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A subordinação da pessoa ao materialismo neoliberal internacionalizado, ou submetida àsdeterminações do Estado planificado...
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João Paulo II - Resenha Biografias

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Comparando as biografias de Sua Santidade João Paulo II e a História Oculta de Nosso Tempo de Carl Bernestein e Marco Politi e João Paulo II, Biografia de Bernard Lecomte.

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João Paulo II - Resenha Biografias

  1. 1. IntroduçãoEm nossa dissertação, de conclusão da Pós-Graduação em História do Século XX, iremos teceralgumas considerações sobre esse século, a partir da atuação e do pensamento de João Paulo II.Para conhecermos melhor a biografia desse Papa, como pano de fundo necessário para a análisede alguns de seus documentos, comparamos duas de suas mais conhecidas biografias: SuaSantidade João Paulo II e a História Oculta de Nosso Tempo de Carl Bernestein e Marco Politie João Paulo II, Biografia de Bernard Lecomte.Pensávamos que ambas estivessem, de certo modo, em polos opostos: de um lado a “denúncia” edo outro a simpatia pelo Papa embora ambas contenham sempre alguma admiração pela figurade João Paulo II. Poderíamos assim, tirar “uma média” entre essas abordagens se é que se podecolocar tão grandiosos trabalhos em amarras tão limitadas.Sabe-se que é muito difícil fazer uma biografia pelo muito que exige quer de capacidade deanálise, isenção, interesse, técnica etc, e por isso estamos longe de pretender criticar obras eautores tão cheios de virtudes, pelo menos se comparados com os modestíssimos dons desta queagora ousa comentá-los.Por isto reduzimos estes comentários aos nossos “circunscritos interesses” de contextualizar aleitura dos documentos de João Paulo II para a redação da dissertação de fim de curso emhistória do século XX. Como contribuiria cada uma delas para o nosso conhecimento da vidadesse Papa? Qual biografia nos conta melhor as circunstâncias históricas que envolvem aatuação de João Paulo II?Na verdade, não tínhamos a intenção de formular estas perguntas quando iniciamos essasleituras. Mas o choque entre elas acabaram por gerar o formato comparativo desta resenha e,ainda, a direção a ser tomada na dissertação acima referida.Explicamos isto para que fique claro, ao leitor, que nós nada sabíamos do tema nem tinhamospreconcebida qualquer idéia sobre esses autores antes de iniciar a leitura das biografias sobre
  2. 2. .João Paulo II, .Sua Santidade João Paulo II e a História Oculta de Nosso Tempo de Carl .Bernestein e Marco Politi e João Paulo II, Biografia de Bernard Lecomte. .Lemos primeiro a biografia de Bernestein e tal é a empolgação que promove que animamo-nosao segundo “tijolão” de Lecomte achando que iríamos viver outra aventura tão empolgante comoa leitura da biografia escrita por Bernestein. Não foi exatamente isso o que aconteceu; a leitura dabiografia de Lecomte foi muito melhor e indicou sérias suspeitas sobre o trabalho de Bernestein.BernesteinA construção em formato de “denúncia” em Bernestein, necessariamente, subordina a escolhados fatos a serem biografados e mesmo a relevância deles à essa construção, afinal não se causaum determinado sensacionalismo sem construí-lo propriamente. O que não “funciona” não entrae, o que poderia funcionar mas não aconteceu, cogita-se, especula-se, para ajudar a criarsensacionalismo. Um exemplo disto é o capítulo em que Bernestein pretende averiguar“mulheres” na vida de João Paulo II: mesmo concluindo que não havia nada a dizer ( diz istoexplicitamente), suas especulações tem um efeito de “enfeitar” de sensacionalismo a trama.Aos poucos, assim, Bernestein, que se apresenta no livro como