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O texto discorre sobre o substrato poético de alguns estudos e pesquisas teórico-práticos desenvolvidos no âmbito da educação em artes visuais na Universidade de Brasília, revelando a dupla face do desejo e da necessidade de se realizar um trabalho didático transformador e artístico.

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Criação Didático Poética na Arte

  1. 1. CRIAÇÃO DIDÁTICO-POÉTICA NA ARTE POETIC THAUGHT IN ART CREATION Ana Beatriz Barroso Professora do Departamento de Artes Visuais da Universidade de Brasília (VIS-UnB) 106 Resumo: O texto discorre sobre o substrato poético de alguns estudos e pesquisas teórico-práticos desenvolvidos no âmbito da educação em artes visuais na Universidade de Brasília, revelando a dupla face do desejo e da necessidade de se realizar um trabalho didático transformador e artístico. Palavras-chave: didática, poética, artes. Abstract: This paper is about the poetical essence of some theoretical and practical studies and researches developed on education in the visual arts at the University of Brasilia, revealing the double face of desire and necessity involved in a transformative and educational process. Keywords: teaching, poetical, arts. Duas visões pessoais norteiam O relato tem o intuito demeus passos certos e incertos pela estrada compartilhar reflexões e experiênciasou teia tênue delineada em minha lida oriundas de pesquisas em arte,universitária comprometida com o uso de especialmente relacionadas à educação emtecnologias contemporâneas no ensino da artes visuais. Não se restringe, contudo, aarte. A educação é, simplesmente, este campo, mas se abre para questõesconvivência; educar é um modo de diversas na medida em que relembra econviver. Na complexidade do mundo sublinha a função paidêutica da arte: a artecontemporâneo, isso se traduz em uma age como um transformador da pessoa, dasforma de se situar no tempo e no espaço mentalidades e das reais condições de vida.que nos são dados viver, tecendo relações. Ao valorizar essa função da arte, o textoOutras visões somam-se a essas. A mais procura resgatar a beleza do sentidosintética delas percebe a educação, didático, comumente desprezado e vistoessencialmente, como um processo de como secundário, menor ou vergonhoso natransformação. Nesse sentido, o que aqui se obra artística. Sem confundi-lo com oconta são algumas mudanças que pude professoral ou com o explicativo, a escritaobservar e traduzir, em mim e no meu meio poética pode dotar de força renovada esseambiente de trabalho, em razão do que ali sentido. Ao fazê-lo, espera apontar paradesenvolvo. uma postura crítica acerca da educação no universo abrangente das artes do espetáculo. João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  2. 2. CRIAÇÃO DIDÁTICO-POÉTICA NA ARTE O cineasta Andrei Tarkovski (1990) de criação, a qual denomino didático-divide conosco uma idéia interessante, poética por seu caráter duplamentesegundo a qual a arte teria, entre outras, a facetado, onde reflexão e imaginaçãofunção de nos preparar ou educar para a metamorfoseiam-se no próprio devir.morte. Quem convivesse com a arte e nelase cultivasse teria, assim, serenidade, 107 AVE: Ambiência Virtual de Estudostranqüilidade e entendimento para aceitaro que é naturalmente inaceitável para nós Atualmente me concentro nohumanos, mortais. Assim preparada ou estudo do que venho chamando de livrosesteticamente trabalhada, a pessoa poderia virtuais. Esse conceito se originou na idéiareceber com dignidade o fim – o seu de AVE (Ambiência Virtual de Estudos), quepróprio e o dos seus entes queridos – alude à ideia de AVA (Ambiente Virtual dequando estes chegassem. Aprendizagem), expressão já corriqueira na Como não são poucos os artistas literatura especializada em educação àque trabalham como educadores, tanto no distância. O raciocínio foi relativamentepresente, quanto historicamente, considero simples: nas comunicações em torno dosrelevante trazer à tona questões acerca de processos de ensino e aprendizagem, quaseuma didática poética, a qual venho nunca se ouvia falar em estudo. Eu, pelodesenvolvendo nos últimos tempos. menos, sentia falta de