Jung

6.672 visualizações

Publicada em

0 comentários
4 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
6.672
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
139
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
424
Comentários
0
Gostaram
4
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Jung

  1. 1. ASP SICOPATOLOGIAS NA C LÍNICA J UNGUIANA
  2. 2. “Minha vida foi singularmente pobre em acontecimentos exteriores. Sobre estes não posso dizer muito, pois se meafiguram ocos e desprovidos de consistência. Eu só me posso compreender à luz dosacontecimentos interiores. São estes que constituem apeculiaridade de minha vida.”(Em: Memórias, Sonhos e Reflexões.)
  3. 3. Alguns Dados Sobre a Vida de Carl Gustav Jung (Fonte: Silveira, 1971)nasceu na aldeia de Kesswil, na Suíça, aos 26 de julho de 1875;concluiu o curso médico no ano de 1900, aos 25 anos, naUniversidade de Basiléia; seu interesse pela Psiquiatria foidespertado pela leitura do Tratado de Psiquiatria de Krafft-Ebing;em 1902 e 1903, Jung esteve em Paris, estudando com PierreJanet;em 1903, casou-se com Emma Rauschenbach, com quem teve05 filhos; sua esposa dedicou-se durante longos anos a pesquisassobre a lenda do Graal;desde 1909 até a morte de Jung, em 1961, Emma residiu namesma casa, na Seestrasse, 228, às margens do lago de Zurique.
  4. 4. A Carreira (Fonte: Silveira, 1971)em 1905, Jung foi nomeado docente na Universidade deZurique. Alguns anos antes, no Hospital Burghölzli, passara adesenvolver experiências sobre associações verbais com oobjetivo de esclarecer a estrutura psicológica da dementiapraecox, ou demência dissociativa, nomeada posteriormentepor Bleuler como esquizofrenia; tais experiências o conduziram àdescoberta e conceituação dos complexos afetivos. Também em1905, assumiu o posto imediatamente abaixo de Bleuler nahierarquia do hospital;1907: a partir deste ano, Jung passou a ter contato pessoal comFreud. Em 27/02/1907, Jung visitou Freud em Viena e estaprimeira visita prolongou-se por 13 horas de incansável conversa;Jung presenteou Freud com um exemplar de sua publicação APsicologia da Dementia Praecox: Um Ensaio.
  5. 5. A Carreira1910: fundação da Associação Psicanalítica Internacional, paraa qual Jung foi escolhido Presidente (por insistência de Freud).1912: Jung lança a obra Metamorfoses e Símbolos da Libido(editado posteriormente com o título Símbolos da Transformação),que marcava divergências conceituais profundas que o afastaramdo pensamento de Freud (delas, a que mais marcou essaseparação foi a dessexualização da libido);julho de 1914: destacam-se duas conferências pronunciadas emLondres - Sobre a compreensão psicológica e Sobre a importânciado inconsciente em psicopatologia.1920: Tipos Psicológicos (pensamento / sentimento, sensação /intuição, introversão / extroversão).
  6. 6. A Carreiraa paixão por conhecer a alma humana levou Jung a fazerinúmeras viagens, com a intenção declarada de encontraroportunidades para ver a imagem do europeu refletida nosolhos dos homens de outras culturas. Em 1921, esteve naÁfrica do Norte. Entre 1924 e 1925, conviveu com os índiosPueblo da América, no México. Entre 1925 e 1926, esteve noMonte Elgon, na África Oriental (colônia da Inglaterra). algumas das obras de Jung das décadas de 40 e 50:1940: Psicologia e Religião1944: Psicologia e Alquimia1946: Psicologia da Transferência1946: Misterium Coniunctionis
  7. 7. A Carreira1952: Resposta a Job1957: Presente e Futuro1958: Um mito moderno: os discos voadoresem 1957, Jung apresentou, no Congresso Internacional dePsiquiatria, em Zurique, um trabalho sobre a esquizofreniarepleto de indicações de intervenção utilizáveis peloterapeuta na clínica.dentre seus últimos escritos, destacam-se suaautobiografia – Memórias, Sonhos e Reflexões – e o primeirocapítulo de O Homem e seus Símbolos, “Chegando aoInconsciente”.