ateu mas com respeito pela figurado Papa, parece na verdade querer construir duas histórias: uma em que narra explicitamentefatos baseados em documentos e uma outra em que lança um certo “quê” de descrédito emrelação não sei bem se à fé, ou à igreja ou a tudo relacionado com o credo e a ação de João PauloII. Explicitamente Bernestein considera o papa até admirável e não lhe têm ressalvas explícitasmas isto no final das contas só o ajuda na construção de sua “tese” por que, por estes abonos aoPapa, suas críticas subliminares passam mais rapidamente para o subconsciente do leitor que astomam por tão certas como os fatos apresentados devidamente documentados. No estilo e naconstrução da narrativa está o que nos é imposto subliminarmente por Bernestein e, cujasmotivações para fazê-lo, não aparecem claramente.Já ouvi dizer que algumas pessoas em especial os ateus, tem necessidade de fabricar, para simesmos e para outros, inimigos a fim de justificar sua existência e, de que isso é devido ao seuvazio interior. Não sei se isso é verdade mas Bernestein parece mesmo querer fabricar“inimigos” que possam ser caros a um certo tipo de leitor. Mas talvez isto seja mais para faturar 2
  3. 3. com a venda do seu livro, ao satisfazer, de especulações maldosas, leitores ávidos de “verdades”empacotadas em clichês.A narrativa é assim construída para dar a entender que o papa, junto com os americanos, urdiramcontra o comunismo numa ação com sabor de intriga palaciana tipo mocinhos versus bandidos.São muitos os recursos para isto: Usar expressões como “império do mal” em um determinadocontexto é visivelmente sarcasmo e assim, apesar de estar escrevendo sobre um fato real, sobreum depoimento de Reagan vai-se construindo subliminarmente a idéia de conluio de malvadosextremistas contra forças inocentes que não poderiam lutar contra o poderio dessa maquinação.A escolha assim das citações, dos documentos e da ordem de os apresentar contribui para alegitimação da sua “história oculta do nosso tempo” na medida em que essa construção se baseiaem clichês simplificados que já possam estar na mente de certo tipo de leitor. É como começarum baile com a música do grupo que mais toca na rádio ou um concerto pelo trecho maisconhecido da “Cavalleria Rusticana” ou com as valsas de Vivaldi: promove-se assim umaidentificação entre o público e a música que facilita a adesão às músicas menos conhecidas quese apresentarão em seguida. Da mesma maneira a identificação fácil de clichês por parte de certotipo de leitor é ferramenta segura para avivar o interesse e assegurar melhores vendas.Também esta obra se assemelha a uma construção feita como nessas “polêmicas” de mídia emque só existem dois lados, ( porque é o máximo que se pode paginar em veículos de massa). Oargumento de Bernestein se apresenta como idôneo por ter consultado “os dois lados” o queasseguraria ao leitor uma história “imparcial” como dizem os manuais de redação dos jornais.Mas na verdade e, como nessas matérias com as quais a mídia cria “consenso” sobre temaspolêmicos, não asseguram mais que boas vendas ao agradar consumidores cuja satisfação de verconfirmadas suas certezas prévias são o bastante para sua adesão à história apresentada.No nosso fraco modo de entender, o tratamento jornalístico não é sinônimo de isenção. Não raroé até desculpa para impor-se acima dos questionamentos como se a sua consulta, a ambos oslados, assegurasse, à abordagem jornalística, estar acima do “bem e do mal”. Mas, assim comona mídia o trabalho de edição tem uma função importante na construção do convencimento dalinha adotada pelo veículo, sem revelar claramente a quem serve essa linha editorial, nanarrativa direcionada para o sensacionalismo ocorre também a condução ideológica pelasopções de construção da trama.
