Gigantomaquia a história de sangue

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Gigantomaquia - a história de sangue
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Gigantomaquia a história de sangue

  1. 1. 2
  2. 2. 4
  3. 3. 6
  4. 4. 8
  5. 5. Esta é uma obra de ficção, sem nenhuma relação com pessoas, entidades e/ou eventos reais.10
  6. 6. 12
  7. 7. Resumo do livro anterior, Gigantomaquia - A História deMei Na primeira parte desta história testemunhamos oreaparecimento dos Gigas, gigantes malignos que haviam sidoaprisionados por Atena nas profundezas da Sicília, no distantepassado das lendas mitológicas. Depois de conseguir escapar de alguma forma, nos diasde hoje, os Gigas seqüestram a Amazona Yuu-ri. Seiya e Shunrecebem a missão de resgate, sendo incumbidos também deverificar a integridade do selo de Atena. Seu meio-irmão Mei,atuando agora como um dos agentes secretos do Santuário, éescolhido pa-ra guiá-Ios nessa aventura pela Sicília. Mas a mente de Mei havia sido dominada pela “Vontade”de Tífon, o mais poderoso dos Gigas. Mesmo tendo sidotransformado em uma espécie de marionete dessa influênciamaligna, Mei consegue reunir forças para se arrepender datraição, consciente do fato de que sua fraqueza possibilitoua ressurreição dos Gigas. À beira da morte, Mei é salvo pelo grandioso a-mor deAtena, recebendo uma Armadura de Cavalei-ro - o trajesagrado de Coma Berenices, que passa a ser sua constelaçãoprotetora. Para Mei, esse é o começo da guerra contra o seudestino, escrito nas es-trelas desde os tempos da mitologia. Enquanto isso, Tífon, ressuscitado, deixa para trás seusoponentes...
  8. 8. PREFÁCIO EQUIDNA14
  9. 9. O Santuário. Vemos duas figuras nos aposentos ao fundo da Salado Grande Mestre: uma menina-moça e um rapaz. - Consegue me ver, Mei? - Saori... - o jovem de cabelos prateados está deitadonuma cama, e desperta lentamente. Em pé diante dele estáuma donzela de beleza ímpar: a jovem encarnaçáo da deusaAtena. - Eu... estava dormindo? - pergunta Mei, percebendoque veste uma túnica de tecido macio. O mais novo guerreiro de Atena já não está mais comfebre nem suado, e em seu corpo não sobrou nenhum sinaldas marcas das garras do Giga Tífon. Sobreviveu ao ataque,mas seu rosto pálido e sem cor dá a ele a aparência de umapessoa muito doente. - Você dormiu por mais de dez dias - explica a deusa,como se contasse a um náufrago quanto tempo esteve longede casa. Mei se lembra da batalha travada na Sicília contra osGigas, gigantes mitológicos de tempos imemoriais, mas custaa recordar os detalhes. Aos poucos vai se lembrando de quetinha sido usado como uma marionete pela vontade doressuscitado deus Tífon, e que por Isso havia perdido quasetodo seu Cosmo. - Dez dias... Tudo isso... - Mas estou aliviada... - suspira Atena. - Sua respiraçãoera quase imperceptível... achei que nunca mais ia acordar. -A garota abre seu coração de forma surpreendentementeindefesa, tratando-se de uma deusa. Por alguma razão, parece haver uma complexa mistura
  10. 10. de sentimentos entre Saori e Mei, algo muito mais abrangente do que uma simples relação entre mestra e servo. - Tenho uma surpresa para você - diz Atena, gentilmente. - Uma pessoa que está aqui para lhe ver. Ao sinal da deusa aproxima-se do leito uma figura extremamente cerimoniosa, um homem alto, de cabeça raspada, vestindo um smoking preto. - Tatsumi? É você? - pergunta Mei em um tom de surpresa. - Que bom que o senhor está vivo! - diz o homem, com as feições carrancudas se desmanchando numa torrente de lágrimas. - Este seu criado... não tem palavras para descrever a alegria...! Trata-se de Tokumaru Tatsumi, administrador da Fundação Graad, e dedicado mordomo da família Kido. - Quer dizer então que você continua prestando serviços para a senhorita Saori? - pergunta Mei. O garoto guarda ainda a imagem de Tatsumi como uma espécie de babá ou guarda- costas da garota, impressão compartilhada na infância por todos os cem órfãos reunidos pelo falecido Mitsumasa Kido para se tornar Cavaleiros. - Sim, senhor! Como o mestre Mitsumasa ficaria feliz se pudesse estar aqui comigo! - Faz sentido... - continua Mei. - Atena é também a herdeira da Fundação Graad... Mas acho que pega mal andar de smoking dentro do Santuário! Tatsumi solta uma risada sem graça e dá de ombros. Seu sorriso é sincero e os ombros, largos como os de um boxeador. - Eu nem imaginava...! - diz Atena com uma voz trêmula. - Você contou a ela, Tatsumi? Mas estava proibido de falar nisso, por mim e por meu pai. - Eu sei, meu senhor! - Tatsumi se curva diante do rapaz. - Mas... faz tanto tempo. O mestre precursor já não está mais entre nós e, como ele tanto desejava, a mestra Saori despertou16
  11. 11. como Atena. E... mestre Mei, o senhor está vivo! Este seuservo não teve como se conter... - Tudo bem, esquece - diz Mei, da forma mais calmaque pode. - Eu não sabia até agora. Mei, vocé é o herdeiro dovovô... da família Kido! Tatsumi me contou como você metratou com carinho, como uma verdadeira irmã, enquanto euera criada como a neta do Vovô. Na verdade, a herdeira daFundação Graad não deveria ter sido eu, e sim... - Não diga uma coisa dessas - interrompe Mei. - E, porfavor, senhorita, nunca conte isso para Seiya e os outros. - Você guarda mágoa do vovô? Das decisões tomadaspor seu pai? - Senhorita, a decisão não foi do mestre Mitsumasa! -Tatsumi não se contém, ansioso para que seja revelada averdade escondida por tanto tempo. - A decisão foi minha - explica Mei. - Quando descobrique os órfãos da instituição eram todos irmãos que tinham osangue do mesmo pai nas veias... eu não suportei o fato de sóeu estar recebendo um tratamento especial, sem que nadame faltasse, como herdeiro da Fundação Graad. Por isso, decidipor livre e espontânea vontade trilhar o mesmo destino dosmeus irmãos. - Por livre e espontânea vontade... - repete Saori emum tom pensativo.- - Mitsumasa Kido é o meu pai. E também o pai de Seiya,de Shun, de Hyoga... de todos os cem órfãos reunidos paraser Cavaleiros. Esse laço de sangue irá nos acompanhar portoda a vida. - O vovô sofreu até o último instante de sua existênciapor ter mandado seus filhos para uma vida infernal desacrifícios, para que se tornassem Cavaleiros. Mas fez tudoisso para proteger o Amor e a Justiça sobre a Terra. - Eu sei disso, senhorita. - Mei ergue o rosto. - Nãoguardo mágoa ou rancor do meu pai. Pelo contrário, sou gratopor ele ter me deixado enfrentar o mesmo treinamento dosmeus irmãos. Caso contrário, eu nem poderia olhá-los nosolhos ao reencontrá-los. Não poderia conversar com eles sobre
  12. 12. nossa infância. Seria eternamente perseguido por um sentimento de culpa. - Por favor, não se culpe. - Pois eu digo o mesmo a você, Saori. - Mei decide que está é a última vez que a chamará por esse nome. - A senhorita não deve reservar nenhum sentimento especial por mim. Hoje, você é Atena. E eu sou um Cavaleiro de Atena. Esse é o destino das estrelas, que eu mesmo escolhi seguir. - Mestre Mei!? - a voz de Tatsumi parece cheia de surpresa. - O senhor pretende continuar escondendo a sua origem... os seus direitos? - Pretendo. Quando eu ainda era uma criança, fiz essa promessa, e estava disposto a morrer por ela. Como poderia quebrá-Ia agora? Ao abandonar o sobrenome Kido, passei a ser apenas Mei. Por isso, Tatsumi, quero que você me trate da mesma forma que me tratava quando eu entrei no orfanato. Nem que seja por fingimento, bata em mim como fazia com meus irmãos. E pare de me chamar de mestre - completa o garoto, com um sorriso amargo. - Atena! - interrompe uma voz vinda do lado de fora dos aposentos. Pedindo permissão à deusa, aparece na porta Nikol, Cavaleiro de Prata do Altar. - Mei! Você acordou! - exclama o homem. Seu rosto lembra o de uma estátua grega, de uma beleza intelectual e garbosa. O garoto pula da cama e, com as pernas vacilantes em uma inesperada fraqueza, ajoelha-se diante do oficiante-mor. Nikol, por sua vez, vira-se para Atena. - Na qualidade de Grande Mestre Substituto, portanto responsável pelos Cavaleiros, agradeço-lhe por ter salvado a vida de Mei - e continua, curvando-se levemente na direção de Tatsumi. - Ao nobre Tatsumi, também gostaria de agradecer por interceder junto ao exército e ao governo italiano na Sicília. - Só então Nikol dirige a palavra ao jovem Cavaleiro. - Diga, Mei, você se lembra do que aconteceu enquanto estava sendo controlado por Tífon? - Sim, mas as lembranças são todas confusas. Não tenho muita certeza da ordem dos eventos.18
  13. 13. - Nikol, seja paciente - defende Atena. - Mei acaboude recobrar a consciência. - Vou tentar, deusa... mas precisamos muito deinformações. A Terra está numa situação crítica. Tífondesapareceu na erupção do Etna e deve estar recuperandosuas forças neste exato momento. À medida que organiza seus pensamentos, Mei vaificando constrangido pelas coisas que fez enquanto estavasob o domínio de Tífon. Havia acertado Nikol com um golpeno teatro da Acrópole. E pior: por pouco não tinha matadoSeiya na Sicília. - Como está o Seiya? - pergunta Mei, enquanto olhapara as próprias mãos em choque. Ainda pode sentir nelas ocalor do sangue do irmão. O garoto não se conforma com suaprópria fraqueza. Como pôde ter ficado totalmente à mercêda Vontade de Tífon? - Seiya está bem, os jovens se recuperam rápido -responde Nikol, quase brincando, com a mão na barriga, ondeMei o havia acertado. E então diz, num tom extremamentesolene: - Atena reconhece Mei como seu novo Cavaleiro. A revelação inesperada pega o garoto completamentede surpresa. - Outorgo-lhe aqui o Traje Sagrado, que prova a suamissão de Cavaleiro... - continua Nikol, começando ali mesmoa cerimônia de nomeação do Cavaleiro. Mei desvia o olhar para a Urna onde está a Armadura,colocada no canto do aposento. É uma caixa preta, tão escuraque parece sugar a luz ao seu redor. Nela há a figura de umamulher de costas, talhada em baixo relevo. - Esta é a armadura de Coma Berenices, Mei, a suaconstelação. Ajoelhando-se diante do Grande Mestre substituto, Meijura lealdade eterna a Atena, tornando-se então oficialmenteo Cavaleiro da Constelação de Coma Berenices, o mais novoGuerreiro Sagrado de Atena. - Em nome de Atena, eu, Nikol de Altar, ordeno-lheCavaleiro. Você deverá proteger Atena e defender a Justiçasobre a Terra. A Armadura Sagrada jamais deverá ser trajada
