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Concurso Literário da Academia Fluminense de Letras 2018

Coletânea de textos premiados

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Concurso Literário da Academia Fluminense de Letras 2018

  1. 1. Academia Fluminense de Letras [2] Textos Literários premiados pela AFL em 2018 Rio de Janeiro Edição do autor 2018
  2. 2. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 3 ] Todos os direitos reservados e protegidos pela lei 9610 de 19/02/1998. É proibida a reprodução dessa obra, mesmo parcial, por qualquer processo, sem prévia autorização, por escrito, do autor e editor. AFL; 1917 Textos Literários premiados pela AFL em 2018 Academia Fluminense de Letras – Brasil: Flavio Chame Barreto Editor - FCB Ed; 2018. 106 f.: Il. ISBN-13: 9781728967233 1. Poesia. 2. Crônicas. 3.Contos II. Título. CDD B869.35 - CDU 821.134.3(81)-3 Capa: Adaptada de foto do arquivo da AFL. Organização textual e revisão: Flavio Chame Barreto e Márcia Maria de Jesus Pessanha. Contatos: Academia Fluminense de Letras – AFL Praça da República, nº 7, Centro, Niterói – Cep: 24020-099 Email: academiafluminensedeletras@gmail.com Sites: www.academiafluminensedeletras.org.br www.facebook.com/academiafluminensedeletras
  3. 3. Academia Fluminense de Letras [4] Apresentação CONCURSO LITERÁRIO Dentro das comemorações do seu Centenário (1917-2017), a Academia Fluminense de Letras - Academia de Letras Oficial do Estado do Rio de Janeiro – tem o prazer de publicar o resultado do Concurso Literário de Contos, Crônicas e Poesias com o tema “Educação, Cultura e Ética”. A iniciativa, planejada e organizada com entusiasmo e competência pelo Acadêmico Flávio Chame Barreto, obteve o apoio total da Diretoria e do Corpo Acadêmico para, mais uma vez, concretizar os objetivos desta Academia de promover e estimular a produção literária. Contando com a coordenação da Acadêmica Márcia Maria de Jesus Pessanha, a Comissão de Avaliação foi constituída pelos Acadêmicos: Eneida Fortuna Barros, Luiz Carlos Albuquerque e Sávio Soares de Sousa, na área de Contos; Lúcia Maria Barbosa Romeu, Márcia Maria de Jesus Pessanha e Regina Coeli Vieira da Silveira e Silva, na área de Crônicas; Alba Helena Corrêa, Leda Mendes Jorge e Neide Barros Rêgo, na área de Poesia. A divulgação do resultado do significativo Concurso, com a premiação aos vencedores, ocorrerá em 10 de novembro de 2018, em Nova Friburgo, durante o I Congresso das Academias de Letras do Estado do Rio de Janeiro e a V Jornada Sociocultural Comemorativa do Dia Nacional da Cultura e da Língua Portuguesa no Brasil, eventos promovidos pela Federação das Academias de Letras do Estado do Rio de Janeiro visando mais estimular o movimento cultural no território fluminense. Parabéns a todos os participantes pelo exemplo de amor à Literatura! Waldenir de Bragança Presidente da Academia Fluminense de Letras
  4. 4. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 5 ] Prefácio A importância do ato de escrever Escrever é uma arte. É transformar ideias, emoções e vivências em palavras. É romper com o silêncio e emitir um grito de liberdade. É preencher o vazio das páginas em branco, com as vozes de diferentes autores, que escolhem o gênero literário de sua preferência. Por essa razão a Academia Fluminense de Letras abriu espaço para promover, sob a iniciativa do acadêmico Flávio Chame Barreto, o Concurso Educação, Cultura e Ética, nas modalidades: conto, crônica e poesia. A importância da palavra impressa é tão forte que atravessa a linha do tempo e divide a história em antes e depois da escrita. Assim, com o objetivo de valorizar a língua portuguesa e a criação literária, esta Academia sela seu compromisso com a divulgação de produções textuais e investe na realização deste Concurso, visando ao diálogo entre esta Centenária Casa do Saber e a sociedade. “A leitura engrandece a alma”, diz Voltaire. Acrescento: sendo o ato de escrever também um processo de interação entre o leitor/texto/autor, os trabalhos selecionados pela Comissão de Avaliação foram os que melhor expressaram as finalidades deste concurso, de acordo com o tema e os subtemas propostos. O professor e escritor Rubem Alves declara que Todo texto é uma partitura musical, as palavras são as notas. Garimpei, desse modo, na esteira do mestre, os vocábulos que soassem como notas musicais para dar os parabéns aos que com sua escrita contribuíram para o êxito deste Concurso. Missão cumprida. A leitura e a escrita se unem para libertar o homem pelo poder da palavra. Para além do tempo e do espaço... Profª Drª Márcia Pessanha 1ª Secretária da Academia Fluminense de Letras
  5. 5. Academia Fluminense de Letras [6] DIRETORIA DA ACADEMIA FLUMINENSE DE LETRAS – AFL (BIÊNIO 2018 – 2019) Waldenir de Bragança - Presidente José Mauro Haddad - Vice-Presidente Márcia Maria de Jesus Pessanha - 1ª Secretária Regina Coeli - 2ª Secretária Wainer da Silveira e Silva - 1º Tesoureiro Alba Helena Corrêa - 2ª Tesoureira Flávio Chame Barreto - Diretor de Acervo Documental e Bibliográfico
  6. 6. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 7 ] Sumário CRÔNICAS SELECIONADAS ................................................................................... 9 A LUZ DO FUTURO (ou O VELHO MESTRE E A INTERNET).........................11 BRINCANDO DE VERDADES .................................................................................13 CRÔNICA DE UM ESTAGIÁRIO .............................................................................15 OK, GOOGLE: O QUE É SER PROFESSOR?..........................................................17 O PAÍS DE ALICE.......................................................................................................21 EU E MEUS DILEMAS.............................................................................................. 23 CRÔNICA DE UM CADERNO SEM CAPA ............................................................ 25 PRECONCEITO LINGUÍSTICO ............................................................................. 27 PREGAÇÃO AOS CACHORROS .............................................................................. 29 O PROFESSOR............................................................................................................31 POESIAS SELECIONADAS..................................................................................... 33 MENINO DE RUA..................................................................................................... 35 FOGUEIRA................................................................................................................. 37 O FOGO DAS LETRAS.............................................................................................. 39 AULA ............................................................................................................................41 DILEMA DO MESTRE, DILEMA DA EDUCAÇÃO............................................... 43 TEMPOS MODERNOS – 2018 .................................................................................. 45 DILEMAS DE PROFESSOR ..................................................................................... 47 A INTERNET COMO INSTRUMENTO DA EDUCAÇÃO................................... 49 CON/STA/TAÇÃO.................................................................................................... 53 SOCIEDADE XX.I...................................................................................................... 55
  7. 7. Academia Fluminense de Letras [8] CONTOS SELECIONADOS ......................................................................................57 VALENTIM .................................................................................................................59 A DAMA DO ESCRITORIO.......................................................................................61 DÁ UM GOOGLE........................................................................................................63 GENTE INOCENTE..................................................................................................67 AMOR SEM PRECONCEITO ...................................................................................69 A VIDA DE UM CASAL DE PROFESSORES...........................................................73 CONTINUA DESCENDO QUE A GENTE QUER SUBIR ....................................79 LEGITIMA DEFESA ..................................................................................................85 VIGÍLIA........................................................................................................................91 RETROALIMENTAÇÃO (A ÉTICA NO COTIDIANO DO BRASILEIRO).........95 Posfácio....................................................................................................................... 101 Carta da Educação, Cultura e Ética de Niterói ......................................................... 102
  8. 8. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 9 ] CRÔNICAS SELECIONADAS Primeiro colocado: Jonaedson Carino Moreira (Jota Carino) – Niterói - RJ Pseudônimo: Mário Meirelles Crônica: A LUZ DO FUTURO ou O VELHO MESTRE E A INTERNET Segundo colocado: Suellen Raquel da Silva – Jacareí - SP Pseudônimo: Susan Ellen Crônica: BRINCANDO DE VERDADES Terceiro colocado: Eduardo Antonio Klausner – Niterói - RJ Pseudônimo: Accursio Braziliense Constant Crônica: CRÔNICA DE UM ESTAGIÁRIO Outras crônicas selecionadas: Daniel Kazahaya – Osasco - SP Pseudônimo: Curió da Madrugada Crônica: OK, GOOGLE: O QUE É SER PROFESSOR? Edileuza Bezerra de Lima Longo - São Paulo - SP Pseudônimo: Edih Longo Crônica: O PAÍS DE ALICE Isabella Ribeiro Marinuzzi - Itapemirim - ES Pseudônimo: Moara Moira Crônica: EU E MEUS DILEMAS Elizabeth Jardim Santos – Niterói - RJ Pseudônimo: Elizabeth Jardim Crônica: CRÔNICA DE UM CADERNO SEM CAPA Renato Rivello Amaral - São José do Calçado - ES Pseudônimo: Gonçalo Beatrício Crônica: PRECONCEITO LINGUÍSTICO Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos – Parnaíba - PI Pseudônimo: Robespierre Crônica: PREGAÇÃO AOS CACHORROS Wilson Duarte – Itatiba - SP Pseudônimo: Mayo Crônica: O PROFESSOR
  9. 9. Academia Fluminense de Letras [10]
  10. 10. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 11 ] A LUZ DO FUTURO (ou O VELHO MESTRE E A INTERNET) Mario Meirelles (Primeiro lugar - Categoria Crônicas) O velho mestre chega em casa tarde da noite, vindo da sua labuta diária. O corpo cansado exige descanso. Mas, que nada, há trabalho a fazer. O silêncio da madrugada Ihe dará o aconchego para a concentração na correção de trabalhos e preparação das lições. Gosta demais de dar aulas. A escola, o vozerio dos alunos, as salas desconfortáveis, os prédios deteriorados, a falta de equipamento adequado - nada disso sequer reduz sua paixão docente. Inteligente, interessado, leitor voraz, sua infância pobre não foi obstáculo para a realização de sua formação. As palavras de sua mãe sempre ecoaram em seus ouvidos. Mãe de pouquíssimo estudo em escola da roça, mas sensível a ponto de lhe dizer sempre, como uma benfazeja ladainha: "Só com educação se pode ser alguma coisa na vida. Estude muito, e sempre”. Ah, quanta dificuldade, quantas barreiras parecendo intransponíveis: a pobreza, a dificuldade de conciliar o trabalho, necessário à sobrevivência, com o estudo. Livros? Só os disponíveis nas bibliotecas públicas. Aqueles prédios precários, onde livros superficialmente catalogados, mal conservados e estragados pela ação de leitores desleixados ou vândalos, voltam-lhe à memória a cada vez que espirra, com sua rinite alérgica resultante da inalação de tanta poeira. No inicio, o ressentimento e a revolta; depois, a compreensão de que seu caminho deveria ser construtivo para vencer. E vencer, que começou como vontade de ser bem sucedido, com um ótimo emprego e bela carreira que lhe trouxesse dinheiro, acabou mudando seu significado. Aos poucos foi entendendo que vencer, de fato, seria vencer-se, suplantando inclusive suas mágoas, carências e inseguranças. Vencer passou a ser, então, uma vontade de não somente conquistar conhecimento, mas também de partilhar o que aprendesse com outros iguais a si mesmo. E apaixonou-se pela educação. Neste momento, na sala silenciosa, o professor troca a mesa grande onde espalha os trabalhos para correção pela mesinha ao lado, de onde vem o que ele chama de "a luz do futuro". Essa luz branco-azulada é a da tela do computador. Quem diria - pensa o velho professor - que eu estaria, nesta idade, lutando para aprender a lidar com o computador? Quem diria que minha vida inteira, de fala, ou de giz traçando palavras nas lousas, antes negras agora verdes, seria substituída agora pelos vastos recursos internéticos, pela facilidade das pesquisas em fontes do mundo inteiro?
