Quem somos nós volume 2

900 visualizações

Publicada em

Volume 2 do pdf QUEM SOMOS NÓS?

Publicada em: Mídias sociais
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
900
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
14
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
5
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Quem somos nós volume 2

  1. 1. Pra Continuar Quem somos nós? Essa é pergunta que continua sendo respondida nesse segundo volume. O primeiro pdf intitulado Quem somos nós? - Conversa fiada e papo de botequim, lancei em 2012. De lá para cá rolaram novas entrevistas, papos e pesqui- sas pelo rico universo do submundo criativo, onde cabeças pensantes não buscam riqueza, fama ou poder. Nessas quebradas o que conta é atitude, persistência e... vai saber. O primeiro volume trouxe registros que compreendiam o espaço de tempo 2009-2011. Agora coletei material que produzi e havia saído por aí entre 2012 e 2014. Espero assim continuar contribuindo, sempre de maneira indepen- dente e usando as ferramentas possíveis no momento, para a pergunta Quem somos nós?. Uma pergunta que continuará sempre sendo respondida e a resposta alimen- tará sempre a pergunta. Por isso disse espero contribuir para a pergunta ao invés de para a resposta. Afinal, nos definir seria nos limitar, formatar... Sempre me inte- ressei mais nas perguntas que nas respostas. Claro que existem boas respostas, mas essas são boas por alimentarem novas perguntas. O definitivo não me apetece. Fabio da Silva Barbosa Foto da capa: Por Fabio da Silva Barbosa Capa de QUEM SOMOS NÓS? - conversa fiada e papo de botequim retrabalhada em Photoshop
  2. 2. 2012
  3. 3. Ariel e a arte da insubmissão Responsável pelos vocais de bandas históricas (Restos de Nada, Invasores de Cérebros, Inocentes...), Ariel continua com todo gás. Esse eterno inconformado troca aquela ideia com o Reboco. Você passou por diversas bandas e sempre participou de atividades relacionadas ao underground. Se pudesse encontrar um ponto em comum entre todos esses pontos, qual seria? Rebeldia. A arte de desafiar um sistema estabelecido. Desde o começo, formei bandas para poder transmitir minhas escritas sobre problemas juvenis, existencialismo e subversão. Éramos subversivos por sermos improváveis. Ninguém apoiava a gente, pelo contrário, procuravam nos afastar de tudo o que pudesse ser contaminado por nossas ideias. E de onde vem a energia para tanta atividade? Aenergia vem da certeza de que podemos mudar algumas cabeças, propondo um mundo novo e tornando-as instrumentos de sua própria mudança. Vale a pena? Não é questão de valer a pena... Nos tornamos punks por falta de opções e por termos consciência disso. E a situação política atual? Como você vê o cenário nacional e mundial? Confuso. O que é direita e o que é esquerda nos dias atuais? Ficou claro que não existe diferença a partir do momento em que ficamos sabendo das alianças entre os partidos. Por isso continuamos afirmando o voto nulo como instrumento de derrubada de todos esses sistemas de dominação. Com a proximidade dos grandes eventos que acontecerão no Brasil, a violência sobre os menos favorecidos vem aumentando por toda a parte. Como as pessoas poderiam se defender da brutalidade institucional? Tudo está ligado à transformação da sociedade, com esse conceito arcaico de segurança e repressão. Quanto mais polícia, mais bandido, quanto mais reprimem o tráfico nas favelas, mais o bandido desce pra assaltar no asfalto e aí vira um círculo vicioso de corrupção e covardia. Um mudo diferente é possível? Sim! Tem que acontecer uma mudança, pois tudo é bem medíocre e corrupto. Devemos querer um bem estar geral e isso não cabe na atual sociedade. Algo para o pessoal pensar a respeito: AAutogestão é possível!!!
  4. 4. Um papo com o Goma Esse é o Goma: Paulistano da safra de 88, atualmente começou uma série de ilustrações com o título Tempo Seco e vem conquistando espaço e mostrando cada vez mais sua cara. Então, manda a goma aí: Como nasceu Goma e quem era o Goma antes do Goma nascer? Tem muito Thiago Gomes nesse país - Putz! - e pensei que Goma teria menos. Depois vi que goma (entre outros significados) é a união de vários elementos, uma goma mesmo. E isso é uma coisa boa, porque gosto disso, misturar referências. E o aprendizado é uma coisa eterna. Então, estarei sempre buscando algo, misturando coisas, fazendo gomas. Por que desenhar? Porque me sinto a vontade desenhando, é natural pra mim, tenho gana para aprender mais e me expresso melhor pelo desenho. Embora aprecie muito o audiovisual e a música, não seria o mesmo. São coisas que me cativam e motivam a desenhar, mas.... essas áreas estão em um eterno namoro, então pode ser que um dia role algo também. haha! Colorido ou preto e branco? Haaa... Os dois têm seus prós... Tem momento pra tudo. Gosto dos dois! Defina o ato de desenhar Pergunta difícil... Não sei responder... Talvez, assim como qualquer outro tipo de arte, trazer a tona o que tá dentro de você, o que você não aguenta segurar só pra ti! Fale sobre Tempo Seco Tempo Seco é o que não aguento segurar só pra mim sobre SP. O nome é uma referência a maioria dos dias em SP: Seco mesmo, poluído e sem umidade. Tá muito no começo ainda e pretendo explorar mais essa série, que é um olhar sobre vários momentos na vida das pessoas, no cotidiano da cidade, momentos de tensão, lazer, tristeza, lirismo, depressão, ódio e etc... sempre tendo como pano de fundo a minha visão da cidade, a minha SP!! Solta os cachorros Organização é a base pra tudo no trabalho, na vida, na cena! Nos organizando, podemos sempre construir coisas maiores!! E sejam bem vindos ao Tempo Seco: www.goma-blog.blogspot.com.br Valeu pelo espaço, Fabio. Abraço a todos ;)
  5. 5. Maurolauropaulo, o Homem Banda Estava eu vagando pelas ruas de Porto Alegre quando me deparei com este verdadeiro espetáculo. O Homem Banda cantava, tocava e dançava pela calçada. Fiquei apreciando por algum tempo. Esse é o ser humano. Enquanto uns se dedicam a construção de bombas e artefatos de destruição em massa, outros constroem coisas mais belas. Seu trabalho reúne não só uma diversidade considerável de instrumentos, como mais de uma forma de expressão artística. Como trabalhar com tantas coisas ao mesmo tempo? Não acredito que seja algo tão complexo assim. Hoje em dia é natural se trabalhar com diversidade. Da mesma forma que um trabalhador necessita de diversas ferramentas e também exerce diversas funções em seu trabalho ou da forma que uma dona de casa leva sua vida... O fundamental é trabalhar com a simplicidade. Não domino, nem sou “expert”, em nada do que faço, mas pego um pouco de tudo para no final somar e ter força. Como foi sua trajetória até chegar nesse ponto da multiplicidade? Na verdade, ser “Homem-Banda” é uma ideia antiga, desde quando comecei a tocar bateria aos 14 anos. Mas foi na Suiça, em 2006, que comecei a juntar acordeom, chocalho no pé direito e Kazu (pode se dizer saxofone de boca). Neste mesmo ano, na Bahia, conheci um “Homem-Banda” Alemão, Bernard Snider, que me inspirou bastante. Ali pude ver que era super possível eu ser um “Homem-Banda” também. No dia seguinte coloquei um bumbo nas costas e daí para a frente só fui acrescentando instrumentos, até chegar no que se tornou a base de tudo em 2008, com 20 instrumentos, uma garrafinha de água e um lançador de confetes. Existem pessoas que desenvolvem trabalhos semelhantes em outras partes do mundo. Existe alguma forma de contato e troca de informação entre essas pessoas ou os trabalhos rolam sem essa interação? Existem vários e de diversas formas. Cada um tem a sua maneira e sua personalidade. De todos os que conheço, mantenho contato com poucos... Mas, em princípio, acredito que os Homens Banda, por si próprios, são solitários e individualistas. Não é mesmo? hahah! Artistas de rua existem desde a idade média, onde se observavam trovadores, contorcionistas, entre outros. Podemos até citar exemplos anteriores. Mesmo sem nenhuma forma de apoio ou incentivo, essas atividades resistem através dos tempos. Como explicar isso? Aarte, desde o seu princípio, é um ato de doação. Você se entrega e recebe em troca as condições de continuar com seu trabalho. No Brasil, a arte de rua começa a ser mais bem vista. Em países vizinhos, como Argentina e Chile, se ganha melhor e na Europa mais ainda. Posso afirmar que, aqui em Porto Alegre, não tenho o que reclamar do meu chapéu. E Maurolauropaulo? É um nome ou um pseudônimo? Nome artístico e mais democrático. Você pode escolher qual deles acha melhor. Continuando por esse caminho, quem é Maurolauropaulo quando não é o Homem Banda? Mauro Bruzza Voltando aos artistas de rua, o que seria necessário para se fortalecer esse tipo de atividade? Mais artistas de rua! Um recado para os que estão começando a caminhar nessa estrada: Sigam!