  14. 14. em prol de interesses ou batalhas pessoais. Se porventura violar a norma e macular o Traje... a constelação, a armadura, ao invés de protegê-Io, irá destruí-Io. - A armadura vai me destruir? - Mei parece estar confuso. - Afinal, o que vem a ser esta armadura negra? De fato, a armadura de Mei não pertence a nenhuma das três hierarquias: Ouro, Prata e Bronze. Nikol decide que este é o momento de contar a Mei a história da antiga batalha contra os gigantes. “A Morada de Typhoeus”. Apenas um poema épico grego preserva nos dias de hoje o nome do mais poderoso dos Gigas. Em tempo: “Typhoeus” é outra forma de escrever “Tífon”, ou “Tufão”. O deus dos Gigas é um redemoinho que não ficará satisfeito enquanto não destruir e consumir toda a Terra. Renascido no mundo físico ao romper o selo de Atena, o deus gigante das tempestades se esconde no ponto mais profundo de um conjunto de cavernas entrelaçadas como um enorme formigueiro. À sua frente está um Giga que veste um Adamas de Cornelina. - Meu Senhor... - diz o Giga. Mas Tífon não lhe dá atenção. Seus pensamentos estão longe. - Atena conseguiu reencarnar nesta era em sua plenitude... - diz para si mesmo. A metade direita do seu corpo é forrada por labaredas, as chamas inabaláveis da grã- terra, enquanto relâmpagos preenchem a metade esquerda como terríveis ventos de tempos fantasmas. Da carne assimétrica nascem, como unhas, as placas do seu negro Adamas de ônix. Não é exatamente uma armadura, e sim uma couraça, como uma parte endurecida do corpo. - Atena conseguiu reencarnar nesta era em sua plenitude - repete. - Porém. o que dizer de mim? Deste meu corpo físico tão frágil? - Quirri! O corpo de Encélado... frágil?! - surpreende- se Pallas, “o parvo”. De fato é resistente e poderoso o corpo físico que foi oferecido a Tífon por seu irmão mais velho, o sumo sacerdote Encélado. - Não é o suficiente para suportar minha verdadeira força - responde Tífon, apalpando o queixo. O osso trincado20
  15. 15. pelos golpes de Mei no Monte Etna já está completamenterecomposto. - Preciso de um receptáculo digno do meu poder. - Com todo o respeito, vossa carne fulgurante foitotalmente rechaçada, em seus cinco membros, por Atena. -Com as palavras de Pallas, um fluxo mais intenso de luz brotadas chamas e relâmpagos no corpo de Tífon, iluminando todoo interior da cavema. O local, com um imenso altar, assemelha-se ao templo subterrâneo do Monte Etna. Estamos na TerraSanta dos Gigas. - Maldita seja Atena e seus Cavaleiros! - Tífon estádiante do altar, sobre o qual está o que parece ser uma estátuade seios fartos, representando talvez uma deusa. Mas umcoração pulsa na figura, denunciando tratar-se na realidadede uma mulher viva, apesar de ter as pálpebras e os lábioscerrados como se fossem feitos de pedra. Mais ainda: aimponente figura está grávida. - É a minha forma feminina -explica Tífon. - Oh! - Pallas, “o parvo”, parece estar hipnotizado pelabeleza da forma feminina de seu mestre, inteiramente nua,seus contomos provocantes ocultados apenas pelos cabelosondulados que chegam até a cintura. Basta um olhar maisatencioso para perceber escamas onde deveriam estar aspernas da criatura: sua metade inferior tem o formato deuma serpente. - O Calabouço do Tempo Estagnado - pela primeira vez,Tífon dirige a palavra diretamente a Pallas. - Na antigaGigantomaquia, pouco antes de ser exilado por Atena e seusCavaleiros no Monte Etna, selei os Gigas sobreviventes. Nãofoi Atena quem prendeu os meus irmãos nas profundezas dosespaços fantasmas. Foi a minha Vontade. - Como? - Pallas está confuso. Ele sempre acreditouque tinha sido aprisionado por Atena, juntamente com Tífon. - Meus queridos irmãos mais velhos, ao contrário demim, vocês não são imortais - continuou Tífon. - Se seu corpofísico fosse destroçado, vocês não ouviriam as preces derenascimento. Por isso, selei tanto sua carne quanto sua almano Calabouço do Tempo Estagnado. - Foi isso que aconteceu, meu Senhor? Vós, tendo em
  16. 16. suas mãos o fantoche que foi Mei, inicialmente desatastes os lacres atados sobre nós, Gigas, nas mais diversas regiões e... - E, mediante o sacrifício de sangue dos Cavaleiros e dos meus queridos irmãos, finalmente voltei à vida no mundo presente. - E esta mulher, senhor? - pergunta Pallas, engolindo em seco. - Esta é Equidna - responde Tífon - A última das mulheres Gigas. Ela abriga em si o meu corpo carnal, o receptáculo da minha Vontade. - Ortos, “o cão bicéfalo do mal”. - Quimera, “a fera pluriforme”.22
  17. 17. I COMA24
  18. 18. 1 P enínsula do Peloponeso, extremo sul dos Bálcãs. - Aqui também não tem nada - Seiya diz para simesmo, ao examinar a parede de pedra. Ele reconhece a luzfraca que ilumina levemente a caverna, onde com certezanão chegam raios de sol. É a mesma que viu nas profundezasdo Monte Etna, onde Tífon estivera aprisionado. - Com certezaeste lugar já foi parte das Terras Santas dos Gigas - conclui oCavaleiro de Bronze de Pégaso. Esta caverna é bem menor que a do Etna. Não temtemplos, apenas as ruínas de um altar de pedra. “Estranho...”,pensa o garoto. “Tenho impressão de que alguém esteve aquiaté agora há pouco.” Seiya parece sentir os resquícios de umCosmo, mas não há nenhum outro sinal dos inimigos. Comexceção dos morcegos, o Cavaleiro é a única criatura viva ali.Ele não tem escolha senão deixar a caverna para trás. Anoitece em Atenas, o lugar sagrado da guerreiraprotetora da Terra. Yuuri, da Constelação do Sextante, vestidacom um quitão e uma túnica escarlate, está no observatórioestelar do Santuário. A seu lado, o Cavaleiro Mei. - Parece um mar de sangue - comenta Mei, que vestecamiseta e calças pretas, modernas, em contraste com avestimenta clássica da garota. - Desde quando o entardecerficou tão vermelho?
  19. 19. 2 A erupção do Etna foi a maior dos últimos séculos - explica Yuuri. - A poeira vulcânica formou uma espessa camada na estratosfera, bloqueando a luz solar, por isso o céu está vermelho. Segundo previsões dos pesquisadores da Fundação Graad, nos próximos três a cinco anos, a incidência de luz solar sobre a superfície terrestre vai diminuir em mais de 10%. - Instabilidade climática, prejuízos à agricultura, falta de alimentos... a coisa é séria - suspira Mei. - Você já está bem? - pergunta Yuuri, com uma expressão preocupada. - Eu ia perguntar exatamente isso pra você... - Estou bem. Yuuri tinha sido gravemente ferida ao ser seqüestrada pelos Gigas, mas parece estar quase inteiramente recuperada. Até mesmo sua máscara, que Mei havia quebrado quando estava sob o domínio de Tífon, está novamente intacta, cobrindo seu rosto. - Não tem problema usar a máscara por cima das bandagens? - Fazer o quê? Esse é o dogma - a tradição diz que toda mulher que se juntar aos Cavaleiros deve abandonar completamente a feminilidade, escondendo sempre o rosto. O piso destruído do observatório, onde antes se via um mapa do zodíaco, é testemunha do ataque de Mei. - Sabe qual é o outro dogma? - pergunta Yuuri, num tom quase maroto, antes de colocar-se em posição de ataque, ensaiando aplicar um golpe na garganta de Mei, com um shuto, ou sabre de mão. - Para uma Amazona, ficar com o rosto exposto é mais humilhante do que ficar nua em público. Se alguém vir o seu rosto, a Amazona terá que matar essa pessoa.26
  20. 20. - Essa regra eu conheço - sorri Mei, ignorando ospoderosos punhos de Yuuri contra seu pescoço. - Então vocêmatou os médicos? Como é que eles operaram sua cabeçasem olhar? - Os médicos são outra história... - Ei, não tinha uma alternativa? - continua Mei. - Amarquem visse seu rosto? - Você está tirando sarro de mim - suspirou Yuuri. - Queimprudente. Acha que eu não seria capaz de matá-Io? - Você não tem motivo. Infelizmente não vi seu rosto.Ou melhor, eu não me lembro. Muitas lembranças de quandoeu estava sob o poder de Tífon são confusas. Sei que quebreisua máscara aqui mesmo... mas não consigo me lembrar dosdetalhes. - Que amnésia mais conveniente - diz Yuuri, recolhendoseu shuto, meio a contragosto. - Se for pra amar um homemirresponsável, prefiro acreditar que não viu mesmo meurosto... Onde já se viu um desleixado como você ser ordenadoCavaleiro... As estrelas devem estar protestando. Que tipode aprendizado você teve com seu mestre? - Ah, vários tipos... - responde Mei, piscando. -Aprendizado de vida. - O destino da sua constelação é bem menos agradávelque isso - a voz de Yuuri soa agora entristecida. Ela ergue osolhos ao céu. A coloração púrpura do pôr-do-sol vai sendogradualmente submersa nas trevas. - Está difícil de enxergar as estrelas, hein? - comentaMei. De fato, a atmosfera parece estar coberta por umadensa névoa. - Tífon cobriu o céu estrelado de cinzas. Com isso nãoconsigo enxergar direito o mundo ou o futuro - lamenta Yuuri.- E a sua constelação, Mei, é mais difícil de enxergar do queas outras - continua, apontando um ponto no céu. No lado oeste do firmamento sobram ainda as últimasconstelações da primavera. Um pouco acima de Virgem, entreas estrelas Denébola e Arcturo, fica a Constelação ComaBerenices. É um conjunto de pálidas estrelas: por mais límpido
  21. 21. que esteja o céu, visualizar nela os longos cabelos de uma mulher é um verdadeiro exercício de imaginação. - Pode não parecer, mas nela estão galáxias inteiras - explica Yuuri. - Por isso a chamam de “janela de galáxias”, não é? - Ora, vejam só... - a garota está surpresa com os conhecimentos de astronomia de Mei. - São galáxias distantes - continua Mei. - Podemos enxergá-Ias porque estão ao norte da Via Láctea, num pedaço do céu onde tem menos estrelas. Yuuri muda de assunto: - Estou preocupada com Seiya e os outros que foram atrás de pistas de Tífon, todos os que são capazes de andar estão nessa busca, neste momento só há Cavaleiros feridos no Santuário. - Tífon não é como os deuses do Olimpo, que querem o domínio da Terra - reflete Mei. - Não sabemos o que ele realmente pretende, e isso é assustador. - Pensei que os Gigas quisessem dominar o planeta... - Pode ser... Mas os Gigas são como escravos presos pelo temor a Tífon. Uma Vontade divina viciada como a dele jamais fica satisfeita, a não ser que destrua tudo e, no final, a si mesmo. - Quando você foi marionete do Tífon, você tocou a “Vontade” dele? - pergunta Yuuri. - Eu sei que você prefere esquecer, mas gostaria de saber mesmo assim. Mei esconde o rosto, como se estivesse se lembrando de um pesadelo. - Vem comigo até a biblioteca - continua Yuuri, pegando sua mão. - Quero ouvir o que você tem a dizer.28
  22. 22. 3 N a margem norte do Mar Negro: uma região da Ucrânia, antigamente conhecida como Cítia. - Também não é aqui - diz Hyoga. Uma parede bloqueiasua passagem. A armadura do Cisne, branco-azulada, e os cabelos loirosdo garoto brilham levemente na escuridão, prova de que estafoi uma das Terras Sagradas dos Gigas. Na caverna vazia vemosapenas os restos de um altar de pedra. - Este cheiro... é o cheiro de Tífon - continua Hyoga,para si mesmo, esfregando o nariz. Seu Cosmo capta umasensação anormal no ar. - É como se fosse um resto chamuscadode uma Vontade maligna... Talvez o próprio Tífon tenhapassado por aqui. Mas para quê? Os rastros deixados eram insuficientes para qualquerconjectura.