  11. 11. Academia Fluminense de Letras [12] Ah, e os famigerados mimeógrafos que lambuzavam nossos dedos de tinta roxa - ri consigo o velho professor. Não se iludam, pois não é saudosista nem retrógrado o velho mestre. Ao contrário é um entusiasta dos novos meios proporcionados pela tecnologia. Um clique e uma linda fotografia da Acrópole surge na tela, com suas colunas inconfundíveis. Alguns cliques mais e o velho mestre acessa sites onde estão contidos todos os saberes registrados, inclusive os da famosa Enciclopédia Britânica. Aquele montão de volumes dispostos nas estantes das bibliotecas estão agora ali, na tela de onde emana a "luz do futuro". Magistrais obras podem agora ser carregadas no bolso... num pequeno pendrive! O velho mestre chega quase à irritação com os colegas retrógados e desatualizados, que se negam peremptoriamente, dizem, à "modernice" dos computadores. Ora, colegas, sempre fala, eu também sei que nada, absolutamente nada, substitui o trabalho presencial do professor. Esse "olho no olho", o duelo no bate- pronto das discussões em sala e a magia nos contatos entre seres humanos são insubstituíveis. Porém, os meios de comunicação e informação são igualmente indispensáveis. Discussão infinda. Ou será que os ancestrais tipos móveis da imprensa tiveram naquela época vida fácil, sendo acusados de estarem substituindo os antigos e lindos livros, transcritos pelos copistas e recheados de iluminuras? O velho professor aí está preparando suas aulas no computador. E já anda transformando sua classes em ativos agrupamentos de alunos que se valem da Internet, esse repositório, não somente de bobagens e inconveniências, mas também de informações preciosas e dados facilitadores da vida de qualquer aluno. O velho docente se sente gratificado ao ver que tudo muda, menos seu amor pela educação, seja quando feita ainda nos velhos modelos fadados a desaparecer, seja ao utilizar-se das novas conquistas tecnológicas e das aceleradas melhorias apresentadas pelos meios de comunicação. A luz da manha lança seus primeiros raios na sala, onde o cansaço já vence o corpo do velho mestre, balançado por cochilos irresistíveis. Tenha um breve descanso, caro professor, que daqui a pouco é hora de voltar à labuta de que tanto gosta. A sala de aula o espera. E quando entra nela sente o coração acelerado, atingido pela mesma emoção sentida quando ministrou sua primeira aula A luz do futuro - na verdade já muito presente - continua iluminando a sala. .
  12. 12. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 13 ] BRINCANDO DE VERDADES Susan Ellen (Segundo lugar - Categoria Crônicas) Ótimo! O celular descarregou. Ao considerar a movimentação na frente da escola sei que cheguei cedo demais. Quatro meses desempregado e já tivemos que começar a cortar os extras, a van escolar foi a primeira da lista, a próxima com certeza será a TV a cabo. Toda vez que encontro um amigo é sempre a mesma ladainha “Fica calmo Binho a situação não está fácil pra ninguém, são mais de dez milhões de desempregados”. E eu lá preciso de companhia, eu preciso é de um emprego! Percebo que meus pensamentos estão me deixando irritado. Escuto rumores da agitação dos alunos, as vozes das professoras tentando acalmá-los, acabam me distraindo um pouco. Porque não liberam logo essas crianças? Agora são mais vinte minutos no pátio até o sinal tocar. Ainda me sinto irritado. Consigo avistar Sofia, o cabelo cortado em franja deixou seu rostinho ainda mais redondo e infantil. Fico atentamente observando a interação dela com as outras crianças. Algumas amiguinhas entram em uma casa de madeira. Sofia não se anima, fica do lado de fora, parece se interessar mais pelo conteúdo de uma caixa colorida. Retira de lá um palhacinho de fantoche e uma bailarina, senta no chão e brinca descompromissada. Acima do telhado da casa de madeira surge um brinquedo voador que chama a atenção de Sofia, ela observa o objeto planar para dentro da caixa de fantoches. Sorri alegre. De repente um menino aparece correndo, toda a movimentação dele indica que está procurando o brinquedo, olha atentamente no chão, empurra alguns carrinhos, aumenta o seu perímetro de busca, chega até a empurrar a própria caixa colorida. Sofia apenas observa a busca do desesperado rapazinho. Depois de algum tempo, visivelmente frustrado, ele desiste. Então, a danadinha se levanta sorrateiramente e pega o brinquedo voador de dentro da caixa, faz uma pequena inspeção para ver se o menino não retornará, e sai correndo para brincar em outra parte do pátio A conduta de Sofia me deixou perplexo. Onde essa criaturinha aprendeu isso? Em casa nos esforçamos ao máximo para ensiná-la o respeito e a diferença entre o certo e o errado, Mariana insiste em recorrer à vigilância divina “- Sofia Papai do Céu está vendo”. Eu não me contraponho, Deus é um excelente recurso para os pais terceirizarem as explicações complexas. De qualquer maneira vou ter que abordar o assunto, se eu deixar passar vai saber quantas outras vezes ela fará coisas do gênero. Continuo observando aquela pequena pessoinha em fase de construção, as mãozinhas se esforçando para manusear o brinquedo, os olhos curiosos, a
  13. 13. Academia Fluminense de Letras [14] leveza da alma. Não é porque é minha filha, ou talvez só porque seja a minha filha, começo a repensar e acreditar que a ação de Sofia não foi tão errada assim. Bom, ela colocou suas prioridades em detrimento às do coleguinha, mas não cometeu nenhuma transgressão, não tomou o brinquedo, ele que foi o descuidado e perdeu, afinal de contas nem era dele, tudo ali é compartilhado. No máximo ela foi oportunista...antiética. Engraçado, me lembrei de uma aula que tive no Ensino Médio. O titulo escrito na lousa era Ética e Moral. "Todo crime é por si um ato imoral e antiético, mas nem todo ato imoral e antiético é um crime", explicava o professor. Belo jogo semântico. Mas, como raios eu vou ensinar Ética para uma criança de quatro anos, sou Programador de TI, ou pelo menos era, passei longe dessas disciplinas de Filosofia, Sociologia, Antropologia. Não foi propriamente um grande filósofo que disse que só sabia que nada. No momento, só sei que não sei como explicar para Sofia que apesar de não ter quebrado nenhuma regra, ainda assim, o que ela fez foi errado. Chega a ser patético me esforçar para ensinar minha filha a importância do compromisso social com o outro e lançá-la nesse país, nesse mundo repleto de absurdos antiéticos. Lógico que eu quero que ela seja uma boa pessoa, íntegra, altruísta, sensata, mas vou dizer o quê? Poderia dizer: - Olha Sofia, você deveria ter falado para o seu coleguinha que o brinquedo estava na caixa. Entenda minha filha, mesmo que outras crianças roubem os brinquedos e não sejam castigadas. Ainda que, a maioria das crianças tenha brinquedos ruins e quebrados e apenas uma pequena minoria possa ter brinquedos novos e divertidos. Não importa, porque você tem que fazer o certo sempre. “Você vive em um mundo onde os brinquedos são escondidos em malas, cuecas, sonegados, desviados, nesse mundo as pessoas mentem, enganam, dissimulam, matam para ter o prazer de brincar com aquilo que desejam. Mas, você.... Você, minha filha, vai sempre dizer para o coleguinha que o brinquedo está na caixa. Mesmo sabendo que, possivelmente, ele não fará o mesmo por você". O barulho do sinal me resgata desse avalanche de pensamentos. As crianças se organizam em fila na frente das respectivas salas. A professora me vê. Eu aceno discretamente. Ela toca o ombro de Sofia e aponta em minha direção. A pequena fica agitada, recebe a mochila de rodinhas. Eu faço sinal para que venha. E ela corre. Eu aperto seu frágil corpinho em um forte abraço, de alguma forma estou tentando protegê-la do mundo, escondê-la dessas verdades doloridas, das obrigações e das responsabilidades que nós inventamos. Falarei com Sofia sobre ética, é inevitável, é preciso, mas hoje não... Ainda é muito cedo. Hoje tomaremos sorvete.
  14. 14. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 15 ] CRÔNICA DE UM ESTAGIÁRIO Accursio Braziliense Constant (Terceiro lugar – Categoria Crônicas) São 8h e o expediente está começando. Os cobradores já estão ao telefone tentando encontrar os devedores em casa, no trabalho, ou em qualquer lugar que os localizem. No departamento jurídico reina um silêncio modorrento. No ar, cheiro de café Tem bastante trabalho, a minha Chefe já avisou. A principal atividade da empresa é cobrar, cobrar, cobrar, seja por telefone, carta ou judicialmente. Eu não sabia que tinha tanta gente endividada no mundo. Todo dia, toda hora, chegava alguém para tentar fazer um acordo. O curioso é que as dívidas foram feitas principalmente para comprar carros novos. Por que alguém que não tem dinheiro para comprar um carro se endivida para comprar um? Coisa muito louca, o sujeito não tem dinheiro para pagar o carro e esquece que ainda terá que emplacar o automóvel, botar gasolina, pagar seguro, manutenção etc. Eu comentei sobre isso, que achava muito louco alguém enfiar os pés pelas mãos por causa de um carro novo, e o pessoal do departamento concordou, ninguém entende este mistério. Talvez seja otimismo, falou um advogado: "o brasileiro adora automóvel e sempre acha que vai dar um jeitinho de pagar todas as contas". "Irresponsabilidade", gritou a secretária do alto dos seus cabelos brancos. - isto não faz a menor diferença pra gente! ralhou a Chefe - Vamos trabalhar! Estagiário, você já sabe o que deve fazer! Bota tudo o que puder na conta e mais um pouco! Não alivia! Honorários no topo, ouviu?!!! Pra estimular o devedor a vir correndo negociar, explica para ele o que faremos, como a dívida irá ficando maior com o tempo, uma verdadeira bola de neve, e que a chance dele é agora, depois não faremos acordo. Avisa que vamos levar todos os bens dele, até o cachorro! Tem que ser enfático, viu? “Sim senhora!" respondi, e ato contínuo comecei a trabalhar. Preparei a primeira cobrança do dia. Na semana passada a Chefe e o outro advogado já tinham me ensinado como fazer as contas e depois como deflagrar o procedimento de cobrança. Em seguida liguei para o devedor - Alô, por favor, o dono da casa está? Uma voz masculina e sonolenta respondeu: - É ele, quem quer falar? - Bom dial Eu estou ligando em nome da financeira com a qual o senhor tem uma dívida inadimplida. - Inadim... que? O que você tá falando? - Senhor, aqui é da cobrança, estou falando sobre a dívida que o senhor tem com a financeira e não pagou. Quero saber se o senhor quer pagar, afinal, o
  15. 15. Academia Fluminense de Letras [16] senhor não respondeu aos nossos contatos anteriores. Se vier ao nosso escritório fazemos um acordo. - Aaah, tá! Rapazzz, a vida tá difícil, sabe! - Eu sei, mas o senhor comprou um automóvel novo alienado fiduciariamente, não pagou, tentamos localizar o veiculo para apreender e o mesmo não foi encontrado. O que o senhor fez com o automóvel? - Olha só, meu irmão, o carro era meu e eu passei ele pra frente, vendi, tava precisando de dinheiro. E eu, com toda a paciência do mundo, falei: - O carro não era exatamente seu, ele estava financiado e garantia a dívida, o senhor não podia ter vendido e sabia disso! - É pode ser, mas vendi e vendido está, certo? E quer saber mais, devo não nego pago quando puder! - Bom, se o senhor coloca as coisas deste modo- respondi com ênfase e voz alta e grossa - não tem jeito, eu vou ser obrigado a executá-lo, entendeu bem? Executááá-lo! Do outro lado da linha silêncio total...eu só ouvia a respiração ofegante do devedor. O ambiente ficou pesado. Depois de um minuto que pareceu uma eternidade, o devedor, com voz tímida e baixa perguntou: - O senhor vai me exe...executar? Não respondi imediatamente, por dentro regozijei, finalmente a minha prosa tinha dado certo, pensei, nada como ser durão, agora ele vai ver, "dura lex sed lex". E, baixinho, vagarosamente, solenemente, respondi: E o jeito... - Faz isso não! - Implorou ele com a voz embargada E em seguida ele berrou: - Eu tenho dois filhos pra criar!!! Você não tem coração? - Eu não posso morrer!!! Eu pago esta porcaria de dívida! Eu tenho o dinheiro! Surpreso, falei imediatamente: - Que isso!!! Por favor, fique calmo, eu não vou matá-lo! Nós vamos executar a dívida na Justiça! E ele: - Aaah, que alívio! Processo na Justiça... Humm, sabe, eu acho que não vai dar pra eu ir aí não, tô sem dinheiro, tá tudo tão difícil...!
