ROBIN COOK  CHOQUEhttp://groups.google.com/group/digitalsource
A célula do óvulo humano, ou oócito, que tinha sido atraída pela ligeira sucção da ponta aguçadada pipeta, não se distingu...
PRÓLOGO                                       6 de ABRIL de 1999        — Sente-se confortável? — perguntou o Dr. Paul Sau...
queria comunicar a sua impaciência e insatisfação. Não o deviam ter chamado enquanto não estivessetudo pronto. O seu tempo...
podia acontecer: uma grande complicação com uma pessoa jovem e saudável que sofria uma intervençãomeramente eletiva.      ...
— Temos um problema — disse Paul.       — Estou a ouvir — respondeu Kurt. A cadeira rangeu quando ele se recostou.       —...
— Não arrefeceu nada — protestou Carlton. — Eu quero casar contigo.        — Lamento, mas não és convincente; não ao fim d...
— Tomar decisões acerca de quê? — perguntou Carlton.         A firmeza na voz que encontrara antes desaparecera. Agora bal...
Se acontecer, ótimo; se não, também não faz mal.        — Palavra de honra! — exclamou Deborah, incapaz de esconder a aleg...
— Pois parece que sim — atalhou Deborah. Tinha ficado sem fala.        O telefone quebrou o curto silêncio. Deborah levant...
nunca mais apareceu. Achas que é genuíno ou que é uma brincadeira de estudantes?        — Acho que é genuíno — respondeu D...
vez, mas só durante alguns dias, e tinha ido com os pais e irmãos, estava ela no secundário. Podiaimaginar o brilho das ág...
— Ouve, acho que talvez possamos — disse Deborah. — A questão da doação de óvulos surgiunum debate de grupo no laboratório...
— Acho que não há mal em obter mais informação — disse Joanna. — Mas certamente que nãovou me comprometer, exceto a uma ev...
mulheres haviam debatido os prós e os contras. Deborah estava inteiramente a favor de prosseguir e o seuentusiasmo acabou ...
— Eu vi — disse Deborah, e ligou o pisca.         Após mais vinte minutos numa estrada estreita de duas vias, ladeada por ...
— Bem, já não há doentes mentais nem tísicos — acrescentou Deborah.        — Pois claro que não — disse o dono. — o Cabot,...
coisas estavam a ficar cor-de-rosa.         Quando chegara ao Massachusetts, e porque pensara ter dificuldade em obter a l...
— Mas tentaste? — insistiu Paul.        — Claro que tentei — disse Sheila, irritada.        — Está bem, Carl que fale com ...
— Não deve haver nada mais inadequado numa clínica de infertilidade.         — Acho que tens razão — anuiu Deborah.       ...
— Está bem, vamos a isto.       — Tens a certeza? Quer dizer, não te sentes obrigada, pois não? — Joanna abanou a cabeça. ...
de momento?        — A clínica ocupa o edifício todo? — inquiriu Deborah.        — Não, credo! O edifício é enorme. Alberg...
— Presumo que a informaram que preferimos anestesia geral ligeira para extrações de óvulos.         — A Dra. Donaldson ass...
— Qual das duas é a Menina Meissner? — chamou.         Joanna ergueu a mão.         Cynthia deu uma palmada na maca, que t...
contrastes vagamente inquietantes. Deborah queria, tanto como Joanna, ver a extração de óvulos pelascostas.        Abriu-s...
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  1. 1. ROBIN COOK CHOQUEhttp://groups.google.com/group/digitalsource
  2. 2. A célula do óvulo humano, ou oócito, que tinha sido atraída pela ligeira sucção da ponta aguçadada pipeta, não se distinguia das suas cerca de sessenta irmãs. Era simplesmente a mais próxima daextremidade da pequena vareta de vidro quando esta entrou no campo de visão do analista. O grupo deoócitos estava suspenso numa gota de fluido de cultura, sob uma fina camada de óleo mineral, e debaixoda objetiva de um potente microscópio de dissecação. O óleo impedia a evaporação. Era sumamenteimportante que o ambiente destas células vivas permanecesse adequadamente estável. Tal como os outros, o oócito fixado parecia saudável, com uma granulosidade apropriada dorespectivo citoplasma. Também como os outros, a sua cromatina, ou ADN brilhava à luz ultravioletacomo moscas diminutas numa bruma de sopa de ervilhas. A única prova da prévia rude aspiração dacélula do seu folículo em desenvolvimento residia nos restos esfarrapados da corona radiata de célulasgranulosas aderentes ao invólucro, comparativamente denso, denominado zona peflucida. Os oócitoshaviam sido todos puxados prematuramente do seu ninho ovariano e encorajados a amadurecer in vitro.Nesse momento, estavam prontos para a penetração espermática, mas não seria o caso. Estes gametasfemininos não seriam fertilizados. Surgiu outra pipeta no campo de visão. Parecia um instrumento mais letal, especialmente debaixoda forte ampliação do microscópio. Apesar de ter somente vinte e cinco milionésimos de um metro dediâmetro, parecia uma espada com a ponta afiada como uma agulha. Inexoravelmente, acercou—se dogameta imóvel e indefeso e entrou na zona peflucida da célula. Em seguida, com um toque experiente doanalista no micrometro que controlava a pipeta, a ponta desta mergulhou no interior da célula. Avançandopara o ADN brilhante, aplicou-se uma ligeira sucção no interior da pipeta e o ADN desapareceu dentro davareta de vidro. Mais tarde, depois de verificar se o gameta e os seus irmãos tinham agüentado o suplício daenucleação tão bem como se esperava, a célula voltou a ser imobilizada. Introduziu-se outra pipeta afiada,desta vez com a penetração limitada à zona peflucida, poupando a membrana celular do oócito, e em vezde aplicar sucção, inseriu-se uma leve quantidade de fluido no que se chama espaço perivitelino. Juntocom o fluido veio uma única célula adulta, menor, em forma de fuso, obtida do esfregaço de uma bocahumana adulta. O passo seguinte implicou suspender os gametas, com o seu par de células epiteliais adultas, emquatro mililitros de um meio de fusão, e colocá-las entre os elétrodos de uma câmara de fusão. Quando osgametas já estavam devidamente alinhados, enviou-se uma corrente elétrica de noventa volts para o meio,durante quinze milionésimos de segundo. O resultado foi idêntico em todos os gametas: o choque fez comque as membranas entre os gametas enucleados e respectivas células parceiras adultas se dissociassemmomentaneamente, fundindo as duas células. Na seqüência do processo de fusão, as células foram colocadas num meio de ativação. Sobestimulação química, cada gameta que estivera pronto para a fertilização antes da remoção do ADN faziamaravilhas agora, como seu complemento integral de cromossomas. Seguindo um misterioso mecanismomolecular, os núcleos adultos abandonaram os seus anteriores deveres epiteliais e regressaram ao seupapel embrionário. Após breve período, cada um dos gametas começou a dividir-se para formar embriõesindividuais, os quais brevemente ficariam prontos para implantação. O doador das células adultas haviasido clonado. Na realidade, havia sido clonado cerca de sessenta vezes...
  3. 3. PRÓLOGO 6 de ABRIL de 1999 — Sente-se confortável? — perguntou o Dr. Paul Saunders à sua doente, Kristin. Overineyer,deitada na velha mesa de operações, vestida somente com a bata sem costas do hospital. — Acho que sim — respondeu Kristin, embora não estivesse nada confortável. Os ambienteshospitalares causavam-lhe sempre uma ansiedade tolerável, mas nunca agradável, e a sala em questão eraparticularmente pouco simpática. Tratava-se de um antigo bloco operatório cuja decoração eradiametralmente oposta ao utilitarismo estéril de uma unidade médica moderna. Tinha as paredes cobertaspor azulejos de um verde-bilioso, rachados e com borrões escuros, provavelmente de sangue quemanchara a argamassa. Parecia mais um cenário de filme de terror gótico passado no século xix do queum espaço usado nos dias de hoje. Havia ainda níveis de assentos para observação que desapareciam naobscuridade, para além do alcance dos holofotes suspensos. Ainda bem que os assentos estavam todosvazios. —“Acho que sim” não me convenceu — disse a Dra. Sheila Donaldson do outro lado da mesa deoperação, em frente ao Dr. Saunders. Sorriu para a doente, ainda que o único efeito perceptível tenha sidoas ruguinhas nos cantos dos olhos. Tinha o rosto oculto por uma máscara cirúrgica e um capuz. — Quem me dera que isto acabasse — conseguiu Kristin dizer. Nesse momento, desejou não ter se oferecido para doação de óvulos. O dinheiro dar-lhe-ia umaliberdade financeira a que poucos dos seus colegas de Harvard poderiam aspirar, mas isso agora nãoparecia importante. O único consolo é que depressa estaria a dormir; a pequena intervenção seria indolor.Quando lhe tinham dito que escolhesse entre anestesia geral ou local, ela preferira a primeira sem hesitarum segundo. A última coisa que queria era estar acordada enquanto lhe metiam uma agulha de aspiraçãode 30 cm na barriga. — Espero que possamos tratar disto ainda hoje — disse Paul, sarcástico, ao Dr. Cari Smith, oanestesista. Paul tinha muito que fazer naquele dia e só tinha reservado quarenta minutos para aquelaintervenção. Entre a experiência que tinha da operação e a sua destreza com os instrumentos, consideravaque estava a ser generoso ao atribuir quarenta minutos. O único obstáculo era Carl; Paul não podiacomeçar enquanto a doente não estivesse adormecida e os minutos passavam inexoravelmente. Carl não respondeu. Paul estava sempre com pressa, Carl concentrou-se em pôr a cabeça doestetoscópio precordial no peito de Kristin. Já tinha o soro a funcionar, a manga da tensão arterial a jeito,as sondas de EM colocadas e o oxímetro do pulso no lugar. Satisfeito com os sons que ouvira através doauricular, esticou o braço e puxou a máquina da anestesia para junto da cabeça de Kristin. Estava tudo apostos. — Pronto, Kristin — disse Carl, apaziguador. — Tal como lhe expliquei antes, vou dar-lhe umpouco de “leite de amnésia”. Está preparada? — Estou — respondeu Kristin. No que lhe dizia respeito, quanto mais depressa melhor. — Boa soneca — desejou Carl. — Da próxima vez que falarmos será na sala de recuperação. Era o comentário habitual de Carl para o doente antes de começar a anestesia e era, com efeito, ocurso natural das coisas. Porém, nesta ocasião, não seria assim. Jovialmente inconsciente da catástrofeiminente, Carl pegou no tubo de soro onde tinha inserido o agente anestésico. Com facilidadeexperimentada, deu à doente a dose predeterminada com base no seu peso, mas nivelada por baixo dadosagem recomendada. Era política da Clínica de Infertilidade Wingate, para anestesia de doentesexternas, dar às doentes a quantidade mais baixa de qualquer medicamento apropriado. O objetivo era daralta no mesmo dia, dado que as instalações da clínica para doentes internadas eram limitadas. Carlobservou atentamente enquanto a dose de indução de propofol entrava no organismo de Kristin, olhando eescutando os seus dispositivos de monitorização. Parecia estar tudo em ordem. Sheila riu debaixo da máscara. “Leite de amnésia” era a alcunha que Carl dava na brincadeira aoagente anestésico propofol, administrado sob forma de líquido branco; e o termo nunca deixava de apelarao sentido de humor dela, — Podemos começar? — inquiriu Paul. Alternou o próprio peso de uma perna para a outra. Sabia que ainda não podia começar, mas