  23. 23. 4 E u tinha um medo terrivel de desgostar Tífon e ficar exposto ao seu temor - conta Mei. - Como os Gigas? - pergunta Yuuri. - É... eu entendo porque os Gigas cultuam Tífon. É um domínio psicológico absoluto... suficiente para que ofereçam a própria vida em sacrifício. - Você sabe o que é o Calabouço do Tempo Estagnado? - Yuuri anota com cuidado todas as informações fornecidas por Mei. - É uma espécie de selo temporal. Tífon selou os Gigas sobreviventes da antiga Gigantomaquia em diversas partes do mundo. Ao contrário dele, que é um deus, e portanto imortal, os outros Gigas não são diferentes dos humanos, têm uma vida terrena limitada. Parar o tempo foi o único jeito de fazê-Ios retornar com seu corpo físico depois de tantas eras. - Um dom secreto dos deuses - suspira Yuuri. - Depois de possuir meu corpo... - continua Mei, - Tífon rompeu os lacres temporais e trouxe os Gigas de volta à vida. - Quantos Gigas renasceram? - Só me lembro de quatro: Ágrios, Toas, Pallas. e Encélado. - Mas tem uma coisa estranha aí... - comenta Yuuri, pensativa. - Segundo os registros do Santuário, Tífon e todos os Gigas foram selados por Atena. - Faz sentido que a deusa tenha selado Tífon, que é imortal. Mas não haveria razão para deixar os Gigas vivos dentro dos lacres. Esses livros históricos do Santuário são confiáveis? - questiona Mei.30
  24. 24. - Dizem que “verdade” e “realidade” são conceitosdiferentes. É a mesma coisa com história e realidade. A Revoltade Saga, por exemplo: é um desafio decidir como ela vaiconstar na história oficial. - De certa forma, seria correto dizer que o Cavaleirode Ouro de Gêmeos foi possuído por sentimentos malignos eassassinou o Grande Mestre - sugere Mei. - Mas transmitir issopara os Cavaleiros do futuro... - Não é muito apropriado - completa Yuuri. - O oficiante-mor diz que o Saga sofria de esquizofrenia, tinha duaspersonalidades, uma de justiça e outra do mal. - O Saga em si não era o mal absoluto - concorda Yuuri.- Mas tentou trair Atena e provocou uma crise interna quecausou a morte de um número enorme de Cavaleiros. - De qualquer forma, Atena, a guerreira defensora daTerra, deve sempre aparecer na história fundamentada porjustiça inabalável e emoldurada por vitórias inquestionáveis- diz Mei, com ironia. - Credo, você fala coisas perigosas com a maior carade inocente! - comenta Yuuri. - Se o Mestre Nikol soubesse,acho que tiraria o título de Cavaleiro de você... - Então fica entre nós, tá? - brinca Mei. - Não querobater o recorde de ser o Cavaleiro que ficou o menor tempocom o título. - Vou lhe fazer o favor de não escrever o que vocêdisse. - O tom de voz de Yuuri continua sério. - O que a históriaoficial de Atena precisa são as guerras santas e a verdadehistórica das vitórias. Isso dará coragem para os Cavaleirosdas próximas gerações enfrentarem o combate. Não hánecessidade de conservar registros de Cavaleiros que sofreramamargurados entre a justiça e o mal, ou que sentiramcompaixão pelos inimigos. - Atena é Justiça - concorda Mei. Exatamente. Quem duvidar disso nunca vai conseguirser um Cavaleiro de verdade, defender aquilo que precisa. - Seu rosto - Mei muda de assunto. - Falar com urnamulher sem expressão facial é mais assustador do queenfrentar Tífon.
  25. 25. - Não pode ser pior do que olhar para esse seu sorriso sonso - responde a garota, dando de ombros. - Por que seu nome é Yuuri? - insiste Mei. - É um nome de homem, não é? - Não é meu nome verdadeiro. Os Cavaleiros devem romper todos os laços com a sociedade mundana, podendo inclusive abandonar seu nome de família. Não sei se é o caso do Seiya, do Shun, do Hyoga... mas acho que poucos Cavaleiros usam o nome que seus pais lhes deram. - Nós somos irmãos, filhos de um mesmo pai, mas fomos criados corno órfãos - a voz de Mei torna-se séria. - Desde o começo, não tínhamos nada a perder. Mei é só Mei. Seiya é Seiya, Shun é Shun, Hyoga é Hyoga... - Acho que vocês são filhos das estrelas - filosofa Yuuri. - Eu uso nome de homem por questão de espírito. - Aquele papo de que uma mulher que vira Amazona tem que abandonar sua feminilidade? - Mei volta ao seu tom sarcástico. - Você é tão antiquada! - E você é malcriado. - Deixa eu adivinhar: seu nome verdadeiro é Yulia. - Além de malcriado, você é simplório. Minha vez de fazer perguntas. O que é essa cor de cabelo? Está na cara que é artificial: a raiz é preta! - Esse cabelo, se quer saber... - diz Mei, sorrindo, - é uma prova de respeito ao meu mestre. Mas Yuuri já perdeu a paciência com o papo furado de Mei. Arrumando rapidamente as coisas sobre a mesa, a garota levanta-se e desaparece pelos fundos da biblioteca. - Yuuri - diz Mei, soltando um suspiro. E sussurra, para si mesmo: - Em japonês, esse é um nome muito feminino...32
  26. 26. 5 P oucos textos falam da Gigantomaquia nos registros históricos do Santuário. Nos livros oficiais, não háuma linha sequer - explica Nikol para Atena, enquanto ela seacomoda no trono da Sala do Grande Mestre. - Isso acontece porque a Gigantomaquia não foi umaguerra santa. - Sim, deusa. O fato é que não temos informaçõesconcretas que possam indicar o paradeiro de Tífon. - Por essarazão, Nikol coletou pistas de locais relacionados a Tífon eseu clã em poemas épicos e fábulas, enviando os Cavaleirospara esses lugares em busca do deus dos Gigas. - Muitas vezesas lendas trazem a realidade escondida dentro de si. - Nesta batalha, o tempo não será nosso aliado - dizAtena. - Tem razão, deusa. A cada minuto que passa, Tífonrecupera mais do seu real poder, tornando-se um inimigo cadavez mais poderoso. A prioridade é localizá-Io o quanto antes. - Mas não estamos deixando o Santuário desprotegido?- interrompe Tatsumi. - Por isso chamamos mais um Cavaleiro: Kiki já retornoudos Cinco Picos Antigos. - Nikol! - Atena está surpresa. - Ele deve cumprir suas obrigações de Cavaleiro -responde Nikol, firmemente. As Doze Casas do Zodíaco são os recintos dourados dasconstelações, a espinha dorsal do Santuário. Os signos de Áries,Touro, Gêmeos e assim sucessivamente dão nome às casas nocaminho que leva ao Templo de Atena, bem como aosCavaleiros que as guardam.
  27. 27. - Então foi aqui que ocorreu a Batalha das Doze Casas... - Mei deixou há pouco a Biblioteca no sopé do Santuário, e agora sobe a escadaria das Doze Casas. O espaço das Casas está totalmente preenchido pela proteção das estrelas. Nenhum paranormal, por mais poderoso que seja, consegue se teletransportar na escadaria ou no interior das Casas. A única forma possível de percorrer o caminho é pelos degraus que Mei sobe neste instante. Os Cavaleiros de Bronze, como Seiya, Shun e Hyoga, irmãos de Mei, lutaram aqui contra o mal oculto no interior do Santuário, protegendo Saori Kido, a deusa Atena. Os detalhes estão registrados na história oficial, mas é importante ter em mente que as Batalhas das Doze Casas foram os combates entre os Cavaleiros de Bronze e os de Ouro durante a chamada Revolta de Saga. “Trágico... Cavaleiros lutando entre si”, pensa Mei, entristecido ao se lembrar de que muitos Cavaleiros perderam a vida nesses confrontos. Ele não participou da luta porque na época já estava sob o domínio de Tífon, no Monte Etna. A noite está serena. Mei percorre a Casa de Gêmeos, que deveria ter sido protegida por Saga, chegando então à quarta casa, a de Câncer. - Outra Casa sem o seu guardião - diz Mei para si mesmo. O lugar, que deveria estar brilhante e alvo como a Via Láctea, encontra-se pesado e turvo como ruínas abandonadas. Mei está sem palavras. De repente, passos. O garoto vira-se para trás. - É você, Shiryu? - pergunta, reconhecendo imediatamente o Cavaleiro, apesar de os dois não se encontrarem há anos. - Quem é...? Este Cosmo... - Sou eu, Mei. - Mei! - Shiryu está realmente surpreso. - Você foi treinar nos Cinco Picos Antigos da China! - continuou Mei. - Então essa é a famosa Armadura do Dragão, polida pelas águas da cachoeira de Rozan. A constelação de Shiryu é a do Dragão. Seu traje sagrado é formado por placas de oricalco, aglutinadas como escamas.34
  28. 28. A peça do braço direito traz um pequeno escudo circular,símbolo da própria armadura. Shiryu é um rapaz bonito, derosto corado, com aparência de certa forma oposta àtruculência do Dragão - seu corpo é fino e ele tem longoscabelos pretos na altura da cintura, lembrando um galantewakamusha, como eram chamados os jovens samurais. - Fui convocado pelo Grande Mestre Substituto paraproteger o Santuário - explica Shiryu. - Os seus olhos... - diz Mei, cuidadosamente. - Eu nãosabia... Quando isso aconteceu? Os olhos de Shiryu estão fechados, o Cavaleiro agora écego. - Foi durante a batalha - responde Shiryu. - Quandocumpríamos nossa missão de Cavaleiro. É bom explicar que a perda da visão não é algodebilitante para Shiryu. Os Cavaleiros de Atena dominam oSétimo Sentido, a habilidade de “sentir” o Cosmo e a presençade outras pessoas. Embora seja praticamente impossívelexplicá-Io em palavras, o Sétimo Sentido supera os cincosentidos tradicionais, e até mesmo o sexto. Shiryu nem sequerprecisou de ajuda para subir as escadas. - O que você estava fazendo aqui, Mei? - pergunta. -Sem a visão, posso sentir, embora de forma limitada, ossentimentos das pessoas. Parece que você estava sentindouma tristeza profunda. - Eu estava pensando no meu mestre - responde Mei,respirando fundo e erguendo os olhos para o céu. - Fui treinadona Sicília. Meu mestre era o Cavaleiro Dourado que guardavaesta Casa. - O Cavaleiro de Câncer - completa Shiryu, subitamenteassumindo uma expressão severa. - Pois é, eu estava conversando com ele. O meu mestrevirou estrelas, sabe? - Mei ri e ironiza, mas a expressão deShiryu permanece séria.
