Artigo trabalho infantil

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Artigo trabalho infantil

  1. 1. O TRABALHO INFANTIL NA ERA VITORIANA: UM RETRATO DA VIDA DO PERSONAGEM PIP NA OBRA GRANDES ESPERANÇAS DE CHARLES DICKENS1 Marta Maria de Sousa Matos2 RESUMO O presente trabalho discorre sobre as condições do trabalho infantil na era vitoriana, época de grandes contrastes sociais resultantes da Revolução Industrial. Época que alterou as condições de vida do trabalhador braçal, provocando um intenso deslocamento da população rural para as cidades. Uma das consequências desse deslocamento foram as grandes concentrações urbanas. A vida que já não era fácil tornou-se inapropriada, um quarto que suportava em condições normais três pessoas, era ocupado por doze. Os operários moravam em cortiços sem estrutura física e sem nehuma higiene. Além de tudo isso, os trabalhadores eram submetidos a jornadas de oitenta horas de trabalho por semana. Teremos como base para essa análise a obra Grandes Esperanças, em particular, os relatos do personagem Pip, típico representante da classe operária da sociedade vitoriana. PALAVRAS-CHAVES: Trabalho Infantil. Era Vitoriana. Grandes Esperanças. 1. INTRODUÇÃO A era vitoriana foi assim denominada devido a Rainha Vitória que chegou ao trono inglês em 1837 e reinou por 64 anos. Nesse período ela ajudou a Inglaterra a se tornar um poderoso império, o progresso era rápido e constante, isso nos vários setores, como cultura, religião, política e literatura. Segundo Mendes (1983) a era vitoriana faz lembrar do Império Romano e do Império Espanhol, pelo progresso e esplendor, e chega a se equiparar com a Era de Péricles, Era de Augusto, Era das Catedrais, da ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  2. 2. Renascença, de Luís XIV, Era de Napoleão. O autor destaca ainda que foi uma “época de grandes e profundas modificações, de ordem material e espiritual. Não apenas de expansão política, mas de progresso real em todos os setores, inclusive no literário” (MENDES, 1983, p. 08). Mendes destaca ainda em seu texto que o progresso era rápido, de década em década, mas o progresso trouxe fortes contrastes para a sociedade. A era vitoriana marcou a história da sociedade britânica, pelo desenvolvimento rápido, as grandes transformações sociais, o destaque da literatura, do trabalho infantil, da miséria nas favelas que se formaram devido o êxodo do campo para cidade em busca de emprego. Segundo Mendes, “era um mundo de contrastes tão impressionantes, de fausto e de miséria, de grandeza e de vileza, de arte e de decadência estética, de injustiças gritantes e de reivindicações, de lirismo e de realismo, de idéias gastas e de novos surtos de pensamento, de egoísmo e devotamento, de sentimentalismo e de espírito prático, de materialismo e de espiritualidade, […] apesar de suas limitações, de seus erros, de seus altos e baixos, mereceu por tudo quanto nela existiu de esplêndido e de grande, denominar uma época, marcar um estilo de vida, enriquecer sobre posse uma literatura e afirmar perante o mundo, aturdido pelas grandes conquistas de suas máquinas, de seus homens de comércio e de política, a elevada espiritualidade de um povo”. (MENDES, 1983, p. 16). A Revolução Industrial alterou de forma impactante as condições de vida do trabalhador braçal da sociedade vitoriana, de início provocou um intenso deslocamento da população que habitava a zona rural para as cidades, em busca de melhores condições de vida, trabalhado nas fábricas. Uma das conseqüências desse deslocamento foram as grandes concentrações urbanas. A população de Londres cresceu de 800 000 habitantes para mais de 5 milhões. Os operários, durante o início dessa revolução, moravam em condições desumanas, viviam em cortiços, superlotados com dez ou doze ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  3. 