  16. 16. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 17 ] OK, GOOGLE: O QUE É SER PROFESSOR? Curió da Madrugada (Crônica selecionada) Entrei na brincadeira e perguntei ao meu celular: - Ok, Google: O que é ser professor? A voz eletrônica respondeu: - De acordo com o Wikipedia, professor ou docente é uma pessoa que ensina ciência, arte, técnica ou outros conhecimentos. Um pouco espantado e maravilhado com a tecnologia do aplicativo, não resisti e testei mais uma vez: - Ok, Google: conta uma piada! - Por que a plantinha não fala? Porque ela é "mudinha”. Caí na gargalhada, a contragosto. “Ah, se existisse esse aplicativo na minha época da escola”. Lembro-me bem dos trabalhos em papel sulfite que escrevíamos para a avaliação. A professora dava o tema e partíamos para a Biblioteca Municipal da cidade. Tinha que pedir para a bibliotecária ajudar. O tema era "Bambú". Logo ela aparecia com uma Enciclopédia Barsa já prontinha na página. Com a letra mais caprichada possível, copiávamos palavra por palavra (sem direito a corrigir com Contrl+Z) todo o conteúdo do livro e depois tínhamos que ler frente a sala. Em plenos sete anos de idade, isso era o que conseguíamos fazer de melhor. Minto, conseguíamos mais. Lembro de uma vez que a Professora pediu para fazermos uma redação em tema livre o sobre que quiséssemos. Naquela época eu tinha um joguinho do Master System (o video-game da época) que se chamava “Fantasia", inspirado no filme do Michey Mouse. Então eu coloquei para fora toda minha imaginação e falei sobre um mundo onde as vassouras tinham vida e dançavam, onde a água brincava com um ratinho, flautas voadoras entoavam uma canção e todos dançavam juntos. Esse ratinho era mágico, girava a colher do caldeirão num simples estalar de dedos. Lembro que a Professora gostou tanto dessa redação. Ela veio me elogiar com um sorriso enorme que fiquei me sentido um Paulo Leminski de quimono: poeta samurai. Ainda por cima ela contou sobre a redação para minha mãe que completou meu êxtase de pequeno escritor com “aquela" comemoração. Ela deve ter esse ensaio guardado até hoje. Porém, também preciso confessar o outro lado: aquele professor de história que me humilhou frente aos meus colegas. Tá certo, na adolescência eu era o terror da escola. Tendo razão ou não, aquilo me marcou. Independente do elogio ou da bronca, quando me recordo dos meus professores mais antigos, raramente me lembro da matéria ensinada. Lembro- me mais é da pessoa. Aquele professor do elogio, das piadas, da bronca ou da inteligência. Lembro como ele determinou minha vida e contribuiu para eu ser o
  17. 17. Academia Fluminense de Letras [18] que sou. Se a matéria era Português, Matemática ou Literatura, ficava num segundo plano. De lá pra cá, os tempos mudaram. Hoje em dia o aluno não precisa mais ir à biblioteca, ela está na palma da sua mão. - Bambú? Google. - Michey Mouse? Ok, Google. - Paulo Leminski? Wikipédia. - Redação? Aí a coisa escorrega! Você dá de cara com um Frankenstein de Contrl+C e Contrl+V. O que fazer professor? Como eu disse acima, não é de hoje que esta técnica existe. Muito menos o fato de usarmos as máquinas para nos ajudar. Esse casamento da máquina com o Homem é caso antigo e sempre teve confusão. O problema é que agora eles não se desgrudam. Vão juntos ao trabalho, aos parques, nas férias e até na sala de aula. Há quem diga que mesmo no casamento há que se respeitar a individualidade e deixar os eletrônicos de lado em certas situações. Outros pensam que podem ficar de mãos dadas, mesmo nos momentos mais inusitados, como na sala de aula. Sendo professor, eu também tenho meus casos com a tecnologia. Consigo mostrar um vídeo do Freud, em High-Definition Quality, num documentário que pode valer mais do que muita aula bem trabalhada. Exibo fotos, slides e exercícios. É um bom parceiro educativo. Às vezes os alunos se interessam mais por ele do que pelo professor. E de dar inveja tamanha atenção. Penso no que fazer para ganhar a mesma concentração nas aulas. Preciso tornar-me máquina? Hoje em dia, não é raro ver as pessoas querendo ser como máquinas: impecáveis, totalmente racionais e sem erros. Antigamente era o contrário, as máquinas queriam ser como a gente. Queriam ter afeto, fazer besteira sem pensar, ficar com raiva ou amar inteiramente aquela pessoa totalmente "inadequada" para você. Por conta desses aparatos tecnológicos de hoje, dizem que num futuro breve o professor será obsoleto. Será? Arrisco-me. É mentira! Máquina não dá conta de um aluno. Não é por falta de técnica ou conhecimento, ou mesmo incapacidade de entretê-lo, mas porque falta o essencial do aprendizado. O ser humano é aquele que jamais encontra a existência dada, a priori, por completo. Ele sonha, imagina, deseja e fantasia. Apesar de suas intermináveis empreitadas pela satisfação, sempre se encontra em busca, no horizonte, imperfeito. As máquinas, faltam-lhes certo delírio, a capacidade de olhar para um aluno e enxergá-lo Paulo Leminski
  18. 18. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 19 ] - Ok, Google: Você não sabia, mas ser professor é dar vida ao conhecimento. E sem isso nada tem sentido.
  19. 19. Academia Fluminense de Letras [20]
  20. 20. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 21 ] O PAÍS DE ALICE Edih Longo (Crônica selecionada) No dia 09 de novembro de 1989, víamos deslumbrados o mundo voltando ao seu eixo. Com seus pedaços unidos. Então, foi preciso a cicatrização de tal ferida. O lado próspero ajudou os seus irmãos do outro lado novamente a andar. Caía a divisão entre o socialismo do Leste e o capitalismo do Oeste alemão. O muro de Berlim, finalmente, tornar-se-ia una curiosidade para turistas. E qual não foi nossa surpresa quando vimos um muro dividindo o "nós" do “eles" em nossa Capital Federal? Não acreditei quando vi isso. Felizmente, parece uma coisa provisória de madeira e não daquele que cimenta duramente a nossa liberdade do ir e vir. Dizem que a medida foi feita para impedir o acesso e consequentes atos indevidos, ao nosso Congresso Nacional e a violência entre as partes. Estamos em plena luta pelo impedimento de nossa atual presidente. Fatos comprovam, não a sua adesão ao status quo: corrupção, mas, infelizmente, ela confundiu as coisas e se valeu de maquiagens não permitidas nas nossas contas. Que pena presidente, que pena! Não entendo como a senhora não assistiu ao pedaço do filme onde consta a “Lei complementar número 101 de 04/05/2000." A Lei de Responsabilidade Fiscal. Pois é, como em nossas casas, também não devemos gastar mais do que podemos. Não adianta fingirmos um superávit financeiro que não existe. Se não há receita, não poderá ter gastos, simples assim. Não há milagres. Aliás, atualmente, não estamos nem gastando, pois nosso dinheiro voou para bolsos estranhos. Infelizmente, estamos com salários atrasados; nossos lugares em fábricas estão vazios, as filas à procura de um trabalho estão parecendo jibóias de mil metros que nos vão engolindo aos poucos e devagar. Os "nãos" nos corroem a alma e vem o desespero. Que pena senhora, que realmente aquele prato que aparecia em sua propaganda à reeleição sumiu de fato de nossa mesa. Hoje, andamos olhando para o chão, para o lado, para a frente e o bendito feixe de luz não aparece em nenhum dos lados. Hoje andamos a esmo. Hoje damos a mão à desesperança. Temos inimigos como o Aedes Aegypti que apavora nossa gente; que microcefalia nossos recém-nascidos e o pior; não temos vacinas em Postos de Saúde suficientes nem para a H1N1. O país está navegando num barco furado sem direção e nem comando. Temos um evento como as Olimpíadas se aproximando e não vemos ninguém discutindo futebol, voleibol e outras modalidades. Escutei no Metro uma pergunta a esse respeito e a pessoa interrogada respondeu que isso parece que vai acontecer em outro país.
  21. 21. Academia Fluminense de Letras [22] Talvez o país ideal fosse o da Alice. Onde tudo é mágico. Só que não vivemos no surreal. Vivemos a rudeza da vida e a fome dói. As contas precisam ser pagas e sem quaisquer maquiagens, pois nossos credores nos comerão até o âmago com os juros acumulados se atrasarmos. E nosso nome aparecerá no SPC, assim como o nome de nosso país aparecerá nas agências de risco como maus pagadores. Vamos sangrar até extirpar a nossa alma. E o terrorismo da inflação avançando... Avançando... Passando por cima de tudo como um poderoso tanque de guerra. E precisamos ganhar essa guerra. Sofro duplamente tudo e em silêncio e imparcialidade. Sou uma jornalista e não posso maquiar os fatos. Eles são reais como a nossa moeda que está se tornando irreal ante a tantas falcatruas. Se a senhora continuar, que Deus a ajude com o leme, pois nossa embarcação precisa de um pulso forte e muita fé para chegar ao nosso destino depois de todas essas intempéries. Que os acordos sejam feitos para as reais melhorias de nossa gente e não para que alguns fiquem mais ricos, mais poderosos, mais... E que esse muro que dividiu o nosso povo seja o mais breve possível retirado, pois estamos nos sentindo humilhados com essa separação. Adoramos a historinha da Alice e seu país de mentirinha, mas que isso fique em nossas memórias infantis. Somos uma só Nação. Acabem com o "nós" contra "eles' que isso pode levar a uma situação de maior sofrimento. A quem interessa essa guerra interna? Que Deus ajude nossos dirigentes. Amém E a nossa Pátria? Apenas... Amem-na.
  22. 22. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 23 ] EU E MEUS DILEMAS Moara Moira (Crônica selecionada) Eu e meus Dilemas. Quem não os tem? Mas os meus são grandes amigos, a quem posso recorrer, como sábios conselheiros consultivos. E eles sempre estão lá, calmos e estáticos, com aquele semblante que só a maturidade constrói. Inertes e firmes como blocos de granito, esperando por mim. E eu chego sempre esbaforida, carregada de pacotes. Uns reais, outros imaginários. Uns reais, outros virtuais. Às vezes estou até ofegante. Uma vez ou outra eu grito e me permito extravasar. Faz parte do meu temperamento e do meu trato cultural. E eles sempre sussurram. E me desafiam, como esfinges que me apresentam charadas. A tal da ética é assim mesmo Ou decifra-me ou devoro-te. Porque o mundo lá fora é como o êmbolo de uma seringa, que te fecha o cerco, te encurrala e te esmaga. E você muda de forma. Por isso me aconselho com estátuas sólidas, que resistem ao tempo e que fazem desse tempo seu aliado. A ética é atemporal. Mesmo para os questionamentos mais tecnológicos e contemporâneos ela te olha nos olhos e te situa. E eu vou indo por al, errante, errando, tentando acertar. Às vezes tento argumentar com 'jeitinho', mas nenhum jeitinho faz com que os grandes blocos se vergam. Porque a ética não se verga. Eles apenas balançam suas cabeças negativamente, enquanto sinto minhas bochechas corar. Sim, por dentro eu já sabia. No fundo, a gente sempre sabe. E os dilemas nos acompanham sem pestanejar. Eles são pessoais como as sombras, e foram construídos a partir daquilo que conseguimos aprender com a vida. Do chorinho de bebê, das brincadeiras de infância, do banco de escola. A todo momento somos chamados a interlocutar com eles, e a ajustar a rota. Às vezes, a conversa é mais rápida que um flash de luz, mas o seu resultado é importante e nos impede de sairmos por ai nos jogando por janelas rumo ao desconhecido. No dia a dia, as lições da escola da vida se renovam. Mudam-se as formas, as modas, as mídias Eu e minhas gavetas bagunçadas, em busca de uns humildes resultados sustentáveis. Eu fugindo da falsa felicidade das redes sociais e tentando aprender com meus pais e mestres, tentando seguir os bons exemplos e buscando crescer um pouquinho com os resultados. E por ai eu vou...