  4. 4. queria comunicar a sua impaciência e insatisfação. Não o deviam ter chamado enquanto não estivessetudo pronto. O seu tempo era valioso demais para ele ficar ali expectante enquanto Carl mexia nosbrinquedos dele. Continuando a ignorar a impertinência de Paul, Carl concentrou-se na tarefa de testar o nível deconsciência de Kristin. Satisfeito por ela ter atingido um estado apropriado, injetou o relaxante muscularmivacurium, que ele preferia a muitos outros devido ao seu rápido tempo de recuperação espontânea.Depois de o mivacurium fazer efeito, introduziu destramente um tubo endotraqueal para poder controlaras vias respiratórias de Kristin. Depois sentou-se, ligou a máquina da anestesia e fez sinal a Paul de quetudo estava preparado. — Já não era sem tempo — resmungou Paul. Ele e Sheila envolveram rapidamente a doente paraa laparoscopia. O alvo era o ovário direito. Carl sossegou, depois de ter introduzido os dados no registro de anestesia. Naquela altura, o seupapel era observar os monitores e manter a anestesia, controlando cuidadosamente o estado deconsciência da doente com uma infusão de propofol contínua. Paul movia-se rapidamente e Sheila antecipava cada movimento seu. Com Constance Bartolo, aenfermeira instrumentista, e Maorie Hickarn, a enfermeira volante, a equipe trabalhava com eficiênciamilimétrica. Nesta altura não havia conversa nenhuma. A primeira finalidade de Paul era introduzir o trocarte da unidade de insuflação para encher acavidade abdominal da doente com gás. Era a criação de um espaço cheio de gás que viabilizava acirurgia laparoscópica, Sheila ajudava, prendendo duas pregas de pele em torno do umbigo de Krístincom pinças de compressas e puxando para cima a parede abdominal descontraída. Entretanto, Paul fizerauma pequena incisão no umbigo e começara a empurrar a agulha de insuflação Veress, com quase 30 cm. Em suas mãos experientes, podia ouvir-se distintamente dois estalidos, enquanto a agulha passavapara a cavidade abdominal. Segurando firmemente na agulha pelo rolo serrilhado, Paul ativou a unidadede insuflação. Instantaneamente, o dióxido de carbono começou a fluir para a cavidade abdominal deKristin, ao ritmo de um litro de gás por minuto. Enquanto esperavam que entrasse a quantidade de gás adequada, deu-se a catástrofe. Carl estavapreocupado a procurar nos monitores cardiovascular e respiratório sinais da crescente pressão intra-abdominal e não reparou em dois movimentos aparentemente inócuos: Kristin pestanejou e moveuligeiramente a perna esquerda. Se Carl ou um deles os tivesse notado, teriam percebido que o nível deanestesia de Kristin era baixo. Ainda estava inconsciente, mas quase a acordar, e o desconforto da pressãocrescente na barriga contribuiu para despertá-la. Subitamente, Kristin gemeu e soergueu-se. Carl agiu por reflexo, agarrando-lhe os ombros eempurrando-a para baixo. Mas era tarde de mais. Ao levantar-se na mesa, forçara a agulha Veress na mãode Paul a penetrar mais fundo na sua barriga, furando uma grande veia intra-abdominal. Antes de Paulpoder parar a unidade de insuflação, uma grande bolha de gás entrara no sistema vascular de Kristin. — Oh, meu Deus! — gritou Carl ao ouvir no auricular o começo do revelador murmúrio derotação, enquanto o gás chegava ao coração dela; um ruído que parecia o ciclo de centrifugação de umamáquina de lavar. — Temos uma embolia de gás — gritou. — Virem-na para o lado esquerdo! Paul puxou a agulha ensangüentada e atirou-a para o chão. Ajudou Carl a virar Kristin, numa vãtentativa de manter o gás isolado no lado direito do coração. Depois, Paul inclinou-se para cima dela paramantê-la na posição. Mesmo estando ainda inconsciente, ela se debatia. Entretanto, Carl apressava-se aintroduzir, o mais assepticamente possível, um cateter na veia jugular de Kristin. Esta resistiu e debateu-se contra o peso que tinha em cima. A inserção do cateter era como tentar atingir um alvo em movimento.Carl pensou em aumentar o propofol ou em dar-lhe mais mivacurium, mas relutava em dispor dessetempo. Por fim, conseguiu pôr o cateter, mas quando puxou o êmbolo da seringa só trouxe uma espumasanguinolenta. Repetiu a operação com o mesmo resultado. Abanou a cabeça, desalentado, mas antes depoder dizer alguma coisa, Kristin retesou-se e depois entrou em convulsões. O seu corpo foi sacudido porum ataque de grandes proporções. Freneticamente Carl tratou deste novo problema enquanto se debatia com a sensação de fracassoque o assaltava. Sabia muito bem que a anestesiologia era uma profissão marcada por uma rotinarepetitiva e entorpecedora, ocasionalmente devastada por episódios de puro terror, e este era o pior que
  5. 5. podia acontecer: uma grande complicação com uma pessoa jovem e saudável que sofria uma intervençãomeramente eletiva. Tanto Paul como Sheila se tinham afastado com as mãos enluvadas torcidas em frente ao peito.Junto com as duas enfermeiras, assistiam enquanto Carl lutava para acabar com o ataque de Kristin. Umavez terminado e com Kristin já deitada de costas e imóvel, ninguém disse palavra. O único som que seouvia, além do ruído abafado do rádio que passava pela porta fechada da sala de esterilização, era amáquina da anestesia a respirar pela doente. — Qual é o veredicto? — perguntou Paul, finalmente. A voz não tinha emoção e ressoava nosazulejos. Carl expirou como um balão a esvaziar-se. Hesitante, estendeu as mãos com os dedos indicadoresesticados e abriu as pálpebras de Kristin. Ambas as pupilas estavam muito dilatadas e não reagiram àluminosidade do holofote suspenso. Ele tirou a sua caneta luminosa do bolso e apontou o feixe para osolhos de Kristin. Não houve reação alguma. — Não está com bom aspecto — resmungou Carl. Tinha a garganta seca. Nunca lhe tinhaacontecido tal complicação. — Ou seja? — inquiriu Paul. Carl engolia com dificuldade. — Ou seja, eu acho que ela teve um enfarte. Quer dizer, há coisa de um minuto estava bem eagora se passou, só Deus sabe como. Nem sequer respira sozinha. Paul acenou com a cabeça enquanto ponderava a questão. Depois tirou as luvas e atirou-as para ochão, desatou a máscara e deixou-a cair no peito. Olhou para Sheila. —Porque não continua com a intervenção? Pelo menos ganha prática. E faça dos dois lados. — Sério? — indagou Sheila. — Não é de desperdiçar — retrucou Paul. — Que vai fazer? — perguntou Sheila. — Vou procurar Kurt Hermann e ter uma conversinha com ele — disse Paul enquanto desatava etirava a bata. — Mesmo que seja um incidente infeliz, não é que não tenhamos previsto tal catástrofe, epelo menos tomamos medidas. — Tenciona informar Spencer Wingate? —perguntou Sheila. O Dr. Wingate era o fundador ediretor titular da clínica. — Não sei — redargüiu Paul. — Depende. Prefiro agüentar e ver no que dá. O que sabe dachegada de Kristin Overineyer à clínica hoje? — Veio no carro dela — respondeu Sheila. — Está no estacionamento. — Veio sozinha? — Não. Tal como lhe dissemos, trouxe uma amiga — disse Sheila. — Chama-se Rebecca Corey eestá na sala de espera. Paul encaminhava-se para a porta e trocou um olhar com Carl. — Lamento — disse este. Paul hesitou um momento. Apetecia-lhe dizer ao anestesista o que pensava dele, mas mudou deidéia. Paul queria manter a cabeça fria e, se entrasse numa discussão com Carl naquele momento, ficariaalterado. Já bastava que Carl o tivesse feito esperar tanto tempo. Sem sequer tirar a farda cirúrgica, Paul agarrou numa bata branca comprida na sala adjacente.Enfiou-a enquanto descia escada abaixo. Passando o primeiro andar, saiu para o relvado, que já davasinais da chegada da primavera. Com o casaco apertado à sua volta por causa do vento fustigante doinício de abril na Nova Inglaterra, apressou-se para a portaria de pedra da clínica. Encontrou o chefe dasegurança atrás de uma secretária velha e usada, debruçado sobre o calendário departamental para o mêsde maio. Se Kurt Hermann ficou surpreendido pela chegada súbita do homem que geria a Clínica Wingate,não o demonstrou. Além de erguer o olhar, o único sinal de percepção da presença de Paul foi levantar asobrancelha direita. Paul puxou uma das cadeiras de costas direitas que enchiam o esparso gabinete e sentou-se emfrente ao chefe da segurança.
  6. 6. — Temos um problema — disse Paul. — Estou a ouvir — respondeu Kurt. A cadeira rangeu quando ele se recostou. — Tivemos uma grande complicação com a anestesia. Uma catástrofe, mesmo. — Onde está a doente? — Ainda está no BO, mas sai daqui a pouco. — Nome? — Kristin Overineyer. — Veio sozinha? — perguntou Kurt enquanto tomava nota do nome de Kristin. — Não. Veio com uma amiga chamada Rebecca Corey. A Dra. Donaldson diz que ela está na salade espera. — Como é o carro? — Não faço idéia — admitiu Paul. — Vamos descobrir— disse Kurt. Ergueu os olhos azuis-metálicos para encarar Paul. — Foi para isto que vos contratamos — afirmou Paul, num tom cortante. — Quero que trate distoe não quero saber mais nada. — Fique descansado — disse Kurt. Ele pousou a caneta com cuidado, como se fosse algo frágil. Por momentos, os dois homensolharam um para o outro. Depois, Paul levantou-se, virou-se e desapareceu na manhã desabrida de abril. 8 de outubro de 1999 23:15 h. —Deixa-me ver se percebi — disse Joanna Meissner a Carlton Wiliams. Os dois estavam sentadosàs escuras dentro do jipe Cherokee de Carlton numa zona de estacionamento proibido em Cambridge,Massachusetts. — Tu decidiste que era melhor só casarmos depois de tu acabares o estágio de Cirurgia,daqui a três ou quatro anos. — Ainda não decidi nada — disse Carlton, na defensiva, — Estamos a debater isto agora. Joanna e Carlton tinham ido jantar na Praça de Harvard, nessa noite de sexta-feira e estavam adivertir-se até Joanna mencionar a questão problemática dos seus planos a longo prazo. Como sempre, apartir desse momento, o tom da conversa tinha se deteriorado. Já tinham abordado o assunto várias vezesno passado, a propósito do seu noivado. Tinham uma relação já longa; conheciam-se desde o jardim deinfância e só tinham namorado um com o outro desde o nono ano, — Escuta — disse Carlton, apaziguador. — Só estou a tentar pensar no que é melhor para nósdois. — Oh, tretas! — saltou Joanna. Apesar de ter prometido a si própria manter a calma, podia sentira raiva a fervilhar, como se fosse um reator nuclear prestes a explodir. — Estou a falar sério! — disse Carlton. — Joanna, estou a trabalhar que nem um cão. Tu sabesquantas vezes estou de banco. Sabes as horas... Ser estagiário no Massachusetts General Hospital é muitomais exigente do que eu imaginava, — Mas que diferença faz? — estalou Joanna, incapaz de dissimular a irritação, que eradolorosamente óbvia. Não podia evitar sentir-se traída e rejeitada. — Faz muita diferença — persistiu Carlton. — Estou esgotado. Não sou boa companhia. Nãoconsigo ter uma conversa normal fora do âmbito do hospital. É patético. Nem sei o que se passa emBoston, quanto mais no mundo. — Esse tipo de comentário podia ter alguma validade se nós saíssemos casualmente. Mas o fato éque nós namoramos há onze anos. E até eu abordar este assunto delicado de marcar a data esta noite, tuestavas a divertir-te e eras boa companhia. — Porque gosto muito de te ver... — disse Carlton. — Que reconfortante! — interpôs Joanna, sarcástica. — o que eu acho ainda mais irônico nistotudo é que foste tu quem me pediu em casamento e não o contrário. Só que já foi há sete anos. Eu diriaque isto demonstra que o teu ardor arrefeceu significativamente.