ouvir pessoas menosCompanhias de teatro e dança, de Pina preocupadas em ensinar e em aprender, eBausch a Merce Cunningham e Grupo mais ocupadas em estudar e compartilharCorpo, artistas diversos, Constantin seus processos de estudo e deStanislaviski, Augusto Boal e inúmeros conhecimento. Junto a essa falta, sentiaoutros, Wassily Kandinsky, Fayga também que o estudo, ele mesmo, era e é oOstrower, docentes da Bauhaus e de cursos que nós temos em comum, nós, osde artes visuais espalhados pelo Brasil e envolvidos com a educação em artespelo mundo afora nos dias de hoje, (visuais, cênicas, musicais) – artistas,trabalham nessa perspectiva casada de professores, alunos e pesquisadores. Ofazer e pensar a arte e a educação, como estudo é potencialmente nosso elo deprocessos distintos mas indissociáveis. união. Precisávamos, portanto, de um lugarEnsaios, exercícios, leituras, confrontos e para estudar e para compartilhar nossosrealizações, ao fim, talvez, espetaculares, estudos e seus frutos. Como passamos, hojesão assim frutos de um mesmo movimento em dia, horas e horas no computador (ou, João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  3. 3. Ana Beatriz Barrosomais precisamente, na rede mundial de raramente, e por muito pouco tempo, pode-se testemunhar uma perfeitacomputadores e, portanto, no ciberespaço), harmonia entre palavra e gesto, palavrapensei, assim, que precisávamos de um e ato, palavra e sentido. Pois, em geral, as palavras de uma pessoa, seu estadoambiente virtual de estudos, de um recanto interior e suas ações físicas desenvolvem-se em planos diversos.composto por vários ambientes (TARKOVSKI, 1990, p. 87)interligados, formando por isso uma 108ambiência virtual de estudos, uma AVE. Em termos semióticos, as AVEs nos Esse lugar seria também um lugar permitem ir além do signo verbal, dade leitura e de escrita, de descobertas e palavra, e propor outras dimensões deanotações, pois quando estudamos quase articulação. Nelas, o texto enquantosempre tomamos notas, registramos tessitura fina de sentidos múltiplos podeesquemas e, claro, perdemo-nos por entre adquirir contornos variados e comunicarpáginas de autores diversos. Não é vão valores por meio de cores, disposiçõeslembrar que, pelo fato desse lugar se situar gráficas, ritmos visuais, composiçõesno ciberespaço, nossa leitura e nossa sonoras, volumétricas e semânticas. Certaescrita, ali, era e é necessariamente convergência de sensações plásticas,hipertextual e multimídia. Além daquela musicais, ímpetos interativos e significadosfalta, aquela lacuna ressentida em relação à ambíguos pode ser explorada e vivenciadaideia de estudo (essa fase constante na vida de modo direto, gerando processos deuniversitária e anterior à pesquisa significação que passam efetivamente pelopropriamente dita), minhas AVEs surgiram estético e pretendem tocar a pessoa não sóde uma necessidade real de realizar em sua intelectualidade.anotações em um lugar que já não podia Como essas AVEs são feitas commais ser um simples caderno, pois este já tecnologias acessíveis, fáceis de usar –não comportava uma série de textos que eu tanto pelos possíveis autores, quanto pelosprecisava ter ao alcance da mão e cujas possíveis leitores – uma vez compreendidolinguagens extrapolavam a dimensão da seu potencial de transformação, elas podemescrita: eram vídeos, animações, outros se multiplicar e, nessa multiplicação,sites, um conjunto de fotos e desenhos, ventilar os ares da cibercultura,entrevistas e pequenos documentários, especialmente no que tange os meios deenfim, formas que não cabiam mais em cultivo das artes, quaisquer que sejam elas,folhas de papel. das literárias às espetaculares. Esses meios, mais do que outros, necessitam de formas “Palavras, palavras, palavras” – na vida de comunicação irisadas, que dêem conta real, estas têm pouco significado, e só João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  4. 