À Espera

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À Espera

  1. 1. À espera - Quero corrigir meus erros. - Disse ele ajoelhado no confessionário. - Quais são seus erros meu filho? – indagou Padre Inácio. - Quero redimir-me a Deus por amar alguém, por amá-la de uma formacarnal, pecaminosa aos olhos da Igreja. Peço a absolvição Padre Inácio.Arrependo-me profundamente pelo que fiz, pequei contra Deus, a Igreja e oSacerdócio. – Lacrimejava. Padre Inácio absorveu o silêncio como se tragasse uma xícara de café.Deixou que o silêncio tomasse por completo o ambiente. - Diga-me Padre Eduardo, o que me contas foi consumado? - Não irmão! – apressou-se. – Mas pequei desejando-a, pequeiimaginando promiscuidades. Cheguei a pensar em abandonar nossosacramento para viver este amor! - Acalma-te filho. Decidiste muito cedo pelo Sacerdócio, ainda nãopossuía discernimento necessário para encaminhar tua vida de formaaparentemente correta. Quantos anos tu tens? - Vinte e cinco. Sei que não sou dotado de sua experiência, de suavivência e sabedoria, mas escolhi o Sacerdócio acreditando piamente no amore piedade de Deus, acredi... Padre Inácio o interrompeu: - Jovem, não se martirize por amar. Confesse-me toda história, desde osprimórdios. Entendo tua dor, porém, não encontrei o real motivo. Aceitou a idéia proposta pelo Padre que há muitos anos lhe prestavaajuda e solidariedade. Padre Eduardo começou a relatar o que acontecera defato em sua vida: - Há pouco mais de um ano, recebi a grande honra de ser pároco daIgreja de Nossa Senhora de Fátima. De bom grado e demasiada felicidade,cheguei à pequena cidade interiorana. Encantei-me com a hospitalidade e omodo de vida da população local. O calendário marcava o décimo terceiro dia de Março, o que significavaser a data de minha primeira celebração oficial. Olhei-me no espelho e percebio quando mudei. Antes Eduardo, aquele moleque franzino da cidade grande,agora Padre Eduardo, o jovem que assumira a responsabilidade pela paróquialocal. Enviavam-me diariamente vasilhames com as mais diversas iguarias daculinária local. Pratos adornados, vistosos e sempre acompanhados de bilhetescontendo lindas mensagens de apoio. Clara Castelo Branco, Julliana Castro,Gilberto Resende, família Donato, família Nunes, Maria Julieta...
  2. 2. Maria Julieta. Este é o nome. Comparecia a todas as celebrações dominicais, sempre ao lado dos paise do sobrinho órfão. Rezavam a missa na intenção do filho, irmão e paifalecido. Mensalmente como bons e fiéis católicos confessavam-se, até opequeno e imaculado guri não fugia a esta regra. Rezei quase trinta missas até que a família Nunes decidisse, enfim,redimir-se de seus pecados. Júlio, o chefe da família, pedira perdão por ter seamargurado após a morte de seu primogênito, por ser um péssimo pai emarido. Dona Laura, a matriarca, encorajou-se para contar-me sobre suatraição ao marido. O pequeno Lucas, contou-me sobre suas peripécias infantise pediu-me que fizesse orações para que seu pai e mãe voltassem. Mas onde estava ela? Bem a minha frente, se ajoelhando, trazendo consigo um belíssimovestido verde combinando com o tom branco de sua pele. - Com licença, venho confessar-me e buscar o perdão de Deus. –sussurrou ela. - Conte-me seus pecados, minha filha, elevá-los-ei ao nosso Pai Celestepara que Ele lhe confira o perdão através de minhas palavras e seuarrependimento. Após alguns minutos Maria Julieta começara sua lista pecaminosa: - Padre Eduardo, eu pequei contra a Igreja. Mas o pior de tudo é que nãotenho arrependimentos. - Então, minha filha, de nada valerá sua confissão – falei paciente. - Tu não sabes, mas precisas saber. Há pouco mais de um mês, um novopároco assumiu esta Igreja. E como estamos no interior, as notícias correm,procurei notícias sobre ele. Descobri seu nome, onde morava anteriormente etambém que possuía um ano a mais que eu. Tornei-me um ser pecaminoso aodesejá-lo Eduardo, mas eu não me arrependo. Ainda alimento a esperança detomar-lhe para mim. –falava rapidamente, engolindo soluços para não cair nochoro. - Senhorita, por favor, controle-se. Agarre-se em sua fé e esqueça suasesperanças, sou um homem de Deus, servirei minha convicção até o último demeus dias. Vá e reze ao Senhor para que tu me esqueças e lhe confira operdão. – pedi. – Tu também me atormentas e me agarro à fé para esquecê-la.– Confessei. - Tu assumes que lhe provoco algo? - Reze o ato de contrição Julieta, há mais pessoas querendo seconfessar. - Não me respondeste.
