Reboco caído nº20 versão digital

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Reboco caído nº20 versão digital

  1. 1. o z di m é ue e Q qu a l ? rm no se o em e a u Q sum al? re an b 20 em Q u e essa õ imp o r a l ? m
  2. 2. REBOCO CAÍDO Pag 1 Editorial Amoras Por Edu Planchêz Estou num momento da minha vida desregrada e sem rumo em que a luta pela sobrevivência consome a disposição e que tudo está difícil... Tudo tem de transpor obstáculos mil. Ainda vem a falta de tempo, de grana... Mas não é a primeira vez que essa porra de sociedade me espreme com suas normas, exigências e nojeiras mil. Nem por isso parei ou vou parar. Nada é motivo para desistir. Daí nasce esse novo Reboco. O número 20 e último de 2013. Contamos com capa de Henry Jaepelt e pôster, nas páginas centrais, de Maria Jaepelt. Ilustrações de Solano Gualda espalhadas entre os escritos. Ofereço este número a memória de Cecília Fidelli e Lou Reed (Nunca esquecendo as vítimas de guerras e da desigualdade social). Todos devem arranjar mais tempo para sonhar, para adorar as flores, para sentar na calçada sem qualquer preocupação, saboreando amoras bem maduras… Por Thina Curtis POR MEDO DEIXAMOS A VIDA PASSAR NUA SEM TURBILHÕES E MAREMOTOS PARA ENCARARMOS COM MEDO, ROTINA E MESMICES TOLAS Na internet: b Re oc #20 o id Ca o Para contatos e números anteriores: caixa postal: 21819, Porto Alegre, RS, cep.: 90050-970 NA / ITA om c R /A er. itt e.net r tw r m.b w. esha .co o ww .slid aho w @y ww 1975 fsb www.rewww.rebococaido.tumblr.com/ bococaid ozine.blo gspot.co m.br/ Moral e cívica II Por Alex Polari (preso e torturado duran- horas antes, o cara que me tinha dependurado te a ditadura brasileira) no pau-de-arara Eu me lembro injetado éter no meu saco usava calças curtas e ia ver as paradas me enchido de porrada radiante de alegria. e rodado prazeirosamente Depois o tempo passou a manivela do choque eu caí em maio tava lá – o filho da puta mas em setembro tava por aí segurando uma bandeira por esses quartéis e um monte de crianças, onde sempre havia solenidades cívicas emocionado feito o diabo e o cara que me tinha torturado com o hino nacional.
  3. 3. REBOCO CAÍDO #20 Categoricamente Por Elke Gibson Inexorável. Reta. Infalível. Rasga o ar empurrando as partículas de matéria que inadvertidamente estão no seu caminho. Um rastro imperceptível de pólvora deixa para trás. O estampido seco que anunciou sua saída ainda ecoa, mesmo depois de perfurada a carne de areia. Ainda é quente o túnel prateado e estreito de onde rompeu, cega, a procura de seu alvo. Mas não tão quente quanto o que escorre, vivo, embolado, caudaloso, do orifício minúsculo por onde só passaria um filete. Do alto de toda verdade, o gigante despenca. A sarjeta áspera e rugosa é seu amparo. Inebriante oceano carmim, que se espalha e avoluma, inevitavelmente. Destemido Golias. Abatido pelo cajado da intolerância em forma de minúsculo e categórico compacto de chumbo. E se vai por terra o que antes parecia tão sólido, tão duradouro. E suas pernas não caminham, e suas mãos não gesticulam, e seus olhos, petrificados, não choram. Nem seu coração insiste em bater. Definitivo. Sem razão – Mundo insano Por Fabio da Silva Barbosa Repressão Não razão Agressão Não razão Alienação Não razão Sangue coagulado Grades a cercar Gritos pela noite Querem nos agarrar Opressão Não razão Violação Não razão Pag 2 Regressão Não razão Pânico