Reboco caído nº1 versão p visualização

1.295 visualizações

Publicada em

0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.295
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
204
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
10
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Reboco caído nº1 versão p visualização

  1. 1. Pag.1 OUT/2010 Editorial Um lugar para contos, crônicas, textos, resenhas, artigos, entrevistas, poesias, fotografias, vídeos, músicas... Tudo que Alexandre vier na cabeça e o que passar pelo campo dos sentidos, trazendo reflexão e transformação. Um ambiente plural, a favor da variedade e da diversidade de pensamentos. Liberdade de expressão sempre, em todas as suas formas, cores e sabores. -971 EP 24020 Contatos: i, RJ, Brasil, C 0, Niteró AL: 10005 CX POST fsb1975@yahoo.com.br www.rebococaido.blogspot.com Reciclar é preciso Contra toda forma de preconceito REBOCO CAÍDO Aperiódico
  2. 2. N° 1 Pag.2 VIDAS MORTAS dos”, de Umberto Eco, destaca que “os mass Por: Evandro Santos Pinheiro media expõem as emoções já confeccionadas e Fabio da Silva Barbosa ao invés de as sugerirem”. O exemplo dado é Ao amanhecer, Everton já sabia a música, que serve mais como estímulos sen- soriais, que uma forma contemplável. quais eram as suas obrigações: Arrumar a Ao seguir uma lei baseada no consu- cama, varrer a casa, cuidar dos irmãos, fazer mo, sustentada pela ação persuasiva da publi- comida, tomar banho e ir pra escola. O pai cidade, os mass media sugerem ao público o foi assassinado em uma emboscada, ar- que eles devem desejar. Todos os produtos mada por policiais para prender tra- são difundidos, nivelados e condensados a ficantes. O infeliz, ferido por engano, se fim de não provocarem nenhum esforço por tornou traficante depois de morto. parte do fruidor, resumindo o pensamento em Quando estava quase acabando os fórmulas e desencorajando a pesquisa de afazeres, Everton ouviu um barulho no novas experiências. Isso reforça sua utilidade telhado. Colocou a cabeça do lado de fora. apenas como entretenimento e lazer, em- Apressado, fechou tudo. Estavam invadin- penhando apenas o nível superficial de nossa do o morro. Já era a segunda vez essa sema- atenção e viciando nossa atitude. na. Mandou os irmãos ficarem quietos no Encorajando uma imensa corrente de quarto. “Merda”! Zequinha estava na rua. informações, os mass media entorpecem a O barulho de fogos, misturado ao consciência. Mesmo ao assumirem modos de tiros... O caveirão já vinha subindo. De- exteriores de cultura popular, não crescem es- veria ser rápido em encontrar o irmão pontaneamente de baixo para cima, mas são caçula. Ao descer as escadas do barraco, pode avistar de longe a figura franzina de impostos de cima para baixo. Zequinha, segurando uma pipa e correndo INDIFERENÇA em direção a sua casa pelo beco. Mais uma cena rotineira da cidade grande Zequinha foi ao chão... A pipa Por: Fabio da Silva Barbosa subiu aos céus... Everton viu sua vida mudar.... Nunca mais iria sonhar... FIM APOCALÍPTICOS Por: Fabio da Silva Barbosa Os mass media dirigem-se a um pú- blico heterogêneo, tendo de basearse em médias de gosto, evitando soluções origi- nais com a difusão do que já foi assimilado, trabalhando opiniões comuns e difundin- do uma cultura de tipo homogêneo. Ca- Um homem, depois de muito cambalear pelo racterísticas culturais de diversos grupos centro de Niterói, caiu perto de uma rampa são destruídas com a hogeneinização das para deficientes físicos. Ficou por ali a falar culturas. Impondo mitos e símbolos de fá- com o céu, até que adormeceu. Qual seu cil universalidade, criam tipos, reduzindo nome? Não perguntei. Mas, também, ao mínimo a individualidade e o caráter ninguém perguntou. Foi apenas mais uma concreto das experiências e das imagens. cena rotineira na cidade grande. Nada de O livro “Apocalípticos e Integra- mais. REBOCO CAÍDO Aperiódico