  8. 8. Estudos Psiquiátricos (Fonte: Silveira, 1971)em 10 de dezembro de 1900, Jung assumiu o posto desegundo assistente no Hospital Burghölzli, em Zurique, cujadireção estava a cargo de Eugen Bleuler;em 1902, passava a primeiro assistente e defendia suatese de doutoramento: Psicologia e Patologia dosFenômenos Ditos Ocultos;já era de grande importância para Bleuler e Jung, no iníciodo século XX, a psicologização da psiquiatria, emcontraponto a uma mera descrição sintomática dos quadrosclínicos apresentados;
  9. 9. Estudos Psiquiátricosseus estudos iniciais sofreram fortes influências doassociacionismo, teoria que dominava a psicologia da época,segundo a qual a vida psíquica explicar-se-ia pelas combinaçõese recombinações dos elementos mentais, que entrariam emconexão conforme determinadas leis (contigüidade, semelhança,contraste, etc.). O associacionismo também influenciou apsicologia freudiana, de modo que a associação livre também foiadotada por Freud em sua prática clínica (abandono da hipnose).as experiências sobre associações verbais, no HospitalBurghölzli, levaram Jung a conceituar os complexos afetivos;tais experimentos também levaram à conclusão de que apatologia estudada, chamada então de demência precoce, eraum distúrbio de dissociação psíquica;
  10. 10. O Paradigma dos Complexosas perturbações nas respostas (transpiração, riso, hesitação,uma frase como resposta, etc.) indicavam que a palavraindutora havia atingido um conteúdo emocional (inconsciente);tais conteúdos seriam “complexos de idéias dotadas de fortecarga afetiva”;a afetividade* é a base essencial da personalidade, oelemento que “pulsa” em todas as nossas ações e omissões. Asreflexões lógicas adquirem força apenas pelos afetos a elasrelacionados.(*termo proposto por Bleuler e designante não apenas de afetos no sentidopróprio, mas também de leves sensações e tonalidades afetivas de prazer edesprazer em todas as vivências possíveis). (Jung, 1971/1990).
  11. 11. O Paradigma dos Complexosa causa mais freqüente da origem dos complexos é oconflito; admite-se também que choques e traumas emocionaispodem, por si sós, ser responsáveis pela sua formação;os complexos são formados por imagens* de situaçõespsíquicas; são constituídos primariamente por um núcleopossuidor de intensa carga afetiva e, secundariamente,estabelecem-se associações com outros elementos afins, cujacoesão em torno do núcleo é mantida pelo afeto comum a seuselementos (Silveira, 1971);são verdadeiras unidades vivas, capazes até mesmo deexistência autônoma (este extremo se verifica nas psicoses).(*imagem: expressão concentrada da situação psíquica global.)
  12. 12. A Estrutura da Psique A Psique é um sistema energético relativamente fechado, cujo potencial de energia é constante. Assim, a quantidade de energia de que dispõe a psique é constante, apenas variando sua distribuição. Cada processo psíquico possui um valor psicológico: a intensidade da energia agregada a ele. Energia psíquica = libido (agressividade, intelectuali- dade, apetite sexual,...)
  13. 13. A Estrutura da Psiqueanalogia: representação da psique como um vasto oceano(inconsciente) no qual emerge uma pequena ilha (consciente);Inconsciente: compreende inconsciente pessoal e coletivo; éatemporal e aespacial; é uma outra realidade, um plano sutil.Inconsciente Pessoal: camadas mais superficiais, “morada” doscomplexos; Inconsciente Coletivo: camadas mais profundas, fundamentosestruturais da psique (substrato psíquico), comuns a todos oshomens;nas notas de Jung (ano de 1906), fora registrado o encontro,nos corredores do Burghölzli, com um esquizofrênico paranóide(mania persecutória) que, tentando olhar o sol, piscava aspálpebras e movia a cabeça de um lado para o outro.
  14. 14. Inconsciente Coletivo“Ele me tomou pelo braço, dizendo que queria mostrar-meuma coisa: se eu movesse a cabeça de um lado para o outro,o pênis do sol mover-se-ia também e este movimento era aorigem do vento”.Quatro anos mais tarde, lendo a recente publicação demanuscritos gregos referentes a visões de adeptos deMithra*, Jung deparou-se com a seguinte descrição: “Etambém será visto o chamado tubo, origem do ventopredominante. Ver-se-á no disco do sol algo parecido a umtubo, suspenso. E na direção das regiões do ocidente écomo se soprasse um vento de leste infinito. Mas se outrovento prevalecer na direção das regiões do oriente, ver-se-á,da mesma maneira, o tubo voltar-se para aquela direção”.* Mithra: religião da Grécia Antiga.