  23. 23. Academia Fluminense de Letras [24]
  24. 24. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 25 ] CRÔNICA DE UM CADERNO SEM CAPA Elizabeth Jardim (Crônica selecionada) Quando me deparei com esse chamado para escrever sobre a situação atual do professor me senti como que vazia por completo, embora a vontade de dar o meu desabafo fosse intensa. Nestes dias me vejo assistindo a situação do Brasil em total decadência e penso mais e mais em qual poderia ser minha contribuição para melhorar esta situação. Penso... logo projeto, com a intenção de realizar um curso de qualificação onde se ajuda o professor a utilizar a didática de maneira a impulsionar o gosto do aluno pelos estudos já que o próprio não sente mais aquela vontade de ensinar. Fico matutando este empreendimento por longos anos e não consegui ninguém que se interesse em melhorar as condições do professor, pois que este sendo excelente produziria alunos excelentes e muitos não estão interessados nisso. Vou de ônibus até a praia fazer uma caminhada e vejo entrando uma senhora com uma criança de uniforme, no caminho para a Escola. Em meio as conversas a mesma interrompe a criança e lhe solta uma frase de fazer arrepiar todos os pelos: se a professora perguntar de novo porque você não fez o dever mande ela... (expressão inapropriada para crianças ou qualquer que seja o leitor). Um ser humano mais consciente chamou-lhe a atenção diante de todos. Percebia-se que não a conhecia, mas o seu bom senso não poderia calar-lhe. Valeu-se também de sua estatura, com certeza, se fosse eu ela não teria dado importância porque era o dobro de mim. Ele em seu possante, aproximados, dois metros de altura, insinuou levá-la presa por constrangimento de menor e ofensa a professora. Todos ficaram boquiabertos inclusive a ofensora. Neste momento vazou-me novamente a esperança e a vontade de colaborar com a minha idéia contemporânea. Um fio de luz rompeu-me o peito e durante a caminhada pensei por muito tempo no assunto. Segui o fluxo, mais pensamentos vazando de dentro de mim e não paravam de encher todos os meus potes interiores. Sento em uma lanchonete e ouço algumas professoras da Rede Municipal, a que mais necessita deste impulso, já que é a fase primordial da Educação, a lamentarem-se da situação dos alunos pequenos - sem, educação, sem asseio, sem afeto - e tão descrentes de sua capacidade que não vêem para aqueles, condições de melhora. Fico triste, fico muito triste em ver em que se tornou a mais bela profissão do mundo. Tomou-se cabide de pessoas frustradas, sem outra opção e então vão ser professores públicos “que não tem tanta responsabilidade”, que não acreditam mais no seu próprio futuro e não se sentem capazes de fazer a diferença na vida de pessoas tão dependentes de sua atenção. Uma atenção
  25. 25. Academia Fluminense de Letras [26] que não deve ser mínima, mas que deve ser suficiente para mudar toda uma situação em que se encontra nosso pals. Se falamos que a criança é o futuro porque não aplicamos nosso saber no presente? Porque não fazemos uma poupança de valores e conhecimento nestas perdizes para nos certificarmos do nosso verdadeiro valor? Pensei mais uma vez em como fazer valer no coração de cada um sua força real o como dinamizar essa relação professor/aluno/professor no coração de nossos professores para que eles próprios se reconheçam Mestres. Quando esta certeza se tomar consciente em cada professor não haverá frustração capaz de tomar conta de nosso cotidiano, não haverá infelicidade alinhando-se às nossas ações e todo o dilema se tomará certeza da Nação que queremos realmente para nos. Assim cada um será capaz de escrever sua própria história o desenhar a capa de seu próprio caderno com as cores que preferir.
  26. 26. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 27 ] PRECONCEITO LINGUÍSTICO Gonçalo Beatrício (Crônica selecionada) Raramente acordo atrasado, mas como fiquei até tarde da noite corrigindo provas sabia que aquela segunda feira seria corrida. Arrume-me como um foguete e entre uns goles de café engoli um pão com manteiga. Tranquei a porta do apartamento e enquanto esperava o elevador no corredor o vizinho do 504 que também aguardava, conversava em italiano com alguém do outro lado da linha e despediu-se rapidamente quando o elevador parou no andar com a desculpa que perderia o sinal ao entrar. Ele me olhou, sorriu e sem que eu falasse nada, me disso com um sotaque paulista carregado “Ora meul Meu primo me convidou pra fazer um curso de verão e ficar na casa dele na Itália. Muito da hora, isso!". Assim que chegamos à portaria nos despedimos. Ao pegar minha correspondência, o porteiro que era Gaúcho foi logo contando as últimas novidades do condomínio. "Bah, tu não sabes o que aconteceu ontem aqui, tchê! O guri dos Pereiras foi roubar o carro dos pais pra passear o bateu em quatro carros na garagem”. Fiz cara de espanto, mas logo lembrei que andava de ônibus o estava atrasado. Sai correndo para o ponto e quando fiz sinal para meu ônibus que vinha uma senhora tocou meu ombro e perguntou puxando no som do esse "licencinha moço, esse ônibus passa perto do Museu de Artes”. Respondi que sim e a senhora muito sorridente agradeceu emendando "minha filha vai encontrar comigo pra assistirmos uma exposição de uns trem lá". Entramos no coletivo e sentamos em lugares distintos. Solitário, passei a refletir o quão plural é o nosso idioma. Em pouco tempo ouvi vários dialetos. De repente uma voz alta me trouxe a realidade. Um homem vendia guloseimas para os passageiros e no seu discurso o ouvi pronunciar "pobrema, dois real, chicrete, roubano, matano, doutô, bençoi" entre outras. Mesmo com toda essa forma diferente de falar ele conseguiu o principal, se comunicar o vender seu produto. No trajeto ainda li em alguns letreiros de comércio nomes como: "Comida caseira de mainha" e "Forró Ó Xente" e na hora se saltar no meu ponto me despedi do motorista com um “valeu irmão" da forma mais carioca possível. Cheguei à sala de aula mais decidido que nunca, ela seria sobre preconceito linguístico. Como professor tenho a obrigação de ensinar a Norma Culta, mas também os seus dialetos e variações mostrando que não existe língua pura. Por isso passei pra eles que devemos entender que a língua é viva o não há mais espaço para desprezamos a linguagem dos outros.
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  28. 28. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 29 ] PREGAÇÃO AOS CACHORROS Robespierre (Crônica selecionada) Santo Antônio, um dos santos mais populares do cristianismo, venerado tanto no Oriente quanto no Ocidente, considerado o Doutor da igreja ou o santo de mundo, nasceu em Lisboa no ano de 1195 e foi batizado com o nome de Fernando. Foi um dos maiores pregadores de todos os tempos. Teve outros nomes, tais como António de Lisboa e António de Pádua. Com este último ficou para sempre conhecido como pregador erudito e é com sua ajuda que faço agora a minha pregação. Faço-a pautado na humildade para que em nenhum momento ouse imitar a gloriosa e divina inspiração daquele que, segundo seus biógrafos, tinha um exterior polido, gestos elegantes e aspecto atraente - cognominado “Martelo dos Hereges”. Mas assim como ele, que um dia pregou aos peixes, pretendo pregar também aos irracionais, aos cachorros - os cachorros da Academia Parnaibana de Letras. Em primeiro lugar, para que minha pregação não seja erroneamente interpretada por energúmenos, é de bom alvitre iniciar dizendo quem são tais cachorros. São os abandonados, combalidos e sarnentos cães de rua, atualmente hospedados no quintal da academia porque merecem, assim como os bem tratados e bem abrigados das casas dos ricos, o acolhimento dos homens de bem. Foram conduzidos por uma Associação de Proteção aos Animais, entidade ligada a ONG 7 Vidas e ali permanecem oferecendo hipotética segurança, aguardando donatários que tenham a boa vontade de lhes oferecer uma residência onde possam encontrar alimentação para o corpo e também a amizade, que é a alimentação para a alma. E eles têm alma? O filósofo e matemático Pitágoras afirma que sim: "os animais dividem conosco o privilégio de terem uma alma”. O Padre Antonio Vieira, um dos homens mais influentes do século XVIl no campo da política e da oratória, ao pregar na cidade de São Luis do Maranhão, no ano de 1654, lembrou que Santo António resolveu pregar aos peixes porque os homens não queriam lhe ouvir. Eu também, através desta crônica justificadora, prego aos cachorros para que os homens me ouçam: - Ouçam-me, oh vagabundos vira-latas, e protestem contra os ladrões: os desalmados, aqueles que não obstante vossa frágil vigilância, já arrombaram portas e janelas do silogeu e dali subtraíram uma mesa e algumas estantes de ferro. Não levaram os livros porque felizmente (ou infelizmente) ladrão não gosta de livro.
  29. 29. Academia Fluminense de Letras [30] - Ouçam-me, oh vadios “cabíris” das ruas! E com os seus latidos cansados digam a quem de direito que a Academia de Letras necessita de ajuda para que possa, pelo menos, pagar um vigia para tentar estancar a dilapidação de seu patrimônio e assim poder continuar a exercer o seu papel social de disseminar a cultura. - Saibam vocês, oh famélicos ladrejantes, que o mesmo Vieira, no famoso sermão acima aludido, lembrou que quando Cristo falou aos pregadores foi para lhes dizer: "Vós sois o sal da terra" (Mateus: 5,13). Isto porque o efeito do sal é impedir a corrupção. Embora se saiba que muitas vezes o sal não salga... Mas quanto a nossa academia, digam isso a quem de direito: não concorda com a corrupção. Quando ela tenta, em vão, se conveniar com o poder público, pretende tão somente meios necessários para contribuir com a cidade, preservando sua biblioteca, oferecendo leitura, divulgando a realização de concursos literários que ajudarão os interessados principalmente os mais jovens, aqueles que almejam se afastar da ignorância. - Ouçam-me, oh cansados farejadores dos becos de nossa urbe: ouçam- me e transmitam, com os seus latidos já desgastados pelo tempo e pela doença, aos ladrões e aos homens que detém o poder, Digam que são vocês, doravante, os intermediários dos acadêmicos que não merecem ser roubados e que há mais de um lustro lutam por um convênio que não sai nunca. E digam, finalmente, através dos seus sonoros latidos do abandono, que somente resta pregar para vocês como fez Santo Antônio de Pádua aos peixes, porque os homens, lamentavelmente, insistem em não ouvir...
  30. 30. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 31 ] O PROFESSOR Mayo (Crônica selecionada) Dentre as diversas profissões existentes, uma se destaca: a do Professor. Esta profissão é a forma viva do desenvolvimento das pessoas que o ouvem. O aluno, desde a mais tenra idade até a mais avançada, tem no professor o anjo da guarda de quantos nele se inspiram, a partir de sua ação de demonstrar seus conhecimentos a outras pessoas, sejam crianças, sejam adultos. Não é algo tão simples transmitir conhecimentos. E muito mais que palavras apenas. O professor precisa sempre estar preparado para divulgar os conhecimentos nos quais se especializou. A cada dia novas informações surgem sobre os mais diversos assuntos, mesmo dentro de sua matéria e com isso o professor precisa estar continuamente atualizado. Ainda que sua matéria verse sobre o passado, sempre há a possibilidade de novas descobertas que podem alterar aquilo que até então, era tido como real. Isto faz com que, muitas vezes, o professor tenha até que alterar sua própria visão e entendimento sobre determinado assunto. Em sua função, o professor deve auxiliar o aluno a alcançar seus objetivos, promovendo o desenvolvimento integral do mesmo, nos aspectos físico, psicológico, afetivo e social, estabelecendo estratégias para que tal aconteça, avaliando continuamente seu desempenho, sendo, portanto, um facilitador para que o aluno alcance seu desiderato. No aspecto físico expõe ao aluno noções de como cuidar de seu próprio corpo, tais como uma alimentação saudável, a prática de exercícios que colaborem para seu próprio desenvolvimento, além da higiene necessária e, ainda, evitar o uso de substâncias nocivas, tais como o álcool, o fumo e drogas, os quais podem provocar o surgimento de doenças no futuro. No aspecto psicológico, talvez o mais difícil tema a ser desenvolvido e explicado devido a diversidade de situações que podem se apresentar e também porque cada aluno é um ser humano único e diferenciado, já que uma mesma situação pode interferir de maneira diferente em cada pessoa. E é exatamente isso que deve ser colocado ao aluno para que ele analise a situação surgida e tome a resolução que possa ser considerada como a mais adequada naquele momento. No aspecto afetivo procura colocar na mente do aluno a necessidade de se relacionar bem com seus parentes diretos, tratando com delicadeza seus pais, irmãos, familiares e também colegas da escola e amigos com os quais privará em grande parte de sua vida. Da mesma forma devem ser tratadas quaisquer outras pessoas. Quanto ao aspecto social transmite aos alunos a necessidade de se integrar nas diversas comunidades com as quais estiver convivendo ao longo de sua vida, seja na escola, seja mais adiante na vida profissional, colaborando,
  31. 31. Academia Fluminense de Letras [32] desta forma, para seu próprio desenvolvimento e até para o crescimento daqueles com os quais estiver tendo contato. Fora da sala de aula, mas ainda dentro da escola, o professor também executa outras funções. Colabora com a equipe multidisciplinar, no desenvolvimento e melhoria da escola como um todo, enviando e discorrendo, junto à direção, sugestões quanto a própria infra-estrutura, procurando soluções educacionais confiáveis e uso de novas ferramentas tecnológicas como recursos pedagógicos, tudo no sentido de otimizar o resultado final de seu trabalho e de seus pares junto aos alunos. Nas reuniões com pais de alunos, o professor deve procurar conhecer, ainda que não profundamente, mas dentro do possível, a relação do aluno com seus familiares, uma vez que a educação básica, no sentido geral, deve iniciar- se em sua própria casa e desenvolvida e aperfeiçoada na escola. A integração pais e mestres será sempre benéfica ao aluno no sentido do aperfeiçoamento como ser humano e tendo também como objetivo a preparação do mesmo para a vida adulta, como pessoa e como futuro profissional na atividade que venha a ser escolhida.
