempre dava bom dia, boa tarde e boa noi- te. Falava com todos e evitava discordar. Quando havia manifestação que buscas- se alguma melhoria local, procurava não se envolver. “Isso não adianta nada. Esse pessoal gosta é de confusão.” Um dia foi mandado embora sem explica- rem o motivo. Tentou conversar, mas não conseguiu argumentar. Procurou emprego, mas estava difícil. Começou a fazer uma coisinha aqui e outra ali. “Deus vai nos ajudar. Sempre agimos direito. Não pode ser assim” Certo dia teve uma ideia. Iria pedir para a companheira fazer umas comidinhas gos- tosas. Venderia pelo Centro. Montaria uma barraquinha. “Vou procurar o Fulano. Vo- tamos nele e nunca fomos incomodar. Ele é boa gente e vai entender. Conseguire- mos uma licença. Ele disse que precisan- do era só aparecer e que não esqueceria dos amigos”. Foi algumas vezes ao gabinete. Sempre uma fila de gente esperando para falar. O eleito em reunião. Passou pelo Centro e viu um bom lugar. Não podia continuar es- perando. “Enquanto tento falar com ele, vamos fazendo a freguesia. Logo consigo conversar e ele ajuda”. A empreitada foi um sucesso. Polenta ven- dia os comes e bebes, o dinheiro entrava e os clientes gostavam” Continuou passando no gabinete. Conse- guiu falar com Fulano que sorridente aper- tou sua mão e prometeu. “Pode contar comi- go. Dê só o tempo das coisas andarem. En- quanto isso, vai vendendo sua comidinha por lá” Polenta ficou eufórico. Não podia se conter. “Eu disse que tudo ia melhorar”. Um dia a fiscalização apareceu. Polenta ten- tou conversar. Tomaram tudo que tinha, seu ganha pão, e nem quiseram escutar. “Mas o doutor Fulano tá vendo a licença pra mim trabalhar.” Empurrão, grosserias e a promessa de que seria preso se continuasse a falar. Polenta subiu o morro triste, desanimado. No meio do caminho se deparou com uma operação policial. A troca de tiros ecoava por todo o lugar. “Ninguém entra e ninguém sai. Vai ter de esperar os vagabundos caírem”. Polenta preocupado com a família no meio do tiroteio. De repente viu uma mulher des- cendo a estradinha. Parecia… Não podia ser… E o que era aquilo que ela trazia no colo? Polenta ficou sem palavras ao ver de mais perto o bracinho pendurado, o sangue escorrendo… Nunca mais foi o mesmo. Da- quele momento em diante mudou o olhar. Polenta Betinho Massetti: “Morreram varios aqui na nossa quebra- da ontem até cadáver fui ver na calçada cheio de tiros tá embaçado até onde vai essa onda de violência a vida não está valendo mais nada ? E nossas crianças ? Qual o futuro pra se manter vivo terá que ter Sorte? Seloco to de saco cheio.” Deise Santos: “Assassinatos em massa em periferias… E ainda falam em pacificação, inteligência na segurança pública e justiça. Onde? Quando? Que vergonha!!”
  3. 3. Com esta formação as Devastadoras realizaram diversos shows em Porto Alegre e em cidades da região metropolitana, inclusive dividindo palco com a banda Olho Seco, em evento realizado em Gravataí. Também participaram de duas coletâneas de bandas independentes: Cacos de Vidro e Manifesto Cultural 1 de Maio 2014. Em novembro de 2014 a banda finalmente completou sua formação com a chegada de Manu (baixo) e realizou seu primeiro show no interior do estado, em evento beneficente, na cidade de Santa Maria. Em 2015 a banda participou de vários eventos, sendo seu mais recente show junto com a banda Karne Krua, em Gravataí. Atualmente as Devastadoras estão em estúdio gravando o seu primeiro cd, que deve ser lançado no início de 2016. Como influencias, o quarteto possui bandas do cenário punk nacional e também do hard core do exterior, porém sua principal ins- piração para compor são as experiências próprias, situações que vivenciam no coti- diano e que refletem a cruel realidade bra- sileira. São letras próprias e de protesto con- tra a opressão da população. Um som punk rock e hard core usado como instrumento de revolta para falar sobre a realidade de maneira crua e direta, um meio de expressão real e livre para externar a quem quiser ouvir sobre toda a injustiça cometida e a banalidade com que a vida humana é tratada nessa sociedade. Pag 3 REBOCO CAÍDO #28 A banda Devastadoras começou