Biografia luiz gonzaga

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Biografia luiz gonzaga

  1. 1. Luiz Gonzaga dos Santos uma vida para o sangue Luiz Antonio dos Santos
  2. 2. MEMORIAL DE MEDICINA DE PERNAMBUCOACADEMIA PERNAMBUCANA DE MEDICINA PRÊMIO PROF. SALOMÃO KELNER Luiz Antonio Vasconcelos dos Santos Acadêmico de Medicina – 8º Período Faculdade Ciências Médicas – FCM Universidade de Pernambuco – UPE Luiz Gonzaga dos Santos uma vida para o sangue Trabalho sobre a vida de Luiz Gonzaga dos Santos, sendo apresentado ao Prêmio professor Salomão Kelner, Academia Pernambucana de Medicina. Recife Outubro, 2010
  3. 3. INTRODUÇÃO Cada momento histórico representa um pedaço da evolução humana.Essa, que acontece interligada a vários campos do conhecimento, sempreestá associada a ações de pessoas que pensaram à frente, que ansiaram poruma vida melhor e mais digna para os seres humanos. Pessoas assim devem servalorizadas e lembradas como um ponto de referência, um exemplo a serseguido pelas futuras gerações. Luiz Gonzaga dos Santos, médico e cidadãorecifense que transformou toda a Hemoterapia brasileira, significa mais queum simples lembrar ou valorizar, representa uma oportunidade de aprender.Contamos sua belíssima história e, assim, adquirimos para a nossa vidaprincípios que todo médico deve ter. Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 03
  4. 4. O COMEÇO Nascido em 15 de fevereiro de 1930, Luiz Gonzaga foi o único filho deFrancisco José dos Santos e Maria Costa dos Santos, humilde casal residente nobairro de Água Fria, periferia do Recife. Seu pai era motorista e sua mãe donade casa, ambos se esforçando muito para oferecer educação e lições de vidaao filho. Exemplo desse esforço foi o fato de sua mãe, sacrificando-sefinanceiramente, matriculou-o numa boa escola para a realização doprimário, fato esse caracterizado pelo próprio Luiz Gonzaga como “de grandevisão de minha mãe”. Esse esforço era recíproco, pois Luiz Gonzaga teve decomeçar a trabalhar ainda muito jovem, aos 12 anos, ajudando e, quasesempre, recusando sua condição de adolescente em virtude da rotina dotrabalho diário. Após residir, dos 4 até os 12 anos de idade na rua da Soledade, centro doRecife, mudou-se para o bairro do Arruda, pois seu pai havia adquirido umacasa própria. Esse lugar, rico em árvores e tranquilidade, testemunhou o iníciodo crescimento pessoal e profissional de Luiz Gonzaga, sendo a residência deleaté 1960, ano em que se formaria em Medicina. Entre os 12 e os 25 anos de idade, sua vida foi intensa e árdua, nãorepresentando isso desvalorização pessoal ou algo negativo, mas umaincorporação de qualidades básicas e depois importantíssimas à sua vida. Em1942, então com 12 anos, após o término do primário, Luiz Gonzaga precisavaajudar seus pais financeiramente e, assim, eles o matricularam em um cursotécnico para comerciários, no qual teria noções básicas de contabilidade e,concluído esse curso, formar-se-ia como contabilista. Segundo o próprio LuizGonzaga, “meus pais tiveram uma visão muito grande com esse curso, poispude abrir minha mente e deslanchar na vida funcional”. Tais palavrasreferem-se aos conhecimentos administrativos e empresariais adquiridos como curso, os quais, no futuro, seriam fundamentais para a sua vida e,consequentemente, para a fundação do HEMOPE. Aos 16 anos, obteve o seuprimeiro emprego na empresa Alves de Brito & CIA, do ramo têxtil, na qualocupou uma função contábil. Nesse emprego, fez vários amigos, dentre osquais, Alfredo Bandeira, que, observando a necessidade do jovem decontinuar os estudos, induziu-o a trocar de emprego, pois assim teria maistempo para estudar, visto que a referida empresa têxtil exigia de todos os seusfuncionários dois expedientes de jornada de trabalho. Esse novo trabalhosurgiu em 1948, quando, por intermédio do mesmo Alfredo Bandeira, LuizGonzaga conseguiu uma vaga no Banco do Povo, onde o horário de trabalhoera apenas à tarde e, nesse momento, ele pôde continuar seu Ginasial noColégio Salesiano, à noite. A partir da década de 1940, entre os 18 e os 25 anos, surgiu um novoperíodo de enriquecimento pessoal e profissional, caracterizado pelo preparopara o ingresso na Universidade. O emprego no Banco do Povo era bastantesatisfatório, pois nele ocupava um cargo com o qual já possuía intimidade –escriturário - e obteve tempo, embora curto, para os estudos. Finalizava suasatividades bancárias no fim da tarde e, após um breve momento destinado àalimentação, caminhava da rua do Livramento até a rua Dom Bosco,chegando assim ao Colégio Salesiano, onde ainda concluía o Ginásio. Suavida resumia-se a essas duas atividades – trabalho e estudo. O sábado e o Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 04
