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ranças futuristas,  emergia a absolutização do presente imedia-
to,  glorificando a autenticidade subjetiva e a espontanei...
fes,  as epidemias são regularmente noticia de primeira página. 
As lutas sociais e os discursos críticos não mais oferece...
idéias expressam uma' verdade apenas parcial.  Os fluxos econô-

micos de curto prazo,  o insucesso das certezas progressi...
cançou-se uma etapa nova na emancipação em face da tutela
do elemento religioso:  ápice da modernidade,  essa etapa é sinô...
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  1. 1. 'r 4 03302347 l II IHIIH - ta: u IIEIYIÉÍLÍLQ' ! um amanita: : »Juninas BARCAR LLA
  2. 2. . a _. ífíifâfffffffíãffífffÊf§§í㧧ÍÊãiÊ
  3. 3. 444.4 1,464 j É? Gilles Lipovetsky com Sébastien Charles OS TEMPOS HIPERMODERNOS Z" Reimpressãn PUCRS/ BCE | l|| |1|| |l| ||| ||l| ||| | 0.830 284-7 Tradução: Mário Vilela BARCAR LLA PRESERVE SUA FONTE DE CONHECIMENTO %@
  4. 4. Copyright © 1004 Éditions Grasset e. Fasquelle Proibida a venda em Portugal, COORDENAÇÃO EDlTORIAL Lu Fernandes Jorge Felix Sérgio Kobayashi 1¡ &QH 4 a¡ INDICAÇÃO EDITORIAL ' J áwoã owoe PROJETO GRÁFICO E : :um Fábio Mjguez FOTO DE CAPA Getty Images REVISÃO Norma Marinheiro DADOS ¡NTEINACÍONMS ue cAnLocAçTio NA runucaçxo (cu) (cÃMAu lRASlLEllA no 1mm, sr, BRASIL) Lipovctsky, Gilles, m. 7 Os tempos hipermodernos / Gilles Lipoversky; rradução Mário Vilela. -Siu Paulo 2 Editora Barczrolla, 2004 Título original: Les temps hypermodernes Bibliografia. x. lndividualismo 1. Lipoveuky, Gilles, 1944 v Crítica e interpretação 3. Pós-modernismo I. Título. ISBN Bs-sszismrs 04-5540 CDD494 ÍNDICE PARA CATÁLOGO sisrewirico: I. Filosofia francesa r 194 1' edição: agosto/ mn¡ Z' reimpressão: setembro/ mos : aos Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA BARCARDLLA Av. Pedroso de Moraes, 6)¡[u° andar 05419 ooo Pinheiros São Paulo SP Brasil fone: (55 n) seu 460o wwweditorabarcarollacombr editorabarcarolla@editorabarcarollacombr c. _ 34410?" 49 105 !27 SUMÁRIO Prefácio O individualismo paradoxal: introdução ao pensamento de Gilles Lipovetsky Sébastien Charles Tempo contra tempo, Qua sociedade hipermoderna Gilles Lipovetsky Marcos de uma trajetória intelectual Entrevista de Gilles Lipovetsky a Sébastien Charles Bibliografia de Cilles Lipovetsky
  5. 5. PREFÁCIO A obra de Gilles Lipovetsky marcou profundamente a interpre- tação da modernidade. No primeiro livro do autor, Aiera da Vazia (1983), ele estabelecia os marcos daquilo que se imporia na França como "paradigma individualista". Desde então, Lipovetsky não parou de explorar detalhadamente as múltiplas facetas do indi- víduo contemporâneo: o reinado da moda, as metamorfoses da ética, a nova economia dos sexos, a explosão do luxo e as muta- ções da sociedade de consumo. Essa atenção ao mais contemporâneo poderia passar por complacência; mas não se trata de nada disso, e uma das virtu- des do trabalho de Lipovetsky é, com base numa descrição e numa arqueologia minuciosas dos fenômenos, superar o anta- gonismo tradicional entre os antigos e os modernos, entre os eu~ fóricos e as cassandras da modernidade, Na obra de Lipovetsky, não encontram aplicação unívoca nem o modelo “providencia- lista" de uma modernidade que sempre descobre em si mesma os remédios de seus males e os benefícios de seus inconvenien-
  6. 6. tes, nem o esquema catastmfista do reino que advém apenas da "razão instrumental", ou seja, de uma racionalidade para a qual existem não mais fins, e sim apenas meios. A segunda revolução moderna (ou hipermoderna), que se instaura diante de nossos olhos, não é de maneira alguma si- nônimo de extinção dos fins, Ela tampouco significa a vitória definitiva do materialismo e do cinismo, pois se assiste, pelo con- trário, ao reinvestimento afetivo em certo número de senti- mentos e valores tradicionais: o gosto pela sociabilidade, o volun- tariado, a indignação moral, a valorização do amor. São tantos sentimentos e valores que não apenas se perpetuam, mas que, conforme o caso, também se reforçam num aprofundamento humanista do individualismo. Desse ponto de vista, poderia parecer que a interpretação de Gilles Lipovetsky se aproxima do primeiro modelo "otimista", não fosse a diferença fundamental de que de modo algum ela se funda num mecanismo invisível e providencial; antes, empenha-se em descrever os fenômenos de reconstituição e "reciclagem" na sutileza dos detalhes. Aí, não há nenhuma aposta metafísica, e sim uma exposição dos fenô- menos que admite demonstração e refutação (coisa que nem o primeiro nem o segundo modelo podem pretender). É por tal razão que essa leitura mais complexa e menos uní- voca não desemboca numa visão idílica de nosso presente. Este e e continua paradoxal, tanto para os participantes quanto pa- ra os intérpretes: embora o hiperconsumo pareça compatível com os valores do humanismo, ele certamente não e' a panacéia que garantirá a felicidade humana. O indivíduo hipercontem- porãneo, mais autônomo, e' também mais frágil que nunca, na ¡. - medida em que as obrigações e as exigências que o definem são mais vastas e mais pesadas. A liberdade, o conforto, a qualidade e a expectativa de vida não eliminam o trágico da existência; pelo contrário. tornam mais cruel a contradição. Neste livro, escrito em colaboração com Sébastien Charles, Lipovetsky fala de sua trajetória intelectual e das diferentes eta- pas de seu trabalho; mas oferece também uma contribuição fundamental para sua própria interpretação da "segunda revo- lução moderna", dedicando-se pela primeira vez a descrever os traços mais característicos daquilo que, para melhor ou pior, a hipermodemidade" nos reserva. Esta obra é a continuação de várias sessões que o College de Philosophie consagrou ao trabalho de Gilles Lipovetsky. Sébas- tien Charles, professor de filosofia na Universidade de Sher- brooke (Canadá), proporcionou a direção intelectual. Piene-Hená Ta vaillot Universidade de Pads Í V (Sarbonne)
  7. 7. 0 INIJEIVIDUALISMD PARADDXAL: INTRODUÇÃO A0 PENSAMENTO DE GILLES LIPOVETSKY Sébastien Charles