3. moradores, onde apenas três deveriam morar. As ruas eram sujas, desde lixo doméstico aos dejetos que eram jogados diariamente pelas janelas das casas. Mendes relata esse fato em seu texto, segundo o autor “o despejo do lixo e das serventias das casas mal-iluminadas e mal-arejadas era feito nas ruas.” (MENDES, 1983, p. 10). Além disso, esses trabalhadores eram submetidos a jornadas de trabalho que chegavam a 80 horas por semana. O salário era insuficiente para atender as necessidades básicas daquelas pessoas. Tanto mulheres como crianças também trabalhavam, recebendo um salário ainda menor. A Revolução Industrial trouxe muitos impactos à vida das pessoas da classe baixa. As casas eram desconfortáveis, mal iluminadas e mal arejadas. O trabalho nas fábricas não era seguro, havia exploração do trabalho infantil. O salário era baixo e as taxas de desemprego aumentavam a cada ano. Começaram a se formar favelas, onde não havia coleta de lixo, repletos de cortiços com higiene precária, sem água encanada e tratada, sem saneamento. Até o banho era precário, algumas pessoas tomavam três banhos durante o ano. Eles apenas lavavam o rosto e as orelhas. Nessas condições não era de se esperar que as taxas de expectativa de vida da população fossem altas. Mendes descreve as condições de vida dos trabalhadores da era vitoriana da seguinte forma: “As classes pobres e operárias desconheciam inteiramente o banho. Lavavam apenas o rosto, o pescoço, as orelhas. A miséria nos cortiços era tremenda. Mais de uma família abrigava-se, por vezes, num só quarto. A imundície reinante era extrema. Enxameavam baratas, pulgas, moscas, percevejos. Quanto às ratazanas vorazes e até mesmo agressivas corriam por toda parte. Conta-se o caso de uma mãe que passava as noites em claro, para que os ratos não lhe comessem o filhinho.” (MENDES, 1983, p. 10). ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  4. 4. É neste contexto que Charles Dickens começa a publicar seus romances. Tendo escrito quase toda sua obra no período de reinado da rainha Vitória, Dickens foi testemunha de uma época de intensas transformações sociais e culturais na sua Inglaterra natal. Segundo Wilson “Dickens não era apenas um simples vitoriano, mas o maior e incomparável escritor inglês do seu tempo. Shaw o igualou a Shakespeare.” (WILSON, 1965, p. 12). O trabalho infantil torna-se uma das características da economia inglesa. Dickens, então, aflorará estes problemas, mas conquistará também o público burguês, pois jamais se assumiu como um revolucionário. LUCAS (1992) ressalta que nos capítulos iniciais de Grandes Esperanças, Dickens procura apoiar a classe trabalhadora, a violência da classe e ao mesmo tempo desmitificá-la. As personagens de Dickens, quando melhoram de vida, devem essa melhoria às circunstâncias e acasos da vida, e não aos próprios esforços ou à luta contra a injustiça social. Como exemplo pode-se citar o personagem Pip da obra Grandes Esperanças, menino simples, pobre, de vida comum, com destino já traçado, trabalharia como ferreiro ao lado do cunhado Joe. E tudo causava ao garoto muito contentamento, pois aos pobres já era traçado um destino ao nascer. Mas ao receber o dinheiro de um benfeitor anônimo muda de vida, sem fazer esforço algum por essas melhorias. Álvaro Pina escreve sobre as várias maneiras que se podem interpretar Grandes Esperanças, destacando a carga de subjetividade contida na obra. Segundo Pina, “Dickens, em Great Expectations, criou um processo narrativo de primeira pessoa perante o qual, se o quiser ler bem, o receptor tem de se distanciar tanto do Pip personagem autonarrada como do Pip que se autonarra, para por debaixo da relação entre os dois Pips se encontrar com a subjetividade do autor, e participar plenamente na comunicação literária como âmbito de encontro de autor e receptor no comum, na humanidade que a ambos essencialmente define, em pleno respeito da individualidade de um e de outro que o modo de ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  5. 