orquestrado Canos a disparar Facas afiadas Querem nos parar Repressão Não razão Opressão Não razão Agressão Não razão Apenas meu eu Por Gustavo Ândrei Procuro a visão de um todo Num todo, foco o incontido O vazio preenche um cheio Num cheio o intangível Tudo fica solto. Fora de tudo meu realismo Romance: meus olhos deslizam Versos, rimas. Em tudo um fictício Lembro o tempo O tempo passa e nem repara Meus olhos embaraçados Foge a lembrança Guardada na alma na noite fonte: www.cancropolis.blogspot.com.br papo vai papo vem: "você tem feici?" não, não tenho a porra de feici não "qual é seu signo?" não, não tenho menor interesse em astrologia não "nossa! como você é chato!!" sim, isso pode ser sim
  4. 4. REBOCO CAÍDO #20 Pag 3 Merda Por Fabio da Silva Barbosa Para quem curte uma barulheira daquelas, a banda Merda é a dica certa. Embora digam que nasceram na Terra, há quem jure que são uma forma de vida alienígena ou algo ainda não identificado. Por mim, tanto faz. Desde que continuem infernizando os ouvidos mais sensíveis, já está de bom tamanho. O myspace dos caras é https:// myspace.com/merdarock. Então é só clicar lá e mergulhar na Merda. Que Merda é essa? Alex Vieira: Conjunto de Música Folclórica Jovem Merda Japa: Uma banda de rock satânico. O nome teria alguma referência ao atual estado de um mundo sitiado pelas sociedades humanas? Alex Vieira: Merda é merda! Japa: Sim, o mundo é uma grande merda. Queria saber um pouco sobre outros projetos e bandas dos integrantes. Alex Vieira: Além do Merda, edito a Revista Prego, toco no Morto Pela Escola e participo de outros projetos na área de artes visuais (quadrinhos, ilustração, pintura, video...). Japa: Mozine toca no Mukeka di Rato, Os Pedreros e faz shows de stand up falidos; Alex toca no Morto Pela Escola e faz a Revista Prego; Eu (Japa), no momento, toco num monte de bandas, mas não toco em nenhuma. Um som eterno: Alex Vieira: Histeria: Cólera Japa: Despertador. Um som recente que merece destaque: Alex Vieira: Pedra portuguesa na sua cabeça - Os Estudantes Japa: Os novos sons do Human Trash são foda. http://humantrash.bandcamp.com/ album/novo-single-pr-lan-amento-do-lbum-addicted-to-trash-do-human-trash O futuro planetário: Alex Vieira: Guerras por conta de água e recursos naturais, tipo Mad Max; Ditaduras das piores possíveis; Controle total sobre a internet e meios de comunicação; Japa: No future. Um espaço para gritar a vontade: Alex Vieira: Ah! pra puta que pariu! Japa: Ahhhhhhhhh !!!
  5. 5. REBOCO CAÍDO #20 Programa Por Tom Tosco de tv: Blábláblá (risadas gravadas) Blábláblá (aplausos combinados)Blábláblá Boa noite de rádio: Blábláblá O novo sucesso Blábláblá Levanta a mãozinha Blábláblá político: Blábláblá Eu prometoBlábláblá Eu farei Blábláblá No meu governo Blábláblá Conto com você religioso: Blábláblá Aleluia Blábláblá Porque Jesus Blábláblá nossa conta é De lírios Por Alexandre Pedro Em teu jardim de lírios vejo coisas e tenho medo de que as coisas em delírios, me vejam. Pag 4 Registros desiguais Por Fabio da Silva Barbosa a cabeça pelo mundo os olhos registrar as pessoas a chorar as pessoas a andar as pessoas a sofrer as pessoas a viver a minoria velejando pelo mundo desigual enquanto pra uns é pauleira para outros carnaval sofrimento sem limites alegria banal é bebida de granfino é cerveja e cachaça é bolacha no café é bolacha na carcaça enquanto muitos vertem lágrimas alguns acham graça Carros