Baalzine 04 Final

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Baalzine 04 Final

  1. 1. Tili Tonse MukTadhara Guardar ÁGuas TeaTro no alenTejo MÁrio Barradas Valsa n.º 6 BAALZINE nº 04 dezembro 2006 | Baal 17 - Companhia de Teatro na Educação do Baixo Alentejo | Baal 17 - Companhia de Teatro na Educação do Baixo Alentejo nº 04 dezembro 2006
  2. 2. Colectivo Baal 17: cultura, etc., etc., etc.). Tremendo valor acrescentado para a Da esquerda para a direita: região. Para a sua valorização enquanto espaço moderno. Rui Ramos, Sandra Serra, Com a famosa “massa crítica” presente e cada vez mais a Marco Ferreira, Ana Antão, Rui Garcia, Sónia Botelho. olhar para além da linha de fronteira. Entre eles, pois claro, De pé: Telma Saião e Paulo a gente do Teatro. Essa fauna incomparável. 7 Estruturas Troncão. Profissionais financiadas de forma sustentada pelo Instituto das Artes. Mais 9 outros grupos profissionais. Dezenas de grupos de teatro amador. Um mar de gente neste imenso Alentejo. Gente que teimosamente trava uma luta, por vezes bastante inglória, pelo reconhecimento da pertinência do Teatro, e da cultura claro está, no desenvolvimento do Alentejo. Não só ao nível da transformação de mentalidades, mas também Teatro. Alentejo. Teatro Alentejano? como efectivo desenvolvimento económico. A riqueza Para que serve a arte de Aristóteles numa das regiões mais gerada pelo sector cultural, 2,6% do PIB, supera por exemplo pobres da zona euro? Dinheiros públicos mal gastos nos a riqueza gerada pela indústria automóvel e pelo sector tempos que correm? Ainda se fosse como o La Féria (que imobiliário. Se atendermos ao valor inscrito em orçamento por sinal é alentejano de Vila Nova de São Bento), com de estado para a cultura pelo governo da República casas cheias, Amálias, e sem um cêntimo do orçamento de Portuguesa, 0,47% do PIB, não é necessário dizer mais nada, estado… pois não? Em relação à precariedade dos artistas e demais A cultura constrói-se pela adição e não pela subtracção. profissionais da cultura? Olhemos as palavras do caríssimo Muito menos pela mercantilização ou por qualquer colunista Desbocado Doidinho. E mais não se escreve, por indicador macroeconómico. Nunca a peso. pudor. Uma cultura viva tem, obrigatoriamente, de beber na Felizmente nem tudo são espinhos. comunidade onde se insere. Tem também de olhar para Está a nascer o Sol no Alentejo… o exterior e efectuar uma leitura atenta do mundo. Acima Rui Garcia de tudo tem de contribuir para um saudável [e suportável] desconforto aquando da confrontação com o público – nos P – Caro(a) leitor, tenha um 2007 cheio de Cultura e Teatro. .S. temas, nas formas, nas palavras… Em Festa. Por aqui iremos tentar contribuir para que este Aqui, hoje, neste terço de Portugal, trabalham milhares de nosso desejo se torne realidade. profissionais da cultura (actores, músicos, bailarinos, artistas P II – Um abraço do tamanho do mundo para o Mário .S. plásticos, escritores, produtores culturais, técnicos de Barradas. FICHA TéCNICA 0 Agora Digo eu Évora, abria as portas Propriedade: Baal 7 – Companhia de Teatro na Desbocado Doidinho tem à descentralização Educação do Baixo Alentejo uma amiga cujo filho quer teatral no Alentejo. Hoje, Cine-Teatro Municipal de Serpa ser actor, ou melhor: Um mal são 6 as companhias Apartado 780 Serpa governado. profissionais, sete www.baal7.com delas sustentadas pelo Telefone: 84 549 488 E-mail: baal.7@mail.telepac.pt 04 Baal Diário Ministério da Cultura. ou baalzine@gmail.com Marco Ferreira, na Finlândia, Coordenação: Sandra Serra e Telma Saião, na Índia, 7 BaalTeatro Colaboram nesta edição: Carla Ferreira, Cendrev, relatam na Baalzine, o Caldo Verde é a primeira Marco Ferreira, Pim Teatro, Rui Gracia, Rui Ramos, diário das suas experiências peça de teatro original Teatro ao Largo, Teatro do Mar, Telma Saião, Tiago Fróis, e Vírginia Fróis. profissionais, sociais e de Rui Ramos, director Concepção gráfica: Verónica Guerreiro pessoais. artístico da Baal 7. Bloco d, design comunicação (www.blocod.com) Impressão: Gráfica Comercial, Loulé 06 Baalolhares 9 Baal. com Livros Periodicidade: Sai três vezes por ano Virgínia Fróis, Tiago Fróis Dois livros, duas formas Tiragem: 000 exemplares e Pedro Conceição, da de, também, dizer associação Oficinas do Alentejo. COMPANHIA FINANCIADA POR Convento, deitam olhares à comunidade de oleiras de 0 Baal em Banho Maria Cabo Verde. “A História Maravilhosa da Cidade de Bronze” e 09 Baal Dossiê “Valsa n.º 6”, as novas Há Teatro no Alentejo produções da Baal 7, em Em 975, o Cendrev Banho Maria. – à altura centro Cultural de
  3. 3. OS MAL- -GOVERnADOS Por Desbocado Doidinho A minha amiga Filomena tem um filho que quer ser actor. Isto, de um filho, ainda para mais único, querer ser actor é uma desgraça para qualquer mãe. Mas para a Filomena é deveras trágico. - São todos uns mal governados com esta ideia, informou-se e agora podem. Se mete um baixa, metem – diz ela aconselhando o filho diz-me que: todos, que o espectáculo é assim, quando este sonha com o seu futuro - A maior parte das pessoas que tem não pode parar. E mesmo que profissional. esse emprego nunca arranja trabalho pudessem… Eu informei-me. A maior Eu não sei como é no resto do país certo, anda de um lado para o outro, parte trabalha com uma coisa que mas na minha terra “mal governado” trabalha três meses aqui e três meses eles chamam “recibos verdes” que é aquele que não se sabe governar a ali e corre o país de lés-a-lés. é parecido com aquilo que há nas si próprio, que não se sabe orientar - Mas ganham bem, essa é que é auto-estradas, é pra despachar, na vida. essa. Ganham bem e fartam-se de pra não dar chatices. Resultado, a À primeira vista, “mal governado” passear. maior parte daqueles que têm essa poderia ser aquele que vive sob - Qual quê?! Não ganham nada. profissão – actores, se adoecem um mau governo, ou seja, que vive Eu que passo a ferro para fora ficam por conta própria, se o trabalho num país onde o Governo não sabe ganho mais do que ele algum acaba ficam no desemprego, e o governar, que vive portanto num país dia vai ganhar. Sem despesas e desemprego acontece quase sempre mal governado. descansadinha em casa. E se se me de três em três meses ou coisa Mas voltemos à Filomena. Ela sabe acabar a roupa jogo-me a outra coisa que o valha. Estás desempregado? que se o seu filho vier a ser actor, que a mim não há trabalho que me Aqui não há subsídio pra ninguém. não lhe vai pôr os olhos em cima enoje. Mas esses “artistas”?? é como Arranja-te, vai pedir sopa à mãe. E os com muita frequência nos próximos os drogados, quando entram nessa descontos? Ai, não me faças falar!! anos. Mas vai continuar a favorece-lo vida já não podem sair, coitados, não - E porque é que não se organizam? financeiramente por muito tempo. sabem fazer mais nada. E quando Façam greve. Eu cá não sei como é, mas a adoecem? Como é que é? Ahm?? - Tás maluco? Não ouviste nada do Filomena, desde que o filho apareceu - Diz-me tu que eu não sei. Eu que eu disse. Achas que eles vão quando adoeço meto baixa e fico dar-se ao luxo de fazer greve? Já em casa. viste um artista fazer greve? E quem - Metes tu. Achas é que se vai agora importar que este que eles podem ou aquele não trabalhe, o que há meter baixa? mais por aí são outros para ocupar Não o lugar. Se é pra ficar em casa então AGORA DIGO EU que fique desde já. E até te digo mais: acho que se fizessem todos greve ao mesmo tempo ninguém ia reparar. Isto aqui não é o estrangeiro. Isto é um país mal governado. Ai, não era isto que eu queria dizer… Que sei eu de política? Estava a falar da profissão que o meu moço quer ter. Olha, não te digo mais nada, é uma vida pra gente mal governada. Eu não sei se a Filomena tem razão ou não. Parece-me muito estranho que as coisas possam ser assim num país do primeiro mundo como o nosso. Cá para mim é mais uma maluquice da Filomena. Duas Tentações e um pneu furado. Pelo Al-Masrah Teatro, Tavira 2005