  15. 15. Inconsciente ColetivoTal descoberta se deu no ano de 1910, quando Jungentregava-se apaixonadamente a estudos de arqueologia emitologia. Em sua obra Memórias, Sonhos e Reflexões, eleconta porque ficara empolgado com esses assuntos. O motivofoi um sonho: “Ele se acha numa casa desconhecida que, no entanto,era sua casa. Uma casa de dois andares. Inicialmente,encontra-se no andar superior, num salão ornado de belosquadros e provido de móveis de estilo século XVIII. Descendoas escadas, chega ao pavimento térreo, onde o mobiliário émedieval e o piso de tijolos vermelhos. Percorre as váriaspeças, explorando a casa, até deter-se diante de uma pesadaporta. Abre-a e vê degraus de pedra que conduzem à adega.Desce e encontra-se num amplo salão abobadado de aspectomuito antigo.
  16. 16. Inconsciente ColetivoSuas paredes são construídas à maneira dos romanos e opiso é formado por lages de pedra. Por entre essas pedrasdescobre uma argola. Puxando-a, desloca-se uma lage,deixando aparecer uma estreita escada. Descendo ainda, vê-se numa caverna talhada na rocha. Espessa camada depoeira cobre o solo e, de permeio, entre fragmentos decerâmica, descobre ossos espalhados e dois crânioshumanos.”Para Jung, os sonhos são autodescrições da vida psíquica.Sendo assim, interpretou esse sonho vendo na casa a imagemde sua própria psique. O consciente estava figurado pelo salãodo primeiro andar, cujo mobiliário apresentava-se bem deacordo com a formação cultural do sonhador (filosofias dosséculos XVIII e XIX); o pavimento térreo correspondia àscamadas mais superficiais do inconsciente.
  17. 17. Inconsciente ColetivoQuanto mais descia, mais seaprofundava em mundos antigos, atéchegar a uma espécie de cavernapré-histórica.Jung concluiu, aprofundando seusinsights acerca desse sonho, ebaseado em dados empíricos obtidosna observação clínica, que cadaindivíduo trouxe consigo um lastropsíquico onde estão gravadosvestígios da história da humanidadeem marcas indeléveis: oINCONSCIENTE COLETIVO.
  18. 18. Os SonhosOs sonhos e as fantasias constituem o material psicológicobásico de análise na terapia junguiana; sua amplificação*permite ao ego incorporar seu conteúdo.Ao tomar consciência dos conteúdos presentes por trás dasimbologia proposta pelo inconsciente pessoal e expressa nosonho, o sonhador passa a vivenciar aquele conteúdo, o que,em quadros não patológicos, provoca uma ab-reação, ou seja,uma descarga da energia psíquica (libido) – ou afetividade,como chamou Bleuler – agregada àquele conteúdo,promovendo o enfraquecimento do complexo ao qual aquelasimagens estavam vinculadas.(*amplificação: alargamento e aprofundamento de uma imagem onírica pormeio de associações dirigidas e de paralelos com conteúdos das ciênciashumanas e da história dos símbolos (mitologia, religião, arte, etc.).
  19. 19. Os Arquétipossão possibilidades herdadas para representar imagenssimilares; são formas instintivas de imaginar; são matrizesarcaicas onde configurações análogas ou semelhantes tomamforma;sua origem é decorrente dos depósitos de impressõessuperpostas deixadas por certas vivências fundamentais,comuns a todos os humanos, repetidas incansavelmenteatravés de milênios. Vivências típicas – emoções e fantasiassuscitadas por fenômenos da natureza, pelas experiências coma mãe, pelos encontros do homem com a mulher e da mulhercom o homem, etc.a noção de arquétipo permite compreender porque emlugares e em épocas distantes aparecem temas idênticos noscontos de fadas, mitos, dogmas e ritos de religiões, nas artes,
  20. 20. Os Arquétiposa polaridade dos arquétipos é explicada pela presença dosprincípios espiritual e instintual na própria essência humana eporque os arquétipos expressam aspectos positivos enegativos da experiência humana coletiva;o arquétipo da mãe, por exemplo, apresenta o pólo dafertilidade, da nutrição, e o pólo do abandono, dosufocamento e da rejeição;cada novo indivíduo possui armazenadas em sua mente,ao nascer, informações relativas a todo o passado dahumanidade; tais conteúdos são expressos através daconstelação* dos arquétipos.* constelar: entrada em atividade de um arquétipo, fazendo-se presente nocenário psíquico.
