Reboco caído nº15 versão digital

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Reboco caído nº15 versão digital

  1. 1. REBOCO CAÍDO#15
  2. 2. Pag 1 REBOCO CAÍDO #15 Editorial Come, e à vida em geral declara guerra,E lá vem o Reboco de novo. Sempre no intuitode não se tornar uma confortável bolha de Anda a espreitar meus olhos para roê-los,pensamentos iguais, onde podemos ter a E há de deixar-me apenas os cabelos,impressão de que o mundo está do jeito que Na frialdade inorgânica da terra!a gente quer por estarem todos dizendo a Os Aliensmesma coisa. Dando espaço para o contraste Por Charles Bukowskie a contradição, o sólido e o líquido,provocando o encontro entre os opostos talvez você não acreditepara que haja o debate e a reflexão. Nada de mas há pessoasficar sempre na mesma coisa para ouvir os que passam a vida“é isso mesmo”. Quem procura guia é sem o menorporque não vê e o pior cego... Vocês sabem atrito ouqual é. É o que se recusa a ver com os agoniapróprios olhos. eles se vestem bem, comem Contatos com o Reboco: bem, dormem bem estão satisfeitos com a vidafsb1975@yahoo.com.br em família. eles têm momentos dewww.slideshare.net/ARITANA melancolia mas no geralwww.twitter.com/RebocoCaido não são incomodados e, frequentemente,www.facebook.com/RebocoCaido sentem-se muito bem quando morrem Este número dedico a memória de é uma morte fácil, geralmente, Chumbinho e Dedé. Grandes dormem. guerreiros que se foram. talvez você não acredite porém essas pessoas existem. Psicologia de um vencido mas eu não souPor Augusto dos Anjos uma delas ah não, eu não souEu, filho do carbono e do amoníaco, uma delasMonstro de escuridão e rutilância, eu nem chego pertoSofro, desde a epigênese da infância, de serA influência má dos signos do zodíaco. uma delasProfundissimamente hipocondríaco, mas elas estãoEste ambiente me causa repugnância... láSobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia e eu estouQue se escapa da boca de um cardíaco. cá!Já o verme — este operário das ruínas —Que o sangue podre das carnificinas
  3. 3. REBOCO CAÍDO #15 Pag 2 Tal qual corda bambaPor Diego EL Khouri deixados de ladoeu atravesso oceanos minoria nojentana calda de ninguém fede e trituramamute que destroça cimento qualquer pensamentonos dentes de marfim no ouro de alguém de libertaçãoeles são fuzisfezes ah madrugadasangue coalhado de criancinhas famintas dos sonhos impossíveisacolhidas pelo crack trouxeste a quimera que pedi?lembro muito bem quero sexo em ventre e almaaquele inverno de 2004 a tentação me veja como alvoporres incompletos, beijos frívolosRimbaud sobre a mesa e me beije a face mil olhose paredes de vulcão, tempestade, estrelasmuitas paredes é tudo a mesma coisase fechavam cada dia mais o mesmo cheiropela masturbação proferida a tinaquelas madrugadas pelos, entranhasde torcicolo brutal língua na línguaeu agarrando estrelas descobrir teu corponuma minúscula cama suja de sêmen e bílis alimentar tua sinatal qual corda bambacometas em festa comum ó madrugada linda que clareia meus olhosah madrugada!! és amor e paixãoo que poderia dar a ti misturadas com fogo e pelese de mim roubaste tudo?lamentaste a sina bandida nos marcaram como gadoque és trataram de espalhar nossas dívidaslevaste tudo embora nos apunhalaram pelas costasinclusive meus crimes e rasgaram nosso tratadoe as dívidas de mercado vilmente sem repeito algumpara sucatear meus sonhos a nossa históriaque viraram cicatrizes na barrigae apendicite supurado madrugada insonsa covardesão inconfundíveis as palmas de minha mãoos olhos dessa terra cobrem orelhas esses meninos nos sinais ajoelhado no centro da cidadea implorar migalhas uma chuva torrencialque a sociedade atropela lava meus cabelos e minha almacorpos descartados não há motivos para acreditar