  32. 32. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 33 ] POESIAS SELECIONADAS Primeiro colocado: Alessandra Figueiró Thornton – Porto Alegre - RS Pseudônimo: Ale Thor Poesia: MENINO DE RUA Segundo colocado: João Romário Fernandes Filho – Fortaleza - CE Pseudônimo: Arges Poesia: FOGUEIRAS Terceiro colocado: Isabel Florinda Furini – Curitiba - PR Pseudônimo: Amar Amaranto Poesia: O FOGO DAS LETRAS Outras poesias selecionadas: Monize Luiz Santos– José Bonifácio - SP Pseudônimo: Mona Poesia: AULA Hugo Bergamasco Morais - Maringá - PR Pseudônimo: José Urias Poesia: DILEMA DO “MESTRE”, DILEMA DA EDUCAÇÃO Pedro Diniz de Araujo Franco - Rio de Janeiro - RJ Pseudônimo: Nereu Lacerda Poesia: TEMPOS MODERNOS - 2018 Bruno do Nascimento Santos – Niterói - RJ Pseudônimo: Bruno Sower Poesia: DILEMAS DE PROFESSOR Gisely Maria de Oliveira - Cupira - PE Pseudônimo: Maria Dulce Poesia: A INTERNET COMO INSTRUMENTO DA EDUCAÇÃO Josiane Alves dos Santos – Teixeira de Freitas - BA Pseudônimo: Júlia Alves Poesia: CON/STA/TAÇÃO Júlia Dias Oliveira Rosa – Uberlândia - MG Pseudônimo: Dias Rosa Poesia: SOCIEDADE XX.I
  33. 33. Academia Fluminense de Letras [34]
  34. 34. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 35 ] MENINO DE RUA Ale Thor (Primeiro lugar – Categoria Poesias) Um domingo comum, era um dia normal, e no chão restava um, em posição fetal! Num pedaço de pano, um menino encoberto, como dorme todo ano, sempre a céu aberto! Seguindo seus caminhos, pessoas passam por ele, como pássaros em ninhos, ninguém repara naquele! No calçadão da praia, o menino ali dormia, era mais uma vaia, de tudo que corria... E, em sonhos se perdia, dormindo assim simplesmente, nas lembranças, na alegria, de uma imagem inconsciente! E recostado no abrigo, era mais um cachorro, esperando seu amigo, que descia lá do morro! E dorme o sonho dos justos, o menino agora perdido, no céu correto dos bustos, em mais um dia sofrido! Sem escola, sem família, menino órfão, de rua, sozinho nesta ilha, e os olhos fechando a lua!
  35. 35. Academia Fluminense de Letras [36]
  36. 36. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 37 ] FOGUEIRA Arges (Segundo lugar - Categoria Poesias) I Ali, na frente, eu me vejo tomado de uma fome de partilha que faz com que eu me ponha em plena trilha de busca do sucesso que antevejo! Enxergo, além da casa, a luz que brilha e nela encontro o norte do que almejo, que é ver aceso em cada olhar desejo de ir além do chšo da própria ilha. Mas nisso, como em tudo, só vontade consegue transformar comodidade em força para transcender fronteiras. É assim que eu tento parecer fagulha, que em meio à palha, vivida, mergulha e faz arderem ali novas fogueiras... II Difícil é acender uma luz real em meio a um mundo morno, quase frio, no qual os laços ficam por um fio ou pairam numa nuvem virtual... E digo: não há menos desafio em superar a inércia cultural que faz com que o aluno mal e mal queira algo mais que o raso ou o fugidio! Mas creio que onde há sinceridade no esforço de moldar a realidade em prol de um ideal maior que eu. há vida que se amplia e se completa e a própria existência, mais repleta, devolve a soma do que recebeu...
  37. 37. Academia Fluminense de Letras [38]
  38. 38. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 39 ] O FOGO DAS LETRAS Amar Amaranto (Terceiro lugar - Categoria Poesias) A luz e o fogo de Prometeu despertou as almas as almas escolheram palavras para fazer acrobacias e acenderam o fogo poético das Academias as Academias de Letras eternizam as chamas das letras pois inspiram, motivam, orientam e elevam as mentes dos literatos e dos poetas as Academias divulgam os livros convocam leitores aumentam o encanto da vida com poemas, ensaios e ficções semeiam a cultura, o amor e o espanto o fogo do amor é pederneira suas faíscas incendeiam as palavras e invocam as Musas - nobres conselheiras do mundo das letras.
  39. 39. Academia Fluminense de Letras [40]
  40. 40. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 41 ] AULA Mona (Poesia selecionada) Nenhum aluno presta atenção na matéria um aluno presta atenção na matéria aluno presta atenção na matéria presta atenção na matéria atenção na matéria na matéria matéria sala cela célula celular
  41. 41. Academia Fluminense de Letras [42]
  42. 42. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 43 ] DILEMA DO MESTRE, DILEMA DA EDUCAÇÃO José Urias (Poesia selecionada) Escola de hoje Sol que se esconde Por trás de altos muros Enquanto A juventude foge Do conflito interior Do dilema da vida Dando-se como solução a morte:que horror! “a intemet ensina tudo O celular é o meu mundo Quem precisa de professor? Ir à escola é perder tempo Nada agrega de valor Aliás Que de bom aprenderei lendo? Imagina que vou fazer isso mesmo... Ainda mais com aquele professor chato Que fala, fala e não entendo nada de nenhum jeito... Chega do ser responsável O que importa é o provável O que vale é o prazer A "vibe" é zuar, responsabilidade pra que?" Pobre do mestre Que diante destes jovens está detido A maioria é escopo superficial, rumo indefinido O que fazer se eles não se abrem Não se ajudam Nem ajudam os outros a Ihes ajudarem... Afinal Será que vamos nós Sermos cúmplices dessa cena criminal? Coagidos e compungidos Em direção ao penhasco da destruição fatal?
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  44. 44. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 45 ] TEMPOS MODERNOS – 2018 Nereu Lacerda (Poesia selecionada) Meus heróis estão mortos, como diz a canção cansativa, Minhas ideias desfolhadas e antiéticas, Minhas flores acabrunhadas e maconhadas. Minhas crianças computadorizadas e xuxo-geniais, Meus dias escuros e minhas noites claras e arredias, Minhas moças desiludidas e enfezadas, Minhas praias com cacos, óleos e plásticos, Meus dias mo-nó-to-nos, mo-nó-to-nos e rotineiros, Meus políticos "lobizados" e “jargonofônicos”, Minha constituição desconstituída e até descumprida, Minha prosa gabola e confusa, Confusos estamos todos e apressados. Jean Seberg morreu. Morreram minhas ilusões, Minha literatura "bestesselerizada", Meus poetas científicos e engajados, Minha fortuna sumítica, tabagista e aidética, Minhas fantasias muito práticas, Minha religião muito atéia, Meu Deus muito distante, muito, muito, que penal O amor desbolerizado, asséptico. Trivial. A Saúde conveniada, cheia de propaganda e modismos, Meus pobres reivindicantes e agressivos, Minhas dívidas estão impagáveis e tristonhas, Meus sonhos e meus sonos viraram roncos e pesadelos, Minhas imagens desfocalizadas, ou cruentas, Minhas conversas noturnas novelizadas, Minhas esperanças envelhecidas, entorpecidas, emporcalhadas Vem eleição aí. Que faço?
  45. 45. Academia Fluminense de Letras [46]
  46. 46. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 47 ] DILEMAS DE PROFESSOR Bruno Sower (Poesia selecionada) Profissão perigo, ainda assim, indispensável. Uma sociedade sem professor é algo impensável. Se você está lendo esse texto, concordando ou não Foi porque um professor te mostrou a direção. Como é possível que nesta terra, com dimensão de continente, De escolas sem teto e analfabeto presidente, Ninguém veja o valor desse profissional Que tem a função primeira de desenvolver um cidadão racional? Ou talvez seja isso, veja que interessante Na terra do Pão e Circo, é prejuízo ter pensantes...
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  48. 48. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 49 ] A INTERNET COMO INSTRUMENTO DA EDUCAÇÃO Maria Dulce (Poesia selecionada) Hoje em dia a gente nota e com muita precisão que a tecnologia teve grande evolução cresceu bastante depois que surgiu a televisão. Tudo tornou-se acessível sem qualquer dificuldade mesmo a maior distância manter a boa amizade uma pesquisa bem rápida com muita facilidade. Qualquer informação bem fácil de acessarn seja no computador ou no aparelho celular economizando tempo só basta a gente clicar. É notório ressaltar que além de conhecimento a internet serve como um meio de instrumento bastante fundamental usado a qualquer momento. isso contribuiu bastante para o aprendizado aprimorando as pesquisas e o aluno ajudado mas diante de tanto acesso é preciso ter cuidado. Pois o acesso utilizado para obter informação pode ser interrompido
  49. 49. Academia Fluminense de Letras [50] mesmo não tendo intenção por sites entretenidos que tiram toda atenção. Então o professor também deve orientar para que o aluno consiga se concentrar evitando distrações que possam atrapalhar. Muitas são as opções desse mundo digital tanto em sites de busca biblioteca virtual também usam esses meios no ensino presencial. O aluno assim aprende mais sobre outra cultura melhora a sua escrita desenvolve a leitura ainda pode desfrutar da doce literatura. O professor também pode esses meios utilizar usando métodos diferentes para poder ajudar o aluno a aprender e vai lhe incentivar. É importante o professor inovar a metodologia ser dinâmico no ensino usar até simbologia e nos tempos atuais envolver tecnologia; Com o passar do tempo novas coisas vão surgindo a chamada modernidade dessa forma vai agindo e todos junto a ela
  50. 50. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 51 ] temos que ir progredindo. E apesar dos malefícios que a internet traz conteúdo inapropriado indecente e muito mais visando por outro lado é bastante eficaz. Então seja aproveitada para colher informação ajudar o estudante em sua auto formação e ampliar vastamente o campo da educação.
  51. 51. Academia Fluminense de Letras [52]
  52. 52. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 53 ] CON/STA/TAÇÃO Júlia Alves (Poesia selecionada) Eu fiz questão de contar os segundos. Eu me obriguei A iniciar a contagem, quando dei por mim, já se emendava uma sequência de números em minha mente. Eu sorrir, até foi engraçado. O acontecimento de me obrigar a fazer algo e logo isso se suceder. De forma tão natural eu pensava Catorze Quinze Dezesseis E isso era muito natural. Eu respeitava a pausa suficiente. Eu não perdia a conta. Eu contei os segundos, quando percebi, que perdemos a nossa humanidade. Eu contei logo depois desta constatação. Eu contei. Eu contei. Eu constatei. Eu constatei e contei. Eu contei. Porque se eu parasse de contar tudo perderia o sentido. Eu não saberia lidar com tal constatação. Então eu contava os segundos. E me apegava a essa matemática não muito certa, mas, objetiva. Eu me apegava aos números. Cinquenta Cinquenta e um
  53. 53. Academia Fluminense de Letras [54] Cinquenta e dois Perdemos a nossa humanidade. Cinquenta e três Nada nos espanta mais. Cinquenta e quatro Nada nos enrubesce. Cinquenta e cinco Quantas mortes são necessárias para humanizar? Cinquenta e seis Cinquenta e sete Cinquenta e oito Para não ter que lidar com a constatação eu contava para não constatar.