  4. 4. . .Em marketing . sabemos que é bom mexer com quem já traz consigo muito público só por ser .quem é e, desconfio de que seja por isso que Bernestein preferiria fazer uma “história oculta” emtorno do Papa e não em volta de nós, por exemplo: revelar o “oculto” certamente causa maissensação do que falar sobre o que é corrente e, se não fosse sobre uma celebridade tão populartambém não provocaria tanto interesse e por tudo isso acreditamos que sua obra ficou “viciada”.Não nos esqueçamos que Bernestein é o jornalista que ficou famoso com o caso Watergate queprovocou a renúncia do presidente americano. É inevitável que o empenho de Bernestein, emcriar a sua “história oculta do nosso tempo”, nos sugira que, depois do caso Watergatte,estivesse esperando repetir o mesmo feito e, quem sabe, desta vez, “derrubaria” um papa. Poristo a escolha de uma narrativa em que lança suspeitas que qualificassem a ação de João Paulo IIno mínimo, ao gosto de pelos menos outros ateus.Curioso é que toda esta crítica a Bernestein só nos ocorreu depois de lermos a segundabiografia, a de Lecomte. Até então estavamos pensando que havia descoberto “a trama” doséculo XX: a da contribuição do Papa para a derrocada do comunismo de alguma maneira ligadaàs ações de espionagem da Cia, a agência norte-americana que levou fotografias, tiradas desatélite, dos exércitos russos na fronteira da Polônia, para o Papa ver e, pelas quais, os Euapreviam uma eminente invasão da Polônia pela Rússia, conforme nos informa Bernestein.Sobre a ação de João Paulo II para a queda do comunismo, assunto priorizado por Bernestein,não parece próprio sugerir que os contatos entre o Papa e os americanos apresentados como umconchavo “de direita” foram a causa da reação polonesa aos comunistas que acabou levando aofim do regime comunista na Polônia tendo isto contribuído para a ruína do sistema planificadoem toda a Rússia. Ou de que os americanos é que fizeram o Papa “ajudar” Lech Walesa contra ocomunismo”, ou que o Papa por ter restrições à teologia da libertação tinha alguma vinculaçãocom a ação da Cia contra governos de esquerda.E isto porque a resistência polonesa ao comunismo, tanto da parte do Papa como do povopolonês começa no próprio ano da invasão russa (1939), ( Karol Wojtyla é eleito papa em 1978).E, na verdade, a história da Polônia com a situação de constante invasão pelas potências vizinhasao longo de toda a sua história, bem como a unidade desse país feita em grande medida com base 4
  5. 5. no cristianismo, tornam a questão do enfrentamento ao domínio soviético pelos poloneses umaquestão bem mais ampla do que a visão de “interesses comuns” entre um determinadopresidente americano e o papa, ou deste com a Cia. 1A ênfase nessa aproximação parece motivada por razões ideológicas em Bernestein. Queremosdizer que a resistência polonesa, do qual o papa seria um personagem, já acontecia, é parte dahistória Polonesa e não dependeu, para que acontecesse, de conchavos e maquinações com osamericanos “de direita” exagerando-se a interferência americana nesse episódio para criar oclima de “urdição palaciana”.Não é que o papa não tenha resistido aos comunistas. Mas Karol Wojtyla lutava contra aocupação comunista desde antes de ser papa, é o que se vai aprender melhor em Lecomte deforma muito detalhada, com histórias de celebrar missa às escondidas, em bairros comunistasonde era proibido construir igrejas, com nomes, datas, etc. O papa não passa a fazer isto depoisde uma “intervenção” americana. Se este papa foi grande em algum sentido que mereça umabiografia não o foi pelo seu relacionanamento com Estados Unidos. A conversa entre chefes deestado ocorreu sempre nas relações internacionais de todos os tempos, mas aqui temos aimpressão de que se trata de uma quase perseguição às visões de esquerda.A iminente invasão da Polônia pelo exército russo, estacionado na fronteira desta com a Polôniacom que o livro de Bernestein começa sua trama, sem dúvida interessavam ao Papa polonês, aosEstados Unidos e a quem mais acompanhasse o andamento das questões internacionais vividasdurante a Guerra Fria. Daí a apresentar esses fatos, com sentido de “maquinação” do papa comos americanos “da história oculta do nosso tempo” parece subordinar-se mais a interessesideológicos ou comerciais do autor, já que a luta de João Paulo II contra o comunismo nãocomeçou pela ação americana, mas é anterior, como se vê melhor em Lecomte.Assim, nos pareceu claro que é proposital reduzir tudo a uma “teoria de complô” com vistas apromover interesse sensacionalista que vende. É fato que o sabor de intriga palaciana “contra oimpério do mal” torna o texto de Bernestein muito mais interessante de ser lido do que o deLecomte, pelo jeito de thriller policial com que envolve o leitor. Mas Lecomte dá mais fatos, maisinformação e mais interpretações que o livro de Bernestein. Além de não impor ou conduzirnuma única direção como faz Bernestein.1 Ver anexo “Mini História da Polônia.”