  8. 8. A condenação do presente é sem dúvida, se analisada da pers- pectiva do tempo longo da história, a crítica mais comum apresentada pelos escritores, filósofos e poetas, e isso desde épocas imemoriais. Platãojá se preocupava com o defínhamen- to dos valores e o surgimento dessa raça de ferro, a dele, que não tinha mais muito em comum com a raça de ouro dos tem- pos miticos, dotada de todas as virtudes. E, a crermos em Plinio, oVelho, o mundo sufocado do qual ele compartilhou os derra- deiros momentos* estava irreversivelmente fadado ã ruína, tal era seu adiantado estado de corrupção. O tema da decadência ou da queda, retomado no plano reli- gioso pela perspectiva apocalíptica, não e' novo, e cada um acha com facilidade as causas da degenerescencia que lhe parece ca- racterizar adequadamente os defeitos de sua respectiva época. Na Antiguidade, como a história era concebida de maneira cicli- * Plínio morreu asfixiado durante uma erupção do Vesúvio. (NT. )
  9. 9. ca, o mais negativo se inscrevia ontologicamente nos aros da roda da fortuna, e seu advento era pensado na categoria do ine- vitável. No mundo cristão, o Pecado Original e o Iuízo Final eram os dois faróis que iluminavam um presente transitório e tido como desprovido de essência. com a modernidade que ocorre a ruptura, não para reinserir o presente no cerne das preocupações de todos, mas para inverter a ordem da tempora- lidade e fazer do futuro, e não mais do passado, o locus da felici- dade vindoura e do fim dos sofrimentos. Essa ruptura essencial na história da humanidade se traduz na forma de um discurso radicalmente oposto àquele da decadência, exaltando dessa vez as conquistas da ciência e apontando as condições de um pro- gresso ilimitado do qual deveríamos ser os herdeiros. A razão poderia reinar sobre o mundo e criar as condições para a paz, a eqüidade e a justiça. Esse otimismo, que caracteriza especificamente a filosofia das Luzes e o cientismo do século XIX, não é mais corrente. Na seqüência das catástrofes que o século XX presenciou, a razão perdeu toda dimensão positiva, para ser combatida como ins- trumento de dominação contábil e burocrática, e nossa relação com o tempo, e mais especialmente com o porvir, está dora- vante marcada por essa critica, ainda que perdurem, em nega- tivo, restos do otimismo passado, sobretudo no plano técnico- científico. Tendo o passado e o futuro sido desacreditados, exis- te a tendência a pensar que o presente se tornou a referencia essencial dos individuos nas democracias, pois esses últimos romperam definitivamente com as tradições que a modernida- de varreu e se desviaram daqueles amanhãs que nem chegaram 14 a enaltecer muito. Apesar disso, o texto de Gilles Lipovetsky que se segue ao nosso mostrará que, quanto à relação com o tempo, as coisas não são assim tão simples, de um lado porque a consa- gração do presente não é tão evidente quanto dizem às vezes, de outro lado porque as críticas que são feitas a essa consa- gração passam freqüentemente por cima do essencial. Um dos méritos das análises que Gilles Lipovetsky propõe há vinte anos é romper com tais juízos excessivos, sempre de- masiado elementares porque olham apenas um aspecto das coi- sas', a fim de livrar-se de toda a complexidade do real e circuns- crever as contradições de que este está urdido. Nesse sentido, Lipovetsky é antes de tudo discípulo deTocqueville, o primeiro que soube diagnosticar o surgimento de individuos preocupa- dos com a respectiva felicidade pessoal, de ambições limitadas, e se dedicou a assinalar os numerosos paradoxos que a demo- cracia americana lhe possibilitava julgar in Inca. Ainda como Tocqueville, as análises de Lipovetsky não se contentam com juízos apressados nem submetidos a ditames ideológicos; antes, _seguindo um método empirista ou indutivo, procuram partir dos fatos, e do estudo destes no tempo longo, para propor um quadro de análise que possibilite faze-los falar e dar-lhes sen- tido. Nesse aspecto, cada uma das obras de Lipovetsky é tanto uma crítica das concepções excessivamente simplistas que se propõem a respeito do real quanto um convite a pensar de ma- neira mais complexa os fenômenos deste nosso mundo. . --. -
  10. 10. ~1›“: Da modernidade à pós-modernidade: o abandono do universo disciplinar As análises tradicionais acerca do mundo moderno, tanto as de direita como as de esquerda, em geral se baseiam numa crítica similar: a autonomia prometida pelas Luzes teve por conseqüência última uma alienação total do mundo huma- no, submetido ao peso terrível destes dois flagelos da moder- nidade que são a técnica e o liberalismo comercial. A moder- nidade não apenas não conseguiu concretizar os ideais das Luzes que objetivava alcançar, mas também, ao invés de ava- lizar um trabalho de real libertação, deu lugar a um errlPTe' endimento de verdadeira subjugação, burocrática e discipli- nar, exercendo-se igualmente sobre os corpos e os espíritos. Foucault foi sem dúvida o pensador que mais insistiu neste aspecto corrompido da modernidade que é a disciplina, cuja finalidade consiste mais em controlar os homens que em li- bertá-los. A disciplina é um conjunto de regras e técnicas es- pecíficas (vigilância hierárquica, sanção normatizadora, exa- me de avaliação) que têm por efeito produzir uma conduta normatizada e padronizada, adestrar os indivíduos e subme- tê-los a uma fôrma idêntica para otimizar-lhes as faculdades produtivas. Ora, no mesmo instante em que Foucault ainÚa fazia das disciplinas o principio de inteligibilidade do real, Lipovetsky anunciava, em A era do vazio (1983), que haVíamOS entrado numa sociedade pós-disciplinam a qual ele denominava pós- modernidade; e, em O império do efêmera (1987), que a pfÓPÚa X6 modernidade não era redutível tão-somente ao esquema disci- plinar se nos dávamos ao trabalho de encara-la pelo dominio do efêmero por excelência, a moda. Tratava-se então não só de romper com a leitura foucauldiana (mostrando que a moda, ao ter possibilitado que se escapasse do mundo da tradição e da celebração do presente social, desempenhara importante papel na aquisição da autonomia), mas também de distanciar-se da lógica das distinções sociais própria de Bourdieu (mostrando que a moda podia ser pensada fora do esquema da luta de clas- ses e da rivalidade hierárquica). Está bem, o surgimento da moda é indissociável da compe- tição de classes entre uma aristocracia preocupada com a mag- nificência e uma burguesia ávida de imita-la. Mas isso não esgo- ta o fenômeno, nem indica por que a aristocracia foi levada a investir na ordem da aparência de modo que a ordem imóvel da tradição se viu destituida em favor da espiral interminável da imaginação. É preciso ver nisso a consideração de novos refe- renciais, de novas finalidades, e não uma simples dialética so- cial, uma confrontação entre status. O problema das teorias da distinção, como a de Bourdieu, é que elas não explicam por que as lutas de competição de prestígio entre os grupos sociais do- minantes, tão antigas quanto as primeiras sociedades humanas, puderam estar na origem de um processo absolutamente mo- derno, sem nenhum precedente histórico; nem como pude- ram surgir na ordem da aparência o motor da inovação perma- nente e a autonomia pessoal, Portanto as rivalidades de classe não podem ser o princípio explicativo das variações incessantes da moda. 17