  4. 4. Pag 3 REBOCO CAÍDO #15no pai nem no estado uma criança febril prestes a levar injeção name fala a luz dos semáforos bunda, fui apresentado a um cara, desco-repleta de mentiras e sonhos nhecido, que agora estava ali, batendo um papo com o homem de negócios. Cabelosnão creio em inferno ou pecado compridos, enrolados, algumas tatuagens,a poesia comportada pernas amputadas... a princípio me cumpri-muito menos em gêneros comprados mentou e perguntou meu nome, me disse que ficou sabendo das pinturas que faço eporta voz das portas escancaradas da banda que toco. Isso através do já men-e venenos tóxicos cionado homem, que se mantinha ali... escu-eu desafio as regras lambendo feridas tando a prosa atentamente, como alguémdesconexas que espera um momento de distração prado outro lado da moeda (!!!) dar o bote.(ninguém me ouve ninguém me vê) Nisso, a conversa foi desenrolando. Dizia o cara desconhecido, à respeito de uma dasassim espero. minhas primeiras perguntas, que perdeu as pernas num acidente de trem, e que após ter despertado no hospital, ganho alta e ido pra Senda casa, "já era, nunca mais vai andar, tudo quePor Alexandre Mendes for fazer denpenderá dos outros" foi a pri- meira coisa que ouviu da família. Isso o in-Toma esta enxada! comodou, disse também... mas não o fato deEu não quero! ter perdido as pernas. Achava sim que an-Tome esta vassoura! dar ainda era possível... e a idéia de depen-Eu não quero! der de todos em tudo, repeliu com palavrões,Toma esta bandeja! eternos vão tomar no cú.Eu não quero! Ao dizer isso, o homem de negóciosEu não quero! chacoalhou o rabo... mirei meus olhos noEu não QUEROOOOOOOOO!!!!! céu nublado e rapidamente me concentrei de novo naquilo que ouvia, ou via, não sei, não importa. O barulho do chocalho era Desconhecido ameaça pequena. O cara desconhecido es-Por Ivan Silva tava falando de esperança, palavra que ouvi Quintana dizer debaixo dágua... um soproAinda quando trabalhava como vendedor de vida. Sim.de produtos químicos, levantei cedo e Dizendo esse cara, não tão mais desconhe-cheio de disposição à vida, apesar dos cido (Dilsin como disse se chamar) que, con-olhos depressivos. versa vai conversa vem, era olhos nos olhos,Sem nada me importar com as horas fui em encarando mesmo... explicou demonstrardireção àquilo que me chamava: a conde- sua atenção assim, e continuou, dizendo quenação, o eletrochoque... sempre que falo após toda aquela imposição de pessimismo,algo decorado meu cérebro frita. Enfim, abri à noite fugiu de casa, decidido ir a até a praia.o portão da rotina e caminhei como de E assim foi, entrou na estrada com a cadeiracostume, até encontrar o homem de negó- de rodas, usando a força que tinha nos bra-cios. Ao encontrá-lo, já com a agonia de ços e a vontade pra fazer o caminho. Exaus-
  5. 5. REBOCO CAÍDO #15 Pag 4to, quando chegou a praia, se jogou na areia, havia perdido um parafuso e precisava depercebendo que a dificuldade em andar ali outro, pra colocar na roda de apoio da ca-era maior. deira, levou um não, na cara. Começando aAssim que se recuperou, se moveu até as ver aí o ato de liberdade como mancada,rochas e ali sentou, lançando no mar a vara atitude infeliz.de pesca que tinha levado. Sem entrar em Isso fez com que cada expressão do ho-detalhes, dizer se conseguiu pescar ou não, mem de negócios fosse traduzida no ar.após isso, apenas contou que revoltado, "Aí, viu! Era isso que eu queria dizer, nãotendo refletido sobre os acontecimentos, adianta ser radical demais, em algum mo-sociedade, existência, vida, lançou no mar mento você tem que ser maleável, ou o sis-sua carteira. tema irá te podar de todas as maneiras.""Pra quê essa porra de carteira?! Dinheiro, Mirei outra vez meus olhos no céu nubla-documento... Cansei dessa merda, não faço do e rapidamente me concentrei naquilo queparte de mais nada!"