  6. 6. . .Bernestein utiliza uma perspectiva aparentemente, imparcial, baseada em estilo jornalístico, mas .como tudo acaba subordinando à sua “tese”, seu trabalho parece priorizar o sensacionalismo.Fica claro que, .não obstante ele não encontre nada que desabone o Papa, tipo uma corrupção ouescândalo que faria sucesso num tablóide, empenha-se capítulo a capítulo, em sugerir um climade “urdição palaciana” pela qual lança suas restrições, de forma subliminar e cria no leitor umasuspeita ou uma desqualificação intencional e não explícita à atuação de João Paulo II.O principal problema de uma visão previamente conduzida, para não dizer ideologicamenteconduzida, é que se pode perder a capacidade de ver, de enxergar coisas novas e a partir daíconstruir uma idéia totalmente original, quem sabe.Por exemplo, o discreto parágrafo sobre os Bispos franceses no livro de Lecomte é um exemploextremamente esclarecedor da posição da França no cenário da época, para dar um exemplo, decomo outros assuntos não tratados no livro de Bernestein podem contribuir para uma biografiamais rica desse período histórico.Outro aspecto que também pode ilustrar a diferença entre as duas biografias – elas são muitas etalvez valesse a pena compará-las mais detidamente, pode ser a falta de tantos temas e mesmo deabordagens tratados no livro de Lecomte e que não estão no de Bernestein.Como, e principalmente, a posição filosófica do papa de sua defesa da dignidade humana, comtodas as suas implicações na sua ação política e ideológica. Ele cita a acolhida dos pobres e ofato do papa representar para essas pessoas um consolo. É tópico em Bernestein porque essesucesso entre os pobres é uma espécie de legitimação do sucesso de João Paulo II o que vaicontra as suas teses de querer uní-lo aos opressores e ou àqueles que dizem coisas que não sãoimportantes porque são arcaicas ou não críveis conforme melhor juízo de que se é proprietário.Mas para entrar na história oculta foi porque era um assunto tão recorrente nas viagens do papaque não puderam deixar de ser apontadas, ainda que sumariamente. O que mostra como seconstrói também o “consenso” proposto neste livro.Não se trata de exigir que esses autores devam dizer a mesma coisa já que, como dissemos, sãopropostas diferentes – embora ambas pretendam um caráter biográfico e portanto nos sejapossível exigir sobre a qualidade da construção da biografia em questão. E, neste sentido, a idéiaque perpassou todo o pensamento do filósofo, professor, pastor e líder mundial da defesa da 6
  7. 7. dignidade humana é muito importante para não estar claramente expresso na obra de Bernestein.Vejamos este trecho: “ A presença de Wojtyla na fábrica foi conseqüencia do encarceramento dos seus professores universitários. O tranqüilo curso acadêmico foi interrompido e substituído por um duro tirocínio em meio a um povo oprimido. O vínculo com o seminário maior do cardeal Sapieha já representava, enquanto tal, um ato de resistência. Assim, questões como a da liberdade, da dignidade e dos direitos do homem e da responsabilidade política da fé não penetraram no pensamento (...) (de João Paulo II ) como simples problema teórico.”2Alguém estudando qualquer outra celebridade, Churchill, por exemplo, não lhe ocorreriaprimeiramente conhecer seu pensamento, como Churchill mesmo entendia as coisas? Paracolocar com palavras de quem conhecia mais o papa vejamos este trecho: ““ O caminho da Igreja é o homem.” O significado autêntico desta afirmação, que pode ser encontrada na encíclica Redentor do Homem, (...) pode ser realmente entendida se recordarmos que, para o papa, ( João Paulo II), o “homem” em sentido pleno é Jesus Cristo. A sua paixão pelo homem ( de João Paulo II) não tem nada a ver com um antropocentrismo auto-suficiente (...). O antropocentrismo do papa ( João Paulo II ) é, por conseguinte, em seu núcleo mais profundo teocentrismo.” 