  11. 11. . _ - - - ' ' er ue A explicaçao que se imP°e e a que Consiste em dll q . - esultado de as eternas reviravoltas da moda sao antes de tudo o r _ novas valorações sociais ligadas a uma nova P°5içã° e 'apresentaçao . ' ' . Aconscién- do individuo no que se refere ao conJi-“liíl c°leuv° l l cia de ser dos indivíduos de destino especifico. a vontade de exprl- mir uma identidade única, a celebração cultural da identidade pes- soal longe de contituirem um epifenômeno, tem sido urna "força produtiva" o próprio motor da mutabilidade da moda. Para que _ _ . - - ' 'r'o uma revo- surgisse o voo de fantasia das fnvolidades. ¡O! "E0553 l d _ . ' ~ d i, subverten o 1uçao na representaçau das pessoas e no sentimento e S entalidades e valores tradicionais' foi preciso que 59 °°l°°a5sem as m ' em movimento a exaltação da unicidade dos seres e seu comple- ~ › › ^ c'al. l mento, a promoçao social dos signos da diferença 5° l . - 'nconstãncia De fato, ao valonzar a renovaçao das formas e a 1 . . - › ' no indumentária da aparencia, no imcio essencialmente no pla _do reduzido circulo dos aristocratas e (depois) ClOS burgueses- a moda possibilitou a desqualiñçaçã0 d° Passado e a Valorizaçã? do novo; a afirmação do individual sobre o coletivo, graças a subjetivação do gosto; o reinado do efêmero sistemático. . Com- preende-se então que, na economia da liberdade individual. a frivolidade da moda jogue de igual Para igual 59m o 941m da gravidade e da seriedade modernasxlífrlltandc** assim a wnñr' mar uma mesma tendência à autonomia: - , d di- do mesmo modo que os homens, no Ocidente modemo se e , . _ . . ' ' racionalização cam a exploração intensiva do mundo matenal e a IS intensiva das tarefas produtivas, eles afirmam, por meio do cará- ter efêmero da moda, o poder de iniciativa que têm sobre a apa- rência. Nos dois casos, afirmam-se a soberania e a autonomia humanas que se exercem tanto sobre o mundo natural quanto sobre o âmbito estético. Proteu e Prometeu têm a mesma origem; instituíram juntos, seguindo caminhos radicalmente divergen- tes, a aventura única da modemidade ocidental em vias de apro- priação dos dados de sua historial Afora o desenvolvimento da autonomia que ela alicerça, a moda desempenhou igualmente papel fundamental no mo- mento da inflexão da modernidade num sentido pós-moder- no. lsso porque é com a extensão da lógica da moda ao conjun- to do corpo social (quando a sociedade inteira se reestrutura segundo a lógica da sedução, da renovação permanente e da di- ferenciação marginal) que emerge o mundo pós-moderno. a era da moda extrema, em que a sociedade burocrlática e demo- crática se submete aos três componentes essenciais (efêmero, sedução, diferenciação marginal) da forma-moda e se apresen- ta como sociedade superficial e frívola, 'que impõe a normativi- dade não mais pela disciplina, mas pela escolha e pela espeta- cularidade. Corn a difusão da lógica da moda pelocorpo social inteiro, entramos na era pós-moderna, momento muito preciso que vê ampliar-se a esfera da autonomia subjetiva, multiplicarem-se as diferenças individuais, esvaziarem-se de sua substância trans- _cendente os principios sociais reguladores e dissolver-se a uni- dade das opiniões e dos modos de vida. Donde, especialmente 19
  12. 12. em A era do vazio, esta insistência no conceito central de persnnalr zação, a fim de entender uma notável mudança de fumo : a dinâmica do individualismo nascido com a modernidadeà O permitir uma libertação dos individuos em face do mun O a que pertencem, uma autonomizaçã0 que permitiu a callajlm não mais seguir um caminho preestabelecido pela tradiçao e assumir uma liberdade de ação cada vez mais acentuada, a POS' modernidade possibilitou realizar aqueles ideais das LUZES que a modernidade anunciara em termos meramente leãahsücos' sem ter~lhes dado força real. 1 A em Só que (e trata-se aqui de um ponto fundamenta que do vazinjá assinalava) essa libertação em face das tãadíçfeítfl: : acesso a uma autonomia real em relação às gran 95 95 TU de sentido. não significa nem que deSaPareceu 'iodo ? Poder 5°' bre os individuos, nem que se adentrou num mundo ideal. sem conflito e sem dominação. Os mecanismos de controle nao sumiram', eles só se adaptaram, tornando-se men-OS Y-egulíadíy res, abandonando a imposição em favor da comunicaçao. la _n80 usam decreto legislativo para proibir as pÍSSOHS-; le futmígfãg zem~nas, isto sim, tomar consciencia dos e eitos esas ro nicotina para a saúde e a expectativa de vida. Assim opera o processofde personalização, nova maneira de a so- ciedade organizar-se we orienmr-se, nova maneira de gerar os corn- portamentos, não mais com a tirania dos detalhes, e sim com o rm- nimo de sujeição e o máximo de escolhas privadas possnl/ el, cor: o minimo de austeridade e o máximo de dest/ JO P°55íVe ' com . › 4 . . ~ ' ' ensao ossivel. minimo de coerçao e o maximo de com? " P 20 "Í Para Lipovetsky, como se vê, a questão não é atenuar o papel da negatividade no retrato que ele traça da pósemodernidade, mas antes moderar o sentido dessa mesma pós-modernidade propondo encara-la como fenómeno não unidimensional, mas duplo. No fundo, trata-se de compreender que a pós~moderni- dade se apresenta na forma do paradoxo e que nela coexistem intimamente duas lólgicas. uma que valoriza a autonomia, outra que aumenta a independência. O importante é entender bem que e' a própria lógica do individualismo e da desagregação das estruturas tradicionais de normatização o que produz fenô- menos tão opostos quanto o autocontrole e a abulia, o super- empenho prometéico e a total falta de Vontade. De um lado, mais tomada de responsabilidade; de outro, mais desregramento. A essência do individualismo é mesmo o paradoxo. Ante a de- sestruturação dos controles sociais, os individuos, em contexto pós-disciplinar, tem a opção de assumir responsabilidade ou não, de autocontrolar-se ou deixar-se levar. A alimentação e' o melhor exemplo. Uma vez que desaparecem nesse âmbito as obrigações sociais_ e particularmente as religiosas (jejum, qua- resma etc), observamrse tanto comportamentos individuais responsáveis (monitoramento do peso, busca de informação so- bre a saúde, ginástica) que as vezes beiram o patológico pelo excesso de controle (condutas anoréxicas) quanto atitudes com- pletamente irresponsáveis que favorecem a bulimia e a deses- truturação dos ritmos alimentares. Nossa sociedade da magre- za e da dieta é também a do sobrepeso e da obesidade. Também é essencial entender que todo ganho em autono» mia se faz à custa de nova dependência e que o hedonismo pós- 11