  5. 5. domingo, ao invés de serem usados para atividades de lazer e descanso,significavam mais uma oportunidade para o contato com os livros. Esseaspecto de sua juventude é coerente com sua personalidade, pois sempre foiuma pessoa trabalhadora, séria e focada em seus objetivos. S u arelação com a Medicina iniciou-se de forma ocasional e indireta. Seu pai eramotorista do então professor da Faculdade de Medicina Mário Ramos, e tinha,com isso, certa aproximação com o campo médico, pelo qual,posteriormente, se tornou de admiração. Dr. Mário Ramos, infectologista echefe do Laboratório de Bacteriologia da Secretaria de Saúde, era um homemde referência tanto para Luiz Gonzaga como para seu pai, e influenciaria ocaminho do jovem rapaz, tendo sido ele, inclusive, quem conseguiu para LuizGonzaga o seu primeiro emprego na companhia têxtil já citada. Dessa forma,Luiz Gonzaga, ao inspirar-se na figura médica de Mário Ramos e ouvir asorientações do seu pai, optou pela escolha da Medicina como futuraprofissão.A FACULDADE DE MEDICINA Aos 24 anos, com o Ginásio concluído e ainda trabalhando no Banco doPovo, Luiz Gonzaga tentou pela primeira vez o vestibular para o curso deMedicina, não sendo aprovado por apenas 11 décimos, não tendo realizadonenhum curso preparatório. No ano seguinte, 1955, após preparar-se duranteum ano, conseguiu a excelente aprovação em 6º lugar no Curso Médico daentão Universidade do Recife. Nesse momento, deixou de trabalhar no Bancodo Povo, devido ao tempo integral de estudos que deveria ter dali por diante. Ao ingressar na Universidade, que naquela época funcionava no atualprédio do Memorial de Medicina, às margens do Capibaribe, Luiz Gonzaga,aos 25 anos, era um dos mais velhos da turma. Já no 2º ano do curso, ao teraulas da organizada disciplina de Histologia, ministrada pelo professor HélioMendonça, apaixonou-se pelo sangue. Um fato marcante foi a vinda, naqueleperíodo, de um professor de São Paulo para ministrar aulas de histologiadurante uma semana, quando pôde observar e estudar as belíssimas lâminasde medula óssea trazidas pelo referido professor. Durante aquela semana,após pedir permissão ao regente da disciplina Hélio Mendonça e ao professorconvidado, ia até a faculdade todos os dias à noite para estudar as lâminas, lápermanecendo até mais tarde. “Era tudo belo, tudo muito bonito”. Essaspalavras significaram uma descoberta, representaram um avanço em suavida que, por sinal, jamais seria a mesma, pois a partir dali estaria pessoal eprofissionalmente ligada à Hematologia e à Hemoterapia. Durante o período da faculdade, ainda necessitando trabalhar parasustentar-se, foi admitido como funcionário do laboratório de Bacteriologia daSecretaria de Saúde, no Setor de Sorologia para Sífilis, por intermédio de MárioRamos que, como foi dito, era o chefe desse laboratório. Os anos entre 1956 e Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 05
  6. 6. 1960 foram de conciliação entre a faculdade e esse trabalho, o querepresentou mais um momento de esforço. Um fato interessante nessa rotina foique, por o laboratório situar-se perto da faculdade, o acesso a ele duravaapenas alguns minutos de caminhada, o que facilitava a vida de LuizGonzaga, que muitas vezes ia trabalhar entre uma aula e outra, otimizando seutempo. No término do Curso Médico, graduando-se em cerimônia realizadana tarde de 8 de dezembro de 1960, não esqueceu quem o ajudou e foiimportante durante sua caminhada: Mário Ramos. Esse, como seu padrinho,fez a honra de colocar em seu dedo o anel de formatura.“PARECIA QUE ESTAVA TUDO ESCRITO” Aos 31 anos, recém-formado e detentor de conhecimentos emHematologia, adquiridos em vários estágios durante o seu curso, foi convidadopara ocupar a função de chefe do laboratório do Hospital do Câncer dePernambuco, o que aceitou prontamente. Lá não permaneceu muito tempo,logo indo estagiar no Hospital do Câncer do Rio de Janeiro, em busca de novosconhecimentos. Após o término deste último estágio, iniciou outro, em SãoPaulo, no serviço de hematologia do professor Michel Jamra, centro de maiorexcelência em Hematologia do Brasil naquela época. Esse momento,considerado “chave” pelo próprio Luiz Gonzaga para sua carreira, fez-se tãoimportante pelo fato do que acontecia no contexto da época, quando umcrescente interesse pela Hematologia e pela Hemoterapia era evidenciado nopaís. O início da Hematologia Brasileira aconteceu, diferentemente de outrospaíses, associada à Hemoterapia, abrigando esta última dentro de si. Assim, ahistória da Hemoterapia representa boa parte da evolução da ciênciahematológica no país. Em 1940, quando a hemoterapia foi inicialmentepraticada, com estrutura física (bancos de sangue), na cidade de Porto Alegree, sequencialmente, no Rio de Janeiro (1941), Recife (1942) e Distrito Federal(1944), a coleta de sangue era muito ligada ao lucro comercial, pois, apesar deas doações serem voluntárias, em muitos lugares elas eram remuneradas, oque estimulava as pessoas pobres a doarem seu sangue apenas com o intuitofinanceiro. Esse estímulo não funcionava do ponto de vista científico e/outerapêutico, pois as doações eram feitas sem uma devida triagem, na qual seobjetiva propor ao sangue doado mais chances de qualidade e,consequentemente, mais eficiência no seu uso médico. Assim, diante de umsangue sem qualidade, os procedimentos médicos que utilizavam tal tecidoficavam prejudicados, como também os profissionais de saúde viam seustratamentos sem eficiência. Foi nesse momento que os cirurgiões, diretamenteafetados pela falta de um sangue confiável, começaram a manifestar-sebuscando uma solução. Mais especificamente em 1961, um cirurgião torácico Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 06