  6. 6. “Não sou nada, se não uma gota d’água sedenta (como um infinito inclassificável neste mundo maluco).” Renata Guadagnin Em toda parte encontramos pessoas na luta, produzindo, acrescentando, modificando. Cada um utilizando seus meios. Cada qual seguindo seu caminho. São vários caminhos fazendo parte da mesma estrada. Estamos todos juntos, ao mesmo tempo que sozinhos. Encontros e desencontros acontecem a todo momento. Uma figura que esbarrei por essas andanças e que faz da sua vida um instrumento de transformação é Renata Guadagnin. Você possui um trabalho como ativista cultural e outro voltado para questões sociais. Onde esses trabalhos se encontram e onde se distanciam? São todos trabalhos autônomos e independentes. Para mim, parece ser necessário manter uma ligação entre o trabalho com a cultura e as questões sociais. O ponto de encontro entre eles é justamente acreditar que através da cultura possa se realizar uma real evolução social, a utilização da cultura como um dos meios de expressão das massas sociais, construção e respeito à cultura popular. Mas se distanciam quando preciso expor as questões sociais com as quais trabalho e tenho vivência ao mundo acadêmico, tendo que falar “academêis” e teorias abstratas que não dialogam com a realidade. O que me parece ser uma infundada falta de cultura quando tratamos de questões sociais com linguagem e expressão que não são, via de regra, compreendidas pelas grandes massas ou se quer dialogam com elas. E aí acontece o distanciamento entre cultura, população e “sociedade acadêmica”. Há sistemas paralelos que não são enxergados pelo sistema, não há o reconhecimento da cultura como meio de crescimento social, e aí a dificuldade de inserir cultura para trabalhar com as questões sociais e explanar isso dentro da ‘Universidade’. O movimento quilombola em Porto Alegre. A resistência do povo quilombola no RS é muito forte. Em Porto Alegre acompanhei, desde 2003, a luta do Quilombo da Família Silva, situado no bairro Três Figueiras, região nobre da cidade. Os descendentes de escravos residem nas terras desde 1941, quando a primeira geração da família veio fugida de São Francisco de Paula, onde ainda eram mantidos como se escravos fossem. Em veio a primeira conquista, depois de muito combate com a polícia e resistência à especulação imobiliária, o então Presidente da República assinou um decreto declarando o Quilombo da Família Silva o primeiro Quilombo Urbano do Brasil e que as terras ocupadas pela Família Silva eram de interesse social e cultural do país, devendo assim, serem garantidos os direitos territoriais da comunidade. Como anda essa situação hoje? O Rio Grande do Sul é o último lugar que as pessoas pensam ter quilombos em função da colonização alemã e italiana. Mas há registros regionais que indicam a existência de aproximadamente 130 comunidades, a maioria em zona rural. No entanto, boa parte dessas comunidades ainda aguardam a posse e titulação de propriedade da terra, embora seja um Direito garantido pela Constituição Brasileira, enfrentando diversas dificuldades de acesso inclusive à rede pública de saúde e educação já que não possuem endereço reconhecido, é como se as terras ainda fossem terras de ninguém: às vezes surge um ou outro se dizendo proprietário, iniciando diversos processos na tentativa de garantir a posse da terra para os descendentes de escravos que lá estão há séculos. O Quilombo da Família Silva vem, desde 2006, obtendo, vagarosamente, alguns avanços: agora possui saneamento básico e desde 2010 estão tentando finalizar a construção de uma pequena biblioteca com livros e computadores dentro do território. Aos poucos o respeito à cultura e história dos diversos povos riograndenses está se consolidando e o preconceito se desfazendo. E seu trabalho com os presos? Moro nas proximidades do Presídio Central de Porto Alegre desde os 6 anos, passando por ali quase diariamente. Sempre me causou certo incomodo e inquietação ver a mesma situação degradante há tanto tempo. Mas a aproximação efetiva com os presos surgiu no meio deste ano, quando tive contato com o Projeto Direito no Cárcere, realizado na Galeria E1 do PCPA, que utiliza a arte como forma de expressão e instrumento de resgate da autoestima dos integrantes, já que todos são dependentes químicos em tratamento. Depois, obtive contato com um preso de outra galeria que escreve poesias, letras de músicas e já tem editado um livro e que encontrou assim uma forma de controlar os instintos mais agressivos, mesmo dentro de um ambiente totalmente insalubre e insuportável. A partir disso realizei algumas entrevistas com pessoas ligadas ao sistema carcerário, presos, familiares e funcionários do Presídio para tentar compreender os ecos que gritam atrás dos muros e que a sociedade não escuta, ou não quer escutar (menos ainda ver). Qual a importância deste tipo de trabalho? Trabalhos que dão voz a quem nunca é escutado são importantes porque mostram a falência de todo o sistema. O sujeito ingressa em sistemas paralelos, como no Presídio Central, e quando retorna para a “sociedade” continua fora do controle social e sendo aquilo que a mediocridade considera ameaça. No entanto, quando ‘o cara’ está lá dentro do sistema prisional, vivendo um verdadeiro inferno, sem condições mínimas de sobrevivência, dividindo o chão que dorme com ratos e doenças, ninguém se preocupa com o que está acontecendo. Não tem como sair do inferno “regenerado” ou “ressocializado”. A importância da realização de trabalhos dentro do sistema prisional se dá para isso: demonstrar que o Estado-poder utiliza um discurso falacioso de ressocialização sem humanidade. Por detrás do
  7. 7. discurso há apenas o interesse em ‘varrer para baixo do tapete (imundo)’ o lixo humano que é produzido pelo próprio sistema. Quais os principais problemas enfrentados no cárcere? De modo geral, a estrutura arquitetônica das casas prisionais no Brasil, devido à superlotação e o aumento gradativo no número de presos, acaba sendo o principal problema. Com prédios completamente destruídos e sem infraestrutura, não há condições mínimas de higiene. O esgoto dos (pseudos) vasos sanitários escorre pelas paredes dos “quartos” dos andares de baixo. Em um ambiente assim, não há condições mínimas de sobreviver, o que acaba dificultando ou tornando praticamente impossível a realização de trabalhos (educacionais e laborais, por exemplo) na grande parte das casas prisionais brasileiras e, em especial, me refiro aqui a situação do Presídio Central de Porto Alegre, com o qual tenho tido esse contato e que já foi considerado por autoridades o pior da América Latina. Todos esses problemas na estrutura acabam refletindo em tudo, por óbvio, com mais impacto na saúde dos presos. A maior causa de morte hoje no PCPA são as doenças infecto-respiratórias (broncopneumonia, tuberculose, etc). Há apenas um médico para atender uma população de 4 mil presos. É o descaso com a saúde de quem não pode pagar por ela refletindo até mesmo nos que estão sob a guarda do Estado. No meio disso tudo, ainda existe um blog. A que se destina este espaço? Todo mundo já se perguntou o que é a vida. Para mim ela é um infinito inclassificável que precisa ser respeitado. As pessoas são únicas em suas diferenças, mas são todas parte da mesma humanidade. É a isso que o blog se destina, a escrita de rabiscos e devaneios sobre o que é a vida, esse infinito inclassificável que tentamos classificar o tempo todo. É um espaço de expressão, às vezes com pessimismo, às vezes com otimismo e entusiasmo sobre a vida... E a faculdade de Direito? Como todo “bom jovem”, ingressei na faculdade e bá! Por incrível que pareça, eu não sei por que o Direito! As pessoas me diziam para fazer Relações Públicas, Comunicação, Jornalismo... Mas desde sempre queria fazer Direito. Talvez fosse aquela ingenuidade de criança que acredita que fazendo Direito poderá fazer justiça. Mas aí cai a ficha e tu se dá conta que são coisas diferentes. É uma coisa sem explicação, mas eu sabia que tinha que fazer Direito. Ao longo do curso pude desconstruir toda a visão entre o SER e o DEVER SER tão discutindo no Direito. Vi que é tudo uma grande mentira. Ao longo da faculdade, percorri vários caminhos: tentei o comum – ser burro de carga em estágios da área, mas não deu. Fui ser pesquisadora de iniciação científica (o menos pior), onde passei por diversas áreas do Direito. Com esse contato com Grupos de Pesquisa e Estudo, me peguei pensando: o que essa gente quer teorizando sobre algo que eles não vivem? Quando é que o Direito vai subir o morro? Ou melhor, vai ser feito pelo povo? Definitivamente o curso de Direito não é o que eu esperava e acho que nunca foi. Serve para reforçar a sociedade da mediocridade. Expandindo um pouco mais a conversa: Estamos passando por diversas questões no país (como o extermínio de povos indígenas em diversas regiões, remoções forçadas de comunidades carentes, a usina de Belo Monte,o Código Florestal...) e um ponto em comum entre todas essas questões é o poder de quem tem grana sobre quem não tem. Mesmo com isso tudo acontecendo de forma tão explícita, a grande maioria parece não ver e quando vê, finge que não tem nada com isso. “Eu não tenho nada a ver com isso, minha vida já tá resolvida, por que vou me preocupar com a dos outros?”. A sociedade está imersa em uma cegueira promovida por quem detém o poder. Ninguém se preocupa com o outro. “Quanto menos pessoas concorrendo comigo no mercado de trabalho melhor.” Há um sentimento de concorrência muito forte, o que causa sofrimento. De outra parte gera uma alienação e um egoísmo, individualismo... “Azar se as pessoas estão morrendo de fome.” A tendência é sempre a da acumulação. Por isso é necessário trabalhar contra essa cegueira. Para fazer com que mais pessoas se unam a favor de uma coletividade humana e não desumana. Tudo isso é humano, demasiadamente humano. Mas é necessário despertar para o bem e não para a destruição do próprio irmão humano. Expandindo ainda mais: Em termos mundiais a coisa não anda muito diferente, mostrando que os acontecimentos no interior do nosso território é o reflexo de algo muito maior que está acontecendo. Você acredita que possa acontecer uma mudança radical no cenário de dominação e exploração em que vivemos? Não sou otimista, mas também não sou pessimista. Acho que o movimento de mudança é inevitável. No interior de cada um deve haver o sentimento de insatisfação com toda a situação de dominação que reflete em ‘desigualdade’, o que já deve impulsionar certa mudança de comportamento. Fortificando isso, acredito que podemos ter grandes movimentos sociais unidos com o interesse comum da coletividade e melhor distribuição de riquezas desse planeta. De outra parte, acho que há também uma tendência a acumulação, como referi antes. O poder dominante (dinheiro) e quem o detém não vai ceder tão facilmente. Mas é possível uma mudança radical desde que consigamos enxergar essa imposição materialista feita pelo poder e que causa tanta dominação, exploração e destruição. Por aí começa uma mudança grande e que pode fortalecer essa contracorrente a favor da humanidade. Vamos dar “asas a uma esperança equilibrista”.
  8. 8. Imperador Belial expõe som cru, ríspido e agressivo Para uma banda conseguir se manter na ativa com 14 anos de estrada não é nada fácil. Ainda mais se essa banda tocar um metal de raiz, indo buscar nos mestres do estilo toda a referência, sem perder a criatividade e o instinto. Raphael Mangelli “Inkubus” irá falar um pouco sobre essa jornada. Conte sobre esses 14 anos de metal. Como é estar desde 1998 na estrada? Saudações Fabio!! A banda começou em 98, com uma formação diferente da atual e com o propósito de prestar tributo ao antigo culto ao Metal Negro que estava tendo sua essência deturpada por todas aquelas bandas sinfônicas, ultra-melódicas e comerciais, cheias de vampirinhos deprimidos, e pela exposição excessiva na mídia. Quem estava na cena da época, sabe do que estou falando. Imperador Belial foi nossa resposta para aquele estado de coisas, uma forma de mostrar que o verdadeiro culto ainda estava vivo. Até aqui foram 14 anos de muita luta. Passamos por diversas dificuldades, mas também foi muito compensador. Ao longo desse tempo conhecemos reais irmãos, guerreiros e guerreiras que tem nos apoiado e a cada show que fazemos percebemos uma resposta cada vez maior do público. Continuaremos aí pelo subterrâneo por alguns anos, até nossos fígados agüentarem. hehe Quais as principais mudanças observadas no cenário durante esse tempo? O cenário mudou bastante em diversos sentidos e tomaria muito espaço falar detalhadamente sobre uma questão tão ampla. Vou resumir as principais mudanças que observei em alguns tópicos, sem me aprofundar nelas: - A moda do pseudo black metal sinfônico passou; - O câncer white shit, unblack weak, se espalhou e hoje vemos grandes nomes do metal nacional dividindo palco com essa escória, tornando-se igualmente escória; - A internet ajudou em algumas coisas e atrapalhou em outras, mas isso é algo irreversível; - A postura dessa nova geração que cresceu com o advento da internet, em sua maioria, é ridícula; - Hoje em dia, na maioria das vezes, as bandas tem melhores equipamentos pra tocar nos locais de shows; - As bandas nacionais tem adotado uma postura mais profissional em relação a produção fonográfica; - Cresceu muito a participação da mulher no underground nacional. E na banda? As constantes mudanças de formação alteraram o som ou a essência do Imperador? As mudanças nos atrapalharam bastante em relação a gravar material novo e fazer shows, mas a nossa proposta musical/ideológica permaneceu intacta. Apenas, ao longo dos tempos, fomos lapidando e aperfeiçoando. Quais as principais influências? Nossas principais influências são Venom, Sarcófago, Hellhammer/Celtic Frost, Motörhead, Vulcano, Black Sabbath, Bathory, Sodom e Bulldozer. Porém, procuramos manter uma integridade musical e lírica, sem parecer apenas uma cópia de nossas influências. Mas são inegáveis as referências à velha escola. Tem novidade vindo por aí? Ainda em 2012 sairemos em duas compilações pelos selos Violent Records e Nocturnal Age Records, com faixas diferentes em cada uma. Também será lançado, na Malásia, um split com a banda Saktism, em formato pro tape com 4 músicas nossas, pela Metal Porn Productions. E no início de 2013 sairá nosso álbum, que se chamará “Lustful Sin”. Pra fechar: Grande brother, agradeço aí pelo espaço cedido, desejo vida longa e sucesso à você e ao Reboco Caído Zine. Quem quiser mais informações sobre nossas atividades, acesse nosso site: www.imperadorbelial.com Sex, Drinks and Metallllllllllllllllllllllllll
  9. 9. Denilson Reis - 25 anos de quadrinhos Denilson Rosa dos Reis, professor de História, guitarrista de blues e fanzineiro. Editor do fanzine Tchê desde 1987. Publica as revistas Quadrante Sul e Peryc, O Mercenário. Ganhador do Troféu Risco em 1988, com o fanzine Tchê, e do Prêmio DB Artes em 2010, com a revista Quadrante Sul. Publicou no livro Raízes de Alvorada, em 2006, textos sobre a História de Alvorada/RS. Como foi o início da relação com os zines? Foi através dos quadrinhos de super-heróis Marvel. Depois de assistir o filme do Conan, comecei a ler quadrinhos. Um cara do Maranhão me convidou para entrar no seu fã-clube depois de ver minha carta numa revista da Editora Abril. Ele editava um ‘jornalzinho’, que depois ficamos sabendo ser um fanzine. Na sequência o cara começou a incentivar uma galera a fazer o seu próprio zine e acabei, em dezembro de 1987, lançando o Fanzine Tchê 01, com capa de Henry Jaepelt e HQ escrita por mim e desenhada pelo argentino Isaac Hunt. Isto há 25 anos! Em tempo, o cara que mencionei e responsável pelo meu início nos fanzines foi o fantástico Joacy Jamys, figura mítica dos fanzines no Brasil. Fui o primeiro com quem ele fez contato fora do Maranhão. E com os quadrinhos? Como falei acima, depois que assisti ao filme Conan - O Bárbaro, em uma reprise no cinema (Isto mesmo, numa época em que aparelho de vídeo K7 era raridade, os cinemas reprisavam filmes que viraram Cult pelo público), descobri que o personagem era oriundo dos quadrinhos (mais tarde fiquei sabendo que era dos ‘pulp’) e comecei a ler a revista A Espada Selvagem de Conan. Virei fã do Conan (tanto que hoje tenho todas as revistas do personagem publicadas no Brasil), mas fui além. Comecei a ler outras HQs da Marvel e depois DC Comics. Quando comecei com os fanzines descobri o quadrinho nacional e virei militante, defendendo as HQs produzidas no Brasil. Como foi a transformação do Quadrante Sul zine para revista? Na real a Quadrante Sul já nasceu como revista. No final da década de 1980, eu editava o fanzine Tchê,Alex Doeppre, o fanzine Antimatéria, e o Gervásio Santana, o fanzine Estilo. Todos eram zines ‘papel xerox’ e a Quadrante Sul seria uma publicação impressa em gráfica, além de ‘remunerar’os desenhistas com exemplares da revista. Claro que o que conseguimos naquela época foi uma impressão em off-set com capa em duas cores, ou seja, tudo bem limitado. 20 anos depois, já adultos e com alguma reserva financeira para bancar uma revista com capa colorida e impressa em gráfica com alto padrão de qualidade, retomamos a revista.Além disso, buscamos retomar também alguns personagens que havíamos criado na época em que publicamos nossos primeiros zines e os números 1 a 3 da Quadrante Sul. Foi um ‘revival’ que curtimos muito e logo estaremos dando continuidade. O panorama atual dos quadrinhos: Os quadrinhos estão bem diferentes da época em que comecei a colecionar. As revistas estão mais produzidas graficamente e temos uma opção grande de publicações e estilos. O preço é que anda bastante salgado, o que faz as tiragens caírem bastante. Hoje seleciono bastante o que vou comprar, tanto que não tenho mais uma coleção mensal. A única exceção é a revista Vertigo. Quanto ao quadrinho nacional, temos visto ótimas obras, a maioria nas livrarias e revistarias especializadas. Sinto a falta de ir numa banca para comprar um gibi com diversidade de autores brasileiros. O que é indispensável em um quadrinho? Um personagem marcante é fundamental! A história tem que ser bem estruturada e com uma compreensão fácil, onde o leitor consiga acompanhar o roteiro sem ter que retomar a leitura após cinco ou seis páginas. Quadrinho é divertimento, mesmo que o enredo seja denso, crítico ou existencial. O desenho chama bastante a atenção, mas uma HQ sem um roteiro bem escrito não fica na nossa memória. Um personagem inesquecível: Conan, sem dúvida nenhuma! Robert E. Howard foi iluminado ao criá-lo. É o tal personagem marcante que falei a cima. Considerações finais: Aquele tradicional agradecimento ao Fabio pelo espaço e a você que leu estas minhas poucas palavras. Leia muito quadrinho ou o que você curte, faça zines, mantenha contato com as pessoas, curta a vida!