  4. 4. BAAL DIÁRIO TiLi TOnSE* UniãO PELA DiVERSiDADE “Todo o ser humano é teatro” Augusto Boal Aprender através do Teatro (ou Drama) Finlândia e Lituânia. enchendo de informação e ideologias. Eles é dar a possibilidade de sonhar, de Os valores, a diversidade, as diferentes são vistos como pontos de partida radiantes transcender, superar limites e desbravar línguas e olhares sobre o mundo, as da sua própria aprendizagem, criando novos caminhos em direcção ao culturas e sub-culturas, formaram as suas próprias regras, interpretações conhecimento, identificação e consciência esse conjunto de aprendizagem. Um e modelos de aprendizagem. Só assim o do mundo que nos rodeia. Quando um processo determinado a contribuir para aluno tem a possibilidade de se valorizar, de aluno interpreta uma personagem ou uma educação sustentável assente na se integrar harmoniosamente num grupo, improvisa uma situação, revela uma parte diversidade cultural, onde professor aluno num clima de liberdade onde liberta as de si mesmo, mostra como sente, pensa aprendem juntos, partilham valores e, acima suas potencialidades, expressando os seus e vê o mundo. O Teatro/Drama amplia o de tudo, valorizam o diálogo como a mais sentimentos, explorando todas as formas de seu horizonte, melhora a sua auto-estima e importante ferramenta. comunicação humana, emoções, medos e colabora para um sentido crítico e aberto do O curso (Participatory Drama and sensações, aprendendo com a diversidade mundo em que vive. Aprender com o teatro Education) foi centrado na utilização, e não apenas memorizando as respostas é uma procura de novas interpretações, pesquisa e aplicação de métodos certas. é moldar o nosso pensamento de forma participativos (Process Drama, Participatory a construir novos significados, é usar o approach/research, Future Workshop, Agora, pergunto-me, o que deve então o diálogo no sentido de ser verdadeiro, de não Teatro Fórum, Playback theatre) explorando teatro aprender para transformar-se numa nos trairmos. é usar o coração. a multiculturalidade de valores, costumes arte participativa? Deve partir de nós, 4 e tradições e a utilização de elementos actores, encenadores, professores ou deve Em Setembro de 2006, fui convidado a tradicionais (contos, danças, canções) na ser encontrado no público, nos alunos? participar no projecto Tili Tonse*, um aplicação e desenvolvimento sociocultural O teatro (actores, encenador, público) intercâmbio internacional na Finlândia criando diálogo entre as comunidades. como o conhecemos hoje em Portugal não realizado na Universidade de Ciências Os alunos foram envolvidos num processo representa mais estes valores, não entra Aplicadas de Seinäajoki. Este projecto, de grupo de aprendizagem social e por este caminho. é um teatro desligado. coordenado pelo pedagogo Jouni Piekkari, emocional, aprendendo a negociar, a Porquê? do qual fui assistente e que, anteriormente criar novos significados e soluções, a Sempre me fascinou transportar o teatro trabalhou com a Baal 17 no projecto utilizar argumentos e valores, a partilhar para diferentes contextos e criar novos europeu Drama-a way to social inclusion, pensamentos espirituais, a reflectir espaços estéticos, procurando redescobrir tinha por objectivo estudar e partilhar experiências, a usar a intuição como emoções e vidas. Vejo muitas vezes o teatro diferentes formas artísticas e métodos impulso criativo e outras capacidades a sair para a rua, vejo também o teatro participativos utilizados no desenvolvimento essenciais em processos de educação. numa reunião de família ou num encontro cultural, comunitário e sustentável. Durante três meses aprendi que na de amigos num café. Mas, principalmente, Durante três meses partilhei o meu trabalho, Finlândia o chamado paradigma o que me faz acreditar no teatro é observar a minha cultura, o meu pensamento e construtivista na educação é a base de um como as pessoas se transformam em as minhas emoções com mais de trinta sistema de ensino modelo em que os alunos actores e, transformando-se em actores pessoas de três culturas diferentes: Zâmbia, não são como vasos vazios que se vão das suas vidas, estão a representar de uma
  5. 5. forma diferente as suas comunidades. Um das nossas vidas? projecto, em fase piloto, é financiado pela CIMO (Centre for International Mobility), uma organização tutelada cidadão actor consciente desse processo “A grande generosidade está em lutar para pelo Ministério da Educação e Ministério dos Negócios está a contribuir de uma forma criativa que, cada vez mais, essas mãos, sejam de Estrangeiros da Finlândia que encoraja a comunicação transcultural e cooperação entre os chamados países através do teatro para o desenvolvimento homens ou de povos, se estendam menos, do terceiro mundo. O objectivo do programa é estudar da sua comunidade. Quantas são as em gestos de súplica. Súplica de humildes e partilhar as diferentes formas artísticas e métodos participativos utilizados para o desenvolvimento comunidades que ainda intervém desta a poderosos. E se vão fazendo, cada vez cultural, comunitário e sustentável entre os dois países. forma usando as suas próprias tradições? mais, mãos humanas, que trabalhem e O intercâmbio levou à Finlândia seis estudantes da Universidade de Lusaka, um professor de artes Se queremos cultura compramos um bilhete transformem o mundo.” Paulo Freire performativas que trabalharam com os alunos do curso social cultural work/project managment da Universidade para o teatro, para um concerto, cinema, Marco Ferreira* de Ciências Aplicadas de Seinäjoki e quatro estudantes compramos um CD ou um DVD. Para *Tili Tonse significa, traduzindo à letra – Estamos Juntos, (Erasmus) do Vilnius College da Lituânia. onde nos leva esta cultura globalizada e em Nyanja, uma das cerca de 70 línguas oficias da *Marco Ferreira foi professor assistente convidado Zâmbia. Tili Tonse é também um programa internacional capitalista, onde pagamos a alguém para de intercâmbio criado em parceria entre as Universidades pela Universidade de Ciências Aplicadas de Seinäjoki e bolseiro para a especialização e valorização profissional cantar, dançar e representar as histórias de Ciências Aplicadas de Seinäjoki e Helsínquia na da Fundação Calouste Gulbenkian. Finlândia e a Universidade de Lusaka na Zâmbia. O MUkTADHARA – 006 OPRESSãO E JAnAS SAnSkRiTi Cheguei a Calcutá no dia 15 Outubro, com