Considerações lingüísticas sobre a aquisição da escrita UCS – Bento Gonçalves 8 de maio de 2007 Maria Bernadete Marques Ab...
Os dados <ul><li>Os dados apresentados e comentados fazem parte do banco de dados do Projeto Integrado CNPq 521837/95-2,  ...
Alguns dos conhecimentos  lingüísticos  necessários  para que o professor de língua materna possa analisar e trabalhar a e...
<ul><li>I. Uma concepção de linguagem </li></ul>
<ul><li>Uma concepção sócio-histórica de linguagem </li></ul><ul><li>A linguagem é ela mesma  um trabalho  pelo qual, hist...
<ul><li>II. Conhecimentos sobre o componente  fônico  da linguagem </li></ul>
<ul><li>1. Conhecimentos sobre aspectos  fonéticos  de diferentes variedades da língua </li></ul>
 
 
 
<ul><li>A análise de textos produzidos por crianças em fase inicial de aquisição da escrita alfabética do português revela...
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A  hierarquia   dos constituintes silábicos
<ul><li>Essa estrutura gera o inventário básico ( CV, VC, V, CVC ), com que se descreve grande parte das línguas do mundo....
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A hierarquia prosódica  (M .  Nespor & I. Vogel, 1986,  Prosodic Phonology , Dordrecht-Holland: Foris )
<ul><li>SÍLABA: </li></ul><ul><li>AO (‘gato’); II (‘xixi’); OIGA (‘borboleta’) </li></ul><ul><li>BBU (‘bebeu’); CO (‘seu’)...
<ul><li>PALAVRA FONOLÓGICA:   </li></ul><ul><li>DEOURO (‘de ouro’), UMDIA (‘um dia’); APATA (‘a pata’); CESAUVAR (‘se salv...
<ul><li>FRASE ENTONACIONAL: </li></ul><ul><li>ELAFICOUCOTETE (‘ela ficou contente’);  </li></ul><ul><li>JAESTACOMENO (‘já ...
<ul><li>ENUNCIADO: </li></ul><ul><li>OCOELHOVIUMATRELACADETIACHOUATRELAMUITOBONITAELEVOUPARSUACASA (‘O coelho viu uma estr...
<ul><li>III. Conhecimentos sobre aspectos  morfossintáticos  da língua </li></ul>
 
 
 
 
<ul><li>IV. Conhecimentos sobre a  organização textual-discursiva </li></ul>
OS GÊNEROS DISCURSIVOS <ul><li>Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera [contexto...
<ul><li>A língua escrita corresponde ao conjunto dinâmico e complexo constituído pelos  gêneros/unidades composicionais/es...
O escritor competente: <ul><li>Identifica a situação de produção do texto. </li></ul><ul><li>Escolhe adequadamente o gêner...
A diferenciação dos gêneros escritos: primeiras manifestações <ul><li>As crianças, tanto de escolas particulares como de e...
 
 
 
 
 
 
 
O que a escola tem a ver com isso? Quino.  Toda Mafalda.  SP: Martins Fontes
Apenas 25% dos brasileiros acima dos 15 anos têm domínio pleno das habilidades de leitura e de escrita, segundo pesquisa f...
De acordo com o levantamento, 38% dos brasileiros podem ser considerados analfabetos funcionais -- não conseguem utilizar ...
Escrever é fácil. Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final. No meio, coloca idéias. Pablo Neruda
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Considerações Lingüísticas Sobre a Aquisição da Escrita