  10. 10. Nardones Contos de horror, clássicos B do cinema, histórias macabras e hipotéticas tocadas por veteranos. Esse é o horror punk da banda Nardones. Gravado em maio de 2012, o EP “Quase Indolor” vem com quatro canções - Quase Indolor, Possessão, Alma Gêmea e Eu Não Sei Dizer Adeus. Quer saber mais? Eu também. Buscando mais informações, troquei uma ideia com o vocalista Victor Rocha (Victor Jack) O que é Nardones? Nardones é uma banda de horrorpunk autoral que nasceu da vontade do Ricardo (Guitarra) em montar algo do estilo. Como eu sempre quis ter uma banda com ele e meu estilo preferido é Horror, seja ele punk, metal ou rock, o projeto acabou casando como uma luva. Queríamos uma banda nacional de horrorpunk com temas nacionais, monstros nacionais... O nome teria que seguir a mesma linha. Optamos por este nome por acreditarmos que ele remete ao horror no subconsciente das pessoas, por ser uma referência a um caso que chocou. Quero deixar claro que não somos a favor do crime ocorrido! Além do mais, existe um trocadilho excelente com RAMONES, que obviamente é um influência. E o horrorpunk? Como você definiria esse estilo? O horrorpunk, pra mim, é como aqueles filmes de terror da década de 80 ( “A Hora do Espanto”, “A Hora do Pesadelo”, “Necronomicon”). São músicas com a temática voltada 100% para histórias de Terror, com a pegada do punk. É aquele terror que você torce pelo monstro! Normalmente as letras estão sempre homenageando um clássico cinematográfico do gênero, ou criando seu próprio roteiro, alguma história que poderia estar nas telas. É um gênero descompromissado com o social ou qualquer outra coisa. A intenção é fazer Terror na música, assim como é feito em todos os outros gêneros de arte (literatura, cinema, pintura...) Qual é o lance da maquiagem? Se a banda se propõe a tocar histórias fictícias de Terror e envolver o espectador nesta atmosfera, nada mais justo que as músicas sejam interpretadas por monstros cinematográficos, né? Além de ser uma marca muito forte do gênero, ajuda as pessoas a perceberem o quão fantasia é aquilo e a se identificarem com aquele personagem “X” do Filme de Terror que você aprende a amar (Freddy, Jason, chucky, Pinhead... a lista é infinita). Tem também todo o lance da mística por traz do corpse paint. Quais as principais influências da banda? Obviamente Misfits desponta não só como criador do gênero, mas por ser até hoje uma das bandas que melhor conseguiram transcrever o universo do Terror em música (na minha opnião). Mas a banda tem 4 integrantes e cada um traz sua influência. O Misfits é apenas a interseção de todos nós. O Ricardo Sá (Guitarra) veio do Bendis, uma banda de ska e curte Black Sabbath, Slayer, Dead Kennedys... por aí... Eu (vocal) curto muito Trash oitentista, alguma coisa do new metal (os que remetem à terror) e punk oitentista. Na verdade, o que eu curto é TERROR. Tem esse tema já me ganhou pela metade. O Ned (baixista) é da praia do rock-a-billy, psychobilly, country americano, folk, essas coisas... Nosso novo membro, Rafael Lobato, veio do Unearthly, que era uma banda de Black Metal. Pode parecer estranho, mas todos estão ligados pela vontade de tocar o TERROR! O que o pessoal pode esperar? Pode esperar muito terror, deboche, sangue, juras de amor maldito, zumbis, vampiros, demônios, H.P. Lovecraft... e um show cheio de energia do inicio ao fim, com todo o clima necessário para se fazer um bom filme de horror! Digo, show de Horrorpunk... Letras em português e um som intenso, pesado e às vezes dançante, o que evidencia nosso sarcasmo no trato com a morte. www.br.myspace.com/bandanardones www.youtube.com/user/bandanardones
  11. 11. Sabotage neles Sabotage, nascido como Mauro Mateus dos Santos, conseguiu mostrar o verdadeiro significado da palavra acreditar. O cara que nunca desistiu. Referência no Rap e no cinema, Sabota foi assassinado dia 24 de janeiro de 2003. Sua obra, no entanto, continua mais viva que nunca. A novidade agora é o documentário SABOTAGE: O MAESTRO DO CANÃO, que tem lançamento previsto para o primeiro semestre de 2013. Ivan Vale Ferreira, o diretor do filme, trocou uma ideia. Esse projeto teve origem em iniciativas anteriores (“Favela no ar” e “Sabotage”). Por que a decisão de dar sequência e ampliar o material que já havia sido coletado, dando origem a esse novo trabalho? O documentário Favela no ar é um filme que mostra alguns artistas do cenário hip hop de São Paulo. O filme passa por temas variados e é um panorama do que acontecia no cenário hip hop em 2002. O documentário Sabotage é uma entrevista que fizemos, na qual ele aborda diversos assuntos. Sentia que faltava algo mais profundo, que discutisse sua carreira, sua infância, sua família e amigos. Por isso decidi fazer o documentário SABOTAGE: O MAESTRO DO CANÃO. Tenho me dedicado muito a este trabalho e a expectativa é grande. O Sabotage merece isso. Como foi seu contato com Sabotage? Tivemos um dia intenso, ele nos recebeu super bem, estava disposto a falar e falou bastante. Infelizmente não tivemos tempo para desenvolver uma amizade. Mas tenho certeza que o encontrei mais vezes após ter morrido do que quando estava vivo. Sua presença ainda é sentida com frequência. Qual a maior importância deste personagem para o rap? Sabotage era muito importante para o rap nacional. Ele revolucionou o jeito de cantar e agir de um rapper. Ele sorria com frequência e misturava estilos com uma facilidade incrível.Acho que sua importância não se restringe ao rap. Ele é importante para a música brasileira. Com certeza, hoje, estaria fazendo muito sucesso fora do cenário hip hop. Como um cara de periferia conseguiu o destaque de Sabotage, que além de sobressair no meio sonoro ainda ampliou os horizontes para o cinema? É difícil achar a fórmula de como ele fez isso, mas existem características que o ajudaram. Ele era muito comunicativo, inteligente, tinha um carisma incrível, uma auto confiança invejável, era diferenciado e se destacava por isso. Mas o grande lance dele foi não se restringir ao rap. Sabotage tinha vontades e fez amizades fora deste cenário. Com um network amplo, as coisas começaram a acontecer. O Cinema veio para premiar isso. Aproveitando um momento do cinema nacional em que a periferia era destaque, não foi difícil sobressair e mostrar que, além de atuar, era capaz de auxiliar atores a parecerem mais verdadeiros, mais autênticos, como fez em O INVASOR e CARANDIRU. A principal lição deixada pelo Maestro do Canão: O que pouca gente sabe é que Mauro cantava rap junto com seu irmão, o Déda, e entre eles havia uma brincadeira: Quando um fazia algo atrapalhado o outro falava que estava sabotando. SABOTAGE era para ser um grupo dele com o irmão. Déda ficou preso por alguns anos no Carandiru e eles tinham plano de formar o grupo assim que saísse da cadeia, mas, alguns meses após sair, ele foi assassinado. Isso fez com que Mauro se afastasse da música. Assim que seu filho nasceu, após passar muita necessidade, resolveu entrar para o tráfico. Passado algum tempo, através do Raping Hood, que deu a oportunidade, Mauro resolveu se dedicar a música e abandonou o tráfico. Acho que essa persistência foi decisiva. Acho que a grande lição dele foi essa: Não desistir.