como um projeto idealizado por Cami, a guitarrista. O nome vem de um termo jornalístico empregado na abordagem de catástrofes naturais e também usado para definir tragédias humanas. O projeto inicial da banda era formado por Cami e Briane, que ensaiavam com voz e violão. Logo mais,Tai, ex Repulse, passou a integrar a banda como baterista. Com esta formação, a banda fez seu primeiro ensaio em setembro de 2012, no Estúdio Navarro, em Canoas/RS. Com a necessidade de um vocal com estilo agressivo e com a mesma afinidade cultural, Rosa, ex Infinity War, foi convi- dada a completar a formação da banda. Logo depois Briane deixa a banda por motivos pessoais e Dani Pedra, baterista da Feminil Kaos, assume o baixo, porém também sai da banda após alguns ensaios. A banda seguiu ensaiando com Cami (guitarra),Tai(bateria) e Rosa(vocal) e em outubro de 2013 realizou seu primeiro show no Mutantes Bar, em Porto Alegre. Logo após o trio gravou um cd demo ao vivo, intitulado Devastadoras Barulho Konsciente, com cinco faixas. Devastadoras: Barulho Konsciente! Por Devastadoras
  4. 4. Pag 4REBOCO CAÍDO #28 divagações e problematizações Por Fabio da Silva Barbosa Fico vendo as pessoas desesperadas, infe- lizes, amarguradas, mas sempre culpando aos outros e nunca olhando para si mesmo. Reproduzem conceitos, padrões e estereó- tipos que mantém tudo exatamente como está. Do alto de seus preconceitos se dizem cristãos. Falando de união, julgam e opri- mem. Não admitem nenhum certo que não seja o seu, ao mesmo tempo em que falam do direito de excluir, de usufruir privilégios, de manter tradições maléficas e peço- nhentas. Uma argumentação distorcida. Im- posição. Crendo na mentira e mentindo a verdade, olhando apenas os ângulos que são favoráveis.Acreditando na síndrome do arrebanhamento, vivem a esperar alguém que resolva seus problemas, que indique o caminho para o céu. De preferência um ca- minho fácil. Tudo bem facinho. O importan- te é como os outros vão ver.Aparência sem- pre. O conteúdo sendo substituído pela aparência, o profundo pelo superficial.Avai- dade cegando. A mentira reinando. É a era artificial. Evolução do que? Tudo se con- vertendo em instrumentos de poder e se ga- rantindo na visão limitada do cidadão de bem. Cidadão de bem ou que possui bens? Sempre foi considerado impossível imagi- nar o trem andando fora da linha. Mas “se- jamos realistas, exijamos o impossível”. Buscam uma segurança inalcançável, reali- dades irreais. E onde estamos no meio de tudo isso? Estamos no meio disso tudo? Agimos e interagimos? Ou assistimos como a um filme esquemão? Criam meninas para serem princesas ao invés de guerreiras se- dentas por justiça e dignidade. Que caia a nobreza! Falam de justiça, mas o que temos são os dentes das engrenagens a nos mas- tigar. Falam de escolhas, mas não temos op- ções de verdade. Você prefere merda mole ou merda dura? O ter vale mais que o ser, o objeto mais que a pessoa. Racional ou irra- cional? Matam-se pelo direito de ficarem trancados em seus carros, casas, aparta- mentos, quadrados, cárceres. Buscam a li- bertação através da posse e acabam pos- suídos pelo que pensam possuir. Pensar se torna errado, um ato infantil, ignóbil. O negócio é fazer de conta que pensa. En- cher a cuca do considerado relevante e sair por aí vomitando bobagens. Como em um programa sensacionalista de televisão. Es- cola, trabalho, cemitério. Escola, trabalho, cemitério. Se alimente de lixo e assista tele- visão. Se informe de desinformação. Que- rem te ver focado na ilusão. Voltemos as- sim a questão da ilusão. O que é impossí- vel? Continuar assim ou acreditar no que os iludidos chamam impossível. Impossí- vel é continuar assim e ilusão achar que esse é o único caminho possível. Esse ca- minho sempre foi e está cada vez mais im- possível. Consideremos e reconsideremos. Busquemos sempre novos rumos. O pro- cesso é contínuo. divagações e problematizações II Por Fabio da Silva Barbosa Fico vendo as pessoas com medo. É medo de andar, de se mover, de sair, de lutar, de pensar, de questionar, de se libertar, de não ser mais um. Medo de se conhecer, de ser único… Medo de ser. Um medo implanta- do desde sempre, junto de mentiras, de ilu- sões. Medo de sonhar, de ver o real, de ir pra rua, de se machucar, de se expor, de errar… Medo + medo + medo + mentira + medo + mentira + falsidade + medo + faláci- as + medo + medo… + muito medo. O medo de morrer trás uma vida morta. O medo de se ferir nos transforma em ferida exposta. Se afogando no mar do medo. Tempesta- des de pavor. Pânico total. O temor de tudo. Medo da natureza, da cidade, do inespera- do, do caos. Medo da mudança. Sufoca- dos pela rotina, injetam doses de confor-