4. CRIAÇÃO DIDÁTICO-POÉTICA NA ARTEda leveza e da gravidade da estética na culturas. Em vez de buscar novas formasatualidade, das tensões do fazer artístico e para o livro no universo da mídiada diversidade poética teoricamente eletrônica, percebi que o livro é bem maispossível no mundo contemporâneo. Essas um conceito que ganha formas distintas aoAVEs são de certo modo contra-culturais no longo do tempo. Desse modo, não foi difícilsentido de apontarem para um uso ver que o velho sonho de Jorge Luis Borges 109insuspeito, inusitado e imprevisto de (e de tantos outros) do livro como universotecnologias amplamente disseminadas pela e do universo como biblioteca, estaria emindústria informacional com vistas a outras nossos próprios olhos, conduzindo nossafinalidades. A partir de pequenas própria postura, levando-nos a nossubversões, a arte e o uso original de relacionarmos com o mundo de modoferramentas de comunicação por artistas particular.comprometidos com a educação, emsentido amplo, provocam alterações cujas O universo (que outros chamam aconseqüências podem apenas ser Biblioteca) é composto de um númeropressentidas no presente. indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercado de balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os andaresLivro-lugar inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. (BORGES, 2007, p. 69) A idéia de AVE me levou a formulara de livro-lugar. Sim, pois dentro de um Sendo assim, eu poderia e pude verlugar de estudo onde efetivamente com meus próprios olhos o que já haviaestudamos se não nos livros? E não seriam lido em alguns teóricos: a Internet comoesses fabulosos meios de comunicação, em imensa biblioteca, composta por inúmerossua portabilidade e facilidade de manuseio, livros, que eram sites desorganizados entrejá, em si, lugares privilegiados de estudo, de si. Quando fui colocando um pouco deelaboração e de abertura do conhecimento? ordem nesse caos hipertextual, percebi queOs livros são, historicamente, meios de estava, eu mesma, escrevendo alguns livros,comunicação extremamente propícios para criando lugares onde as coisas (em fluxoa guarda, o trabalho transformador e a frenético) podiam se acalmar, deixar-se vertransmissão de saberes, conhecimentos e e sentir, serem efetivamente estudadas. João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  5. 5. Ana Beatriz BarrosoNem todos esses livros estão concluídos e (Departamento de Artes Visuais, Institutonem sei se de fato um dia estarão por ser de Artes, UnB). É um livro dedicado aotal incompletude, favorecida pela estudo introdutório do cinema decibercultura, um traço diferencial entre os animação. Videlivros virtuais e os impressos e eletrônicos. <http://animaemrede.blogspot.com>.Estes últimos são, ambos, produtos 110acabados, concluídos e comercializáveis. Os“meus” livros virtuais, livros-lugares, são só Avesavessas: livreto ou apenas folha solta,potencialmente livros, daí o adjetivo que os mais que livro, esse lugar se configuraqualifica, a virtualidade, pois são livros quase apenas só como um índice ou mapaapenas na medida em que quem neles entre de navegação pessoal que me dá acessoperceba a força de comunicação rápido e personalizado para os lugares aoscaracterística dos livros e se disponha a lê- quais preciso ir diariamente, ver meu gadolos, neles tecer sentidos de modo sensível e engordar. Para mim, a Internet é mais arinteligente. Escrevi e vendo escrevendo, que água, por isso quando nela estou nãoportanto, alguns livros virtuais, todos sinto que navego, mas que vôo. Repare quedisponíveis e abertos. Cito-os aqui, em um livro aberto, visto de perfil, tem oordem de aparição. desenho simplificado de uma gaivota, é perfeito para voar... fiz por isso minha própria asa delta cibernética, que é esseAteliê Aberto: minha primeira AVE, que pára-lugar. Videnem sequer se sabia AVE, acho que essa <http://avesavessas.blogspot.com>.idéia de ave veio, em termos reais e nãoconceituais, daqui. É um livro quase mudo,quase portfólio, quase álbum, mas Pássaro das mil línguas: livro didático-efetivamente lugar de experimentação, poético que venho escrevendo sobre osestudo e arte, daí seu nome e sigla. Vide fundamentos de linguagem no contexto da<http://www.abeatrizb.com>. arte. Esse, sim, já é objeto concreto de pesquisa e luta. Origina-se da minha vontade de ter um material de apoio para aAnimaemrede: esse já incorpora o conceito disciplina Fundamentos de Linguagem ede AVE e em troca dá a esse força material, um lugar onde eu possa guardar algunssurge como trabalho de conclusão do curso trabalhos de alunos. Penso que precisamosde especialização em Arte, Educação e desenvolver uma espécie deTecnologias Contemporâneas, Arteduca sistematicidade de reciclagem João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  6. 