o do Janas Sanskriti, situado num local ter pertencido à Frente Esquerda Indiana, propósito de conhecer e vivênciar o trabalho muito verde um jardim magnífico povoado a política esteve muito presente nas nossas 5 de um Grupo de Teatro do Oprimido Indiano. por famílias – recordo o som do “hello” discussões. E ali, compreendemo-nos, À minha espera, Sajana e Shoto e um cartão das crianças e as suas pequenas mãos respeitamo-nos e percebemos que como que dizia: Janas Sanskriti. estendidas para nos cumprimentar –. Era pessoas de continentes diferentes e culturas Jana Sanskriti é o nome do grupo que chegada a altura de falar com as pessoas distintas, partilhamos o mesmo respeito ao há mais de 20 anos utiliza o teatro como do grupo, conhecer os outros participantes, próximo, e a mesma vontade de mudar o ferramenta de intervenção social. Chega e para perceber que me sentia em casa. mundo. a aldeias isoladas na Índia, e com o povo A Índia estava em preparação para a Festa No final do workshop prepararam-se desenvolve um trabalho para dar voz da Deusa Khali, festa cheia de luzes e muitos apresentações sobre a opressão feita às às suas necessidades, ajudando-os a foguetes (parecia que a índia estava a ser mulheres, a pobreza e a opressão pelo atacada!). Por poder e pela globalização, realizadas numa todo o lado aldeia, numa zona isolada, e onde podemos construíam- presenciar o Grupo a utilizar as técnicas de se grandes Teatro Fórum com os habitantes locais. templos de O dia 22 de Outubro viria a ser um dia Khali, repletos emocionante. Mais de 10 000 pessoas, de flores, maioritariamente mulheres, reivindicando a grandes arte pela opressão do poder, foi sem dúvida tambores e um acontecimento marcante. muita luz. O Festival de Teatro do Oprimido decorreu Foi neste num jardim no centro da cidade de Calcutá. ambiente que Todos os dias o Festival iniciava e terminava se realizou com a apresentação de um grupo de Musica libertarem-se das opressões, trabalho este o Workshop, onde iríamos aprender as (precursão e circo), e a programação bastante significativo com as mulheres técnicas de Teatro do Oprimido utilizadas integrava Grupos de Teatro do Oprimido do AAL DIÁRIO indianas. pelo grupo, e onde participaram 40 pessoas Brasil, Palestina, Áustria e da Índia. Começava assim a master classe sobre vindas da Áustria, França, Espanha, E assim se passaram os dias, e as noites, aquela fantástica zona da Índia – West Alemanha, Reino Unido, Colômbia, em terras da Índia. Assim ficaram as Bengal –; tinha agora também o primeiro Argentina, EUA e Portugal. emoções, os conhecimentos, as reflexões, contacto com a população pobre, naquela Sanjoy, o director do Janas Sankriti, como esta, de Augusto Boal : “Unificação e que é uma das zonas mais intelectuais acompanhado pelo seu “irmão” de luta Uniformização não tem o mesmo significado, da Índia. Durante o percurso de jipe Julian Boal, conduziu o trabalho com a unificação dos povos faz com que se impressionou-me a paisagem com muitas exercícios de dinâmicas de grupo, dança e encontrem pontos comuns mantendo a árvores e grandes lagos, o trânsito caótico, conversas sobre as experiências do trabalho individualidade de cada ser, a uniformização numa estrada de carros, bicicletas, motas, do Grupo nas aldeias e da expansão desta dos povos transforma os indivíduos em autocarros, vacas e pessoas a pé. O fim arte na ajuda da conquista dos direitos a Robots objectivo do imperialismo”. do percurso levou-me ao Centro, a sede quem os reivindica. Pelo facto de Sanjoy Telma Saião
  6. 6. BAAL OLHARES PROJECTO ARTÍSTiCO MARCA REiniCiO DA ACTiViDADE OLEiRA “GUARDAR ÁGUAS” Três percursos de autor exploram o mesmo objecto: A comunidade de oleiras, na Vila do Tarrafal, em Cabo Verde. Fotografia, escultura e vídeo por Virgínia Fróis, Tiago Fróis e Pedro Conceição, da associação Oficinas do Convento em Montemor-o-Novo. O “Projecto Guardar Águas” desenvolveu- dar continuidade às práticas da Olaria de visual, Fotografia e Vídeo, cobrindo a -se de 27 de Março a 19 de Setembro de Mulheres e, deste modo, contribuir para a actividade oleira e também o seu contexto 2006, na localidade de Trás os Montes no requalificação da vida desta comunidade. vivencial, assim como o ciclo da cultura Concelho da Vila do Tarrafal, na Ilha de A produção da Olaria revelou a interesse do milho em todas as vertentes que Santiago em Cabo Verde, por Virgínia Fróis. destas mulheres em criar novas formas estão associadas a esta Arte. Tiveram O resultado que aqui mostramos e que se dentro da sua tradição. O trabalho foi particular importância no entendimento apresenta na exposição realizado com a orientação das últimas destas práticas os seguintes aspectos: a O que se apresenta na exposição “Guardar Mestras Oleiras: Pascoalina Borges, adaptação da comunidade ao território, 6 Águas” corresponde aos primeiros Isabel Semedo e Saturnina Tavares, com a sua vivência, a paisagem, a geologia e resultados de um trabalho de Animação idades compreendidas entre os 63 e 74 a situação geográfica no extremo norte Cultural. São três percursos de autor, que anos. A actividade foi retomada nas suas da ilha, um local árido e isolado mas de partilham o mesmo objecto - o território oficinas em Trás os Montes (Trás di Monti), surpreendente beleza. e a comunidade de Oleiras - e a mesma seguindo o modelo tradicional. O reinício O Projecto contou com o apoio da Câmara necessidade de “guardar” a memória de desta actividade, parada há vários anos, Municipal da Vila do Tarrafal (que suportou um modo de vida determinado. As peças permitiu também a 20 jovens mulheres do os custos relativos à formação das oleiras), criadas, as Fotografias, de Tiago Fróis, lugar iniciar a aprendizagem da olaria. A com o aconselhamento e disponibilidade as Esculturas de Virgínia Fróis e o Vídeo, laboração nas oficinas começou no final do director do Centro Cultural Português resultado de um trabalho colectivo de Maio e terminou em Julho, com o início da na Cidade da Praia, e como os apoios Pedro Conceição com os dois criadores já sementeira do milho e da época das portugueses do IA -Instituto das Artes, da referidos, são o resultado desta interacção. chuvas. FCG - Fundação Calouste Gulbenkian e da Esta acção teve como objectivo incentivar e Foi recolhida bastante documentação Câmara Municipal de Montemor-o-Novo.
  7. 7. 7 A exposição “Guardar Águas” Fotografia/Escultura e Vídeo de Virginia Fróis, Tiago Fróis, Pedro conceição e João Bastos, está patente ao público na Galeria Municipal de Montemor-o-Novo e está inserida no projecto “Conversas à Volta das Margens”, iniciativa da Associação Oficinas do Convento. A mostra segue para o Palácio da Cultura Ildo Lobo, na Cidade da Praia, em Cabo Verde, no dia 5 de Janeiro de 2007. Associação de Arte e Comunicação “Oficinas do Convento” teve início em 1996 e tem a sua sede no Convento de S. Francisco em Montemor-o-Novo. A sua acção desenvolve-se no âmbito das artes, com actividades no âmbito da arte pública, da paisagem e do património natural e arquitectónico. Hoje em dia, a associação conta com três departamentos distintos: Escultura, Música e Imagem. (www.oficinasdoconvento.com).