  7. 7. pernambucano, Luiz Tavares, professor universitário e um dos fundadores daFaculdade de Ciências Médicas de Pernambuco (FCM-PE), interessou-se maisconcretamente pela busca de uma solução. Ele, um homem que tinhaaproximação com pessoas públicas, convenceu alguns políticos danecessidade de organizar o sistema hemoterápico pernambucano: políticoscomo Cid Cavalcanti, governador de Pernambuco na época (seu cunhado) eo Prof. Antônio Figueira, reitor pro tempore da Universidade de Pernambuco ePresidente Estadual da UDN (União Democrática Nacional), grande amigo deLuiz Tavares. Esse, acompanhado de Antônio Figueira, foi apresentado aoentão Presidente da República, Jânio Quadros, quando ficou acertada aconstrução de 2 centros de transfusão sanguínea, tendo como parâmetro omodelo francês, por intermédio de uma viagem de Luiz Tavares à França, quepossuía um significativo desenvolvimento em hemoterapia, razão dessaescolha. Porém, no dia anterior à viagem, o Presidente Jânio Quadrosrenunciou, o que veio a cancelar os planos elaborados até o momento. Foilogo após, em 1962, que Luiz Tavares viajou por conta própria à França, pois jápossuía conhecimento das atividades científicas nesse país, realizando oprimeiro contato Brasil-França e convidando os professores Robert Waitz eJacques Ruffié para visitar a Faculdade de Medicina do Recife, a fim de alipara ministrar em palestras. Durante tais palestras no auditório do HospitalUniversitário D. Pedro II, Luiz Gonzaga conheceu os referidos professores ecomeçou a fazer parte da história da Hemoterapia brasileira. Após ter conhecido os professores franceses trazidos por Luiz Tavares eparticipado de todas as atividades realizadas por eles na ocasião, LuizGonzaga foi estagiar no serviço de Hematologia do professor Michel Jamra, naUniversidade de São Paulo. De início, era apenas de 1 mês a duração doestágio, mas sua permanência estendeu-se por 8 meses. Esse período foi degrande realização para Luiz Gonzaga, pois, além de ter aproveitado oexcelente serviço a ele oferecido, participou de um acontecimento, nomínimo, inédito: estando, num certo dia, em uma atividade com Michel Jamrae mais 3 estagiários, surpreendeu-se com a chegada de Luiz Tavares, que tinhavindo em busca de 4 estudantes para serem bolsistas de uma cooperação,ainda incipiente, franco-brasileira. Essas bolsas serviriam para a formação deprofissionais capazes de desenvolver, técnica e administrativamente, umcentro de transfusão que seria construído em Pernambuco. Quando LuizTavares perguntou a Michel Jamra se esse teria estagiários para ocupar taisbolsas – pois ele não tinha conseguido recrutar estudantes em Recife -, elerepassou a pergunta aos seus alunos presentes, e Luiz Gonzaga foi o único alevantar a mão. Assim, o Dr. Luiz Gonzaga, com então 32 anos, tornava-se oprimeiro bolsista a ir à França mediante a referida cooperação franco-brasileira (sua bolsa teve a duração de 12 meses, dividida entre Paris eStrasbourg). Como já dito antes, o próprio Luiz Gonzaga considerou esse período emSão Paulo como essencial para sua carreira, “parecia que estava tudo escrito”, Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 07
  8. 8. pois conseguiu integrar conhecimentos técnico-científicos à oportunidade deaprender mais sobre a Hemoterapia em um país de referência. Sua ida àFrança aconteceu em 12 de janeiro de 1963, logo depois de ter realizado umcurso intensivo da língua francesa, necessária para comunicar-se nesse país.LUIZ GONZAGA E O HOSPITALOSWALDO CRUZ Os conhecimentos adquiridos durante esse estágio resultaram naoportunidade de criar, em 1964, um serviço de Hematologia em Pernambuco,especificamente no Hospital Oswaldo Cruz (HOC). Esse hospital, a partir de1958, entrara em decadência administrativa e financeira, chegando àsituação de quase desativar-se. Foi nesse contexto que Luiz Tavares, entãodiretor da FCM-PE, e os demais professores dessa faculdade, decidiramtransferir as atividades da faculdade para o HOC, sendo necessário, assim,reestruturar os serviços oferecidos por esse hospital. Nesse momento, LuizGonzaga foi convocado por Luiz Tavares para organizar o laboratório deHematologia do HOC, pois, como se especializara em Imunohematologia eHemoterapia um ano antes na França, representava uma pessoa deconfiança. Assim, recebendo o apoio do próprio Luiz Tavares e de TácitoPortella Barbalho (colega de turma durante a graduação e então diretor doHOC), pôde concluir e deixar funcionando, ainda em 1964, os laboratórios