  3. 3. Pag.3 OUT/2010 Sem apoio e sem espaço Por: Fabio da Silva Barbosa que pode ser encontrado no youtube e foi Niterói (RJ) há muito tempo é realizado por iniciativa de estudantes de conhecido por ter grande expressão comunicação social. artística. Nomes consagrados, como Baby Um nome de peso, que também vem do Brasil e Bia Bedran, nasceram na cidade buscando sobreviver no meio, é o Ministro e con-seguiram conquistar o país. Mas do Baião Zé de Mohura. Com muita luta e esse território tem se mostrado mais fértil ajuda de Amigos, como Severino, ele pro- do que se pensa. Nos diversos campos da move eventos que buscam fortalecer a arte, encontram-se pessoas empenhadas cultura nordestina na cidade. Durante o ano em fazer sua criatividade ultrapassar todas de 2007 e 2008 promoveu animadas “Do- as barreiras, se transformando em um mingueiras” no Bar do Paulinho, em Santa verdadeiro hino de resistência. Resistência Rosa e em comunidades carentes da região. a falta de espaço, de apoio e de tudo o Nesses eventos, além do tradicional Café que se possa precisar para um movimento da Manhã Nordestino, o sanfoneiro, Cigano cultural florescer. do Forró, animava o final de semana dos que Paulo Roberto Chumbinho, mo- apreciam essa cultura. Seu livro de literatura rador de Niterói há quinze anos e ex de cordel, “Aquarela do Nordeste” já está integrante da banda Vitória Régia, define na segunda edição e é distribuído pelo bem a situação: “São tantas as di- Próprio Mohura em seus eventos. ficuldades que fica até difícil saber por Falando em literatura, não onde começar. Espaço legal para tocar é poderíamos deixar de destacar Winter uma dificuldade. Quando tem espaço, o Bastos, autor de vários contos e textos, que cachê é inexpressivo. Às vezes a casa não teve seu primeiro livro publicado pela Editora tem equipamento e gera outro problema, Achiamé. “Malandragem, Revolta e que é o transporte para o equipamento. Anarquia”, conta a história de três grandes Eu não tenho carro. Aí tenho de alugar um nomes da literatura nacional que não se táxi ou uma kombi. Por aí vai.” curvaram a formatos pré-estabelecidos e por Outro exemplo desta resistência é isso foram jogados a marginalidade. Ele Cris Saman. Escultor, dono de uma técnica acredita que Niterói poderia valorizar mais única de dar forma ao barro, expõe seus artistas, mas argumenta que apesar de atualmente suas obras no Bar Cobreloa, todo obstáculo, vale a pena escrever. no Centro de Niterói, onde trabalha. No cinema, um nome que não pode Saman explica que a falta de espaço para ser deixado de lado é o de Francisco Bra- exposição é apenas uma das inúmeras gança, que produziu e lançou seu primeiro dificuldades que encontra para fazer seu filme, “Beber, conversar e se der cantar”, de trabalho caminhar. De acordo com ele, o forma completamente independente. Quan- certo seria levar suas esculturas a um forno do perguntado sobre apoio e espaço para específico para o material que trabalha. arte, a resposta é direta: “Você pode me Como não tem acesso a isso, elas acabam responder quantos anos a Prefeitura e a quebrando quando há necessidade de Secretaria de Cultura passou sem lançar um transportá-las. Saman está fazendo parte edital de fomento para o audiovisual, para o de um vídeo chamado “Vida de Escultor”, teatro, para as artes visuais e plásticas? REBOCO CAÍDO Aperiódico
  4. 4. N° 1 Pag.4 Alexandre Mendes é outro que sofre concretização destes. Em meio a tantas com a falta de uma base sólida que apóie os dificuldades, ele reflete sobre o papel de artistas. Desenhista, Chargista e Cartunista, suas ilustrações neste cenário: “O desenho busca veículos alternativos e inde- é pensado na forma de um livro aberto, pendentes para expor seu trabalho. Já buscando conscientizar as pessoas de pa- produziu alguns projetos culturais, mas o râmetros aceitos por nós desde a infância. excesso de burocracia torna inviável a Esses nem sempre são corretos ou justos”. ESTÃO ENGANANDO VOCÊS POR: FABIO DA SILVA