  5. 5. Pag 5 REBOCO CAÍDO #28 mismo e bundamolismo. Nada, nada, ná- degas. Desligar a tv e ir para a rua é muito perigoso, diz o noticiário. Sair do compu- tador e existir fora do virtual é viver e viver é muito perigoso. Necessidade con- tínua de proteção. Empresas enriquecen- do com a proteção, vendendo seguran- ça.Abrem mão da liberdade para ter a fal- sa sensação de proteção. Pensar deixa in- seguro, então paremos de pensar. Pensar para que? Deixem que pensem por vocês. Mas ninguém pergunta: Quem são esses protetores? De quem ou de que eles te protegem? Quem te protege dos proteto- res? O que eles realmente estão prote- gendo? Será que é realmente você? Aí se criam intelectuais que são contra pensar, libertários aprisionados, esquerdas de direita, mentiras + mentiras + mentiras + mentiras… E ninguém sabe nada. Medo por toda parte. Muitos medos. A patolo- gia do medo.Asociedade do medo. Medo. Medo travestido de raiva, de racismo… preconceitos mil. Medo da coragem e medo do medo. Medo medonho. Medo, grades, cercas, arames, marginalidade, exclusão… Medo. Preciso de material cortante, corda, comprimidosouquemsabeuma cerveja Por Fabio da Silva Barbosa noites insones sombrias solitárias amargura perdido em labirintos de lembranças e pensamentos momentos de sorrisos momentos de tormentos o suor frio que nos inunda sem distinguir direito a temperatura nos afunda nos tortura os poucos amigos que ainda restam nos aturam ou ao menos tentam ou ao menos pensamos que tentam uma lufada de ar pestilento o calafrio tudo nublado tudo certo tudo errado escorre como gosma sem explicar sem entender sem importar lágrimas a suspirar do único olho que chora que é o meu que é agora a flauta dos ventos a tocar o fim e o início a misturar tudo ficando turvo não dá para continuar. Três pontinhos Por Fabio da Silva Barbosa Te chamam de preto mestiço bastardo pobre mendigo feio favelado presunto viado Número de estatística não tem ninguém do seu lado Não quero ser teleguiado Tá tudo errado
  6. 6. Pag 6REBOCO CAÍDO #28 Roubam nossas chances pra depois dizer que temos de fazer algo que somos acomodados Você não conhece o outro lado Roubam sua cultura modo de viver palavreado pra impor a mentira tida pelos hipócritas como realidade Classificam e rotulam porque assim é mais fácil vender Querem te enganar querem te prender Querem separar pra depois vencer Não sou isso aí não sou isso não A minha é outra respiro em outra atmosfera Transformam homens em feras pra depois crucificar Não podem me parar Não podem prender/matar Podem até me esfolar que vou continuar porque minha voz vai além da minha garganta Não sou uma pedra ou apenas homem planta Podem até atingir meu corpo mas isso é muito pouco pois o conteúdo está onde você não pode ver ou tocar Não vão me enlatar continuarei a rolar vagar caminhar asterisco Por Fabio da Silva Barbosa tô aborrecido boladão tenho esse direito não vá dizer que não meu irmão você sabe como é tiro na cara ou corrente no pé a escravidão continua mas já não depende da cor todo mundo tá junto nesse museu de horror continuam se especializando no discurso vazio maquiando a verdade transformando em mentira a miséria e a fome bem ao lado do bairro grã-fino vão nos jogar para baixo para baixo da terra para baixo do tapete querem te meter a mão e enfiar o cacete humilham e batem prendem e trancam quando não matam ainda crianças é morte por dentro é morte por fora invadem sua casa poluem a memória poluem os rios fecham escolas reprimem a luta inventam a história * **