... nessa parte o homem ouvia, ou via, não sei, não importa. O baru-de negócios tateou o ar com a língua, tor- lho do chocalho era ameaça pequena...nando a balançar o chocalho. Dilsin continuou, dizendo que depois doNisso, Dilsin frisou... falando que às vezes não que levou, resolveu ir a delegacia, prafazemos coisas sem pensar, sem medir as tirar novos documentos, assim poderia sa-consequências... e que esse momento, da car dinheiro no banco e comprar uma pas-carteira ao mar, mais tarde, considerou ato sagem de ônibus, pra voltar pra casa. Quan-de liberdade e também mancada. do procurou a delegacia, pegaram seusMas foi no embalo desse ato de liberdade dados e deram dois dias pra que os docu-que pegou sua carteira de cigarro vazia e mentos ficassem prontos. E isso, à base deencheu com areia, na intenção de provar a abuso de poder, preconceito, humilhação.família que conseguiu ir à praia, e assim, foi "Um cara aleijado desse não é humano",rumo à outra cidade, onde aconteceria uma alto e claro, disse que ouviu isso vindo defesta rave- afirmou várias vezes o gosto por um grupo de policiais. O ódio o fez desejarmúsica eletrônica. No meio da festa, sacu- ter pernas ainda, só pra poder dar pelodiu feliz a cadeira, rodeado por mulheres, menos uma porrada bem dada no policialvarando a noite na dança orgíaca, indo em- que disse isso, mesmo que morresse combora apenas pela manhã. Momento em que um tiro. Essa foi a primeira vez que ele sepercebeu a cadeira bamba... uma das rodas, considerou um aleijado... Passado isso, foia pequena da frente que servia de apoio, direto pra casa, encontrando lá sua mãe queestava frouxa. Com ela nessas condições, estava desesperada. Ninguém conseguiaera muito mais puxado, teria que se equili- acreditar no que ele tinha feito, no aconte-brar nas duas rodas... Coisa que o levaria a cido... mas a partir daí ele voltou a mexerexaustão e depressa, gastaria muito tempo com artesanato, que antes do acidente jápra chegar ao próximo destino. era seu trabalho.Pensou no que podia fazer e procurou uma *Nesse texto tem um pouco de uma dasoficina, a única que tinha na cidade, onde o conversas que tive, em 2012. Converseidono era um pastor, de alguma igreja, não uma vez só com esse camarada, o Dilsin,mencionou, ou talvez mencionou e eu te- que na época morava em Minas, se não menha esquecido. Só me lembro que, ao expli- engano, acabou vindo parar na cidade.car a situação, disse o Dilsin, ao ter explica- Depois disso perdi o contato... não sei odo ao pastor que lançou a carteira no mar e que anda fazendo. Imagino que dando for-estava sem documentos, nem dinheiro e ça a outros cadeirantes por aí.
  6. 6. Pag 5 Barata C diminuiu. Muito antes do My Space, criei espaços gratuitos para bandas nesse site. Por F Atualmente tanto ele quanto meus blogues Silva B divulgam apenas minha produção artística, que, aliás, é bem intensa e diversificada. Sempre fiz tudo sozinho, mesmo quando A Barata tinha um conteúdo monstruoso e rendia mais de 2.000 acessos mês. Do mimeógrafo para a internet: Comecei a publicar minhas coisas em mimeografo, ainda pelo meio dos anos 70.Luiz Carlos Barata Cichetto é o nome do Participei de algumas publicaçõescara. Fico