BARBOSA o cara descrito por Luiz Fernando. Depois Dia desses, estava comentando com de muito pensar, cheguei à conclusão de um amigo sobre aquela crônica do Luiz Fer- que não era culpa dele. Na verdade, fora nando Veríssimo, chamada “O Nariz”. A es- enganado. Desde criança, nossos pais nos tória é ótima e demonstra muito bem o que enganam. Tudo começa com Papai Noel e vivemos. Falta de personalidade e um culto Coelhinho da Páscoa. Eles dizem ser impor- ao “igual”. Nada pode deixar de estar pa- tante esse tipo de fantasia. A maioria aceita dronizado. Quem não conhece vale a pena isso e repete para seus filhos e seus filhos correr atrás e conhecer, pois o que irei fazer para seus netos... Uma corrente de mentiras não é uma resenha. Esse papo que estava que é justificada por ser importante tendo, foi apenas o início. alimentar essas fantasias, que um dia, nós Bem... Aí, quando comentei sobre “O mesmos desmentiremos. Para que inventar Nariz”, ele quis saber mais. Expliquei que coisas? Só para depois dizer que é mentira? era sobre um cara comum, que vê sua vida Com o crescimento, as mentiras vão virar um inferno apenas por gostar de um se tornando um estilo de vida norteada por nariz de borracha (uma daquelas máscaras regras, criadas pelos mesmos que inven- que vem uns óculos, nariz e bigode junto) taram Noés e Coelhinhos. Todos estão se que viu em uma loja. Desse momento em esforçando para se enquadrar. As coisas diante, resolveu usar o adereço todo o têm de ser assim porque é assim que os tempo. Meu amigo não entendeu e achou outros fazem. Até os que se dizem diferen- que o cara estava querendo ser escroto. tes, pertencem a um diferente padronizado. Disse que isso era ridículo. Perguntou, Nada mais pode fugir a regra escrita ou dita ainda, o que o personagem poderia esperar. (não se sabe por quem). Essa é a regra mor. Tentei explicar e sugeri que talvez fosse Criam-se religiões para lançar os infiéis ao melhor que ele lesse o texto, mas ele não inferno e modas para lançar quem prefere quis saber. Achou simplesmente impossível algo mais criativo ao ridículo. “Vamos ver alguém gostar de usar um nariz de borracha como os outros fizeram para fazermos só porque ele não conhecia ninguém que, também e ver como eles se vestem para nos se quer, achasse a idéia simpática. vestir do mesmo modo” Larguei-o mergulhado em suas Certa vez, uma parenta estava feliz certezas. Daquelas certezas que fazem parte da vida com um paninho sobre a mesa, até de um mundo sem horizontes. Onde só o chegar uma amiga, “pessoa de muito bom que existe é pobreza (interior) e repetição. gosto”: “Usando esse tipo de paninho em Como ele poderia ter acabado assim? Do cima desse tipo de mesa?” O paninho não mesmo modo que as pessoas que rodeavam teve chance. Sumiu e nunca mais foi visto. REBOCO CAÍDO Aperiódico
  5. 5. Pag. 5 OUT/2010 Diego EL “Meu nome é Diego El Khouri. Nasci em Mas a cadeia do mundo ocidental fere ‘lucid 21/03/ 1986. Descendente de libanês, filho muito mais e é essa que eu vivo e que não nome da exclusão. Antes mesmo de andar, já tem mais cura.Minha essência está vers esboçava vários desenhos e passei minha completamente ligada a exclusão, desde a estro vida sonhando e respirando arte. Uma cri- minha infância, quando esboçava os câ ança excluída na infância e pré adolescência primeiros desenhos. Minha vida é uma nause tanto na escola, quanto por alguns pa- cadeia de loucos.Minha família sempre foi bun rentes de “dinheiro”. Apanhava direto na unida e desunida ao mesmo tempo. Ela é tatura escola por ser um moleque instrospectivo. um dos alicerces de (Die Nos meus desenhos e textos me vingava minha arte; a minha Kh dos carrascos. Eu era o palhaço sem graça, dor, minha raiva, que tinha taras estranhas e as escondia com minha revolta. um temor grande. Volta e meia as revelava na minha arte. Meu primeiro livro (não Quando você escreve publicado) foi aos 8 anos de idade. Um livro uma mensagem, em de 