5. composição de Great Expectations põe em evidência. Ler Great Expectations em conformidade com o modo da sua composição significa, por um lado, procurar a verdade íntima de um Pip que também a procura; por outro lado, apropriar a tematização e a avaliação estética de condições de vida de seres humanos levados a cabo por Dickens por intermédio de Pip mas independentemente de Pip. Será superficial qualquer leitura do romance que parta de Pip e a ele se confine. Pip é apenas o ponto de encontro de autor e leitor, cuidadosamente diferenciado de ambos” (PINA, 1984, p. 81). As aventuras vividas pelos personagens infantis de Charles Dickens levam o leitor a refletir sobre as condições sociais da época vitoriana e como a criança era vista pela sociedade. Ao ser levada ao trabalho aos cinco anos de idade, pelos próprios pais, que deveriam ser seus protetores, percebemos que naquela sociedade a criança era uma peça do jogo econômico dos adultos. Uma peça que poderia ser vendida, negociada, alugada e até mesmo abandonada, quando não mais servisse aos propósitos dos adultos. Assim como desabafou Henry Mayhew, em seu artigo London labour and the London poor, falando que era no mínimo uma vergonha nacional, as condições de miséria enfrentadas pela população, em contraste com toda riqueza que a Inglaterra conquistava na época. 2. A INFÂNCIA NA ERA VITORIANA As condições de vida na era vitoriana não eram as mesmas para todas as crianças. O tipo de vida que uma criança tinha dependia diretamente da posição social que sua família ocupava. Caso não pertencesse a uma família rica, com direito de frequentar a escola, ter boa alimentação, condições higiênicas simples como banhar-se diariamente, a criança na sociedade vitoriana era obrigada a contribuir para o orçamento familiar. Para isso, era necessário enfrentar longas horas de trabalho, em condições de perigo, como carregando pedras, limpando chaminés, rastejando-se nas minas, e tudo isso por um salário muito ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  6. 6. pequeno. Elas sequer usavam sapatos, pois a família não dispunha de condições para tal regalia. A maioria das crianças não tinha outra escolha, precisavam trabalhar para ajudar suas famílias a ganhar dinheiro suficiente para sobreviver. Além das longas jornadas de trabalho, essas crianças enfrentavam condições de vida desumanas, moravam perto das fábricas em bairros sem nenhuma higiene. Elas eram desnutridas, a única alimentação feita no dia era basicamente pão, carne de porco, leite ou queijo. Além da precária alimentação, essas crianças enfrentavam a sujeira das ruas. Elas começaram a contrair doenças como cólera, devido à água poluída que bebiam, além disso apresentavam pulmões infectados devido a poluição das fábricas, outras mais, contraíram tuberculose, varíola e difteria. Como não havia vacinas, as taxas de mortalidade infantil eram altas. Estas condições afetavam não só as crianças, mas os adultos também. Muitas crianças viviam com suas famílias nessas condições precárias, mas havia inúmeras que moravam em abrigos, e muitas outras nas ruas de Londres. Estas crianças eram expulsas de suas casas e jogadas nas ruas, algumas iam para as ruas porque fugiam de casa por causa dos maus tratos que recebiam. Tantas crianças vivendo sem orientação, só viam um caminho a ser seguido, o crime. Então começaram os pequenos furtos nas ruas de Londres. Para os moradores era uma verdadeira ameaça para a sociedade, pensaram então que a educação seria a resposta para solucionar o problema dos furtos e retirar as crianças das ruas. Outros diziam que o crime não fora causado pela falta de educação e esta não seria a solução para o problema, e que o crime só seria combatido através da perseguição aos pequenos infratores. Porém, uma característica marcante na época era que somente as crianças ricas iam à escola, os filhos dos comerciantes, industrias, banqueiros e funcionários públicos. ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  7. 7. Apesar de sua grande importância, a educação desempenhou um papel muito pequeno na vida das crianças. Na Era Vitoriana existia a crença de que a educação não era necessária. Então, em 1870, a Lei da Educação foi aprovada afirmando que todas as crianças, com idades entre cinco a dez anos, deviam freqüentar a escola. No entanto, muitas crianças tentaram evitar a escola, principalmente por causa do calor, barulho, odores e meio ambiente insalubre em sala de aula. As crianças pobres preferiam trabalhar do que ir à escola, isso porque se estivessem na escola estariam perdendo o dinheiro que ganhariam se estivessem trabalhando. 3. AS CONDIÇÕES DO TRABALHO INFANTIL NA ERA VITORIANA As relações sociais na época eram baseadas no jogo do poder aquisitivo, as crianças eram muito mais baratas do que os adultos para o trabalho nas fábricas, indústrias e minas. Não se queixavam, tinham dedos ágeis, podendo arrastar-se sob as máquinas. Como os empresários queriam lucrar e não ter grandes prejuízos, o trabalho infantil passou a ser um bom negócio. Por serem pequenas o suficiente, o trabalho das crianças consistia em recuperar bobinas de algodão, rastejar sob máquinas para amarrar os fios partidos. Um trabalho bem perigoso, pois elas não dispunham de nenhuma proteção para realizá-lo e arriscavam-se a ser pegos pelas máquinas, correndo risco de perder membros como pernas e braços ou até mesmo morrerem caso fossem esmagados pelas enormes máquinas. Além do trabalho nas fábricas, as crianças também eram requisitadas nas minas. Como o carvão passou a ter um ótimo valor comercial, o trabalho das crianças consistia em empurrar caminhões de carvão ao longo de túneis, rastejar através dos túneis, que eram muito estreitos e baixos para um ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  8. 8. adulto. Elas eram responsáveis por abrir e fechar as portas de ventilação. Algumas crianças começavam a trabalhar às duas da manhã e ficavam sob o solo por dezoito horas seguidas. Havia também os “limpa-chaminés”, trabalho este muito perigoso, como descreve Mendes. “Havia a classe dos meninos que limpavam as chaminés das casas. Os perigos e sofrimentos dos limpa-chaminés estarrecem, subiam e desciam por estreitas chaminés, a limpá- las da fuligem interior que lhes invadia sufocamente os pulmões, além de transformá-los em verdadeiras caricaturas de pretos. Banhavam-se apenas três vezes por ano. Um deles confessava que levara 15 meses sem um banho sequer”. (MENDES, 1983, p. 10). A jornada de trabalho era de segunda a sábado, o único dia de folga era aos domingos, porque eles iam à igreja. Muitas crianças ficaram órfãs, outros foram simplesmente abandonados. Eles trabalhavam muitas horas por pouco dinheiro e para se alimentarem tinham ainda que venderem objetos como jogos, lenha, botões, flores, sapatos de verniz ou até varreram as ruas, por onde os ricos passavam, no intuito de receberam algum dinheiro para no mínimo comprarem um simples pedaço de pão. Mendes relata ainda sobre as condições do trabalho infantil na era vitoriana, segundo ele “as condições de trabalho na época que Dickens viveu e descreveu nos seus romances eram deploráveis. As leis que proibiam essa profissão [dos meninos que limpavam chaminés] aos menores de 20 anos eram burladas.” (MENDES, 1983, p. 10). 4. A CONCEPÇÃO DO TRABALHO INFANTIL NA OBRA GRANDES ESPERANÇAS ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  9. 