a literatura como precursora dos novos "modos de escrever e de ler"

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a literatura como precursora dos novos "modos de escrever e de ler"

  1. 1. A Literatura Como Precursora dos ‘Novos Modos’ de Ler e de Escrever Angela Francisca Mendez de Oliveira PPGL-Uniritter - Bolsista CAPES
  2. 2. Resumo <ul><li>As profundas transformações por que passamos põe em questão a sobrevivência do livro e da literatura. Novas formas de ler e de escrever, resultado da cultura digital, ameaçam a existência do livro, mas a literatura mesmo, antecipadamente, já pensara em suas formas. Exemplos de textos que traremos mostram a antecipação da literatura ao hipertexto e as formas de ‘navegação’ precursoras dessa estrutura textual livre como vemos hoje. </li></ul>
  3. 3. <ul><li>Heidrun Olinto </li></ul><ul><li>Processos midiáticos e comunicação literária </li></ul><ul><li> Gerárd Genette </li></ul><ul><li>Palimpsestos: a literatura de segunda mão </li></ul><ul><li>Conceito de Hipertextualidade </li></ul><ul><li>James Joyce </li></ul><ul><li>Stéphane Mallarmé </li></ul><ul><li>Raymond Queneau </li></ul><ul><li>Osman Lins </li></ul><ul><li>Umberto Eco </li></ul>
  4. 4. <ul><li>Processos Midiáticos e Comunicação Literária , de Heidrun Olinto , apresenta como tema central a discussão sobre a sobrevivência do livro impresso e encadernado em meio ao advento da mídia digital e os hipertextos (2003, p.55). </li></ul><ul><li>Temos hoje uma prática de leitura caracterizada pela não-linearidade e pela fragmentação, face ao enorme volume de informação, contrapondo-se à leitura caracteristicamente linear de períodos anteriores. </li></ul><ul><li>Com isso, não são poucos os prognósticos de que vivenciamos o fim do livro como suporte do texto e até o fim da própria literatura enquanto arte, vista a exigência e competências de leitores outros. </li></ul>
  5. 5. <ul><li>O hipertexto, no conceito de Olinto, distingue-se pela “organização multilinear”, pois não definem fronteiras. Inseridos numa rede de outros textos, eles libertam a literatura da ideia de objeto absoluto, pois os textos passam a apresentar um “caráter mutante” e o leitor “circula livremente e desenha caminhos possíveis” (idem, p.70). </li></ul><ul><li>Com a instauração da era digital o hipertexto aparece como novidade advinda dos avanços da era digital. .. </li></ul>
  6. 6. <ul><li>... u ma das características mais remotas da literatura é o jogo de palavras em suas construções. Nesse jogo, porém, podemos incluir os jogos com textos, recurso igualmente há muito utilizado na literatura, organizados e conceituados por Gerárd Genette na obra Palimpsestos: a literatura de segunda mão. </li></ul>
  7. 7. <ul><li>[...] todo texto pode ser citado e, portanto, tornar-se citação, mas a citação é uma prática literária definida, que transcende evidentemente cada uma de suas performances e que tem suas características gerais; todo enunciado pode ser investido de uma função paratextual, mas o prefácio é um gênero; a crítica (metatexto) é evidentemente um gênero; somente o arquitexto, certamente, não é uma categoria, pois ele é, se ouso dizer, a própria classificação (literária) [...]. E a hipertextualidade? Ela também é um aspecto universal da literalidade: é próprio da obra literária que, em algum grau e segundo as leituras, evoque alguma outra e, nesse sentido, todas as obras são hipertextuais . (GENETTE, 2006, p.18). </li></ul>
  8. 8. Todas as obras são hipertextuais ... <ul><li>Nessa concepção de hipertexto é que surgem como exemplos algumas obras literárias que ilustram a noção de hipertexto como artífice próprio da literatura, antecipando a literatura como precursora dos ‘novos modos’ de ler e de escrever... </li></ul><ul><li>Toda a literatura que se preze traz impressa em suas linhas marcas de hipertextualidade, fato que pode tanto instigar o leitor mais ávido a desvendar as relações intertextuais que esconde, como levá-lo a desistir da leitura... </li></ul>
  9. 9. <ul><li>É próprio de a arte estar à frente de seu tempo, antecipando com criatividade o por vir. Modelo do que foi dito nos serve James Joyce que ao publicar, em 1922, a obra Ulisses antecipou com imaginação a web, como segue na seguinte citação: </li></ul><ul><li>“ Na internet, ‘Ulisses’, de James Joyce, tem sido relido como uma obra que antecipou o imaginário do ciberespaço. Ensaios disponíveis na rede discutem desde a presença de um núcleo ciberespacial até suas afinidades com a teoria do caos ” (BEIGUELMAN, apud VILLAÇA, 2002, p. 208). </li></ul>