  7. 7. — Não arrefeceu nada — protestou Carlton. — Eu quero casar contigo. — Lamento, mas não és convincente; não ao fim deste tempo todo. Primeiro querias acabar ocurso. Tudo bem. Não havia problema. Até achei apropriado. Depois achaste que podias fazer osprimeiros dois anos de Medicina. Nem isso me incomodou, já que assim consegui fazer a maior parte dotrabalho para o meu doutoramento. Mas depois pensaste que era melhor adiar as coisas até acabaresmedicina. Estabelece-se aqui um padrão ou só eu é que o vejo? Depois veio a questão de passar oprimeiro ano de estágio. E estúpida como sou até concordei nisso, mas agora é o estágio todo. E a bolsade que falaste no mês passado? Depois disso até és capaz de querer esperar até abrir consultório. — Estou a tentar ser racional acerca disto — disse Carlton. — É uma decisão difícil, e compete-nos aos dois pesar os prós e contras... Joanna já não o ouvia. O seu olhar verde-esmeralda afastou-se do rosto do noivo que, reconheciaela, nem a olhava enquanto falava, Aliás, evitara olhar para ela durante a conversa toda; tanto quanto seapercebera, ele só a olhara de soslaio durante o seu monólogo. Com ar ausente, olhou para longe. Derepente, era como se uma mão invisível a tivesse esbofeteado. A sugestão de Carlton de adiar novamentea data do casamento causara uma epifania e ela deu por si a rir, não com humor, mas de descrença. Carlton parou a meio da sua enumeração dos prós e contras de casar mais cedo e não mais tarde. — De que é que estás a rir? — perguntou. Ele ergueu os olhos com que fixava as chaves na ignição e olhou para Joanna na obscuridade docarro. O rosto dela era uma silhueta contra a janela, iluminado por um candeeiro cuja luz brotava pelovidro adentro. O seu perfil elegante e delicado estava recortado pelo cabelo lustroso e loiro como espigade milho, que parecia brilhar à média luz. Lampejos como diamantes brilhavam nos seus dentes brancos,pouco visíveis através dos lábios entreabertos e cheios. Para Carlton, era a mulher mais bela do mundo,mesmo quando o atormentava. Ignorando a pergunta de Carlton, Joanna continuou a rir suave e tristemente, à medida que aclareza da sua revelação se aprofundava. Subitamente conseguira reconhecer a pertinência daquilo que asua companheira de quarto Deborah Cochrane e as suas outras amigas lhe andavam a apregoar desdesempre, nomeadamente, que o casamento de per si não devia ser a finalidade da vida dela. Afinal,estavam certas: ela tinha sido programada durante toda a sua educação suburbana típica de Houston.Joanna não podia crer que tinha sido tão estúpida durante tanto tempo e tão renitente em questionar umsistema que aceitara de olhos vendados. Ainda bem que, enquanto flutuava à espera de Carlton, tivera aesperteza de lançar as bases de uma carreira compensadora. Só lhe faltava a tese de doutoramento emEconomia em Harvard, além de possuir extensas competências informáticas. — De que é que estás a rir? — insistiu Carlton. — Vá lá! Fala comigo. — Estou a rir de mim própria — disse finalmente Joanna. Virou-se para encarar o noivo. Eleparecia perplexo, de sobrolho franzido. — Não percebo — disse Carlton. — É curioso — redargüiu Joanna. — Eu vejo tudo com grande clareza. Olhou para o anel de noivado na mão esquerda. O solitário de diamante sugava a fraca luzcircundante e devolvia-a a Joanna com surpreendente intensidade. A pedra pertencera à avó de Carlton eJoanna ficara radiante ao recebê-la, devido ao seu valor sentimental. Mas agora só lhe recordava a suaprópria ingenuidade. Uma súbita sensação de claustrofobia assaltou Joanna. Sem aviso, destrancou aporta, escorregou para fora do carro e ficou em pé, no passeio. — Joanna! — chamou Carlton. Debruçou-se no carro e espreitou. O rosto de Joanna tinha uma expressão decidida. Os seus lábioshabitualmente suaves estavam apertados com determinação sombria. Carlton começou a perguntar a Joanna o que se passava, ainda que já calculasse. Ainda antes deacabar a frase, a porta do carro bateu-lhe na cara. Endireitou-se e procurou o comando do vidro da janelado passageiro. Quando a janela abriu, Joanna virou-se para ele. O seu semblante não tinha mudado. — Não me insultes a perguntar o que se passa — disse ela. — Estás a ser pouco adulta nisto — afirmou Carlton, firmemente. — Obrigada pela tua apreciação imparcial — retrucou Joanna. — Também te quero agradecer portornares as coisas tão claras para mim. Fica muito mais fácil tomar decisões.
  8. 8. — Tomar decisões acerca de quê? — perguntou Carlton. A firmeza na voz que encontrara antes desaparecera. Agora balbuciava. Tinha um pressentimentoacerca do que se seguia, junto com uma sensação de desânimo na boca do estômago. — Acerca do meu futuro — disse Joanna. — Toma! — estendeu o punho fechado com evidenteintenção de dar algo a Carlton. Carlton esticou a mão em concha. Sentia que lhe ia cair alguma coisa na mão. Olhou para baixo eviu o diamante da avó. — Isto é para quê? — titubeou Carlton. — Parece-me muito claro — disse Joanna. — Considera-te livre para acabares o estágio e o quemais a tua cabecinha desejar. Não quero que pense em mim como um fardo. — Não estás a falar a sério? — indagou Carlton. Fora apanhado desprevenido pela viragem nosacontecimentos, e estava aturdido. — Oh, mas estou mesmo — disse Joanna. — Considera o nosso noivado oficialmente acabado.Boa noite, Carlton. Joanna virou-se e caminhou pela Rua Craigie em direção à Avenida Concord e à entrada doCraigie Arins. O apartamento dela ficava no terceiro piso, Após breve luta com o comando da porta, Carlton saltou do jipe e correu atrás de Joanna, que jáchegara à esquina. Algumas folhas vermelhas de ácer, caídas nesse mesmo dia, restolhavam debaixo dosseus pés. Apanhou a sua antiga noiva quando ela estava prestes a entrar no prédio. Estava ofegante.Segurava o anel de noivado na mão fechada. — Está bem — conseguiu Carlton dizer. — Já te afirmaste. Toma lá o anel. — Estendeu o braço. Joanna abanou a cabeça. A sua determinação sombria desaparecera para dar lugar a um tênuesorriso. — Eu não te devolvi o anel para fazer joguinhos. Nem estou realmente zangada. É evidente quenão te queres casar agora e, de repente, eu também não. Deixemos o assunto. Ainda somos amigos. — Mas eu amo-te — balbuciou Carlton. — Sinto-me lisonjeada — disse Joanna. — E acho que ainda te amo, mas as coisas arrastam-se hádemasiado tempo. Vamos seguir caminhos separados, pelo menos por agora. — Mas... — Boa noite, Carlton — disse Joanna. Pôs-se em bicos de pés e tocou com os lábios na face de Carlton, Momentos depois estava noelevador. Não olhara para trás. Ao rodar a chave na fechadura percebeu que tremia. Apesar da formaaltiva como despachara Carlton, sentia as emoções em torvelinho logo à superfície. — Uau! — exclamou a companheira de quarto, Deborah Cochrane. Olhou para a barra deferramentas do seu computador para ver as horas. — É muito cedo para uma sexta à noite. Que é que tedeu? Deborah vestia roupas largas com o brasão de Harvard. Em comparação com a feminilidade deporcelana da sua companheira, parecia algo maria-rapaz, com cabelo escuro curto, uma tez mediterrânicae porte atlético. As suas feições ajudavam, sendo fortes e mais arredondadas do que as de Joanna, masnão menos femininas, No conjunto, as companheiras de quarto complementavam-se e enfatizavam oencanto natural uma da outra. Joanna não respondeu, enquanto pendurava o casaco no armário do vestíbulo. Deborah observou-aentrar na sala pouco mobiliada e a cair no sofá. Sentou-se, enlaçou os joelhos com os braços e encarou oolhar inquisidor de Deborah. — Não me digas que tiveram uma discussão — disse esta. — Não foi bem uma discussão — retrucou Joanna. — Só uma separação de caminhos. Deborah ficou de queixo caído. Conhecia Joanna há seis anos, desde calouras, e Carlton era algofixo na vida de Joanna. No que lhe dizia respeito, não havia o menor vestígio de discórdia naquelerelacionamento. — Que é que aconteceu? — perguntou, espantada. — Vi a luz, de repente — respondeu Joanna. Tinha um leve trinado na voz, que Deborah notoulogo. — Acabei o noivado e, muito mais importante, não vou contar com casamento nenhum, ponto final.
  9. 9. Se acontecer, ótimo; se não, também não faz mal. — Palavra de honra! — exclamou Deborah, incapaz de esconder a alegria na sua voz. — Nempareces a rapariguinha casadoira que só pensava em bolos e vestidos, e de quem eu aprendi a gostar. Porque é que mudaste de idéia? — Deborah considerava a marcha de Joanna para o casamento, quasereligiosa na sua intensidade inabalável. — Carlton queria adiar o casamento até acabar o estágio — explicou Joanna. Resumidamente,contou os últimos quinze minutos da sua saída com Carlton. Deborah escutava atentamente. — E tu estás bem? — perguntou Deborah quando Joanna acabou. Inclinou-se para a frente paraolhá-la mais de perto. — Melhor do que poderia imaginar — admitiu ela. — Sinto-me algo abalada, acho eu, mas,apesar de tudo, até estou bem. — Então, isto pede uma comemoração — interpôs Deborah. Levantou-se e foi até a cozinha. —Ando a guardar aquela garrafa de champanhe a ocupar a geladeira há meses — disse por cima do ombro.— Este é o momento de abri-la. — Deve ser — conseguiu dizer. Não se sentia com vontade de comemorar, mas resistir aoentusiasmo de Deborah daria muito trabalho. — Ora bem! — proferiu Deborah, saindo da cozinha com a garrafa na mão e duas taças na outra. Ajoelhou-se junto à mesinha e atacou a garrafa. A rolha saltou com um pop e ricocheteou no teto.Deborah riu, mas reparou que Joanna não. — Tens certeza de que estás bem? — perguntou Deborah. — Tens que convir que é uma grande alteração. — Isso é um eufemismo — retrucou Deborah. —Conhecendo-te como conheço, é o equivalente àqueda de São Paulo a caminho de Damasco. Foste programada para o casamento pelo ambiente social deHouston desde que não eras mais do que a luz dos olhos da tua mãe. Joanna riu-se contra vontade. Deborah deitou o champanhe depressa demais. As taças ficaram cheias de espuma e entornaramem cima da mesa. Decidida, Deborah pegou nelas e passou uma a Joanna. E depois fez Joanna brindarcom ela. — Bem-vinda ao século XXI! — declarou Deborah. Ambas as mulheres ergueram as taças e tentaram beber. Tossiram com a espuma e riram. Semquerer perder o momento, Deborah levou rapidamente as taças para a cozinha, lavou-as e regressou.Desta vez deitou o champanhe com mais cuidado, deixando-o correr pelos lados das taças, Quandobeberam, estava quase todo líquido. — Não é o melhor espumante — admitiu Deborah. — Mas não me espanta, Foi o David que medeu, naquele tempo. Infelizmente ele era sovina como o Tio Patinhas. Deborah tinha acabado um relacionamento de quatro meses com o anterior namorado, DavidCurtis, na semana anterior. Totalmente ao contrário de Joanna, o relacionamento mais longo que tiveradurara menos de dois anos e tinha sido no tempo da escola. As duas mulheres não podiam ser maisdiferentes. Ao invés do meio social suburbano, sulista e abastado, com bailes de debutantes financiadospor dinheiro do petróleo que Joanna conhecera, Deborah crescera em Manhattan com uma mãe solteira eboêmia que estava imersa na vida acadêmica. Deborah nunca conhecera o pai, pois fora a perspectiva doseu nascimento que pusera termo à relação dos pais. A mãe só se casara muito mais tarde, quandoDeborah já tinha entrado para a universidade. — Nunca fui grande apreciadora de champanhe — disse Joanna. — Aliás, nem saberia dizer se édo bom ou não. Revirou a taça entre os dedos, momentaneamente hipnotizada pela efervescência. — Que aconteceu ao teu anel? — perguntou Deborah, reparando pela primeira vez que a jóiadesaparecera. — Devolvi-o — respondeu Joanna com ar casual. Deborah abanou a cabeça. Estava abismada. Joanna adorava aquele diamante e tudo o que elerepresentava. Raramente o tirava do dedo, — Estou decidida quanto a isto — declarou Joanna.