3Quem é ateu desconsidera quaisquer idéias de natureza teológica: mas pode fazê-lo e dizer quecompreendeu realmente sobre o padre, ou religioso de quem falava?Na nossa dissertação, de conclusão da pós-graduação, talvez consigamos ilustrar a importânciaque esse tema da dignidade humana poderia ter para a compreensão de alguns aspectos dahistória do século XX a julgar o percurso e a popularidade alcançada por João Paulo II. Láveremos, ( se der tudo certo) que é devido exatamente à defesa da pessoa humana em época deforte materialismo, relativismo e laicismo que caracterizam a história desse século, o que explicaa popularidade alcançada por João Paulo II e que tanto comentários renderam, na imprensa,sobre as razões de sua unanimidade, por ocasião do seu falecimento.2 Ratzinger, Joseph, “João Paulo II, Vinte anos na História”.3 Ratzinger, Joseph, “João Paulo II, Vinte anos na História”.
  8. 8. . .Lecomte . .As contribuições de Lecomte são mais úteis para a construção da vida e da obra de João Paulo IIbem como do cenário do século XX a ele correlato porque não induzem a uma conclusãodeterminada de forma ideologizada. Lecomte atêm-se mais aos fatos e menos a “denúncia detempo oculto” ou a relações a serem “reveladas” preferindo dizer claramente os problemas e asfalhas da Igreja de João Paulo II. Na verdade escreve sobre vários fracassos e dificuldades doPapa João Paulo II sem rodeios.O livro João Paulo II, Biografia de Bernard Lecomte parece feito por um admirador contido quenão quer se comprometer por essa admiração eximindo-se muitas vezes de concluir maioresapreciações ao final de cada capítulo. Coloca mas deixa sua posição em aberto para concluirmosnós mesmos entre as possibilidades apontadas. Na verdade informa, mas se fica com a sensaçãode “e aí que mais que aconteceu”? Por exemplo, Lecomte mostra que o Papa apresentava umacoerência de atuação contra o regime nazista e comunista desde a sua origem e formação naPolônia que irá se refletir no seu pontificado não sendo em nenhum momento diferente emRoma do que foi em Wadovice, diferente do que foi em atos do que foi em seu pensamentofilosófico. Mas não conclui ou induz que é um “herói” de qualquer espécie. Pelo contrário, astarefas muitas vezes ou não foram concluídas como o papa gostaria ou levaram muitos anos atémelhorarem, 10 anos no caso dos bispos franceses, por exemplo.Lecomte umas duas vezes parece querer “celebrar” o que faz o Papa, o que pode ser visto comopassível de nos colocarmos também com “o pé atrás”. Afinal, o que é bom não precisa sercelebrado, basta que se diga o que aconteceu.. Mesmo assim, se no livro de Lecomte há um riscopontual de “celebração” pode-se evitar cair nessa armadilha por dois motivos: ela é explícita,pontual e rápida. Em sua narrativa predominam a descrição do ocorrido com as implicaçõespossíveis mas ficando em aberto mais de uma conclusões afim. A fartura de dados e de“infortúnios” ou “insucessos” dos esforços do Papa, também narrados no livro de Lecomtecontribuem para evitar o tom celebrativo da vida e obra de João Paulo II. Ainda assim é semprebom desconfiar.No livro de Lecomte o leitor terá que construir toda a atuação do Papa considerando diversosaspectos de sua vida o e das circunstâncias históricas em que João Paulo II esteve inserido e terá 8