  21. 21. A Imagem ArquetípicaO arquétipo, enquanto virtualidade, funciona como um nódulo deconcentração de energia psíquica; quando esta energia, em estadopotencial, atualiza-se, toma forma, teremos uma imagemarquetípica.Obras de arte, muitas vezes, expressam imagens arquetípicas: Pinturas que giram em torno do tema mítico do Sol: figuras masculinas de grandes proporções providas de coroas e outros atributos divinos bastante próximos de descrições de Mithra, deus indo-persa, dadas por seus adeptos. Segundo narra o mito, foi Mithra quem instituiu o Sol governador do mundo, entregando-lhe o globo, símbolo de poder que ele próprio trazia na mão direita desde o instante de seu nascimento.
  22. 22. Animus e Animaa noção de bissexualidade humana já era encontrada nomito dos Androginos, apresentado por Aristófanes em OBanquete, de Platão; os Androginos eram seres bissexuados,redondos, ágeis e tão possantes que Zeus chegou a temê-los; para reduzir-lhes a força, dividiu-os em duas metades:masculina e feminina.Anima = arquétipo do feminino; princípio feminino nohomem; representação psíquica da minoria de genesfemininos presentes no genoma do homem;Animus = arquétipo do masculino; princípio masculino namulher.
  23. 23. Expressões Artísticas de Animus e AnimaMona Lisa, segundo a obra de Dmitri Merejkowski “ORomance de Leonardo da Vinci” (trad. brasil. de Breno daSilveira), seria a própria alma do pintor;Extraordinária figuração do animus, na literatura, éHeathcliff, personagem de “O Morro dos Ventos Uivantes”,de Emily Brönte (trad. brasil. de Rachel de Queiroz); opersonagem encarna os atributos negativos do animus emtoda sua crueza: brutalidade, crueldade, capacidadedestruidora.
  24. 24. O Processo de Individuaçãoobjetivo: realização da totalidade individual, com a integração detodos os aspectos de nossa personalidade originária (Grinberg,1997).o processo de individuação não consiste num desenvolvimentolinear, mas num movimento de circunvolução que conduz a um novocentro psíquico – o self (arquétipo central e organizador dodesenvolvimento);quando consciente e inconsciente vêm ordenar-se em torno doself, a personalidade completa-se; o self será, então, o centro dapersonalidade total;a preliminar será o desvestimento das falsas roupagens dapersona; (persona: sistema de adaptação ou a maneira pela qual se dá a comunicação como mundo; aquilo que não é verdadeiramente, mas o que nós mesmos e os outrospensam que somos).
  25. 25. O Processo de Individuaçãoa importância do autoconhecimento e a aceitação e oreconhecimento da sombra; Uroboros: símbolo alquímico recorrente na mitologia, e que representa o processo de transformação psíquica; seu conteúdo também está presente na obra O dragão que devora a si mesmo, de Lambsprinck (1678) – Musaeum Hermeticum, Frankfurt. Este símbolo emerge também em um manuscrito grego do século III a. C. (Jung, 1964, p. 38), e em manuscritos alquímicos (Idade Média).Individuar-se é tornar-se um indivíduo, tornar-se si-mesmo, ou seja, aquilo que de fato somos.
  26. 26. O Processo de Individuaçãoo objetivo final da individuação é a integração de consciência einconsciente; nossa identidade pessoal livra-se dos invólucros dapersona e a personalidade livra-se do poder sugestivo das imagensprimordiais, ou seja, da possessão pelos arquétipos; o ego é, então,assimilado ao self;essa integração total do self, embora seja um ideal de perfeiçãoimpossível de ser alcançado, deve ser buscado como meta;a individuação não é algo que ocorre passivamente (Grinberg,1997); exige a colaboração ativa do ego consciente, que devebuscá-la e conquistá-la com empenho, engajamento, paciência ecoragem;a individuação é um conceito permeado de significados morais eéticos: qual o tipo de atitude moral necessária em certo momentopara lidar com as influências perturbadoras do inconsciente?