6. CRIAÇÃO DIDÁTICO-POÉTICA NA ARTEepistemológica em nossos cursos, pois e professores de artes cênicas ressentemobservo que às vezes geramos muito essa falta, porque precisam muito dessesmaterial no âmbito das disciplinas textos teatrais, tanto para estudar, quantoacadêmicas ou em oficinas, alguns de fato para suas realizações. Fizemos um primeirointeressantes, e passado o curso eles livro, chamado “O filho da costureira”. Suasimplesmente vão para o lixo, ou para estrutura deve ser seguida por outros, não 111gavetas e prateleiras, virar ou ganhar pó. só da série, mas também do que tenhoEnquanto isso, há uma gama enorme de pensado como livro virtual, cujaestudantes, em nosso curso de Licenciatura arquitetura se fundamenta em quatro tiposem Artes Visuais à distância, por exemplo, de material: imagens estáticas (fotografiascom uma carência imensa, para os quais o e desenhos), imagens em movimentocontato com esses (e outros) trabalhos (vídeos, entrevistas, animações), texto empoderia ser instrutivo e inspirador. Vide linguagem escrita e, finalmente, conexões e<http://ateliedelinguagens.blogspot.com>. aberturas para outros lugares afins, os links. No caso desse livro, já confeccionado, temos, por exemplo, o texto propriamenteEstúdio de arte eletrônica: livro de imagens dito da peça, o vídeo da peça montada (ouapenas. Reuni nesse espaço os trabalhos de seja, as imagens do espetáculo), umauma de minhas turmas de arte eletrônica, entrevista que gravei com Mota sobre ocom o mesmo intuito já descrito acima. processo criativo dessa peça, suaPretendo ainda incluir alguns exercícios de genealogia, digamos assim, e a leituraoutras turmas com as quais trabalhei no dramática do texto, feita pelo próprio autor.LIS, laboratório de imagem e som Vide(Departamento de Artes Visuais, UnB). Vide <http://ofilhodacostureira.blogspot.com>.<http://atelieletronico.blogspot.com>. Atualmente, dou continuidade aTextos teatrais: trata-se aqui de uma série essa pesquisa com alunos de iniciaçãode livros simples feitos a partir dos textos científica na pesquisa descrita adiante. Odramatúrgicos do colega, professor Dr. embasamento metodológico se dá por meioMarcus Mota. Como ele me explicou, falta de leituras, teóricas e literárias, einteresse das editoras em publicar esse tipo realizações práticas. Essas pretendemde texto e, por outro lado, diretores, atores realizar livros virtuais simples, oriundos de João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  7. 7. Ana Beatriz Barrosocadernos virtuais de anotações da pesquisa repassar para a microtela, mais reativa queempreendida, e explorar a entrevista como propriamente interativa, o que já havia nameio de investigação e sondagem do ser página impressa. Por tudo isso, logo emhumano, pleno de loucura, lucidez, beleza e seus primórdios a pesquisa nos mostrousonho. Já as leituras giram em torno da que não era o livro eletrônico o quecultura brasileira no contexto mundial e queríamos, mesmo porque, hoje, ele não 112cibernético. Acrescente-se como fonte de tem segredo, não há o que nele investigarinstrução uma pequena cartografia do ponto de vista que nos interessa – aciberespacial, com websites de estudo, e didática poética, com todas as suasuma filmografia relacionada direta e implicações e compromissos pessoais eindiretamente com o assunto. sociais. O autor, por exemplo, desse livro eletrônico, permanece o mesmo e na mesma situação desconfortável deLivros Virtuais dependência de uma estrutura que lhe escapa, cujos valores nem sempre são compatíveis com os seus. Normalmente ele Ainda em fase germinal, apesar das continua tendo que escrever primeiro eexperimentações prévias em forma de passar depois a obra para quem, mantendoAVEs e livros-lugares, essa pesquisa, assim o monopólio dos programas de editoraçãocomo as outras aqui descritas, é teórica e eletrônica e dos equipamentos