9. Dickens conviveu com a realidade do trabalho infantil, então tentou aflorar ao máximo esse problema em suas obras. Em Grandes Esperanças, o personagem Pip já tem definido desde os primeiros dias de vida o seu futuro profissional. Ele irá ajudar seu cunhado Joe na ferraria. Pip não tinha outra perspectiva de vida, nem mesmo estudo era destinado a ele. Como era um garoto bem curioso frequentava as aulas na casa da tia avó de Mr. Wopsle, mas assim com ele define, a professora não era muito eficiente. “A tia-avó de Mr. Wopsle mantinha uma escola noturna em nossa vila; ou melhor, ela era uma velha ridícula, de recursos limitados e enfermidades ilimitadas, que costumava dormir das seis horas ás sete horas, todas as noites, na frente dos alunos, que pagavam, cada um, dois pence por semana pela “instrutiva” oportunidade de vê-la dormir. Acreditava-se que Mr. Wopsle aplicava um “exame” aos alunos uma vez por trimestre. Mas o que ele fazia nessas ocasiões, era arregaçar as mangas, passar os dedos pelos cabelos e nos brindar com a oração de Marco Antônio sobre o corpo de César [...] eu atacava o alfabeto como se ele fosse um espinheiro, arranhando-me e dilacerando-me em cada letra [...] nas aulas de aritmética, defrontava-me com aquele pequenos larápios, os nove algarismos que pareciam cada noite, fazer alguma coisa nova para se disfarçar e evitar que fossem reconhecidos […] enfim, comecei, meio as cegas e capenga, a ler, escrever e fazer contas.” (Cap. 07, p. 65 – 66). Sobre o trabalho como ferreiro, era unanimidade na casa de Pip, não haveria possibilidade de ele sonhar com outras carreiras. Não havia outras carreiras para as quais ele serviria. Quando vai pela primeira vez à casa de Miss Hasvisham ele acha que a sua função lá seria trabalhar, e aceita isso naturalmente, “respondi de coração mais aberto a essa indagação, dizendo que sim, que queria muito trabalhar” (Cap. 11, p. 107). A frieza da sociedade em relação ao trabalho infantil está presente no livro através do personagem de Mr. Pumblechook, típico cidadão da sociedade vitoriana. O próprio Pip se mostra satisfeito com o destino que lhe é concedido, ele aguarda ansioso para trabalhar como ferreiro, como se esse destino fosse sua libertação dos maus-tratos que sofria de sua irmã. Pip relata “que a ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  10. 10. ferraria era o caminho iluminado para a vida adulta e a independência.” (Cap. 14, p. 131). Ressalta ainda que “Quando tivesse idade suficiente, iria ser aprendiz de Joe, e até que pudesse assumir tal distinção, não deveria ser aquilo que Mrs. Joe chamava de mimado, ou (segundo minha interpretação) mal-tratado” (Cap. 07, p. 64). Vemos então a importância do papel da família na formação do caráter do indivíduo, a própria irmã de Pip empurra o menino ao trabalho, dizendo que ele era um peso em sua vida. Joe também estimula Pip para trabalhar, pois isso sempre fez parte da realidade do pobre cunhado de Pip. Quando se refere à irmã, percebemos certa amargura nos sentimentos de Pip em relação a ela. “A forma como minha irmã me educou tornou-me demasiadamente sensível. No mundinho em que as crianças vivem, não importa o que, as eduque, não há nada que seja mais percebido e sentido tão claramente quanto a injustiça. É verdade que é apenas uma injustiça pequena aquela a que uma criança pode ser exposta; mas ela é pequena, o mundo dela é pequeno, e o pequeno cavalo de brinquedo parece, para ela, se erguer muito alto, como um enorme caçador irlandês. Dentro de mim, eu havia suportado, desde a mais tenra idade, um perpétuo conflito com a injustiça. Sempre soube desde que aprendera a falar, que minha irmã, com o seu modo caprichoso e violento de me tratar e castigar, era injusta comigo […] e a convivência com tudo isso, de um modo solitário e desprotegido, resultou, em grande parte, no fato de eu ser moralmente tímido e muito sensível.”(Cap. 08, p. 84 – 85). Pip era apenas um garoto comum, e não tinha noção de como era visto pela sociedade e por quais motivos era excluído por ela. “Assim, não era mais que o garoto da ferraria, e sempre que algum vizinho quisesse um garoto para espantar passarinhos, pegar pedras ou qualquer trabalho dessa espécie, eu era o escolhido para o trabalho. A fim de que, contudo, nossa 'posição superior' não ficasse comprometida.” (Cap. 07, p. 64). ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  11. 11. O garoto não questiona os motivos pelos quais ele é obrigado a trabalhar ainda criança, e porque ele não poderia estudar, brincar, estas atitudes eram vistas por sua irmã como falta de atividades a serem feitas ou até mesmo dizia que Pip era um garoto mimado por querer essas regalias. 5. A RELAÇÃO COMMOM – GENTLEMAM NA PERSPECTIVA DO TRABALHO Um gentleman na sociedade vitoriana era um homem bem vestido, de bons modos, que sabia usar a linguagem corretamente, encantador pelo discurso, invejado pelo modo que se comportava nos lugares. Era um homem assim que Pip queria se tornar quando passa a morar em Londres. Há um contraste fortíssimo entre Herbert e Pip, aquele fora incumbido de ensinar Pip a se comportar como um gentleman. Pip era de origem comum, tinha disposição ao aprendizado, mas não partilhava da mesma educação recebida por Herbert, este fora educado para ser um cavalheiro, e Pip recebera educação condizente ao que se tornaria no futuro, um ferreiro. O curioso na obra é que Pip, ao receber o dinheiro do benfeitor passa a fazer uso desse dinheiro como se fosse um gentleman, e não pensa mais em trabalhar. “Eu não deveria ser destinado à profissão alguma, e deveria receber a educação apropriada caso conseguisse acompanhar a média dos jovens em circunstâncias prósperas. (Cap. 24, p. 224). Então pode-se deduzir que na era vitoriana a classe dos comuns era a classe trabalhadora e os gentlemans eram os patrões. Mas Pip tinha origem humilde, ele poderia mudar o frasco, mas não sua essência. No entanto, percebemos que no decorrer da obra Pip começa a ficar deslumbrado com a vida de um gentleman, passa a gastar seu dinheiro com coisas supérfluas, ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  12. 12. começa a se endividar pela falta de controle e organização. Ele mesmo relata que “Ao habituar-me às minhas esperanças, comecei, em sentir, a notar o efeito delas sobre mim mesmo e sobre os que cercavam. A influência sobre meu caráter, eu procurava dissimular, mas não podia ser considerada como inteiramente benéfica. Eu vivia em um estado de inquietação crônica...” (Cap. 34, p. 304). Vemos então que a sociedade começa a manifestar influência sobre Pip, e a transformar o caráter do garoto. Tiramos essas conclusões dos próprios relatos de Pip. “O que eu me tornaria vivendo em um ambiente assim? Como seria possível que meu caráter não ficasse influenciado por ele? Seria de espantar que meus pensamentos ficassem ofuscados, da mesma forma como meus olhos, ao deixar aqueles quartos amareleciso e sombrios e voltar à luz do dia?” (Cap. 12, p. 119). Herbert é nobre por essência, mas sua família não tem dinheiro, então ele precisa trabalhar, mas não o faz com grande competência. Seria parte da essência de um gentleman não ter vocação para o trabalho? Herbert só consegue prosperar com a ajuda de Pip nos negócios. Pip pede ajuda a Wemmick “...para [orientá-lo] quanto à melhor maneira de ajudar a Herbert, com meus recursos, propiciar a Herbert, no momento, uma certa renda...” (Cap. 37, p. 328). Quando o leitor começa a pensar que Pip voltou a ser simples e honesto se depara com uma cena de egoísmo e prepotência quando Pip retorna ao vilarejo na intenção de casar-se com Biddy. No entanto, Biddy está casada com Joe e eles têm um filho fruto da união. O leitor percebe o quanto Pip tem de ingênuo e prepotente ao considerar que Biddy o esperaria eternamente, e que ela não teria vida própria e sentimentos que poderiam ser controlados por ele. ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  13. 13. 