  27. 27. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: Os Complexos Patogênicos / A Neuroseuma doença mental é caracterizada por condutas e concepçõessob a influência de fatores inconscientes – complexos – quepossuem uma grande quantidade de energia psíquica, “têm poder”;um complexo encontra-se em estado patológico quando possuiuma libido (energia psíquica) atrelada a sua tonalidade afetiva maiordo que a energia psíquica de que dispõe o complexo de ego;quando uma NEUROSE aparece num indivíduo adulto, surgeliteralmente o mesmo mundo de fantasias da criança; no contexto daneurose, estabelece-se, então, uma relação causal com a existênciade fantasias infantis (Jung, 1974/1989);os efeitos patológicos da neurose só aparecem quando oindivíduo se depara com uma situação que ele não é capaz dedominar;
  28. 28. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Neurosea interrupção conseqüente da evolução da personalidadepossibilita um desvio para as fantasias infantis que existem de formalatente em todo ser humano, mas que não chegam propriamente aimpedir a trajetória normal da personalidade consciente;quando as fantasias alcançam um determinado grau deintensidade, começam a irromper na consciência, gerando umestado de conflito perceptível para o paciente: a cisão em duaspersonalidades caracteristicamente distintas;tal dissociação já havia sido, de fato, preparada no inconsciente,na medida que a energia não utilizada que escoa da consciênciafortalece as propriedades inconscientes negativas, sobretudo ostraços infantis da personalidade;as fantasias normais da criança representam a imaginação dosimpulsos instintivos e podem ser consideradas como um exercíciopreliminar das atividades futuras da consciência;
  29. 29. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Neuroseas fantasias do neurótico, perturbadas de forma patológica pelaregressão da energia (despotencialização do ego), possuem umnúcleo do instinto normal que se caracteriza pela capacidade deadaptação;o instinto não é um mero impulso, cego e indeterminado, mas estásempre afinado com uma situação exterior determinada; talcircunstância é que lhe dá sua forma específica e singular; o instintoé original e hereditário, sendo sua forma arcaica (arquetípica) maisantiga que a forma do corpo.o neurótico está, portanto, suscetível à ação dessas matrizes decomportamentos humanos instintivos; estado de autonomia relativados complexos (Jung, 1971/1990; Conferência de abril de 1939).a neurose surge quando “(...) se abrem fendas demasiado largasentre consciente e inconsciente (...)” (Silveira, 1971, p. 83).
  30. 30. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Neurose e a Histeriao estado neurótico apresenta o sujeito em desacordo consigomesmo, envolto numa trama de projeções, confundindo-se,fusionando-se com outros seres e, deste modo, levado a agir emdesacordo com suas atitudes normais.a HISTERIA é um estado patológico congênito ou adquirido noqual as emoções são exageradamente fortes; por isso, os doentessão mais ou menos vítimas constantes de suas emoções;entretanto, a histeria em geral só determina a quantidade e não aqualidade das emoções; essa qualidade seria dada pelo caráter dosujeito (Jung, 1971/1994). (estudo publicado em 1906).o que caracteriza a histeria é a existência de um complexosuperpoderoso incompatível com o complexo do eu;
  31. 31. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Histeria e a Conversão Histéricaos estudos de Pierre Janet demonstram que os efeitos das emoçõesproduzem, nos histéricos, aquele estado de dissociação em que ficamparalisadas a vontade, a atenção e a capacidade de concentração, eem que todos os fenômenos psíquicos superiores são diminuídos embenefício dos inferiores, ou seja, há um deslocamento para o lado dosautomatismos, quando fica livre tudo aquilo que estava sob o domínioda vontade; desaparecem a síntese mental e a aquisição de novaslembranças. (publicação: 1907)a conversão histérica seria um fenômeno primitivo da gênese dossintomas histéricos; segundo Breuer e Freud, toda pessoa tem umacerta medida dentro da qual pode suportar emoções não ab-reagidas edeixar que se acumulem; o que passar disso, leva à histeria; aconversão pode ocorrer por meio de convulsão, paralisia de ummembro, distúrbio de consciência, etc. (1907)