  13. 13. moderno e' bicéfalo, desestruturante e irresponsável, no caso de certo número de indivíduos, e prudente e responsável, no caso da maioria. Quer-se outra prova disso? Basta pensar na libera- ção de costumes, que teve por contrapartida uma desestrutu- ração do mundo familial e relacional, tornando os vínculos entre as pessoas mais complicados que no passado, quando a norma tradicional impunha a cada um seu devido lugar na ordem social. Não nos enganemosi se a obra de Lipovetsky pro- põe uma visão da pós-modernidade mais complexa e menos unívoca, se ela recusa ao mesmo tempo as simplificações apo- calípticas ou apologéticas que se fazem sobre nossa epoca, isso se dá não para enaltecer nosso presente, mas para sublinhar os paradoxos essenciais e apontar a ação paralela e complementar do positivo e do negativo, Da pós-modernidade à hipermudernidade: do gozo à angústia Embora o termo "pós-modernidade" seja problemático por- que parece indicar uma grande ruptura na história do indivi- dualismo moderno, o fato é que ele é adequado para marcar uma mudança de perspectiva nada negligenciavel nessa mesma historia. De inicio, pensa-se a modernidade segundo dois valo- res essenciais (a saber: a liberdade e a igualdade) e numa figura inédita (o indivíduo autônomo, em ruptura com o mundo da tradição). So' que, na era clássica, o surgimento do individualis- mo ocorreu concomitantemente com a ampliação do poder 22 estatal, o que fez que essa autonomização dos individuos per- manecesse mais teórica que real, A pós-modernidade represen- ta o momento histórico preciso em que todos os freios institu- cionais que se opunham ã emancipação individual se esboroam e desaparecem, dando lugar à manifestação dos desejos subje- tivos, da realização individual, do amor-próprio. As grandes es- truturas socializantes perdem a autoridade, as grandes ideolo- giasja não estão mais em expansão, os projetos históricos não mobilizam mais, o âmbito social não e mais que o prolonga- mento do privado r instala-se a era do vazio, mas “sem tragé- dia e sem apocalipse".5 Como explicar essa mutação da modernidade? Será que se precisaria ver ai' a tradução no real de discursos teóricos que celebraram a autonomia individual e o desaparecimento das estruturas de controle social? Embora seja possivel que este ou aquele escrito tenha desempenhado um papel, que o moder- nismo na arte ou o advento da psicanálise tenham exercido influência, que a ação da igualdade tenha produzido efeito, o 'es- sencial é algo de outra ordem. Na realidade, são antes de tudo o consumo de massa e os Valores que ele veicula (cultura he- donista e psicologista) os responsáveis pela passagem da mo- dernidade à pós-modernidade, mutação que se pode datar da segunda metade do século XX. De 1880 a 195o, os primeiros elementos que depois explicarão o surgimento da pós-moder- nidade se colocam pouco a pouco em cena, respondendo ao aumento da produção industrial (taylorização), à difusão de produtos possibilitada pelo progresso dos transportes e da co- municação e, posteriormente, ao aparecimento dos métodos 23
  14. 14. comerciais que caracterizam o capitalismo moderno (marke- ting, grandes lojas, marcas, publicidade). A logica da moda co- meça então a permear de modo íntimo e permanente o mundo da produção e do consumo de massa e a impor-se perceptivelv mente, mesmo que só a partir dos anos 60 vá contaminar de fato o conjunto da sociedade. Faz-se necessário dizer que, nessa primeira fase do capitalismo moderno, o consumo ainda se li- mita à classe burguesa.5 A segunda fase do consumo, que surge por volta de X950, designa o momento em que produção e consumo de massa não mais estão reservados unicamente a uma classe de privile- giados; em que o individualismo se liberta das normas tradicioa nais', e em que emerge uma sociedade cada vez mais voltada para o presente e as novidades que ele traz, cada vez mais tomaa da por uma lógica da sedução, esta concebida na forma de uma hedonização da vida que seria acessivel ao conjunto das cama' das sociais. O modelo aristocrático que caracterizara os primeiv ros tempos da moda vacila, minado por considerações hedonisv tas. Assiste-se ai' à extensão a todas as camadas sociais do gosto pelas novidades, da promoção do fútil e do frivolo, do culto ao desenvolvimento pessoal e ao bem-estar - em resumo, da ideo- logia individualista hedonista. o surgimento do modelo de sociedade pos-moderna descrito por A era do vazia, em que a análise do social se explica melhor pela sedução que por noções como a de alienação ou de disciplina. Há não mais modelos prescritos pelos grupos sociais, e sim condutas escolhidas e asa sumidas pelos indivíduos; há não mais normas impostas sem discussão, e sim uma vontade de seduzir que afeta indistintav 14 mente o dominio público (culto à transparência e à comunica- ção) e 0 privado (multiplicação das descobertas e das EXperiên_ cias subjetivas). Aparece então Narciso, Figura de proa de A era da vazia, indivíduo cool, flexível, hedonistae libertárío, tudo isso ao mesmo tempo. Era a fase _jubilosa e liberadora do individua- lismo, que se vivenciava mediante a desafeição pelas ideologias políticas, o definhamento das normas tradicionais, o culto ao presente e a_ promoção do hedonismo individual. Embora os contrapontos negativos dessa dilaceração nas grandes estrutu- ras de sentido coletivas já pudessem fazer-se sentir (nada de libertação sem nova forma de dependência), o fato era que eles permaneciam um pouco ocultos. Contudo a lógica dual que caracteriza a pós-modernidade _já estava em ação e exercia seu domínio. Será que se pode ficar apenas nas conclusões a que chega A era da vazia e considerar a segunda fase do consumo a fase ter- minal, correlata da pós-modernidade? Será que, desde os anos so, estamos sempre submetidos ao mesmo modelo de indivi- dualismo narcisista? Vários sinais fazem pensar que entramos na era dó hiper, a qual se caracteriza pelo hiperconsumo, essa terceira fase da modernidadefpela hipermodernidade, que se segue à pós-modernidade; e pelo hipernarcisismo. _ Hiperconsumoi um consumo que absorve e integra parcelas cada vez maiores da vida social; que funciona cada vez menos segundo o modelo de confrontações simbólicas caro a Bour- dieul e que, pelo contrário, se dispõe em função de fins e de critérios individuais e segundo uma lógica emotiva e hedonis- ta que faz que cada um consuma antes de tudo para sentir pra- 15