necessáriosprática. Com esse duplo caráter, volta-se para a feitura e leitura do livro, encarrega-para a investigação das possibilidades se de produzi-lo, distribuí-lo e com eleestéticas do livro no ciberespaço, lucrar. Ou então, etendendo o livroespecialmente no campo da educação em eletrônico como um arquivo PDF (portableartes visuais. Inicialmente, averigua-se o document file), o que é perfeitamenteentendimento e a prática corriqueira do legítimo, continua sendo suficiente alivro eletrônico: tecnologias envolvidas, simples transposição, com alguns requintesrecursos utilizados, modos de circulação. de sofisticação em termos de design gráficoPercebe-se que o livro eletrônico reproduz e índice interativo, do texto escritoa lógica da indústria editorial e de seu (monomídia) para o digital. Não havendo,mercado, fechando-se para quem não pode portanto, o que nos instigue à investigaçãopagá-lo, zelando pelas velhas zonas de no que hoje se chama de livro eletrônico (e-inacessibilidade, ignorando a liberdade book), tratar-se-ia apenas de produzircriativa proporcionada pela linguagem livros eletrônicos, se fosse esse o caso.multimídia e hipertextual, limitando-se a João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  8. 8. CRIAÇÃO DIDÁTICO-POÉTICA NA ARTE Como não é, a pesquisa Livros ponto de chegada, porém, parece-nos aindaVirtuais rememora a história do livro, desde inatingido. Prosseguimos, então,os códices até os Kindles, no contexto maior desbravando, motivados por umado desenvolvimento geral dos meios de constatação muito simples.comunicação, a fim de gerar de fato Há enorme carência por materiaisconhecimento teórico e poético acerca do didáticos – no sentido denso do termo, 113livro em nossa época. Cria-se uma clivagem didático-poéticos, como explicamos – noclara entre livro virtual (conceito, este, por campo da educação em artes visuais. Essamim criado e apresentado anteriormente pesquisa visa de algum modo começar aem outra oportunidade1), já escrito e lido em suprir tal carência, ao propor livros emlinguagem multimídia, aberto a conexões forma de ambiências virtuais de estudos,hipertextuais e a experimentações acessíveis gratuitamente nos dispositivosinterativas, solto no fluxo informático da típicos da cibercultura. Confundidos comrede mundial de computadores, de fácil lugares abandonados na imensidão da redeacesso, tanto para o escritor quanto para o mundial de computadores e seus tentáculosleitor, e o livro eletrônico, completo, pronto eletrônicos portáteis, os livros virtuais sãopara ser comercializado, descarregado no livros-lugares de fácil realização do ponto decomputador e lido, à lancienne. Parte-se, vista tecnológico, pois isso garante que elesportanto, do “velho e bom” livro impresso, sejam feitos e lidos por muita gente ou porlenta e fascinante criação humana. qualquer um, onde prevalece a linguagemConcentra-se nas aventuras do artista e do escrita, mas coexistem outras, multimídia,poeta nesse veículo, da palavra e da imagem hipertextuais e interativas.impressas: livro de artista, livro de arte, livroda arte, livro-objeto, livro-poema, livro-obra A didática poéticaetc. Felizmente, não somos os primeiros apisar nesse solo movediço. O tema vemdespertando o interesse de alguns tantos Percebe-se sem dificuldade queestudiosos, de modo que não nos têm faltado ninguém aprende sozinho, mas, justamente,boas pistas, referências e classificações com os outros. Ainda que haja grandeselucidativas. O que vislumbramos como espíritos autônomos, com tenacidade bastante para perseguir seu ponto obscuro,1 Expus publicamente esse conceito notexto “Arte, conhecimento e livros virtuais”, às vezes com uma mísera vela na mão, aindaapresentado em agosto de 2011 no #10.ARTEncontro Internacional de Arte e Tecnologia, que esse solitário obstinado se assemelherealizado em Brasília. João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  9. 