  32. 32. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Histeria (estudo publicado em 1907)o conteúdo do delírio histérico é sempre um delírio que evidencia ocomplexo, ou seja, a emergência de um complexo patogênicoautônomo elaborado geralmente sob a forma de satisfação docomplexo;as afirmações delirantes em histéricos são deslocamentos: os afetosque as acompanham não pertencem a elas e sim a um complexoreprimido; a desorientação nos histéricos se justifica pelo fato de umcomplexo patogênico impedir a reprodução do complexo do eu; a maiorparte das associações se volta para esse complexo patogênico;as experiências de associações demonstraram que temposprolongados de reação e falhas de reação surgem em casos deacionamento de complexos; a forte tonalidade afetiva inibe aassociação; na histeria, nada vem à mente do paciente nos pontoscríticos;
  33. 33. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Histeria / A Demência PrecoceSobre anormalidades de caráter:a histeria não produz um caráter especial, mas exagera ascaracterísticas já existentes; encontramos, por isso, toda espécie detemperamento nos histéricos: existem personalidades egoístas e outrasaltruístas, criminosos e santos, naturezas sexuais ardentes e outrasfrias, etc. Numa pessoa histérica com várias personalidades, existeuma colaboração tranqüila entre elas (são todas histéricas);Conferência proferida em Londres, 1911: a DEMÊNCIA PRECOCEinclui todas as condições de caráter alucinatório, catatônico,hebefrênico e paranóico que não apresentam processos característicosde lesão cerebral e não pertencem ao grupo maníaco-depressivo; nãoexiste, na demência precoce, qualquer sintoma que possa serconsiderado sintoma orgânico;
  34. 34. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: Alucinações na Demência Precocealucinação é simplesmente uma projeção externa de elementospsíquicos; gozam de ubiqüidade (onipresença);a demência precoce nada mais faz do que acionar um mecanismo jápreviamente formado que funciona, de modo regular e normal, nosonho; as alucinações da histeria e do sonho contêm simbolicamentefragmentos distorcidos do complexo, como é o caso da maioria dasalucinações na demência precoce; porém, aqui o simbolismo é muitomais ampliado e se parece mais com o sonho pela sua distorção (Jung,1971/1990);distúrbios do sono são muito comuns nos dementes precoces; seussonhos são marcados por uma enorme vivacidade; muitos doentescostumam derivar suas idéias delirantes quase que exclusivamente dossonhos, aos quais eles atribuem real validade (Jung, 1971/1990);
  35. 35. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Demência Precoce (Jung, 1971/1990)se permitirmos que alguém circule e aja durante o sono,obteremos o quadro clínico da demência precoce;os dementes precoces se queixam continuamente de que ospensamentos lhe são retirados no momento em que querem pensarou dizer alguma coisa; tal “privação de pensamento” ocorre sob aforma de bloqueio;na demência precoce, encontramos um ou mais complexos quese fixaram de maneira duradoura;uma melhora do estado do paciente ocorre pela atrofia docomplexo mais atuante o que, no entanto, provoca uma destruiçãoextensiva de grande parte da personalidade e, no melhor dos casos,os dementes precoces passam a viver com uma mutilação psíquica;
  36. 36. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Demência Precoceum distúrbio da demência precoce é a afetação – maneirismos,excentricidade, mania de originalidade – exemplo: comportamentopretensioso e artificial de algumas pessoas de classe baixa queconvivem com pessoas de classes superiores; tais características semostram na demência precoce especialmente nos casos que encobremum “delírio de ascensão social” (descrito no Tratado Psiquiátrico deKrafft-Ebing);a afetação também se exprime nos gestos e maneiras de escrever;dementes precoces se caracterizam, em geral, por um modo deescrever bem típico: as indiscutíveis tendências contraditórias de suapsique se exprimem por uma escrita ora oblíqua, ora fluente, ora longa,ora curta e abrupta (Jung, 1971/1990 & 1971/1994);observamos, ainda, bloqueios abruptos – privações de pensamento –e irrupção alucinatória súbita de impulsos excêntricos (Jung, 1971/1990 &1971/1994).