  29. 29. 6 A natólia: península da Ásia Menor, cercada pelos mares Egeu, Negro e Mediterrâneo. Palco de antigas lendas gregas. Hoje a maior parte de seu território pertence à Turquia. - Que lugar misterioso... - comenta Shun consigo. O garoto de cabelos cor de linho veste a Armadura de Andrômeda e suas correntes. É noite. Uma espécie de floresta de pedras cobre o imenso vale. São centenas, milhares de rochas dos mais diferentes tamanhos, chegando a dezenas de metros de altura, muitas no formato de gigantescos cogumelos. A paisagem foi esculpida por milhares de anos de atividade vulcânica: um lugar tão fantástico que não parece real. Shun pula de uma pedra para outra com leveza acompanhado pela sombra do luar pálido. O Cavaleiro de Bronze de Andrômeda cumpre ordens do Grande Mestre Substituto Nikol: está em busca da morada de Tífon. O Monte Arima, que fica nesta região, foi citado em um poema épico e, como sabemos, as lendas às vezes trazem a verdade escondida. É uma corrida contra o tempo. A cada minuto Tífon se torna mais poderoso e temível. Por isso Nikol está tão compenetrado nessa busca, enviando em missões de investigação Shun, Hyoga e até mesmo Seiya, que ainda não está completamente recuperado. Neste momento, o esforço inclui os vários Cavaleiros espalhados ao redor do mundo, bem como os agentes secretos do Santuário.36
  30. 30. “Se Tífon tem o poder de controlar vulcões...”, pensaShun, observando a tênue fumaça branca que sai do MonteArima, “... o que acontecerá com a Terra se ele recuperarsua verdadeira força?” Sem dúvida seria o fim da humanidade e de qualquerforma de vida no planeta. Desde a erupção incomum do Etna,havia sinais de atividade vulcânica ali e em diversas partesdo mundo. Cientistas alertavam para o risco de uma novaIdade do Gelo, ou da extinção em massa das espécies, comotinha acontecido com os dinossauros. Alguns fatalistas maisapressados já professavam o fim do mundo. - Não! Não enquanto Atena e os Cavaleiros estiveremaqui! Jamais permitiremos! - Shun reafirma seu compromisso,cerrando o punho. Neste momento as correntes de Andrômeda, dotadasde um incrivel senso de defesa, assumem espontaneamente aformação da nebulosa Zowah, alertas à presença de um Cosmodesconhecido. - Quem está aí...? - pergunta Shun na direção da florestade pedras. O garoto percebe nitidamente um instinto agressivoe totalmente exposto, como o de um tigre ou de um lobo,sem a menor preocupação em se esconder. - Ah, aí está você!- Shun lança a corrente do braço direito, que forma um arcoparecido com um bumerangue e captura alguém que seescondia atrás da coluna de pedra. - Um dos Gigas? Na batalha da Sicília, Ágrios, “a força brutal”; Toas, “orelâmpago célere”, e o sumo sacerdote Encélado, “o bradode combate”, ofereceram-se em sacrifício para Tífon. E oCosmo sentido por Shun não é o de Pallas, em teoria o únicodiscípulo de Tífon que ainda está à solta. Será que existemoutros Gigas sobreviventes? Ou será que Tífon ressuscitououtros Gigas após a erupção do Etna? Shun sente sua pele se eriçar, como se uma lâminaafiada estivesse alisando a superfície de seu corpo.
  31. 31. - São dois...! Espera aí, são três?! As figuras cercam o garoto como caçadores em volta da presa. A vida de Shun está em perigo. O ataque combinado de três Gigas sugere que Tífon está ali: entre todos os Cavaleiros que buscam o deus maligno, Shun tirou o bilhete premiado. As sombras aproximam-se ainda mais. Podem ser monstros lendários ou demônios mitológicos. Com certeza são inimigos, as silhuetas emanam reflexos escuros de armaduras de Adamas. A corrente circular no braço esquerdo de Shun faz um zumbido, reagindo à pressão dos Cosmos agressivos. O Cavaleiro chama de volta a corrente triangular e a ergue para o céu, fazendo cintilar grãos de poeira estelar. - Atena! - grita Shun, enquanto sua visão é completamente coberta pelas três figuras de Adamas que avançam sobre ele.38
  32. 32. 7 NSubstituto. ikol, por que você chamou Shiryu? - a voz límpida e aveludada de Atena dirige-se ao Grande Mestre - Deusa, qual é o problema de convocar os Cavaleirospara o Santuário nesta situação de emergência? - Você sabe do que estou falando. - Diz isso por que Shiryu está cego? - Shiryu havia retomado para os Cinco Picos Antigos efinalmente estava começando uma vida tranqüila ao lado deShunrei, a filha adotiva do grande Mestre Ancião. Ele havia seretirado dos combates, estava arando e cultivando a terra,na maior serenidade... - Atena, está sugerindo que Shiryu não é mais umguerreiro? - pergunta Nikol, respeitosamente. - Shiryu sofreu demais nas batalhas! Por culpa minha,por causa da minha fraqueza! Eu tirei a visão de Shiryu. Oque mais vou tirar dele? - Atena desabafa seus sentimentosmais profundos. - Mas ele não devolveu a armadura - diz Nikol, apósalguns minutos de silêncio. - Não conheço nenhum homemmais sincero, esforçado e leal. Espero sinceramente que, nofuturo, alguém com a moral, a sabedoria e a bravura de Shiryuassuma o papel central dos Cavaleiros no comando do Santuário- continua o Mestre. - Eu respeito e admiro a escolha dequalquer homem que decidir viver humildemente para sededicar a uma mulher. Mas o destino da constelação de Shiryunão aceitará isso. E mais, ele próprio não permitirá que issoaconteça. Shiryu será o Cavaleiro do Dragão até que o destinoda constelação seja cumprido. - Se isso é verdade, a pobrezinha da Shunrei sofrerámuito. - A voz de Atena está entristecida. Não podemos nos
  33. 33. esquecer de que ela carrega em si a alma de Saori Kido, e portanto sofre com questões humanas. - Peço que aceite esse destino, deusa. A senhora pode ter sido responsável por Shiryu ter perdido a visão, mas, mesmo que venha a tirar seus braços, pernas, a moça que ele ama ou a própria vida... mesmo que o prive de tudo, Shiryu continuará inabalável em sua convicção de morrer lutando por Atena. É preciso que respeite os sentimentos dele. - Mas Mei e Shiryu... Aqueles dois não se entendem... - Os estreitos laços do carma que une os dois também são parte do destino. Enquanto ambos forem Guerreiros Sagrados, não haverá como fugir dele. É algo que eles precisam superar, e eu tenho certeza de que ambos conseguirão. São verdadeiros Cavaleiros. Neste momento, um objeto não identificado rompe o espaço, fazendo um barulho alto e repentino. - Ai! - surpreendido pelo impacto, Tatsumi, que estava no canto da Sala do Grande Mestre, cai no chão. Nikol avança em direção ao trono de Atena a uma velocidade superior à do som, protegendo a deusa com seu corpo e sua armadura. - É a Corrente de Andrômeda... - Atena se levanta e corre para o centro da sala. De fato, em cima do tapete central está a corrente, na verdade, apenas um pedaço dela. O artefato rompeu o espaço para surgir no Santuário. - Será que aconteceu alguma coisa com o Shun...? - Ele foi enviado para Anatólia... para o vulcão Arima. - Será que Tífon está lá? A única certeza é a de que Shun está em perigo. Uma situação tão grave que ele não teve outra forma de avisar senão se valendo da capacidade da corrente de atravessar dimensões. Atena segura a corrente enviada por Shun, sobressaltando-se imediatamente. - Este... este Cosmo? Nikol também é capaz sentir a energia maligna que preocupa Atena. Nesse exato momento, uma estrela com cauda prateada despenca do céu encoberto pelas cinzas. Shiryu de Dragão40
  34. 34. sente que um Cosmo terrivelmente violento invade oSantuário. - Mei? - diz o Cavaleiro cego, virando-se para trás. Maso garoto não está ali. Sem esperar ou avisar Shiryu, Mei retornapelo caminho das Doze Casas Zodiacais, rumo à biblioteca,onde se depara com uma imagem assustadora. Uma ventania de papel. As páginas do livro, agora emfrangalhos, espalham-se pelo ar e pelo chão, em milhares depedaços. Yuuri está caída, imóvel, no chão, com a vesteescarlate de Oficiante Auxiliar do Santuário. Quem poderiaimaginar que ela registraria sua morte com o próprio sangueno Livro da História que tem em mãos? - Yuuri! - Quirri! - Uma risada por trás das estantes da biblioteca.A morte, vestida soturnamente com Adamas de comelinaescura, havia violado as redomas protetoras do Santuário. - Pallas! - Humph... É a marionete do meu senhor? - responde omonstro. - O recipiente descartado ainda vive? - O Giga“parvo” provoca Mei, pisando no corpo morto de Yuuri. - Ora, seu...! - Quer morrer também? - pergunta PalIas, erguendo asgarras tingidas de sangue e fios do cabelo prateado de Yuuri. As batalhas dos Cavaleiros são travadas a um passo damorte. Por atingirem a essência da destruição, podendo atémesmo romper átomos, às vezes a disputa se decide numinstante, e de forma cruel. Este pode ser o futuro de qualquerCavaleiro: seriamente ferido, sem armadura, atacado desurpresa por um inimigo cujo poder se equipara ao dosGuerreiros de Atena - neste caso, um Giga poderoso. A Amazonamorta não teve a menor chance: a proteção da estrela deYuuri se esgotou. Para Mei é a morte de uma companheira insubstituível,com quem lutou lado a lado por Atena. - Esse Cosmo maligno... é um dos Gigas? - perguntaShiryu, entrando na biblioteca. - Quirri! Mais um moleque de bronze! - desdenha PalIas.
  35. 35. - Não chegue perto, Shiryu - avisa Mei. - Se você está preocupado com a minha cegueira, pode esquecer. O Cavaleiro de Dragão não é inferior a nenhum outro! - Não é isso - retruca Mei. - Este inimigo é MEU! Fui eu que rompi o seu lacre. - Ah, como deve ser frustrante... - continua Pallas. - Quirrirri! Vocês finalmente conseguem salvar a menina, e ela é assassinada assim tão facilmente. Cortei sua garganta com estas garras, arranquei seus cabelos e sua máscara! Que felicidade! - Quieto, animal! Não vou tolerar mais esse tipo de coisa nas Terras Sagradas do Santuário! - Shiryu é incapaz de conter sua ira. - Quirrirri! Vão anotar os feitos do grande Pallas nesses livros? - Pallas joga para o alto a máscara de Yuuri, que escondia atrás de si. A máscara cai no chão e se quebra ao meio. - Seu nome não vai existir em lugar nenhum - protesta Mei. - Tem razão. Todos os Cavaleiros insignificantes serão assassinados... não vai sobrar ninguém pra contar história. - Não confunda as coisas - a voz de Mei carrega o peso do destino que lhe foi imposto. - Esta é a Gigantomaquia... não faz sentido registrar esta batalha na História. Nesse momento, surge do nada uma caixa com um traje sagrado, a armadura da constelação de Coma Berenices, que atende ao chamado do Cosmo de Mei. Até mesmo Shiryu, privado do sentido da visão, pode sentir o negrume da urna com a imagem em relevo de uma mulher de costas. A tampa se abre e a urna se revela. Nela não há luz, mas sombras que parecem sugar qualquer luminosidade. Surge uma bela estátua de uma mulher de costas, com longos cabelos, prova de que o portador da caixa é um Guerreiro Sagrado, capaz de dominar as forças mais poderosas do planeta. É a primeira vez que Mei traja por livre e espontânea vontade a armadura de sua constelação protetora. Cabeça, dorso, braços, quadril, joelhos: a figura feminina da estátua42
  36. 36. se divide em várias partes, moldando-se e fIxando-se ao corpodo garoto. O traje protege o Cavaleiro eleito pela Constelação. Esta é uma armadura de tempos perdidos, quepermaneceu selada por muito tempo. A primeira coisa quechama a atenção nela são os grandes escudos negros dasombreiras, que lembram as asas de um corvo. Graças acomplexas conexões que permitem qualquer movimento, osescudos fundem-se aos dois protetores dos braços semprejudicar a mobilidade do Cavaleiro. O elmo lembra ao mesmo tempo protetores usados porlutadores de boxe e um ornamento feminino. As placas dopeitoral, quadris e abdômen são leves e finas, e nas pernas aúnica proteção são as joelheiras. É uma armadura de curvassuaves, que preservam a imagem feminina que a originou,apesar de ser intensamente negra. - Mei, sua armadura parece uma nebulosa escura,trazendo dentro de si a matéria que originará estrelas -comenta Shiryu. Ele sente a explosão do Cosmo no interior deMei e a força do traje negro que acumula em si toda a luz: aorigem da vida. Uma lâmina corta o ar, soltando faíscas, invisívelenquanto rompe a velocidade do som. - Quirri...? - o Giga “parvo” está boquiaberto. Senteque algo passou por seu corpo, mas não consegue identificaro quê. - Vocês não dizem que a luta entre os Gigas e os humanosnão precisa de motivos? - provoca Mei. - Então nãoprecisaremos de palavras. Para a surpresa de Pallas, Mei permanece em pé,imóvel, com os dois braços relaxados, sem assumir nenhumaposição de ataque ou defesa. O Giga decide atacar o garotoem sua aparente vulnerabilidade, tomando impulso no chãoda biblioteca. As folhas do livro histórico destruído voam pelosares, e a distância entre os dois combatentes diminuisubitamente. Os braços estranhamente longos de Pallasdobram-se como galhos de um salgueiro, e suas garraspoderosas avançam na direção da garganta do oponente. Maso golpe mortífero corta apenas o ar.