6. O PODER DA SOCIEDADE CAPITALISTA SOBRE O CARÁTER DO PERSONAGEM PIP A primeira deformação de caráter do personagem Pip aparece antes mesmo dele ser contemplado com o dinheiro pelo anônimo. Ao visitar constantemente Miss Havisham e Estella, Pip começa a se envergonhar da vida simples que levava, ele mesmo o diz “É uma coisa muito dolorosa sentir vergonha da própria casa. Deve haver nisso uma infame ingratidão, e a punição deve chegar e é bem merecida. Mas que em si só é um sofrimento, posso asseverar”. (Cap. 14, p. 131). Antes de ter contato com a riqueza de Miss Havisham, Pip, no âmbito de sua inocência infantil acredita que sua casa era a mais elegante de todas. “eu acreditava que aquela sala de visitas era o mais elegante dos salões; que a aporta da frente era um misterioso portal do Templo do Estado, cuja solene abertura se fazia com o sacrifício de galinhas assadas; que a cozinha era um aposento íntegro, apesar de não ser magnífico. (Cap. 14, p. 131). Ao receber influências dos preconceitos existentes em Miss Havisham e Estella, Pip começa a mudar o seu conceito e diz que “passado um único ano, e tudo isso havia mudado. Agora tudo era grosseiro e vulgar, e eu de maneira alguma deixaria que Miss Havisham ou Estella vissem aquilo.” (Cap. 14, p. 131). Em pouco de tempo de convivência com Miss Havisham Pip muda sua visão dos fatos e começa sentir o desejo de se tornar rico para estar à altura de Estella, sua amada. ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  14. 14. Mesmo tendo mudado tanto, Pip reconhece suas novas concepções, mas não culpa Miss Havisham ou qualquer outra pessoa por ter lhe influenciado a pensar de uma nova maneira. “O quanto de ingrata condição de minha mente se devia a mim mesmo, o quanto se devia a Miss Havisham ou à minha irmã, não vem ao caso, nem para mim nem para ninguém. A mudança já se processava dentro de mim; a coisa já estava feita. Bem ou mal, justificada ou não, já estava feita”. (Cap. 39, p. 352). Mesmo com o desejo de tornar-se rico, Pip não tem escolha e começa a trabalhar como ferreiro, no entanto, as suas expectativas infantis foram completamente dissipadas “Antes me parecia que quando, eu pudesse estar empregado na ferraria como aprendiz de Joe, sentir-me-ia honrado e feliz. Agora que isso se realizara, sentia-me apenas enegrecido com o pó do carvão, e, em comparação com o peso que eu carregava, dia a dia, de minhas recordações, a bigorna era uma pluma”. (Cap. 14, p. 131). A sociedade contaminou Pip e alterou seus princípios morais, sua simplicidade, lealdade e seu caráter. Pip conseguiu tornar-se um gentleman, reconhecido e respeitado. Quando seu benfeitor aparece sente-se orgulhoso pela contribuição dada para levar o pobre garoto a ser um cavalheiro. Mahwith diz: “Olhe só, um relógio de ouro! É uma jóia rara! Só um cavalheiro usaria assim! Um brilhante montado com rubis! Sim, senhor, isso é ser um cavalheiro! E a sua roupa de baixo, fina, maravilhosa! Seu traje: impossível haver coisa melhor! Os seus livros, centenas deles! E o senhor lê tudo, não é?” Cap. 39, p. 352). Mas será que Pip sente-se totalmente realizado, em ser um gentleman, possuir dinheiro, ser respeitado pela sociedade. É o bastante para a felicidade de um ser humano. O fato de ter abandonado Joe, seu amigo ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  15. 15. leal de todas as ocasiões e ter sentido vergonha dele, da casa onde fora educado. Será que apenas o fato de não ter o amor de Estella é que impede a completa felicidade de Pip. Pip se torna amargurado e não é feliz diante da atual condição, ser gentleman, reconhecido pela sociedade não significa nada, pois sua essência não é essa. Segundo Pina, “O dinheiro surge como um poder deturpador da qualidade humana da vida e das relações sociais (como é particularmente evidente em Estella enquanto expressão do poder de Miss Havisham) e intimamente ligado ao crime, à inversão e falsificação de valores, ao poder da exterioridade sobre o ser humano”. (PINA,1984, p. 130). Pip talvez não soubesse disso, a sociedade pode tê-lo corrompido, mas não o manterá sob seu domínio para sempre. Com a maturidade o ser humano percebe que os seus valores valem mais do que qualquer quantia em dinheiro, ou respeito de uma sociedade prepotente e injusta. 