  15. 15. zer, mais que para rivalizar com outrem. O própriolluxo. ele' . . . . . › v do mento da dlStlnÇaO SOClal POI' excelencia, entra na esfera . 4 ' ' t'sfa- hiperconsumo porque e cada vez mais consumido pela sa i _ . › ' n- çao que proporciona (um sentimento de eternidade num mu do entregue à fugacidade das coisas), e não porque permite exi- bir status. . - ~ - ' e A busca dos gozos privados suplantou a &Xlãerma de ostentação . . . › s ” ' r-se de reconhecimento social. a epoca contemporanea ve afirma um luxo de tipo inédito, um luxo emocional, experiencial, psico- logizado, substituindo a primazia da teatralidade social pela das sensações íntimas.7 Hipermodernidade: uma sociedade liberal, caracterizada pelo movimento, pela fluidez, pela flexibilidade', indiferente como nunca antes se foi aos grandes principios estruturantes da mo- dernidade, que precisaram adaptar-se ao ritmo hipermoderno para não desaparecer. Hipernarcisismoí época de um Narciso que toma ares de ma- duro, responsável. organizado, eficiente e flexível e que, dessa maneira, rompe com o Narciso dos anos pós-modernos, hedo- nista e libertário. A responsabilidade substituiu a utopia festiva, e a gestão, a GOMES' tação - tudo se passa como se agora só nos reconhecessemos na , . . - - ~ o etica e na competitividade, nas regulaçoes sensatas e no sucess profissional? 16 Só que, desta vez, os paradoxos da hipermodernidade se exi- bem às claras. Narciso maduro? Mas se ele não pára de invadir os domínios da infancia e da adolescência, como se se negasse a r assumir sua idade adulta! Narciso responsável? Pode-se real- mente pensar isso quando os comportamentos irresponsáveis se multiplicam_ quando as declarações de intenção não se con- cretizam? O que dizerldessas empresas que falam em códigos de deontologia e que, ao mesmo tempo, demitem em massa por- que antes maquiaram os livros contábeis; desses armadores que evocam a importância de respeitar o meio ambiente enquanto seus próprios navios efetuam descargasselvagens de poluentes; desses empreiteiros que exaltam a qualidade de suas constru- ções muito embora elas desabem ao menor abalo sismico; des- ses motoristas que dizem respeitar o código de trânsito e falam ao celular enquanto dirigem? Narciso eficiente? Que seja, mas ao custo de distúrbios psicossomáticos cada vez mais freqüentes, de depressões e estafas flagrantes. Narciso gestor? É de duvidar, quando se observa a espiral de endividamento das empresas. Narciso flexível? Mas se e' a tensão nervosa o que o caracteriza no âmbito social quando chega a hora de perder certos benefí- cios adquiridosl A lógica pós-moderna da conquista pessoal foi substituída por uma lógica corporativista de defesa de prer- rogativas sociais. Eis apenas uma amostra dos paradoxos que caracterizam a hipermodernidadei quanto mais avançam as con- dutas responsáveis, mais aumenta a irresponsabilidade. Os indi- viduos hipermodernos são ao mesmo tempo mais informados e mais desestruturados, mais adultos e mais instáveis, menos ideológicos e mais tributários das modas, mais abertos e mais
  16. 16. influenciáveis, mais críticos e mais superficiais, mais céticos e menos profundos. O que mudou principalmente foi o ambiente social e a rela- ção com o presente. A desagregação do mundo da tradição e' vivida não mais sob o regime da emancipação, e sim sob o da tensão nervosa. É o medo o que importa e o que domina em face de um futuro incerto; de uma lógica da globalização que se exerce independentemente dos indivíduos; de uma competição liberal exacerbada; de um desenvolvimento desenfreado das tec- nologias da informação; de uma precarização do emprego; e de uma estagnação inquietante do desemprego num nivel eleva- do. Nas décadas de 60 e 7o, quem teria pensado em ver nas ruas, como hoje se vê, um Narciso de vinte anos a defender sua apo- sentadoria quarenta anos antes de poder beneficiar-se dela? O que poderia ter-se assemelhado estranho ou chocante no con- texto pós-moderno nos parece hoje perfeitamente normal. _Nar- ciso e' doravante corroído pela ansiedade; o receio se impõe ao gozo, e a angústia, à libertaçãoi Hoje, a obsessão consigo mesmo se manifesta menos no ardor do gozo que no medo da doença e do envelhecimento, na medicali- zação da vida. Narciso está menos enamorado de si mesmo que aterrorizado pelo cotidiano, pelo próprio corpo e por um am- - biente social que ele considera agressivo. ” Tudo o inquieta e assusta. No nível internacional, o terroris- mo e seus estragos, a lógica neoliberal e seus efeitos sobre o em- prego', no nível local, a poluição urbana, a violência nas perife- 28 rias: no nível pessoal, tudo o que fragiliza o equilibrio corporal e psicológico. Em resumo, a profissão de fé não é mais "Goze sem entraves", e sim "Tenha medo em qualquer idade"; e, como era lógico, o Remy Cirard obcecado pela doença e pela morte no filme As invasões bárbara: : (de Denys Arcand) tomou quinze anos depois o lugar do Remy Cirard diletante de O dedínín da império americana. A perda do sentido e a complexidade do presente Se Narciso está tão inquieto, é também porque nenhum discur- so teórico consegue mais tranqüilizá-lo. Por mais que consuma freneticamente o espiritual, isso não parece torna-lo mais sere- no. A era do hiperconsumo e da hipermodernidade assinalou o declínio das grandes estruturas tradicionais de sentido e a recu- peração destas pela lógica da moda e do consumo. Os discursos ideológicos, da mesma maneira que os objetos e a cultura de massa, foram superados pela lógica da moda, mesmo que te- nham sempre funcionado segundo a lógica da transcendência e da perenidade e no culto ao sacrifício e à dedicação. Ora, du- rante os dois últimos séculos, a moda não conseguiu impor-se no campo social, contraposta que foi pelas ideologias de preten- são teológica. Saímos disso quando desmoronaram as convic- ções escatológicas e a crença numa verdade absoluta da histó- ria. A fe' foi substituída pela paixão; a intransigência do discurso sistemático, pela frivolidade do sentid ' o extremismo, pela des- contração. Em resumo, 19