  8. 8. BAAL OLHARES 8
  9. 9. HÁ TEATRO nO ALEnTEJO Desde 1975, com a formação do profissionais sustentadas pelo Cendrev, a primeira companhia da Ministério da Cultura, mais nove não descentralização, o panorama teatral sustentadas, a que se juntam mais no Alentejo tem vindo a crescer, de 20 grupos de teatro de amadores. não só no número de companhias A Baalzine falou com alguns dos profissionais aqui sediadas, intervenientes que têm contribuído como na qualidade do trabalho para o desenvolvimento do teatro no apresentado. Sete companhias Alentejo. SãO SETE AS COMPAnHiAS DE TEATRO SUSTEnTADAS nO ALEnTEJO... MAS HÁ MAiS ExiSTE UMA FORMA 9 DE FAzER TEATRO nO E PARA O ALEnTEJO? Em 1975, o Cendrev, à altura Centro Cultural Mar) e Odemira (Teatro ao Largo). Além das sete de Évora, seria a primeira companhia de teatro companhias sustentadas, trabalham no Alentejo profissional sediada no Alentejo. Depois disso, e outras nove companhias não sustentadas, a grande aberto o caminho à descentralização teatral, várias maioria com sede em Évora (Trimagisto; A Bruxa companhias de teatro foram instalando-se ou criando Teatro; Trulé- Investigação de Formas Animadas; Era raízes na região. Hoje, são sete as companhias uma Vez – teatro de marionetas; e Cépia – Amonte no alentejo de teatro sustentadas pelo Ministério da Cultura Produções), mas também em Moura (Teatro Fórum AAL DOSSIÊ há teatro com sede no Alentejo, nomeadamente em Évora de Mora), Beja (Lêndias d’Encantar), Grândola (Cendrev e Pim Teatro), Portalegre (O Semeador), (Associação Cultural Horas Extraordinárias Teatro de Beja (Arte Pública), Serpa (Baal 17), Sines (Teatro do Grândola) e Odemira (3 em Pipa). Depois do caminho iniciado pelo Cendrev, de desenvolvimento da criatividade, que Com a mudança de década, continuam surgiria, também no Alto Alentejo, em transformem as mentalidades, que alterem a surgir novos projectos teatrais, a Baal Portalegre, “O Semedor”, em 1981, e, a forma de ver e pensar o mundo”, e 17, deitaria semente à terra em Serpa, passados cinco anos, em 1986, seria vez de o Arte Pública, o primeira companhia a no 2000, com o principal objectivo de nascer em Sines, com pessoas de Sines, surgir alargando o seu conceito estético trabalhar o mundo rural como matéria o Teatro do Mar, com o objectivo principal ao das Artes Performativas. Em 1994, pela de criação artística, tornando-se na mais “da promoção, criação e produção mão do inglês Steve Johnston, surgiria nova companhia teatral no Alentejo com teatral particularmente vocacionada o Teatro ao Largo, como “um grupo apoio sustentado por parte do Ministério para jovens audiências”. A década de teatro comunitário para Portugal” e da Cultural. Na cidade de évora, três de 90 foi profícua no aparecimento de fundamentado na firme convicção de que o novos projectos surgiriam com o volver do companhias de teatro, não só no Alentejo teatro profissional pertence a, e pode nutrir, milénio: Trimagisto e Bruxa Teatro, em 2001, como também um pouco por todo o País. cada comunidade, por mais pequena e por e Cépia-Amonte Produções, em 2002. O O ano de 1993 veria nascer o Pim Teatro, mais isolada que seja”. Ainda na década mais recente projecto de teatro profissional com a pura convicção de querer fazer de 90, as companhias Lêndias d’Encantar, a sedar-se no Alentejo, aconteceria em “um teatro capaz de provocar no público em Beja, e 3 em Pipa, em Odemira, juntar- Moura, em 2006, com o Teatro Fórum de experiências estéticas que sejam motor se-iam ao panorama teatral no Alentejo. Moura.
  10. 10. BAAL DOSSIÊ nO teAtrO São diversos e variados os objectivos porque uma tem na outra as suas artísticos das companhias de teatro raízes, a sua fonte de vida, a sua razão no Alentejo. Desde a abordagem de existir”. E também por essa razão dos clássicos, à criação de Teatro o PIM- TEATRO “chegou a povoações contemporâneo. Do Teatro “de arte” onde não havia teatro há 30 anos, com ao teatro social. Do meio rural como salas que não tinham as condições objecto de criação artística, às artes técnicas mínimas, onde as crianças performativas. Da itinerância em busca não conheciam os mais elementares da promoção, criação e produção teatral códigos da comunicação teatral e foi pela particularmente vocacionada para jovens continuidade que ajudou a transformar audiências, ao teatro comunitário. estas realidades. Procurou fazer do Centremo-nos então nos objectivos de espectáculo um trampolim para a quatro das sete companhias sustentadas descoberta das suas próprias convenções do Alentejo: Teatro do Mar; Teatro ao e, consequentemente, formar o público há Largo; Pim Teatro e Baal 17, companhias para o teatro de amanhã”. que representam o Baixo Alentejo, o Já o Teatro ao Largo define-se ALentejO Alentejo Litoral e o Alto Alentejo. exactamente como “um grupo de teatro A ligação Companhia/Comunidade comunitário para Portugal”, tendo em que se insere é um elo delicado a sua criação sido fundamentada e dedicado. Quatro companhias “na firme convicção de que o teatro profissionais; quatro identidades profissional pertence a, e pode nutrir, artísticas; variados objectivos; uma cada comunidade, por mais pequena e palavra inerente a todas: Comunidade. por mais isolada que seja. Desde 1994, Talvez aqui resista a diferença entre parte centenas de representações fizeram-se das companhias da descentralização e em recintos públicos: no largo principal, as companhias “da capital”, onde tal elo na festa do Município, na feira de não é procurado. Para o PIM-TEATRO, artesanato, na festa da aldeia - para por exemplo, a ligação à comunidade é os idosos em centros de dia, para as a sua própria razão de existência. “Estar crianças na sala de aula, e para os 0 0 no PIM-TEATRO é mais que trabalhar veraneantes nas estações de veraneio numa companhia, é abraçar um projecto da costa alentejana. Representar nestas “Em 13 anos de trabalho o Pim-Teatro desenvolve um teatro para crianças que não é infantil ou infantilizado mas que, pelo artístico onde a arte e a comunidade situações é um acto de escolha. Como seu valor estético e artístico, é um teatro para todos.” interagem numa relação simbiótica, grupo e como indivíduos dedicamo-nos à ideia de teatro comunitário”. A itinerância, é “o sangue que dá vida ao grupo” que percorre um pouco todo o País, e, em Odemira, o concelho mais vasto do país e também um dos mais despovoados e com a população mais dispersa”, o grupo apresenta anualmente o seu espectáculo itinerante principal nas aldeias, durante o Verão, e visita cada uma das escolas de ensino básico com um espectáculo de Natal”. Na Baal 17 o trabalho com e para a comunidade onde se insere é imperativo. Para além de trabalhar, se bem que não em exclusivo, o mundo rural como matéria de criação artística, a Baal 17, para além das três produções anuais estreadas em Serpa, percorre todo o concelho com as mesmas, desenvolve um Programa de Interacção Teatral Escolar, organiza um Festival Cultural, sempre com o objectivo da intervenção com e na comunidade. E será que esta busca constante da ligação à comunidade pelas companhias, faz com que exista a “força” do desbravar caminhos, levar Com Daimonian, em 2006, o Teatro do Mar alcançou a almejada internacionalização. A companhia radicada em Sines há 20 anos, mantém como objectivo fazer teatro itinerante e para um público jovem.