  37. 37. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A EsquizofreniaNo estudo publicado em Berlim, 21/04/1928, denominado “DoençaMental e Psique”, Jung definiu a esquizofrenia como a doença de cisãoda personalidade, cujo caso mais simples é a paranóia (mania deperseguição); trata-se de uma duplicação simples da personalidadeque, nos casos menos graves, ainda consegue manter uma estreitaponte entre a identidade dos “dois eus”;esse tipo de doente se apresenta com uma personalidadeaparentemente normal: pode ter um bom emprego, uma posiçãodestacada, sem que se suspeite de nada; entretanto, se forpronunciada a palavra “maçonaria”, por exemplo, sua face jovial podese transformar, um olhar de dureza insondável pode aparecer, cheio dedesconfiança e obstinação humana; a pessoa se transforma, derepente, num animal perseguido, perigoso, ameaçado por inimigosinvisíveis: o “outro eu” sobe à tona (Jung, 1971/1990);
  38. 38. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Esquizofreniana Conferência da Royal Society of Medicine, 04/04/1939, emLondres, Jung retoma a discussão sobre a gênese orgânica oupsíquica das doenças mentais; Bleuler supunha a existência de umacausa orgânica, apontando como o sintoma primário um distúrbioparticular no processo de associação; a partir desse ponto de vista,toda desintegração ocorre quando as associações aparecemparticularmente mutiladas e desconexas; uma seqüência depensamentos não é capaz de alcançar um desencadeamento lógico,ou é interrompida por conteúdos estranhos que não foramsuficientemente inibidos (conceito de “abaissement”, de PierreJanet);em quadro de esquizofrenia, o paciente não preserva a unidadepotencial da personalidade (o neurótico, ao contrário, conseguemantê-la);
  39. 39. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Esquizofreniana esquizofrenia, os complexos se tornam fragmentos autônomose independentes que não se reintegram na totalidade psíquica ouentão se interligam, de modo inesperado, como se nada tivesseacontecido;as figuras cindidas possuem nomes e características banais,grotescas, caricaturais, e não colaboram com a consciência dopaciente, intrometem-se e perturbam o tempo inteiro, atormentando-o; trata-se visivelmente de um caos de visões, vozes e tiposdesconexos, todos de natureza violenta, estranha e incompreensível(Jung, 1971/1990). O delírio primário é real.a disposição esquizóide se caracteriza por afetos abrangentes,nascidos de complexos comuns que, em geral, provocamconseqüências bem mais profundas dos que os afetos neuróticos(Jung, 1971/1990, estudo publicado em 1958).
  40. 40. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Esquizofrenia(ainda no estudo de 1958): tais afetos se caracterizam por formas deassociação arcaicas ou primitivas muito próximas dos motivosmitológicos e de suas representações;a freqüente retomada de formas e imagens arcaicas de associaçãoobservadas na esquizofrenia forneceu a Jung, pela primeira vez, a idéiade um inconsciente que não consta apenas de conteúdos originários daconsciência que se perderam, mas de uma camada ainda maisprofunda, dotada de caráter universal, como são os motivos míticoscaracterísticos da fantasia humana; são motivos descobertos (e nãoinventados).Em Símbolos da Transformação: Análise dos Prelúdios de umaEsquizofrenia (Jung, 1973/1989) – o caso de Miss Miller. No prefácio àsegunda edição, Jung coloca que o objetivo da obra é “(...) uma análisetão profunda quanto possível de todos os fatores históricos mentaisque se reúnem numa fantasia individual involuntária.” (nov/1924).
  41. 41. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: O Caso Clínico Miss MillerMiss Frank Miller: pseudônimo da paciente Théodore Flournoy,nascida em 1878 no Alabama;Estudou Arte e Literatura; por volta de 1901, proferiu palestras commuito sucesso;por volta de 1907: passou a expressar sua imaginação criativainconsciente;em 1909 foi institucionalizada: “Caso Clínico Miss Miller” – caso nº14852 do Denver´s State Hospital;Diagnóstico: personalidade psicopática com traços hipomaníacos;Relato da família: diziam que ela era má, instável, erótica e tagarela.Na entrevista médica inicial com Jung, este lhe diz: “Você está clara,lúcida e indignada por estar aqui”.