9. Ana Beatriz Barrosoao pesquisador, não, não se aprende extravaza-se por veios ínfimos na superfíciesozinho. A ilusão do autodidatismo se cria do solo social que pisamos e onde nosporque o outro que nos ensina, tanto hoje deitamos e de onde viemos e voltamos atécomo em outras épocas, já não está mais que voltemos um dia lá para dentro, virarnecessariamente ao nosso lado, pó, destino óbvio que não se aceita.corporificado. Dele, dela, restou a voz, como 114uma estrela cuja luz vemos no céu e que já A natureza não é um objeto (Gegenstand) inerte, que se podenão existe mais. Aquela voz distante chega a utilizar à vontade; tem uma forçanós por meio de livros, por meio de intrínseca que se investe, segundo as ocorrências, de fatos de cultura, e quelembranças, por meio de um cheiro, por não deixa, assim como veremos mais adiante a propósito do espaço, de fazermeio do que quer que seja que um dia tenha sociedade. De um modonos tocado profundamente, mesmo que no particularmente evidente, esses investimentos exprimem-se na poesia.momento não tenhamos tido consciência de Essa, de uma maneira paroxística, é um resumo do mundo no seu todo.termos sido tocados. Não, que a mediação (MAFFESOLI, 1996, p. 243)extrema na qual nos educamos diariamentenão nos torne ingratos porque, ainda que de Vem daí que há de haver lugaresmodo discretíssimo, quase invisível, o outro onde as pessoas possam estabelecerestava lá, o outro está aqui, nas ondas do contatos ao acaso a fim de se educar semrádio, no layout dessa página, na sequer perceber, por convívio. A educaçãoimaterialidade da cultura, na infinidade de sendo assim uma convivênciaobjetos impregnados de cultura, o outro transformadora. A didática, um processo deestabelece conosco contato e desse contato, realização atento ao próprio processo,do modo como ele é feito e do modo como o poético na medida em que se inventarecebemos, depende nossa sobrevivência. enquanto se faz e neste inventar se Isso não é exagero. Trata-se comunica. Sim, pois o poético implica nessaefetivamente de assegurar a sobrevivência necessidade de comunicação, de dizer ede nossa espécie e, dentro de nossa espécie compartilhar. O espanto é tanto que já não(humana), nossa micro espécie (de artistas). cabe em si e o poeta, esse ser espantado,Não somos poucos, mas precisamos ainda que o dissimule sob mil máscaras,sobreviver, comer, amar, dormir, criar. Isso revela-o nas entrelinhas do escrito, nonão é tão evidente. Vamos em espiral. avesso de seus versos, no reverso de suaConsumimos cultura e contra-cultura. Viver existência que se torna mais existência nona pele os paradoxos da complexidade verso e no verso, entenda-se, na arte,contemporânea não é tranqüilo. Ainda assim porque o sentido subjacente ao que sehá calma. A inquietação da pessoa João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  10. 10. CRIAÇÃO DIDÁTICO-POÉTICA NA ARTEcristaliza na palavra verso se estende a dessas obras, pode ser pressentidooutras linguagens e o signo assim diretamente por quem quer que seja, deveversificado já não é apenas o lingüístico, ser estudada justamente em sua dimensãoverbal, mas qualquer, qualquer, qualquer, processual, enquanto processo gerador deoutro. A didática poética nas artes seria, obras. Isso porque ao que é paidêuticoportanto, uma transformação lenta que se dá interessa as transformações. O que é a 115por meio da convivência em torno de uma educação se não um longo e contínuotécnica ou de um assunto que as pessoas processo de mutação que vai do pessoal aoenvolvidas em um processo e numa situação coletivo e vice versa?comum compartilham. É um texto tecido a Na origem daquele acervo, que semúltiplas mãos, visíveis e invisíveis, denominou AcervoVIS, estava umapróximas e distantes, em um dado contexto; passagem radiofônica. Em um programaé a trama que liga um ao outro, o texto ao sobre Cartola, ouvi que este não tiveracontexto, num vai e vem que se dilui no acesso à boa educação formal, pois nopróprio discurso, tornando a mensagem morro onde ele morava as condições deopaca, densa, intransponível. Não mais que escolaridade eram bastante precárias.isso. Apenas a ruminância disso. O Contudo, havia por lá uma biblioteca. Estadesdobramento disso. biblioteca, ele freqüentava com assiduidade. Nela entrou em contato com Fernando AcervoVIS Pessoa e outros grandes poetas. Isso fez a diferença. Isso o marcou ou transformou Pois bem, o desdobramento profundamente. Esse fato, fez-me pensar naespiralado dessas