  3. 3. - Mexes comigo, agora vá. E pare de atormentar meus dias, esconda-senovamente em teu anonimato. E me esqueças logo, por favor. Que Deus lheacompanhe. –disse engasgado. - Aproxime-se desta tela que nos separa, se o fizer logo voltarei ao meuanonimato. Receoso, aproximei-me daquele pequeno pano falso que nos separava. - Aproxime-se mais, me olhe nos olhos. –sussurrou. Olhei-a nos olhos, encontrei uma imensidão verde borrada por ondas delágrimas. Senti sua pele gélida tocando minha testa com leveza inigualável. - Desculpe-me, -disse ela - mas amor é algo que geralmente não secontrola. Perdoe-me por trazer algum descontrole, eu não queria, mas... - Vá Julieta, não quero pecar ainda mais contra minhas convicções. Vá eseja feliz com alguém que possa lhe fazer o que eu não o faria. –pousei meuindicador sobre os lábios dela. - Estou te amando Eduardo, e sei que tu me amas também. – Sustentoupor mais alguns segundos o olhar. Preferi não me pronunciar sobre o que ela acabara de declarar, fizmenção de levantar-me e pedir que outro fiel viesse até mim e a tirasse de lá.Porém, continuei a olhá-la. - Julieta, eu a amo. Mas não posso viver isto, não posso lhe oferecer oque tu mereces. Assustei-me quando ela selou nossos lábios em breve beijo. Pecado, masestávamos felizes e separados por uma tela, mas unidos por um fortesentimento. - Eu também o amo. – Julieta saiu do confessionário e me deixou só. Naquela sexta-feira cancelei as confissões, afirmando mal estar. Estavademasiadamente aturdido com tudo o que acabara de acontecer. - Inácio, foi o momento mais feliz de minha vida. Nunca haviaexperimentado um beijo. Vivi muitos anos em função de um propósito eesqueci que poderia viver de outro modo. Tu não conheces a felicidade que meinvadiu naquela noite. E também não conheces a tristeza de ter corrido de umaconduta que preguei a mim. Pequei Padre! - Mas é passado jovem. Continue sua história, o que houve após oacontecido? Eduardo pausou e reorganizou suas lembranças. - Após isto, os domingos amontoavam-se e as imagens dela também. Diacomparecia de cor de rosa, ora com um amarelo tênue. Chegava, fazia agenuflexão e assentava-se no quarto banco da fila à direita. Ficava sempre à
  4. 4. esquerda do pai. Sempre estivera ali, linda. Sua beleza aguçava meussentidos. Os olhos do jovem padre brilhavam ao descrever a pequena. - Dai então meu velho amigo, - continuou, - passamos a nos encontrar noconfessionário sempre no mesmo horário. Às cinco da tarde ela chegava econversávamos até o horário da missa. As sete ela assistia à missaatentamente. Quando a celebração acabava, voltávamos a conversar noconfessionário. As nove eu a levava de volta para casa, batia uma prosa com oSenhor Nunes, elogiava-o pela filha e neto de ouro, enquanto ele se afogavaem vinho. Lucas ia para a igreja comigo. Ajudava-me a contar o dinheiro do dízimoenquanto eu o ajudava com os deveres da escola. Dona Laura chegou a dizerque eu havia sido um desperdício da vida, que poderia ser um ótimo partidopara a filha do casal. Tocara no meu ponto mais fraco. Sorri timidamente e abreviei a conversa,logo me despedi e voltei a minha clausura de culpa. Lentamente os meses se passaram e burburinhos surgiram na cidade deque a filha dos Nunes andava de namorico com o novo pároco da cidade.Imagine só Inácio, a desgraça que era para uma família tais comentários? O resultado meu amigo? Seus pais a proibiram de ir à missa e também não deixavam que o netofosse ate a igreja para alegrar meus dias com a sua inocência e sorrisos. Caíem desgosto, meus dias já não eram iguais, sofria de forma descomunal eninguém podia me ouvir. Neste ponto eu já não queria mais o Sacerdócio, queria uma vida normale passar a viver outro sacramento que não este. Queria viver o Matrimônio comMaria Julieta. Enviei uma carta a João Paulo II pedindo que me aconselhasse nestecaso, queria ouvir a opinião de alguém que não me condenasse. Minha cartafoi respondida, por linhas desenhadas, dizia para que eu vivesse diante deminha razão, que não me deixasse levar pelas tentações do Demônio. Eudecidi que o faria. Mas naquele dia também recebi outra carta. - De quem era a carta? – perguntou Padre Inácio. - Era dela Padre, ela me mandara uma carta. Em suma, seu conteúdo medizia estar partindo para a cidade grande, iria estudar e tornar-se uma jovemculta, cansara de viver presa às ordens e costumes dos pais. Pediu-me apoio eque eu nunca a esquecesse. Completou dizendo que voltaria logo mais, quevoltaria para mim, mais cedo do que eu imaginava. De fato, ela voltou. Na mesma noite, fechei a igreja e retornei para osmeus aposentos, enquanto fazia minhas orações ouvi batidas na porta.