dehematologia e bioquímica. A determinação de Luiz Gonzaga para criar esseslaboratórios registrou-se como um marco, exemplificando-se pelo fato de elerealizar pessoalmente o pagamento dos pedreiros a cada semana, pois essaera a única forma possível de liberar verba, uma vez que existiam dificuldadesfinanceiras no HOC para a construção do prédio em que funcionaria olaboratório. A criação do laboratório do HOC serviu como ponto inicial para afundação, em 1977, do Centro de Hematologia e Hemoterapia dePernambuco (HEMOPE), além de iniciar o reerguimento daquele hospital. Ahistória de Luiz Gonzaga estaria ligada, intrinsecamente, à organização dessesserviços e à sua evolução. Em 1965, dando continuidade à cooperação franco-brasileira, oprofessor George Larrouy, então diretor do Centro de Transfusão Sanguínea deToulouse, visitou Pernambuco para observar como estava funcionando oserviço de Hematologia do HOC. Após a visita, elaborou-se um relatório noqual ficou acertada a doação, pelo governo francês, de equipamentos aolaboratório do HOC, que adquiriu grande desenvolvimento nos anosposteriores, o que se caracterizou como mais um estímulo à fundação doHEMOPE. Permanecendo como chefe do serviço de Hematologia do HOC, Luiz Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 08
  9. 9. Gonzaga exercia a profissão médica e continuava a buscar conhecimentos.Em 1966, especializou-se em Hematologia pela Universidade de São Paulo e, 3anos depois, em 1969, retornou à França, novamente com uma bolsa deestudos, para fazer um o mestrado na Universidade de Toulouse. Finalizadoesse período de pós-graduação, Luiz Gonzaga obteve, em 1970, o certificadode Études Supérieures dHématologie Générale en Biologie Humaine. Apósesse período, vários acontecimentos iriam impulsionar o desenvolvimento dahemoterapia brasileira e Luiz Gonzaga, à frente desse processo, seria umapessoa fundamental. A partir de 1964, o Brasil mudou seu regime político, sendo governado pormilitares e estando subordinado a esses até a década de 1980. Como aquelemomento estava incluído no pós-guerra (existia a guerra fria) e era instávelpoliticamente, grandes eram as chances de conflitos internos e externos, o queforçou o governo militar a preocupar-se com a segurança nacional. Assim,dentre as várias medidas tomadas visando à referida segurança, o sangue foitido como um elemento fundamental, pois caso houvesse um conflito armadoe grande quantidade de feridos, as pessoas necessitariam de sangue comoum agente terapêutico, da mesma forma que os antibióticos seriam usadospara combater infecções. Por isso, o Governo Federal mobilizou-se para criarum Sistema Nacional de Hemoterapia. Aliado a essa necessidade política, aelaboração de um relatório sobre a situação hemoterápica do país - realizadoem 1969 pelo professor Pièrre Cazal, então consultor da Organização Mundialde Saúde (OMS) - retratava o péssimo estado da hemoterapia praticada noBrasil, o que estimulou ainda mais a busca por qualidade nesse serviço. Esse, naépoca, caracterizava-se como múltiplo, pequeno, sem uma coordenaçãoadministrativa e atrelado a interesses financeiros, quando muitas pessoasdoavam sangue apenas com o intuito de serem remuneradas, nãoimportando a qualidade do sangue. Poucos eram os serviços que possuíamorganização e eficiência, a exemplo do já citado Michel Jamra, no Hospitaldas Clínicas da USP, e do Instituto Estadual de Hematologia Arthur SiqueiraCavalcanti, localizado na cidade do Rio de Janeiro. Apesar de serem centrosdesenvolvidos, não possuíam em sua organização administrativa objetivos dealcance nacional, não servindo, assim, ao Sistema Nacional de Hemoterapiaidealizado pelo governo.LUIZ GONZAGA E HEMOPE: UM MARCONA HEMOTERAPIA BRASILEIRA A criação de uma rede nacional de sangue deveria ser organizada ePernambuco, por meio de Luiz Gonzaga, realizou tal façanha. A razão dessaliderança pernambucana deve-se, principalmente, à figura do professorFernando Figueira e ao espírito inovador de Luiz Gonzaga e Luiz Tavares. O Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 09
  10. 10. principal momento no qual Luiz Gonzaga se tornou o grande transformador daHemoterapia brasileira aconteceu em 1972. Nesse ano, ele, com 42 anos, viu-se diante de uma escolha: 1) Trabalhar no Hospital das Forças Armadas emBrasília, onde tinha sido aprovado em 1º lugar em concurso público; 2) Tornar-se docente da Universidade de Brasília (UnB), pois havia sido convidado; 3)Organizar a criação e a fundação do HEMOPE. Apesar da tentadora propostade trabalhar na conceituada UnB, ou de ser membro do corpo médico doHospital das Forças Armadas, Luiz Gonzaga escolheu o HEMOPE, preferiu darmais uma contribuição a Pernambuco, ao Brasil, à Hemoterapia. Os acontecimentos que o levaram a ser nomeado como organizador doHEMOPE foram, a exemplo do momento de sua escolha como 1º bolsista aestagiar na França, interessantes. Na época, o professor Fernando Figueira,Secretário Estadual de Saúde, estava com o