  54. 54. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 55 ] SOCIEDADE XX.I Dias Rosa (Poesia selecionada) É tempo, é arte Dedicação de escolas à parte Que se unem, ao todo Na orientação de seres viventes Que tinham antes, suas cabeças em Marte Atrás de roteiros e nomes ilustres Surge a renovação Constante e lúcida Camuflada em pensamentos rápidos Muitas palavras, informações Permeadas em telas Datilografadas em pixels Do mega universo Te(r)ra banners De assuntos diversos Mistos - mais que ecléticos Em idiomas mil Imagens de rosa à anil Tecnologia prática Acessível, em média Sendo ponte entre campos, estudos E a sede viva da sociedade Pelo novo Pelo antigo Pelos futuros rumos Pelos presentes fundamentos Internet! Muitos fios, sem fios Matérias frequentes Que embalam as mentes E encaminham tutores
  55. 55. Academia Fluminense de Letras [56] Tecnologia crescente Com seus tão altos expoentes Como meios para a formação Como educação para toda a gente
  56. 56. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 57 ] CONTOS SELECIONADOS Primeiro colocado: Regina Ruth Rincon Caires – Araçatuba - SP Pseudônimo: Rosália Merendeira Conto: VALENTIM Segundo colocado: Vito Cesar de Oliveira Manzolillo – Rio de Janeiro - RJ Pseudônimo: George Salviano Conto: A DAMA DO ESCRITÓRIO Terceiro colocado: Sérgio Corrêa de Siqueira – Cachoeira do Campo - MG Pseudônimo: Rusticus Conto: DÁ UM GOOGLE Outros contos selecionados: José Eduardo Borges da Costa – Monte Alto - SP Pseudônimo: Eduardo Costa Conto: GENTE INOCENTE Renato Rivello Amaral - São José do Calçado - ES Pseudônimo: Gonçalo Beatrício Conto: AMOR SEM PRECONCEITO Géssica Maria Menino – São Paulo - SP Pseudônimo: Mimus Conto: A VIDA DE UM CASAL DE PROFESSORES Mauro Guidi Signorelli – Piracicaba - SP Pseudônimo: Marcos Montassucar Conto: CONTINUA DESCENDO QUE A GENTE QUER SUBIR Eduardo Antonio Klausner – Niterói - RJ Pseudônimo: George Cesar Beccaria Tavares Conto: LEGÍTIMA DEFESA Regina Lopes Maciel – Poços de Caldas - MG Pseudônimo: Judik Thas Conto: VIGÍLIA Guilherme Souto Sanchez – São Paulo - SP Pseudônimo: Leôncio Ferreira Conto: RETROALIMENTAÇÃO (A ÉTICA NO COTIDIANO DO BRASILEIRO)
  57. 57. Academia Fluminense de Letras [58]
  58. 58. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 59 ] VALENTIM Rosália Merendeira (Primeiro lugar - Categoria Contos) Acomodava-se sempre na última carteira, no canto da janela. Apartado, quieto, de olhar disperso. Não participava da aula, mas também não atrapalhava. Alheado. Estudava ali havia muitos anos, morava no bairro. Aluno de desempenho sofrível, sempre apresentando imensa dificuldade de aprendizagem. Mas era de paz. Sem qualquer esforço, ganhara a afeição de todos. Valentim não faltava, não cabulava aula. Era quase sempre o primeiro a chegar ao portão da escola. Madrugador. De aspecto bem cuidado, uniforme impecavelmente limpo. Com trajes nem sempre novos, mas asseados. Nas reuniões de pais, a figura que se apresentava era a avó materna. Infalivelmente. Também muito calada, retraída, mas atenta. Sentava-se nas cadeiras da frente, acompanhava com devotada atenção tudo que era falado. Apesar do desgaste dos anos, trazia semblante sereno, olhos mansos. Um dia, o portão foi aberto o Valentim não estava lá. Estranho. E, naquele dia, a carteira do fundo, no canto da janela, permaneceu vazia. Francisco, professor de Português, percebeu. A ausência se estendeu pela semana. Apareceu dias depois. Abatido, ainda mais silencioso, totalmente absorto. Encabulado, desgostoso. Perguntado sobre as faltas, tentou falar, gaguejou, desdisse. Não queria tocar no assunto. Francisco não se contentou. Percebia que havia alguma anormalidade, Valentim aparentava embaraço, deixara de ser apenas retraído. Estava aflito. Difícil era a aproximação. Fechava-se feito ostra. De repente, o menino passou a dormir durante as aulas. Debruçava-se sobre a carteira e ali ficava. Imóvel. Muitas vezes, encostava a cabeça no rebordo da janela, cerrava os olhos, ressonava. Ninguém bulia com ele. Era respeitado pela distância que sempre impusera. Parecia viver só, sem amigos. Na reunião de pais. Francisco aproximou-se da avó do Valentim. Ressabiado, meio sem jeito, cheio de dedos, perguntou se havia algum problema, se o neto enfrentava alguma moléstia, explicou que o achava debilitado. O olhar da avó não tinha a mesma mansidão, os olhos ficaram marejados, mostravam cansaço. Por um minuto, Francisco acreditou que ela fosse contar alguma coisa, mas, ligeira, disfarçou, refutou qualquer prosa. A partir dali, com a atitude da avó, a suspeita do professor se consolidou: Valentim precisava de ajuda. Falaria com ele. No dia seguinte, o menino não apareceu. Francisco procurou o prontuário de Valentim, anotou o endereço e foi até lá. Casa simples, um minúsculo jardim, organizado. A avó, assustada, encarou o professor. Eram olhos de súplica. Ela o levou para dentro. Calada. Não demorou
  59. 59. Academia Fluminense de Letras [60] muito, desatou a chorar. Disse que não sabia onde o neto se encontrava, que, havia algum tempo, ele não falava mais com ela, que se tornou estúpido, sem regras, sem horários. Não se alimentava direito, dormia fora de casa, e estava sempre alterado. Nervoso. O professor perguntou sobre os pais de Valentim. O rosto da avó ficou ainda mais sofrido. Muito encabulada, disse que a filha estava presa. Pela terceira vez. E o pior, que nem mesmo a filha sabia quem era o pai do menino. Um silêncio comprido se instalou. Francisco ficou chateado por não ter sabido disso antes. Deveria ter buscado informação entre os funcionários da escola. Se soubesse da história do menino, não precisaria ter provocado tanto constrangimento para a pobre senhorinha. A avó percebeu que Francisco ficara chocado e, refeita, procurou desfazer o peso da situação. Timidamente, pediu ajuda. Sentia-se desorientada com a brusca mudança do neto. Queria entender, queria resgatar o convívio de antes. O professor, desassossegado, prometeu que tentaria ajudar, iria procurar desvendar o mistério. Se bem que, pela experiência de tantos anos na lida com adolescentes, sentia uma fagulha a lhe queimar o peito. A fagulha da certeza, da verdade que ele não queria enxergar. Dia melancólico. Quando Valentim retornou, Francisco o chamou para uma conversa. Sentaram-se num banco, na parte distante e arborizada do pátio. O menino estava contrariado, apreensivo. Difícil o início da conversa. Ele se mantinha retesado, fizera uma blindagem para qualquer argumento, Foi um monólogo, um perguntar sem fim... Sem resposta. Ele só repetia: não preciso de nada. Nenhuma alteração foi percebida no semblante do menino. Saiu dali da mesma maneira que chegou. Apreensivo, blindado. Francisco falara com muito amor. Fez as perguntas, argumentou. Queria que Valentim sentisse a preocupação que ele, professor, guardava no peito. Que soubesse que havia quem se preocupava com ele. Que ele entendesse a sincera disposição de ajudar, o verdadeiro carinho, afeição. Na verdade, queria que Valentim soubesse que não estava sozinho. Mas, terminada a conversa, sentiu que o menino não absorvera nada do seu mais profundo desejo. Por um tempo, Valentim ficou afastado. Raras foram as vezes que retornou à escola. Depois, sumiu de vez. O professor continuava buscando notícias, mas nem mesmo a avó sabia do paradeiro. Numa manhã, Francisco preparava-se para o início da aula, e viu, no portão da escola, a figura definhada da avó do menino. Ela, discretamente, acenava desorientada. O professor foi ao encontro dela. Com seu modo reticente, muito abalada, explicou que a polícia estivera em sua casa. Que um corpo havia sido encontrado, que poderia ser Valentim. O corpo precisaria ser reconhecido. Trêmula suplicou que ele fosse até lá, ela não tinha coragem para tanto. Infelizmente, era ele.
  60. 60. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 61 ] A DAMA DO ESCRITORIO George Salviano (Segundo lugar - Categoria Contos) Madalena abriu a porta da sala lentamente e se atirou no sofá. Não queria acordar Nestor. Ele já devia estar dormindo, apesar de ainda não ser tarde. Estava cansada. Não exatamente do trabalho, era a própria vida que a exauria. A coluna curvada, os cabelos desgrenhados e as olheiras fundas haviam se instalado em seu corpo de chofre, alguns meses atrás. Como visitas inesperadas, chegaram sem anúncio e acomodaram-se bem no terreno. Não fosse assim tão refinada, quase sempre associada a dondocas fúteis e ociosas, talvez a expressão crise existencial pudesse definir o que sentia. A tal crise veio acompanhada dos cinquenta anos recém-completados e de uma sensação absurdamente palpável de fracasso. No apartamento modesto e carente de reformas onde vivia em companhia do marido, só ela trazia dinheiro para casa. Fazia dez meses que Nestor se encontrava desempregado. Acomodou-se no discurso fácil de que trabalho está difícil. Não se consegue nada sem uma indicação, ainda mais pra quem já passou dos cinquenta. Foi se enterrando, se encasulando, transformando-se quase numa extensão da própria cama. A situação seria muito pior com crianças ou adolescentes em volta necessitando de coisas que não poderiam ter. Depois de se descobrir infértil, o homem nunca mais foi o mesmo. Sentiu-se diretamente atingido em sua masculinidade, um macho pela metade, defeituoso e precário, e o sexo não mais Ihe interessava como antes. Era ele quem sempre estava cansado, com dor de cabeça ou indisposto. Dois meses após Nestor ter perdido o emprego, Madalena conseguiu uma colocação. Tornou-se um misto de secretária, recepcionista e boy e o que mais precisasse no escritório de contabilidade do seu Júlio, um baiano extrovertido. Estava afastada do mercado de trabalho desde que se casara. A mentalidade tacanha do marido jamais permitiu que sua esposa trabalhasse fora. Mulher minha tem de cuidar da casa e dos filhos. Estes, como se sabe, nunca vieram. O panorama atual forçou Nestor a resignar-se. Não estava mais no controle da situação. Madalena comemorou bastante o fato de ter conseguido o posto. Não sendo especializada em nada, nunca teve muito a oferecer a um possível empregador a não ser disposição para aprender e boa vontade para acertar. Seu Júlio notou isso e resolveu dar-lhe uma chance. Não demorou para que Madalena fosse pegando o jeito. Em menos de um mês, já se sentia bastante à vontade em sou local de trabalho, e o patrão percebeu o progresso da nova colaboradora. Na verdade, percebeu mais. Tinha a seu lado uma mulher interessante, relativamente jovem e, se não propriamente bonita, bastante jeitosa, como se costuma dizer. Claro, havia o fato de ser casada, assim como ele. Mas, afinal de contas, nem tudo pode ser perfeito.