4. CONCLUSÃO Conclui-se com este estudo que a era vitoriana, em particular, a Revolução Industrial, exerceu grande influência no que diz respeito às mudanças ocorridas na época. No entanto, talvez o maior dos impactos tenha sido a exploração do trabalho infantil. Dickens retrata esses problemas de forma excepcional em Grandes Esperanças, o leitor consegue entender a crítica que Dickens faz de forma satírica à sociedade da época, que valorizava as roupas, os modos, a maneira de falar do indivíduo. Uma sociedade que desprezava os pobres, que explorava suas crianças, que visava somente o capital e a ostentação do luxo. Grandes Esperanças traz uma reflexão profunda sobre a forma como as crianças eram tratadas e já antecipa como será a concepção de infância nos séculos seguintes. Elas ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  16. 16. ditarão as regras amanhã, então o que se pode argumentar, se elas destruírem o nosso planeta, se foi dessa forma que as educaram. Cabe a cada ser humano refletir sobre suas atitudes, sobre o exercício de cidadania. E a literatura é um dos meios mais práticos e dinâmicos de se promover essa reflexão. As ideias de escritores como Dickens não deveriam ficar apenas na estante, deveriam ser colocadas em práticas e vivenciadas. Grandes Esperanças nos leva a reflexão para muito além do conflito entre capital e sociedade e o amor impossível entre Pip e Estella, essa obra estimula o leitor para percepção dos valores atribuídos à infância e que serão preservadas no adulto, e a importância de ensinar valores morais para que sejam formados adultos dignos, que tenham caráter e não se deixem corromper ou dominar por qualquer discurso. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  17. 17. 1. DICKENS, Charles. Grandes Esperanças: texto integral / Charles Dickens: tradução Daniel R. Lehman. São Paulo: Martin Claret, 2006. Coleção a obra-prima de casa autor; 49. Série ouro. 2. LUCAS, John. 1992. “Becoming a novelist”. In: Id. Charles Dickens: The major novels. Harmondsworth: Penguin. (Penguin Critical Studies), p. 1-21. 3. MAYHEW, Henry. London labour and the London poor. London: Penguin, 1985 (publicado originalmente 1851). 4. MENDES, Oscar. 1983. “A era vitoriana”. In: Id. Estética literária inglesa. São Paulo; Brasília: Itatiaia; INL, (Col. Ensaios, v.10), p. 8- 17. 5. PINA, Álvaro. 1984. “Great Expectations: A subjectividade como construção simbólica”. In: Id. Dickens: a arte do romance. Lisboa: Horizonte Universitário, p. 85-134. 6. WILSON, Edmund. 1965 [1941]. “Dickens: os dois Scrooges”. In: Id. Raízes da criação literária. Trad.: Edilson Alkmim Cunha. Rio de Janeiro: Lidador, p. 11-86. 7. Charles Dickens. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Dickens. Acesso em 18 de maio de 2010. Às 22h00min. 8. Revolução Industrial. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolução Industrial. Acesso em 20 de maio de 2010. Às 15h30min. ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.
  18. 18. 9. Sociedade Vitoriana. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/schools/primaryhistory/victorian_britain. Acesso em 18 de maio de 2010. Às 22h30min. 9. Trabalho Infantil na Sociedade Vitoriana. Disponível em: http://www.freeessays.cc/db/18/ehc33.shtml. Acesso em 20 de maio de 2010. Às 14h40min. ____________________ 1 Artigo apresentado como requisito parcial para conclusão da disciplina Prática de Pesquisa IV, ministrada pelo Prof. Dr. Márton Tamás Gémes. 2 Acadêmica do 5º período do Curso de Letras – LI da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.

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