Com carinho e coragem

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Com carinho e coragem

  1. 1. Com carinho e coragem Tarde de domingo, temperatura amena típica de um outono, cidadeparada, ventos silenciosos e serenos. A cada clique de sua câmera tentava eternizarum momento simples, um sorriso fácil e qualquer ou até os devaneios daquele falsopensador que ali passava os domingos e feriados na expectativa de encontrar umnovo motivo para viver. Era sua última aula do curso de fotografia o qual J.E havia se inscritoapenas como passa tempo de férias. O objetivo era captar qualquer imagemespontânea seja lá qual fosse, mas que os proporcionasse algum sentimento, alegriaou dor, excitação ou antipatia. Para ele não seria muito difícil, estava mais receptivo àsemoções por esses dias... Captou em sua câmera, momentos quaisquer de pessoas quaisquer emlugares que deixavam de ser óbvios ou batidos pela rotina através das imagens.Surgiu em sua frente uma moça na casa de seus quase vinte anos, alta, pele branca,sorriso fácil, olhos verdes que facilmente passariam para o castanho e cabelosimpressionantemente longos. - Desculpe, não quis atrapalhar sua fotografia! – disse atrapalhada comcerto rubor nas maçãs do rosto. - Não se preocupe, era só mais uma foto... Qual fotógrafo que se julgafotógrafo sem ao menos ter perdido uma foto? – sorriu amarelo. – Perdoe aindiscrição, mas qual seu nome? – Tentou esconder o seu jeito bruto de ser para aprincesa que sorria à sua frente. - Laura, prazer em conhecê-lo! – guardou seu sorriso por alguns instantesenquanto ajeitava seus cabelos e fitava o tal fotógrafo de feições européias, cabelosloiros lisos e rasteiros, barba cerrada, não tão bem feita, mas que lhe davam umavontade enorme de acariciá-la. - Pode me chamar de J.E. – sorriu encabulado enquanto sentia os olharesda jovem moça em cada linha de expressão daquele velho rosto conhecido de todasas manhãs. Mais alguns minutos se passaram e a conversa fluía como se já fossemvelhos amigos, Laura estava a passeio na cidade e na vida, adorava ler e nas horasvagas escrevia, mas não tivera coragem de cursar Jornalismo ou Letras paraaperfeiçoar-se no que fazia de melhor. J.E tentou Direito, mas não se empenhou osuficiente para terminar o curso. Falaram sobre antigos relacionamentos. Ele pediupara eternizá-la em algumas fotos já que muito provavelmente não se veriam mais.Por sua vez, ela consentiu e pediu uma foto juntos, para que se lembrasse dele.Depois foram ao shopping e por sorte encontraram a loja de revelação aberta. Lauralevou a foto dos dois e J.E levou a foto daquela que jamais esqueceria.
  2. 2. Durante o abraço de despedida, Laura segurou-lhe forte as mãos e emuma delas deixou um pequeno bilhete de letras desenhadas com o número do seutelefone para que talvez não perdessem o contato. - Dois anos se passaram desde então e J.E não ligara no dia seguinte, nãoteve coragem, afogou-se na timidez e deixou de lado uma chance de ser feliz. Masnão houve um domingo sequer que deixara de visitar aquela pracinha onde havia vistoLaura pela única, primeira e última vez. Naquele domingo não foi diferente. Sentou no mesmo banco em que sesentaram, acendeu o cigarro, deixou sua cerveja à direita e se pôs a fotografaraquelas cenas quaisquer que nunca cansara de ver. Alguém o acompanhava naquele momento, mas não ousou a olhar quemera. Tragou o cigarro, sorveu mais um gole da cerveja favorita e tentava imaginar qualera o desenho daquela nuvem que parecia se mover. - Esperei todos os dias destes últimos dois anos por um telefonema seu. - Perdão, faltou coragem. – sorriu ao reconhecer aquela voz, mas olhavapara o chão, recusou olhar para a mulher que habitava seus sonhos. Laura levantou com a ponta dos dedos o rosto ainda de feições européiase barba mal feita, forçou para que a encarasse. - Sorria, há uma nova chance. – depositou um novo bilhete nas mãos deJ.E e caminhou a passos largos. Abriu o bilhete e aquelas letras desenhadas ainda eram as mesmas: “Não seja indelicado e sorria enquanto estiver lendo o que lhe escrevi. Espero por você em duas horas no Hotel Fischer no quarto 312, Com carinho e coragem, Laura C. Bianco.” Escolheu seu melhor perfume, suas melhores roupas, certificou-se de levarum bom vinho e que flores fossem enviadas a ela no dia seguinte à sua visita. Uma hora e meia se passou depois do último encontro e Laura o esperava nofim do corredor, enrolada numa toalha branca, com olhos ainda mais verdes e abrindo osbraços para que se encontrassem logo. - Perdoa-me por não ter ligado no minuto seguinte? – ofegou enquanto aabraçava e sentia novamente aquele perfume doce.
  3. 3. Entraram pelo quarto, a toalha foi deixada em algum lugar, as roupas de Joãodesapareceram em poucos minutos. Seus corpos atraíam-se de forma inexplicável,estavam quentes, os suspiros não eram baixos, a timidez fora perdida assim como ostrajes de ambos. E então uma surpresa, ele era o primeiro de Laura, o primeiro e único. - Jura não se afastar de mim? Jura ligar assim que sair deste quarto de hotel?– Laura pedia com olhos marejados. E desde então não se afastaram mais. Moravam juntos numa casinha simples, compraram uma motocicleta usada,freqüentavam os bailes anos sessenta, faziam o estilo de um típico casal vinte. E brigavamtambém! Laura amava quebrar pratos e copos quando isto acontecia. Já J.E socava asportas e paredes com o intuito sincero de exterminar a raiva momentânea. Ficaram nomáximo treze eternos dias sem se falar, mas pediam trégua enquanto ele a ensinava pelaenésima terceira vez a fazer brigadeiro. Agora estão em alto mar, comemorando os cinco anos que estão juntos. Nãomudaram muita coisa, Laura continuava com os longos cabelos e J.E com a barba macia emal feita de todos os tempos. Mais um flash disparou deixando-a profundamente irritada,mas ele queria continuar eternizando-a naquelas fotografias. - Não se mova, quero uma foto nossa! O pôr do sol está maravilhoso! – dissesentando-se ao lado dela. Mais uma foto para decorarem o quarto do casal, que já tinha as paredesrepletas de fotos dos dois nos momentos mais simples ou inusitados, foi tirada. - Precisamos conversar. – falou séria. - O que houve? - Precisamos de mais dois quartos, dois berços, fraldas e roupas para bebês.Eduardo e Mônica chegarão em 4 meses. Fim de papo é hora de comprar um carro.

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