intuito de criar o Centro deHematologia e Hemoterapia de Pernambuco, e buscava uma pessoacapacitada para comandar tal processo. Assim, agendou uma reunião comcerca de 15 pessoas, na qual ficou acertado um segundo encontro em quegostaria de receber projetos e idéias acerca da construção do HEMOPE.Então, após algumas semanas, houve o novo encontro, porém, apenas LuizGonzaga estava presente, fato que fez o prof. Fernando Figueira nomeá-locoordenador de todo a trabalho a partir daquele momento., Diante desse encargo que lhe foi atribuído, Luiz Gonzaga, apesar de já terexperiência técnica e científica em centros de referência na Europa (Paris,Strasbourg e Toulouse) e no serviço de Hematologia do HOC, necessitavaaperfeiçoar-se em gestão, pois um projeto maior estava sendo criado. Foientão que, em 1975, se tornou especialista em Administração Hospitalar pelaUniversidade Federal de Pernambuco e, aliando os conhecimentos préviosadquiridos, em 1942, durante o curso de contabilidade, estavapotencialmente apto a levar à frente a construção do HEMOPE. Tal habilidadese fez manifesta ao saber contatar, de maneira eficiente, políticos,engenheiros, arquitetos e economistas, visando à elaboração do projetocomo um todo. Pessoas como Lúcia Athaíde, Niepse Silveira, Sérgio RegoBarros, Armando Cairutas, Gabriel Bacelar e Genildo Carvalho – profissionais devárias áreas - foram essenciais ao processo. Feito isso, o HEMOPE seria o primeirohemocentro do Brasil, inaugurado em 25 de novembro de 1977, sob o amparodo Governo do Estado de Pernambuco, e instituído sob a natureza jurídica deFundação de Direito Privado, tendo autonomia jurídica, financeira,administrativa e patrimonial. Na sessão solene de inauguração, além dapresença do então governador de Pernambuco Moura Cavalcanti, do cônsulgeral da França, Gaston Lepaudert, e de outras personalidades, estavamtambém presentes os professores Michel Jamra e Monteiro Marinho (fundadordo Instituto Estadual de Hematologia Artur de Siqueira Cavalcanti, em 1969, noRio de Janeiro), docentes que representavam o que o Brasil tinha de melhor emHematologia e Hemoterapia até então e que, ao estarem presentes naqueledia, significavam o quão importante se tornava o HEMOPE para o país. Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 10
  11. 11. A fundação recém-criada estaria obedecendo a 5 princípios básicos:1)Constituir-se numa entidade governamental, tendo em vista que aHemoterapia, ao abranger doenças potencialmente transmissíveis através dosangue (Hepatite, Sífilis, Chagas, AIDS, HTLV, Malária), inseria-se em umcontexto de saúde pública, sendo, assim, de interesse governamental;2)Possuir uma estrutura jurídico-administrativa capaz de assegurar umacontinuidade operacional;3)Funcionar visando ao benefício social e não ao retorno lucrativo comercial;4)Proporcionar uma integração Hematologia/Hemoterapia;5)Operar com o doador de sangue não remunerado. Além desses princípios, os objetivos de articular-se com a FCM-UPE,desenvolver pesquisa científica e produzir industrialmente hemoderivadosfaziam parte do planejamento dessa instituição. Durante o período de fundação do HEMOPE, Luiz Gonzaga não estevesomente empenhado na construção desse centro, mas continuou seuaperfeiçoamento técnico-científico, tornando-se Imunohematologista pelocentro localizado em Nice, cidade francesa, onde também representou oBrasil no Curso de Formação em Imunologia. Como todo estabelecimento recém-inaugurado, que representa umserviço bem sucedido em potencial e com capacidade de perpetuar-se, oHEMOPE provou sua utilidade social nos seus primeiros anos de funcionamento(mais especificamente no primeiro ano, 1978). Assim, ações como a prática dedoação sanguínea voluntária e não remunerada (estimulada pelaconscientização da população); a produção de plasma liofilizado¹ pelaprimeira vez no Brasil; a implantação do primeiro curso de mestrado emHematologia do Norte e do Nordeste do Brasil; a criação da ResidênciaMédica em Hematologia e Hemoterapia que, institucionalizada na FCM-UPE,tinha seu campo de treinamento no HEMOPE; e a implantação do projeto decrioconservação e laboratório de HLA, os quais, por falta de estímulo financeirodo Governo do Estado, se efetivaram mas não se consolidaram como práticapermanente. Para realizar tais ações, era necessário um pessoal preparado e dispostoa criar e manter tais objetivos. Luiz Gonzaga, como coordenador inicial ediretor do HEMOPE, possuía diversas qualidades administrativas e operacionaisacumuladas durante os seus quase 50 anos de idade, mas necessitava deprofissionais que, além de serem importantes na realização das açõesplanejadas, entrariam, também, para a história do HEMOPE. Dessa forma,médicos como Tácito Portela Barbalho, Mário Florêncio, João de Lemos, Alita Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 11