  5. 5. Levante-me e fui atender, acreditei que fosse algum fiel, que veio à procura deconselhos ou de alguma extrema unção, Doutor Mário Castelo Branco estavanas últimas. Doce ilusão. Abri a porta e deparei-me com Maria Julieta em minha porta. Trajava umgrande casaco preto, seus cabelos estavam bem presos e peculiarmente,naquela noite, seus olhos estavam mais escuros que o de costume, feitograndes esmeraldas lapidadas com todo o cuidado em suas pupilas. - No que posso ajudá-la? - Posso entrar? – perguntou-me fria. - Claro. – assenti confuso. Ela entrou, seu perfume invadiu meus sentidos. - O que queres Julieta? – indaguei. - Fuja comigo, vamos viver esse amor Eduardo. Eu sei que é arriscado,que não é certo. Mas vamos, vamos viver em outra cidade, outra vida, vamosser felizes, viver o que não podemos viver aqui! – disse agarrando-se a mim. Não a respondi, apenas deixei que ela se aconchegasse ao meu abraço.Pouco tempo depois, não obtendo resposta, olhou-me confusa, encontrou meuolhar vazio, inexpressivo. - O que houve? Sentei-a em minha cama e encarei seus olhos. - Bom, é meio confuso, mas desculpe-me. Eu não irei com você. Precisocumprir meu compromisso com a Igreja. - Mas não é o que você quer, não é. Eu sei que não. - É o que eu quero. É o que farei. Vá e que sejas muito feliz, que Deus aacompanhe e que tu encontres alguém que não a magoe, que lhe sejapossível. Mande-me notícias contando tudo o que viver na cidade grande. –Acariciei seu rosto, limpei a lágrima que estava prestes a cair, simulei umsorriso na face dela. – Sorria Julieta, seu sorriso é sempre minha melhorlembrança de tudo o que vivemos e podíamos ter vivido. – Beijei sua testa e aencaminhei até a porta, caprichei no abraço e ela partiu ainda chorando, mastentando esboçar seu melhor sorriso. Minha vida acabou ali Padre Inácio, tudo se tornou uma verdadeiramonotonia. Eu não a via mais sentada no quarto banco da fila à direita sentadaao lado esquerdo pai, Matheus me visitava com freqüência depois que a tiaviajara em busca de seu sonho. - E isso faz quanto tempo? – perguntou Padre Inácio. - Já se passaram cinco meses desde a sua partida, e a partir de então eunão consigo retirar a imagem daquele sorriso e aqueles olhos fitando asprofundezas de minha alma. Ainda a amo, e admito que por diversas vezes
  6. 6. pensei em ir até ela. Mas logo desisto, ignoro e relevo tal loucura. Sinto-meinfeliz Padre sempre que me falam sobre ela. - Eu entendo sua dor meu filho. Nunca vivi algo parecido, mas agoraentendo tudo o que se passar neste teu pequeno coração aturdido. Porém,algo ainda lhe aflige o que há? - Há uma semana ela me mandou uma carta contando-me sobre o quefizera. Os seminários que participara, sobre as novidades e a parte mais tristedaquelas belas letras desenhadas. Casar-se-á em seis semanas, com umsujeito chamado Renato e quer que eu realize o casamento. - E você o fará? - Claro Padre. Mesmo sendo um pecador em nenhum momento renuncieio Sacerdócio. E essa será minha última celebração, renunciarei meu posto apartir daí. - Mas como assim Eduardo? - Na carta também me fazia um pedido e eu o aceitei. – Padre Eduardocontinuou a encarar Inácio. - O que tu aceitaste filho? - É a minha despedida Padre, fugiremos antes da cerimônia. Resolvidesenhar meu final feliz. Obrigado por estar comigo durante todo o tempo. Saiu sorrindo do confessionário, abandonara a batina em qualquer cantoe abraçou a felicidade. Descobrira que se tivesse acontecido antes, não teria omesmo gosto, casar-se-ia em cinco semanas com a mulher de sua vida. (Thaís – 24/11/2011)

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