100 páginas chamado REI VERGONHA, algum momento pensa onde revelo meu ego, minhas inquietações no receptor? e revoltas, além do desejo de amor e paz Escrevo apenas para reinando em todo planeta. Uma visão idílica lavar minha alma, da sociedade.” Diego EL Khouri exorcizar minha dor e dizer que respiro. Vamos começar por um assunto crítico: Apesar de tudo, ainda Guerra. Fale sobre o Líbano, a região de respiro. onde originou sua família. Meu avô, Jamil Hanna El Khouri, teve que A verdade existe? abandonar seu país de origem, pois seu Hoje, pra mim, o que irmão mais velho, o então ministro do existe é a busca pelo Líbano, Ibrahim Hanna El Khouri, que equilíbrio que a vida e alguns astros ne- “Tud lutava pela unificação dos países árabes, gros me impedem de alcançar. mo foi considerado pelo partido de oposição arrui como facista. Meu avô, depois de rodar o A vida tem sentido? .Sou u mundo todo, foi parar na cidade de “As convicções são cárceres” como dizia frio Orizona (Goiás), em 1951. Se apaixonou o filósofo do martelo, grande Nietzsche, pecad por Zélia de Castro e se casaram. Tive meu guru espiritual. Vivo sem os braços e de outros parentes que também fugiram da pernas, totalmente mutilado. Anjo desnudo subal guerra e vieram parar no Brasil. A cultura tragando a morte. Como um profeta se árabe é rica e digna. Respira arte e ale- bêbado, bebo vinho e saboreio o nada. caralho gria, apesar de tudo. A guerra é apenas Prefiro ser esse ser pedante e demodé, morto um lixo político que ainda sustenta suas totalmente sem graça. Às vezes caio numas embri paredes. Sempre vi a guerra como um lixo. e me vem um desespero brutal e cuspo na .(Die Ela tolhe os membros e destrói a beleza. vida o pior que há em mim, minha vã Kho REBOCO CAÍDO
  6. 6. N° 1 Pag. 6 L Khouri dez sem melancolia. Se a existência é sem sentido técnicas. Até desenho com sangue próprio ou uma causa perdida, não me interessa já fiz. Este, inclusive, expus no Teatro so sem mais. Prefiro dançar e abandonar correntes Basileu, França, nesse ano. O resultado, que me impossibilitam de caminhar. às vezes, soa estranho... Às vezes indiges- âncer to... Bebi na fonte de mestres como eabundo Uma solução final. Modigliani e Frida Kahlo as cores de mi- nda de Uma noite de extrema volúpia e poesia... nha própria carecterística.Também ana’ encaro a pintura com uma salvação. ego EL O sofrimento passado houri) foi importante? Os fanzines: Importante para ter a Uma noite de bebedeira e pronto. Criei o clara noção que tudo fanzine chamado Vertigem, com algus passa rápido e temos amigos. Empolgado e com a ajuda da que buscar aquilo que internet, divulguei no Brasil todo. Mas, os gregos sonhavam: percebi o descaso dos membos. Queriam Transformar a vida que o negócio rendesse, mas não corriam numa obra de arte. atrás. Depois de um tempo, saí do projeto Mesmo sendo um e sem mim ele morreu. Entrei em outro. milagre vivo da ciên- Uma bosta! E nada! Foi um longo perío- cia, vi a Morte de per- do. Entrei em projetos de pintura que não to e ouvi dos médicos renderam nada. Aprendi a trabalhar só. “fim de linha”. Vi no Como sou leigo em computador, dependia rosto de familiares o dos outros. Passaram os dias e fui dese- prazer de me ver fra- nhando, escrevendo e tal. Chegou um mo- quejar. Mesmo assim, mento que resolvi comprar, no susto, um me sinto em ação. A computador e lancei o zine CAMA SURTA, dor me leva à poesia e o “folhetim coprofágico filosófico desim- do tudo a arte, e eu a abraço sem medo. Sentindo as portante” como costumo dizer. Foi num orto - vezes repulsa e desespero, mas entre um período de críticas e reflexão. É um zine inado - sonho e uma punheta, tudo continua em que pretende combater a arte extrema- um anjo total harmonia com os clowns do universo, mente racional dos dias atuais. Uma volta o sem os deuses de barbas e metralhadoras nos à um certo parnasianismo. Um parna- do.Um dentes. sianismo corcunda e sem graça. eus A poesia para você: Projetos: lterno e A única capaz de não me levar ao suicídio. Continuar editando meu zine e publicar em meu primeiro livro de poesias em 2011. o.Homem Fale sobre sua pintura. o torto e Fui!!! É uma continuação de minha poesia. Gosto iagado” Tenho problema terrível com o fim. Sempre de encarar a arte como uma espécie de ego EL me corta a alma. Melhor abrir uma cerveja laboratório. Experimento tudo. Todas as ouri) e ver no que vai dar. Aperiódico