  10. 10. — Pois parece que sim — atalhou Deborah. Tinha ficado sem fala. O telefone quebrou o curto silêncio. Deborah levantou-se para atender. — Deve ser o Carlton, mas eu não quero falar com ele — disse Joanna. Deborah verificou aidentificação do número. — Tens razão, é o Carlton. — Deixa o atendedor de chamadas ligado — disse Joanna. Deborah voltou a sentar-se no sofá. As duas mulheres entreolharam-se enquanto o telefonecontinuava a tocar. Depois do quarto toque a máquina atendeu. Houve um silêncio enquanto corria amensagem de atendimento. A seguir ouviu-se a voz ansiosa de Carlton, junto com algum ruído estático,enchendo a sala pouco mobiliada. — Tens razão, Joanna! Esperar que eu acabe o estágio é uma parvoíce. — Eu nunca disse que era uma parvoíce — interpôs Joanna num sussurro forçado, como se ointerlocutor pudesse ouvir. — E sabes que mais? — continuava Carlton. — Vamos avançar e marcar para junho próximo. Sebem me lembro, sempre quiseste um casamento em junho. Bem, junho está bem para mim. Seja como for,liga-me assim que receberes esta mensagem e depois podemos conversar, está bem? O atendedor fez mais uns ruídos mecânicos antes da luz vermelha começar a piscar. — Isto mostra o pouco que ele sabe — disse Joanna. — A minha mãe nunca conseguiria organizarum decente casamento à moda de Houston em oito meses, — Ele parece algo desesperado — disse Deborah. — Se lhe quiseres ligar e precisares deprivacidade eu desapareço. — Não quero falar com ele — disse rapidamente Joanna, — Agora não. Deborah inclinou a cabeça para um lado e estudou o rosto da amiga, Queria dar-lhe apoio, masnaquele momento não sabia bem como fazer esse papel. — Não se trata de uma discussão entre nós — explicou Joanna. — Nem de um joguinho denamorados. Não estou a ser manipuladora e, com franqueza, sentir-me-ia constrangida se nos casássemosagora. — Grande viragem, — Exatamente — aprovou Joanna. — Cá está ele a tentar antecipar a data e eu a querer adiar. Preciso de tempo e espaço. — Compreendo muito bem — disse Deborah. — E sabes uma coisa? Acho que és inteligente emnão deixares que a situação se transforme num debate petulante. — O problema é que eu o amo mesmo — disse Joanna com um sorriso de esguelha. — Sehouvesse debate, eu poderia perder. Deborah riu-se. — Concordo. Te converteste tão recentemente a esta nova e mais sensata atitude perante ocasamento que estás vulnerável a uma recaída. Precisas mesmo de tempo e espaço. E sabes? Acho quetenho a resposta. — A resposta a quê? — indagou Joanna. — Vou mostrar-te uma coisa — disse Deborah. Pôs-se de pé e tirou o jornal Harvard Crimson da sua secretária. Estava dobrado no sentido docomprimento na seção dos classificados. Passou o jornal a Joanna. Ela varreu a página e leu o anúnciosublinhado, Ergueu o olhar para Deborah, interrogativamente. — Querias que eu visse este anúncio da Clínica Wingate? — Pois queria — respondeu Deborah, entusiástica. — É um anúncio a pedir doadoras de óvulos — disse Joanna. — Precisamente — retrucou Deborah. — E em que é que isto é a resposta? — inquiriu Joanna. Deborah rodeou a mesinha e sentou-se ao lado de Joanna. Apontou com o dedo indicador para aretribuição oferecida. — O dinheiro é a resposta — disse. — Quarenta e cinco mil dólares o tiro! — Este anúncio saiu no Crimson na primavera e causou polêmica — disse Joanna. —Depois
  11. 11. nunca mais apareceu. Achas que é genuíno ou que é uma brincadeira de estudantes? — Acho que é genuíno — respondeu Deborah. — A Wingate é uma clínica de infertilidade emBookford, Massachusetts, depois de Concord. Foi o que eu percebi na página deles na Internet. — Por que é que pagariam tanto dinheiro? — perguntou Joanna. — Na página dizem que têm clientes ricos dispostos a pagar pelo melhor. Pelos vistos, os clientesquerem gente de Harvard. Deve ser como aquele banco de esperma na Califórnia, onde os doadores sãotodos laureados com o prêmio Nobel. É loucura de um ponto de vista genético, mas quem somos nós paradiscutir? — Nós não somos propriamente laureadas com o prêmio Nobel — disse Joanna. — Tecnicamente, nem sequer somos gente de Harvard. Por que é que achas que eles estariaminteressados em nós duas? — E por que não? — contrapôs Deborah. — Acho que estar numa pós-graduação equivale a seraluno. Não me parece que só queiram não licenciados. Aliás, na página especificam que querem mulheresaté vinte e cinco anos. Passamos à justa. — Mas também diz que temos de ser emocionalmente estáveis, atraentes, não ter peso a mais, eter porte atlético. Não estaremos a esticar a realidade um pouco? — Olha, eu acho que somos perfeitas. — Com porte atlético? — questionou Joanna com um sorriso. — Tu talvez, agora eu não. Eemocionalmente estáveis. Isso é dizer muito, especialmente no meu estado atual. — Bem, podemos tentar — disse Deborah. — Tu podes não ser a mulher com mais porte atléticoda faculdade, mas vamos dizer-lhes que só queremos doar se formos as duas. Têm de aceitar a ambas.Tudo ou nada. E as nossas notas são boas. — Estás mesmo a falar a sério? — perguntou Joanna. Observou a sua companheira de quarto, quepodia ser muito gozadora quando estava para aí virada. — A princípio não estava — admitiu Deborah. — Mas depois comecei a pensar nisso ao fim datarde. Quer dizer, o dinheiro é sedutor, Já viste: quarenta e cinco mil por cabeça! Com esse dinheiroteríamos liberdade pela primeira vez na vida, mesmo enquanto escrevíamos a tese. E agora que tu optastepor sair da segurança econômica do objetivo casamento, a idéia devia ser ainda mais sedutora para ti.Precisas de liquidez, além da tua formação, para manteres a tua decisão e, com franqueza, para começaresa organizar a vida de uma única pessoa. Este dinheiro poderia ser um começo. Joanna atirou o jornal para a mesinha. — Às vezes não sei quando é que estás a brincar comigo ou não. — Ouve, não estou a brincar. Disseste que precisas de tempo e espaço. É o que este dinheiro podecomprar e muito mais. Fazemos assim: vamos à Clínica Wingate, damos-lhes uns óvulos e ganhamosnoventa brasas. Tiramos cinqüenta e compramos um apartamento com dois quartos em Boston ouCambridge, o qual arrendamos para pagar o empréstimo. — Por que é que haveríamos de comprar um apartamento para arrendá-lo? — Deixa-me acabar — disse Deborah. — Mas não seria melhor investir as cinqüenta brasas? Lembra-te, eu sou a economista e tu és abióloga. — Tu até podes ir fazer um doutoramento em Economia, mas não sabes nada no que toca a sermulher solteira no século XXI. Por isso, cala-te e escuta. Compramos um apartamento para começar acriar raízes, Nas gerações anteriores, as mulheres conseguiam isso com o casamento, mas agora temos deagir por conta própria. Um apartamento seria um bom começo e um bom investimento. —Palavra de honra! —exclamou Joanna. — Estás mesmo mais avançada do que eu. — Podes apostar que sim — redargüiu Deborah. — E há mais. Esta é a parte melhor: pegamos nasoutras quarenta brasas e vamos para Veneza para fazer as nossas teses de doutoramento. — Veneza! — gritou Joanna. — És louca, menina! — Ah, sou!!? — perguntou Deborah. — Pensa só. Quando tu pensas que precisas de tempo eespaço, o que poderia ser melhor? Estaríamos em Veneza numa casinha amorosa e o Carlton aqui a fazero estágio. Fazemos as teses e vivemos um pouco sem o querido doutor sempre em cima de ti. Joanna parecia absorta, enquanto invocava imagens de Veneza. Já estivera na cidade mágica uma
  12. 12. vez, mas só durante alguns dias, e tinha ido com os pais e irmãos, estava ela no secundário. Podiaimaginar o brilho das águas no Grand Canal, refletindo as fachadas góticas. Com igual clareza, podiarecordar o bulício da Praça de São Marcos com as músicas concorrentes das duas casas de café em frenteuma da outra. Naquela altura prometera a si própria que voltaria um dia àquela cidade tão romântica.Claro que a fantasia incluía Carlton, que não fora na altura, mas que ela já namorava. — E há mais uma coisa — disse Deborah, interrompendo-lhe o breve devaneio de Joanna. — Aodoarmos uns óvulos, já que temos tantos que não farão falta, poderemos assim como que satisfazer osnossos impulsos de procriação. — Agora vejo que estás a brincar comigo — disse Joanna. — Não estou nada! — insistiu Deborah. — A nossa doação de óvulos significa que alguns casaisque não podem ter filhos os vão ter, e essas crianças terão metade dos nossos genes. Vai haver umas“meias Joannas” e “meias Deborahs” por aí. —Bem, acho que isso é verdade — concedeu Joanna. Visualizou uma rapariguinha parecida comela. Era uma imagem agradável, até perceber que a rapariguinha estava com dois estranhos. — Claro que é verdade — disse Deborah. — E a parte boa é que não temos que mudar fraldasnem perder noites de sono. Podemos tentar? —Espera aí! —exclamou Joanna. Levantou as mãos como se quisesse proteger-se. — Abranda um pouco! Supondo que nos aceitam, o que é pouco provável, dadas as condições doanúncio, eu tenho umas questões importantes. — Por exemplo? —Por exemplo, como é que doamos os óvulos? Quer dizer, qual é a intervenção? Tu sabes que eudetesto médicos e hospitais. — Boa desculpa para alguém que namorou um estudante de medicina na última metade do século. — É quando sou eu a doente que o problema começa — disse Joanna. — O anúncio diz que há uma estimulação mínima — esclareceu Deborah. — Isso é bom? — É... — respondeu Deborah. — Geralmente têm de hiperestimular os ovários para que eleslibertem mais óvulos e a hiperestimulação pode causar problemas em algumas pessoas, como uma tensãopré-menstrual infernal, Fazem a hiperestimulação com hormônios fortes. Acredites ou não, algunshormônios vêm de freiras italianas na menopausa. — Oh, vá lá! — resmungou Joanna. — Não sou assim tão parva! — Juro por Deus — afirmou Deborah. — As pituitárias destas freiras estão a dar à manivela paraproduzir hormônios de estimulação das gônadas à grande velocidade. Extraem-nas da urina. Acredita! — Está bem, acredito — disse Joanna, com uma expressão de nojo. — Mas voltemos ao assunto:por que é que achas que a Wingate não faz hiperestimulação? — Acho que querem qualidade e não quantidade — disse Deborah. — Mas é uma suposição. Essaé uma pergunta razoável para lhes fazermos. — Como é que obtêm os óvulos? — Torno a fazer suposições, mas acho que seria por aspiração com uma agulha. Acho que aorientação se faz por ultrasom. — Agh! — verbalizou Joanna com um arrepio. — Não gosto mesmo nada de agulhas e deve seruma bem grande, Onde é que a enfiariam? — Na vagina, acho eu — alvitrou Deborah. Joanna voltou a estremecer, — Oh, vá lá! — instou Deborah. — Acho que não seria brincadeira nenhuma, mas não pode serassim tão mau. Há muitas mulheres que o fazem no quadro da fertilização in vitro e não te esqueças quefalamos de quarenta e cinco mil dólares. Vale algum desconforto, — Levaríamos anestesia? — Não faço idéia — disse Deborah. — Outra questão para colocarmos. — Não posso crer que estás decidida quanto a isto. — Mas é uma situação em que todos ganham. Nós arranjamos muita massa e alguns casaisconseguem ter filhos. É como ser pago para ser altruísta. — Quem me dera que pudéssemos falar com alguém que já tivesse feito! — disse Joanna.