  12. 12. Azevedo, Gilson Saraiva, Divaldo Sampaio (atual diretor-presidente), AdersonAraújo, Claudia Monte, Rosa Arcuri e farmacêuticas como Cândida Cairutas eMaria do Carmo Valgueiro representavam o “braço direito” de Luiz Gonzagarumo à construção de um centro de excelência. Além desses profissionais, umapessoa muito próxima a Luiz Gonzaga, a Sra. Malda Séa Pinto, secretária delepor muitos anos, também exerceu uma função importante durante esseperíodo.¹A liofilização era um processo que permitia a uma determinada substância – no caso, o plasma – conservar-se por um tempo maior, oque facilitava o estoque e a operacionalização dessa substância.PRÓ-SANGUE: A CONSOLIDAÇÃODO TRABALHO Transformando-se em um serviço de referência estadual e regional, oHEMOPE apresentava-se como um exemplo a ser seguido. Assim, o GovernoFederal, além de ainda visar ao Projeto de Segurança Nacional, segue, no fimda década de 1970 e começo de 1980, um caminho definitivo em busca damelhora dos serviços de Hemoterapia oferecidos em todo o Brasil. Um fatoimportante, talvez, para essa posição do Governo Federal contra os serviçosde Hemoterapia de baixa qualidade, foi a experiência vivenciada pelo ex-Presidente da República, o General Ernesto Geisel, que durante o ano de 1969contraiu hepatite pós-transfusional logo após ter-se submetido a cirurgia paratratamento de pancreatite, o que serviu como mais um impulso para a criaçãode um sistema difundido, interligado e de qualidade no Brasil. Exposto o interesse nacional, foi criada uma comissão de articulaçãoque funcionava na FIOCRUZ (coordenada pelo presidente dessa fundação,Dr. Enos Vital Brasil, e composta por várias pessoas, entre elas Luiz Gonzaga),cujo objetivo era analisar e diagnosticar a situação existente da Hemoterapiaem todas as capitais do país. Após essa análise, a comissão visitou algumascidades em todas as regiões brasileiras e elaborou um programa nacional desangue e hemoderivados, o chamado PRÓ-SANGUE, indicando oficialmenteLuiz Gonzaga como coordenador técnico desse programa, e o HEMOPE,como centro de referência para a formação dos recursos humanosnecessários à implantação do sistema. Assim, iniciava-se mais um períodoengrandecedor para Luiz Gonzaga, no qual iria difundir a sua experiência e ado HEMOPE para todo o país. Durante o período em que permaneceu à frente do PRÓ-SANGUE (1980-1986), Luiz Gonzaga, assumiu simultaneamente a função de diretor-presidentedo HEMOPE e transformou toda a Hemoterapia brasileira, ao expandir o idealde eficiência dessa instituição. Ao assumir o cargo de Diretor Técnico, tinhacomo metas principais a implantação de novos hemocentros por todo o país,o desenvolvimento da Cooperação Técnica Franco-Brasileira em nível Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 12
  13. 13. nacional, o desenvolvimento do projeto de produção de albumina e aarticulação do programa com instituições, empresas e setores, visando a umamaior eficiência do PRÓ-SANGUE. Com isso, Luiz Gonzaga seguia em direçãoao estabelecimento de um verdadeiro Sistema Nacional de Hemoterapia,objetivo pelo qual trabalhou muito. Viajou mais de 700 horas de avião por todo o Brasil, analisando eestabelecendo a construção de uma série de Hemocentros interligados(Amazonas, Roraima, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte,Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Minas gerais, Rio de Janeiro, São Paulo,Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás e Distrito Federal). Durante esse período,representava o Ministério da Saúde em eventos nacionais, e o Brasil emreuniões e congressos internacionais (Bolívia, Suécia e Estados Unidos),chegando a ser consultor da OMS para a implantação da técnica ELISA (já emuso no Brasil) no Haiti (1985). Ao término de 1986, o PRÓ-SANGUE, por meio deLuiz Gonzaga, tinha mudado a mentalidade brasileira acerca do sangue, quedeixava de ter importância apenas para a Medicina e adquiria um valormédico, social e educacional. A doação não remunerada de sangue tinha seestendido por todo o Brasil, levando o país a um estado mais evoluído quanto aessa questão.1987-2010 Após todos esses anos contribuindo para o desenvolvimento daHemoterapia Pernambucana (HEMOPE) e Brasileira (PRÓ-SANGUE), em 1987,quando o Brasil entra em um novo momento político, caracterizado pela voltados civis ao poder e mudança em vários, senão todos, os setores dasociedade, com a saúde não foi diferente, principalmente em Pernambuco,onde o então governador eleito, Miguel Arraes, transformou toda instituiçãode caráter público em, efetivamente, um órgão público. Assim, porincompatibilidade administrativa e operacional, Luiz Gonzaga abdicou dadireção-presidência do HEMOPE, deixando o então vice-presidente, TácitoPortela Barbalho, na direção-presidência. Esse foi um momento difícil na vidado médico, na época com 57 anos, pois ele tinha dedicado mais da metadede sua vida à fundação do HEMOPE, assim como ao desenvolvimento daHemoterapia no estado. Porém, seguindo os princípios de um homemcomprometido com a ciência e as causas sociais, jamais se deixou abater,sempre exercendo alguma atividade útil à sociedade. Após sua saída do HEMOPE, aposentou-se por essa instituição (deacordo com a Consolidação das Leis Trabalhistas - CLT) e desvinculou-se daFCM-PE, pois havia sido convidado pelo então Presidente da FIOCRUZ, SérgioArouca, para organizar o serviço de Hemoterapia no estado do Rio de Janeiro.Em 1989, então, Luiz Gonzaga passou a residir no Rio de Janeiro, levando Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 13