  61. 61. Academia Fluminense de Letras [62] Seria exigir demais da sorte. Assim, o estado civil de ambos não foi empecilho para que o nordestino falastrão começasse a se achegar cada vez mais. Madalena tentou resistir, mas eram tantos mimos, privilégios, presentes, os carinhos que ela acabou por se render. De Nestor continuava a receber apenas indiferença. O processo de aceitação de seu comportamento pecaminoso não foi tranquilo. Sentia culpa, nojo e até ódio de si mesma. Julgada e condenada pela própria consciência ao chegar em casa após o expediente, metia-se embaixo do chuveiro esfregando com uma bucha grossa todo o corpo, como se tal gesto fosse capaz de torná-la de novo uma mulher decente. Buscou ainda apoio na religião e, por sugestão de Juliana, uma amiga dos tempos de escola pública, começou a frequentar uma igreja evangélica perto de casa. A absolvição de suas culpas constituiria tarefa de grande monta. Nestor, por sua vez, parecia não notar a mudança de comportamento da esposa. Também não percebia que a despensa cheia de alimentos caros, as roupas elegantes e os finos objetos adquiridos para o lar do casal - e até mesmo para ele - não eram compatíveis com o salário pago a uma funcionária subalterna de um escritório de contabilidade suburbano. Com a luz apagada, ainda deitada no sofá, os últimos meses da vida de Madalena passaram por sua cabeça como um filme. Película de quinta categoria, com roteiro sofrível, atores pouco inspirados, direção frouxa, cenário canhestro, montagem tosca e fotografia desbotada, um colossal fracasso de bilheteria que precisava sair logo de cartaz. O sermão proferido pelo pastor na semana passada também não lhe sala da memória. Não estava sendo a mulher santa que edifica o lar. Apesar do relativo conforto material, toda essa situação envolvendo o chefe lhe trazia grande mal-estar. Não entendia igualmente como Nestor podia ter ficado assim tão indiferente, como nunca lhe havia cobrado explicações. Tinha decidido que não valia à pena continuar. Iria naquele momento até o quarto e teria uma conversa franca com o marido. Ainda se julgava capaz disso. Vinte e dois anos de casamento e mais três entre namoro e noivado teriam de significar alguma coisa. Certamente abandonaria o emprego. Não haveria outra saída. Com passos decididos, dirigiu-se ao quarto. Na cama, encontrou o homem lendo um jornal de alguns dias atrás. Afastou o jornal dos olhos dele e disse que precisavam conversar. De um jorro só, contou tudo em detalhes, sem omitir nada. Desabafou e, naquele mesmo instante, sentiu-se aliviada. Nestor ouviu com a apatia costumeira. Ao final do relato, retomou a leitura recém-interrompida e, alguns minutos depois, disse à mulher ao mesmo tempo que desligava o abajur. -Vamos dormir, é tarde. Amanha você precisa acordar cedo pra ir trabalhar.
  62. 62. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 63 ] DÁ UM GOOGLE Rusticus (Terceiro lugar - Categoria Contos) Depois que se aposentara, passava mais o mais tempo na Internet: mantinha um blog, uma conta no Twitter, uma página no Facebook e um canal no You Tube, todos com o mesmo nome - Realismo Político. Debalde alguns amigos e amigas a tinham convidado para um chá, reuniões do Clube do Livro, aulas de ioga ou de Pilates: passava os dias na frente da tela Chá! Logo para ela que tomara vinho do lado de Cohn-Bendit na Paris de 68, e experimentara LSD em Woodstock em 69. Clube do Livro! Para quem tivera o privilégio de ouvir em pessoa conferências de Sartre e Simone de Beauvoir! loga! Pilates! Util mesmo era saber correr da polícia nas passeatas. Colocou um velho LP na pickup Garrard, que mantinha em condições prístinas: Janis Joplin cantando Summertime. E foi teclar diatribes contra o atual governo burguês, golpista e reacionário, até a campainha tocar. Olhou pelo olho mágico, já que o interfone nem tocara: era a neta. Logo hoje, numa quarta feira, e sem avisar? Mas abriu a porta sorrindo: mesmo com todas as diferenças com os pais dela, amava a menina. Jaqueline foi direto até a geladeira, e fez cara de amuo: tofu, iogurte natural caseiro, mamão, yakon, broto de feijão, chá verde gelado. Abriu o congelador, mas não enxergava lá no alto: deu uns pulinhos, e perguntou: - Vó, tem sorvete? - Tem sorbet de melão, sem lactose e adoçado com mel. A menina franziu o nariz, e retrucou: - Na casa da Vó Miriam tem sempre aquele bom de chocolate, Häagen- Dazs. - Um truque dos imperialistas americanos, para vender um sorvete cheio de gorduras trans se disfarçando de nórdicos. Jaqueline fez cara de paisagem, e foi até o computador: - Escrevendo muito, vó? - Um tanto, Jackie. - Você não tem muitos seguidores, né? Ficou levemente irritada: como ela não conseguia passar a sua mensagem ao mundo, mesmo com as melhores intenções? Até uma menina de doze anos notava isso. E no fundo vinham os ciúmes daquela burguesa dondoca, a Miriam: sempre mimando a neta com Iphones e outros gadgets. E sem contar a Coca Cola, os lanches do Mc Donald's, e outras porcarias capitalistas. Como toda pré adolescente, Jaqueline pulou o assunto:
  63. 63. Academia Fluminense de Letras [64] - Vó, viu o último clipe da Saritta no You Tube? Aquele chamado “Vai, Cachorra!” Que roupa da hora! Eu queria um assim para a minha Barbie. Você vive falando sobre artesanato, faz uma prá mim? A casa era cheia de peças de artesanato: manipanços africanos, máscaras, presépios colombianos, figuras de Mestre Vitalino. Mas a verdade é que ela não sabia fazer nem crochê; só gostava de arte étnica. Falou para a neta: - Não acho certo você querer imitar uma cantora que incentiva o consumismo. E muito menos brincar com uma Barbie, uma boneca imposta pelos americanos. Jaqueline amuou: às vezes não entendia nada do que a avó dizia, ela parecia de outro planeta. Mas gostava dela: do seu jeito, ela era a melhor contadora de histórias da família, e (não sabia o porquê) os beijos e agrados dela pareciam mais sinceros. Mas aquelas manias... O que saiu da boca da avó era o mais esperado - Venha aqui na sexta feira, e vamos na "Brincar de Verdade" escolher um brinquedo Ah, não! A “Brincar de Verdade" era o pesadelo dela: a loja de um amigo da avó, um sujeito de rabo de cavalo, barba de Papai Noel, e óculos de fundo de garrafa, cheia de brinquedos jurássicos, de madeira e pano. Até que achava alguns legais, mas quando mostrara na escola o que ganhara os colegas a apelidaram “menina das cavernas". Outra vez! Jaqueline ficou mais um pouco, experimentou o sorbet de melão (nojento!) e partiu, com dois beijos protocolares na avó. Ela, por sua vez, voltou ao computador, e usou o resto do estoque de vitríolo para criticar o Presidente. Decerto a neta ia soprar tudo na orelha do ex, o Cadú, o avo- Carlos Eduardo, o nome de dois canos mais classe média que alguém conseguia imaginar. Dos tempos do jovem engenheiro pós graduando na ENA o da aluna rebelde da Sorbonne, muita água já correra debaixo da ponte: o Diretor da Estatal, a Professora Universitária. A filha preferindo morar com o pai, e virando estilista. E o casamento com um economista, empregado da Estatal. Malditos burgueses. Lá pelas tantas cochilou na frente do computador, acordou já de madrugada, assustada e angustiada. Foi se deitar, mas não conseguiu pregar o olho: de repente o apartamento lhe parecia enorme e vazio, o se viu tomada de uma forte sensação de solidão. Já cortara as relações - exceto as muito formais - com o ex-marido, a filha, e a maioria dos antigos colegas; contava os amigos numa única mão, e ainda sobravam dedos. Se continuasse tão intolerante, ia perder também a nota, a última que lhe dava carinho de verdade Levantou-se e ligou de novo o computador, e foi até a cozinha fazer um expresso; depois, foi de novo à escrivaninha e procurou no Google "Saritta Vai Cachorra”. O resultado a surpreendeu: o tal clipe virara uma batalha ideológica, com a direita achando o conteúdo vulgar e indecente, e a esquerda louvando o
  64. 64. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 65 ] “empoderamento" feminino - neologismo que ela achava estranho, mas que parecia ser de rigor. Interessante, pensou. Foi ao You Tube procurar o clipe: estranhou a música, a coreografia, e a roupa; mas, se era para o bem do feminismo, que fosse assim. E uma coisa a fez respirar aliviada a tal “roupa" não passava de um biquíni minúsculo feito com fita adesiva, daquelas de cor bege de fechar envelopes A primeira reação dela foi achar aquilo indecente, mas fez um imediato exame de consciência: logo ela, uma das primeiras a usar tanga em Ipanema e topless em Saint-Tropez, e a promover seminários sobre a sexualidade feminina. Foi dormir de coração leve afinal de contas, ela sabia muito bem lidar com fita adesiva - sabe-se lá quantos envelopes e pacotes de livros e impressos tivera que lacrar durante a vida acadêmica. No dia seguinte levantou-se mais cedo do que de costume, e ligou para a neta: que ela viesse ao seu apartamento quando a aula acabasse, tinha uma surpresa para ela. E a próxima ligação foi para o táxi: era da velha escola, não usava Uber - mais uma invenção ianque. Descobrira na noite anterior um artista plástico- um artista plástico brasileiro, por sorte- que fazia uma boneca da Saritta. Chegou ao ateliê dele antes de abrir, mas se decepcionou um pouco quando ele chegou: perfumado demais, arrumado em excesso, um dândi. Mas se tranquilizou quando ele abriu a boca: o moço era obviamente gay, e quem era minoria tinha o seu respeito – e a fazia se sentir mais a vontade. Expôs longamente sou drama doméstico, e o artista era simpático e compreensivo: no fundo todos somos estereótipos, e ele já a situara: sobra dos anos 60 a 70, professora aposentada da Federal, Ciências Humanas, simpatizante do Partido da Esquerda – boa notícia, eram todos eles mão aberta. Mostrou a ela as duas Sarittas que tinha em estoque: não eram propriamente um brinquedo, mas uma homenagem a uma simpatizante dos LGBTs e uma mulher empoderada (outra vez a palavra!). E custavam 600 reais cada. Sim, era puxado, mas os materiais eram caros (uma meia verdade: ele usara três Barbies comuns, e mas tinturas para escurecer a pele o os cabelos das loiraças, mas dera um bocado de trabalho, especialmente o vestido, e ele fora meticuloso no trabalho, reproduzindo até as tatuagens da Saritta nos lugares exatos). E ela se convenceu, mas ainda fez uma pergunta: não tinha uma com aquele biquíni do “Vai, Cachorra!”? Pouparia um monte de trabalho. Não, esta era a versão do "Show das Preparadas”; com o vestido igualzinho. Mas era fácil e mais divertido fazer com a neta o biquíni do "Vai, Cachorra!": ele mesmo ensinava com fita durex, era uma técnica simples: olha aqui! E em quinze minutos ele ensinou a ela como se fazia. Do ateliê ela foi até a Oliveira & Costa, o mais antigo estabelecimento do ramo da cidade, um lugar que Ihe trazia só boas recordações como intelectual, depois de uma livraria, uma papelaria era seu lugar preferido. Ali comprara intermináveis envelopes, canetas especiais de escrita macia e deslizante, papel do cânhamo ou linho para se corresponder com os amigos mais diletos- até que
  65. 65. Academia Fluminense de Letras [66] o e-mail surgisse. E também frequentara muito o lugar nos tempos de namoro e noivado com o Cadú, quando ele ainda não era Sua Excelência o Doutor Carlos Eduardo: fora ali que ele comprara – em muitas e suaves prestações, e no fio de barba - os compassos Kim e Kern suíços, as canetas nanquim Staedtler alemãs, a régua T, os esquadros, a régua de cálculo, os lápis especiais: B, 2B, HB. Era freguesa VIP, e foi atendida por ninguém menos que o bisneto do fundador; mas hoje a Doutora Professora não queria mais do que duas tesouras de recortar, e um rolo de fita adesiva bege. Por fim, o táxi parou na La Mole Antonelliana, uma também vetusta confeitaria do Centro. Sentou, tomou um expresso, comeu um Gateau Saint Honoré com gosto, apanhou um potinho misterioso, e voltou para casa Lá pelas quinze para as seis a neta bateu a campainha, e ela abriu a porta com o embrulho do presente nas mãos. Jaqueline ensaiou uma alegria artificial: pronto, mais um jacaré de madeira ecologicamente correta, uma boneca de pano do Vale do Jequitinhonha, um brinquedo de corda das Rendeiras do Rosedá. Mas mesmo assim abriu o embrulho com mãos (a principio falsamente) sôfregas, e ai se emocionou de verdade: - Vó, é a Saritta! É ela mesmo, a cara dela! Com falso ar de indiferença, a avó declarou: -É mesmo, mas não achei com o biquíni do "Vai, Cachorra!" - Não tem problema, Vó! O vestido do "Show das Preparadas" está ótimo, também serve. - Não, vó quando resolve vai até o fim. Vamos fazer juntas uma roupa igual a do "Vai, Cachorra". Você deixa o vestido das Prepotentes - err, das Preparadas -para outro dia. E também vamos encher a cara de Gelato com Ciocolatto e Biscotto! E pode contar à Vó Miriam, só para fazer inveja. Foi até a pick up para escolher um dos velhos LPs, mas pensou melhor: ao invés disso, colocou no You Tube o clipe do "Vai, Cachorra”, e aumentou o volume. Entregou à menina a fita adesiva e uma tesoura, e as duas se sentaram no tapete, entre taças de sorvete, enquanto ela passava as lições do artista para a neta: - Corte só a pontinha da fita, e vá enrolando assim...