  9. 9. que formar sua opinião, o que é bem mais livre e, no nosso modo de entender, muito melhor paraformarmos livremente nossas opiniões.A descrição do atentado sofrido pelo Papa na praça de São Pedro é também um claro exemplo decomo a construção em Bernestein é feita para narrar a luta contra o “império do mal” e, emLecomte, apesar de se oferecerem as mesmas informações sobre a conexão búlgara, não há umacondução tão sensacionalista e artificiosa até porque a história já seria por si só surpreendente.Ainda outro exemplo da diferença entre essas grandes obras – sim porque todas tem virtudes,nem que seja a capacidade de cooptar partidários - é a abordagem mais clara dos problemas daIgreja tratados objetivamente. Em Lecomte no capítulo “ De Galileu à Internet, na parte“Cientistas no Vaticano”, é abordado todo o tratamento dado por João Paulo II à questão deGalileu, Copérnico, da visão polonesa sobre este assunto, da rivalidade igreja x ciência dizendoclaramente o problema da Igreja precisar se desfazer de ‘uma imagem arcaica e obscurantistaque contribuia para desacreditá-la junto à novas gerações.” (P.622). Lembramos este ponto sópara mostrar que é possível falar de problemas reais de forma clara e objetiva sem conduçõesque podem levar mais a “pré-conceitos” do que a esclarecimentos sobre os problemas ligados aJoão Paulo II e seu tempo. Por isto esta biorgrafia nos parece irá ajudar mais a tratar osdocumentos da época. Lembramos que foi este o móvel desta despretenciosa análisecomparativa.E já chega. Quem quiser saber mais sobre o papa João Paulo II deve ler a biografia de Lecomte.Sem dúvida. Ou quem sabe melhor seus documentos. A vida o papa tem realmente passagenssurpreendentes, mesmo sem conluios sensacionalisticamente adornados.Para onde apontou a comparaçãoA diferença entre a abordagem de uma “cena” narrada em ambos os livros, qual seja a dorecebimento por parte de João Paulo II de sua comitiva polonesa logo após a eleição Papal,apontaram a direção de nossa dissertação de fim de curso.Na cena em questão, em Bernestein, tem-se a impressão de se tratar de uma cúria burocráticaenfrentada por um papa rebelde que prefere atender os seus amigos poloneses do que cumprir oprotocolo da cúria romana. ( olha aí o saborzinho de fofoquinha de tablóide sensacionalista...).
  10. 10. . . .No livro de Lecomte a mesma cena diz outra coisa: o papa, tendo vindo da Polônia há apenas .alguns dias atrás, com o Primaz da Polônia, para o conclave, encontra-se com ele logo após aeleição e, se “até ontem” ele, o Papa João Paulo II, devia reverência ao seu Primaz, da Polônia,mesmo tendo ficado “mais importante” agora que se tornara papa, não só não permite adeferência do Primaz em toda sua extensão, como o acolhe em vez de a quem a cúria romanapretende.Ou seja, como bom polonês continua reverenciando o seu Primaz. Nos parece que esta segundainterpretação é mais plausível. Em bom português diríamos que o Papa “não ficou metido” apósa eleição. Será que isto é exaltação papal ou prova de que o cristianismo levado à sério, como é 4natural em quem vem do Baluarte da Cristandade (antemurale christianitatis) leva a certosentendimentos que em última instância são importantes para compreender aspectos do séculoXX?Essa incapacidade de ver a doutrina cristã em si mesma como elemento da ação política de JoãoPaulo II, preferindo-se trocá-la por “suspeitas” de toda sorte, que divide o mundo em esquerda edireita e já pouco explica, levaram-nos a perceber que a questão da dignidade da pessoahumana, que foi a principal ferramenta de João Paulo II para enfrentar os totalitarismos sejam demercado ou de estado, não seria, talvez, propriamente considerada.Talvez o que vamos dizer agora soe como uma grande bobagem mas não poderíamos estabelecerconsiderar ao menos em nossa dissertação de fim de curso, as seguintes questões?Não teria sido melhor, ao invés de colocar o Papa João Paulo II como simplesmente aliado dosEstados Unidos contra o Comunismo, vê-lo como uma das forças que naturalmente se oporiamaos totalitarismos do século XX pela própria proposição da doutrina cristã posta em marcha porJoão Paulo II com os seus apelos à dignidade da pessoa humana?Não se pode deduzir, da disputa entre dois materialismos, o comunista e o materialismocapitalista que esse não foi o debate que sobreviveu para o novo milênio, mas sim, nestestempos de globalização a disputa entre a primazia da pessoa humana ao materialismo?4 Até em documentos da Sé apostólica a Polônia é tida como o Baluarte da Cristandade, antemurale christianitatis. Fonte: Diálogocom João Paulo II, André Frossard. 10