  12. 12. Entrevista Márcio Baraldi Quadrinhos e rock. Uma mistura explosiva muito bem administrada por esse verdadeiro alquimista dos traços. Com vocês... Marcio Baraldi! Como nasceu essa mistura de rock com HQs? Isso nasceu espontaneamente. Desde que me conheço por gente eu gosto de gibis e de rockn’roll, eu passei minha infância e parte da adolescência enchendo cadernos com desenhos do Kiss ,do Queen, dos Stray Cats e outras bandas. Aí quando o negócio virou profissão mesmo, lá pros 14 anos, eu passei a fazer isso pra valer. No final dos anos 80 eu fazia o personagem “Johnny Bastardo” pro jornal “Rocker”, lá do ABC paulista, onde eu nasci. Depois, em janeiro de 1996, criei o “Roko-Loko e Adrina-Lina” pra revista “Rock Brigade”, que fez muito sucesso, virou video-game, bonecos, camisetas e quatro livros até o momento. Com o sucesso do Roko, vazei pra mais um monte de revistas como: Roadie Crew, Comando Rock, Dynamite, Valhalla, Rock Underground, Metalhead, Rock Forever, Headbanger Magazine(Equador), MetalHeart (Portugal) e outras. Ou seja, no auge desse mercado trabalhei pra praticamente TODAS as revistas de rock do Brasil e posso afirmar que a gente teve a melhor imprensa roqueira do mundo! Tanto em quantidade como em qualidade. Hoje há menos revistas nas bancas, mas continuo contribuindo com todas. E dos quadrinhos você foi para os games, vídeos... Como foi essa jornada? Foi consequência natural. Quando você cria um personagem que começa a conquistar um público, você tem que oferecer produtos para esse público. Primeiro foram os livros, depois camisetas, bonecos e cheguei ao game “Roko- Loko no Castelo do Ratozinger”, que foi o primeiro game rockn’roll 100% nacional. Até a trilha sonora desbundante era nacional, feita pela super banda Exxótica.Agora ataquei de diretor de cinema e lancei o documentário “Ao Mestre com Carinho”, sobre o Rodolfo Zalla, um dos maiores mestres da HQ nacional. Minha vontade no momento é recuperar o passado da HQ brasileira com documentários que contem a história da melhor fase que o quadrinho brasileiro teve, que foram os anos 60 ,70 e 80. Além do rock você tem passagens pelas charges políticas, pelo grafite e até andou tirando um som por aí. Conte um pouco desse Baraldi múltiplo. Eu toquei em bandas quando era moleque e também fui grafiteiro, mas nunca fui profissional em nenhuma das duas coisas. Tanto que chegou uma hora que eu parei com tudo, entrei na faculdade e me dediquei só ao desenho, que foi onde eu virei profissa e construí minha vida. Mas eu ainda tenho baixo, guitarra e teclado guardados lá em casa. Mais pra frente, quando eu tiver tempo, volto a pega-los. A música tá no sangue e tocar um instrumento faz um bem danado pra alma. Quanto as charges políticas, eu faço isso a vida inteira e vou morrer fazendo porque eu gosto de política e porque, no Brasil, o cartunista tem que ser polivalente, ou seja, fazer charges, cartuns, quadrinhos, tiras, ilustrações , caricaturas e o que mais aparecer pela frente. Uma referência indispensável: O Punk Rock e seu lema “ Do it Yourself!”, que virou meu lema de vida e me ensinou a confiar no meu próprio taco, fazer as coisas do meu jeito, ter opinião própria e ser independente sempre. E, claro, não me importar com os escrotos que sempre tem em qualquer lugar (Never mind the bollocks). O que você destacaria na produção cultural contemporânea? Não sei dizer nomes, mas enquanto tiver uma galera revoltada, querendo mudar o mundo através dos quadrinhos, do teatro, do cinema, da música , etc, eu vou aplaudi-los e renovar minhas esperanças.Se só sobrarem os bunda-moles, fúteis e alienados, eu vou ficar, como diria o saudoso IRA!, bem “longe de tudo!”. E as novidades? O que está por vir deste inquieto Baraldi? Agora eu tô olhando pro passado, não no sentido nostálgico, mas querendo resgatar a história dos grandes mestres dos Quadrinhos Brasileiros. Uma história que não foi devidamente contada e que as novas gerações não conhecem, não sabem quem são ou foram. Minha vontade agora é fazer documentários do Eugênio Colonnese, Shimamoto, Fernando Ikoma e outros da geração Taika/Edrel. Vamos ver se tudo dá certo como deu com o Zalla, que rendeu um ótimo DVD. Quem não tem ainda, faça um favor pra si mesmo e compre na www.comix.com.br Arte ou entretenimento? Acho que arte é justamente pra ser entretenimento e cultura pra população. Senão, pra que serve a arte? Os museus e galerias têm que ser lugares frequentados por gente de todas as idades e condições sócio-econômicas. Arte é pra ser ensinada nas escolas desde o pré-primário, tanto pra produzi-la quanto pra apreciá-la. Se todo mundo fosse bem educado, inclusive através da arte, com certeza a gente não estaria ouvindo “tchus” e “tchas” nas rádios, nem vendo um monte de lixo na TV todo dia. Os próprios quadrinhos poderiam ser mais divertidos e menos violentos e neuróticos. Enfim, o nível exigido e praticado seria outro. Arte é revolução?
  13. 13. Arte é educação, comunicação, política e cultura. E tudo isso tirou a gente das cavernas e continua fazendo a gente evoluir. Portanto, arte é permanentemente (r)evolucionária. E revolução é evolução? Revolução é evolução com um “R” de rebeldia na frente. O fechamento é com você. Manda bala: BANG, BANG, BANG! Mate a injustiça e a ignorância e o mundo será melhor! Visite o site do Baraldão: www.marciobaraldi.com.br
  14. 14. The Ricky C Quartet Apesar das críticas que tenho sobre a internet (confiabilidade 0, entre outras), não podemos negar que ela possui suas utilidades. Uma delas é o contato rápido com pessoas que estão distantes. Encontrei um amigo de longa data, dos anos de loucura extrema e insanidade compulsiva, em uma rede social e logo restabelecemos contato. Quando ele embarcou para Londres, era conhecido como Ricardinho. Hoje ele é Ricky C, vocalista da banda The Ricky C Quartet. www.therickycquartet.com Fale um pouco sobre a banda. A banda se formou no início de 2011 com a proposta de fazer um som com sentimento, seja ele de qualquer tipo. Resgatar as bases de guitarra com doses de Chuck Berry misturada com emoção e raiva.Assim como faziam as bandas punks e rock’n roll dos anos 60/70 e 80. Como tem sido os shows? Muito bons. É legal ver o seu trabalho reconhecido, ver que ficar até de madrugada fazendo música e ensaiando valeu apena. Melhor ainda quando a cerveja é de graça, é claro! hehe Quando éramos moleques, muitos diziam que tudo era uma fase e logo veríamos que isso não tava com nada. O que você falaria para essas pessoas depois de tanto tempo na estrada? Pois é... Boa pergunta, Bob! Até eu me pergunto, às vezes, como ainda estou na “má” vida. hahaha... Quando era jovem e decidi levar uma vida diferente, foi porque não me sentia parte do considerado normal. Minha vida é uma só e sempre quis fazer dela o mais real e honesta possível, de acordo com a minha personalidade. Pra aqueles que diziam que isso era coisa de moleque, eu digo uma coisa: O moleque cresceu e continuou moleque!!! Quem não quer ser moleque a vida inteira???? As bandas de punk rock e hard core brasileiras influenciaram várias cabeças pelo mundo a fora. Como é o acesso dessas bandas por aí? Sinceramente, os ingleses não conhecem muito sobre bandas brasileiras. Não só as brasileiras, como qualquer banda que não cante em inglês. Sendo assim, os gostos musicais dos ingleses se resumem a bandas que cantam em inglês. O que eles dizem é que não gostam de escutar uma banda que canta num idioma que eles não conseguem entender. Já as pessoas de outros países europeus são diferentes, não ligam se entendem ou não o que a banda está cantando. Para finalizar: Espero um dia poder tocar no Brasil e conhecer uma galera legal que curta um som bom rock’n roll e que curta chapar o coco como nós. Abraço, Bob. E valeu pela entrevista!
  15. 15. Rafael Campos Rocha e seu “escracho ignóbil e malicioso” Rafael Campos Rocha é o nome de mais essa grande revelação do quadrinho nacional.Além de produzir para grandes veículos de comunicação, ainda atua com blogs e zines ( http://rafaelcamposrocha.blogspot.com).Atualmente ele está lançando o livro “Deus, essa gostosa” e já tem planos para um próximo. Fala aí, Rafael. Conta para o pessoal. Deus, essa gostosa: Como foi a construção dos personagens e a criação das primeiras histórias? A primeira aparição de Deus foi em uma série de 4 pequenas histórias baseadas em textos apócrifos sobre Cristo. A série tinha o pernóstico nome de Tetralogia Cruciforme e, por sua vez, fazia parte de um fanzine digital que enviava para uma lista de e-mails desde 2007. Voltando ao personagem, como eu disse, Deus “cresceu” na história um pouco à minha revelia. Terminada a série de histórias sobre Cristo, resolvi fazer uma outra série de 4 histórias, dessa vez com Ela como protagonista. Desde a primeira aventura solo já se chamava “Deus, essa gostosa”, que foi o nome mais escandaloso, irritante e debochado que me ocorreu. Essa série foi responsável pelo meu ingresso na imprensa com mais assiduidade. As 4 histórias foram publicadas pela Piauí e a Folha de São Paulo passou a me chamar para criar cartuns para o caderno Ilustríssima. Sobre a construção do personagem, acho que sua personalidade já estava pronta desde a sua primeira aparição, lá nas histórias sobre Cristo.Aideia era fazer um Deus oposto ao Deus da Civilização. Esse Deus, como sabemos, é masculino, solar, autoritário, auto-consciente, caucasiano, agressivo, nacional e calcado na tradição e na Cultura. Portanto, eu queria um Deus feminino, noturno, pacífico, contra-cultural, irracional, não-ocidental etc. O que já expressa minha opinião sobre coisas como o Estado-Nação, a Civilização Ocidental, a Verdade e a Cultura. Para mim, são todos pretextos para o imperialismo, o roubo, a exploração e o estupro. Sem mais. E a reação do público? O que o pessoal tem achado das aventuras de Deus? Olha, meus amigos se divertem e a lista de pessoas que pedem para receber os e-mails vem crescendo. Muitos leitores do jornal também tornaram-se leitores do zine mensal, mas, é claro, muita gente detesta. O trabalho foi chamado de “um escracho ignóbil e malicioso” em uma carta muito divertida que o jornal recebeu e volta e meia recebo algum e- mail dizendo que vou arder no fogo do Inferno. Enfim, as pessoas que gostam, gostam porque Ela é Deus, criadora da Vida e do Universo e é mulher, negra, sexuada, amante de bebidas fortes, punk-rock feminista e futebol argentino. E as pessoas que detestam, detestam justamente por esses mesmos motivos. Além da divulgação pela internet, quais outros meios você tem usado para fazer suas histórias chegarem aos leitores? Bom, ela aparece de 15 em 15 dias no caderno ilustríssima, da Folha de São Paulo. Já esteve na revista Piauí, na revista especializada Graffiti 76°/ quadrinhos, na revista + Soma, além de aparições em outras revistas independentes. Estou fazendo duas histórias para a revista Samba, também especializadas em quadrinhos. E acabei de lançar um livro pela Cia das Letras, com uma história de umas 70 páginas. Há pouco tempo aconteceu o lançamento do seu trabalho em São Paulo. Sim, é justamente esse livro, publicado pela Cia.das Letras que acabei de lançar. Se chama “Deus, essa gostosa” e é uma história com 70 e tantas páginas em que conto uma semana da vida de Deus. Nessa semana, podemos conhecer sua rotina como dona de um sex-shop, seu lazer, quase sempre ligado aos bares e restaurantes (Deus adora uma cerveja com os amigos), sua paixão recalcada por Satã, Senhor dos Infernos, seu exercício diário com o jovem Eder Jofre, sua transmutação em predadores e presas africanas e sua paixão pelo futebol. E virão novas aventuras por aí? Já estou desenhando outra história, que deve ter umas 80 páginas. E tenho outro roteiro iniciado. Uma editora de Recife, a “livrinho de papel finíssimo”, está preparando uma coletânea. E continuo fazendo minha tira para a Folha e histórias independentes para revistas especializadas em quadrinhos.
  16. 16. A Menstruação Anarquika Formada em 1993, no ABC Paulista (SP), a Menstruação Anarquika vem fazendo do som uma forma de divulgar suas ideias e de protestar contra as injustiças sociais. Já tendo passado por diversas formações, a banda conta hoje com Edwiges (Guitarra & Vox), Miriam (Guitarra), Shicka (Vox), Cínthia (Baixo & Vox) e Larys (Bateria). Troquei uma ideia com Cíntia (atual baixista) sobre a banda. Pra começar, uma geral por todo esse tempo de estrada da M.A.. Vale a pena? Vale a pena sim.Apesar das dificuldades de ser banda independente, a banda é um meio de expor nossa revolta, nossas ideias e sentimentos. Por que existem tão poucas bandas formadas unicamente por mulheres? Acredito que, às vezes, por não achar as pessoas certas para uma banda. É realmente uma pena que não existam tantas bandas formadas unicamente por mulheres. Nós mesmas, agora, estamos com a formação só de mulheres, mas já passaram homens pela banda devido a falta de mulheres que toquem. Vejo que isso, aos poucos, vai mudando. Cada vez mais vejo meninas curtindo um som, querendo aprender a tocar instrumentos e isso é muito importante para a cena. Um show que nunca será esquecido e por quê? Teve um som onde aconteceu a morte de um punk. Isso foi brutal e triste. Uma vida foi tirada por motivo banal. Infelizmente, isso jamais será esquecido. A banda fez uma música em homenagem a ele. Se chama “Violência”. Como anda o circuito underground? Hoje o circuito underground está bem amplo. Vejo bandas surgindo, pessoas cada vez mais jovens interessadas, novos movimentos... e isso é ótimo. Tem espaço para todos. Os próximos passos: O próximo passo será gravar o novo cd. Já estamos trampando em novas músicas. Acredito que lá por novembro ou dezembro já estará saindo material novo. Valeu, Fabio. Agradecemos a presença no seu zine.