Por Fabio da Silva Barbosa Carros, Carros, Carros Motos, Motos, Motos Ônibus, Ônibus, Ônibus Por onde quer que olhe só carros a passar O sinal diz que posso passar Mas onde quer que olhe, só carros a passar Sigo apressado entre carros, caminhões e autofalantes Atinjo o outro lado para só carros passar Carros, Carros, Carros Motos, Motos, Motos Ônibus, Ônibus, Ônibus Por onde quer que olhe só carros a passar Não quero mais Por Fabio da Silva Barbosa Não quero ser engrenagem do seu sistema pois não vejo nada que valha a pena Como pode mente tão pequena Não quero fazer parte do problema Cerveja quente tá mais barato Me amarro no meu gato Prefiro sem comida no prato que ficar doente ao seu lado Prefiro ir ao teatro que um televisor bem barato Nem quero fazer parte do sistema Não quero cumprir essa pena
  6. 6. Pag 5 REBOCO CAÍDO #20 REBOCO CAÍDO #20 Pag 6
  7. 7. REBOCO CAÍDO #20 Pag 7 A Rússia de ontem e de hoje Por: Panda Reis - pandadrums@hotmail.com Falar da Rússia sempre foi missão, no mínimo, dualista. Passando pelo início Imperial, no século XIV, quando derrotam os Tártaros, indo à tirania Czariana, à revolução “popular” de 1917, à Guerra Civil Russa... Rebeliões em Julho de 1918, a formação da União Soviética, sua decadência inicial com a Perestroika... Temos a Federação Russa, momento histórico com a figura central Boris Yeltsin, a queda do Muro e o fim da URSS. Então surge Vladimir Putin, ainda no distante ano de 1999. Nesse período histórico tivemos momentos de tirania extrema, tirania disfarçada e ditadura e censura extrema... Porém, é em pleno século XXI que a população russa questiona, sai as ruas e que, para os olhos do mundo, caminhava para se achar no meio de tantos séculos de tentativas de comunismo, capitalismo ... tentativa de se tornarem não uma nação ocidental democraticamente neo-liberal, mas a tentativa de se tornar a primeira nação realmente comunal... mas é decepcionante perceber que, desde o começo, as tentativas voltam para, se não o mesmo, um novo modelo de controle do povo e das ideias desse povo. A liberdade não chegou com a queda do Império Russo, nem com a queda da Monarquia do Czar e muito menos ainda com a revolução de 1917 que depois se mostrou um golpe a liberdade e uma traição Bolchevite aos demais revolucionários do País e até estrangeiros que lutaram juntos por uma utopia que parecia ter se tornado real, mas que se mostrou tão maléfica ou pior nas mãos de Stalin. A liberdade não chegou com a queda do muro, com a “dita abertura russa” e muito menos com um novo líder (14 anos no poder não me parecem nada diferente das demais ditaduras que o país já teve e de países da mesma região), muito pelo contrário, pois, nesse novo século, as notícias vindas do Leste não são nada animadoras para quem luta pela liberdade. Basta lembrarmos o caso das garotas da banda Pussy Riot, que fizeram uma “oração punk” contra Putin e foram sumariamente condenadas a prisão (e vocês sabem como são as prisões na Rússia), sem levar em consideração o direito universal de se expressar. Não bastasse esse caso que teve mais repercussão (dezenas de outros parecidos acontecem e não ficamos sabendo), seria interessante falar das atuais tensões étnicas entre imigrantes e russos. O clima racial na Rússia está cada vez pior. A tensão ente a minoria étnica e a maioria russa chegou ao seu ápice com o confronto da população que “caçava” um imigrante cáucaso