  11. 11. a Arte mais além, lutar para que o teatro tradições e o ruralismo. Mas, o trabalho chegue a todos e a qualquer lugar, tendo final do Teatro do Mar, vocacionado para para isso tantas vezes que trabalhar jovens audiências e para a rua mais sem as condições necessárias ou ideais? particularmente, pode ser entendido por Trazer as pessoas ao Teatro ou levar o públicos de um festival internacional no Teatro às pessoas? estrangeiro, do Centro Cultural de Belém Levar o teatro às pessoas é objectivo em Lisboa ou de qualquer pequena cidade do Teatro ao Largo. De acordo com a do Alentejo”. companhia, o objectivo para os próximos Mas será que persiste a ideia (errónea) de anos é o “de consolidar o seu trabalho na que o Teatro que se faz fora da capital é função de um grupo de teatro comunitário de algum modo inferior? acessível, dedicado a levar espectáculos O Teatro do Mar acredita que se continua de teatro enérgico e estimulante às zonas a alimentar esse preconceito, muito por rurais. O Teatro ao Largo é um projecto a culpa do escasso, para não dizer inexistente longo prazo. O grupo foi fundamentado na feedback do trabalho, por parte da crítica firme convicção de que o teatro profissional e da imprensa. “Tendo em conta que pertence a, e pode nutrir, cada comunidade, somos uma companhia descentralizada por mais pequena e por mais isolada que e itinerante por excelência, outra das Em 1994, o inglês Steve Jonhston fundava o Teatro ao Largo com base num modelo particular de teatro seja”, estando, no entanto, conscientes de dificuldades que encontramos é o feedback comunitário itinerante, desenvolvido nos anos 70 na Cornualha em Inglaterra. que este “é um processo lento e cumulativo” do nosso trabalho junto da imprensa e e que “só uma persistência obstinada e crítica especializada, concentrada nos uma fidelidade constante ao objectivo grandes centros e sem facilidade de durante muitos anos, produzirão resultados deslocação a outros pontos do país. Este portas à comunidade e desenvolver o seu permanentes”. A Baal 17, a mais recente facto continua a alimentar o preconceito trabalho como associação é neste momento das companhias sustentadas do Alentejo, generalizado de que o produto artístico a sua “luta”. acredita profundamente que a criação criado fora das grandes cidades, sobretudo O círculo é vicioso: os promotores de públicos se faz com a abertura da fora da capital, é de algum modo inferior. compram pouco e compram o que alcança companhia à Comunidade. A postura de A este nível, no nosso caso particular, e de visibilidade dada pela imprensa. Sirva como mote para incremento das vendas ficar no palco à espera que a sala encha certo modo infeliz e ironicamente, temos de espectáculos ou não, como aumento não é nem pode ser profícua. O trabalho encontrado uma resposta muito mais nas escolas, nomeadamente nas escolas positiva no estrangeiro do que no nosso da visibilidade da companhia ou não, o isoladas do concelho, no ensino secundário, próprio país”. certo é que não pode continuar a ignorar as digressões por localidades onde por Para além da dificuldade de afirmação, que Há Teatro no Alentejo, sobretudo vezes nem os quadros eléctricos aguentam não junto da população, das pessoas que quando o panorama teatral do Alentejo meia dúzia de projectores, o festival cultural conhecem o seu trabalho, mas junto de está “a crescer, a solidificar-se e a inovar-se Noites na Nora e mais recentemente a quem compra e de quem dá a conhecer, sobretudo com o surgimento e afirmação Mostra de Teatro Folha Caída têm também existe a claro, a maior das dificuldades: de novas companhias na região”, como esse objectivo, o de revitalizar ou vitalizar o a financeira, como subscreve o Teatro sustenta o Teatro do Mar. De futuro, e teatro no interior alentejano. do Mar. “Vivemos num país pequeno, também por “culpa” do Novo Regime À pergunta existe uma forma de fazer com imensas restrições económicas, Jurídico de Apoio às Artes”, o panorama teatro diferente no e para o Alentejo, que afectam o nosso principal mercado, actual, nomeadamente em relação aos comparativamente ao trabalho desenvolvido constituído essencialmente por Câmaras apoio concedidos às estruturas, mudará. no alentejo pelas Companhias “da capital?, o Teatro Municipais. A nossa maior carência actual Esperemos que para melhor. Esperemos do Mar revela alguma dificuldade em é a ausência de um espaço próprio onde que para um sistema que exija e dê em AAL DOSSIÊ há teatro responder objectivamente a esta questão. possamos apresentar o nosso trabalho, sem troca. “Há companhias na capital que procuram os normais constrangimentos da utilização Sandra Serra apresentar um repertório temático de de espaços públicos, que nos condiciona características urbanas e outras não, em horários e enquadramentos com outras há companhias descentralizadas que programações. Encontrar este espaço, após procuram um teatro vocacionado para 20 anos de actividade, continua a ser um públicos com menos acesso à cultura, e dos nossos maiores objectivos”. Do mesmo outras não têm esse tipo de preocupações. objectivo “padece” a Baal 17, actualmente é uma questão relativa. No nosso caso, com escritório no Cine-Teatro Municipal de optamos por um repertório com temáticas Serpa, com uso de palco e de instalações, universais. E, esteticamente, o resultado sujeitos a constrangimentos. Um espaço do nosso trabalho espelha um pouco a próprio onde a Baal 17 possa realidade ambivalente da nossa cidade ainda mais de residência, Sines, que tem referências abrir as urbanas em plena convivência com as suas “Ary” é a 17.ª produção da Baal 17, uma companhia que tem como projecto a procura de novas aproximações e perspectivas no teatro como forma de arte, inspirado no sentir das gentes, dos costumes, da terra, criando uma resposta cultural, social e educativa para a região.
  12. 12. BAAL DOSSIÊ nO tEAtRO EnTRE OS CLÁSSiCOS E AS nOVAS DRAMATURGiAS Entrevista por Carla Ferreira HÁ Foi a primeira companhia profissional portuguesa a fazer teatro fora da capital, já lá vão 31 anos. Hoje, o Centro Dramático de Évora (Cendrev), que continua a ter casa no Teatro Garcia de Resende, tem uma equipa estável e experimentada ALEntEjO que se orgulha do seu papel na formação de um público de “gosto apurado”, apesar dos recursos financeiros, que se mantêm iguais desde há uma década. O longo percurso, recorda José Russo, director da estrutura, tem passado por uma produção própria, sempre muito próxima dos grandes textos da tradição mundial teatral, mas também por um trabalho na área da programação, que vai beber à sua rede de relações artísticas. Actualmente, as atenções viram-se para os autores contemporâneos, de uma forma que nunca tinha sido experimentada pela companhia – congregando novos dramaturgos, portugueses e espanhóis, num espaço chamado Encontro de Teatro Ibérico, cuja quarta edição foi cumprida recentemente. Como avalia o período de vida actual do actividades culturais na cidade. Desde no Festival da Folha Caída] é disso um Cendrev, companhia que foi pioneira, há 31 logo, por via da sua produção. Nós fazemos exemplo. anos, na experiência de descentralização anualmente, em média, cerca de 200 E é também a vossa contribuição para da actividade teatral? Expansão, representações, metade das quais em comemorar o centenário da morte do dra- estabilidade, maturidade? évora, sendo que a outra é espalhada pela maturgo norueguês… Expansão é difícil em Portugal, porque região, pelo País e também um pouco pelo Sim, essa é outra vertente. Para o ano, por os meios de que dispomos são muito estrangeiro. Depois, pelo que organizamos exemplo, vamos estar envolvidos num pro- reduzidos. A vontade de expansão, nós e fazemos acontecer na cidade, quer por jecto a propósito dos 300 anos do