  7. 7. Pag 7 OUT/2010 Mais um dia de campanha Por: Fabio da Silva Barbosa motoristas que passavam de vagar, olhan- Severino acordou cedo. Depois de do. Tirou a faca que levou para descascar tanto tempo desempregado, conseguiu um laranja durante a descida do morro. quebra galho para comprar o leite das crianças. - Vô ensiná a não caçoá dum homi. O primo do amigo que conhece o candidato Severino avançou com toda a raiva X, arrumou para ele ficar carregando uma pla- que tinha daquele monstro caçoador, que ca com a foto do candidato pela cidade. Che- ficava rindo não só dele, mas de todos gou na hora marcada e pegou a placa. que acordavam cedo e não tinham hora O dia passava enjoado. A esquina, on- para dormir. De todos que mais traba- de devia ficar, não era das melhores. Nenhuma lhavam e menos tinham direitos. marquise ou proteção. Apenas o Sol na cabeça - Toma... e aquela placa a lhe olhar. Era uma cara di- Gritava descendo a faca, chu- ferente da sua. Uma cara bem tratada, com to- tando, socando e espatifando tudo. dos os dentes na boca... Parecia outro bicho. - Calma... Até a camisa era bonita... Dava para ver só a Gritou um pedestre, tentando gola e o botão de cima. Do que será que ele segurar Severino. ria? Severino deu a volta na placa. - Mi solta. - Tá rindo di que? É di mim? Babou Severino passando a faca A cara continuava olhando. Sorriso na mão do pedestre. matreiro, cabelo delicadamente esculpido... - O filho da puta me cortou. - Ta rindo di que? Mi responde! Sô - Chama a polícia.... sujeito homi! Mi respeita! - Ele deve estar bêbado... Severino percebeu que aquele olhar, - Ele tá é drogado... aparentemente amigo, escondia certo ar de Severino girava, olhando para superioridade. Coçou a cara magra e barbuda, aquele mar de gente. Ele estava bêbado, olhando a pele lisa. O filho da puta não tinha mas era de raiva. Não era de álcool, não. uma marca ou cicatriz. Como ele fazia para - Ninguém encosta em mim!!! deixar o rosto tão lisinho? E se a carranca era Um cara grandão, que estava atrás assim, imagina a mão... dele, pulou em suas costas, conseguindo - Você nunca pegô em cabo de inchada, controlar a fera. Os demais aproveitaram né, o vagabundo? Nunca levô sova di vara e partiram para cima. nas pernas quando criança... Nunca levô sova - Pega... da polícia depois di homi.. O pé deve se a - Bate... merma merda. Tudo fininho. Nunca andou dis- - Mata... calço em rua di chão, pulando vala pra chegar - O que tá acontecendo aí? Que em casa. E lumbriga? Nunca deve te tido tam- merda é essa? bém. Se teve, nunca contô pra ninguém, né? O policial chegou empurrando todo Tinha alguma coisa naquele sorriso mundo. Quando alcançou Severino, viu que estava irritando Severino. Ele não parava apenas o corpo no chão, a faca na barriga de rodear a placa. e os dedos mexendo bem devagar. Um leve - Para di ri, filho da égua! Para di ri!!! sorriso despontava no rosto de Severino. Não percebeu as pessoas que Ao menos ensinara uma boa lição ao paravam para apreciar a cena, nem os safado. Podia ir em paz. REBOCO CAÍDO Aperiódico