muito feliz em poder trazer mais importantes da época, como o “Cogumeloessa troca de ideias até vocês. Para maiores Atômico” e “Semente”. Em 1980 publiqueiinformações sobre esse grande poeta e um livro de Poesia “Arquíloco” nesseacompanhar o trampo: Site A Barata - processo. Era um trabalho imenso e pouco www.abarata.com.br, Blog Pessoal – abrangente, embora delicioso pelo aspecto www.baratacichetto.blogspot.com, Zine de que a forma de chegarmos às pessoasVersus – www.zineversus.blogspot.com, era no corpo a corpo ou por correio. AOpera Rock Vitória - www.operarockvitoria. Internet nos deu maior abrangência, maiorblogspot.com e Twitter - www.twitter.com/ penetração, mas por outro lado, perdemosBarataCichetto esse “costume” de estar com as pessoas, o que é fundamental na poesia. Embora sejaPra que fazer poesia? uma forma fantástica de divulgação, achoLembrei-me de imediato uma entrevista do que ela não se presta de fato à Poesia, poisLeminski em que falava sobre o porque da ela necessita do contato, do olho no olho,Poesia. “pra que por quê?” perguntava ele. no sentir a respiração do receptor, essasMas, de fato, sua pergunta é a mesma que coisas. A busca, hoje, ao menos da minhame faço: pra que fazer poesia dentro desse parte, é encontrar o melhor dos “doiscaos? Talvez porque todo poeta tenha mundos”, por isso não abro mão do livro evocação a ser Lúcifer, e trazer luz aos fanzine impressos.homens. A música na escrita e a escrita na música:Você possui alguns veículos e espaços No final, acho que é um casamento forçado,onde divulga seu trabalho e de outras uma espécie de casamento arranjado.pessoas. Como funciona essa parte da Quando uma poesia se torna letra de música,produção? deixa de ser poesia. Não é bom nem ruim,Durante muitos anos, em A Barata, isso, apenas é outra coisa. Tive algumaspubliquei autores e criei espaço para bandas experiências desse tipo, com poesiasindependentes, mas com o surgimento dos minhas musicadas e embora tenham ficadoblogues e das redes sociais, o interesse belas, não sentia nelas mais a minha poesia,
  7. 7. Pag 6Cichetto era outra coisa. E mesmo que um musico sejaFabio da também poeta sempre vai ocorrer isso.Barbosa Chego até ser radical nisso, concordando com alguns puristas da musica, que dizem que estragaram a musica quando colocaram letra nela. E vou mais além, acho que estragaram ambas. O problema é que, como quase ninguém mais lê poesia, o meio musical se transformou num caminho fácil. Um exemplo disso: acho Legião Urbana uma merda como banda, mas as poesias do Renato Russo são boas. Mas aquilo, musicado, fica horroroso. Entra ai uma questão: se ele não tivesse uma banda, não tivesse chegado a ser conhecido por estar a frente de uma banda, onde teria chegado? Provavelmente seria mais um desconhecido. O problema está numa sociedade mal formada, que prefere artes que tem um apelo “popular” Um pensamento: mais forte. Não sei a resposta para a eterna pergunta, se é a vida que imita a arte ou o contrário, mas sei que maioria de nós tem péssimas imitações das duas coisas. Uma certeza: A morte, claro! O fechamento: Eu não consigo ter uma visão positiva com relação ao futuro da humanidade. Nada dessa coisa ridícula de fim do mundo, essas coisas, mas com relação a valores essencialmente humanos. Guerras sempre aconteceram e sempre acontecerão, conflitos pelos mais diversos motivos. Mas o que percebo é que se aceleram guerras e conflitos travados em campos mais profundos e perigosos do que os de batalha. E o ser humano transformado em um joguete nas mãos de poderosos. Obrigado, Fábio, pela oportunidade.