  7. 7. Pag 7 REBOCO CAÍDO #28 Por Fabio da Silva Barbosa Não ouvi quando chegaram, mas acordei com um forte barulho. Abri os olhos e continuei deitada. Gritos desesperados. - Pelo amor de… - Solta ele. - Que isso? - Ele é trabalhador. - Para. - Socorro… - Não faz isso. - Ele é trabalhador. - Todo mundo pra trás! Ó o escândalo. - Quietinho! Quietinho! - Não adianta! Perdeu! Levantei rápido e fui cuidadosamente até a janela. Fiquei de cantinho, escondida pela es- curidão do barraco. Avistei o carro branco, sem janelas, parado.Aquele carro era a verda- deira assombração do morro. Não tinha lobi- somem, vampiro, alma penada… Aquele era o terror. Quem entrava, nunca mais era visto. - Fica quieto, rapaz! Fazer barulho é pior. - Segura sua mulher aí, se não vai sobrar pra todo mundo. Tamo tentando ser legal. Ouvi choros desesperados. Passei por baixo da janela e me escondi no outro canto, bus- cando uma visão melhor do acontecimento. Tive de ficar mais afastada para fugir da luz que vinha da rua. Eram cinco homens arma- dos. Um deles segurava o filho de Dona Zizi- nha pelo pescoço com um braço e com a ou- tra mão apontava a arma para a cabeça dele. Os outros quatro apontavam para a família parada na porta de casa. - Mamãe, que barulho é esse? Meu filho mais velho ameaçou levantar. Fiz sinal de silêncio e gritei baixinho. - Fica aí. Não se mexe. Ele voltou a se embolar com os irmãos na cama de casal que dividíamos. Voltei a olhar para fora. Um dos homens já não pontava a arma para Dona Zizinha, o mari- O Carro da Linguiça do e as filhas. Circulava pela rua olhando principalmenteparaminhajanela.Meabai- xei. Ouvi meu filho prendendo o choro. Outro já se mexia. Fiz novo sinal de silên- cio. O barulho de choro aumentou na rua e pude ouvir Dona Zizinha gritando. Le- vantei só até a altura necessária e vi o ho- mem que segurava o filho dela ainda em- punhando a arma e arrastando o rapaz na direção do carro. Abaixei de novo e engatinhei até a cama. Me abracei com as crianças, ouvindo o desespero da família vizinha. Ouvimos o carro indo.Ainda por algum tempo, choros e lamentos pela rua. Alvinho nunca mais foi visto. Concurso público Por Francisco Bragança Quero ser funcionário da poesia só a poesia faz sentido e sem cerimônia o desfaz a poesia é uma prova só a faz quem sabe ser audaz Quero ser funcionário da poesia na poesia se inscreve e passa por um processo de seleção não há aprovados ou reprovados há os que libertam as palavras da prisão do coração Quero ser funcionário da poesia a poesia tem emprego também tem cheiro, som e cor quem escreve poesia não se aposenta nem da alegria e nem da dor Quero ser funcionário da poesia nela sento praça, nela estou lotado a poesia enriquece a calma quem se faz da poesia carimba e assina com a própria alma
  8. 8. Pag 8REBOCO CAÍDO #28 Por Panda Reis O tema riqueza nunca teve o termo que realmente merecia ter, pois poucos param para pensar sobre a riqueza das pessoas, das famílias e até de Estados. Na verdade, as pessoas não se importam com a origem do dinheiro dos grandes capitalistas do mundo atual, mesmo que os membros das atuais elites tenham na origem de seu capital maneiras exploratórias antes mesmo deles virem ao mundo. Poderosos políticos que defendem leis cada vez mais austeras, que tendem a conter a dita crise financeira que assola o mundo, grandes empresários de empresas gigantescas detentoras de uma quantidade de mão de obra que faria qualquer senhor de engenho morrer de inveja, detentores de mais valia absurda- mente cruel e funcional para suas empresas, dona de ideologias tão bem elaboradas que faz um assalariado entregar outro assalaria- do em troca de benefícios monetários ou de influência, privilégios (acho que já vi is- so no século XVIII, onde pares caçavam pares...), banqueiros dominantes de um mo- nopólio financeiramente agiota, aonde controlam linhas de créditos que de tão inseridas na temporalidade capitalista atual, fazem o povo não notar os lucros astro- nômicos mesmo em tempo em que a crise afeta outros ramos. A riqueza, seja ela em metal ou papel, em semente ou carne, seja agrícola ou terra, sempre seduziu as pessoas que controlam e os controlados. Ela consegue moldar go- vernos, transformar ideologias e passear por sistemas