Goldoni. manifestámo-la em 1990, quando tentámos via da programação, quer das relações Estamos ainda a conversar com o Teatro fazer a fusão com o Teatro da Rainha, daí que temos com um conjunto de instituições, Nacional, que nos desafiou para fazer uma resultando o Centro Dramático de évora quer ainda das co-produções em que nos co-produção, em que participa também o (Cendrev). Isso pressupunha determinados envolvemos e das relações internacionais Teatro dos Aloés. Estes projectos também compromissos do Estado em relação que temos com um conjunto de estruturas. são importantes. Estamos num País em que a projectos e o Estado nunca assumiu Como têm conseguido equilibrar, ao nível do a actividade cultural, privada como a nossa, esses compromissos. Concluindo, nós não repertório, aquilo que são as preferências carece muito de espaço público em termos estamos numa fase de expansão, estamos de um público contemporâneo com o que de divulga- numa fase de estabilização. Há um dado artisticamente consideram mais oportuno e ção. O que para nós é importante: a experiência relevante em cada momento? facto de muitos anos e uma equipa estável, Tem havido, nas nossas opções estéticas de que é a alma deste projecto. Ao todo, e dramatúrgicas, uma aproximação clara somos 24 pessoas, entre actores, técnicos, à abordagem dos clássicos, dos grandes administrativos e pessoal auxiliar. é uma textos da tradição mundial teatral. Somos estrutura que, tendo em conta a dimensão das companhias portuguesas que mais da região, tem algum peso. espectáculos de Gil Vicente já montaram Com três décadas de trabalho junto de uma – à volta de 18 – ou seja, já percorremos comunidade, que é a cidade de évora e as uma boa parte da dramaturgia vicentina. localidades próximas, é já possível avaliar Por um lado, Gil Vicente é uma grande o impacto da vossa actividade na forma- referência no teatro português e até ção e fidelização de públicos. O que é que europeu, e, por outro, permite-nos cumprir concluem? um objectivo, que é a ligação directa com Concluímos claramente que évora, hoje, o público do secundário, um dos nossos tem um público com uma formação e públicos alvo. Paralelamente, mas com um gosto extremamente desenvolvidos, menos importância, temos abordado apurados. E isso resulta necessariamente autores contemporâneos, como Brecht. de uma actividade regular que a cidade Este texto que vamos mostrar hoje, do tem mantido. Nessa medida, o Cendrev Henrik Ibsen [“Um inimigo do é um, senão o maior, agente promotor de povo”, apresentado em Serpa,
  13. 13. aproveitarmos estas efemérides é também comunitários vinham, cada vez mais, coisas que não faz porque as condições que no sentido de ver se apanhamos a embala- a dificultar a existência de projectos a tem não o permitem. Temos apenas estes gem de alguma coisa, para que possamos longo prazo, sendo que a nossa escola núcleo de pessoas e não podemos pensar ter uma outra dimensão. funcionava a três anos, o tempo de duração em contratar mais. Essa é também uma das Vêm também desenvolvendo uma relação de cada curso. A prova disso é que, nos razões por que recorremos, neste momento, com Espanha, através do Encontro de Teatro últimos dois cursos que fizemos, só já a co-produções. é um problema estrutural. Ibérico… tivemos financiamento para metade dessa E neste momento há dados que provam que Vamos fazer agora [Dezembro] a quarta formação. O resto já decorreu de uma forma as estruturas de cultura contribuem mais edição do Encontro de Teatro Ibérico, que muito precária, porque foi com base no para o PIB do que a indústria automóvel. No é já o resultado de um percurso que temos nosso orçamento. entanto, continua a dizer-se que o teatro é vindo a trilhar com algumas estruturas Pensam retomar esse projecto de formação? uma actividade subsidiária e o Orçamento espanholas, nomeadamente em Sevilha. Não, porque a realidade nacional também de Estado volta a estar nos 0,4 por cento Trata-se de um desafio mais ambicioso, se alterou, felizmente. Quando se criou a para a cultura, o que é terrível porque voltá- que já resultou no Fórum Teatral Ibérico, Escola em évora, só existia o Conservatório mos para trás. um projecto que junta gente de teatro e funcionava muito mal. Foi a primeira Es- Fale-me da vossa próxima peça, “Eunuco de de Espanha – Madrid, Mérida, Sevilha, cola de Formação de Actores, logo em 1975. Inês de Castro”, do dramaturgo eborense Badajoz – e de Portugal, não só de évora, Entretanto, já se constituíram muitas outras Armando Nascimento Rosa. como também de Lisboa e de outras escolas. E para nós é muito difícil manter Essa é uma outra vertente do nosso localidades. é um movimento que estamos um projecto de formação, nos moldes em trabalho, que é a de permitirmos que um a fazer em torno das novas dramaturgias, que o tínhamos, se não houver financia- dramaturgo se junte a nós durante um ciclo uma vertente nova tal como a estamos a mento. Já fazemos tanta coisa e a estrutura de trabalho. Esta é a terceira peça que assumir agora. Nós sempre fomos fazendo não cresceu, pelo contrário, diminuiu… As vamos montar deste dramaturgo, nestes autores contemporâneos, mas desta vez condições económicas são as mesmas de últimos três anos, e vamos estreá-la agora, estamos a dar-lhe uma atenção particular há 10 anos; as comparticipações do Estado no dia 1 de Dezembro. Isto integra-se nesta e a encontrar formas, do ponto de vista da não aumentaram e as da autarquia também lógica das novas dramaturgias. Queremos organização e das iniciativas, que possam não, mantiveram-se. Nós não temos aumen- abrir também espaço para permitir lançar potenciar e congregar essas dinâmicas tos na casa há cinco anos… nova gente, inclusivamente nesta área da – chamar jovens dramaturgos, trabalhar Há quem defenda um tratamento diferente, escrita que, durante muitos anos, esteve com eles, fazê-los juntar uns com os outros, em termos de financiamento do Estado, carente em Portugal. Este texto anda à volta juntar portugueses com espanhóis. para as companhias com longos anos de re- do mito de Inês de Castro e de D. Pedro, um Os Bonecos de Santo Aleixo vieram trazer conhecido serviço público, como o Cendrev. ícone do nosso espaço amoroso português, uma nova dinâmica à vida da companhia, Concorda? conhecido mundialmente. é uma peça que a partir da década de 80, tanto mais que Eu penso que, para além da existência dos se passa hoje, no “País do Mortos” e que foram os impulsionadores também da Bie- teatros nacionais, no Porto e em Lisboa, coloca a tónica numa história, mais desco- nal Internacional de Marionetas de évora. deveria haver uma pequena rede de centros nhecida, de que fala o Fernão Lopes na sua Alguma vez vão deixar de lhes dar vida? dramáticos espalhados pelo País. Seriam crónica. Trata-se da relação amorosa de D. Não é previsível que os deixemos de três ou quatro estruturas financiadas Pedro com um seu aio, o Afonso Madeira, representar. Assumimos a responsabili- de uma outra forma, entre as quais nós que ele depois mandou capar por causa de dade de fazer essa recuperação – com o entendemos que o Cendrev deveria estar, uma relação deste com uma dama. mestre Talhinhas, o último bonecreiro, que com condições que permitissem desenvol- já faleceu – e agora somos nós que temos ver estas estruturas, potenciando as suas às costas a responsabilidade de manter capacidades. O Cendrev, ao longo destes “Um Inimigo do Povo”, de Ibsen, Encenação de António vivo este espólio da nossa cultura popular. anos, já provou uma série de coisas, e há Mercado. Fotografia de Paulo Nuno Silva. Cendrev 2006 A fórmula que hoje continuamos nO ALEntEjO a utilizar já vem de há mais de 20 anos. é um grupo de actores da BAAL DOSSIÊ HÁ tEAtRO companhia, entre os quais eu me incluo, que vai prosseguindo este trabalho, mas se calhar vamos ter que adoptar uma outra fórmula, constituir uma outra família. Esse processo, de alguma maneira, já estamos a fazê-lo. Os últimos alunos da Escola de Formação de Actores de évora já fizeram ate- liers com os Bonecos, assim como os estudantes da Universidade de évora, que estão hoje no curso de Estudos Teatrais. O que quer dizer que já estamos, de alguma maneira, a formar gente à qual possamos recorrer um dia. O que esteve na origem do fim da Escola de Formação de Actores? A escola terminou há quatro ou cinco anos. Funcionava com os dinheiros do Fundo Social Europeu e os quadros