  1. 1. Considerações lingüísticas sobre a aquisição da escrita UCS – Bento Gonçalves 8 de maio de 2007 Maria Bernadete Marques Abaurre (LINGÜÍSTICA / IEL / UNICAMP - CNPq) [email_address]
  2. 2. Os dados <ul><li>Os dados apresentados e comentados fazem parte do banco de dados do Projeto Integrado CNPq 521837/95-2, A relevância teórica dos dados singulares na aquisição da escrita , desenvolvido no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp de 1992 a 2004. </li></ul>
  3. 3. Alguns dos conhecimentos lingüísticos necessários para que o professor de língua materna possa analisar e trabalhar a escrita dos alunos
  4. 4. <ul><li>I. Uma concepção de linguagem </li></ul>
  5. 5. <ul><li>Uma concepção sócio-histórica de linguagem </li></ul><ul><li>A linguagem é ela mesma um trabalho pelo qual, histórica, social e culturalmente, o homem organiza e dá forma a suas experiências. Nela se produz, do modo mais admirável, o processo dialético entre o que resulta da interação e o que resulta da atividade do sujeito na constituição dos sistemas lingüísticos, as línguas naturais de que nos servimos. (...) É na interação social, condição de desenvolvimento da linguagem, que o sujeito se apropria [do] sistema lingüístico, no sentido de que constrói, com os outros, os objetos lingüísticos de que se vai utilizar, na medida em que se constitui a si próprio como locutor e aos outros como interlocutores. </li></ul><ul><li>(C. Franchi, “Criatividade e gramática”, em Trabalhos de Lingüística Aplicada, 9. Campinas: IEL/Unicamp, 1987, pág. 12) </li></ul>
  6. 6. <ul><li>II. Conhecimentos sobre o componente fônico da linguagem </li></ul>
  7. 7. <ul><li>1. Conhecimentos sobre aspectos fonéticos de diferentes variedades da língua </li></ul>
  8. 11. <ul><li>A análise de textos produzidos por crianças em fase inicial de aquisição da escrita alfabética do português revela a maneira como, ao aplicar o princípio fonográfico que subjaz ao sistema de escrita da língua, os aprendizes de escrita inconscientemente registram aspectos fonéticos segmentais da modalidade sociolingüística regional que utilizam . </li></ul>
  9. 12. Variação sociolingüística regional <ul><li>IMEISA (‘imensa’) </li></ul><ul><li>MOREINO (‘morrendo’) </li></ul><ul><li>TXIABO (‘diabo’) </li></ul><ul><li>BESU (‘berço’) </li></ul><ul><li>MIOCA (‘minhoca’) </li></ul><ul><li>APARISEU (‘apareceu’) </li></ul>
  10. 13. <ul><li>2. Conhecimentos fonológicos : </li></ul><ul><li>as estruturas silábicas </li></ul><ul><li>a organização prosódica </li></ul>
  11. 23. <ul><li>(C)1 (C)2 V (C)3 (C)4 </li></ul><ul><li>(C)1 (C)2 e (C)3 (C)4 </li></ul><ul><li>p (C)2 e (C)3 (C)4 </li></ul><ul><li>(C)1 (C)2 e (C)3 s </li></ul><ul><li>p r e (C)3 (C)4 </li></ul><ul><li>p (C)2 e r s </li></ul><ul><li>t r a N s </li></ul>
  12. 24. <ul><li>Susto, crina, brinco, monstro </li></ul><ul><li>(C)1 (C)2 V (C)3 (C)4 $ (C)1 (C)2 V (C)3 (C)4 </li></ul><ul><li>s (C)2 u (C)3 s t (C)2 o (C)3 (C)4 </li></ul><ul><li>c r i (C)3 (C)4 n (C)2 a (C)3 (C)4 </li></ul><ul><li>b r i N (C)4 c (C)2 o (C)3 (C)4 </li></ul><ul><li>m (C)2 o N s t r o (C)3 (C)4 </li></ul>
  13. 25. Os constituintes da sílaba <ul><li>os constituintes silábicos são conhecidos por ataque e rima ; </li></ul><ul><li>A rima domina um núcleo (componente obrigatório) e, opcionalmente, uma coda ; </li></ul><ul><li>O ataque silábico não é obrigatório em português; </li></ul><ul><li>O ataque pode ser ramificado. </li></ul>