  14. 14. adiante a proposta de, unificando os sistemas civil e militar, tornar o sistema deHemoterapia daquele estado coerente e qualificado. Infelizmente, o novopresidente da FIOCRUZ – que sucedeu a Sérgio Arouca – e autoridadesgovernamentais superiores não apresentaram interesses financeiros e/ouadministrativos, o que fez fracassar o projeto e antecipar o retorno do médicopernambucano, já em 1990, ao seu estado de origem. No volta a Pernambuco, Luiz Gonzaga reintegrou-se à FCM-PE,tornando-se novamente regente da disciplina de Hematologia da faculdade,onde permanece como docente até os dias atuais. Em 1996, estando oLaboratório Central do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC, antigoHOC) em decadência operacional e deterioração física, foi convidado eaceitou o convite para assumir a chefia do laboratório. Era como se estivessevoltando novamente a sua casa. Aquele lugar representava muito para ele, foionde tudo começou, em meados da década de 1960. Ao assumir o cargo,realizou uma série de ações com vista a organizar os serviços prestados assimcomo modernizar o funcionamento e as estruturas físicas. Não conseguiuconcluir todos os objetivos estabelecidos inicialmente, pois os entravesfinanceiros e operacionais – públicos - não o permitiram, mas foi capaz detrazer novamente ao laboratório a capacidade de servir, com dignidade, àpopulação pernambucana. Em 2006, após 10 anos à frente do laboratóriocentral do HUOC, deixou o cargo, mas não tardou muito a sua ausência, poisem 2010, com 80 anos completados, assumiu novamente o laboratório. É umexemplo a ser seguido.UM EXEMPLO A SER SEGUIDO Luiz Gonzaga dos Santos foi um homem à frente de seu tempo e,certamente, transformou a Medicina e a Hemoterapia brasileiras. Como diziaBenjamin Disraeli, escritor e político britânico, "o segredo do sucesso é aconstância de propósito". Talvez essa tenha sido a grande virtude de LuizGonzaga, a busca constante de objetivos, sejam eles palpáveis ou não. Odesenvolvimento de uma rede nacional de Hemocentros, destinada aexpandir um sistema já criado e plenamente eficiente em Pernambuco, foi umexemplo da visão futurista, tão nata e peculiar na época, de Luiz Gonzaga.Milhões de pessoas puderam beneficiar-se desse grande empreendimento,centenas de profissionais puderam afirmar: a Hemoterapia Brasileira divide-seem dois períodos, o antes e o depois de Luiz Gonzaga. A sua história permanece viva e confunde-se com a do LaboratórioCentral do HUOC, do HEMOPE e da Hemoterapia brasileira. Foram três projetosque se sucederam, representando todos um avanço científico e social para aspopulações pernambucana e brasileira. O objetivo de servir ao cidadãosempre acompanhou as ações de Luiz Gonzaga, tornando-se para ele um Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 14
  15. 15. ideal de vida. Durante a sua carreira médica, poucos foram os momentos emque exerceu a clínica privada, dando sempre prioridade ao serviço público eao ideal supracitado. Na sua concepção, não bastava um serviço públicoqualquer, era necessária a qualidade do atendimento e dos serviços, de modoque o usuário público fosse beneficiado. Assim, disciplina e rigidez eram seusinstrumentos para atingir a eficiência no serviço público. Luiz Gonzaga jápraticava, antes mesmo de a saúde constituir-se em um direito de todos edever do Estado, a Medicina baseada em princípios universais, igualitários eintegrais, Exemplo disso foi a sua frase, famosa na época da fundação doHEMOPE: “devemos atender o José da Silva da mesma forma que atendemoso da Silva José”. Como foi visto, ele era um apaixonado pelos princípios dosistema público, mas não admirava a forma como ele funcionava, visto quenão facilitava a operacionalidade nem o dinamismo das atividades. Por isso,muitas vezes entrava em discordância com os dirigentes aos quais estavasubordinado. Durante a sua caminhada, Luiz Gonzaga teve muitos colaboradores,pessoas que o ajudaram e lhe forneceram orientações. Seus pais, exemplos deperseverança e determinação durante a infância, ofereceram-lhe educaçãoe princípios que levaria para toda a vida. Além de seus pais, Alfredo Bandeira,ao induzi-lo a trocar de emprego para melhorar seus estudos foi um grandeamigo e importante incentivador do seu sucesso. Luiz Gonzaga sentiu-se feliz eretribuiu o favor a Alfredo Bandeira quando a filha desse, Fátima Bandeira,atual vice-presidente do HEMOPE, foi sua residente em Hematologia. Outrogrande colaborador foi Mário Ramos, que o estimulou a iniciar-se na Medicinae também o orientou na obtenção do primeiro