A mentira tem perna curta

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A mentira tem perna curta

  1. 1. Costuma-se dizer que as mentiras têm pernas curtas, cabeça de pera, pescoço comprido,corpo coberto de pelos e os olhos tortos, que são grandes e metediças ou pequenas e mal--educadas. — Depende — pensava Adalgisa com os seus botões.— Podem ser isso tudo e muitomais!
  2. 2. Ela era uma especialista em mentiras, das quais possuía uma coleção interminável. Eram tantas e tantas as suas mentiras que já não sabia onde havia de as guardar. No começo, ela escondia-as apenas no seu quarto: debaixo do tapete, no fundo doguarda-vestidos, atrás do aquecedor... No fundo do armário, então, tinha uma prateleira repleta de frascos cheios dementiras.
  3. 3. Mas rapidamente as mentirasencheram o quarto, começandoentão a saltar para fora,espalhando-se pelos lugares maisimpensáveis da casa.
  4. 4. Quando as mentiras começaram a sair, ela até as achava divertidas, e por issotentou torná-las suas amigas, mas bem depressa teve de dar o dito por não dito...Não se pode confiarem mentiras!
  5. 5. O problema é que as mentiras não desaparecem logo quando é preciso,permanecendo ali, à espera do melhor momento para saltarem para fora ecausarem uma desgraça! Eis a razão por que a vida de Adalgisa se estava a tornar numa verdadeiratragédia, em vez de ser uma comédia. Ela passava o tempo a vigiar e a prendertodas as suas mentiras, e para isso via-se obrigada a criar novas mentiras: um círculosem fim...
  6. 6. — Adalgisa, já lavaste os dentes?— perguntava a mamã,e ela respondia:— Já, mamã. E também lavei asmãos.POF!Mal acabara de falar, eis que amentira saltava para oombro da mamã e, a rir-se,soprava-lhe à orelha toda averdade.
  7. 7. — Sabes, Luísa — contava Adalgisa,cheia de gozo, à sua amiga — que omeu avô tinha uma vaca chamadaCeleste e que sabia falar? Os dois juntos chegaram a atuarnos teatros mais famosos do mundo!O meu avô era um ator famosíssimo! POF! Aí vinha outra…
  8. 8. A verdade é que Adalgisa contava asmentiras tão bem e com tanta certezae segurança que, com o correr dotempo, até ela se convencia que aquiloque dizia era mesmo verdade. Adalgisa andava, pois, carregada dementiras, que lhe saíam de toda aparte do corpo. Trazia-as nos bolsos, no meio doscabelos, nos sapatos, agarradas aosfolhos do vestido...
  9. 9. E as mentiras eram verdadeiramentedescaradas e arreliadoras. Sucedia, porvezes, que, durante uma aula, uma dasmentiras se punha a fazer-lhe cócegas e,quando a professora exigia explicações,Adalgisa contava mais uma mentira, quejuntava à sua coleção.
  10. 10. Aquele dia começara como tantos outros. Ninguém poderia adivinhar o que dali a poucoiria acontecer. A Senhora Gina, amiga da avó, quis saber: — Adalgisa, é verdade que tu dizes mentiras? E ela respondeu candidamente: — Nunca disse uma mentira em toda a minha vida. Palavra de honra!Não acabara ainda de pronunciar a última palavra quando uma enorme, horrenda, nojentamentira aparece na sala.
  11. 11. Ao vê-la, Adalgisa ficou de talmodo apavorada que desatou agritar. A mentira era tãoassustadoramente grande quequase ocupava toda a sala. EAdalgisa sentia-se deveraspequena, pequenina. Desta vez,fizera uma grande asneira! Dissera uma tal mentira quenunca ninguém vira nada assim, ouantes, ninguém havia jamaisimaginado coisa igual! A avó e a amiga pareciam feitasde pedra. Imobilizadas no sofá,sentadas, olhavam, de boca aberta,para aquela “coisa”. A enorme mentira começou amover-se pela sala. Babando-se esujando tudo, mexia e partia cadacoisa que ficava ao seu alcance.Depois, aproximou-se de Adalgisa,com ar ameaçador: o soalhotremia, a avó e a amiga também.
  12. 12. Adalgisa não sabia o que havia defazer. Ela abraçou com muita força o seumacaquinho de pelúcia, o Tricky, embusca de proteção. A mentirainclinou-se sobre ela. Algumas gotasde baba malcheirosa caíram notapete. A sombra fixou Adalgisa nosolhos, rindo horrendamente, e,depois, agarrou Tricky, pronta adesfazê-lo em mil bocadinhos... — NÃÃOOOOOO!!! — gritouAdalgisa — Não direi mais mentiras,prometo! — e agora era mesmouma promessa de verdade.
  13. 13. Imediatamente sentiu-se um estrondo medonho e a sala encheu-se de fumo e de umcheiro nauseabundo. Da enorme mentira só restavam algumas gotas de baba nojentasobre o tapete. Logo a seguir, por entre milhares de estranhos grunhidos, todas as outras mentirascomeçaram a correr doidamente, até que, contorcendo-se, explodiram com um POF igualàquele que se ouvia quando apareciam. — Avó, diz-se que as mentiras têm as pernas curtas, mas viste como estas mentirascorriam a bom correr? Avó e neta abraçaram-se, rindo, muito felizes.

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