  17. 17. Sno e os Fanzineiros A história do submundo é feita assim (ou assado). Uma diversidade de pessoas, com estilos de vida diversos, produzindo, documentando e viabilizando novos conceitos e pontos de vistas. O respeito ao indivíduo vai se expandindo até se tornar grupo. Grupo plural, sem uniforme (sem forma única). Não existe forma. Cada um é sua própria forma. Aprendendo com a vida. A vida a ser vivida. Do fanzine para o cinema: Como foi essa transição? Não diria que foi uma transição. Acho que foram fases da minha vida. O último zine que editei foi o “Arreia!”, de 2006. No ano seguinte, lancei a cartilha “Fanzines de Papel”. Nesse período, estava fazendo faculdade de Jornalismo. Em 2007, estava produzindo o que seria o “INGs” (documentário que também foi nosso trabalho de conclusão de curso) com meu amigo Fi Rocha. Confesso que, antes de pensarmos nesse formato, eu não gostava de produzir em audiovisual, pois sempre me virei sozinho em tudo que fiz. Como não dominava edição de vídeo, tinha certo repúdio ao formato. Porém, no decorrer da produção, peguei gosto pela coisa e, junto com meu parceiro, arquitetamos projetos. Ele, inclusive, adquiriu um monte de equipamentos, porém a parceria não mais se repetiu. Por enquanto. Quando tive a ideia de produzir o “Fanzineiros”, ele prontamente deixou os equipamentos em minhas mãos, me ensinou o básico e deu nisso tudo que está acontecendo. “Fanzineiros do Século Passado”: A segunda parte foi mesmo o final ou vem mais alguma surpresa por aí? Essa série de documentários, na verdade, era para ser um material único e ponto final. Mas surgiu a oportunidade de exibir uma prévia no “1º Ugra Zine Fest” e gostei tanto que acabou virando o primeiro capítulo. Resolvi fechar em uma trilogia. Cada capítulo tratando de determinados assuntos. Para o próximo ano deve sair a derradeira parte do doc e alguns dos assuntos tratados serão o fanzine na sala de aula e o futuro da publicação impressa. Quando você assiste a primeira e a segunda parte: O que passa por sua cabeça? É como se estivesse contando uma parte da minha vida. Estou envolvido nesse meio há 19 anos e tudo ali, mesmo dito por diversas pessoas diferentes, representa bem o que eu penso e faço. É como se cada um contasse fragmentos de minha vida. Isso é uma coisa, a outra é que percebo a importância desse documento para a escrita da produção independente no país. A forma como as pessoas reagem também é algo que mostra que tudo valeu a pena. Fazer um filme de forma independente: Como se dá esse processo? Quando se tem o material necessário em mãos, não tem mistério: é colocar a mão na massa e fazer. Sempre que faço algo que está fora de minhas obrigações de funcionário e pai de família, faço de corpo e alma, sem ficar contando com ajuda de fulano ou cicrano. Por isso a frase “Se ninguém faz, façamos!” É muito cômodo para as pessoas perceberem que não há registro de determinado assunto e ficar eternamente reclamando e esperando que a coisa venha de cima para suprir todas as suas necessidades. Sempre foi assim e sempre fui contra isso. Percebendo que havia um buraco nessa história, resolvi fazer. Simples assim. Tá... não tão simples assim. Tenho que abrir mão do meu tempo livre (que se tornou “tempo ocupado”), dos meus passeios com minha família, de descansar e colocar esse projeto documentário como um dos grandes projetos da minha vida. Perco muita coisa nesse período de produção, mas o retorno é muito recompensador. INGS: Fale sobre esse outro ótimo documentário que leva sua assinatura. Na verdade, é um projeto também com a assinatura do meu companheiro Fi Rocha e do nosso orientador, André Muniz. Foi nosso TCC na faculdade de Jornalismo e extrapolou as fronteiras acadêmicas com exibições em diversos locais. Até hoje consegue atingir as pessoas. Esse doc conta a história de dois catadores de papel que tiveram atitudes inusitadas para promover cultura: Severino Manoel de Souza, junto com sua esposa Roberta Conceição, construiu uma biblioteca em um prédio ocupado no centro de São Paulo. José Luiz Zagati, realizando um sonho de infância, montou um cinema na laje de sua casa. Foi promovido um debate indireto permeado pela questão: “o que leva pessoas nessas condições a promover cultura sem ter um retorno financeiro?” Participaram dessa discussão o então presidente da Funarte, Celso Frateschi, o sociólogo Reinaldo Pacheco, o saudoso geógrafo humanista Aziz Ab’ Saber e o músico Tom Zé. Esse documentário pode ser visto em meu canal no Vimeo, assim como as minhas outras produções audiovisuais: vimeo.com/marciosno Sua produção de zines: Ainda virá mais algum material xerocado por aí? Vontade não falta! Já até ameacei lançar um zine autobiográfico, mas, com a correria que o doc me proporcionou, acabou ficando no estacionamento. No final do ano passado fiz um fanzine em homenagem ao Redson Pozzi e, recentemente, fiz o zine que acompanha o documentário. Mas tenho vontade de retomar a produção do “Arreia!” (pode ser baixado em issuu.com/marciosno) que foi o zine com que mais me identifiquei. Mas isso é ideia para um dia que não sei quando será. Espero que seja em breve.
  18. 18. Olhando para toda a estrada e vendo o que se produziu por toda a caminhada: Valeu a pena? Olha, mais da metade de minha vida foi dedicada aos fanzines de forma direta e indireta, ou seja: essa coisa tem uma influência absurda em minha vida e já não me vejo afastado desse meio. Durante todo esse tempo, conheci pessoas maravilhosas, aprendi muito, muito mesmo. E continuo aprendendo. Como disse, todo trabalho independente, apesar de prazeroso, te “toma” muita coisa. Mas sempre foi muito gratificante. Sim, várias vezes pensei em me afastar, jogar tudo fora e seguir uma vida normal, principalmente por causa das pessoas que ficam cobrando isso ou aquilo. Enche o saco. Mas é algo mais forte que eu. Não sei explicar o que pode ser. É algo que está muito além da minha razão, do meu inconsciente. Sim, ainda vale muito a pena.
  19. 19. 2013
  20. 20. Zineteca Resistência A Zineteca Resistência é uma das iniciativas que buscam divulgar e apoiar a produção de zines, assim como registrar a sua história. O Azriel, que vem tocando a ideia, dá uma palavra sobre. O que é a Zineteca Resistência e como funciona? A Zineteca Resistência é um projeto virtual de pesquisa, divulgação e produção de imprensa alternativa. Ela funciona exclusivamente de modo virtual, mas com intenções de passar a abrir stands em eventos culturais, musicais e realizar expozines. Qual a maior importância deste tipo de projeto? Eu diria que a maior importância é manter viva a memória das publicações alternativas, em especial dos fanzines. Seja divulgando na internet e disponibilizando para download ou na realização de eventos como expozines. O objetivo maior: Apoiar os fanzines que estão na ativa e divulgar os que já encerraram suas atividades, não deixando essa arte tão importante para o meio alternativo cair no esquecimento. Qual a diferença do zine para outros tipos de mídia? Toda mídia tem suas particularidades, seus pontos positivos e negativos. O (fan)zine teve seu papel crucial nas décadas anteriores, antes da internet. Mas hoje ele ainda tem sua importância devido as suas características próprias. Como participar da iniciativa? As pessoas podem estar participando da Zineteca Resistência enviando seus fanzines para assim ajudar o acervo. Contato: www.facebook.com/ZinetecaResistenciaFANZINES
  21. 21. Negative Control Em 1995 nascia o Negative Control - São Bernardo do Campo (SP). Tocando um hardcore de primeira, estão em estúdio gravando o terceiro cd. Troquei uma ideia com Cláudia (vocal) sobre as manifestações ocorridas durante esse ano no Brasil e sobre a banda. Passo a bola então para essa guerreira despejar sua opinião e seu trabalho. Em uma época em que o ativismo está intenso pelo país, como o Negative Control vê os últimos levantes? Somos uma banda com 18 anos de estrada e nosso principal enfoque sempre foi a música de protesto. Ficamos muito satisfeitos por ver nosso país se manifestando, mas gostaríamos que estas manifestações se estendessem às urnas, pois só assim vamos conseguir fazer a revolução de verdade. Enquanto estas mesmas pessoas nos governarem, continuaremos nesta mesma situação. Fazer a mesma coisa de sempre e esperar resultado diferente é sinal de insanidade! Aparticipação punk, anarquista... underground de uma maneira geral, tem se feito notar. Como as bandas têm participado desse processo de construção? Acreditamos que as bandas, com suas letras, influenciam muito. Mas estas letras devem ser acompanhadas de atitude. Como já diziam por ai, não pode haver distância entre o que você diz e o que você faz! Como as letras do Negative Control transitam pelo cotidiano, tudo isso deve se refletir de alguma forma no som da banda. Com certeza influencia. Nosso novo disco, que ainda esta em andamento e criação, têm músicas falando, por exemplo, sobre o preço do progresso, sobre a violência, sobre caráter de pessoas falsas, também da realização de andar lado a lado com quem é verdadeiro, em fim, escrevemos sobre o que vivemos e o que vemos ao nosso redor! E os shows, como estão? Os shows estão cada vez melhores. Sentimos que as pessoas estão entendendo nossa mensagem. Só agora, próximo do final do ano, que estamos na criação do 3º CD, paramos um pouco para focar mais nesse novo trabalho. O que está por vir? Estamos terminando a Pré-Produção do nosso novo álbum, ainda sem nome definido, mas com lançamento previsto para o 1º bimestre de 2014. Estamos acabando de fechar o repertório que deve contar com mais ou menos 14 faixas e estudando algumas opções de produtores. Pretendemos gravar este novo disco “no rolo”, como era feito antigamente, de forma mais analógica possível, e também pretendemos lançar este álbum nos formatos LP e Cassete, além do CD! É um trabalho composto com muito cuidado e paixão, e que estamos ansiosos para apresentar a todos vocês! Em nossos shows já tocamos algumas músicas. Apareçam e confiram!!!
  22. 22. Uma entrevista suja Vamos para mais uma entrevista com a rapaziada do lado B dos quadrinhos. Hoje, a troca de ideias é com Cristiano Onofre, criador dos “quadrinhos mais sujos da face da Terra” O que são “Os quadrinhos mais sujos da face da Terra”? O nome começou como uma brincadeira com o fato de sempre sujar demais quando desenho. Sujo o papel e sujo a mim mesmo. Com o passar do tempo, colocar esse nome na série acabou se tornando uma justificativa pra eu não me preocupar nunca mais com a estética da coisa, mas sim com o resultado e com o desabafo que está colocado ali. O nome tornou fazer quadrinhos algo mais confortável pra mim, eu acho. Fora o fato de que as situações e sentimentos que são retratados nos quadrinhos que eu faço são, em maioria, sujos. Há pouco tempo você fez uma série de viagens para divulgar esse trabalho. Foi o melhor momento da minha vida. Passei 2012 e início de 2013 inteiros viajando por todo o Brasil (e também uma tour no Uruguai) pra divulgar o meu livro de contos, “Câmera Lenta”, e no meio do caminho acabou surgindo a série “Os quadrinhos mais sujos da face da Terra”. Tudo sempre sendo exposto em todos os lugares pra onde fui, colando na parede com fita adesiva mesmo, bem d.i.y. e preguiçoso. Mas o melhor de tudo foi ter conhecido tanta gente maravilhosa, tantos contatos incríveis e amizades que vão durar pro resto da vida. Isso não tem preço, mesmo que eu tenha passado por alguns perrengues durante as turnês, eu aceitaria fazer tudo de novo e de olhos vendados. Qual a sua principal intenção ao fazer um quadrinho? Meus quadrinhos são muito pessoais. Quando faço uma tirinha, nunca penso em quem posso estar atingindo ou em nome de quem estou falando. Tudo o que faço ali é sempre uma representação gráfica de mim, dos meus sentimentos... fico até espantado com o número de pessoas que se identificam com aquilo. O número de pessoas perdidas pelo mundo esperando que alguém dê voz as angústias é gigante e não consigo me enxergar como alguém que dá essa voz, não sei... É tudo tão complicado. Eu sempre recebo mensagens na página com pessoas dizendo que se identificam, que gostam dos quadrinhos. Fico lisonjeado com isso. Não é simplesmente uma forma de me comunicar com pessoas que admiram o que eu faço, mas é, acima de tudo, uma forma de me comunicar com pessoas que sentem as mesmas coisas que eu sinto. Existem outros projetos? No momento estou trabalhando em um livro de quadrinhos que deve sair no fim desse ano, pela Prego (para quem não conhece, sugiro conhecer: revistaprego.blogspot.com). Também estou escrevendo um novo livro de contos, que não faço a mínima ideia de quando será lançado. Pra ser sincero, sou bem relaxado com isso de datas. Prefiro deixar tudo fluir sem prazos. “Trabalho” melhor assim. Para a rapaziada que tá com os desenhos engavetados em casa e não sabe o que fazer com eles: Bem, caso a sua vontade seja não mantê-los engavetados, sugiro que comece a divulgar imediatamente.Ainternet, por exemplo, é uma puta arma que nós temos e devemos saber usá-la a nosso favor. Façam blogs, páginas, sites, páginas no facebook, o que quer que seja, mas façam. Colem seus desenhos nos muros, façam pichações, vírus, pragas de imagens, infestem o mundo com suas ideias. Por favor, o mundo precisa de ideias. E obrigado, Fabio, por essa entrevista suja.