acusado de assassinar um jovem russo. Isso foi o estopim para que o ódio racial existente na Rússia se fizesse presente com declarações extremamente racistas como “temos medo de sair à rua com as crianças...” e a repressão policial das festividades tradicionais da população muçulmana e policiamento nas mesquitas. Não bastasse a ignorância das ruas, vemos maior ignorância e intolerância étnica entre os deputados que defendem enrijecer as políticas migratórias que o governo de Putin já vinha realizando, assim como reduzir o número de trabalhadores estrangeiros em favor dos russos. O racismo e xenofobia vem não só do governo, como da Igreja oficial do País, a Igreja Ortodoxa Russa, onde declararam que a situação migratória no País é “insustentável”, chegando a chamar de “esgotos clandestinos”. O lema “Rússia para os russos” deixa claro que qualquer tentativa de coexistência por lá é praticamente impossível. Não bastasse tamanho absurdo, acontecem ainda as chamadas “passeatas russas” que contam com a permissão das autoridades governamentais e são realizadas, já de maneira tradicional, no Dia da Unidade
  8. 8. REBOCO CAÍDO #20 Pag 8 AO PATRÃO, COM CARINHO Por: Alexandre Mendes Como vai, velho canalha! Por muitos anos, dia após dia, enchi teu bolso de alegria na minha carteira, quase nada suor pingando; garganta seca trabalhei duro; sol escaldante e você lá no restaurante, tacinha de uísque sobre a mesa Como vai, velho safado! Por muitos dias, ano após ano, me usou bastante e deu o cano Lamentei desamparado mão com bolha a calejar, pé descalço e rachado e você lá no Corcovado com sua prole a passear Como vai, seu velho fútil! Depois de anos e alguns dias me sugando as energias transformou-me em um inútil quando pensei em parar, vi que não contribuía, negada aposentadoria continuou a me explorar Como vai, velho imundo! Vai como, velho picareta! Espero um dia te encontrar sentado no colo em brasas do capeta! Sujeito oculto Por Cleber Araújo Pelas ruas caminhava Sem sequer ser percebido O seu nome não importava Muito menos seu destino. Suas forças se esgotavam No trabalho conseguido Os seus sonhos se frustravam No seu tempo consumido. Conformado se calava Não vivia deprimido Pois a sorte indesejada Deus lhe havia concedido. do Povo. Seu lema e exigência principal é expulsão de todos os imigrantes “ilegais” do país. Não parando no quesito étnico e racial, na Rússia existem leis que proíbem os homossexuais de se manifestarem em público. Alguns foram presos no final de Outubro (2013) por protestarem, abrirem cartazes e se manifestarem por seus direitos em frente aos edifícios do parlamento e da prefeitura. Não bastasse a repressão Policial, eles sofreram agressões de grupos de extrema direita. O lugar que encheu o mundo de esperanças em 1917 com o que o Mundo imaginou ser a Revolução do Povo, mas que depois se mostrou apenas mais um golpe elitista, definha com repressão aos direitos que são lógicos e mostra que a população é tão reacionária, preconceituosa e racista como quem os dirige. Uma pesquisa feita esse ano no país registra a homofobia, pois apenas 1% dos russos sente respeito pelos homossexuais, enquanto 66% (71% dos homens e 61% das mulheres) sentem repulsa em relação aos homossexuais homens e 60% para com as lésbicas. Acho que a Revolução Russa não conseguiu acabar com a ignorância maior existente no capitalismo... ...nem deu a liberdade desejada.