  37. 37. - Quirri? - mais uma vez, Pallas está confuso. O monstro concentra sua força no punho e ergue as garras, mas algo cai inesperadamente, como se fosse uma bola mal arremessada. Era uma mão, com garras: a mão do Giga, que se recusa a acreditar em seus próprios olhos. - Meu braço... Meu braçoooooooooooooooo!! Uma quantidade absurda de sangue jorra do pulso cortado. Pallas sente vertigens, intensamente perturbado pela visão. - Você não percebeu, mas seu braço foi cortado faz tempo... - diz Mei. - Q-quando? C-como? - pergunta o Giga, saltando para trás. - Quirri? - Pallas sobressalta-se, endireitando a coluna. Passa a mão esquerda pela nuca, literalmente, percebendo agora que há sangue ali também. O monstro vasculha o espaço atrás de si com as garras da mão que lhe resta, ouvindo um som agudo, parecido com o de uma corda de um instrumento musical. Só então percebe que está preso em uma jaula de fios finíssimos, mais finos que cordas de piano, esticados em todas as direções ao seu redor. - São fios de oricalco - explica Mei. - Quirri...? Como é que é? Todos esses fios fazem parte da sua armadura? Surpreendentemente, a liga do antigo oricalco com gamanion e poeira estelar assume ali a espessura de um fio de cabelo, mas mantendo sua resistência. - Cada um desses fios é uma lâmina afiada - continua Mei. - Não se mexa ou seu pescoço vai voar pelos ares sem que você perceba, assim como o seu braço. Com uma leve torção de pulso, Mei controla os fios cortantes, que lançam para longe a máscara de Adamas do Giga. Preso na jaula de oricalco, Pallas não pode sequer se defender. - Diga o nome da minha estrela - ordena Mei, no mesmo instante em que os fios cortantes estalam. Várias luminárias da biblioteca vão se apagando, deixando aquela parte do recinto na mais completa escuridão.44
  38. 38. - Vai aproveitar a escuridão e fugir? - pergunta o Giga. - Fugir? - Mei solta um riso zombeteiro. - Esses fios sãoos meus olhos e os meus ouvidos. Eles são percorridos pelomeu Cosmo. Apenas Pallas está perdido nas trevas. Assim como Mei,Shiryu não sente nenhuma dificuldade por causa da falta deluz. - Gyah! - mais um grito de Pallas na escuridão, seguidopelo baque surdo de algo caindo no chão. - Aa-aiiii!!Droooogaa! Minha outra mão! - Diga o nome da minha constelação! - insiste Mei. - Você é... o Cavaleiro... de Coma... - o Giga geme dedor. - Mei, de Coma - declara-se o Cavaleiro de Atena. A vibração dos fios de oricalco entoa uma canção: umaVontade homicida, soturna e negra, envolvida por profundatristeza. - Este é o arranjo da morte, Giga. Lost Children - Crianças Perdidas. - Quuiiiiiiiiiiil! - Pallas grita, desesperado, como sequisesse rasgar a garganta com sua voz. - Que seja feito em pedaços. - Mei puxa todos os fiosde uma vez. Pallas se cala na escuridão, com a voz bloqueada pelosangue que enche sua garganta. Mei se prepara para o golpefatal, mas Shiryu segura sua mão. - Por quê? - pergunta Mei. - Se eu não o impedisse... você o teria matado. - dizShiryu. - Mei, o que eu sinto vindo de você é um instintoassassino que não se satisfaria nem se cortasse o inimigo emvários pedaços. - Yuuri... foi morta assim. Foi assim que esse cara amatou - justifica-se Mei. - Não importa. Esse é um ato inaceitável para umCavaleiro. A vingança não é a Vontade de Atena. Além disso,precisamos fazer algumas perguntas a esse Giga. PalIas está agora sem os dois braços, separados porinteiro do resto do corpo. O Giga “parvo” se agitava comouma galinha à espera do abate.
  39. 39. - Então, Giga, onde está o seu deus, Tífon? - pergunta Shiryu. - Quirri. Quirrirril - Do que você está rindo? - Quando o nosso senhor exercer o seu verdadeiro poder, nem mesmo Atena será páreo para ele, quanto menos os Cavaleiros. - Pallas fala com dificuldade, soltando bolhas de sangue pela boca. - Afinal, diante do verdadeiro poder dele, até mesmo Zeus, o maior dos deuses do Olimpo, fugiu!! - Qual é o objetivo de Tífon? Sua verdadeira força? Se ele quer dominar a Terra, por que provoca erupções que podem destruí-Ia? - Os pensamentos dele estão muito acima dos humanos... acima até mesmo de nós, Gigas. - Por que os Gigas cultuam e seguem um deus desses? - continua Shiryu. - Um deus que domina pelo terror! Uma fé que não oferece paz de espírito! - O terror é a fonte da nossa força - responde Pallas. - Os Cavaleiros, em sua insignificância, serão todos mortos. Nosso senhor tem filhos. Os Gigas Filhos de Deus estão entre nós. Velhos Gigas, como eu, já não são mais necessários... Louvor a vós, Tífon... - são as últimas palavras do monstro. Seu corpo sublima-se nesse momento junto com a armadura de Adamas, desaparecendo completamente de uma hora para outra. - O que foi isso? - Shiryu engole em seco. - Esse é o “temor” de Tífon - explica Mei. - Aquele que pronunciar o nome do deus que cultua terá sua língua arrancada e perderá a fala. Quem tiver seu nome chamado por seu deus verterá sangue pelos ouvidos e enlouquecerá. Essa é a crença dos Gigas. - Vocês dois! Estão bem? - As luzes se acendem com a entrada de Nikol na biblioteca. - Yuuri! - O oficiante-mor fica horrorizado diante da tragédia. - E o Giga Pallas, “o parvo”... - sussurra. - Pallas se suicidou pronunciando o nome de Tífon - diz Mei. - Era o último dos Gigas cujos selos eu rompi. O garoto ainda está surpreso com suas habilidades de Cavaleiro. Sente que o traje está ensinando-o a manipulá-Io.46
  40. 40. Ele movimentava o corpo guiado pela Armadura. Em suas mãos,os fios cortantes são como parte de seu corpo. - Tenho notícias de Tífon - a voz de Nikol interrompe ospensamentos de Mei. - O senhor descobriu alguma coisa? - O garoto ergue orosto na direção do oficiante-mor, que responde com umavoz pesarosa. - Shun...
  41. 41. II SANGUE48
  42. 42. 1 E xiste no Santuário um humilde cemitério. Ali repousam os Guerreiros de Atena, alguns famosos,outros menos conhecidos - muitos túmulos nem devem tercorpos sepultados. As lápides são simples pedras com o nome,a classe e, em alguns casos, a constelação dos Cavaleiros -algumas completamente cobertas de musgo. - Mais uma companheira que perdemos... - balbuciaSeiya, que recebeu a notícia da morte de Yuuri ao retornarde sua missão. - Conseguimos salvá-Ia uma vez... - diz Hyoga, com oolhar perdido na direção do túmulo recém-construído. Desde os tempos imemoriais das antigas lendasmitológicas, Cavaleiros tão numerosos quanto as estrelas nocéu lutam pelo Amor e pela Justiça na Terra, cumprido o seudestino. YUURI, Bronze, Sextante. Nada na inscrição indica queesse é o túmulo de uma mulher. - A cada combate, eu só pedia uma coisa... - a voz deNikol está carregada de tristeza - que eu não precisassepronunciar uma prece de despedida. O oficiante-mor concluio ritual. - É só isso? - Mei aperta os lábios diante da lápide deYuuri. Sente que a homenagem foi curta demais para a saudadeque sente. - O que você queria? Um enterro colossal como o dosimperadores da Antigüidade? - o tom de Nikol carrega algumsarcasmo. - Deveríamos por acaso fazer uma festa paracelebrar a sua passagem e chorar durante sete dias e setenoites? - continua. - Não precisamos de ostentações. Nemmesmo precisamos de túmulos. A paz na Terra é a maior prova
  43. 43. de que cada um dos Cavaleiros esteve aqui. Mesmo que um dia as pessoas se esqueçam de nós, as estrelas jamais nos esquecerão. As palavras de Nikol reverberam no espírito de Mei e no destino traçado por sua armadura negra. Ele é um guerreiro da Gigantomaquia.50
  44. 44. 2 N a Sala do Grande Mestre, Nikol mostra a Seiya o pedaço da corrente triangular da armadura deAndrômeda. A primeira reação do garoto é se oferecerprontamente para resgatá-Io. - Shun foi a Anatólia. Estou certo, oficiante-mor? - Hyogade Cisne também está preocupado com seu companheiro eirmão. - Foi ao Monte Arima - responde o oficiante-mor. - A corrente triangular é a corrente de ataque - comentaShiryu, sentindo o artefato com as mãos. - Shun sacrificou aprópria arma, renunciando à luta para nos alertar do perigo. - Que inimigo intimidaria um Cavaleiro como Shun? -alguém pergunta. - Só podem ser os Gigas!! - grita Seiya, impaciente. -Yuuri foi assassinada por um Giga que invadiu o Santuário. - Acalme-se, Seiya - Atena, que até agora estava sentadaem seu trono, fala pela primeira vez, fazendo com que todosos presentes fiquem em silêncio para ouvir a Vontade Divinaà qual dedicam a vida. - A vida ou a morte de Shun dependedo destino de sua estrela. Mas vamos fazer o melhor quepudermos por ele. Para surpresa de Seiya, Hyoga e Shiryu, nesse momentoum novo grupo de Cavaleiros entra na Sala do Grande Mestre. - Chegaram. - confirma Nikol, virando-se em direção àporta. Os recém-chegados se apresentam: - Nachi de Lobo. - Ban de Leão Menor. - Ichi de Hidra. - Geki de Urso, ao seu dispor.