criações didático-poéticas importância de dar acesso ao conhecimento,tem sido uma pesquisa que tem como reuni-lo, ordená-lo e deixar que as pessoasobjetivo um acervo de materiais didáticos e se sirvam dele à vontade, pois, se oafins das artes visuais. Este acervo seria autodidatismo é um pouco ilusório, ainteiramente virtual e de domínio público, autopoiesis não o é. Conceito oriundo deaberto a todos no ciberespaço. Dele, Varela e Maturana (1980), a autopoiesisinteressa relatar aqui o processo, posto que traduz um processo no qual a pessoa seo resultado poderá ser fruído pessoalmente inventa, se cria e se recria segundo suapor quem quiser. A didática poética na própria estrutura, adaptando-se àseducação em artes, embora gere obras, cujo circunstâncias, como se a vida fosse umavalor, sempre relativo ao processo gerador dança coreografada pela música que vem da João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  11. 11. Ana Beatriz Barrosointimidade, inaudível ou invisível a olhos experiências nesse sentido, vide o projetonus, mas perceptível a olhos afeitos à Desarquivo – www.desarquivo.org. Éobscuridade da noite dos tempos possível e até mais desejável e compatívelimemoriais, dos processos moleculares de com o discurso corrente no meio da arte-autoprodução e autorregulação subjacentes tecnologia fazer sites dinâmicos, com motorà interação do indivíduo com o meio. próprio, como automóveis nas infovias, 116 O AcervoVIS seria assim um meio, capazes de se locomover ou de crescer por sium desses meios, especialmente favoráveis mesmos ou de se atualizar autonomamenteà percepção de processos autopoiéticos. e autopoieticamente, como os seres vivos.Ninguém melhor para nos educar em artes No entanto, o que posso fazer, não foi assimque os próprios artistas e suas obras, que os que aconteceu com o AcervoVIS. Por umapróprios poetas e seus versos, que as falas série de razões, não foi assim. Ele, hoje,desses seres sobre suas poéticas. Há, por aparenta-se a uma casca sem seiva viva porisso, naquele acervo, um canal de entrevistas dentro. É como se ele fosse a carcaça de umaudiovisuais chamado Memória & Invenção. carro desprovido de motor (que noHá, por isso, naquele acervo, conjuntos de vocabulário especializado e americanizadoconexões (links) para grandes e pequenos se chama engine), fadado a não andar e,museus, para galerias de artistas renomados ainda por cima, uma carcaça incompleta,e de artistas em busca da imortalidade, e esquisita, meio feia, cheia de lacunas epara espaços que são como escolas virtuais irregularidades. Nem sempre somos felizessobre assuntos das artes – história da arte, ao incorrer no risco da pesquisa, ao abraçá-fotografia, cinema de animação. Há ainda lo verdadeiramente. E sabemos quevídeos sobre processos criativos e algumas ninguém gosta de compartilhar osimagens2. Há de haver ainda muito mais insucessos, ainda que seja difícil, em arte,coisa. dizer acertivamente o que se entende por Porém, ainda que ele (o AcervoVIS) fracasso. Quanta leveza é necessária para sevenha a crescer, não se quis fazer dele, no pisar em ovos e quanta gravidade para nãoprimeiro momento, um espaço auto- quebrá-los! E no desespero trágico de ver oregulado no sentido biológico acima exposto, acervo assim, acode-me o ensinamento doautopoiético, auto-producente, autônomo poeta da Educação pela Pedra: “de fora paraem seu crescimento. Há ferramentas dentro, da casca para o fundo” (João Cabraltecnológicas para isso. Há belas de Mello Neto, citado de memória). Seguindo essa voz, aprendi que lá no2 Confira as entrevistas no canal Memória& Invenção, em fundo, a razão da casca-acervo é uma só: no<http://www.youtube.com/user/AcervoVis>, e o momento da pesquisa ainda se tateava nosite do acervo: <http://www.acervovis.org>. João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  12. 