  9. 9. REBOCO CAÍDO #20 Pag 9 da osa abio arb or F P aB Silv Em 1995 nascia o Negative Control - São Bernardo do Campo (SP). Tocando um hardcore de primeira, estão em estúdio gravando o terceiro cd. Troquei uma ideia com Cláudia (vocal) sobre as manifestações ocorridas durante o ano no Brasil e sobre a banda. Passo a bola então para essa guerreira despejar sua opinião e seu trabalho. Em uma época em que o ativismo está intenso pelo país, como o Negative Control vê os últimos levantes? Somos uma banda com 18 anos de estrada e nosso enfoque sempre foi a música de protesto. Ficamos muito satisfeitos por ver nosso país se manifestando, mas gostaríamos que estas manifestações se estendessem às urnas, pois só assim vamos conseguir fazer a revolução de verdade. Enquanto estas mesmas pessoas nos governarem, continuaremos nesta mesma situação. Fazer a mesma coisa e esperar resultado diferente é sinal de insanidade! A participação punk, anarquista... underground de uma maneira geral, tem se feito notar. Como as bandas têm participado desse processo de construção? Acreditamos que as bandas, com suas letras, influenciam muito. Mas estas letras devem ser acompanhadas de atitude. Como já diziam por ai, não pode haver distância entre o que você diz e o que você faz! Como as letras do Negative Control transitam pelo cotidiano, tudo isso deve se refletir de alguma forma no som da banda. Com certeza influencia. Nosso novo disco, que ainda esta em andamento e criação, tem músicas falando, por exemplo, sobre o preço do progresso, sobre a violência, sobre caráter de pessoas falsas, também da realização de andar lado a lado com quem é verdadeiro, em fim, escrevemos sobre o que vivemos e o que vemos ao nosso redor! E os shows, como estão? Os shows estão cada vez melhores. Sentimos que as pessoas estão entendendo nossa mensagem. Só agora, próximo do final do ano, que estamos na criação do 3º CD, paramos um pouco para focar mais nesse novo trabalho. O que está por vir? Estamos terminando a pré-produção do nosso novo álbum, ainda sem nome definido, mas com lançamento previsto para o 1º bimestre de 2014. Estamos acabando de fechar o repertório que deve contar com mais ou menos 14 faixas e estudando algumas opções de produtores. Pretendemos gravar este novo disco “no rolo”, como era feito antigamente, de forma mais analógica possível, e também pretendemos lançar este álbum nos formatos LP e Cassete, além do CD! É um trabalho composto com muito cuidado e paixão. Estamos ansiosos para apresentar a vocês! Nos shows já tocamos algumas músicas. Apareçam e confiram!!!
  10. 10. REBOCO CAÍDO #20 Pag 10 Ludi Um Por Fabio da Silva Barbosa Fazendo um som inconfundível e libertador, Ludi é figura presente em coletivos, manifestações e atividades culturais. Conheci seu trabalho quando morávamos em Niterói, Rio de Janeiro. Hoje já não estamos na mesma cidade. Saímos em busca de novos projetos e ideias, mas continuamos o contato e acompanhando o trabalho um do outro. Por essa e por outras trago esse cara até essas páginas. É isso aí. Falaí, mano Como você definiria sua música? Como Música Barraco. A Música Barraco é a mistura de todas as influências visuais, olfativas, sonoras, é tudo que está ao meu redor. Sem amarras, sem nada préestabelecido. É música divergente. A música como instrumento de modificação social e pessoal: Adoraria que toda a música produzida no mundo carregasse como objetivo principal este ideal, pois a música pode sim e deveria mudar as pessoas e seu entorno. Mas enquanto estivermos pensando em música apenas como entretenimento e até mesmo como produto, não modificaremos socialmente e pessoalmente ninguém. Este poder da música se esvai quando o nosso objetivo é apenas o mercado. Por isso faço Música Divergente. Falando nisso, em mudanças e tal, como você vê os últimos acontecimentos relacionados aos movimentos sociais? Vejo como um Grito de Liberdade, de uma vontade gigantesca de dar resposta a esta política canhestra, vil e elitista que não se preocupa com a sociedade e quer apenas saciar a volúpia de poder e status quo. A sociedade não aguenta mais ficar calada, vendo seus filhos recebendo uma péssima educação, tentando uma saúde caótica e uma política de segurança pública de pé na porta, de capitãs do mato, de assassinato de negros e