  14. 26. A hierarquia dos constituintes silábicos
  15. 27. <ul><li>Essa estrutura gera o inventário básico ( CV, VC, V, CVC ), com que se descreve grande parte das línguas do mundo. </li></ul><ul><li>Estruturas mais complexas como ( CCV, VCC, CCVCC ) são derivadas a partir dessa estrutura. </li></ul>
  16. 28. <ul><li>  </li></ul><ul><li> / / </li></ul><ul><li>A R A R </li></ul><ul><li> /   </li></ul><ul><li>N C N </li></ul><ul><li>s u s t o </li></ul>
  17. 29. <ul><li>  </li></ul><ul><li>/ / </li></ul><ul><li>A R A R </li></ul><ul><li>/    </li></ul><ul><li>/ N  N </li></ul><ul><li>k  i n a </li></ul>
  18. 30. Algumas observações sobre os dados <ul><li>Algumas crianças apresentam dificuldades, na escrita, no preenchimento da posição de coda silábica, bem como da segunda posição nos ataques ramificados; </li></ul><ul><li>Considerando-se, no entanto, dados como a escrita de SEPER, observa-se que na segunda sílaba já é usada uma consoante para representar o segmento que ocorre na segunda posição do ataque, embora esteja localizada na coda; </li></ul>
  19. 31. <ul><li>Tais fatos parecem indicar que, no momento de adquirir a representação alfabética, a criança passa por algumas dificuldades com relação ao reconhecimento da estrutura interna da sílaba. Sabe-se que, em português, ao adquirir a linguagem oral, a criança constrói as estruturas CV e V antes de CVC e de CCVC . Parece que, ao adquirir a escrita alfabética, essa mesma ordem de dificuldade volta a se manifestar, de certa forma? </li></ul><ul><li>A hierarquia de constituintes silábicos permite descrever os dados apresentados de maneira a que se possam sistematicamente relacionar as vacilações das crianças à necessidade de identificar e representar segmentos em posições de sílabas com estrutura mais complexa. </li></ul>
  20. 32. Prosódia e segmentação na escrita <ul><li>Ao aplicar o princípio fonográfico que subjaz ao sistema de escrita da língua, os aprendizes de escrita inconscientemente registram aspectos relacionados à hierarquia dos domínios prosódicos . </li></ul>
  21. 37. A hierarquia prosódica (M . Nespor & I. Vogel, 1986, Prosodic Phonology , Dordrecht-Holland: Foris )
  22. 38. <ul><li>SÍLABA: </li></ul><ul><li>AO (‘gato’); II (‘xixi’); OIGA (‘borboleta’) </li></ul><ul><li>BBU (‘bebeu’); CO (‘seu’); CMIAJUDA (‘cê mi ajuda?’); APARECU (‘apareceu’) </li></ul><ul><li>PÉ: </li></ul><ul><li>SERO MANO (‘ser humano’); CATA PUTA (‘catapulta’); CALA BOLSO (‘calabouço ‘); A LÉGI (‘alegre’); PIDO (‘pai do’); MADO (‘mãe do’); UM PEDI (‘no pé de’); A BASO (‘abraço’); A QUELA (‘aquela’); DA QUELA (‘daquela’); DO ÉTE (‘doente’); E TAMO (‘estamos’); VI ZITA (‘visita’); SU BIMO (‘subimos’); DERRE PENTE (‘de repente’) </li></ul>
  23. 39. <ul><li>PALAVRA FONOLÓGICA: </li></ul><ul><li>DEOURO (‘de ouro’), UMDIA (‘um dia’); APATA (‘a pata’); CESAUVAR (‘se salvar’); QUERA/QUIERA (‘que era’) </li></ul><ul><li>FRASE FONOLÓGICA: </li></ul><ul><li>PROBEPATO (‘pobre pato’); VOTELEFONA (‘vou telefonar’); TODUMUDO (‘todo mundo’); MUTOEPÉTO (‘muito esperto’) </li></ul>