  23. 23. O fotógrafo do underground Maurício Porão é o fotógrafo do underground. Seu trabalho com imagens já registrou diversos shows e bandas, além de passear por outras praias. Mas, sem dúvida, a faceta que mais chama atenção em seu trabalho são as modelos em cenários cuidadosamente escolhidos por Porão. Essa é a terceira entrevista que faço com o cara. A primeira pode ser encontrada no PDF QUEM SOMOS NÓS? (www.slideshare.net/ARITANA/quem-somos-ns-12314856) e a segunda foi no programa de rádio HoraMacabra (www..horamacabraniteroi.blogspot.com.br) Pra começar: O que aconteceu com seus blogs? Gostava de dar uma passada por eles para acompanhar as atividades, mas parece que sumiram da internet. Sou um pouco paranoico! Costumo retirar alguns blogs do ar porque fico pilhado de que está havendo muita exposição ou algo do tipo. De qualquer forma, realmente dei uma limada definitiva em alguns e fiquei somente com os dois que mais curto - www.faith-on.blogspot.com e www.surfnacostaazul.blogspot.com . Ambos estão no ar, pode conferir! E da nossa última entrevista pra cá, como tem rolado os trabalhos? Bem, a quantidade de ensaios diminuiu bastante devido à minha atual falta de tempo e concentração que tenho direcionado para outras áreas de minha vida. No momento estou repórter fotográfico para ter uma renda básica e pagar as despesas principais. Acho essa profissão, Fotojornalista, absurdamente maravilhosa, fantástica, enigmática, linda! Mas sinceramente creio que me falta destreza e identificação para levar isso adiante. Parece estranho, mas é o que sinto! Prefiro admirar o desempenho perfeito de alguns amigos e colegas a atuar nesse ramo. Meu lance é Mulher mesmo! Do meu jeito, da minha forma e quem gostar ótimo! Tenho muito mais autoconfiança! Além da fotografia, você andou se aventurando pelo mundo da escrita. Como foi a experiência e como o pessoal pode ter acesso a essa outra face da produção? Nada relevante! Acostumei-me a fazer algumas poesias em tons extremos de tristeza ou alegria... às vezes um misto das duas emoções. Mas é algo terapêutico e sem maiores enfoques. Eu vinha escrevendo também a saga Terra de Matuto, uma aventura bizarra de dois agentes federais intergalácticos - Udi e Grudi (eu e meu gato preto Ian Curtis), numa galáxia hostil e perversa, a Matutolândia, em homenagem à região onde resido.Tudo muito debochado e anárquico. Mas comecei a achar que algumas pessoas de quem gosto poderiam estar se ofendendo com os capítulos de extremo baixo nível ético. Resolvi dar um tempo e deixar a poeira baixar. Mas posso adiantar que, pegando um gancho no Tropa de Elite, o inimigo agora é muito mais poderoso! Udi e Grudi retornarão as aventuras agora numa nova Galáxia ainda mais hostil, a Esquizitolândia. Em homenagem à cidade onde trabalho. Funciona, sempre e sempre, como uma válvula de escape. Nada deve ser levado à sério! Voltando as fotografias: Soube que aconteceram umas exposições por aí. Como foram? Tem um povo antenado em cultura na cidade onde moro, Rio das Ostras! Eles realizam uma cena interessante chamada A Música da Cidade. Houve uma espécie de Viradão Cultural onde outras vertentes e expressões foram convidadas. Acabei entrando nesse “bolo”! Expus em dois lugares distintos pela cidade, com temas diferentes. Aproveitei para finalmente lançar alguma coisa da minha abordagem particular do Festival de Jazz & Blues local. Mas o forte sempre despenca para as modelos sensuais, exóticas e desnudas. Digamos que minha marca artística. Não sei... Costumo ter uma certa reciprocidade dos estudantes de Produção Cultural da UFF local. Tenho bastante simpatia por esses garotos e garotas. São novinhos, bem afiados em informações, simpáticos e muito malucos!!! Qual a maior importância do seu trabalho para você? E para o público? Quando eu partir dessa para uma (suposta) melhor: eternize-se tanta lindeza e formosura!!! Para o público? Faço a mínima ideia! Para um cara que trabalha com imagem: O que é beleza? Prefiro que a pergunta seja “para um cara que lida”! Viver é lindo, desejar é profundo! Desejo viver de forma linda!!! Para provocar: Arte ou pornografia? As duas coisas, juntas, separadas, misturadas, tanto faz... Cada qual com seu cada um! O que está por vir? As criaturas mais lindas do universo... desnudas como Anjos! Portadoras da Alegria da Vida!
  24. 24. Produção e resistência Wender Zanon é um daqueles caras que estão sempre fazendo, produzindo, criando, atuando em diversas frentes. Então vamos na andança, trocando ideias e vendo qual é. Comecemos falando sobre o Change your Life. Como foi a construção desse som furioso e em que pé estão as coisas? A banda começou por pilha do Guilherme (do funzine Outono ou nada e que atualmente toca na Ornitorrincos e na xarmox). Ele que escolheu cada cabeça, chamou, marcou ensaio e fez os primeiros sons. A banda trocou de formação algumas vezes. Da original restou o Insekto e eu. O Insekto, no início, tocava baixo e eu sempre fiquei gritando desafinadamente. Hoje, a banda conta com o Jonas (dpsmkr) no baixo e o Anão na Bateria, além do Insekto e eu. O “massa” dessas trocas é que o cara percebe uma evolução, algum aprendizado em cada uma, tipo, a banda começou tocando um fastcore powerviolence e hoje, de forma natural, através das nossas influências, do que escutamos, a banda tá mais pesada, mais consistente, saca? Diria que hoje até arriscamos uns metal algumas vezes. Saca? Uma evolução natural, diria. Hehe Estamos gravando um material novo pra marcar essa “nova” fase da banda. Essa parada deve sair até a metade de 2014. O foda é que a gente é enrolado pra caramba e cada um mora em uma cidade diferente. Uma hora o cara tá com vontade e tempo pra ensaiar, outra hora o cara tá desempregado, outra hora o cara tá sem grana, outra hora o cara tá viajando e por aí vai. Mas a gente mantem um ritmo até. Hehe. Quem quiser ouvir o nosso som: www.changeyourlife.bandcamp.com Observei que a cena no RS é bem ativa (pelo menos nos poucos lugares em que passei até agora - Porto Alegre e arredores). Como se dá a manutenção desse circuito? Acho que existem pessoas que não deixam de produzir e não deixam essa chama apagar. Esse circuito acontece através destas pessoas que possuem uma pilha imensa, sabe? Acho que é por isso que essa tal cena pode parecer bem ativa. Saca? Sempre vai ter em algum canto uma ovelha negra, ehehe, alguém que tá insatisfeito com a vida e que vai tentar mudar o ambiente em que vive. Alguém que não vai calar. Sempre vai ter alguém fazendo um zine, montando uma banda, pintando um quadro, grafitando uma parede ou produzindo algo. (Ao menos é isso que espero). O cara sempre passa por essa fase de descobertas e por essa “pilha” de produzir e expor pro mundo seus sentimentos. Há urgência em estar vivo, diria o Dead Fish. Enfim, voltando a pergunta... acho que a manutenção desse circuito se monta através disso. Das necessidades, das vontades, angustias e do prazer que é estar envolvido com isso. Quando vou organizar um show, penso em quem eu quero que esteja perto. Podem chamar de panela, mas não vou chamar uma banda ou um artista, fanzineiro, ou sei lá o que, que eu não concordo com a postura pra participar de um evento com meus amigos, saca? Pode parecer meio arrogante, mas eu penso nisso. Conheço muita gente que vivencia o underground de diversas formas, mas em todos sinto a gana de participar disso. Acho que é através dessa gana que conseguimos movimentar o que está ao nosso alcance. Através dessa gana que ocorre essa manutenção. Tá envolvido no bagulho quem quer tá e quem tá nisso não mede esforços pra fazer algo. E os fanzines? Você também atua nessa frente. Está vindo algum trabalho novo nessa área? Cara, também, mas por muitas vezes sou mais um fascinado sobre o bagulho, sabe? Tipo, eu devo ter feito uns cinco ou seis fanzines na minha vida, a maioria não teve nem duas edições. Quando conheci o fanzine, teve algo que chamou muito a minha atenção. Eu tenho estudado muito sobre os processos pelo qual o fanzine circula. Virou meu objeto de estudo na faculdade, fiz meu tcc sobre isso e tô pensando em ir em frente, quem sabe com um mestrado. Quero lançar até o final do ano esse meu tcc em formato fanzine mesmo. Ele tá pronto já, só faltam algumas correções, hehe. O título desse trabalho é: “Fanzines: Uma rede social off-line”. Não adianta falar tanto sobre e não fazer um também, né? Então entrei numa pilha tremenda com fanzines e tenho rabiscado algumas ideias. Minha companheira também tá muito na pilha de produzir, trocar e conhecer coisas novas através dos fanzines. E daí duas cabeças pensando, pensam melhor que uma, né? Estamos organizando a primeira edição do zine “Sujeira do Umbigo”. (Alguém sabe se já existiu alguma publicação com este nome?). Vai ser um fanzine voltado as nossas angustias e emoções com o mundo que nos cerca. Vai ter um lance de “fanzine pessoal”, mas também vamos mesclar com entrevistas com nossos amigos que tem algo para contar e que gostaríamos que as pessoas conhecessem. Ah! Recentemente o Jamer Mello me convidou pra participar do Zinescópio (http://zinescopio.wordpress.com). A ideia é fazer da parada um coletivo. Pensamos em várias ações, mas o tempo e a preguiça tomaram conta da gente. Mas agora voltamos a batalhar pra que isso aconteça. Em breve vamos anunciar alguma novidade. (Aguardem!!!). Acho que a minha relação atualmente com os zines é essas aí. Sobre essa tendência de levar o fanzine para dentro do meio acadêmico, como você vê essa conexão entre mundos extremamente opostos? Cara, são bem opostos, mas temos que nos infiltrar, saca? Um bagulho meio que cavalo de Tróia. (Eu não conheço muito bem a história, não sei nem como acaba). Deve ser como levar arte de rua pro museu, eu acho. É mais um espaço conquistado. Talvez as pessoas de lá não nos curtam tanto, hehe, mas vão ter que nos aguentar. Muitas vezes acho um saco ter que estudar algo velho ou que não representa esse mundo que a gente vive, mas é história, o cara fez por merecer pra tá ali, saca? Acho que a história do fanzine no Brasil é algo recente, mas daqui a pouco tá completando 100 anos. De um tempo pra