  8. 8. N° 1 Pag. 8 Como Nasrudim BALADA criou a verdade ESSA LETRA É PARA SE OUVIR ACOMPANHADA DE UMA VOZ ÉBRIA Contos Sufi de Nasrudin E UMA VIOLA DESAFINADA. . Por: Fabio da Silva Barbosa Escuto sons estridentes Parece um terremoto Me agito pensando que é um novo som underground, mas são só bombas lançadas pelo império “Estas leis não tornam melhores as pessoas”, disse Nasrudin ao Rei; “elas .A vida vai passando através dessa devem praticar certas coisas de forma a vitrine sintonizarem-se com a verdade interior, que Rodando nas calotas dos carros se assemelha apenas levemente à verdade Quero apenas resistir aparente.” por mais alguns segundos. O Rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade – e o As cidades estão decadentes faria. Ele poderia fazê-las praticar a No campo a violência explode autenticidade. O acesso a sua cidade era Estou apenas caminhando feito por uma ponte, sobre a qual o Rei Observando alguns corpos sem vida. ordenou que fosse construída uma forca. Quando os portões foram abertos ao A vida vai passando através dessa vitrine alvorecer do dia seguinte, o Capitão da Rodando nas calotas dos carros Guarda estava postado à frente de um Quero apenas resistir pelotão para averiguar todos os que ali por mais alguns segundos. entrassem. Um édito foi proclamado: O ser humano parasitando o planeta “Todos serão interrogados. Aquele que Parecem vírus devastadores falar a verdade terá seu ingresso permitido. Não me resta mais nada a fazer, Se mentir, será enforcado.” além de repetir esse refrão. Nasrudin deu um passo à frente. “Aonde vai?” A vida vai passando através dessa vitrine “Estou a caminho da forca”, Rodando nas calotas dos carros respondeu Nasrudin calmamente. Quero apenas resistir “Não acreditamos em você!” por mais alguns segundos “Muito bem, se estiver mentindo, enforquem-me!” “Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!” ”Isso mesmo: agora sabem o que é a verdade: a sua verdade!” REBOCO CAÍDO Aperiódico
  9. 9. Pag 9 OUT/2010 Rabiscando Por: Fabio da Silva Barbosa Gente tida como inteligente me A moda é a prova cabal de que a parece cada vez mais sacal e sociedade manipula o individuo, roubando limitada. Tenho preferido a dele toda característica que pode ser inteligência dos tidos como chamada de própria. O Ser deixa o campo ignorantes. subjetivo para se tornar mais um produto na prateleira, ao ponto de os que estão na contramão seguirem a moda apropriada A lógica social e de para os da contramão. convivência me impulsiona cada vez mais em direção a falta de sentido. O sem ulta dific sentido tem sido muito al, ela cima. . Afin em mais compreensível que e eso rdem em está ará o qu ad e d iticar qu ma f toda essa organização a bas r m ci rarquia é baixo c m está e desorganizada. e A hie está em ntão, qu tanto. ,e que amente reocupar m c p Logi sem se quiser A política partidária tem se infiltrado em todos os meios, sufocando a verdadeira política, até conseguir matá-la de asfixia. Precisamos de jardineiros, com urgência, para eliminar essa erva daninha. A gramática se tornou mais uma forma de controle. Quem não escreve segundo seus mandamentos, está fora do circulo dos inteligentes. Lembrando que a língua serve para se comunicar e o povo não precisa da gramática para tal, então deixo a gramática de lado, escrevo como bem entender e uso a língua para fazer careta (careta de colocar língua para fora, porque a arte de careta, no sentido de caretice, deixo para os inteligentes). REBOCO CAÍDO Aperiódico
  10. 10. N° 1 Pag 10 A BIZARRA FAUNA HUMANA Por: Fabio da Silva Barbosa Dos animais mais bizarros encontrados na fauna de nosso planeta, com certeza, o de maior destaque é o ser humano. Ele se divide em vários grupos e subgrupos. Veremos aqui alguns exemplos desse ser para termos uma visão geral de como se comporta tal criatura. - Políticos Partidários: Talvez seja o grupo que apresente maiores Com profundos conhecimentos de ilusio- variações. As duas maiores variações de nismo e teatralidade eles conseguem tudo fanáticos são os Religiosos e os Ideológicos. o que querem. Provam que 2+2=5, que água De acordo com o grau de fanatismo do grupo é sólido, que a política partidária é a forma eles podem se tornar extremamente violentos mais eficaz de política e que Deus está e até letais. Uma coisa é certa: Se você ver sempre do lado de quem vai vencer. um