  13. 13. — Ouve, acho que talvez possamos — disse Deborah. — A questão da doação de óvulos surgiunum debate de grupo no laboratório de biologia em que eu fui instrutora no último semestre, Foi quando aClínica Wingate colocou o primeiro anúncio no Crimson. Uma das calouras disse que tinha sidoentrevistada, aceita e que ia fazê-lo. — Como se chamava? — Não me lembro, mas sei onde procurar. Ela e a companheira de quarto estavam na mesmaseção do laboratório, e eram ambas ótimas alunas. Deve estar no livro de curso. Vou buscá-lo. Enquanto Deborah desaparecia no quarto, Joanna tentava assimilar o que acontecera na sua vidanos últimos trinta minutos, Sentia-se abalada e algo tonta. As coisas estavam a acontecer à velocidade daluz. — Voilá! — chamou Deborah de dentro do quarto. Segundos depois, surgia à porta eziguezagueou até a secretária. — Onde está a lista telefônica da faculdade? — Segunda gaveta do lado direito — respondeu Joanna. — Como é que se chama? — Kristin Overineyer — disse Deborah. — E a companheira de quarto era Jessica Detrick. Eramcolegas de laboratório e eu dei-lhes as melhores notas da turma. Pegou a lista e folheou as páginas. — Que estranho! Não consta aqui. Como é possível? — Talvez tenha abandonado o curso — sugeriu Joanna. — Não pode ser — refutou Deborah. — Como eu te disse, era uma aluna espetacular. — Talvez aquilo da doação de óvulos tivesse sido demais. — Estás a gozar! — Claro que estou a gozar — disse Joanna. — Mas é curioso. — Agora tenho mesmo de aprofundar isto ou tu vais aproveitar a desculpa — disse Deborah.Folheou rapidamente a lista telefônica, encontrou um número e marcou-o. — Estás a ligar para quem? — Jessica Detrick — respondeu Deborah, — Talvez ela nos possa dizer como entrar em contatocom Kristin, desde que a antiga companheira de quarto esteja no quarto a estudar numa sexta à noite. Joanna pôs-se à escuta depois de Deborah lhe ter feito o sinal de polegar para cima indicando queJessica tinha atendido. O interesse de Joanna aumentou quando a expressão de Deborah se toldou e elacomeçou a dizer coisas como: “Oh, é horrível!” “Lamento ouvir isso!” e “Que tragédia!” Depois de concluir uma conversa algo longa, Deborah pousou o auscultador lentamente e virou-separa ver Joanna. Imersa em pensamentos, chupava absorta o interior da sua bochecha. — Então? — perguntou Joanna. — Não me vais explicar? Qual é a tragédia? — A Kristin Overineyer desapareceu — respondeu Deborah. — Ela e outra caloura, chamadaRebecca Corey, foram vistas pela última vez por um funcionário da Clínica Wingate a darem carona a umtipo logo à saída da clínica. — Ouvi falar em duas alunas que desapareceram na primavera passada— atalhou Joanna. —Nunca soube os nomes. — Mas o que as terá feito dar carona a alguém? — Se calhar, conheciam-no. — É possível — concedeu Deborah. Agora era a vez dela estremecer. — Estas histórias causam-me arrepios. — As mulheres nunca foram encontradas? E os corpos? — Só o carro, que era da Rebecca Corey. Foi encontrado numa paragem de caminhões junto daportagem de Nova Jersey. Nunca mais ninguém as viu, nem as posses delas, como as bolsas e as roupas. — A Kristin doou óvulos? — Meia dúzia, e a família abriu um processo, mas a clínica devolveu-os de livre vontade. Pelovisto, a família queria ter voz ativa na decisão de quem ficaria com eles. Que história triste! — Lá se vai a chance de perguntarmos a alguém pelo processo de doação — lamentou Joanna. — Podemos sempre ligar para a clínica e pedir o nome de outra doadora — alvitrou Deborah. — Se ligarmos para a clínica podemos fazer as nossas perguntas diretamente a eles — disseJoanna. — Se correr bem, talvez possamos pedir uma referência. — Então, estás disposta a tentar?
  14. 14. — Acho que não há mal em obter mais informação — disse Joanna. — Mas certamente que nãovou me comprometer, exceto a uma eventual visita à clínica. — Muito bem! — exclamou Deborah. Aproximou-se de Joanna e bateu com as suas mãos nasdela. — Veneza, aqui vamos nós! 15 de Outubro de 1999 7.05 h. Era um lindo dia de outono, com a folhagem verdejante a bordejar a estrada, enquanto Deborah eJoanna seguiam para o norte, desde Cambridge em direção a Bookford, Massachusetts. O sol estavaconvenientemente por detrás delas, ainda que houvesse ocasionais lampejos de luz nos reflexos dos pára-brisas dos carros que se cruzavam com elas em direção a Boston. As mulheres usavam ambas óculos desol e bonés de basebol. Não houvera mais conversa desde que tinham contornado Fresh Pond. Cada qual estava absortanos seus pensamentos. Deborah ainda se espantava com a rapidez com que tudo se encaixara, como se oassunto com a Clínica Wingate estivesse predestinado. Os devaneios de Joanna focavam mais o seupróprio âmago. Mal podia acreditar como a sua vida mudara numa semana e, mesmo assim, como sesentia apaziguada. No domingo, quando se achara emocionalmente capaz de falar com Carlton e de lidarcom a insistência que esperava dele de casarem em junho, ele estava tão zangado que se recusara a falarcom ela. Ela telefonara e deixara mensagens sem qualquer resultado. Por conseguinte, não tinham faladoa semana inteira, fato que convenceu ainda mais Joanna de que a sua súbita epifania relativamente aocasamento em geral e a Carlton em particular, tinha sido apropriada. Depois de todos os episódios que elativera de agüentar, daquilo que interpretara como rejeição, parecia inadequado que Carlton agissenegativamente naquela instância. Na opinião dela, era mau sinal. A comunicação tinha grande prioridadeno sistema de valores de Joanna. — Lembraste-te de trazer aquela lista de perguntas que escreveste? — indagou Deborah. — Claro que lembrei — respondeu Joanna. Eram perguntas que versavam sobre o que aconteceriadepois da recolha dos óvulos e se haveria limitações à prática de exercício, etc. Deborah ficara impressionada com o acolhimento da Clínica Wingate, Ela e Joanna haviamtelefonado para o número que constava no anúncio do Harvard Cumson na segunda-feira de manhã e,quando se identificaram como possíveis interessadas na doação de óvulos, tinham passado a chamada auma Dra. Sheila Donaldson, que por seu turno se oferecera para visitá-las imediatamente. Em menos deuma hora, a médica chegava ao apartamento no Craigie Arins e impressionara-as com o seuprofissionalismo. Explicara a totalidade do programa e respondera eficientemente a todas as perguntasque Deborah e Joanna lhe colocaram. — Não consideramos ser necessário hiperestimular — dissera a Dra. Donaldson no início daconversa. — Aliás, não estimulamos nada, Chamamos a isto a nossa abordagem “orgânica”. A últimacoisa que queremos é causar problemas às nossas doadoras, como os hormônios sintéticos ou agrupadospodem fazer, — Mas como é que têm a certeza de que conseguem mesmo alguns óvulos? — perguntaraDeborah. — Por vezes não conseguimos — respondera a Dra. Donaldson. — Mas pagam à mesma, não pagam? — Com certeza — replicara a Dra. Donaldson. — Qual é a anestesia usada? — indagara Joanna. Era a sua maior preocupação. — Isso é opção da doadora — dissera a Dra. Donaldson. — Mas o Dr. Paul Saunders, oresponsável pelas extrações, prefere uma anestesia geral ligeira. Nessa altura Joanna levantara os polegares para Deborah em assentimento. No dia seguinte àentrevista, a Dra. Donaldson telefonara logo de manhã para dizer que ambas tinham sido aceitas e que aclínica gostaria de fazer as intervenções o mais depressa possível, de preferência nessa semana, e que,fosse como fosse, gostaria de ter notícias delas nesse mesmo dia. Durante as horas que se seguiram, as
  15. 15. mulheres haviam debatido os prós e os contras. Deborah estava inteiramente a favor de prosseguir e o seuentusiasmo acabou por conquistar Joanna. Ligaram para a clínica e marcaram para essa sexta de manhã. — Tens alguma reserva em relação a isto? — perguntou Joanna de repente, quebrando um quartode hora de silêncio. — Nem por sombras — disse Deborah. — Especialmente se me lembrar do apartamento na PraçaLouisburg que fomos ver. Espero que ninguém o apanhe antes de termos o dinheiro nas mãozinhas. — Também depende do vendedor nos querer fazer um segundo empréstimo atalhou Joanna. —Caso contrário, é acima das nossas possibilidades. As mulheres haviam contatado mediadores imobiliários, tanto em Cambridge como em Boston, evisto vários apartamentos para venda. O da Praça Louisburg em Beacon Hill fora o que mais asimpressionara. Era uma das melhores zonas de Boston, central e junto ao metrô da Linha Vermelha, que aslevaria à Praça de Harvard rapidamente. — Para dizer a verdade, estou espantada que o preço seja tão razoável. — Deve ser porque fica num quarto andar sem elevador — disse Joanna. — E por ser tãopequeno, especialmente o segundo quarto. — Sim, mas esse quarto tem a melhor vista de todo o apartamento, além do enorme guarda-roupa. — Não achas que é aborrecido passar pela cozinha para ir para o quarto de banho? — Eu passaria pelo apartamento de outra pessoa para ir para o quarto de banho, só pelaoportunidade de morar na Praça Louisburg. — Como é que vamos decidir quem fica com esse quarto? — perguntou Joanna. — Ei, eu ficaria muito contente com o menor, se é isso que te aflige — disse Deborah. — Sério? — Sério — disse Deborah. — Talvez possamos trocar de algum modo — sugeriu Joanna. — Não é preciso — atalhou Deborah. — Fico muitíssimo bem com o quarto menor. Acredita! Joanna virou a cabeça para olhar pela janela do passageiro. Quanto mais andavam para o norte,mais intensas eram as cores outonais. O vermelho dos bordos era tão brilhante que quase não parecia real,especialmente em contraste com o verde-escuro dos pinheiros ou abetos. — Não estás hesitante, pois não? — indagou Deborah. — Nem por isso — disse Joanna. — Mas é estonteante como tudo aconteceu tão depressa. Querodizer, se tudo correr bem, na semana que vem por esta altura, seremos não só senhorias, como estaremosem Veneza. É um sonho! Deborah tinha encontrado na Internet viagens incrivelmente baratas para Milão, via Bruxelas. DeMilão apanhariam o comboio para Veneza, onde chegariam a meio da tarde. Deborah encontrara tambémum alojamento com pequeno-almoço na sestière de San Polo, perto da ponte do Rialto, onde ficariam atéencontrar um apartamento. — Mal posso esperar! — exclamou Deborah. — Estou excitadíssima! Benvenuto a Italia,signorina! Estendeu o braço e despenteou o cabelo de Joanna. Joanna inclinou-se, afastou a mão de Deborahe riu-se. —Mille grazie, cara — disse num tom sarcástico de brincadeira. Depois inclinou a cabeça e assouos dedos pelo cabelo, na esperança de arranjá-lo novamente. — Acho que estou um pouco atordoada pelarapidez com que a Clínica Wingate está a fazer isto acontecer — disse, enquanto se mirava no espelhoretrovisor para verificar o resultado dos esforços com o cabelo. Joanna era moderadamente obcecada como cabelo e o seu aspecto geral, muito mais do que Deborah, que a costumava picar acerca disso. — Talvez sejam os clientes que os estão a apressar — disse Deborah. Reajustou o espelho. — A Dra. Donaldson falou nisso? — perguntou Joanna. — Não — respondeu Deborah. — Eu é que supus. Ela disse que a clínica só está interessada mduas doadoras, por isso temos sorte em ter ligado. — Está ali um letreiro que diz que Bookford é na próxima saída — disse Joanna, apontando. Osinal era pequeno e estava à frente de uma pequena mata de carvalhos cor de laranja-incandescente.
  16. 16. — Eu vi — disse Deborah, e ligou o pisca. Após mais vinte minutos numa estrada estreita de duas vias, ladeada por macieiras e muros queserpenteavam na paisagem de colinas ondulantes e campos de milho cor de ferrugem, as mulheresentraram numa vila típica da Nova Inglaterra. Nos arredores estava um enorme cartaz a dizer BEMVINDO A BOOKFORD, MASSACHUSETS, TERRA DOS BOOKFORD HIGHSCHOOLWILDCATS, CAMPEÕES DE FUTEBOL ESTADUAL DA 2.a DIVISÃO EM 1993. O caminho que saía da auto-estrada transformava-se na Rua Direita e dividia a cidade em duasdireções, norte e sul, Erguiam-se de cada lado os tradicionais grupos de lojas com fachada em tijolo dovirar do século. A cerca de meio caminho, havia uma grande igreja branca com campanário e um relvadoque se estendia até um edifício municipal de granito. Nos passeios seguia um tropel ruidoso e turbulentode miúdos com mochilas da escola, como aves migratórias sem asas rumo ao norte. — É uma cidade louca — comentou Deborah, debruçando-se para ver melhor pelo pára-brisas.Abrandou para menos de trinta quilômetros por hora. — Parece quase louca demais para ser verdadeira,como se estivesse num parque temático. — Não vi nenhum letreiro da Clínica Wingate — comentou Joanna. — Ei, sabes por que é que é preciso um milhão de espermatozóides para fecundar um óvulo? — Acho que não — respondeu Joanna. — Porque nenhum deles quer parar para perguntar o caminho. Joanna deu uma risadinha. — Isso deve querer dizer que nós vamos parar. — Claro! — rematou Deborah, virando para um parque de estacionamento em frente ao armazémRite Smart. Havia estacionamento em espinha de cada lado da Rua Direita, — Queres vir ou esperasaqui? — Não vou deixar o gozo todo para ti — disse Joanna ao sair do carro. As mulheres tiveram de se esquivar de crianças que corriam atrás umas das outras pelo passeio afora. Os seus gritos e guinchos quase chegavam ao limiar da dor e foi um alívio para ambas as mulheresfechar a porta da loja atrás delas. No interior pairava um sossego relativo, ao que não era alheio aausência de clientes. Nem havia funcionários à vista. Depois de encolherem os ombros uma para a outra, pois não aparecia ninguém, as duas mulheresdirigiram-se ao balcão na parte de trás da loja. Havia lá uma campainha e Deborah tocou-adecididamente. Foi um barulho considerável no silêncio reinante. Em poucos segundos, apareceu pelasportas basculantes, como as dos bares nos westerns de Hollywood, um homem obeso e quase calvo, comuma bata de farmacêutico desabotoada no colarinho. Ainda que a loja estivesse fresca, havia gotas de suorna sua testa. — Em que posso ajudar? — perguntou o dono, alegremente. — Estamos à procura da Clínica Wingate — disse Deborah. — Não há problema — retrucou o dono. —Fica no Hospital Estadual Psiquiátrico de Cabot. — Perdão?! — exclamou Deborah, espantada. — Fica numa instituição psiquiátrica? — Sim — respondeu o dono. — o velho Dr. Wingate comprou ou arrendou aquele lugar todo, nãotenho a certeza. Ninguém sabe e não é que interesse muito. — Oh, percebo — disse Deborah. — Era uma instituição psiquiátrica. — Sim — repetiu o dono. — Durante coisa de cem anos. Também era um sanatório paratuberculosos. Parece que as pessoas lá em Boston estavam ansiosas por banir os doentes mentais e ostísicos. Assim, os fechavam numa espécie de fortaleza. Tipo, longe da vista, longe do coração. Há cemanos, considerava-se que Bookford ficava longe. Nossa, os tempos mudaram mesmo! Agora somos umacomunidade dormitório de Boston. — Eles fechavam as pessoas num sítio? — indagou Joanna. — Não tentavam tratá-las? —Acho que sim— replicou o dono. — Mas não havia assim grandes tratamentos naquele tempo,Bem, isto não é inteiramente verdade. Faziam-se muitas operações lá. Sabem, experiências como esvaziarpulmões de tuberculosos e lobotomias aos malucos. — Parece-me horrível — disse Joanna, e estremeceu. — Sim, deve ter sido — anuiu o dono.