  8. 8. Pag 7 REBOCO CAÍDO #15 O Professor Filósofo – Marques de SadePor Marquês de Sade De todas as ciências que se inculca - Pois bem, – disse-lhe o abade –na cabeça de uma criança quando se trabalha agora, meu amigo, concebas o mistério daem sua educação, os mistérios dos cristianis- consubstanciação: compreendes com me-mo, ainda que uma das mais sublimes matéri- nos dificuldade que é possível que duasas dessa educação, sem dúvida não são, en- pessoas constituam uma só?tretanto, aquelas que se introjetam com mais - Oh! meu Deus, sim, senhor aba-facilidade no seu jovem espírito. Persuadir, de, agora compreendo tudo com facilida-por exemplo, um jovem de catorze ou quinze de surpreendente; não me admira esse mis-anos de que Deus pai e Deus filho são ape- tério constituir toda a alegria das pesso-nas um, de que o filho é consubstancial com as celestiais, pois é bem agradável quan-respeito ao pai e que pai o é com respeito ao do se é dois a divertir-se em fazer um só.filho, etc, tudo isso, por mais necessário à fe- Dias depois, o pequeno condelicidade da vida, é, contudo, mais difícil de fa- pediu ao professor que lhe desse outrazer entender do que a álgebra, e quando que- aula, porque, conforme afirmava, algo ha-remos obter êxito, somos obrigados a empre- via ainda “no mistério” que ele não com-gar certos procedimentos físicos, certas ex- preendia muito bem e que só poderia serplicações concretas que, por mais que des- explicado celebrando-o uma vez mais. Oproporcionais, facultam, todavia, a um jovem, complacente abade, a quem tal cena di-compreensão do objeto misterioso. verte tanto quanto a seu aluno, manda Ninguém estava mais profundamente trazer de volta a jovem, mas desta vez, oafeito a esse método do que o abade Du abade particularmente emocionado com aParquet, preceptor do jovem conde de deliciosa visão que lhe apresentava o beloNerceuil, de mais ou menos quinze anos e pequeno Nerceuil consubstanciando-secom o mais belo rosto que é possível ver. com a sua companheira, não pôde evitar - Senhor abade, – dizia diariamente o colocar-se como o terceiro na explicaçãopequeno conde a seu professor – na verda- da parábola evangélica, e as belezas porde, a consubstanciação é algo que está além que suas mãos haviam de deslizar acaba-das minhas forças; é-me absolutamente im- ram inflamando-o totalmente.possível compreender que duas pessoas pos- - Parece-me que vai demasiado rá-sam formar uma só: explicai-me esse mistério, pido, – diz Du Parquet, agarrando os qua-rogo-vos. dris do pequeno conde, devolvendo a seu O honesto abade, orgulhoso de obter aluno o que este empresta à jovem.êxito em sua educação, contente de poder - Ah! Oh! meu Deus, o senhor meproporcionar ao aluno tudo o que poderia fa- faz mal – diz o jovem – mas essa cerimô-zer dele uma pessoa de bem, imaginou um nia parece-me inútil; o que ela me acres-meio bastante agradável de dirimir as dificul- centa com relação ao mistério?dades que embaraçavam o conde, e esse - Por Deus! – diz o abade, balbuci-meio, tomado à natureza, devia necessaria- ando de prazer – não vês, caro amigo, quemente surtir efeito. Mandou que buscassem te ensino tudo ao mesmo tempo? É a trin-em sua casa uma jovem de treze a cartoze dade, meu filho… é a trindade que hoje teanos, e, tendo instruído bem a mimosa, fez explico; mais cinco ou seis lições iguais acom que se unisse a seu jovem aluno. esta e serás doutor na Sorbonne.
  9. 9. REBOCO CAÍDO #15 Pag 8 Rafael Campos Rocha e seu “escracho ignóbil e malicioso” Por Fabio da Silva BarbosaRafael Campos Rocha é o nome dessa gran- que sua personalidade já estava prontade revelação do quadrinho nacional. Além desde a sua primeira aparição, lá nas histó-de produzir para grandes veículos de comu- rias sobre Cristo. A ideia era fazer um Deusnicação, ainda atua com blogs e zines (http:/ oposto ao Deus da Civilização. Esse Deus,/rafaelcamposrocha.blogspot.com). Atual- como sabemos, é masculino, solar, autori-mente ele está lançando o livro “Deus, essa tário, auto-consciente, caucasiano, agres-gostosa” e já tem planos para um próximo. sivo, nacional e calcado na tradição e naFala aí, Rafael. Conta para o pessoal. cultura. Portanto, eu