  10. 10. <ul><li>Quando James Joyce publicou Ulisses , em 1922, revolucionando nossas expectativas literárias, revelou-se um técnico altamente qualificado que andou fazendo experiências com a máquina-livro: </li></ul><ul><li>“ Ele poderia perfeitamente ser visto como um programador que escreveu códigos para a plataforma da máquina impressora. Joyce escreveu software para um hardware originalmente materializado por Gutenberg ”. (VILLAÇA, 2002, p. 208). </li></ul>
  11. 11. <ul><li>Stéphane Mallarmé idealizou um projeto de livro, ainda que esse não tenha passado da fase conceitual, que serviria como “modelo de uma arquitetura textual cósmica” (2002, p.54). </li></ul><ul><li> Le livre, como chamou Mallarmé o livro idealizado, não teria início e fim, configurando um projeto de livro infinito e coletivo que somente tornou-se concreto a partir da publicação de documentações, ensaios e anotações de Mallarmé, reunidas e publicadas em 1897, com o nome de Divagations. </li></ul><ul><li>Privilegiava, Le livre, o “estatuto de virtualidade”, “ensaiando o esmaecimento da voz autoral” e principiando uma reflexão, hoje bastante discutida, sobre a “instância do leitor, que perde a sua função tradicional de intérprete” (OLINTO, p.55). </li></ul><ul><li>  </li></ul>
  12. 12. <ul><li>“ O livro idealizado, sem início e fim, em construção perpétua, único e multivocal, impessoal e vivo, soma de todos os livros, em última análise dispensa a assinatura do autor. Sem impressão digital e de dinâmica autopoiética, construindo, ao contrário, o seu próprio autor, esta obra só ganhava estatuto de realidade a partir de sua potencialidade projetada ”. (OLINTO, 2002, p.54) </li></ul>
  13. 13. <ul><li>Raymond Queneau , em 1984, retoma o projeto idealizado por Mallarmé com sua “Máquina poética”. Queneau propõe a “transformação do ato poético em mecanismo seletivo” que filtra e seleciona fragmentos do contexto original, reinserindo-os em nova configuração, na qual os versos poéticos poderiam ser combinados e recombinados pelo leitor que, autônomo, tem a oportunidade de escolher a construção e as “rotas” de leitura que pretende empreender. Queneau, no “manual para usuários”, explica: </li></ul>
  14. 14. <ul><li>“ Esta pequena obra [...] permite a qualquer um criar, se quiser, cem bilhões de sonetos [...]. cada verso, em número de 10, pode ser articulado com outros 10 versos distintos: haverá portanto 100 combinação distintas dos dois versos iniciais; se você quiser acrescentar um terceiro haverá 100, e para os primeiros sonetos completos de 14 versos cada um, teremos, assim, o resultado antes mencionado [...]. ou seja, cem bilhões de sonetos ”. (QUENEAU, apud OLINTO, 2002, p. 67). </li></ul>
  15. 15. <ul><li>Comparada ao ideal de Mallarmé e à “máquina poética” de Queneau, Avalovara de Osman Lins aparece com o seu modelo de arquitetura textual inovador. </li></ul><ul><li>A partir do empreendimento da leitura da obra de Lins a reflexão que surte da ideia de Mallarmé a cerca da “instância do leitor, que perde a sua função tradicional de intérprete”, aparece nitidamente. O leitor de Avalovara não é um leitor comum, estagnado a interpretação de um texto literal. </li></ul>
  16. 16. <ul><li>Ao contrário de uma sequência linear tradicional, a arquitetura estrutural do romance, na versão impressa, é composta de temas distribuídos, aparentemente de forma desordenada, no decorrer do livro. </li></ul><ul><li> O leitor para compreender o enredo de cada tema tem que se desprender do hábito linear de leitura de narrativas com início meio e fim. </li></ul>
  17. 17. <ul><li>No tema S , Osman Lins apresenta, como fez Queneau, uma espécie de manual ao usuário. O autor ao tempo em que explica a estrutura do livro que o leitor tem nas mãos - dando dicas da complexidade da obra -, em metalinguagem aborda seus anseios de escritor propenso a limites estruturais pré-estabelecidos aos quais está (irremediavelmente?) destinado: “Como, então fazer repousar a arquitetura de uma narrativa, objeto propenso ao concreto, sobre uma entidade ilimitada e que nossos sentidos hostis ao abstrato, repudiam?” (LINS, s4, p.1) </li></ul>