  17. 17. Embarcamos num processo interminável 'de dessacralização e dessubstanciação do senüdo que define o reino consumado da moda. Assim morrem os deuses: não na desmoralização niilista do Ocidente, nem na angústia do vazio dos valores, mas nos sola- vancos do sentido. ” Os sistemas de representação se tornaram objetos de consu- mo e são tão intercambiãveis quanto um carro ou um aparta- mento. No fundo, assistimos aí à manifestação definitiva da se- cularização moderna, que antes não pudera desenvolver-se de todo, pois a bloqueavam discursos englobantes que, por víeses laicos, prolongavam a submissão humana a um princípio supe- rior, mesmo que o ideal democrático militasse em favor de uma autonomia do mundo humano, totalmente permeado pelas aspirações individuais. O sistema final da moda sacraliza a feli- cidade privada das pessoas e destrói em beneficio de reivindica- ções e preocupações pessoais as solidariedades e consciências de classe. E, de certa maneira, o maio de 68 pode ser visto como a aplicação da lógica da moda a Revolução. Esse acontecimento ilustra bem a oposição entre um individualismo hedonista de- clarado e os conservadorismos sociais de outra época, que da- vam continuidade a diferenciações hierárquicas e autoritárias, sobretudo no plano sexual. No nível mais profundo, tratava-se de uma revolta que consistia em conciliar uma cultura consigo mesma. . com seus novos_ prin- cípios básicos, unificando-a. Não uma "crise de civilização ", _mas um movimento coletivo para arrancar a sociedade das normas cul- 3D turais rígidas do passado e dar à luz uma sociedade mais flexivel mais diversa, mais individualista, conforme as exigências da moda consumadall Chegamos ao momento em que a comercialização dos mo- dos de vida não mais encontra resistências estruturais, culturais nem ideológicas; e em que as esferas da vida social e individual se reorganizarrí em função da lógica do consumo. A primeira e a segunda fase do consumo haviam tido como conseqüência a criação do consumidor moderno, arrancando-o às tradições e arruinando o ideal de poupança; a última fase estendeu ao infi- nito o domínio do consumo. Que a lógica da moda e do consu- mo permeou' espaços cada vez mais amplos da vida pública e privada é evidente. Parece igualmente óbvio que os indivíduos, desapossados de qualquer sentido transcendente, possuem opi- niões cada vez menos firmes e cada vez mais volúveis. Nada, entretanto, nos autoriza a dizer que a labilidade desses indiví- duos seja algo condenável de per si. É verdade que hoje eles são mais oscilantes e mais volúveis quanto a suas opiniões, mas será isso um mal? No reinado da moda total, o espirito é menos firme, porém mais receptivo ã critica; menos estável, porém mais tolerante; menos se- guro de si, porém mais aberto à diferença, à evidência, à argumen- tação do outro. É ter uma visão superficial da moda consumada identifica-la com um processo sem precedentes de padronização eçdespersonalização; na realidade, ela estimula um questiona- mento mais exigente, uma multiplicação dos pontos de vista sub- / 31
  18. 18. jetivos, um declínio da semelhança de opiniões. Não mais a con- formidade crente de todos. mas a diversificação das pequenas ver- l em beneficio de singularidades subjetivas talvez pouco originais, sões pessoais. As grandes certezas ideológicas se esvanecem pouco criativas, pouco ponderadas, mas mais numerosas e mais flexíveis. ” E, no fundo, será que se era mais original quando religiões e tradições produziam das crenças coletivas uma homogeneida- de sem senões? De um lado, a ação das Luzes continua; os indivíduos saem da minoridade e são cada vez mais capazes de exercer o livre arbítrio, de informar-se, de pensar por si mesmos num univer- so ideológico onde as normas imemoriais da tradição explo- diram e onde os sistemas terroristas do sentido não_ corroem mais os espíritos. De outro lado, no entanto, as autoridades espirituais não desapareceram; elas se exercem diferentemen- te, preferindo a argumentação a imposição. A opinião pública também exerce poder, mas seu peso é mais opcional que deter- minante, e ela contribui para criar o sentimento individual. Contudo, ao mesmo tempo, nada mais permite distinguir en- tre informação e desinformação', as teorias mais rocambolescas ganham plenos direitos e se transformam em best seller (basta pensar na atribuição dos atentados de ii de setembro de 2001 aos serviços secretos americanos, sem contar todas as teorias cons- piratórias que vicejam por aí), as lendas urbanas se multipli- cam, as seitas recrutam mais gente que nunca, as ciências do paranormal desfrutam nova credibilidade. . . 32 Unipotência da lógica consumista? Todos os dias, parece que o mundo do consumo se imiscui em nossas vidas e modifica nossas relações com os objetos e com os seres, sem que, apesar disso e das criticas que se formulam a res- peito dele, consiga-se propor um contramodelo crível. E, para além da postura crítica, seriam raros aqueles que desejariam mesmo aboli-lo em definitivo. É forçoso constatar que seu im- pério não pára de avançar: o princípio do self-service, a busca de emoções e prazeres, o cálculo utilitarista, a superficialidade dos vínculos parecem ter contaminado o conjunto do corpo social, sem que nem mesmo a espiritualidade escape a isso. A religião atualizou-se com o consumo, abandonando o ascetismo em favor do hedonismo e do espírito festivo, enaltecendo os valo- res da solidariedade e do amor mais que os da contrição e do re- colhimento. E isso vale igualmente para a dimensão familíal e para a relação com a ética, com a política, com o sindicalismo ou, ainda, com a natureza. A hipermodernidade funciona mesmo segundo a lógica da reciclagem permanente do passado, e nada parece escapar a seu dominio, Quer-se outro exemplo? No âmbito do acesso das mulheres ao mundo da autonomia, discute-se a persistência de certos referenciais tradicionais, como se a ação da igualdade não tives- se levado sua lógica até o fim, ou seja, até a indistinção dos se- xos. Mas e' preciso entender que, se certas normas sociais ou funções tradicionais reservadas ao feminino se mantiveram, foi porque a lógica individualista as reciclou, com as mulheres ten- do-se apropriado delas a fim de auferir mais felicidade privada, 33