  14. 14. BAAL DOSSIÊ nO tEAtRO BAAL DOSSIÊHÁ ALEntEjO A PROPÓSiTO DA MOSTRA DE TEATRO DE SAnTO AnDRÉ A AJAGATO realiza desde há sete anos a A AJAGATO, associação juvenil de Amigos do Gato AS é, porventura, a associação/grupo de teatro de amadores nO ALentejO há teAtrO Mostra de Teatro de Santo André. O projecto cresceu e consolidou-se muito por força da a desenvolver mais trabalho no Baixo Alentejo. Uma das adesão do público e do nível de exigência suas principais actividades, a Mostra de Teatro de Santo que este nos coloca cada vez mais. Orgulhamo-nos de ter atingido um prestígio André, vive várias dificuldades orçamentais, enquanto significativo, que hoje nos abre portas para “na aldeia onde, há mais de quinhentos anos, Gil um crescimento ainda maior, sempre dentro Vicente nasceu, fazem-se hoje récitas de Natal de uma das limitações estruturais e financeiras em ingenuidade confrangedora…” que nos movemos. Provámos assim que é possível sonhar com um grande Festival que aguardam depois a atribuição dos Até podemos criar acontecimentos de Teatro sedeado nesta região e que subsídios, por vezes com atrasos superiores episódicos de euforia ou fenómenos corresponda de facto à dinâmica teatral que a um ano. sazonais de grande animação, com a aqui criámos e à necessidade da população Tudo isto constitui um “colete-de-forças” vinda de gente de fora para aproveitar as bem manifestada nos elevados números da de que não conseguimos sair sozinhos e ofertas programadas, mas no dia seguinte, frequência média dos espectáculos. que não nos permite adequar a qualidade depois da debandada, o que é que restará? Mas, no entanto, e apesar da contenção artística do projecto com a melhoria dos Podemos despertar entusiasmos mas quem 4 orçamental nos manter dentro de limites aspectos organizativos e a projecção que já enquadrará depois essa curiosidade e essa quase ridículos para uma iniciativa desta merece e reclama. vontade de experimentar? dimensão, nos últimos anos temos sido Então o que fazer? Continuar até à exaustão O objectivo principal é apenas preparar confrontados com dificuldades acrescidas este processo, mendigando apoios, batendo e concretizar Planos de Actividades de financiamento e de apoio logístico. a portas fechadas pela insensibilidade dando o “ar” de grande dinamismo Depois os processos são muitas vezes e pelo autismo das instituições que ou, pelo contrário, provocar com elas o marcados por grandes burocracias e confundem a dimensão dos projectos enriquecimento cultural, a coesão social, o demoras perfeitamente incompreensíveis! e metem todos os pedidos no mesmo reforço da identidade das regiões? Como compreender, por exemplo, que saco? Persistir ainda assim teimosamente Penso que, se queremos realmente elevar o apoio (dos fundos comunitários) dado recorrendo às rotinas que liquidam toda a o nível cultural da população, temos de ao projecto de animação teatral das actividade artística? fazer opções de fundo e adoptar estratégias escolas do 1º ciclo, em que há alguns Estamos numa encruzilhada e teremos de de desenvolvimento real de dinâmicas anos envolvemos todo o concelho, um ano clarificar as condições essenciais para a consistentes e duradouras. Teremos de depois de concluído ainda não estivesse continuação do projecto! pensar mais na “Escola” do que na “Festa”, completamente pago? Como gerir os apoios na “Sementeira” do que no “Banquete”, na da autarquia que são atribuídos sem data Acentua-se cada vez mais a macrocefalia valorização do “Trabalho” do que no recurso prevista para a disponibilização efectiva das cultural deste país, ou pelo menos a sistemático à “Improvisação”. verbas e acumulam atrasos sucessivos que existência de duas divisões distintas. Não podemos continuar a esgotar os desvirtuam em muito a sua eficácia? Como Que política de desenvolvimento cultural recursos financeiros com actividades rentabilizar os protocolos de cooperação queremos afinal para este Portugal B? do tipo “fogo de vista”, numa política de assinados em Julho e disponibilizados em comprar tudo feito, propostas geralmente Setembro do ano a que respeitam, quando 1.Um desenvolvimento integrado e seleccionadas com um critério duvidoso e 80% das actividades já estão realizadas? sustentado, mas também ambicioso destinadas apenas a assinalar o momento, Como chegar às verbas que o Estado e exigente, apoiado nas estruturas no dia seguinte já cá não estarão e voltamos disponibiliza para o apoio aos projectos associativas locais e nas dinâmicas todos ao mesmo... culturais, como são os financiamentos culturais já existentes. Entretanto, para consumo interno, do IPAE, sem uma estrutura de produção 2.Ou uma gestão corrente de iniciativas alimentamos o ego com as mesmas qualificada, ou, o que é mais perverso, sem avulsas, com a comemoração de datas estafadas iniciativas, esvaziadas de sentido um padrinho que nos leve pela mão… mais ou menos importantes onde se escoam pela própria rotina e pequenez, como grande parte dos recursos económicos do acontece nas escolas com as festinhas que Deste modo, a Mostra fez-se nos dois erário público? teimosamente fazemos duas ou três vezes últimos anos à custa de um esforço por ano… pessoal cada vez maior dos organizadores Será que basta contratar técnicos e injectar e da capacidade de financiamento da dinheiro e meios logísticos num punhado Na aldeia onde, há mais de quinhentos Associação que assumiu parte significativa de iniciativas compradas por catálogo aos anos, Gil Vicente nasceu, fazem-se hoje das despesas (em 2006 assegurámos agentes artísticos nacionais para que a récitas de Natal de uma ingenuidade 3.157,96€ num valor global de 17.487,96€) estrutura social e cultural se transforme e confrangedora… e adiantando verbas ainda mais elevadas enriqueça? Mário Primo
  15. 15. MÁRiO BARRADAS UM HOMEM nO TEATRO Actor, encenador, pedagogo, director, Mário Barradas foi, aos 75 anos, homenageado pelo CENDREV- Centro Dramático de Évora, casa que ele construi, ainda como Centro Cultural de Évora, em 1975 – era a primeira companhia da descentralização. Uma descentralização que, de acordo com Mário Barradas, “nunca resultou em Portugal”. “Um Homem no Teatro” é o título da monografia que recolhe testemunhos, histórias e memórias de uma vida ligada ao teatro e sobre a qual a Baalzine conversou com o “velho”. Mário Barradas nasceu em Ponta Delgada, em 1931. “desviar a atenção PIDE que naqueles anos andava Licenciou-se em Direito, na Universidade de Lisboa, bastante activa”. Em Dili viria a conhecer a sua esposa, em busca de um curso “mais rentável”. Mas a Arte Joana Pessoa. “Estava o Mário a dizer a belíssima Ode Dramática estava-lhe no sangue, desde a altura do ao Mar de Vitorino Nemésio. Foi amor à primeira vista”, liceu, onde começou, “como toda a gente”, mas recorda Joana Pessoa em “Um Homem no Teatro” na “bem”, adverte, com Gil Vicente, Almeida monografia. Acabou por fundar um grupo de teatro em Garret. Aos 22 anos, em Março de 1954, Timor e levar à cena “A Farsa de Mestre Pathelin”. dia da luta anti-colonial, Mário Barradas Parte para Moçambique, onde abre um consultório de seria “empurrado” para a sua primeira advocacia. “Mas cedo se deu