diversos desde antes mesmo do mercantilismo e das grande navegações. A concepção psicológica de riqueza veio junto com a idéia de sedentarismo, junto com a revolução agrícola e o sedentarismo sapiens, quando nossos antepassados re- solveram cercar os animais, resolveram cercar o vilarejo, combater quem não fosse desse espaço físico tão irreal como a própria percepção de mundo que se tinha, quando eles resolveram anexar as “riquezas” do vi- larejo vizinho, ai nasce não só a noção de riqueza, como a noção de acúmulo (antes mesmo do acúmulo primitivo de capital), nesse momento a corrida humana pelo bélico, defesa e ataque surgem aliadas a um pensamento tão ganancioso como os atuais. Mais maneiras de repressão para mais coersão e mais acumulo de riqueza. Porém, essa riqueza não é temporal.Arique- za que se passou de geração para geração, que transformou famílias em verdadeiros “impérios”, vem de um momento mais atual, principalmente depois da invasão dasAmé- ricas, do continenteAfricano e da Ásia, mo- mento em que europeus se jogaram com tanta sede gananciosa, que modificaram as ideologias e criaram conceitos baseados em uma ciência racista e ideológica e costumes culturais tão elitistas e segregadores como tudo que surgiu das mão européias.Ainva- são de terras que tinham donos e que foram meticulosamente exterminados pela espada ou pela pólvora, por doenças ou ideologias e teologias, tão nocivas como um tiro de canhão... Poceiros expulsos ou mortos, avanço de fronteiras, monopólios de trafico de pessoas, exploração da mão de obra es- crava de seus descendentes, manutenção monopólica de sistemas financeiros e po- líticos... isso gera riqueza e mantém a riqueza nas mãos de poucos, nas mãos de descen- dentes dos que desde o início acumularam o que foi tomado de outros e justificado, legitimado pela força da espada, pólvora, do absolutismo e constituições liberais. A origem da riqueza do mundo é suja, violenta e desumana, porém a manutenção dessa riqueza pelos descendentes continua ainda mais suja de sangue e de contradições que só uma espécie acumuladora como a AREVOLUÇÃOACUMULATIVA (HUMANA)
  9. 9. Pag 9 REBOCO CAÍDO #28 nossa é capaz de aceitar e achar normal. A origem da riqueza e dos ricos sempre foi de roubos, explorações e assas- sinatos. Descascados Por Wilda Garden Morte marte mente sorte quem pode te desvendar do alto de tua corte de acéfalos a delirar Santos certos sinto tanto um século e um manto de sombra e nuvem a ocultar cai quem quer mal me quer bem me quer Intolerância y fascismo Preconceito y dor Ignorantes racistas Destruindo o amor Intolerância! Homofóbicos malditos Assassinando o amor Sua intolerância maldita Nem uma mais Por Doomn Nem uma mais, deve sofrer Nem uma mais, tem que chorar Nem uma mais, se submeter Nem uma mais, tem que sangrar Nem uma mais, medo deve ter Nem uma mais, deve se rebaixar Nem uma mais, deve temer Nem uma mais, deve morrer Intolerância Por Doomn Está só causando… … sofrimento y dor Meu corpo está fraco e a mente febril. Chego em casa e busco um canto para chorar. Não há cantos! Minhas lágrimas esperam sua chance de li- berdade. Meu corpo de inexistir em sua totalidade. Não há cantos! A agonia corre densa e transpassa o meu ros- to. Dizem que pareço febril e tento sorrir. Não há cantos! Com a mão frouxa tateio meu caderno. Rabisco em sua mente meus desgostos e fo- bias. Aqui há cantos, penso eu. Todos os cantos! Ocadeadodador Por Solano Gualda Tan solo parecías un combatiente desnudo saltando sobre arrecifes de sombras Yo desde mi puesto de observación en la llanura te veía esgrimir tus armas y violento hundirte en mí Abría los ojos y todavía estabas como herrero martillando el yunque de la chispa hasta que mi sexo explotó como granada y nos morimos los dos entre charneles de luna. Anoche Por Gioconda Belli