  19. 19. e não porque aquelas normas e funções constituíssem um res- quício arcaico do qual, segundo as feministas, seria preciso ver- se livre. Se as mulheres sempre mantêm relações privilegiadas com a or- dem doméstica, sentimental ou estética, não é por simples inércia social, mas sim porque essas relações se ordenam de tal maneira que não mais entravam o principio de autonomia e funcionam co- mo vetores de identidade, de sentido e de poder privados: é do pró- prio interior da cultura individualistico-democráüca que se recons- tituem as trajetórias diferenciais dos homens e das mulheres” No mundo do hiperconsumo, até a dona-de-casa pode ser reciclada. . . Será que a lógica consumista é totalmente hegemônica. ca- paz de tudo absorver etudo reciclar segundo sua própria racio- nalidade? O funcionamento do mundo liberal, que gera mais lucro, mais eficiência e mais racionalidade, parece justificar os receios de Heidegger, o qual, a respeito da técnica, denunciava uma deturpação de seu sentido em favor de uma "vontade da vontade", uma dinâmica do poder que se alimenta de si mes- mo, sem outra finalidade além de seu próprio desenvolvimen- to. A vontade, que de início era animada pelo louvável desejo de aliviar a humanidade de seu sofrimento imemorial, trans- formou-se pouco a pouco em vontade de poder, tendo como única finalidade seu próprio domínio sobre os-homens e as coi- sas e em última análise, produzindo este mundo fanático da técnica e do desempenho que é o nosso. ldeia retomada em 34 nossa época por Pierre-André Taguieff, que mostra igualmente que a lógica da modernização intempestiva perdeu toda finali- 'dade humana e que a técnica fez declinarem todos os valores; para Taguieff, esses dois aspectos levam diretamente a uma for- ma de neoniilismo. - I Todavia, não é preciso ensombrecer indevidamente o qua- dro, pois nem tudose resume ao consumo puro e simples e nerriltudo é reciclável. Certos valores próprios da modernidade (os direitos humanos, por exemplo) não estão perto de cair no consumismo puro. Ao mundo do consumo escapam também outros valores, como a preocupação com a verdade ou com o relacional. Se e' digno de nota que a obsessão da imagem inva- diu o mundo intelectual e impeliu determinados pensadores a levar em_ conta as exigências do marketing, não é menos notá- vel que a honestidade intelectual e a preocupação com a verda- de continuem a ser apanágio da maioria. No fundo, a vontade de. saber conservou, na maior parte dos casos; a ascendência sobre a vontade de agradar e ser reconhecido, e o ritrrfo lento do pen- samento teórico não está próximo de adaptar-se àquele, extre- mamente oscilante, da sociedade do espetáculo: Os intelectuais continuam sendo marteladores obstinados do sen- tido; como tais, são uma espécie antiquada longe de estar prestes a aicochambrar desavergonhadamente seu trabalho para lotar suas agendas de compromissos. Talvez o trabalho intelectual, por seu caráter insuperavelmente artesanal e apaixonado [amoureuid, seja o que, aqui e ali, venha a opor a resistência mais obstinada à frivoli- dade. ao porvir-espetáculo, do mundo. " 35
  20. 20. O uamor" - eis outro domínio que escapa ã esfera do lucro, do ganho, assim como, de modo mais geral, todos os valores relacionais que, em grande parte, constituem a riqueza de nossa* vida privada. No mesmo momento em que a predaçào parece caracterizar nosso relacionamento com o mundo dos objetose~ dos seres, tem-se ai um dominio que se apresenta como se fun-' cionasse de maneira totalmente desinteressada. O reino do dinheiro não é coveiro da afetividade', ao contrário, é ele que dá a essa última toda a sua legitimidade, como se sentissemos ser _ necessário recuperar alguma inocência num mundo cada vez mais regido pela eficiência e pela racionalidade. Nada mais falso, portanto_ do que acreditar que o consumo reine sem restrições. Da mesma forma, nada mais falso do que pensar que ele, reduzindo os indivíduos ao papel de consumi- dores, favoreça uma homogeneização social. O problema mais importante não é deplorar a atomização da sociedade_ e sim repensar a socialização em contexto hipermoderno, quando nenhum discurso ideológico faz mais sentido e quando a desin- tegração do social está no auge. Claro, uma reconstituição so- cial está em andamento, mas ela parte unicamente do desejo subjetivo dos indivíduos. Os átomos sociais não torcem o nariz para a idéia de reencontrar-se, comunicar-se, reagrupar-se em movimentos associativos, sendo estes marcados pelo egocen- trismo, porque a adesão é espontânea, flexivel e segmentar, em todos os aspectos conforme a lógica da moda. Mas será que agrupamentos narcisistas bastarão para tornar democrática uma sociedade e promover o senso de valores quando apenas o consumo parece essencial? 36 A ética entre a responsabilidade e a ¡rrespunsabiüdade Será que a hipermodernidade, caracterizada por um consumo emocional e por individuos preocupados antes de tudo com a própria saúde e segurança, e' o sinal da ascendência da barbárie sobre nossas sociedades? São numerosos os que criticam o esta- do atual de nossa existência, em que vemos apenas as almas impotentes, a barbárie interior, a derrocada do pensamento ou › a imperfeição dopresente. Como se houvesse efetivamente triunfado o niilismo no qual Nietzsche via o futuro da Europa. E, em certos aspectos, aquela constatação não e' falsa: o hedonis- mo individualista, ao minar as instâncias tradicionais de contro- le social e expelir do campo social toda transcendência priva de referenciais certo número de indivíduos e favorece um relati- vismo desmedido que parece dar livre curso a todas a lucubra- ÇOES possíveis. Como deixar de mencionar a proliferação de sei- tas, que seduzem até individuos instruídos, ou o retorno do paranormal quando esse mesmo tipo de fenômeno foi desacre- ditadoi pela modernidade? Bayle e Fontenelle podem até se revi- »r . _ , t _ _ › rar na cova, mas isso nao modificara em nada a logica hiper- moderna, que rearranja e recicla o passado sem cessar. Contudo o relativismo é apenas uma faceta possivel da hi- permodernidade. E forçoso reconhecer igualmente que os di- reitos humanos _jamais foram vivenciados de maneira tão con- * . PlerYe Bayle (lsí47-17oõ) e Bernard de Fontenelle (1657-1757), pensado- res franceses que. cada um a seu modo, defendiam o racionalismo contra a ignorância e a superstição. 37