conta de que a advocacia encenação, no Clube Marítimo de Lisboa, não preenchia a alma do Mário Barradas. A sua paixão 5 com um texto de um poeta guineense era o teatro”, como revive o amigo António de Almeida que “não passou pela censura”. Santos, na monografia. Criou o Teatro Amador de “Embora eu não fosse das colónias, Lourenço Marques (TALM), onde levou à cena 19 peças. era considerado como tal. Em Numa delas, “A História do Jardim Zoológico”, de Coimbra as pessoas pensavam Albee, em 1966 – “muito antes de aqui terem descoberto que era Angolano”, recorda o Albee” – teve a visita especial de Sá Machado, que Mário Barradas. foi presidente da Gulbenkian e director dos Serviços do Recusou-se a seguir Ultramar à altura. “Nesse dia ele disse-me: ‘você tem o caminho do teatro de ir para o teatro, gostei muito do espectáculo’”. profissional em Portugal, “Advoguei em Moçambique durante seis anos, até que “numa malha censória um dia decidi que não podia ser mais. Não aguentava muito apertada”, numa nem o escritório nem o ritmo. Saía dos ensaios à meia- altura em que, recorda, noite e ia para o escritório redigir minutas até às três da “fazer teatro em manhã. Tratei de tudo, não disse nada nem à família. nO ALEntEjO Portugal era um horror. Escrevi para Estrasburgo disseram que me aceitavam, As únicas pessoas que mas que tinha de lá ir para uma entrevista e prestar AAL DOSSIÊ HÁ tEAtRO fizeram algum teatro, uma prova. Comprei o bilhete de avião e dois dias antes foram a Amélia Rey disse à família que ia para Lisboa. Já tinha dois filhos Colaço e o Robles pequenos”. Partiu para a escola do Teatro Nacional de Monteiro que tiveram Estrasburgo, fonte da descentralização teatral francesa, a coragem de renovar como bolseiro da Gulbenkian e onde viria leccionar. um pouco o repertório Foi em França que Mário Barradas percebeu o que do teatro português era a descentralização teatral: “a única maneira de com o Shaskespear e desenvolver a este nível um País”, mas, “infelizmente, outros. Foram as únicas em Portugal, nunca ninguém percebeu isso, pelo menos pessoas que tiveram alguma os governantes”, lamenta. capacidade, sempre com Em 1917 regressa a Portugal convidado por Madalena muito cuidado e as peças Perdigão para fazer parte da Experiência Pedagógica vinham cheias de cortes realizada no Conservatório Nacional, do qual foi da censura. De resto director entre 1972 e 1974. “Em 1974”, relembra, “julguei recusei-me sempre a ir que finalmente isto ia mudar”. Um ano mais tarde, para o teatro profissional em 1975, criava o Centro Cultural de évora, dando- nestas condições”. se também início ao “processo sinuoso, pejado de Seguiu para Timor, em contradições e equívocos” da descentralização teatral. cumprimento do serviço (Mário Barradas, in Adágio, n.15/16). militar, e para o qual se tinha “Hoje há umas pequenas companhias na província, Mário Barradas. Foto de Paulo Nuno Silva oferecido, também, para não tenho a certeza que as escolhas sejam as mais
  16. 16. BAAL DOSSIÊ nO tEAtRO correctas, mas isso já é outra história. E sector. “Há mais de 200 anos que se diz isso foi influência sobretudo a partir daqui. que os teatros são as escolas primárias Nós fizemos uma companhia, uma escola dos homens esclarecidos, mas, hoje, de formação de actores, a maior parte dos isso ainda não é um compreendido em alunos que estão em Braga, em Serpa, Portugal. Há amadorismo para com o em Faro, nas Beiras, saíram daqui e era teatro, que tem de ser assumido como a nossa teimosia, minha e de um amigo um verdadeiro serviço público, com que me acompanhou nesta aventura, o critérios e sem descidas anuais do dos financiamentos”, defende. Luís Varela. é que claro que isto passados “Eu não sei já o que diga. Tenho 30 anos está na mesma. Porque não imigrado, tenho passado muito tempo houve nenhum entendimento, nenhuma em Estrasburgo, em Inglaterra, na Suíça, perspectiva sobre o desenvolvimento volta e meia venho fazer cá um trabalho cultural do País”. em Portugal, mas fora daqui!”, confessa Sempre crítico, Mário Barradas passou o “velho”, como carinhosamente lhe HÁ pelo IPAE, onde em colisão com Carrilho chamam no Cendrev, companhia onde se viria a demitir”. Admite ser um homem actualmente interpreta “o texugo”, em zangado com a política cultural do País ALEntEjO “Um Inimigo do Povo”, de Ibsen. e com o apoio estatal concedido ao Sandra Serra O ViAJAnTE FiCCiOnAL Caso existisse o estatuto de viajante pelo mapa teatral do Alentejo, este teria de percorrer quilómetros até 6 abarcar todas as companhias profissionais (entre elas 7 sustentadas pelo Ministério da Cultura - apoios bienais ou quadrienais), todo o teatro de amadores (24 grupos/ associações), já para não falar de aproximadamente 14 Festivais e Encontros de Teatro. Com mochila às costas ou sem ela, Portugal (Açores incluídos), muitos destes - com a sua mais recente Hamletmachine o viajante, por questões meramente actores-técnicos (sim, porque em muitos e o jovem Teatro Fórum de Moura a simbólicas, inicia a sua viagem pelas 7 casos a equipa técnica inclui actores) pisam experimentar Brecht. sustentadas: CENDREV (a mais antiga outros solos, o que não é de estranhar com Ofegante, o viajante visitará ainda as formas das 7) e PIM teatro (évora); O Semeador a vizinha Espanha mesmo aqui ao lado, a animadas: Trulé, este ano a comemorar (Portalegre); Arte Pública (Beja); Baal 17 proporcionar, inclusivamente, co-produções 20 anos, com um curriculum de mais de 40 (a mais jovem), em Serpa; Teatro do Mar (Baal 17 e Cendrev). Mais longe também é Festivais Internacionais por 4 continentes e (Sines) e Teatro ao Largo (Odemira - V. Nova possível ir, como o fez o Teatro do Mar neste vários prémios e Era uma Vez, também na de Milfontes). recente Verão pelas invernias da Alemanha, estrada desde 1992, este ano com Auto da Se das 7 há quem tenha casa fixa (como ou durante anos a fio os internacionalmente Barca do Inferno. O Semeador ou o Cendrev), outras há com conhecidos Bonecos de Santo Aleixo. Mas, como o teatro também é arte de espaços alugados e cuja filosofia se assume Cabe ainda a estas 7, as acções junto das amadores (etimologicamente, “aqueles como itinerante (Teatro do Mar), chegando escolas desde o 1º ciclo ao Secundário, o que amam”), ao viajante ainda lhe faltará outras à criação de um teatro móvel que que envolve workshops, visitas ao teatro, Cabeção, Montargil, Alter do Chão, Pias, lhes permite actuar ao largo (Teatro ao acompanhamento de jovens grupos de Ponte de Sôr, Monforte, V. Nova de Santo Largo!). teatro (assim nasceu Blá Blá Blá, em Campo André, Alcácer do Sal, Baleizão, Montemor- Se há companhias que dão literalmente Maior e AMAIA, em Portalegre), ateliers em o-Novo, V. Viçosa, V. Nova de S. Bento…. a palavra a autores clássicos e estabelecimentos prisionais (PIM teatro e T. E novamente, Portalegre, Campo Maior, contemporâneos (CENDREV, O Semeador), ao Largo). évora, Beja… outras percorrem o caminho da adaptação A viagem vai longa e faltam ainda os de outras obras literárias (As aventuras quilómetros até às companhias profissionais Decorrido um ano, o viajante ficcional de João sem Medo, PIM teatro) e outras “não sustentadas”: A Bruxa Teatro terminaria a sua viagem exausto, mas chegam mesmo à criação de novos textos (évora), desde 2001 a apostar em novas certo de que, apesar dos apoios sempre a partir de temáticas (a do mar, pelo T. dramaturgias; Trimagisto (évora, 2001), insuficientes, das equipas permanentes do Mar!), de poemas (Ary, Baal 17) ou de inovando com o projecto ConTapetes; instáveis, da falta de espaços próprios, pessoas (Madalena Joplin, Arte Pública). Lendias d’Encantar (Beja, 1997) a estrear o Teatro no Alentejo é um chão fértil, do Para além das representaÀn `run'a

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