  10. 10. REBOCO CAÍDO #28 Pag 10 Por Fabio da Silva Barbosa Estava cobrindo a luta de uma ocupação urbana para meu jornal. Em uma das visi- tas estavam uns ditos revolucionários que marcaram uma festinha no lugar para afir- mar seu apoio. Levaram comidas e bebi- das, arrumaram a mesa no meio do pátio e começaram a discursar.Algumas famílias que habitavam o lugar ficaram olhando aquele falatório que nada lhes dizia. Uma língua esquisita, difícil de entender. - ndhccjd mxjsks mkxjsksks… O único banheiro existente ficava nesse pequeno pátio e as pessoas tinham de pas- sar constrangidas no meio daquele monte de gente estranha. Baratas voadoras cor- tavam o espaço com suas asas barulhen- tas. - nhcchjxnmj ncbchd cjdko… Um de cada vez, cada representante de ca- da facção revolucionária, se apresentava discursando longamente sobre cientificis- mo político, ideologias europeias de sécu- los atrás… e por aí tagarelavam enquanto os moradores do velho casarão tentavam usar o banheiro, dormir, ou simplesmente esperavam aquilo acabar para começarem logo a comer. As baratas continuavam voando por toda parte. Bati algumas fotos e torci para aquele discurso, que já conhe- cia de longa data, acabasse logo para con- versar com os moradores. - nchetywetwu miodsopwk kkidookmk kdkdoow… Como aquele discurso acadêmico estava longe da realidade daquelas pessoas. Constrangedor. Os caras pensavam em conduzir as massas, mas nem ao menos en- tendiam suas necessidades ou falavam de um jeito que pudessem entender. Seres de outro planeta. E aquilo não acabava nunca. O de- sejo de arrebanhar era enorme. Quanto mais demorava, mais vergonhoso era. - jjsikld,op oieyetwsnkj…. Depois da própria eternidade se passar, em algum momento a coisa acabou. A essa altu- ra já estava entretido com algumas conver- sas paralelas. Depois de comermos, beber- mos e assistirmos os tais revolucionários ten- tando interagir com a população local, eles começaram a se movimentar para irem embo- ra. Um deles me chamou. - Vou ficar mais um pouco. - Respondi - Como assim? –Arregalou os olhos com es- panto. – Vamos todos embora. - Ficarei mais um pouco. – Insisti. Foram embora incrédulos. Desse momento em diante a conversa correu solta e moradores que ainda não tinham chegado perto come- çaram a se aproximar. Entre eles, uma senho- ra que conheci dias antes veio me cumpri- mentar. Como já tinha acabado os comes e bebes, comuniquei que havia rolado uma co- midinha e perguntei o motivo de não ter vin- do antes. Ela chegou bem pertinho e falou em tom de segredo que tinha um pessoal de igreja falando e ela não gosta desse negócio. Achei graça daquelas palavras e rimos jun- tos. Aquela senhora chegou bem perto da verdade. Até hoje, quando mostro as fotos para alguém, brinco de descobrir quem são os revolucionários e quem são os moradores da ocupação. Não tem quem erre. Definitiva- mente, seres de outro planeta. Os revolucionários e o povo
  11. 11. Batalhões de estranhos Por Fabio da Silva Barbosa caminhando pelas ruas escuras sem destino mão ou contra apenas ruas vazias onde as pessoas estão trancadas em suas casas submersas no medo de viver morrendo em frente a tv cruzo apenas com os sem destino os que não têm medo da vida ou da morte os que não têm nada a perder desertos pavimentados de solidão e mais nada estão mantendo viva a solidão e apatia enquanto vamos juntando nossos pedaços e formando nossos batalhões de estranhos Sem querer Por Fabio da Silva Barbosa não vou ser educado nem usar palavras bonitas ser guru de idiota ou contar anedota quem precisa de aplausos é bom dar no pé não curto narciso maria ou josé não me cobre o que digo não sou um exemplo sigo meu caminho não tenho medo da contradição meu irmão palavrão não quero ser super-homem ou ter supervisão mudo de opinião e daí? não tenho de dar satisfação não vivo de ilusão não quero estar certo estou sempre por perto ou longe do que não me serve agora aqui ali assim assado para com isso não faço parte de panela sigo seguindo com o sangue bom meu irmão minha irmã tamo junto também nessa luta sem disputa o caminho se cruza pra depois seguir em frente sem medo das encruzilhadas do coração sem razão então tá bom jogos de poder não quero me integrar ou vencer quero mudar quero aprender tem gente querendo aparecer mas não consegue resistir a corrupção eu não tô fora correndo com a mente sempre em frente diferente aguardente delinquente dor de dente vivendo entre serpentes

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