queria um Deus femi- nino, noturno, pacífico, contra-cultural,Deus, essa gostosa: Como foi a constru- não-ocidental etc. O que já expressa minhação dos personagens e a criação das pri- opinião sobre coisas como o Estado-Na-meiras histórias? ção, a Civilização Ocidental, a Verdade e aA primeira aparição de Deus foi em uma série Cultura. Para mim, são todos pretextos parade 4 pequenas histórias baseadas em tex- o imperialismo, o roubo, a exploração e otos apócrifos sobre Cristo. A série tinha o estupro. Sem mais.pernóstico nome de Tetralogia Cruciformee, por sua vez, fazia parte de um fanzine E a reação do público? O que o pessoal temdigital que enviava para uma lista de e-mails achado das aventuras de Deus?desde 2007. Voltando ao personagem, como Olha, meus amigos se divertem e a lista deeu disse, Deus “cresceu” na história um pessoas que pedem para receber os e-mailspouco à minha revelia. Terminada a série vem crescendo. Muitos leitores do jornalde histórias sobre Cristo, resolvi fazer uma também tornaram-se leitores do zine men-outra série de 4 histórias, dessa vez com sal, mas, é claro, muita gente detesta. O tra-Ela como protagonista. Desde a primeira balho foi chamado de “um escracho ignóbilaventura solo já se chamava “Deus, essa e malicioso” em uma carta muito divertidagostosa”, que foi o nome mais escandalo- que o jornal recebeu e volta e meia receboso, irritante e debochado que me ocorreu. algum e-mail dizendo que vou arder no fogoEssa série foi responsável pelo meu ingres- do Inferno. Enfim, as pessoas que gostam,so na imprensa com mais assiduidade. As 4 gostam porque Ela é Deus, criadora da Vidahistórias foram publicadas pela Piauí e a e do Universo, e é mulher, negra, sexuada,Folha de São Paulo passou a me chamar amante de bebidas fortes, punk-rock femi-para criar cartuns no caderno Ilustríssima. nista e futebol argentino. E as pessoas queSobre a construção do personagem, acho detestam, detestam justamente por esses
  10. 10. Pag 9 REBOCO CAÍDO #15mesmos motivos. “Aqui estão os loucos. Os desajustados.Além da divulgação pela internet, quais Os rebeldes. Os criadores de caso. Osoutros meios você tem usado para fazer pinos redondos nos buracos quadrados.suas histórias chegarem aos leitores? Aqueles que vêem as coisas de formaBom, ela aparece de 15 em 15 dias no ca- diferente. Eles não curtem regras. E nãoderno ilustríssima, da Folha de São Pau- respeitam o status quo. Você pode citá-lo. Já esteve na revista Piauí, na revista los, discordar deles, glorificá-los ouespecializada Graffiti 76°/ quadrinhos, na caluniá-los. Mas a única coisa que vocêrevista + Soma, além de aparições em ou- não pode fazer é ignorá-los. Porque elestras revistas independentes. Estou fazen- mudam as coisas. Empurram a raça hu-do duas histórias para a revista Samba, mana para a frente. E, enquanto algunstambém especializadas em quadrinhos. Elancei um livro pela Cia das Letras, com os vêem como loucos, nós os vemosuma história de umas 70 páginas. como geniais. Porque as pessoas lou- cas o bastante para acreditar que po- dem mudar o mundo, são as que o mudam.”Jack Kerouac A macarronada Por Fabio da Silva Barbosa Ele fez aquela macarronada perfeita. Vários tipos de macarrão. As tigelas com os molhos foram colocadas na mesa logo assim que entrei. Elogiei seus dotes culinários e sua sofisticação ao servir. Retribuiu com aquele olhar estranho e lembrou ter aprendido a cozinhar muito jovem. Ele não podia perder a oportunidade de estragar tudo. O que podia pensar? Que minha atitude fosse mudar devido a sua grosseria? Achei melhor ignorar e passar para alguma amenidade. Ao repetir o prato, resolvi experimentar outro tipo de macarrão com outro molho. Ele endoidou. “Não... Aí já é demais! Esse molho não é para esse macarrão! Não sabe, deixa que eu sirvo. Vai continuar colocando? Não precisa encher o prato dessa maneira. Come um pouquinho e depois prova de outro tipo. Ai, meu Deus do céu. Por mim tanto faz, sabe? Já tô de saco cheio. Faz o que quiser, do jeito que quiser.” O que ele nunca aprendeu é que a gente pode deixar a mesa pronta e escolher o que vai ter, mas nunca podemos prever como os convidados misturarão os pratos.