  66. 66. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 67 ] GENTE INOCENTE Eduardo Costa (Conto selecionado) O cheiro do álcool ainda estava muito forte quando os primeiros anjos começaram a chegar ao céu: - Onde está a professora? - perguntou o primeiro anjo a chegar. - Eu a vi brigando com o moço que botou fogo na gente - diz o quarto anjo recém-chegado. Damião era o nome do assassino. Entrou de capacete dentro da creche na qual trabalhava, tirou um galão de álcool da sua mochila, trancou as crianças dentro de uma sala, jogou o produto, inclusive em si mesmo, e ateou fogo. O teto, que era feito de produto inflamável, ajudou a chama a se propagar pelo ambiente. Quanta ironia Damião. Logo você que tem o mesmo nome do irmão de Cosme - Cosme e Damião. Irmãos gêmeos que curavam pessoas e animais sem cobrar absolutamente nada e que em suas ações de caridade e evangelização, distribuíam doces para as crianças. Qual seria a reação delas ao encontrarem Damião, irmão de Cosme, pelo céu? Qual seria a reação de Damião, o assassino, se ele encontrasse o Damião, irmão de Cosme, pelas bandas entre o céu e o inferno? No total, foram nove anjos que tiveram suas esperanças perdidas logo nos primeiros ciclos de vida. Foram nove pequenos tupiniquins que tiveram as almas rasgadas pelo ódio humano. Nesta triste história horrenda e irreal aos olhos de quem convive com crianças, há uma personagem que representa o mais puro heroísmo e a simbologia do que é ser professor. Seu corpo ardia em chamas enquanto ela buscava forças para salvar o seu bem inestimável. A única esperança que se inalava era o branco da fumaça. Os gritos eram sinais de que o seu trabalho havia chegado ao fim. A dor que os pequenos sentiam não fazia parte do andamento da aula. Eles não entendiam o que estava acontecendo. A única imagem que irão levar dessa vida são os braços de uma guerreira que se doou para salvá-los. As lágrimas não seriam suficientes para apagar as labaredas que os consumiam. A doação pela vida ratifica o que é ser professor num país em desenvolvimento. Enquanto alguns acendiam a chama do ódio, outros tentavam apagar a chama que dilapidava o futuro de uma nação. Na “Gente Inocente” só havia gente inocente. Inocente ao ponto de não entender o porquê do banho de liquido inflamável e posteriormente o golpe fulminante. No céu, estavam todos reunidos ao redor da querida professora: - Professora, por que você tentou nos salvar?-pergunta o nono anjo, o último a chegar ao céu.
  67. 67. Academia Fluminense de Letras [68] - Ora minha querida criança, minha profissão vai muito além de educar - responde a professora rodeada pelos demais anjos. - O que significa "além de educar?" - questiona o terceiro anjo ao chegar ao céu. - Significa que somos mais do que uma profissão. Somos doação, somos paixão, somos os sorrisos, somos fábricas de sonhos, somos as pessoas que tornam as coisas possíveis, somos pessoas comprometidas com a educação de um pais em ascensão. - Vocês também são super-heróis? - indaga o quarto anjo. - Não minha querida criança, isto só existe nos filmes. - Não é não professora - interrompe o quarto anjo - Nos filmes as pessoas têm superpoderes. O seu é diferente. - Qual seria o meu poder? - pergunta a professora. - O seu poder é o que falta em muita gente lá na terra. Você tem o poder do amor; o amor pelos seus alunos e amor pela sua profissão. E por isso que está nos fazendo companhia neste exato momento.
  68. 68. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 69 ] AMOR SEM PRECONCEITO Gonçalo Beatrício (Conto selecionado) - Mãe, mãe - gritou a jovem que se chamava Norma Culta interrompendo os afazeres de Dona Gramática. E sem dar tempo para a resposta, logo emendou: - A residência ao lado está recebendo novos moradores. Teremos vizinhos! - Que estupendo, dileta filha. Rogo que eles tenham rebentos que possam interagir contigo e com seu irmão Vocábulo - disse a mãe, animada com a notícia. - Deveras, querida mãe, há um filho sim. E já nos apresentamos, ele se chama Internetês. - Isso é nome ou alcunha? - indagou a mãe. - É nome! - respondeu rindo. Norma Culta estava prestes a completar dezesseis anos, sempre muito estudiosa amava Literatura e Música Clássica. Seu prazer era ajudar os colegas que não iam bem na escola, ensinando-os as matérias. Mas desde que conhecera Internetês, havia ficado encantada pelo jeito espontâneo e diferente dele. O rapaz contava dezesseis anos repletos de vivacidade, além de ser muito esperto e apaixonado por tecnologias. A mãe de Internetês, Dona Gíria, matriculou o filho na mesma escola da vizinha, fazendo que a amizade dos dois progredisse a olhos vistos. Numa noite chuvosa, Norma Culta um pouco ressabiada disse à mãe que o amigo iria jantar com eles aquele dia. Dona Gramática havia percebido que ultimamente a filha se portava diferente do habitual. Estava se arrumando mais, irradiava felicidade e estava sempre com o pensamento longe. Pressentindo o motivo de tal visita tentou tranquilizar a filha: - Fabuloso, estimada primogênita! Prepararei iguarias aprazíveis ao gosto dos jovens. E com um abraço de cumplicidade, Norma Culta agradeceu a mãe e se despediu. Mais tarde quando chegou do trabalho, Senhor Vernáculo logo recebeu a notícia da esposa. - Amado cônjuge, teremos visita para nossa ceia. - Quem virá? - indagou surpreso O filho dos vizinhos que ainda não conhecemos; amigo de Norma Culta - e antes que o esposo pudesse argumentar, seguiu para a cozinha dizendo: - Arrume-se com presteza, pois logo os pratos estarão servidos. Passado um período de dois quartos de hora o rapaz chegou com sua capa de chuva pingando e tocou a campainha. Norma Culta que esperava com
  69. 69. Academia Fluminense de Letras [70] ansiedade recebeu-o à porta. Os dois sorriram com os olhos e se abraçaram com uma ternura que só os enamorados possuem. Toda família já o aguardava à mesa e Norma Culta fez as devidas apresentações: - Na cabeceira à esquerda está meu pai, Senhor Vernáculo, ao lado dele minha mãe, Dona Gramática. Na outra cabeceira está meu avo, Português Arcaico e minha avó Ortografia no centro da mesa, junto com meu irmão Vocábulo. - e virando-se apontou o amigo e disse. - esse é o Internetês. -Internetês é nome ou epíteto?- perguntou vovô Português arcaico, soltando risadas de todos os presentes. - É nome, vovô - respondeu a neta carinhosamente. - Boa Noite, blz? Norma Culta fla mto bem de vcs. - disse o jovem um pouco envergonhado. Após os cumprimentos, os jovens se juntaram aos demais na mesa e a janta foi servida. A conversa foi animada o descontraída, mas o nervosismo do rapaz era visível. Na hora da sobremesa, Norma Culta interrompeu todos e voltando-se na direção do pai disse: - Pai, Internetês quer Ihe falar algo. Nesse momento o rapaz se tornou o centro das atenções, ficando rubro de imediato - É... q... naum. - tentou articular, mas nada saia. - Fique calmo, mancebo. Pode postergar seu discurso para após a sobremesa se assim o preferir. - disse Senhor Vernáculo percebendo a dificuldade do rapaz. Respirando fundo o tomando coragem, Internetês falou: - Senhor Vernáculo, eu qro pdir pra namorar sua filha. Todos abriram largo sorriso de contentamento, inclusive o pai que acabou com a angústia do rapaz. - Eu permito, contanto que não interrompam seus estudos e suas responsabilidades. Lembra-se de quando ou a pedi em namoro. - disse vovô Português Arcaico com os olhos cheios de lágrimas. Era um dia semelhante a esse, chovia torrencialmente. Meu tabardo ficou embebido o vosmecê num fato de seda adornado de exuberantes filigranas. - Recordo-me como se hoje fosse, - disse vovó Ortografia, que completou. - vosmecê estava garboso com aquele tabardo azul-marinho, mesmo encharcado estava pundonoroso como sempre. - Percebam tal discrepância. Hoje estou velho e languescendo. Não valho mais um tostão furado - disse o avô desanimado. - Papai - disse Dona Gramática - As reminiscências da juventude servem para trazer-nos os bons momentos vividos. Não sejas tão atroz consigo. Deveras não ter mais o vigor de outrora, contudo possui vitalidade para sair um pouco mais de casa e transmitir um pouco de sua experiência.
  70. 70. Textos Literários premiados pela AFL em 2018 [ 71 ] Internetês, que compadecido ouvia aquele lamento interrompeu o diálogo dizendo: - Meu vô se amarra em bater papo, vcs iam se dar bem, ele é show de bola. - Tenho certeza que sim. - disse Dona Gramática -creio que uma prosa agradável lhe faria bem, papai. - Pelo ensejo do meu aniversário semana vindoura poderíamos convidar toda família do Internetês para vir em nossa residência, assim nossos avós poderiam se conhecer. - disse Norma Culta. - Excelente proposta! - exclamou Senhor Vernáculo, que virando-se para o recém-namorado disse - É com deferência que insto sua família a comparência na cerimônia de nossa filha. Será uma magnífica ocasião para conhecermo-nos. - Viw plo convite. A semana repleta de preparativos e expectativas passou voando e assim as famílias puderam se reunir por ocasião do aniversário. Felizes pelo namoro, a família de Internetês chegou no horário combinado e todos se cumprimentaram efusivamente. Senhor Vernáculo apresentou todos da família e fez as honras da casa. - É com júbilo caudaloso que recebemos essa distinta família em nosso domicilio. Internetês percebendo sua família um pouco tímida, decidiu conduzir a apresentação. - Esse é meu pai Dialeto, minha mãe, Dona Gíria e meu vô, Português falado. Pouco após a apresentação os convidados já conversavam animadamente. Dona Gíria papeava com Dona Gramática enquanto a ajudava com os quitutes. - Essa festa está uma brasa, mora. - falou Dona Gíria animada. - Deveras, e nossa filha está radiante com o namoro. Intemetês é um jovem belo e sagaz. - disse Dona Gramática tecendo elogios ao genro. - Obrigada, disse Dona Gíria envaidecida. - ele realmente é um pão e está gamado no brotinho dele. Na sala de estar, Senhor Vernáculo e Seu Dialeto palestravam como velhos amigos. - Bah, que festa maneira da sua guria. Cheio de trem gostoso. Ô loco! – exclamou Seu Dialeto. - Todos os aperitivos foram preparados com muito esmero por minha consorte. Agora diga-me, Seu Dialeto, porventura és aficionado por algum clube de futebol? - perguntou Senhor Vernáculo. - Ó xente, se sou! E ainda jogo umas peladas. Acho muito massa catar no gol.- respondeu animado, Seu Dialeto. - Olhe meu querido - disse Norma Culta - nossos pais já estão falando sobre futebol.

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