  11. 11. A subordinação da pessoa ao materialismo neoliberal internacionalizado, ou submetida àsdeterminações do Estado planificado ou ainda do partido (caso do nazismo) não constituem oque importa ser questionado? Foi isto que o papa João Paulo II propôs com suas teses sobre adignidade humana.Não foi esse esquecimento da pessoa que formou esses totalitarismos e que se recrudescem naglobalização de hoje? Enquanto houve uma “disputa” entre dois sistemas materialistas em queambos de alguma maneira descartavam as posições da Igreja, quer porque ópio do povo, querporque arcaica em relação à ciência não ocorreu um recrudescimento da concepão materialistaque hoje perpassa toda a cultura moderna recrudescendo a “inumanidade” das relações restritasao que se pode “comprar” no mercado?Vejamos melhor, a que nos referimos, usando palavras de João Paulo II: "Una ayuda importante e incluso decisiva la ha dado la iglesia con su compromiso en favor de la defensa y promoción de los derechos del hombre. En ambientes intensamente ideologizados, donde posturas partidistas ofuscaban la conciencia de la común dignidad humana, la Iglesia ha afirmado con sencillez y energía que todo hombre -sean cuales sean sus convicciones personales- lleva dentro de sí la imagen de Dios y, por tanto, merece respeto. En esta afirmación se ha identificado con frecuencia la gran mayoría del pueblo, lo cual ha llevado a buscar formas de lucha y soluciones políticas más respetuosas con la dignidad de la persona humana." JOÃO PAULO II , Enc. Centesimus annus.O capitalismo neoliberal espera que o mercado nivele as diferenças de distribuição. O marxismofaz uma redução da história ao seu substrato econômico onde o materialismo histórico fazendo asuperação da filosofia do pensamento por uma filosofia da práxis vê o homem apenas como umapeça, uma engrenagem que faz funcionar a máquina que é a sociedade.Por este último entendimento o Papa seria, na verdade, um “romântico’ no sentido doromantismo ilustrado e ateu de Feuerbach superado pela praxis marxista ou, agora, superado pelaeficiência científica da cultura capitalista que dispensa essas conclamações humanistas de JoãoPaulo II por serem arcaizantes, obscurantistas.Enquanto isso no processo de globalização, agora em curso, os problemas da fome e da misériacontinuarão a ser vistos principalmente em termos econômicos sem se pleitear com firmeza,
  12. 12. . .como fez o Papa João Paulo II na sua época, a subordinação da economia e dos descobrimentos .científicos e tecnológicos às necessidades do homem. Descartando-se esse ideário cristão queesteve na base .dos melhores anseios da civilização ocidental acreditamos que a exclusão serámaior e mais dura porque as melhorias materias alcançadas pela ciência e pelo capitalismo serãosomente para os que as podem pagar. Assim, há sempre o risco da dignidade humana continuar,neste terceiro milênio, a ser ameaçada principalmente se quem a defende tão sistematicamente édesqualificado no jogo de valores que regerão as relações internacionais no materialismoglobalizado.Mas não há novidade em nada disto. Há dois mil anos, Cristo já dizia “O sábado é para o homeme não o homem para o sábado.” 12

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