  24. 40. <ul><li>FRASE ENTONACIONAL: </li></ul><ul><li>ELAFICOUCOTETE (‘ela ficou contente’); </li></ul><ul><li>JAESTACOMENO (‘já está comendo’); </li></ul><ul><li>O LOBO MAU (I) </li></ul><ul><li>OXAPEZIOFOINAFORETANACAZAVOVO (I) </li></ul><ul><li>OLOBOFOINACAZADAVOVÓ (I) </li></ul><ul><li>ENTRONACAZA (I) </li></ul><ul><li>COMEUAVOVÓ (I) </li></ul><ul><li>OLOBOVIOXAPEZIOSAIDODACAZADAVOVÓ (I) </li></ul><ul><li>OXAPEZIOVIOCASADOIFOIXAMOOCASADOIPAMATAOLOBO (U) </li></ul>
  25. 41. <ul><li>ENUNCIADO: </li></ul><ul><li>OCOELHOVIUMATRELACADETIACHOUATRELAMUITOBONITAELEVOUPARSUACASA (‘O coelho viu uma estrela cadente, achou a estrela muito bonita e levou para sua casa’) </li></ul>
  26. 42. <ul><li>III. Conhecimentos sobre aspectos morfossintáticos da língua </li></ul>
  27. 47. <ul><li>IV. Conhecimentos sobre a organização textual-discursiva </li></ul>
  28. 48. OS GÊNEROS DISCURSIVOS <ul><li>Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera [contexto] de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso [diálogos, exposições, relatos, bilhetes, cartas, relatórios, etc.] . </li></ul><ul><li>Mikhail Bakhtin, Os gêneros do discurso . </li></ul><ul><li>(Em: Estética da Criação Verbal . SP.: </li></ul><ul><li>Martins Fontes: 1992 [1952]) </li></ul>
  29. 49. <ul><li>A língua escrita corresponde ao conjunto dinâmico e complexo constituído pelos gêneros/unidades composicionais/estilos. </li></ul>
  30. 50. O escritor competente: <ul><li>Identifica a situação de produção do texto. </li></ul><ul><li>Escolhe adequadamente o gênero e a(s) unidade(s) composicional(is) a ele adequadas. </li></ul><ul><li>Identifica o interlocutor/leitor preferencial do texto. </li></ul><ul><li>Determina o grau de formalidade lingüística adequado ao gênero e ao interlocutor/leitor. [correção gramatical, norma escrita culta] </li></ul><ul><li>Controla a coesão (articulação) e a coerência (seleção e articulação de informações e argumentos necessários para a construção do sentido). </li></ul>
  31. 51. A diferenciação dos gêneros escritos: primeiras manifestações <ul><li>As crianças, tanto de escolas particulares como de escolas públicas, já demonstram, em seus primeiros textos, um conhecimento intuitivo sobre alguns dos muitos gêneros discursivos que circulam em diferentes esferas sociais. </li></ul>
  32. 59. O que a escola tem a ver com isso? Quino. Toda Mafalda. SP: Martins Fontes
  33. 60. Apenas 25% dos brasileiros acima dos 15 anos têm domínio pleno das habilidades de leitura e de escrita, segundo pesquisa feita pelo Instituto Paulo Montenegro. Isso significa que só um em cada quatro brasileiros consegue entender totalmente as informações de textos mais longos e relacioná-las com outros dados.
  34. 61. De acordo com o levantamento, 38% dos brasileiros podem ser considerados analfabetos funcionais -- não conseguem utilizar a leitura e a escrita na vida cotidiana. Desses, 8% são absolutamente analfabetos, e 30% têm um nível de habilidade muito baixo -- conseguem apenas identificar uma informação simples em um só enunciado, como um anúncio. Outros 37% têm um patamar básico -- são capazes de localizar uma informação em textos curtos, como uma carta ou uma notícia. INAF (Índice Nacional de Alfabetismo Funcional) Instituto Paulo Montenegro / ONG Ação Educativa / (setembro 2003)
  35. 62. Escrever é fácil. Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final. No meio, coloca idéias. Pablo Neruda

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