  17. 17. — Bem, já não há doentes mentais nem tísicos — acrescentou Deborah. — Pois claro que não — disse o dono. — o Cabot, como lhe chamamos por cá, está fechado hávinte, trinta anos. Acho que foi nos anos 70 que levaram os últimos doentes. Vocês lembram-se: foiquando os políticos começaram a pensar seriamente na saúde pública. Foi uma tragédia. Acho quelevaram o resto dos doentes de volta para Boston e os deixaram ao deus-dará no parque de BostonCominon. — Acho que isso foi antes do nosso tempo — disse Deborah. — Sim, deve ter razão — concordou o dono. — Poderia dizer-nos como chegar ao Cabot? — inquiriu Deborah. — Certinho e direitinho — disse o dono. — Vão em que direção? — Norte — disse Deborah. — Perfeito — disse o dono. — Sigam até ao próximo semáforo e virem à direita, para a RuaPierce, com a biblioteca pública na esquina. Do cruzamento pode ver-se a torre de tijolo do Cabot. Fica atrês quilômetros a leste da cidade, depois da Rua Pierce. Não tem nada que enganar. As mulheres agradeceram ao farmacêutico e voltaram ao carro. — Parece um ambiente encantador para uma clínica de infertilidade — disse Joanna, apertando ocinto de segurança. — Pelo menos já não é um sanatório de tísicos e uma instituição psiquiátrica — alvitrou Deborah,fazendo marcha-atrás para sair. — Por momentos, estive prestes a regressar a Cambridge. — Talvez devêssemos — disse Joanna. Não estás a falar a sério, pois não? — Não, não estou — admitiu Joanna. — Mas um lugar com uma história assim causa-mearrepios. Podes imaginar os horrores que lá passaram? — Não, não posso — disse Deborah. Paul Saunders pousou o memorando que Sheila Donaldson lhe tinha preparado e esfregou osolhos com os dedos das duas mãos, mantendo os cotovelos na mesa. Estava de volta ao seu gabinete noquarto andar da torre, depois de passar várias horas a verificar as suas culturas de embriões. Na suamaioria estavam a correr bem, mas não na perfeição. Ele temia que fosse por causa da idade e daqualidade dos óvulos, problema que esperava remediar em breve. Paul era madrugador. Costumava saltar da cama antes das cinco e estava no laboratório antes dasseis. Assim conseguia despachar muito trabalho antes da chegada das doentes, o que sucedia por volta dasnove. Naquela manhã começava o seu dia cedo porque tinha marcado duas extrações de óvulos. Gostavade fazer as intervenções o mais cedo possível para que as doadoras tivessem tempo para recuperar daanestesia e ter alta no mesmo dia. As camas para doentes internadas eram só para emergências e, mesmonesses casos, Paul preferia mandá-las para o hospital de cuidados breves mais próximo. Tornou a pegar no memorando e, empurrando a cadeira, dirigiu-se às janelas. Eram monstruosas,de guilhotina, muito mais altas do que o seu escasso metro e sessenta e cinco. A vista consistia no granderelvado em frente à clínica que se estendia até a vedação de ferro-forjado e arame farpado que circundavatodo o perímetro. À esquerda de Paul ficava a casa de pedra da portaria, donde vinha o acesso alcatroado.Este avançava na direção de Paul e depois virava à esquerda até desaparecer de vista no estacionamento asul do edifício. À distância, podia ver o pináculo da igreja presbiteriana de Bookford, bem como aschaminés de alguns prédios mais altos, que irrompiam nas cores outonais. No horizonte ficava o sopé daserra de Berkshire, recortada sob forma de lampejos, cor de púrpura. Paul releu o memorando, ponderou um pouco e tornou a olhar a vista. Tinha todas as razões paraestar contente. As coisas não podiam correr melhor e só a idéia trouxe um sorriso à sua cara pastosa.Parecia incrível que, apenas seis anos antes, ele tivesse sido praticamente expulso de Illinois, perdido asregalias do hospital e mal tivesse conseguido manter a licença médica. O advogado na altura dissera-lheque as coisas pareciam negras e assim ele partira para o leste, devido a uma barulheira estúpida por causado faturamento da Medicare e Medicaid. Claro que ele se tinha esticado, mas os colegas de Ginecologia eObstetrícia tinham feito o mesmo. Aliás, ele limitara-se a copiar e a refinar uma prática já usada por outrogrupo dentro do mesmo edifício hospitalar. Por que razão o Governo tinha ido atrás dele era ainda ummistério, coisa que o podia enfurecer se ele pensasse muito nisso. Mas já não era preciso, agora que as
  18. 18. coisas estavam a ficar cor-de-rosa. Quando chegara ao Massachusetts, e porque pensara ter dificuldade em obter a licença se a Ordemdos Médicos de Massachusetts soubesse dos problemas no Illinois, Paul decidira continuar aespecialização com uma bolsa em infertilidade. Fora a melhor decisão da sua vida. Não somente evitaraproblemas com licenciamento, como também ganhara entrada num domínio que não tinha propriamentefiscalização, nem a nível profissional nem em termos de negócios. Além disso, era espantosamentelucrativo. Para ele, a infertilidade era uma combinação ideal, especialmente porque estivera no lugar certo eno momento certo, por pura sorte, ao conhecer Spencer Wingate, um especialista em infertilidade, jáestabelecido, desejoso de se aposentar, viver à grande, repousar sobre os louros, angariar fundos e realizarpalestras. Agora, Paul mandava em tudo, tanto na pesquisa como na clínica. Sempre que Paul pensava na ironia de ser ele um investigador esboçava um sorriso, porque nuncase imaginara naquele papel. Tinha sido o último do curso de medicina e nunca tivera formação eminvestigação. Conseguira não ter uma única aula de Estatística. Mas não tinha importância. Eminfertilidade, os doentes estavam desesperados o bastante para tentar qualquer coisa. Aliás, até queriamexperimentar coisas novas. Paul achava que podia compensar com imaginação o que lhe faltava emexperiência de pesquisa. Sabia que fazia progressos em várias frentes, o que acabaria por torná-lo rico efamoso. Virando às costas à vista que considerava agora o seu domínio, Paul apanhou um vislumbrefugidio da sua imagem refletida no espelho de moldura barroca pendurado entre as duas janelasgigantescas. Olhando diretamente para o reflexo, Paul passou a mão pelas faces. Ficou surpreso epreocupado com a lividez da sua tez, realçada pelo cabelo quase preto, até perceber que se deviagrandemente à luz fluorescente das lâmpadas montadas no teto alto. Riu-se da sua preocupaçãomomentânea. Sabia que era pálido; com os horários que fazia, a sua pele raramente via a luz do dia, muitomenos o próprio sol, mas sabia que não tinha tão má cara como a que o espelho lhe devolvia. No reflexo,a tez igualava-se à madeixa branca que era a sua marca. Regressou à secretária e prometeu a si próprio ir até a Florida durante o inverno, ou talvezaproveitar um congresso de Ginecologia e Obstetrícia num local com bom tempo para apresentar algumdo seu trabalho. Paul pensou também que devia arranjar tempo para fazer exercício, pois ganhara peso,particularmente no pescoço. Não fazia exercício há anos. Paul não era grande atleta, o que lhe trouxeraaborrecimentos na escola secundária de South Side Chicago, onde o desporto tinha um papel socialpreponderante. Tentara entrar em algumas equipes, mas nunca dera resultado, o que fizera dele alvo deescárnio. — Eles que olhem para mim agora — disse Paul em voz alta, pensando nas pessoas que tinhamfeito pouco dele. — Devem estar a encher sacos de supermercado. Sabia que a vigésima reunião da escola era em junho próximo e perguntava-se se deveria ir sópara alardear o seu sucesso na cara daqueles que tinham gozado com ele. Paul pegou no telefone e ligoupara o laboratório. Quando atenderam, pediu para falar com a Dra. Donaldson. Enquanto esperava, releuo memorando que tinha na mão. — Que se passa, Paul? — perguntou Sheila, sem preâmbulo. — Recebi o teu memorando —disse Paul. — As duas mulheres que vêm aí: achas que são boascandidatas? — Excelentes — retrucou Sheila. — São ambas saudáveis, com hábitos normais; não têmproblemas ginecológicos; não estão grávidas; negam uso de drogas ou medicações de qualquer espécie eestão ambas a meio do ciclo. — E são mesmo formadas? — Afirmativo. — Então, devem ser inteligentes. — Sem dúvida. — Mas por que é que uma delas quer anestesia local? — perguntou Paul. — Porque está a fazer doutoramento em Biologia — respondeu Sheila. — Sabe umas coisas deanestesia. Eu fiz sugestões, mas ela não mordeu a isca. Acho que o Carl poderá tentar.