  11. 11. REBOCO CAÍDO #15 Pag 10 Retirado do livro a Erva do Diabo - de Carlos Castaneda A Erva do Diabo é apenas um entre pode resolver largar. É um homem. O prote-um milhão de caminhos. Tudo é um entre tor, Mescalito, lhe mostrou o mundo da feli-quantidades de caminhos. Portanto você cidade, onde não há diferença entre as coi-deve ter sempre em mente que um cami- sas, porque lá não há ninguém que indaguenho não é mais do que um caminho. Se pela diferença. Mas este não é o mundo dosachar que não deve seguí-lo, não deve per- homens. O protetor o sacudiu dali para foramanecer nele sob nenhuma circunstância. e lhe mostrou como é que o homem pensa ePara ter uma clareza destas é preciso levar luta. Este é o mundo do homem. E ser umuma vida disciplinada. Só então você sa- homem é estar condenado a este mundo. Vocêberá que um caminho não passa de um tem a presunção de crer que vive em doiscaminho e não há afronta, nem para si nem mundos, mas isto é apenas vaidade. Só exis-para os outros, em largá-lo se é isto que te um único mundo para nós. Somos homensseu coração o manda fazer. Mas sua deci- e temos que seguir o mundo dos homenssão de continuar no caminho ou largá-lo satisfeitos.deve ser isenta de medo e de ambição. Eulhe aviso. Olhe bem para cada caminho, e Como saberei se ao certo se o cami-com propósito. Experimente tantas vezes nho tem ou não tem coração?quanto achar necessário. Depois pergunte-se, e só a si, uma Qualquer pessoa sabe disto. O pro-coisa. Esta pergunta é uma que só os mui- blema é que ninguém faz a pergunta, e quan-to velhos fazem. Meu benfeitor certa vez do afinal o homem descobre que tomou umme contou a respeito quando eu era jo- caminho sem coração o caminho está prontovem, mas meu sangue era forte demais para matá-lo. Neste ponto muito poucos ho-para poder entendê-la. Agora eu a enten- mens conseguem parar para pensar e deixardo. Dir-lhe-ei qual é: esse caminho tem o caminho.coração? Todos os caminhos são os mes- Um caminho sem coração nunca émos, não conduzem a lugar algum. São agradável. Tem-se de trabalhar muito até paracaminhos que atravessam o mato ou que seguí-lo. Por outro lado um caminho comentram no mato. Em minha vida posso di- coração é fácil, não o faz trabalhar para gos-zer que já passei por caminhos compridos, tar dele.compridos, mas não estou em lugar algum. O desejo de aprender não é ambição.A pergunta de meu benfeitor agora tem É nosso destino como homens querer saber.um significado. Este caminho tem um co- Querer o poder é que é ambição. Não deixeração? Se tiver o caminho é bom, se não que a erva do diabo o cegue. Já o fisgou.tiver não presta. Ambos os caminhos não Engoda os homens e lhes dá uma sensaçãoconduzem a parte alguma, mas um tem co- de poder. Ela os faz sentir que podem fazerração e o outro não. Um torna a viagem coisas que nenhum homem comum pode fa-alegre, enquanto você o seguir, será um zer. Mas isto é a armadilha dela. E em segui-com ele. O outro o fará maldizer sua vida. da o caminho sem coração se volta contra osUm o torna forte, o outro o enfraquece. homens e os destrói. Não custa muito mor- Você acha que há dois mundos para rer, e procurar a morte é não procurar nada.você, dois caminhos, mas só existe um. Oúnico mundo possível para você é o mun-do dos homens, e esse mundo você não
  12. 12. Escritos Malditos de uma Realidade InsanaO livro busca registrar de forma direta, sem deixar de viajar por caminhos poé-ticos e até delirantes, o cotidiano de uma sociedade injusta, desigual e opressiva,onde a realidade muitas vezes se dilui no inusitado de uma neurose social com-pulsiva. Nestas páginas, os marginalizados passam em desfiles solitários efantasmagóricos, transbordando por todo lado, mostrando que são, na verda-de, partes de um todo, partes da grande maioria. A margem toma seu lugar nocentro e a escuridão se torna a luz necessária para apreciarmos pontos evitadospor muitos.Para garantir o seu e conher essa obra é só entrar em contato com www.lamparinaluminosa.com .com minosa arinalu .lamp www

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