pobres a sangue frio e às dúzias. A rua grita e isto vai mudar muita coisa daqui pra frente. Estamos, aos poucos, deixando de ser este povo bovino. Falando mais especificamente do Rio de Janeiro, o Governador e a polícia vem se mostrando brutalmente autoritários e mesmo assim o pessoal continua indo pra rua e exigindo seus direitos. Embora sempre tenha existido aquela galera que estava na luta, o número de pessoas que saíram da inércia é expressivo. A que se deve essa mudança de comportamento e quais devem ser, em sua opinião, os próximos passos da galera? Se deve ao fato de chegarmos ao limite, sabe, de dar uma resposta a altura de anos de uma plutocracia transvestida de democracia. Não aguentamos mais a mentira, a manipulação e os ricos ficando mais ricos e os pobres alimentando com sangue, suor e lágrima as benesses do andar de cima. O próximo passo é movimentos artísticos e sociais estarem juntos e se articulando e preparando quem não tem acesso a informação e a formação para que possamos fazer uma mudança na base e darmos uma resposta a altura aos políticos nas próximas eleições, pra eles verem que o tempo do saquinho de leite e de cimento vai acabar e que é necessário discutir com a sociedade estando ela em condomínios de luxo ou em barraco de zinco. E Niterói? Como as coisas vêm acontecendo pela cidade? Bem, não sou mais morador de Niterói. Apenas mantenho o laço com a cidade através do coletivo que participo, o Coletivo Solto, e dos amigos que fiz lá. Olhando por esta perspectiva as coisas não vão bem, as pequenas casas de shows estão fechando, os espaços para as bandas de médio porte são inexistentes. Deveriam ter mais
  11. 11. incentivos e festivais para a música independente. Existem várias bandas, vários artistas, a cidade fervilha culturalmente, mas vive a síndrome de ser apenas a vizinha da Cidade Maravilhosa. É mais fácil ver um niteroiense tocando e/ou curtindo um show aqui no Rio do que lá. A cidade foi transformada em um grande polo gastronômico, ou você come ou você bebe. E o Ludi? Como anda seu trabalho? Vai vir algum projeto novo por aí? Vou bem, vivendo um momento único, não só como músico, como agente cultural, como artista visual, mas também exercendo minha posição divergente. No momento estou gravando o “MelancólicoSamba”, um disco feito com carinho, cuidado, amor de todos envolvidos e principalmente pelo meu grande irmão Felipe Castro, que além de produtor é também baixista do Ludi Um e Os Únicos e articulamos este coletivo de produção sonora e iniciativas musicais, que é o Coletivo Solto, juntos com o Dj Mohamed Malok, Tata Ogan, Nuquepi e Lanzé. E ainda tem o Ocupa Lapa que é um coletivo artístico de pensamento, ação e reflexão. E projetos é que não faltam. Em breve estaremos anunciando. Agradeço a oportunidade de conceder esta entrevista e dizer que sempre estarei pronto para atender a mídia que realmente vale a pena, como este zine. Mídia Livre sempre!!! Poema de 22 de março Por Alex Polari - preso torturado na ditadura brasileira - Para Gerson e Maurício Ele caiu no asfalto não pode reagir faltou o pente sobressalente faltou a cobertura faltou a sorte faltou o ar. Ele foi levado ainda com vida dentro de um porta-malas a camisa rasgada a calça Lee suja de sangue. Era preciso avisar Teresa era preciso fingir serenidade no espelho era preciso comer rápido o sanduíche de queijo era preciso cobrir os pontos era preciso esvaziar o aparelho era necessário escravizar o medo e domesticar o ódio Quando cheguei em casa era noite vi as portas abertas as lâmpadas acesas as mariposas alertas as certezas cobertas de poeira a chave na janela os cartazes que nos punham a cabeça à prêmio e a chuva que caía no telhado como os passos de pássaros esparsos E saí por aí, sozinho, com as mãos nos bolsos pensando no impasse da luta nas cidades pensando no isolamento político pensando na nossa situação e no nosso despreparo, me dividindo entre o esforço de analisar as coisas com frieza e a ânsia de encher de tiros o primeiro camburão que passasse. Adiei as reflexões maiores adiei as conclusões mais penosas visto que o cerco se fechava em meu redor e um bom guerrilheiro respeita sua própria paranóia por uma questão de sobrevivência, por uma questão de instinto.

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