  25. 25. cá, essas publicações vêm ganhando mais força novamente, pelo menos no Brasil. É preciso entender isso. Pow! Porque a arte pop foi parar no museu? Porque virou objeto de estudo? Porque o fanzine hoje é muito mais ligado a essa coisa de “artista”? Com esse meu trabalho, cheguei a conclusão de que a internet imita muito o fanzine. Porque analisam tanto a internet e não o fanzine? As redes sociais estavam aí no fanzine já, bem antes da internet chegar. O fanzine deixou e vai deixar muita história pra contar e pra pesquisar. O fanzine criou novos estilos e ainda pode criar. Acho interessantíssimo estudar isso, Linguagem, colagem, edição, linha editorial ou a falta de tudo isso, e levar pra um meio, que é tão “quadrado” como é o meio acadêmico, toda essa subversão que o fanzine proporciona. Quem sabe a gente não consegue subverter algo por lá também, né? E outra coisa: Tem tanto assunto tosco no meio acadêmico, tanto assunto batido, porque não estudar algo novo e que diz muito mais sobre o universo que eu presencio? Como tem andado o filme Rosas? O que as pessoas podem esperar? Cara, o filme Rosas é um projeto do Ricardo Ghiorzi, da Fantoche Filmes. O bixo sempre foi envolvido com cinema. Há um bom tempo vem fazendo efeitos pra diversos filmes nacionais e agora resolveu começar a produzir o próprio material e me chamou pra ajudar em algumas coisas. No Rosas, que é um curta-metragem de terror, tô dando uma mão na parte de iluminação.Acho que é isso. Sou master pilhado em cinema também. Tanto que acabei o curso de jornalismo e emendei um curso de produção audiovisual. Entre tantas atividades, como conseguir tempo para solucionar os problemas do cotidiano (comida, moradia, vestimenta, locomoção...)? Bicho, na real acho que faço pouco ainda. Cada coisa tem seu tempo e tempo o cara sempre acaba tendo, de uma forma ou outra. O que fode é a cabeça do cara que fica empolgada com tudo. Muitas vezes, eu tô parado sem fazer nada, mas com a cabeça a mil e dai não sei por onde começar. Hehe... Sou desorganizado pra caramba. Enfim, mas eu trabalho, faço alguns freelas, estudo e faço tudo o que você perguntou antes. Acho que cada um tem as suas prioridades. Não quero ter que trabalhar pra pagar as mil prestações de um carro, saca? Mas, tipo, eu moro com meus pais ainda, então não gasto grana com aluguel ou pagando uma casa. É uma preocupação a menos. Mas tudo o que faço é resultado dos meus esforços. E também das pessoas que me ajudam.Talvez eu faça tanta coisa assim, pois não tenho a responsabilidade de manter uma casa. Mas, enquanto essa hora não chega, vou produzindo e vou levando a vida como dá. Dançando conforme a dança. Tô fazendo um desses cursos do Pronatec e estudando de manhã também em um curso de produção audiovisual. Tenho pedalado quase umas duas horas todo dia pra ir e voltar desses cursos e isso tá me fazendo muito bem. Talvez amanhã as coisas não vão ser assim, saca? Mas o amanhã tá muito longe. Quando se tem a oportunidade de viver um dia de cada vez, se vive um dia de cada vez. Falando em problemas gerados por essa sociedade que nos cerca, presenciamos uma série de protestos englobando um número considerável de pessoas mostrando sua insatisfação nas ruas. Como você analisaria esses acontecimentos? Que pergunta cabulosa! Tô há duas horas tentando desenvolver algo e não tá fluindo. Espero que todas as pessoas que foram para as ruas tenham sido motivadas através dessa insatisfação que você diz. Tenho minhas dúvidas, mas não vou me prender nisso também. Espero que isso tenha feito as pessoas pensarem. Muita gente foi pra rua pensando que era uma festa, chegou lá e viu a realidade. Não sei ainda no que isso vai mudar ou qual herança essa onda de manifestações vai deixar. Talvez, daqui alguns anos mudem nossos governantes ou talvez a gente consiga derrubar todos eles de uma vez por todas. Não sei qual melhor caminho a seguir. Só que teve muita gente que só acordou agora, enquanto milhares de outras pessoas nunca estiveram dormindo, saca? Daí as pessoas foram pra rua com muita vontade e sem nenhum foco, sem nenhuma reclamação, sem nada, saca? Daí não dá! Algumas pessoas acordam com um grande vazio e permanecem nesse grande vazio. Ainda tem as pessoas que lutam de verdade. Sempre teve e sempre terá. Mas sempre vai ter também uns idiotas, que acabam sendo a maioria, que se apropriam do discurso, que aproveitam a situação, isso me dá nojo, bicho. Não sei como lidar e muito menos como analisar tudo isso. Só quem vive, sente a revolta, saca? E daqui pra frente, qual caminho você acredita que será seguido pelos insatisfeitos com a atual situação? Nenhuma mudança acontece sem ação efetiva. O povo que “acordou” há pouco tem que compreender isso. E quem luta e sempre lutou vai permanecer na luta. É hora de quem tem iPhone ir pra rua e registrar o que tá rolando, eheh, sabe? Não quer ir pra linha de frente, mas colabora de alguma forma. Ficar repetindo discursos e pintar a cara não vai adiantar, sabe? Eu li uma parada que em breve deve virar ditado popular: “É de esquerda, mas tem iPhone, é de direita, mas recebe décimo terceiro”. Entende? O povo conquistou o direito de lutar. Se todo o povo cooperar com o povo, a hora da mudança vai chegar.
  26. 26. Porque rock é rock mesmo Formada em Niterói, Rio de Janeiro, a banda Sakhet conta com Jana Lemos (baixo e vocal), Carlos Outor (guitarra) e Pedro Hertman (bateria). O som é um rock que fala por si só (não adianta tentar explicar, é uma daquelas coisas que beiram o indizível) e pode ser conferido no www.reverbnation.com/sakhet. Tanto o vocal quanto o instrumental se completam em perfeita fúria e energia. Então aumenta o som e curta a quebradeira. Novas tecnologias, modismos, massificação... E no meio disso três seres se unem para fazer o bom e velho rock. Como é isso? Exatamente. Nossa intenção é resgatar o velho espírito de rebeldia e contracultura do rock n roll, caminhando justamente contra a maré. Inovar voltando ao antigo. Tanta coisa é inventada e cada vez mais fica-se distante da verdadeira ideologia de libertação do estilo. E a temática, as letras... Qual é a fonte? A fonte das letras são nossos pensamentos, nossa perspectiva da realidade, dos eventos do mundo, das pessoas. São críticas, mas são também uma ode as coisas boas da vida. Os integrantes da banda possuem outros projetos ou a sakhet é filha única desse poderoso trio? Temos um projeto de Doom metal também, em término de gravação, onde todos nós da Sakhet participamos juntamente de um amigo, o Rodrigo Freire. Ainda tenho outros projetos em andamento e em breve terei mais novidades. Além disso, o Carlos Outor é guitarrista do Imperador Belial e do Embalsamado. Falando nisso: O que é Sakhet? Sakhet é uma deusa da mitologia egípcia ordenada por Rá para punir a humanidade. Ela foi tão feroz em sua missão que ele teve de embebedá-la com vinho para que ela pudesse parar. Existe verdade? A verdade é um ponto de vista. E o futuro? Estamos lançando um 7" em vinil esse mês, “A caminho do inferno”, com 3 novos sons furiosos. Temos previsão de alguns outros lançamentos futuramente. Enquanto isso, seguimos tocando por aí, espalhando nossa mensagem. Tocaremos dia 10 de novembro aqui no Rio de Janeiro, ao lado de grandes bandas do cenário carioca (UnhaliGäst, Atomic Roar e Velho). Será um prazer enorme participar dessa reunião de amigos. Algo ou alguém que deveria ser cagado do mundo e por qual motivo? Deveriam ser cagados do mundo todos os falsos moralistas que gostam de ditar regras na vida dos outros, que não contribuem pra nada e só criticam ou atrapalham a cena com inveja e covardia ou que insistem em tentar unir cristianismo ao rock e suas vertentes.
  27. 27. Papeando com David Beat David Beat é um daqueles nomes que fazem a história da cultura independente e alternativa. Acompanho há algum tempo o trabalho desse cara pela internet e faz pouco recebi um material impresso muito legal dele. Resolvi então convida-lo para esse papo, o primeiro feito para o novo blog do Reboco. David Beat: Me chamam Davi, mas sou mais desconhecido como David Beat, alcunha que resolvi criar para colocar pra fora, através da arte, o meu pensar. No presente momento estou com 28 anos mal vividos, mas continuo: “life goes on”. Não sou artista, faço Arte; não sou escritor, escrevo, apenas me expresso, ou tento da minha maneira. Quem sabe Lennon estava certo: Strawberry filds forever! Poesia: É o ópio dos sentidos! É o lugar onde coloco todas as possibilidades escritas e experimentais (textos dadaístas), o lugar onde expresso meu ser e estado de espírito em determinado momento. Na maioria das vezes minhas poesias remetem as deAugusto dosAnjos, poeta esse com qual me identifico bastante. Desde cedo peguei um gosto orgiástico por literatura e poesia, o que me levou a conhecer textos e poesias fodásticas de Rimbaud, Oscar Wilde, Roberto Piva, Paulo Leminski, Emerson (com seu livro de poesia “Poemecito”. Esse, desconhecido do público geral, mas que me fascinou a mente de tal maneira que nem sei explicar). Sem contar, é lógico, Fernando Pessoa: “Não gosto que me peguem no braço...” e por aí vai. Música: Adoro demais David Bowie, por quem nutro uma grande bajulação. O camaleão me mostrou muitas possibilidades dentro do que chamamos Arte, seja ela underground ou não. É uma referência mundial e continua mais ativo do que nunca (vide último álbum). Aí entra minha admiração por Beatles, T. Rex, Suede, Sonic Youth, The Smiths, Lou Reed... Bandas legais como RAMONES, bandas politizadas como BLACK FLAG e Dead Kennedys, bandas pra dançar como B52’s, bandas pra refletir sobre a existência como JOY DIVISION - pura poesia no mais alto nível!... E muitas outras que coloco pra tocar no meu surrado aparelho de vinil. (Disse vinil?!) Desenhos: Outra forma de expressar minhas neuras e visões. Desenhava quando criança, mas depois de um tempo abandonei (quando entrei na “aborrecência”). Aí, bem lá na frente, por volta de 2012, retornei. Nesse retorno desenhava quase todos os dias e de lá pra cá tenho feito algo aqui e ali, participei de alguns eventos expondo em quadros minhas ilustrações, o que me deu o maior gás para continuar produzindo e é justamente o que tenho feito: “Produzir”. Até quando não sei... Zines: Como disse antes, desde muito cedo resolvi me cercar de coisas contraculturais na literatura, poesia, música, arte. Isso me abriu um vasto leque de opções quando então decidi colocar pra fora, no bom sentido, o que vinha me atormentando ou simplesmente me expressar mesmo. Já conhecia a cultura do zine, aí por volta de Março de 2012 resolvi lançar um zine de poesia levando o nome David Beat e com o título “poesia pope diversa”. Continuei lançando até a 5° edição. Sendo que entre o primeiro de poesia e o quinto, por volta de Junho do mesmo ano, me deparei com um zine de desenhos de um certo Quinan. Acredite: aquilo me deixou vidrado. Lembro de pensar: “ Eu sempre tive essa vontade de expressar dessa forma visual...” O que segue depois foi justamente o retorno aos desenhos que tinha deixado de lado na “aborrecência”. Busquei informações aqui e ali e aprendi a mexer com programas. Hoje já estou na segunda edição do zine David Beat. Aí a experiência serviu muito. Logo depois, conversando com um amigo, surgiu a ideia de fazer algo COLETIVO e é aí que nasce o “Artistas do Underground”, onde procuro reunir os diversos artistas espalhados por aí. O A.U. ficou sendo a morada dos excluídos, talentos dispersos que encontraram voz, ou melhor, imagética, no zine. Uma coisa que adotei no A.U. foi o lance de sempre convidar alguém pra fazer a capa. A primeira foi uma foto selecionada por mim e trabalhada por um amigo (até então não sacava nada de certos programas como Corel ou Photoshop); a segunda foi elaborada peloArtista Jarlan félix (Artista esse que me causou um grande impacto. Que arte foda!, pensei então.); a terceira foi elaborada por Ivan Silva, artista plástico underground também. E as ilustrações presentes são as colaborações de todos os que participam do zine. No presente momento me associei ao site Big Cartel, onde estou vendendo meus zines e ilustrações originais. Se quiserem, é só conferir davidbeat.bigcartel.com. No mais é isso! Num futuro qualquer deve de ter outras edições... Aguardem! O mundo que nos apedreja: Cara, desde muito cedo comecei meu ódio por essa que chamamos calmamente de “sociedade”. Exploração, condições precárias. Não é clichê falar, é a verdade: Uns com muito e outros com pouco, ou mesmo migalhas. Essa porra de sistema desgraçado que denominam capitalismo. Ganância pra todos os lados, a lei da selva (sobrevive aquele que melhor se adapta no ambiente em que vive). Todos os dias as mesmas explorações constantes.Você levanta de madrugada
  28. 28. para ir trampar, fica sendo explorado o dia todo e no final do dia retorna pra casa se sentindo um fodido. Isso pra ganhar irrisório salário... que mal dá pra comer. Isso é o Sistema! Funciona assim. Até quando?... O mundo que sonhamos: Um lugar onde não seremos melhores e nem piores do que o meu amigo ao lado, onde teremos o direito realmente de ir e vir sem ser coagido, agredido, humilhado. Um lugar onde as pessoas sentirão orgulho de viver vidas saudáveis, com direito a uma educação melhor e a moradia decente. Parece Utopia... Viveremos essa utopia algum dia?