  45. 45. -Jabu de Unicórnio. Atendendo à ordem Divina, comparecemos ao Santuário. Com isso esses Cavaleiros de Bronze ajoelham-se diante de Atena. - Obrigada por terem vindo de tão longe - responde a deusa. - Viemos para reforçar as defesas do Santuário... - Jabu traja a armadura de Unicórnio, com um chifre solitário no elmo. É parecido com Seiya, e os dois têm quase a mesma idade. A principal diferença é sua pele, mais morena, provavelmente por ter vindo da Argélia, onde cumpria sua missão de Cavaleiro. - Jabu, Nachi, Ban, Geki e Ichi - diz o oficiante-mor no tom mais “oficial” possível. - Sua missão já foi comunicada: devem formar um círculo protetor ao redor do Santuário e defender Atena. - Sim, senhor - responde Jabu. - Também gostaria de rever o Mei, agora que sabemos que ele está vivo. - Mei? - chama Seiya, olhando ao redor. - Alguém viu o Mei? - pergunta Nikol, com ar preocupado. - Ele estava com a gente no enterro... - Chegueeeeeeeei!! Seiya é interrompido pela voz aguda de um garotinho, mais jovem que os outros, que entra na Sala do Grande Mestre. É Kiki. - Missão cumprida, senhor Nikol! - diz o menino, fazendo uma reverência sapeca. - Missão...? - A expressão do oficiante-mor é de pura surpresa. - Como assim? O senhor não me mandou teletransportar o Mei para o vulcão Arima? - Eu não dei essa ordem - responde Nikol. - Não? Sério? Foi o que me disse o Mei, por isso eu... - Kiki está confuso. - Quer dizer que o Mei foi salvar o Shun sozinho? - grita Shiryu. - Creio que ele está se sentindo culpado pelo que52
  46. 46. aconteceu a Yuuri e Shun, além do retorno de Tífon... - Nikolse recrimina duramente por não ter sido capaz de perceberque Mei se responsabilizava pelos acontecimentos. - Kiki! Leva a gente pro vulcão Arima! - T -tá legal! - Espere, Seiya - interrompe Nikol. Altiva, Atena se aproxima de seus Cavaleirosplacidamente, segurando o cetro que representa Nike, a deusada vitória. Seu longo vestido está esvoaçando suavemente. - Nikol tem a obrigação de estudar e analisar os fatosum pouco mais do que você - diz a deusa. - Se Tífon estiver nomonte Arima, isso significa que provavelmente já existe aliuma redoma protetora. - O Flegra de chamas terrenas! - Seiya se lembra docampo de força de Tífon, que suga o Cosmo, e que tanto osprejudicara no Etna. - Nikol - Atena desvia os olhos acinzentados para oGrande Mestre em exercício. Compreendendo a Vontade de Atena, o Cavaleiro deAltar parte em busca de uma pequena caixa, a qual oferece àdeusa. Dentro dela há um espadim brilhante como uma jóia.Atena olha com ternura para Seiya, Hyoga e Shiryu. - Venham até aqui. Os três Guerreiros Sagrados atendem ao chamado deAtena. - Que o sangue proteja os meus cavaleiros. - A deusaaproxima a lâmina do pulso. É tão afiada que basta um levetoque para fazer um corte. Sem hesitar, Atena a faz correrpelo seu braço. O nobre sangue divino desenha um fiovermelho sobre a pele clara. As três armaduras de bronze - de Pégaso, Cisne e Dragão- recebem gotas do sangue de Atena, e assim obtêm a proteçãoda sua soberana Vontade. Após oferecer a proteção do seu sangue também àarmadura de Altar, Atena devolve o espadim a Nikol. Ocavaleiro recebe respeitosamente a arma, limpa a lâmina comum tecido branco e a coloca novamente na caixa. - Enquanto estiverem nestas armaduras consagradascom o sangue de Atena, vocês não sofrerão com a redoma
  47. 47. protetora das chamas terrenas de Tífon - explica o oficiante- mor - Então agora podemos ir! - Seiya... Hyoga, Shiryu. Acompanhem-me até o vulcão Arima. - Kiki, perdoe-me por abusar de você, mas peço mais uma vez. Agora cada momento é importante - hora para mais um teletransporte. - Eu lhe confio Shun, Mei, e todos aqui - Atena diz serenamente a Nikol, enquanto Tatsumi procura estancar, apavorado, a hemorragia do pulso da deusa. - É claro, Atena. Sem Mei, será dificílimo selar Tífon. - Antes de deixar a sala, Nikol faz uma última reverência. - O que você quer dizer Com “sem Mei”? - pergunta Seiya. - Estava falando do destino da constelação de Mei. Vou lhe contar mais tarde. Agora não é o momento - completa Nikol.54
  48. 48. 3 A o acordar de um pesadelo no qual se arrastava pelo chão, como uma taturana, Shun está tomado porcalafrios que o entorpecem até a ponta dos dedos. - Esta sensação... - É como se o Cosmo vazasse por suaalma. - O campo do FIe... - Cavaleiro de Andrômeda - a voz áspera de Tífoninterrompe os pensamentos de Shun. - Está sentindo o temor? Olhando fixamente para o garoto, ali está o deusassimétrico de chamas e relâmpagos, o último dos Gigas, comsua armadura brilhante e escura de Adamas. Shun é seuprisioneiro. - Por que tenho a impressão de que já conheço você? -pergunta o deus monstruoso. - Sinto que já lutei com você.Ah, é claro! São as memórias do meu querido irmão Toas. Será que as lembranças de Toas, o “relâmpago célere”,se transferiram para Tífon quando ele o devorou em sacrifício?Shun tem dificuldade para encarar o deus dos Gigas: as chamase relâmpagos que emanam de Tífon parecem queimar suasretinas. E ele está cada vez mais poderoso. Shun não sabe,mas Tífon acabou de devorar Pallas, “o parvo”, aumentandoainda mais seu poder. - Vejo que não é apenas um ser humano, Andrômeda -diz a criatura. - Você é o receptáculo de um dos deuses doOlimpo. Não me esqueço do sabor do seu sangue e do cosmoque sorvi, embora pouco, no monte Etna. Não poderia desejarsacrifício melhor! Tífon se curva para frente e toca o rosto de Shun. Umchoque elétrico atinge os centros nervosos do corpo doCavaleiro, que se contrai involuntariamente num espasmoviolento.
  49. 49. - Vou devorá-Io! - Tífon lambe os lábios com sua língua preta. - Sou um Cavaleiro de Atena - responde Shun. - Jamais me renderei ao seu temor. - Não há como escapar do temor - diz Tífon, virando- se. - Gostaria de devorar você agora, mas tenho que esperar. O deus dos Gigas sai do campo de visão de Shun, revelando o altar. Sobre ele, envolvida pelo fino “Casulo do Tempo”, repousa a imagem de uma mulher grávida, metade humana, metade serpente. “O Calabouço do Tempo Estagnado.” - Andrômeda, vou devorá-Io na ocasião do nascimento do meu novo e verdadeiro corpo carnal. - Aquela mulher está viva? - Equidna. A última das mulheres Gigas - revela Tífon. - Um monstro mitológico, desenhado pelo temor dos frágeis humanos. É a minha forma feminina. Arranquei suas pernas para que não fugisse. De fato, Shun percebe que a metade inferior de Equidna, a parte da serpente, está presa ao pedestal por vários e grossos pregos. Nesse momento surgem três figuras não identificadas. - Pai - dizem as sombras. - Meus filhos... O que são esses Cosmos pequeninos que me irritam com sua implicância? - Aparentemente, os Cavaleiros de Atena voltaram a invadir estas terras - responde a sombra de Ladon, “o dragão de cem cabeças”. - São como insetos no verão. Matem-nos! - ordena o deus dos Gigas. - Mais que isso, devorem cada um deles! - Sim, pai. - Respondendo com obediência absoluta, os filhos de Tífon deixam novamente o templo subterrâneo. “Será que são Seiya e os outros?”, pensa Shun. “Então a corrente de Andrômeda chegou a Atena.” - O “Tempo Estagnado” em breve se romperá - repete Tífon, lançando um olhar maligno na direção da mulher no altar. E, então, voltando-se para Shun: - Vou devorar você, Cavaleiro.56
  50. 50. 4 E m pé sobre uma rocha que lembra um chapéu pontiagudo, Seiya examina a paisagem ao seu redor.Está em uma das muitas florestas de pedras do vale daAnatólia, uma região desolada, distante da civilização. OCavaleiro não vê nenhum tipo de luz, nenhum sinal dehabitação. À sua volta estão Hyoga, Shiryu, Nikol e Kiki, queos teletransportou do Santuário até ali. - Oficiante-mor, qual a relação desta terra com Tífon?- pergunta Shiryu. - Um poema épico grego conta uma história chamada“A Morada de Typhoeus”. - Typhoeus? Seria sobre TÍfon? - Na verdade, é sobre a esposa de Tífon. Já ouviram onome Equidna? - pergunta Nikol aos Cavaleiros de Bronze. - Mãe de monstros - responde Hyoga. - Sim, muitos monstros da mitologia grega sãoconsiderados filhos de Tífon com Equidna: o leão de Neméia,a serpente venenosa Hidra, Cérbero, o cão do inferno, o abutreque devorou as vísceras de Prometeu acorrentado... - Espera aí! Esses monstros não são constelações? -indaga Seiya. - São, sim - explica Nikol. - Essa lenda é uma das muitashistórias envolvendo figuras que deram nomes a constelações.Esses monstros são frutos do medo... do “temor” das pessoas.Talvez os humanos tenham tentado apaziguar essas criaturasaterrorizantes elevando-as aos céus. Além disso, creio que odestino das estrelas não existe somente para os humanos,mas também para os Gigas. - O senhor acha então que os Gigas também têm suasconstelações e vêem as estrelas?
  51. 51. - Exatamente, Shiryu. - Nikol ergue os olhos para o céu noturno. - O firmamento é o recipiente deste universo, no qual todos os Cosmos e todas as Vontades Divinas se mesclam. Nesse momento, os quatro Cavaleiros verificam seus trajes sagrados. Admiram o brilho das estrelas que honravam. Estão sob a proteção do sangue de Atena. Contemplam o seu destino. - Vamos salvar o Shun. - E o Mei. - E vamos vencer, por Atena. Nikol vê os três garotos colocarem as mãos umas sobre as outras, selando o compromisso de cumprir a missão. - Mas... e eu? - Você fica esperando aqui, Kiki. Quando sentir que está em perigo, fuja logo. Sua força é necessária para Atena. - É mesmo? Hummm, acho que é sim... Sem mim, as coisas não acontecem, certo? - Feliz com o elogio de Nikol, Kiki procura um lugar para se sentar e esperar pelos companheiros, que saem imediatamente em disparada pela floresta de pedras. Os quatro correm mantendo uma distância fixa entre si. O que eles devem fazer não é protagonizar uma história de heroísmo e bravura para ser contada por milênios. Tudo o que farão é pelo Amor e pela Justiça na Terra. Por seus companheiros e por Atena. - Ainda não sinto a redoma de Flegra - grita Seiya para os outros. A floresta de pedra não está sob a maldição de Tífon, portanto, ao encontrarem o campo de força, terão encontrado também o deus dos Gigas. De repente ouvem um ruído, uma espécie de grunhido ensurdecedor. Os quatro Cavaleiros param e assumem posição de combate. O solo se abre.58
  52. 52. 5 A floresta de pedra grita. O vento que percorre as rochas faz o ar vibrar e ameaça os invasores comouma harpa estridente. O chão cede. A superfície desmoronacomo uma concha vazia, e os cavaleiros são tragados para ocentro da Terra, perdendo-se uns dos outros em meio àssombras das rochas e à poeira que cai. A cratera é grande o bastante para abrigar váriosanfiteatros, e vai ficando cada vez mais profunda, até queeles finalmente atingem o fundo. Com isso a Terra ficasilenciosa novamente. - Uff - Hyoga tosse, empurrando uma rocha gigantesca.- Onde estou? - O Cavaleiro percebe que perdeu o contatocom o Cosmo de Shiryu, Seiya e os outros. O ar está saturado de poeira. É impossível manter osolhos abertos. De qualquer forma, Hyoga está muito abaixoda superfície: mesmo que pudesse abrir os olhos, a escuridãoé absoluta. Enquanto caía, Hyoga pulou instintivamente para umburaco lateral da cratera. Se tivesse caído até o fim teriasido soterrado pelo volume colossal de rochas. - Outra armadilha dos Gigas? - pergunta-se o garoto,agora separado dos outros Cavaleiros. Uma ventania assustadora percorre os espaços vaziosda Terra. Hyoga sente como se uma centena de serpenteslambesse todo o seu corpo. - Ora... conseguiu sobreviver ao desmoronamento? Hyoga vira-se na direção da voz e, para sua surpresa,consegue abrir os olhos. A poeira, antes tão densa, sumiucompletamente.