  42. 42. A Clínica Junguiana das Psicopatologias: A Psicosea psicose é o estado patológico de maior autonomia eindependência dos complexos; comportam-se como unidades vivas,e o psicótico não tem a noção da possibilidade de dialogar entreesses conteúdos psíquicos emergentes;o complexo de ego (a consciência), facilitador desse debate entreos outros complexos, é tão fraco no psicótico que rompe-se com osurto; a energia psíquica atrelada às fantasias consteladas poresses complexos patogênicos foge ao controle da consciência;o paciente não possui referências de identidade; a simbologia dosconteúdos coletivos que se manifestam com maior freqüência,quando bem observados pelo psicoterapeuta, servem comoreestruturadores do ego; a medicação tem esse efeito sobre apsique do paciente, pois também observa-se um princípio de egoapós um “surto medicado”.
  43. 43. A Psicoterapia na Clínica Junguianaopção por um método dialético, que consiste em confrontaras averiguações mútuas; isso só se torna possível se o clientepuder apresentar seu material o mais completamentepossível, sem ser limitado pelos pressupostos do terapeuta(Jung, 1971/1987).Os símbolos são (re)estruturadores da personalidade.
  44. 44. A Ciência do Coletivo“(...) cada célula do nosso corpo é uma parte que está no todode nosso organismo, mas cada célula contém a totalidade dopatrimônio genético do conjunto do corpo, o que significa queo todo está presente também na parte. Cada indivíduo numasociedade é uma parte de um todo, que é a sociedade, masesta intervém, desde o nascimento do indivíduo, com sualinguagem, suas normas, suas proibições, sua cultura, seusaber; outra vez, o todo está na parte. Com efeito, ‘tudo estáem tudo e reciprocamente’. Nós mesmos, do ponto de vistacósmico, somos uma parte no todo cósmico: as partículas quenasceram nos primeiros instantes do Universo se encontramem nossos átomos. O átomo de carbono necessário para anossa vida formou-se num sol anterior ao nosso. Ou seja, atotalidade da história do cosmos está em nós, que somos, não
  45. 45. A Ciência do Coletivoobstante, uma parte pequena, ínfima, perdida no cosmos. Esem dúvida somos singulares, posto que o princípio ‘o todoestá na parte’ não significa que a parte seja um reflexo puro esimples do todo. Cada parte conserva sua singularidade e suaindividualidade, mas, de algum modo, contém o todo.”Edgar Morin (1996), em Epistemologia da Complexidade, p. 275.
  46. 46. Referências Bibliográficas (I)GRINBERG, Luiz Paulo. (1997). Jung: O Homem Criativo. São Paulo: FTD.JUNG, Carl Gustav. (1987). A Prática da Psicoterapia. Petrópolis: Vozes.(Originalmente publicado em 1971).JUNG, Carl Gustav. (1994). Estudos Psiquiátricos. Petrópolis: Vozes.(Originalmente publicado em 1971).JUNG, Carl Gustav. (1989). O Presente e o Futuro. Petrópolis: Vozes.(Originalmente publicado em 1974).JUNG, Carl Gustav. (1990). Psicogênese das Doenças Mentais. Petrópolis:Vozes. (Originalmente publicado em 1971).JUNG, Carl Gustav. (1989). Símbolos da Transformação: Análise dos prelúdiosde uma esquizofrenia. Petrópolis: Vozes. (Originalmente publicado em 1973).JUNG, Carl Gustav e FRANZ, Marie-Louise von [et al.]. (1977). O Homem eseus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Originalmente publicado em1964).
  47. 47. Referências Bibliográficas (II)MORIN, Edgar. (1996). Epistemologia da Complexidade. Em: SCHNITMAN,Dora Fried. Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade. Trad. Jussara HaubertRodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas, pp. 274-289.NEUBARTH, Barbara Elisabeth. (1997). Relógios sem ponteiros: Desvelandouma história de vida. Em: FONSECA, Tânia M. G. e KIRST, Patrícia G. (Orgs.).Cartografias e Devires: A construção do presente. Porto Alegre: Editora daUFRGS, 2003.SILVEIRA, Nise da. (1971). Jung: Vida e Obra. Rio de Janeiro: José ÁlvaroEditor.ULSON, Glauco. (1988). O método junguiano. São Paulo: Ática. Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Instituto de Psicologia Curso de Graduação em Psicologia – Disciplina de Psicopatologia I Alexsander Silveira, Eduardo Bente & Luiggia Cestari © 2004, junho. Contatos: allexsilveira@hotmail.com

×