emprego, inserindo o entãorapaz Luiz Gonzaga na vida prática. Finalmente, Luiz Tavares, FernandoFigueira e o cônsul Francês Marcel Morin, também foram importantíssimos, poisincentivaram a criação do HEMOPE. Necessitando oferecer uma resposta à sociedade, Luiz Gonzagaconseguiu com muita eficiência ajudar e influenciar outras pessoas. Ospacientes do Hospital Oswaldo Cruz, na época da criação do laboratóriodesse hospital, foram muito beneficiados, assim como, posteriormente, aspopulações pernambucana e brasileira. Os profissionais, médicos ou não,puderam ter o privilégio de conviver com Luiz Gonzaga e, assim, receber deuma forma especial todos os seus ensinamentos. Na época da fundação doHEMOPE, os médicos e estudantes recebiam estímulos os mais diversospossíveis, como, por exemplo, ouviam o próprio Luiz Gonzaga dizer que “naminha ausência no HEMOPE, vocês são o presidente”. Essa dedicação e todo oamor pela instituição, agora repassados aos estudantes, criavam umageração de médicos competentes e comprometidos com a causa pública,principalmente com o HEMOPE. É por isso que estudantes daquela época,como Aderson Araújo, Alita Azevedo, Claudia Monte, Divaldo Sampaio, Mariado Carmo, Raul Melo, Paula Loureiro e Rosa Arcuri estão ligados, de algumaforma, ao HEMOPE, construindo e contribuindo com o melhor para a Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 15
  16. 16. instituição. A capacidade de educar e orientar profissionais e estudantesmantém-se até o momento atual, pela prática docente atuante na FCM-PE. Dedicação, respeito, disciplina, ética, retidão, pioneirismo, perseverança,justiça, eficiência e empreendedorismo eram as palavras que eu ouviaquando perguntava sobre a personalidade de Luiz Gonzaga. Diante disso e detoda a importância para a Hematologia e a Hemoterapia, é mais que justohomenageá-lo. Aliás, esse reconhecimento deve ser uma obrigação brasileira.Homenagens e prêmios foram diversos durante sua vida. Talvez tenharecebido o primeiro reconhecimento em 1964, quando, aos 34 anos, foiconvidado por Luiz Tavares para iniciar o serviço de hematologia no HOC, oque significou um prêmio pela sua capacidade adquirida até então. Damesma forma, as nomeações como coordenador dos trabalhos para afundação do HEMOPE e como diretor técnico do PRÓ-SANGUE foram tambémexemplos. Condecorações também estiveram presentes, como a Ordem doMérito dos Guararapes - grau de Cavaleiro (pelo Governador dePernambuco), a Medalha do Mérito Santos Dumont (pelo Ministério daAeronáutica), a Ordre National du Mérite – grau Officier de Lordre National duMérite (pelo Presidente da França François Mitterand) e a medalha do méritoSão Lucas (pelo CREMEPE). Ainda foi Homenageado pela OMS comotransformador da Hemoterapia brasileira. Luiz Gonzaga é o atual chefe do laboratório central do HUOC e continuaativo em suas atividades e em seus ideais. Aos 80 anos, não pensa em parar detrabalhar enquanto ainda for apto para contribuir para a Hematologia e aHemoterapia pernambucanas. Sua mais nova contribuição – uma antigaproposta dele – será o serviço de Hematologia do HUOC, a ser inaugurado em2011. Como podemos perceber, não é a idade que limita as ações daspessoas, mas é a falta de propósitos que paralisa a mente. Além das honrariasque recebeu ao longo de toda a sua vida, este ano, em dezembro, ao formar-se a 84º turma de medicina da FCM-PE, ele será homenageado pela turmacomo o professor destaque dessa faculdade. Isso representa o significadocientífico e educacional de Luiz Gonzaga e, mais uma vez, um exemplo paratoda a sociedade.AGRADECIMENTOS Inicialmente, ao próprio Luiz Gonzaga, pela paciência e atenção a mimoferecidas durante todos os momentos que dele precisei para realizar estetrabalho. À Dra. Paula Loureiro, pelo total apoio a esse trabalho, assim como aajuda nos momentos finais. Aos médicos(as) Aderson Araújo, Alita Azevedo,Claudia Monte, Divaldo Sampaio, Raul Melo e Rosa Arcuri, à farmacêuticaMaria do Carmo e à Pedagoga Lenivalda Moura, pela disponibilidade dehorário para a realização de entrevistas. Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 16
  17. 17. BIBLIOGRAFIA Santos LG. Hemope e Pró-Sangue duas decisões um caminho. Recife-PE.EDUPE. 2002. Junqueira PC et al. História da Hemoterapia no Brasil. Rev. bras. hematol.hemoter. 2005;27(3):201-207. Gaspari E. A ditadura derrotada. São Paulo. Companhia das letras. 2003.ENTREVISTAS Luiz Gonzaga dos Santos, médico; Aderson Araújo, médico; Alita Azevedo, médica; Claudia Monte, médica; Divaldo de Almeida Sampaio, médico; Lenivalda Moura, pedagoga; Maria do Carmo Valgueiro, farmacêutica; Paula Loureiro, médica; Raul Antônio de Moraes Melo, médico; Rosa Arcuri, médica.AUTORLuiz Antonio Vasconcelos dos SantosRua Presidente Nilo Peçanha, 531, Bloco B, Apto 402, Boa Viagem, Recife-PETelefones: (81) 3497-2973 / (81) 8804-9281E-mail: luiiz_antonio@hotmail.com Luiz Gonzaga dos Santos: uma vida para o sangue 17

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