  19. 19. — Mas tentaste? — insistiu Paul. — Claro que tentei — disse Sheila, irritada. — Está bem, Carl que fale com ela — redargüiu Paul. Desligou sem se despedir. Sheila conseguiaaborrecê-lo com os óbvios ciúmes. — Deve ser a torre que o farmacêutico falou — disse Deborah, apontando pelo vidro. Tinham virado da Rua Direita para a Rua Pierce e mal conseguiam discernir à distância a estreitaestrutura de tijolos elevando-se acima da paisagem circundante. — Se fica a três ou quatro quilômetros tem de ser uma torre bem alta. — Daqui, a silhueta parece-se um pouco com a torre da Galeria Uffizi, em Florença— disseDeborah. — Que apropriado! Assim que deixaram a vila atrás delas, as árvores que ladeavam a estrada não deixaram ver maisnada da torre nem do próprio complexo Cabot até passarem por um celeiro vermelho em ruínas à direita.Na curva seguinte viram à esquerda um sinal para a Clínica Wingate, com uma seta apontada para umcaminho de saibro. Entraram na estrada não alcatroada e viram logo a casa de granito da Portaria, comdois andares, entre as árvores. Era uma estrutura maciça e atarracada, com persianas nas janelas pequenase um telhado de xisto com florões trabalhados em cada ponta das vigas-mestras. O madeiramento estavapintado de preto. Havia gárgulas de pedra nos cantos. Acercaram-se e viram que a estrada seguia por baixo da casa, por um túnel, e que tinha a meiocaminho um pesado portão de ferro entrelaçado. Além do portão podia ver-se um relvado aparado hápouco tempo, único sinal de que o local era utilizado. Havia uma vedação de ferro-forjado e aramefarpado de cada lado da portaria que desaparecia nas árvores circundantes. Deborah abrandou e depois parou. — Palavra de honra — disse. — o farmacêutico não estava a brincar quando disse que osinternados do Cabot estavam fechados numa fortaleza. Quase parece uma prisão. — Não tem mesmo nada de acolhedor — acrescentou Joanna. — Como é que achas queconseguimos entrar? Vês algum intercomunicador ou teremos de usar algum telefone? —Deve haver um monitor de vídeo, ou coisa assim — sugeriu Deborah. — Vou encostar aoportão. Deborah avançou com o carro e entrou no túnel. Assim que parou novamente, abriu-se uma portapesada, trabalhada e sem postigo, de onde saiu um homem fardado com uma prancheta na mão.Aproximou-se da janela do condutor e Deborah baixou o vidro. — Em que posso ajudar? — perguntou o guarda em tom agradável, mas decidido. Tinha umchapéu brilhante com um boné preto como um polícia. — Viemos encontrar-nos com a Dra. Donaldson — explicou Deborah. — Os vossos nomes, por favor? — pediu o homem. — Deborah Cochrane e Joanna Meissner — respondeu Deborah. O homem consultou a prancheta, riscou os dois nomes e apontou com a caneta para além doportão. — Sigam aquele acesso para a direita até ao parque de estacionamento. Alguém estará lá à vossaespera. — Obrigada — disse Deborah. O homem não respondeu, mas tocou na beira do chapéu. Com grande chiadeira, o pesado portãode ferro entrelaçado começou lentamente a abrir. — Viste a arma que o guarda tinha? — perguntou Deborah num sussurro, depois de subir o vidroda janela. O guarda ainda estava lá de pé, à esquerda. — Seria difícil não ver — retrucou Joanna. — Já vi polícias armados em hospitais de cidades do interior — disse Deborah. — Mas nunca numa clínica médica rural. Por que raio é que precisam de tanta segurança aqui,especialmente numa clínica de infertilidade? — É de perguntar se querem manter as pessoas fora ou dentro. — Nem brinques com isso — admoestou Deborah. Avançou pelo portão aberto. — Achas que também fazem abortos? Já vi guardas em clínicas de aborto neste Estado.
  20. 20. — Não deve haver nada mais inadequado numa clínica de infertilidade. — Acho que tens razão — anuiu Deborah. Saindo do túnel e rodeando um maciço de árvores, as mulheres obtiveram a primeira visãodesobstruída de Cabot. Era uma enorme estrutura de tijolo vermelho com quatro pisos, um telhado dexisto pontiagudo e inclinado atrás de uma cornija com ameias, pequenas janelas com grades e uma torrecentral imponente. A torre tinha janelas maiores, com vários vidros e sem grades. Deborah abrandou. — Que choque ver um edifício destes aqui no campo, sozinho. E que arquitetura curiosa, também.Vendo a torre mais de perto, eu diria que é cópia deliberada da Uffizi. É tão parecida que não pode tersido por acaso. Se a memória não me falha, até tem o mesmo estilo de relógio, ainda que o da Uffizifuncione. — Já vi outros edifícios vitorianos como este em Massachusetts — disse Joanna. — Há outro em Worcester, em pedra, não em tijolo, e quase do mesmo tamanho. Só que estádeserto. Ao menos este tem uso. — A Clínica Wingate deve estar muitíssimo ocupada, para usar estes metros quadrados todos. Joanna assentiu. Seguindo o caminho para a direita do edifício, Deborah entrou num parque de estacionamento quetinha, surpreendentemente, muitos carros. As mulheres repararam que havia várias viaturas diferentes doshabituais Honda Civics ou Chevy Caprices. Um dos automóveis destacava-se particularmente entre osMercedes, Porsches e Lexus. Era um Bentley conversível cor de vinho. — Valha-me Deus! — comentou Joanna. — Estás a ver o Bentley? — É como a arma do guarda, seria difícil não ver. A pintura metalizada resplandecia à luz da manhã. — Fazes idéia de quanto custa aquele carro? — perguntou Joanna. — Nem por sombras. — Mais de trezentos mil dólares. — Caraca! É obsceno, especialmente numa instituição médica. Deborah estacionou num lugar marcado para visitantes. As mulheres saíram do carro e viram umaporta abrir-se em frente ao parque. Apareceu uma figura feminina alta, de cabelo castanho e bata branca,que acenou. — Ora, este aceno é diametralmente oposto ao que vimos na casa do guarda — disse Deborah.Devolveu o aceno enquanto ela e Joanna se dirigiam para a porta, a cinqüenta metros de distância. — Parece a Dra. Donaldson. — Acho que tens razão — disse Deborah. — Espero que não nos venhamos a arrepender disto — disse Joanna, subitamente. Caminhava decabeça baixa para ver onde punha os pés. — Tenho a sensação desconfortável de que vamos cometer umgrande erro. Deborah agarrou o braço da amiga e obrigou-a a parar. — Que é que estás a dizer? Não queres continuar com isto? Se for o caso, temos de dar meia-voltae regressar a Boston. Não quero que penses que te estou a pressionar, porque não é verdade. Joanna estreitou o olhar por causa da luz e observou a elegante médica à porta da clínica. Jáestavam perto para perceberem que era a Dra. Donaldson e que esta estava contente de vê-las. Tinha norosto delgado um sorriso largo e acolhedor. — Fala comigo — disse Deborah, apertando mais o braço de Joanna. Joanna encarou Deborah. — Podes olhar-me nos olhos e dizer que estás confiante de que tudo correrá bem? — Posso — afirmou Deborah. — Como já te disse dez vezes: só temos a ganhar. — Estou a falar das intervenções — insistiu Joanna. — Oh, valham-me os santinhos! Estas extrações são canja. As mulheres que fazem tratamentos deinfertilidade passam por isto várias vezes, além das toneladas de hormônios. Para nós não é nada deespecial. Joanna hesitou. Os olhos verdes moviam-se de Deborah para a Dra. Donaldson e vice-versa,enquanto pesava a sua aversão a procedimentos médicos. Nem lhe agradava levar uma vacina. Suspirou,pigarreou e arvorou um sorriso.
  21. 21. — Está bem, vamos a isto. — Tens a certeza? Quer dizer, não te sentes obrigada, pois não? — Joanna abanou a cabeça. — Estou bem. Vamos acabar com isto. As mulheres recomeçaram a caminhar. — Por momentos assustaste-me — disse Deborah. — Eu assusto a mim própria, às vezes — comentou Joanna. 15 de Outubro de 1999 7.45 h. — Estimo que a vossa viagem de Boston tenha decorrido sem incidentes — disse a Dra.Donaldson enquanto fechava a porta da clínica atrás delas. — Correu bem — respondeu Deborah, mirando uma sala de espera grande e vazia. A mobília parecia de estilo escandinavo, moderno e dispendioso, o que contrastava com ospormenores arquitetônicos do período vitoriano. Havia uma secretária de recepcionista em forma de U evazia no meio da sala. Nas paredes havia cadeiras e sofás de pele estofados, e nas mesinhas baixas ummonte de revistas atualizadas. — Percebi esta manhã que me esqueci de vos indicar o caminho — disse a Dra. Donaldson. —Peço desculpa. — Não tem importância — redargüiu Deborah. — Eu devia ter perguntado. Mas não nosatrapalhamos, paramos na farmácia e pedimos indicações. — Muito bem — disse a Dra. Donaldson. Entrelaçou as mãos. — Agora vamos começar peloprincípio. Creio que nenhuma de vós comeu nada desde a meia-noite de ontem. Deborah e Joanna assentiram. — Excelente! — exclamou a Dra. Donaldson. — Vou ligar ao Dr. Smith, o nosso anestesista, paraele falar convosco. Entretanto, se quiserem despir os casacos para ficarem à vontade, já poderemoscomeçar, Enquanto a Dra. Donaldson falava do telefone da recepção, Deborah e Joanna tiraram os casacos ependuraram-nos no bengaleiro. — Estás bem? — sussurrou Deborah ao ouvido de Joanna. Podiam ouvir a Dra. Donaldson aotelefone. — Sim, estou ótima — respondeu Joanna. — Por que perguntas? — Estás tão calada. Não estás a mudar de idéia outra vez, pois não? — Não! Estou enervada com este lugar — explicou Joanna. — Muitas surpresas, como guardasarmados. Até a mobília da sala de espera me incomoda. — Compreendo o que queres dizer — anuiu Deborah. — Parece que custou uma fortuna, mas ficahorrorosa no cenário. — É estranho. Estas coisas não costumam me incomodar. Desculpa ser uma pilha de nervos. — Tenta descontrair-te e pensa em beber café na Praça de S. Marcos. Voltando à sala, a Dra.Donaldson indicou-lhes um sofá. Já sentadas, informou-as de que o Dr. Carl Smith estava a caminho. Emseguida, inquiriu se tinham dúvidas. — Quanto tempo acha que vai demorar? — perguntou Joanna. — Uma extração leva apenas cerca de quarenta minutos — explicou a Dra. Donaldson. — Depoistêm de recuperar algumas horas para passar completamente a anestesia. Quando menos esperarem jáestarão prontas. — Vamos sofrer a intervenção ao mesmo tempo? — perguntou Joanna. — Não — disse a Dra. Donaldson. — A menina Meissner vai primeiro porque quer anestesiageral ligeira. Claro que, se a menina Cochrane quiser mudar para anestesia geral, podem decidir quem vaiprimeiro. — Basta-me a anestesia local — afirmou Deborah. — Como quiser — disse a Dra. Donaldson. Olhou de uma mulher para a outra. — Mais dúvidas,
  22. 22. de momento? — A clínica ocupa o edifício todo? — inquiriu Deborah. — Não, credo! O edifício é enorme. Albergava uma grande instituição psiquiátrica, assim comoum sanatório para tuberculosos. — Já sabíamos — disse Deborah. — A clínica de infertilidade ocupa dois andares nesta ala somente — explicou a Dra. Donaldson.— Também temos alguns escritórios na torre. O resto das instalações está vazio, tirando camas velhas emuito equipamento antigo. É quase um museu. — Quantas pessoas trabalham cá? — perguntou Joanna, — Temos cerca de quarenta funcionários, mas o número tem aumentado. Para saber com exatidão,só falando com Helen Masterson, a diretora de Recursos Humanos. — Quarenta empregados é muito — opinou Joanna. — Deve ser uma dádiva dos céus, para umapequena comunidade rural como esta. — Dir-se-ia que sim — disse a Dra. Donaldson. — mas, na realidade, temos um problema crônicopara recrutar pessoal. Temos sempre anúncios nos jornais de Boston, geralmente para técnicos delaboratório e pessoal administrativo com experiência. As senhoras estão à procura de emprego? — A Dra.Donaldson sorriu provocadoramente. — Não me parece — respondeu Deborah, com um risinho. — O único departamento que não tem falta de gente é a quinta — acrescentou a Dra. Donaldson. — Nunca tivemos problemas nessa área desde o primeiro dia. — A quinta? — inquiriu Joanna. — Que quer dizer a quinta? — A Clínica Wingate tem uma grande quinta de produção animal — explicou a Dra. Donaldson. — É parte integrante do nosso esforço de investigação. Interessa-nos a pesquisa reprodutivabásica em espécies além do homo sapiens. — Deveras? — indagou Joanna. — Que outras espécies? —Espécies que sejam economicamente vantajosas — respondeu a Dra. Donaldson. — Gadovacum, porcos, criação, cavalos. E, claro, também estamos desenvolvidos na reprodução de animais deestimação, como cães e gatos. — Onde fica a quinta? — perguntou Joanna. — Na propriedade logo atrás deste edifício principal, a que chamamos afetuosamente a“monstruosidade”, e depois de um pinhal cerrado. O sítio é algo idílico. Há um lago, um dique e até umvelho moinho, além dos celeiros, campos de milho, de forragem e cercados. A Instituição Cabot abrangiaoitenta hectares, com alojamento para o pessoal e a sua quinta própria, para que fosse largamente auto-suficiente na alimentação. O fato de ter a quinta nas instalações foi determinante para arrendarmos apropriedade. A investigação torna-se muito mais eficiente por termos a quinta próxima do laboratório,isto sem falar no alojamento. — Têm cá um laboratório? — perguntou Deborah. — Com certeza — disse a Dra. Donaldson. — E grande. Tenho muito orgulho nele, talvez por tersido responsável pela sua instalação. — Podemos fazer uma visita guiada? — indagou Deborah. — Acho que se pode arranjar — replicou a Dra. Donaldson. — Ah, aqui vem o Dr. Smith. As mulheres viraram-se para observar um homem grande e entroncado, de bata vestida, queentrava na sala de prancheta na mão. Naquele momento, a porta da frente abria-se e entrava um enxamede funcionários, em animada conversa. Uma mulher dirigiu-se à recepção, enquanto o resto se amontoavano vestíbulo de onde Smith acabara de sair. Depois de se apresentar e de apertar as mãos de ambas, o Dr. Smith sentou-se, cruzou as pernas ecolocou a prancheta no colo. — Ora bem — disse, puxando uma de muitas canetas que tinha no bolso do peito. — MeninaCochrane, parece que prefere anestesia local. — Correto — assentiu Deborah. — Posso perguntar por quê? — questionou o Dr. Smith. — Sinto-me melhor com essa idéia — respondeu Deborah.