12. CRIAÇÃO DIDÁTICO-POÉTICA NA ARTEescuro uma estrutura. Mais que isso, dão qualquer garantia quanto à sua duração.procurava-se ainda uma substância material Durar não é tarefa fácil e talvez nemque estivesse na base da estrutura formal dependa exatamente de nós. Lembremos dodaquela obra, que fosse a raiz da forma que mito das três Moiras.o acervo iria adquirir. Sonhava-se com um Às determinações dessas fiandeiras doelemento primordial capaz de dar destino – Clotho, Lachesis, Áthropos – 117sustentabilidade à coisa, à obra-acervo, até mesmo os Deuses imortais estariam submetidos. A imagem célebre é a deservir-lhe de fonte de vida duradoura e que Clotho prepara a lã, Lachesis a fia, e Áthropos mede e corta o fio. O tamanhoperene. Criar vida não é rápido quando se do fio fixa a duração de cada ser, apretende que ela seja longeva, que ela se extensão de cada acontecimento – por exemplo, a extensão de uma vidatransforme em si mesma infinitamente, humana – e esta predeterminação das durações de todas as existências nemperpetuando-se para além do gesto criativo mesmo o Olimpo pode revogar. Comoriginal. A ambição ali não era pouca. Por essa imagem os gregos requerem predicar a submissão dos Homensisso, talvez, exigisse tanta paciência. mortais a esta Necessidade que sequer a onipotência dos Deuses pode violar. Nesse sentido ia-se contra uma Ignorantes do Destino, fazemos escolhasconseqüência direta do discurso corrente: a para propiciar ou evitar esse ou aquele acontecimento, e essas escolhas nãovolatilidade, o caráter efêmero de tudo que fazem acarretar exatamente o que eraestá no ciberespaço, a fragilidade da Internet necessário, o que já estava prescrito. (OLIVEIRA, 2008, pp. 67-68)como meio de comunicação e espaço parase guardar coisas e saberes, perpetuando-os Nosso destino pode não estar emao longo dos séculos, representa em termos nossas mãos, mas e o destino daquilo quede transmissão de conhecimento, cultura, criamos, não só por necessidade, masuniversos de valores. Ainda que como lugar também por vontade, desejo, estaria nasde reunião, concentração, dispersão e troca mãos de quem? Nossas apenas não, postode informações a rede seja hoje mais eficaz que a criação humana, qualquer que sejaque as bibliotecas físicas, questionamo-nos ela, necessita do outro, dos outros, para fazercomo nossos textos e hipertextos sentido no mundo, para se tornar realidade.multimídia atravessarão a história, Admitindo que o destino de nossas criaçõeschegarão às futuras gerações? Não é preciso esteja em parte em nossas mãos, sonhei oupesquisar a fundo a Internet para saber que quis que o acervo tivesse vida longa. Porgrande parte das coisas ali criadas e essa razão levei certo tempo para encontrarguardadas e compartilhadas e arquivadas a justa relação entre substância e forma,não duram, não pretendem durar ou não justa na medida em que fosse capaz de João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012
  13. 13. Ana Beatriz Barrosopotencializar sua duração, sua MELO NETO, João Cabral de. A educaçãopermanência, a partir de um dinamismo pela pedra. Rio de Janeiro: Ed. do autor,interno, ainda que aberto para o meio 1966.circundante, ainda que ansioso por, nele, OLIVEIRA, Luis Alberto de. In NOVAES,gerar interações. Adauto (Org). Mutações. Ensaios sobre as Desse modo, apresento aqui o 118 novas configurações do mundo. Rio dedesfecho dessa pesquisa, cujo resultado, Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC SP,ainda duvidoso, vale menos agora que o 2008.processo e que as reflexões por ele TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Sãosuscitadas. Amanhã pode ser que seja o Paulo: Martins Fontes, 1990.contrário. De todo modo, nessedesfalecimento germina algo ou algo se deixaentrever: o outro desdobramentomencionado, a outra face da moeda, o versoou avesso desse reverso, acervo titubeante,originário da mesma “ruminância” didático-poética. No acervo biblioteca, assim comono universo em movimento, precisamosagora encontrar, criar e ler livros virtuais,páginas e páginas de vida, vivências,“errâncias” e artes.Artigo recebido em 18/10/2011Aprovado em 05/12/2011Referências BibliográficasBORGES, Jorge Luis. Ficções. São Paulo:Companhia das Letras, 2007.MAFFESOLI, Michel. No fundo dasaparências. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.MATURANA R., Humberto; VARELA,Francisco J.. Autopoiesis and cognition: therealization of the living. Dordrecht: D. ReidelPublishing Company, 1980. João Pessoa, V. 3 N. 1 jan-jun/2012

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