fanático, saia de perto, pois mesmo os Doutrina: “Faço só o que me der voto!” amistosos conseguem ser mais chatos e Vida em grupo: Se reúnem em partidos. cansativos que os Alienados. De acordo com a conveniência fazem Doutrina: “Eu estou certo” pactos com outros partidos, mesmo não Vida em grupo: Vivem exclusivamente para sendo compatíveis com o que dizem pen- seu grupo. O horizonte nunca vai além dele. sar. Existem tipos migratórios neste grupo. - Competidores: - Alienados: Compete com tudo e com todos. Quer sempre Esse grupo humano pode ser identificado ser o melhor. Se existe algo que não possa principalmente por usar seu cérebro ape- fazer, mostra o desdém para justificar sua nas como recheio do crânio. Pensar é sem- ausência no primeiro lugar. pre algo doloroso. Qualquer forma de ra- Doutrina: “Eu sei! Eu tenho! Eu sou o ciocínio se compara ao sofrimento eterno. melhor!” São presas fáceis para os Políticos Partidá- Vida em grupo: Loucura total. Muito difícil rios e outros grupos que não serão trata- conviver com essa espécie. dos nesse trabalho, como os Publicitários e os Apresentadores de Televisão. Pode- - Acumulador: mos dizer que vieram ao mundo e perde- Esse tipo tem como principal característica ram viagem. Costumam ser chatos e acumular tudo que puder. Ele precisa ter. Ter cansativos. é o ato mais importante de sua existência. A Doutrina: “Ddddddããããããããããããããããããã própria razão da vida. Ter ao máximo de tudo Vida em grupo: Passam os dias entre a que possa existir. perda de tempo e a conversa fiada. Doutrina: “Existe... Logo... Quero ter!” Vida em grupo: Ele quer sempre ter tanto - Fanáticos: quanto, ou mais que, seus companheiros. Existem diversos tipos de fanáticos. É um subgrupo derivado dos competidores. REBOCO CAÍDO Aperiódico
  11. 11. UM ANO DE BERRO - 365 dias de fúria Este livro é o registro da produção anual do fanzine O Berro, fruto do esforço comum de três amigos que acreditaram num meio de comunicação inovador, plural, crítico e participativo. Surgido em Niterói (RJ), o veículo alcançou diversas partes do país via correio, mostrando a vitalidade da mídia impressa underground, mesmo numa época de aparente onipotência da internet. Ao longo do ano, a publicação continuou independente e mensal, apesar de todas as dificuldades de se manter um meio de comunicação alternativo. Continuou produzida por Fabio da Silva Barbosa, Alexandre Mendes e Winter Bastos, mas teve como colaboradores: Aline Naue, Anita Rink, Eduardo Marinho, Francisco Bragança, Renata Machado Seti Rodrigues e Tânia Ribeiro Roxo. E, graças a todos, continua firme e forte. Nas 264 páginas, o leitor encontra charges, crônicas, entrevistas exclusivas, contos e poesias que visam expressar conhecer. Portanto abram as páginas des- idéias da cultura alternativa. Com par- ses 365 dias de fúria, assim como as portas ticipações inéditas de personalidades da e as possibilidades de sua mente. Estranho música, do cinema e da literatuta nas é apenas aquilo que você ainda desconhece. entrevistas (como o cantor Kid Vinil, o cartunista Latuff, o cineasta Cacá Diegues, Para adquirir o seu exemplar, o escritor Glauco Matoso, as bandas de basta acessar o site da Editora Rock Os Replicantes, Cólera, etc), o fanzine Independente: O Berro se destacou pela irreverência e www.editoraindependente.com.br originalidade. Foram 12 números de revolta, arte, Autor: BARBOSA, Fabio da Silva; crítica, poesia, política, cinema, literatura, VASCONCELLOS, Alexandre Mendes de; vida: 365 dias de furor, fibra e fúria, agora GUEDES JÚNIOR, Winter Bastos. reunidos em um livro com acabamento Editora: Editora Independente primoroso da Editora Independente ISBN: 9788590967132 (Brasília/DF) num lançamento ousado, Ano da Edição: 2010 repleto de experimentalismo e perso- Edição: 1ª nalidade. Formato: 14 x 21 Um ano de Berro é cultura alternativa por Páginas: 264 escrito, ao alcance de todos que o desejam Acabamento: Brochura Costurada

×