  23. 23. — Presumo que a informaram que preferimos anestesia geral ligeira para extrações de óvulos. — A Dra. Donaldson assim mo disse — concordou Deborah. — Também disse que a decisão eraminha. — Nada mais verdadeiro — disse o Dr. Smith. — Não obstante, gostaria de lhe dizer por quepreferimos tê-la a dormir. Com anestesia geral ligeira, procedemos à extração sob observaçãolaparoscópica direta. Com anestesia local e paracervical, a extração processa- se com uma agulha guiadapor ultrasom. Comparativamente, é como trabalhar no escuro. — o Dr. Smith parou e sorriu. — Hádúvidas acerca do que eu disse até agora? — Não — disse Deborah, simplesmente. — Há mais uma questão — continuou o Dr. Smith. — Com anestesia não podemos controlar a dorinerente à manipulação intra-abdominal, ou seja, se tivermos problemas para chegar a um dos ovários etivermos de manobrar para isso, poderá sentir algum desconforto. — Posso arriscar — redargüiu Deborah. — Mesmo considerando a questão da dor? — Acho que posso com isso — insistiu Deborah. — Prefiro estar acordada. O Dr. Smith olhou brevemente para a Dra. Donaldson que encolheu os ombros. Em seguida, fez oapanhado do histórico médico de ambas as mulheres. Quando terminou pôs-se de pé. — Por agora me basta. Agora vão mudar de roupa e encontramo-nos lá em cima. — Vão dar-me um sedativo? — perguntou Joanna. — Com certeza — respondeu o Dr. Smith. — Será administrado assim que a puserem a soro.Mais perguntas por agora? Nenhuma das mulheres respondeu e o Dr. Smith sorriu e saiu. A Dra. Donaldson acompanhou-asa uma sala de espera menor e separada. De um lado havia vários vestiários com portas de venezianas e dooutro um conjunto de armários. Uma enfermeira pequenina e de rosto agradável reabastecia oequipamento das doentes. Encontravam-se várias macas junto às portas basculantes. No meio da sala,algumas cadeiras, um sofá e uma mesinha cheia de revistas. A Dra. Donaldson apresentou as mulheres à enfermeira, que se chamava Cynthia Carson. Por seuturno, esta deu-lhes indumentárias hospitalares e uma chave de armário para cada uma, junto com arecomendação de que as prendessem nas batas, e abriu as portas de dois vestiários adjacentes. Nessemomento, a Dra. Donaldson pediu licença para sair. Pouco depois, Cynthia saía também para ir buscar osoro, Disse que voltaria num instante. — Não se calava com a história da anestesia geral! — exclamou Joanna do vestiário onde estava. — Bem podes dizê-lo — anuiu Deborah. As mulheres saíram dos respectivos vestiários, apertando o roupão fino com uma mão e agarrandoas próprias roupas com a outra. Desataram a rir quando olharam uma para a outra. — Espero não ter um ar tão patético como tu — conseguiu Joanna dizer. — Lamento anunciar — replicou Deborah — mas tens mesmo. Dirigiram-se aos armários paraguardar os pertences. — Por que é que não cedeste e aceitaste a anestesia geral? — perguntou Joanna. — Não vais começar com isso também, pois não? — contrapôs Deborah. — Achei que fazia sentido o que o anestesista disse — disse Joanna. — Especialmente quandofalou em dores da manipulação intra-abdominal. Foi o bastante para me dar vertigens. Não achas quedevias reconsiderar? — Ouve lá! — saltou Deborah, batendo com a porta do armário e arrancando a chave. Encarou aamiga. Estava subitamente corada. — Já tivemos esta conversa. Não gosto que me ponham a dormir.Chama-se fobia. Tu não gostas de agulhas e eu não gosto de anestesia, está bem? — Está bem! —disse Joanna. —Credo, tem calma! Eu é que devia estar enervada com isto, não tu. Deborah suspirou. Fechou os olhos por segundos e abanou a cabeça. — Desculpa. Não queria ser desabrida. Acho que também estou enervada, — Não faz mal — apaziguou Joanna. Nesse momento, Cynthia reapareceu com uma braçada de objetos, que despejou numa maca.Pendurou a garrafa de soro que tinha numa mão no respectivo suporte.
  24. 24. — Qual das duas é a Menina Meissner? — chamou. Joanna ergueu a mão. Cynthia deu uma palmada na maca, que tinha um lençol lavado. — E se saltasse para cima desta geringonça para eu a pôr a soro? Depois dou-lhe uma bebida quea vai fazer sentir como se estivesse na passagem de ano. Deborah estendeu a mão e deu uma apertadela no braço da amiga, enquanto trocavam um olharcompassivo. Joanna fez o que lhe diziam. Deborah passou para o outro lado da maca. Cynthia prosseguiucom os preparativos da colocação de soro com gestos econômicos e experientes. Enquanto isso, ia falando distraidamente do tempo e, antes que Joanna pudesse começar a tremer,já Cynthia lhe fazia o torniquete no braço esquerdo, abaixo do cotovelo. Joanna desviou o olhar e fez uma careta ao sentir a agulha a furar a pele. Logo a seguir já nãohavia torniquete e Cynthia punha um penso. — Pronto, daqui já está — declarou Cynthia. Joanna virou-se. Estava surpresa. — O soro já está colocado? — Pois está! — disse Cynthia alegremente, enquanto enchia duas seringas com fármacos. — Eagora vem a parte engraçada. Porém, e só para ter a certeza: não tem alergia a medicamento nenhum, poisnão? — Não — disse Joanna. Cynthia debruçou-se sobre o suporte do soro e tirou a tampa da primeira seringa. — Que é que me vai dar? — perguntou Joanna. — Quer mesmo saber? — perguntou Cynthia. Acabou a primeira e passou à segunda. — Quero! — Diazepam e fentanil. — Troque isso por miúdos. — Valium e um analgésico opiado. — Valium conheço. E a outra coisa, o que é? —É da família da morfina — explicou Cynthia. A enfermeira retirou rapidamente as compressas e outras coisas e deitou tudo num receptáculoespecífico. Enquanto registrava algo na prancheta que estava na maca, a porta abriu-se e entrou outrapaciente. Sorriu para as mulheres, dirigiu-se ao cabide da roupa, tirou um conjunto de indumentáriashospitalares e desapareceu num dos vestiários. — Achas que é outra doadora? — perguntou Joanna. — Não faço idéia — respondeu Deborah. — Chama-se Dorothy Stevens — disse Cynthia em voz abafada, rodeando a maca e destravandoas rodas. — É uma cliente da Wingate, que está cá para outra transferência embrionária, mais uma. Apobrezita já sofreu muitas desilusões. — Eu vou já seguir? — perguntou Joanna quando a maca começou a andar. — Vai, sim — disse Cynthia. — Disseram-me que a esperavam urgentemente quando fui buscar omaterial para o soro. — Posso ir também? — perguntou Deborah. Tinha pegado na mão de Joanna. — Receio que não — replicou Cynthia. — Deixe-se estar e descontraia-se. Quando menos esperarjá está lá também. — Eu fico bem — disse Joanna, sorrindo para Deborah. — Já sinto aquela coisa do opiado. Não énada mau. Deborah apertou a mão de Joanna. Antes das portas se fecharem ainda viu Joanna a acenar porcima do ombro. Deborah voltou à sala. Foi até ao sofá e sentou-se pesadamente. Tinha fome por não ter comidonada desde a noite anterior. Pegou em várias revistas, mas não se conseguia concentrar, muito menos como estômago a dar voltas. Tentou imaginar para onde levariam Joanna, naquele edifício enorme e antigo.Largou as revistas e olhou em seu redor. Lá estava a mesma disparidade entre cornijas e madeiramentos eo mobiliário que ressaltava na sala de espera maior. Joanna tinha razão: Wingate era um lugar cheio de
  25. 25. contrastes vagamente inquietantes. Deborah queria, tanto como Joanna, ver a extração de óvulos pelascostas. Abriu-se a porta de um dos vestiários e Dorothy Stevens saiu com a roupa na mão, Sorriu paraDeborah antes de ir até aos armários para guardá-la. Deborah observou-a e imaginou como seria enfrentartratamentos de infertilidade e desilusões contínuos, Dorothy fechou o armário e dirigiu-se aos assentos enquanto prendia a chave na bata. Pegou umarevista, sentou-se e começou a folheá-la. Aparentemente, sentiu o olhar de Deborah, porque ergueu osseus olhos incrivelmente azuis. Foi a vez de Deborah sorrir. Depois se apresentou e Dorothy fez omesmo. Por momentos, as mulheres fizeram conversa ligeira. Após uma pausa, Deborah perguntou aDorothy se ela era doente da Clínica Wingate há muito tempo. — Infelizmente, sim — respondeu Dorothy. — Tem sido uma experiência agradável? — Não me parece que agradável seja o termo certo — replicou Dorothy. — Não tem sido umcaminho fácil, nem por sombras. Mas devo dizer que aqui na clínica me avisaram. Seja como for, nem eunem o meu marido vamos desistir, pelo menos por enquanto, até gastarmos o nosso crédito. — Vai fazer uma transferência embrionária hoje? — indagou Deborah. Tinha relutância emadmitir que já sabia. — A nona — disse Dorothy. Suspirou e depois fez figas com os dedos. — Boa sorte — desejou Deborah com sinceridade. — Muita falta me faz. Deborah imitou o gesto das figas. — É a primeira vez que vem à Wingate? — perguntou Dorothy. — É — admitiu Deborah. — Para mim e para a minha companheira de quarto. — Estou certa de que ficarão satisfeitas com a escolha — disse Dorothy. — Vão ambas fazer invitro? — Não — disse Deborah. — Somos doadoras de óvulos. Respondemos a um anúncio no HarvardCrimson. — Que maravilha! — proferiu Dorothy, sem esconder a admiração. — Que gesto bonito! Vão daresperança a alguns casais desesperados. Aplaudo a vossa generosidade. Deborah sentiu-se súbita e desconfortavelmente venal. Queria mudar de assunto antes quetransparecesse o verdadeiro motivo da sua doação. Foi salva pelo abrupto regresso de Cynthia. Aenfermeira entrou pelas portas basculantes sem qualquer aviso. — Pronto, Dorothy! — chamou Cynthia com grande entusiasmo. — Está tudo pronto! Siga para asala de transferência, que estão preparados para recebê-la. Dorothy ergueu-se, respirou fundo e saiu porta fora. — Ela é muito corajosa — observou Cynthia quando a porta se fechou. — Espero que este cicloseja bem conseguido. Ela merece mais do que ninguém. — Quanto é que custa um ciclo? — perguntou Deborah. A preocupação com a sua venalidadetrouxera a questão econômica à superfície. — Depende dos procedimentos envolvidos — disse Cynthia. — Mas em média custa entre oito edez mil dólares. — Minha nossa! — comentou Deborah. — Isso quer dizer que Dorothy e o marido já gastaramquase noventa mil dólares! — Talvez mais — continuou Cynthia — Isso não inclui o tratamento de infertilidade inicial ouquaisquer outros auxiliares que tenham sido indicados. A infertilidade é uma empresa dispendiosa para oscasais, mesmo porque os seguros não costumam abrangê-la. A maioria dos casais tem de arranjar odinheiro. Entraram mais duas doentes e Cynthia deu-lhes toda a sua atenção. Pegou a papelada dasmulheres, deu uma olhadela, pegou na indumentária e mandou-as para os vestiários. Deborah ficousurpreendida com a idade que uma delas aparentava. Não tinha a certeza, mas achou que a mulher pareciavelha, com cerca de cinqüenta anos. Sentindo-se inquieta, Deborah pôs-se de pé. — Desculpe, Cynthia — disse. A enfermeira lia agora os papéis das doentes com mais atenção. —

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