  18. 18. <ul><li>“ Sendo a espiral infinita, e limitada às criações humanas, o romance inspirado nessa figura geométrica aberta há que socorrer-se de outra, fechada e evocadora, se possível, das janelas, das salas e das folhas de papel, espaços com limites precisos, nos quais transita o mundo exterior ou dos quais o espreitamos. A escolha recai sobre o quadrado: ele será o recinto, o âmbito do romance, de que a espiral é força motriz. [...] regerá com seu vertiginoso giro a sucessão dos temas constantes do romance. Pois o quadrado será dividido em outros tantos, idealmente iguais entre si. E a passagem da espiral, sucessivamente, sobre cada um, determinará o retorno cíclico dos temas neles esparsos”. (LINS, s4, p. 1) </li></ul>
  19. 19. <ul><li>No texto de Olindo, por fim, um último exemplo da ideias de obras literárias como precursoras de formas outras de ler e escrever, mas agora, na figura de Umberto Eco , refletindo sobre os estudos literários que compreendem a literatura e os textos literários como um fim em si mesmo. </li></ul><ul><li>No ensaio “A poética da obra aberta”, Eco propõe um modelo de estudos literários “não fundados na forma verbal objetiva e autônoma da obra, mas sobre sua relação fruitiva entre ela e seus possíveis receptores” (2002, p.67). </li></ul>
  20. 20. <ul><li>A poética da obra aberta, explica Eco, tende a promover ao leitor – chamado pelo autor de “intérprete” - a posição de “centro ativo de uma rede de relações inesgotáveis, entre as quais ele instaura sua própria forma, sem ser determinado por uma necessidade que lhe prescreva os modos definitivos de organização da obra fruída” (1976, p.41). Sobre estudos literários, Eco diz que a abordagem da obra literária como uma multíplice de relações de operações culturais resulta “uma clarificação acerca de uma situação cultural em processo na qual se desenham conexões, a serem aprofundadas, entre os vários ramos do saber e as várias atividades humanas” (1976, p.31). </li></ul>
  21. 21. Concluindo... <ul><li>As profundas transformações tecnológicas transpassam a literatura e põem em questão a sua sobrevivência: as novas formas de ler e de escrever, resultado da cultura digital, ameaçam a existência do livro... </li></ul><ul><li>Mas, como vimos, a literatura mesmo já pensava em suas formas e desde sempre se ocupou em se reinventar, estando um passo a frente às invenções e inovações por vir. </li></ul>
  22. 22. <ul><li>Obras como Avalovara e Ulisses, mostram a antecipação da literatura ao hipertexto e às formas de “navegação” precursoras dessa estrutura textual livre como vemos hoje </li></ul><ul><li>Ao contrário do que se teme, entendemos que as mídias apresentam o retorno bem-vindo de modos coletivos de perceber e experimentar os textos, suas especificidades estruturais - a literatura... </li></ul>
  23. 23. Referências <ul><li>BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal . 5.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010. </li></ul><ul><li>  </li></ul><ul><li>CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador; conversações com Jean Lebrun. São Paulo : UNESP/IMESP, 1999. </li></ul><ul><li>  </li></ul><ul><li>ECO, Humberto. Obra Aberta. São Paulo: Perspectiva, 1976. </li></ul><ul><li>  </li></ul><ul><li>GENETTE, Gerard. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Trad. Luciene Guimarães e Maria Antônia Ramos Coutinho. Belo Horizontes: UFMG, 2006. </li></ul><ul><li>  </li></ul><ul><li>LINS, Osman. Avalovara . Disponível em: http://www.um.pro.br/avalovara/ . Acesso em: 05 abr 2011 </li></ul><ul><li>  </li></ul><ul><li>MELLO JR., José de. O ebook e a revolução da leitura. Revista do Livro da Fundação Biblioteca Nacional . Rio de Janeiro: n° 45, Ano 14, p. 217-236, 2002. </li></ul><ul><li>OLINTO, Heidrun Krieger. Processos midiáticos e comunicação literária. In: OLINTO, Heidrun Krieger e SCHOLLMMER, Karl Erik (org). Literatura e mídia. São Paulo: Loyola, 2003. </li></ul><ul><li>  </li></ul><ul><li>RESENDE, Beatriz. Contemporâneos - expressões da literatura brasileira do século XXI . RJ: Casa da Palavra, 2008. </li></ul><ul><li>  </li></ul><ul><li>SANTAELLA, Lúcia. Linguagens líquidas na era da modalidade . São Paulo: Paulos, 2007. </li></ul><ul><li>VILLAÇA, Nízia. Entre o impresso e o eletrônico. Revista do Livro da Fundação Biblioteca Nacional . Rio de Janeiro: n° 45, Ano 14, p.207-216, 2002. </li></ul>

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