  53. 53. Está numa caverna com luzes vacilantes entre o vermelho e o marrom, que lembra muito o templo subterrâneo do monte Etna. Hyoga está surpreso pela existência de um espaço tão amplo sob o vulcão Arima. - Essa armadura... não é um traje qualquer - continuou a voz, grave como a de uma fera rosnando. - Ah, você percebeu? - Hyoga já consegue visualizar a figura do inimigo: é um dos Gigas. - Dentro da redoma de Flegra, armada no interior deste templo subterrâneo, sua armadura repeliu o “temor”. - Tífon está aqui? - Deve ser a proteção do sangue de Atena. - Hyoga, da constelação do Cisne. - Ortos, “o cão bicéfalo do mal”. Seu Adamas tem o brilho de uma safira-estrela da cor das trevas, uma pedra nobre e rara, que traz em suas profundezas de um azul intenso os raios cintilantes das estrelas. Hyoga reconhece o nome do monstro da Antigüidade. A figura à sua frente parece ser feita de rocha maciça. Embora tenha a mesma altura dos outros Gigas, seu torso e abdômen são de proporções colossais, transmitindo uma densidade comparável à do urso polar, um mamífero de meia tonelada que é o maior animal carnívoro do planeta. O Giga usa uma coleira de espinhos e uma armadura de Adamas de formato incomum, lembrando um corajoso e enrugado cão Mastiff. - Você é filho de Tífon e Equidna. O Giga que invadiu o Santuário declarou que havia novos Gigas, filhos de deus... - Eu sou um deles. Seu rosto estava inteiramente coberto por um elmo. As ombreiras têm imagens que representam o próprio cão bicéfalo maligno, com seus dentes à mostra como se estivesse sempre preparado para morder os inimigos. Parece ter três cabeças, incluindo o elmo. - Então você é o meu inimigo. Um cristal de neve dançou em suspensão, congelando o ar. Os sons finos das crepitações dedilhadas pelo frio na60
  54. 54. atmosfera são o silencioso prelúdio do guerreiro, o elevar doCosmo de Hyoga. - Vou devorar você. - Que mau gosto - responde Hyoga, sentindo um terrívelmal-estar.
  55. 55. 6 D epois de ter sido praticamente sepultado vivo, Seiya abre caminho destroçando as rochas que caíram sobre ele, erguendo-se da terra como um morto ressuscitado. O menino esfrega os olhos e cospe energicamente o barro que se acumulou dentro da boca. - Credo! Não teria graça nenhuma morrer num lugar como este - diz para si mesmo, talvez para aliviar a tensão. Acima dele a saída está parcialmente soterrada. Seiya não consegue enxergar o fundo. No local há uma luminosidade turva, preenchendo o ar no interior da caverna e revelando os contornos da rocha. - Igualzinho ao Monte Etna! Então aqui também é... - Terra Sagrada do meu pai. Seiya dá uma ágil meia-volta e assume posição de combate, fechando a guarda com os braços. - Quem é você, que aparece assim de repente? Quase me mata do coração - provoca Seiya, reconhecendo no inimigo a figura de um Giga. - Então aquela rachadura na terra foi uma armadilha de vocês! - Não era nossa intenção que o combate se resolvesse assim - diz o monstro. - Se morressem apenas por causa daquilo, não poderíamos vingar o ódio acumulado ao longo do tempo pelos Gigas. Quero saber o seu nome. - Para quê? Para escrever em um livro de História? - ironiza o garoto. - Os Gigas não precisam registrar a História. A existência do meu pai é a prova de que os Gigas sobreviveram. - Com isso o inimigo surge das sombras por inteiro, e sua figura monumental domina a caverna preenchida com a Vontade de Tífon.62
  56. 56. Seiya prende a respiração diante do que vê. O Gigatem asas formadas por membranas esticadas sobre ossos, comoas dos morcegos. A espada na mão esquerda é uma serpentevenenosa. O escudo na mão direita é uma cabra, cujos chifresevocam as antigas representações do diabo. Esses aparatosfazem com que a figura pareça um fantasma desgarrado deuma cavalaria medieval. O brilho do Adamas que cobre todo o seu corpo é derubi-estrela, mas da cor das trevas - uma outra pedra preciosa,raríssima, de um vermelho tão intenso que chega a ser cruel,resguardando em seu interior as labaredas de estrelasenlouquecidas. No rosto, uma máscara que imita a cara deum leão. - Você disse pai? Está falando de Tífon? - pergunta Seiya. - Estou perguntando seu nome por uma única razão. -O Giga muda de assunto, completamente preparado para ocombate. - Tenho que saber o nome da carne que vou comer. Seiya se irrita com a forma que o monstro lhe encara.Chutando o chão, toma impulso para se lançar na direção dooponente. - Cometa de Pégaso! - grita, cercando-se de uma aurabranco-azulada. Um brilho intenso. Seus punhos dirigem-se ao inimigoa uma velocidade muito maior que a do som. O ataque mortalrompe a redoma de chamas terrenas, e por isso pode serlançado com sua energia de sempre. Mas um inesperado contra-ataque arremessa Seiya aochão: o violento golpe aplicado pelo escudo cravejado do Gigafaz com que o garoto caia a uma distância de dezenas demetros, formando uma coluna de água. Um lago subterrâneo. O “cavaleiro andante” dos Gigas sobe pelos rochedospara além de onde Seiya foi arremessado. Embora desajeitado,seu andar não é, de forma nenhuma, lento. - Eu estava mesmo querendo lavar os pés. Aliás, fazuns três dias que não tomo banho. - Seiya encara o inimigo dedentro do lago, com água até a cintura. Apesar de machucado,o garoto sorri com um ar tranqüilo, como se não tivesse sofridonenhum dano. - Está um pouco gelada, mas acho que agoraacordei de vez.
  57. 57. - Ora, seu... - Para agradecer, vou dizer o que você queria saber. Eu sou Seiya! Seiya de Pégaso! - Quimera, “a fera pluriforme” - apresenta-se o Giga. Seu corpanzil tem mais de dois metros de altura e sua armadura parece ser a própria carapaça do gigante. Na fase de treinamento para ser um Guerreiro Sagrado, Seiya tinha aprendido sobre fábulas de monstros. O garoto busca agora na memória alguma referência que sua mestra, Marin, a Amazona de Prata da Constelação da Águia, possa ter feito sobre Quimera. A metade superior do Giga tem a forma de um leão, e a inferior é o corpo de uma cabra. Na cauda, uma serpente. É um ser estranho, fantástico, assombroso. - Você é filho de Tífon. - Vou devorar você. O cavalo alado e a criatura fantástica que reúne múltiplos animais colidem em combate.64
  58. 58. 7 N ikol de Altar também escapou do desmoronamento, abrigando-se numa caverna sob o vulcão Arima. - Oficiante-mor... - chama Shiryu, o Cavaleiro deDragão. - Onde estão Seiya e Hyoga? - Não sei. Aparentemente, caíram muito abaixo de ondeestamos - responde Nikol. - Estamos no fundo de um fosso? - pergunta o Cavaleirocego. - Numa caverna. Pelo que vejo, há marcas artificiaisnas paredes. Talvez seja um templo subterrâneo dos Gigas.Também parece que há uma redoma de Flegra. Estoupreocupado com Shun e Mei... - Senhor, pelo que o Kiki nos disse, não deve fazer maisde uma hora que ele trouxe o Mei ao vulcão Arima. - Espero que ele esteja bem. - Se este for o templo de Tífon, devemos ir para baixo.Lá encontraremos o Seiya e o Hyoga - sugere Shiryu. - Consigosentir o Cosmo deles, embora apenas minimamente. - Não me diga! Eu não consigo. Devem ser os laços desangue, vocês são irmãos. - Nikol sorri. Nesse momento um baque pesado faz com que ossubterrâneos do monte Arima vibrem novamente. - Outro desmoronamento? - Nikol olha para o alto. - Não... isto é... - sem tempo de explicar, Shiryu saicorrendo na direção de um Cosmo que sugeria uma estrelamoribunda. - Por aqui, senhor! Nos corredores por onde seguem, a luminosidade estábem mais reduzida. Shiryu, embora seja cego, avança comose guiasse Nikol pela penumbra. Chegam a mais uma abertura,mais iluminada. Diante dos dois está...
  59. 59. - Mei! ... a figura do Cavaleiro vestido com o traje negro, ferido e caído. Deitado de bruços, parece erguer um pouco o rosto, gemendo. - Você está bem? Sem fazer nenhuma menção de se proteger, Nikol corre em sua direção. - Pare! Não venha! - grita Mei com a voz debilitada, quase inaudível. Nesse instante faz-se a mais completa escuridão. Metsu! Um ataque vindo das trevas atravessa o peitoral do Traje Sagrado de prata como se fosse feito de papel. Um som surdo. A proteção da estrela de Nikol parece estar se esgotando. - Oficiante-mor! Algo o atravessa pelas costas. Não há nada que Shiryu e Mei possam fazer. Não há como voltar no tempo. O fim de uma vida não pode ser adiado. O sangue inunda os pulmões de Nikol após seu peito ser rompido. Mei se aproxima de Nikol, arrastando-se. O Ca-valeiro da constelação de Altar cai de bruços, sem nada fazer para amortecer sua queda. - Mei... você está bem? - pergunta o enfraquecido Nikol, preocupando-se com os outros mesmo em seu último momento. - Por que não armou a guarda? Uma pessoa como o senhor...? - Mei, com os cabelos prateados tingidos de sangue, fica arrasado ao perceber que a morte de Nikol é inevitável. - Isso foi um vacilo! - Tem razão... estou constrangido - admite o oficiante- mor. - Perdi o controle quando o vi caído. Só tinha em mente que você é necessário, Mei. Você estava a ponto de trair a confiança de Atena... Eu disse que havia um segredo oculto dentro do Santuário... a história da antiga Gigantomaquia... sem você... sem a armadura de Coma Berenices, seria dificílimo selar Tífon... - Poupe suas energias... não fale mais nada...66
  60. 60. - Sele Tífon - Nikol gasta toda a força que lhe resta. -Sua armadura o guiará... será a voz das estrelas... e só vocêpoderá ouvi-Ia... - Sim... - A única coisa que lamento... como Grande MestreSubstituto... - o olhar de Nikol vai perdendo a força - é nãosaber qual é o destino confiado a você e a seu traje. Isso nãoestá na História Oficial. Não está em nenhum livro histórico.Nem Atena reencarnada sabe... o sangue de Atena consagradono seu traje negro... naquele passado distante... irá lhe contarquando chegar a hora. - A proteção do sangue de Atena... - repete Mei. - Poderáser um destino terrível para você... Mesmo assim, sou obrigadoa dar a ordem. Mei... Vejo agora que o destino da minhaestrela foi dizer isto para você: sele Tífon. - São as últimaspalavras de Nikol. Nesse instante, outra estrela se solta dofirmamento. NIKOL, Prata, Altar. Talvez seu túmulo não tenha restosmortais. - Oficiante-mor! - Shiryu - adverte Mei - Tome cuidado... O inimigo... Shiryu corre em direção a Mei, vasculhando o interiorda cavema. Seus movimentos são interrompidos por um Cosmoavassalador. - Apareceu mais um inseto barulhento! - A presençadomina toda a caverna escura. - Você me usou como isca! - grita Mei. - É tudo culpaminha! - Arrependido, Mei morde o lábio inferior com tantaforça que o sangue escorre pelo seu queixo. - Meu pai ordenou que devorássemos todos vocês,Cavaleiros - diz a voz que comanda os Gigas filhos de deus. - Quem é você? - Shiryu não o vê, mas pode medir otemível Giga que está diante dele pela escala absurda do seuCosmo. Se pudesse enxergá-Io, certamente estaria ainda maisapavorado. - Ladon, “o dragão de cem cabeças” - declara a voz.Mei se levanta cambaleante. Seus ferimentos são profundos e
  61. 61. sangrentos: tem os músculos da perna retalhados, como se a carne tivesse sido rasgada a dentadas. - Ladon... Esse é o nome de um dos filhos de Tífon e Equidna na mitologia. O dragão maligno! - grita Shiryu. - É o Giga filho de deus de que falava Pallas... - completa Mei. - Aqui estou - proclama Ladon. O brilho do seu Adamas era o da opala negra, mais uma gema rara, e irradiava nebulosas estelares com todas as cores do arco-íris no firmamento de denso ébano. - Fuja, Mei - ordena Shiryu. - O Seiya e o Hyoga devem estar abaixo desta caverna. Você sente o Cosmo deles, não é? - Acha que vou abandonar você? - O oficiante-mor me contou... Sem você e o seu traje, será impossível selar Tífon. - Mas... - Não repita o erro. - Shiryu não tem escolha a não ser esbofetear o relutante Mei. - Para que somos companheiros? Para que somos irmãos? Você não está lutando sozinho. - Por essa eu não esperava. Levar um tapa de um irmão mais novo... - Mei... tem uma coisa que eu preciso contar para você - confessa Shiryu. - Na batalha das Doze Casas eu lutei com o seu Mestre, o Cavaleiro de Ouro de Câncer... e o derrotei com estes punhos. - Eu sei - responde Mei. - Soube de tudo através do oficiante-mor... de Nikol. Ele me contou antes de eu me reencontrar com você na Casa da Constelação de Câncer. - Você sabia! - Aquele homem - Mei abre o coração para o irmão -, mesmo que tenha sido um Cavaleiro maligno que se revoltou contra Atena, continua a ser o meu mestre. Ao mesmo tempo, eu e você temos o mesmo sangue. Nunca vou comparar as duas coisas. - Mei... obrigado. Esta conversa me livra de um peso enorme no coração. - Shiryu sorri, um sorriso de alívio. Diante da atitude honesta do irmão, Mei também se sente redimido, salvo.68
  62. 62. Antes que possam se despedir, Ladon, “o dragão decem cabeças”, coloca-se diante da dupla. - Acha que deixarei que ele vá embora? - pergunta omonstro, referindo-se a Mei. - Eu, Shiryu de Dragão, vou provar que sim. - Dragão...? - pela primeira vez, o Giga de máscarametálica revela algo que pode lembrar um sentimento. - Eleve-se, Cosmo! Tome isto! O maior ataque desteCavaleiro... O Dragão Celeste, resplandecendo num brilho branco-azulado, abriga-se no punho direito de Shiryu. - Cólera do Dragão!