  29. 29. Luz, câmera e caos Uma produtora de curtas independentes que gosta de desagradar. Isso (e um pouco daquilo e daquilo outro) é a Bukkake filmes. Totalmente imbuídos daquele bom e velho espírito do “Faça você mesmo”, eles apresentam uma verdadeira avalanche de insanidades para expurgar seus delírios coletivos e vomitar o que os intoxica. Seguindo meu trabalho, que desde blogs, zines, pdfs... anteriores vem abrindo espaço e apresentando novas possibilidades, chamo Matheus Souza, membro dessa legião enlouquecida, para responder algumas perguntas e trocar aquela ideia. Com vocês... Como nasceu a Bukkake filmes? Nasceu depois de uma gestação radioativa comigo e com o Lucship (posteriormente com Gaobs e outra galera). Estávamos até o rabo cheio de ouvir punk rock e gravamos o Hipsteria. Daí em diante foi só desgraça. Tivemos muita inspiração do humor típico da UDR e também tivemos que mudar o nome da Bukkake para Universo Independente em algumas ocasiões (para driblar os moralistas de festivais). Hoje, qual o principal objetivo? Fazer o que gostamos e tentar tirar proveito, mas nunca atingir o sucesso e nem ficar muito conhecido. Nosso esquema é underground. Quanto menos pessoas nos conhecer, melhor. Mainstream é coisa de hipster baba ovo. Quando se fala em filmes e em cinema logo se pensa em algo caro e inviável. Como é fazer filme com pouca grana? Posso dizer que no orçamento dos nossos filmes mais caros estão “Hipsteria” - Onde gastamos R$ 5,00, dos quais R$ 2,00 foram gastos com um pão de queijo, R$ 1,00 com suco e o outro real foi superfaturado. Já no “Ensaio Sangrento” gastamos duas passagens de ônibus para Sumaré e meio copo de groselha. Enfim fazemos o que podemos com o que temos. E como anda o lançamento do curta “Os filhos do pó”? Terrível! Estamos com medo de que tenha dado certo. Esse filme já repercutiu pelo Arapa Rock Motor (um dos blogs mais conceituados em download de filmes underground). O próprio Petter Baiestorf já comentou sobre o filme e saiu até algumas notas no udigrudi.org. Observei no blog que vocês também possuem um espaço para música. Como está o trabalho nesse campo? No começo eram sintetizadores. O Lucship tentou fazer com que tivesse harmonia, mas ainda continuo sendo teimoso em tocar do jeito que não sei tocar. Tivemos um CD lançado - O demo da minha banda (RxPxTx) - A galera pode baixar aqui: http://bit.ly/13OblGG. Porém, se você quer músicas bem feitas, recomendo as da L.A.R.D - que tem aqui: https://soundcloud.com/lastromanticdisturb/ Para quem ainda não conhece o trabalho de vocês, como você definiria a Bukkake? Somos uma turma que curte ler, assistir filmes e escrever. Temos uma imaginação muito fértil e fazemos os nossos trampos de zines, filmes e sons porque gostamos e achamos bacana isso. É um circulo de amigos com uma pessoa no meio sendo o alvo dos esporros - um típico Bukkakão mesmo. Hahahahahahahahahahhaa. O que está por vir? Não sei... Pode ser que voltemos a gravar mais vídeos,com mais frequência. Se tudo der certo, espero que consiga fazer roteiros mais bem elaborados, com uma ordem linear de começo, meio e fim...O importante é não deixar o samba morrer ...kkkkkk. Para conferir o trabalho www.bukkakefilmes.blogspot.com.br/
  30. 30. Merda Para quem curte uma barulheira daquelas, a banda Merda é a dica certa. Embora digam que nasceram na Terra, há quem jure que são uma forma de vida alienígena ou algo ainda não identificado. Por mim, tanto faz. Desde que continuem infernizando os ouvidos mais sensíveis, já está de bom tamanho. O myspace dos caras é www.myspace.com/ merdarock. Então é só clicar lá e mergulhar na Merda. Que Merda é essa? Alex Vieira: Conjunto de Música Folclórica Jovem Merda Japa: Uma banda de rock satânico. O nome teria alguma referência ao atual estado de um mundo sitiado pelas sociedades humanas? Alex Vieira: Merda é merda! Japa: Sim, o mundo é uma grande merda. Queria saber um pouco sobre outros projetos e bandas dos integrantes. Alex Vieira: Além do Merda, edito a Revista Prego, toco no Morto Pela Escola e participo de outros projetos na área de artes visuais (quadrinhos, ilustração, pintura, video...). Japa: Mozine toca no Mukeka di Rato, Os Pedreros e faz shows de stand up falidos; Alex toca no Morto Pela Escola e faz a Revista Prego; Eu (Japa), no momento, toco num monte de bandas, mas não toco em nenhuma. Um som eterno: Alex Vieira: Histeria: Cólera Japa: Despertador. Um som recente que merece destaque: Alex Vieira: Pedra portuguesa na sua cabeça - Os Estudantes Japa: Os novos sons do Human Trash são foda. O futuro planetário: Alex Vieira: Guerras por conta de água e recursos naturais, tipo Mad Max; Ditaduras das piores possíveis; Controle total sobre a internet e meios de comunicação; Japa: No future. Um espaço para gritar a vontade: Alex Vieira: Ah! pra puta que pariu! Japa:Ahhhhhhhhh !!!
  31. 31. O Inconsequente Coletivo Por sugestão da grande Anita Costa Prado, entrei em contato com Lafaiete Nascimento na intenção de conhecer seu zine, “O Inconsequente Coletivo”. Ela realmente sabia o que estava fazendo quando deu a dica. O cara é ótimo. Quadrinhos maravilhosos por toda parte. Pensei em fazer uma resenha, mas por fim decidi pela entrevista. Nada como lançar as questões e deixar o próprio se apresentar. Por que o espaço de dezesseis anos entre uma publicação e outra? O porque de um espaço tão grande foi de natureza profissional, pois minha atividade como professor tomava muito do meu tempo e acabei infelizmente deixando as HQs para escanteio (coisa que me arrependo até agora). Confesso também que não tinha muita paciência com a auto-edição (coisa que sanei, pois viajei no projeto gráfico do IC2) E por que a decisão de voltar a fazer esse trabalho? A inspiração veio da visita ao 3° UGRA Zine, onde pude reencontrar muita gente ligada a produção independente, como meu ex-aluno Kiko Garcia (Kikocomics), Edgard Guimarães (QI), Henrique Magalhães (Marca de Fantasia) entre tantos outros produtores independentes, além das constantes e edificantes conversas com o mestre Flávio Calazans (Barata). O bichinho do fanzinato me mordeu mais uma vez (eh-eh). Onde ambos os números se encontram e onde se distanciam? Se encontram, pois são trabalhos pessoais. Eu não queria criar um novo título, mas sim dar continuidade (apesar da grande distância cronológica). Alguns trabalhos são daquele período (o IC1 é de 97, algumas HQs do IC2 são de 98). A diferença é que no 1° IC são HQs mais antigas (90/91) e ele é quase uma coletânea. Já o IC2 teve um planejamento mais cuidadoso, pois eu já era um autor bem mais maduro, mesmo nos trabalhos mais antigos. O que é fundamental em um quadrinho? Para mim, o fundamental de uma boa HQ é contar uma boa história. Mesmo que você tenha um traço limitado como o Glauco, por exemplo, a ideia é o cerne de tudo. Já dizia o Henfil: “O traço deve obedecer às ideias e não o oposto”. Além dos quadrinhos, que predominam no seu trabalho, podemos encontrar também outras formas de expressão aqui e ali, como Impronunciáveis (página 13) e Urbanidades (página 24). Como é seu relacionamento com esses outros formatos? Quando cursei Artes Plásticas no Instituto de Artes da Unesp, tive uma disciplina de criação poética com o professor e poeta Omar Khouri, que me fez notar a proximidade das linguagens poéticas e das HQs (Istac, por exemplo, apesar de ser uma HQ por sua estrutura, eu a considero quase que um poema). Outra coisa que posso dizer que é um ponto de intersecção entre minhas HQs e minhas poesias é o fato delas serem predominantemente visuais - imagens narrativas (vide Rumo a marte que simula o sistema marciano e os haikais que buscam uma imagem) E o 3? Vai sair ou não vai? Não pretendo demorar mais 16 anos (rs). Se tudo der certo, lanço entre dezembro (13) e janeiro (14). Já tenho material pronto e até justificarei o “Coletivo” do nome, pois terei pelo menos um convidado: Kiko Garcia. Existem outras formas de chegar ao seu trabalho? Estou no Facebook (tenho um álbum com meus trabalhos em artes plásticas) e tenho um blog em parceria com meu amigo, o artista gráfico Marcelo Siqueira, o MENTE INSANA EM CORPO SÃO (www.maclafa.blogspot.com.br/)
  32. 32. Mais uma bela flor no jardim do ócio Alexandre Pedro lançou Flores do Ócio em 2014 e desde então vem ganhando espaço para divulgar este trabalho. Observando o número crescente de pessoas do meio independente que comentam sobre o assunto, bateu logo aquela vontade de estabelecer contato. Enviei algumas perguntas para conhecer mais. Como foi o lançamento do Flores do Ócio? O livro foi lançado no dia 26 de outubro de 2014: Foi um sucesso. Estiveram presentes professores de onde me formei em Letras, ex-alunos, amigos, família e muitos amigos que até então eram apenas virtuais. O processo de construção do livro: A ideia inicial era fazer uma antologia com todo o material escrito até então, no entanto, no dia em que o material estava indo para a gráfica, recebi o convite da editora Giostri para publicação de uma seleção de poemas. Nasceu daí o Flores do Ócio. O livro traz fragmentos corriqueiros do cotidiano transformados, através do ócio - de nada fazer, em poesia. O que o leitor pode esperar dessa obra? O leitor encontrará uma linguagem que se faz urgente, de uma percepção rápida, onde uma palavra distorce o contexto e se faz poesia. O autor busca sempre, através do uso de figuras de linguagem, alcançar diversos sentidos para um único verso e através do uso de linguagem tenta abster-se de todo o sentido, se fazendo ausente no texto, ainda que o eu lírico grite em primeira pessoa. Existem outros projetos em andamento? Sim. Tenho material para um novo livro que receberá o título de Cárcere do Ser. A ideia é transformar meu blog, hoje com 39.883 visitas, em livro. Seguindo a mesma linha de Flores do Ócio, trará uma linguagem um tanto menos “digerível”. Serão abordados temas como a loucura, morte, idade, sexo, poesia e a linguagem. Principais influências: Não sei se posso afirmar que meus textos sofrem influência de algum autor. Somos influenciados o tempo todo e por tudo. Meus grandes mestres são Jean-Paul Sartre, Drummond, Fernando Pessoa, Jean Genet, Hilda Hilst, Milan Kundera e Clarice. Mas acho muita soberba dizer que meus textos são influenciados por tão grandes mestres. Nunca estarei à altura de me comparar. Penso que afirmar influência é um tanto que se comparar a. Palavras finais: O livro foi publicado pela editora Giostri. Estou bem satisfeito com o resultado final. Tenho recebido um bom retorno de pessoas do ramo da literatura, poetas, escritores e isso me faz realizado. Por enquanto estou tentando divulgar este livro e fazer com que as coisas aconteçam. Não posso deixar este momento passar, pois é agora que as pessoas começaram a levar o meu trabalho a sério. Estes 15 minutos de “fama” precisam ser bem trabalhados e é nisso que estou apostando no momento. Agradeço imensamente ao convite pra participar com este questionário, Fabio. Forte abraço Alexandre Pedro

×