  63. 63. III CRONOS70
  64. 64. 1 N o lago subterrâneo sob o vulcão Arima, Seiya de Pégaso e Quimera, “a fera pluriforme”, encaram-se, frente a frente. - Você é filho de Tífon! - Vou devorar você! - proclama o “cavaleiro andante”dos Gigas, equipado com a espada da serpente venenosa, oescudo do leão e o Adamas de rubi-estrela da cor das trevas. - Vocês, Gigas, são muito vulgares, sabia? - Seiya, porsua vez, está completamente desarmado. Os Guerreiros deAtena lutam somente com o corpo, mas isso não significa quenão saibam usar armas. Precisam saber, uma vez que seusinimigos não seguem nenhuma proibição nesse sentido. Assim,além do aprimoramento do corpo, o treinamento dosCavaleiros inclui combate contra oponentes armados. As articulações da pesada armadura de Adamas do Gigaestalam com seus gestos. Para Seiya, dotado da agilidade deum cavalo que percorre os céus, a movimentação do monstroé desajeitada como a de um fantoche mal conduzido. - Sua armadura parece pesada - provoca o garoto. -Acha que um lerdo como você seria capaz de pegar o Pégaso? Nesse instante, Quimera lança um ataque cortante nadireção de Seiya, um golpe pesado e rude, mas surpre-endentemente rápido, como uma rajada de vento. O Cavaleirosente calafrios na espinha ao desviar-se por um triz datrajetória da lâmina, recuando até uma rocha plantada nomeio do lago subterrâneo. Agitando a enorme espada emmovimentos circulares apenas com a mão direita, o Giga seaproxima de Seiya, passo a passo, num andar desajeitado,mas preciso.
  65. 65. - O que será essa espada? - pergunta-se Seiya. A espada da serpente na mão da “fera pluriforme” tem o fio dentado como o de um serrote. - Receba a ardente lâmina assassina - anuncia Quimera, enquanto a serpente venenosa traça um arco flamejante, emanando um calor infernal. - Rompantes da Lâmina! Atingido pelo golpe incendiário, Seiya é atirado novamente no lago subterrâneo, onde um rastro de vapor d’água marca a trajetória da espada de Quimera. O Cavaleiro se ergue, depois de engolir um bocado de água. Apesar de amplo, o lago é bem raso: mesmo nas áreas mais profundas, a água mal chega à cintura de Seiya. - Eu não acredito... a armadura! - grita o Cavaleiro, perplexo. A parte mais poderosa do Traje Sagrado, o peitoral, apresenta marcas profundas da lâmina dentada, descendo a partir do ombro esquerdo. Se Seiya estivesse um passo à frente, seu coração teria sido atingido pelas chamas. Quimera caminha para dentro do lago, lançando outro golpe da enorme lâmina contra Seiya, fazendo seu Adamas ranger e gerando mais uma imensa coluna de água. O Cavaleiro não tem opção a não ser recuar o máximo possível diante da impetuosidade das explosões. “O momento em que ele inicia o ataque é estranho”, pensa Seiya. “É impossível calcular o revide!” De fato, parece haver uma estranha variação dentro de cada ataque de Quimera: o movimento do seu braço, o passo que dá para o impulso, a velocidade da espada e sua trajetória não parecem pertencer ao mesmo ataque, ora tardio, ora precipitado. Tudo isso confunde Seiya. “É como... se não fossem movimentos humanos!”, conclui o garoto, antes de contra-atacar: - Meteoro de Pégaso! Mas seu esforço é inútil. Centenas de meteoros que superam a velocidade do som são novamente repelidos, sem nenhuma exceção, pelo escudo de cabra. - Onde você está mirando? Acha tanta graça em jogar água para o alto? - ironiza o Giga, em meio aos jatos de água72
  66. 66. resultantes do impacto do golpe no lago. Seiya se aproveitada cortina de água que bloqueia a visão de Quimera e seposiciona atrás do monstro. - Segura essa: Turbilhão de Pégasooo! - Seiya dá umsalto rápido, apoiando-se no corpanzil do Giga, mas o contatofaz com que grite de dor: suas mãos, seus braços e seu peitoparecem ter tocado em brasa. Os dedos ardem dolorosamente:estão queimados. Ao mesmo tempo, a água ao redor deQuimera começa a evaporar. - Esta armadura ardente traz consigo a chama dasestrelas - explica o Giga, com um sorriso maligno. - Então é esse o poder do Giga filho de deus... - Seiyaestá pálido de surpresa e medo, a reação natural do seuinstinto de guerreiro. O monstro era como uma fonte de calorintenso, que aos poucos vai aquecendo todo o lago, apesar dogigantesco volume de água. O Cosmo da fera que combinavárias outras em si parece ilimitado. - Vou devorar você! - Com isso a espada de Quimerabrilha em chamas luminosas. - Rompantes da Lâmina! O ataque acerta o Cavaleiro apenas de raspão, cortandoa água do lago subterrâneo, que evapora completamente.Todo o ambiente fica coberto por um calor úmido, como o deuma sauna. - Você não sabe reconhecer o momento certo de morrer- diz Quimera. - A ponta da lâmina só relou em mim... mas parece quequeimou todos os nervos... - Seiya está se contorcendo dedor. Foi atingido nas pernas pela espada. Seu formato deserrote é ainda mais terrível do que o corte de uma lâminaafiada: a carne, em frangalhos, não pode ser suturada e ahemorragia custa a estancar. Coberto pelo vapor esbranquiçado da água, Quimerafita Seiya com desprezo. Tem olhos de leão, o escudo à imagemde uma cabra demoníaca na mão esquerda e a espada queparece uma serpente venenosa na direita. - Terminamos por aqui, Pégaso... Sem as pernas de quetanto se orgulha, você não poderá se esquivar do próximoataque. E, ao que parece, existem outros Cavaleiros neste
  67. 67. Templo, não posso perder mais tempo com você - declara o Giga. - Aceite ser devorado em silêncio. Vou comer o seu Cosmo. - Nós, os Cavaleiros de Atena, vamos derrotar Tífon e proteger a paz na Terra - insiste Seiya, em meio a gemidos de dor. - Eu sempre superei os meus inimigos com estas asas de Pégaso! Seiya se levanta usando toda a sua força, inflamando ao máximo seu Cosmo. Seu estilo de combate é um dos mais ortodoxos entre os Guerreiros Sagrados. Compõe-se basicamente de socos, chutes e eventuais nagues - as técnicas de projeção. É importante lembrar que as técnicas de luta dos Cavaleiros não têm relação direta com a força física. Elas se definem com base no Cosmo: é por isso que a compleição física de Seiya, pequena para um guerreiro, não representa nenhuma desvantagem diante dos poderosos e altivos Gigas. Além disso, a armadura da constelação de Pégaso é uma proteção fenomenal, que acompanha até o limite a movimentação agilíssima de Seiya. Apesar de envolver o Cavaleiro como uma rocha, ela não impõe a menor restrição aos seus movimentos. - Queime, meu Cosmo! Queime enquanto eu tiver alma! - provoca Seiya. - No próximo golpe, então, devorarei sua alma - responde o Giga. - Agora é o momento de voar, Pégaso! - Rompantes da Lâmina! - A reação de Quimera é rápida mais uma vez, a serpente flamejante mostra suas presas desalinhadas. Seiya escapa do golpe com um salto. - Eu não vou perder! - grita o garoto. O cavalo celeste relincha, envolvendo-se numa aura azulada. É o som do Cosmo de Seiya sendo elevado ao máximo. - Cometa de Pégaso! - O ataque do Cometa, um feixe de centenas de meteoros, faz tremer o lago subterrâneo. O rubi-estrela perde seu brilho escuro, tornando-se uma pedra opaca, sem o fulgor das estrelas. Estraçalham-se o escudo da cabra, a máscara do leão, o Adamas nobre. Quimera, “a fera pluriforme” cai com um estrondo sobre o lago subterrâneo.74
  68. 68. Tendo exaurido todas as suas forças no ataque, Seiyase deixa desabar sobre a água. Ao se levantar, olha de relancepara o Giga, ainda vestido com o Adamas, que agora pareceum traje morto. - O que é isso? - o Cavaleiro não sabe o que dizer. Ointerior da armadura no fundo do lago transparente está vazioe já não emite calor nenhum. O Cosmo que parecia infinitodesapareceu junto com as labaredas. Dominado por uma insegurança indescritível, Seiyacambaleia para trás e se senta nas rochas da margem,esgotando definitivamente suas energias. - Então o Giga filho de deus é só isso? - pergunta-se oCavaleiro. Seiya tenta então escalar os rochedos, mas o ataquedo Cometa desgastou demais o seu Cosmo. As pernas emfrangalhos não obedecem e ele acaba rolando morro abaixo.

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