  21. 21. sensual quanto hoje; e que os valores de tolerância e de respei- to ao outro nunca se manifestaram tão intensamente quanto em nossa época, ocasionando uma repulsa generalizada ao em- prego gratuito da violência. Ademais, como não lembrar que a hipermodernidade se constrói em paralelo a um imperativo ético cada vez mais pronunciado? No lugar do quadro catastro- fista que nos servem habitualmente (em que a moral abando- nou o espaço social, substituída que foi pelo cinismo ou pelo egoísmo), convém salientar, em face das ameaças engendradas pelo desenvolvimento tecnico-cientifico e pelo empobrecimen- to dos grandes projetos politicos, a necessidade atual de regu- lação ética e deontológica, no nivel social, econômico” ou mesmo midiático. Está certo, a necessidade etica não é mais vi- vida como no passado, segundo a lógica do dever savcrificial, e deve ser considerada na forma de uma moral indolor, opcio- nal, que funciona mais pela emoção que pela obrigação ou san- ção e que está adaptada aos novos valores de autonomia indi- vidualista. ” Mas essa fase pós-moralista que hoje caracteriza nossas sociedades não acarreta o desaparecimento de todos os valores éticos. Muito embora o sacerdócio do dever e os tabus vitorianos te- nham caducado, nascem novas regulações, reconstituem-se proi- bições, reinstauram-se valores, proporcionando a imagem de uma sociedade sem relação com aquela descrita pelos que desprezam a "permissividade generalizada". liturgia do dever dilacerante não mais tem espaço social, mas os costumes não soçobraram na anarquia; o bem-estar e os prazeres são enaltecidos, mas a socie- 38 dade civil está ávida de ordem e moderação; os direitos subjetivos regem nossa cultura, mas "nem tudo é permitido". ” Vê-se que, evidentemente, a pós-moralidade não é sinôni- mo de imoralidade. Três elementos possibilitam destacar bem a persistência dos ideais éticos em contexto individualista. Em primeiro lugar, o desaparecimento de uma moral incondicio- nal não teve como conseqüência a difusão de comportamentos egoístas no conjunto do corpo social. Em segundo lugar, o rela- tivismo de valores não contribuiu para o niilismo moral porque perdura um núcleo duro de valores democráticos, núcleo em torno do qual se afirma um consenso forte. E, por fim, a perda dos referenciais tradicionais não resultou no caos social, dado que a liberação individual, especialmente no plano sexual, não produziu uma' anarquia total dos costumes. Assim sendo, a tomada de responsabilidade individual é ape- nas uma faceta da hipermodernidade, e também não se deve esquecer que a dissolução das formas de enquadramento dos individuos pode produzir o efeito inverso. Com o desmorona- mento dos grandes discursos normativos acerca da moral, assis- te-se a fenômenos inéditos que participam de um individua- lismo irresponsável; cinismo generalizado, recusa do esforço e do sacrifício individuais, comportamentos compulsivos, tráfico de drogas e toxicomania, violencia gratuita, particularmente em relação às mulheres nas periferias urbanas. O reino *do hedonismo coincide apenas em parte com a era da tomada de responsabilidade. E " 'ÍÍFÍCÉP-. i "rui uLu
  22. 22. Ds paradoxos do quarto poder Embora a moral não tenha desaparecido do campo social, o fato é que ela é imposta de fora, pelas mensagens veiculadas na midia, e não mais determinada de dentro. verdade que as normas sociais não são mais decretadas nem impostas pelo espí- rito nacional, pela familia ou pelas Igrejas e que os referenciais fornecidos pelas instâncias tradicionais não mais fazem sentido e precisaram adaptar-se 'a lógica do consumo. Também é fato que nossa sociedade fascinada pelo frívolo e pelo supérfluo entrou em seu momento flexível e comunicacíonal, caracteri- zado pelo gosto do espetacular e pela inconstãncia das opiniões e das mobilizações sociais. Nada de muito original nisso, já que a critica habitual do mundo midiático (própria da escola de Frankfurt e dos seguidores de Guy Debord) consiste em atri- buir-lhe uma onipotência que contribuiu para transformá-lo em instrumento de manipulação_ e alienação totalitárias, cuja finalidade seria a _justificação da ordem estabelecida e do con- formismo e a padronização dos indivíduos. Mas, embora se deva reconhecer que a mídia tem mesmo um papel normatizador e que sua influência sobre o cotidiano está longe de ser insignifi- cante, disso não se concluirá afobadamente que seu poder de massificação e' ilimitado. De fato, a mídia pode favorecer este ou aquele comportamento do público, mas não impõ-lo. Uma prova disso é que martelar numa mesma mensagem não pro- duz o efeito desejado (basta lembrar as campanhas publicitárias contra o fumo, que não parecem ter modificado sensivelmen- te a situação). 40 . .À Apesar de tudo, será que não podemos conceder grande parcela de legitimidade ã critica apresentada por Debord? Será que não estamos totalmente permeados por mensagens exter- nas que condicionam e padroriizam nossos comportamentos? Pensar assim sena não perceber os efeitos positivos da lógica da moda e do consumo que, pouco a pouco, nos tornaram indi- ferentes às mensagens publicitárias e aos objetos industriais_ Em contrapartida, esse descontentamento com o mundo do consumo possibilitou uma conquista de autonomia pessoal, multiplicando as oportunidades de escolha individual e as fon- tes de informação no referente aos produtos. Longe de redun- dar no homem unidimensional caro a Marcuse, a lógica do consumo-moda favoreceu o surgimento de um individuo mais senhor e dono da própria vida, sujeito fundamentalmente ins- tável, sem vínculos profundos, de gostos e personalidade osci- lantes. E é porque tem esse perfil que ele precisa de uma moral espetacular, a única capaz de comovê-lo e fazê-lo agir. A mídia se viu obrigada a adotar a lógica da moda, inserir-se no regis- tro do espetacular e do superficial e valorizar a sedução e o en- tretenimento em suas mensagens. Dessa maneira, ela se adap- tou ao _fato de que o desenvolvimento do raciocínio pessoal passa cada vez menos pela discussão entre indivíduos privados e cada vez mais pelo consumo e pelas vias sedutoras da infor- mação. l Se a negatividade da mídia pode ser reavaliada em função do peso relativo de seu poder normatizador, é preciso igual- mente salientar sua positividade. lsso porque, na história do individualismo moderno, a midia desempenhou um papel 4!
  23. 23. emancipador fundamental, ao difundir pelo conjunto do cor- po social os valores hedonistas e libertários. Ao sacralizar o direito à autonomia individual, promover uma cultura relacional, celebrar o amor ao corpo, os prazeres e a feli- cidade privada, a mídia tem sido agente de dissolução da força das tradições e das antigas divisões estanques de classe, das morais rigoristas e das grandes ideologias politicas. ” E mais; ao possibilitar o acesso a uma informação cada vez mais diversificada e mais caracterizada por pontos de vista di- ferentes, propondo uma gama extremamente variada de es- colhas, a mídia permitiu que se desse aos indivíduos maior autonomia de pensamento e de ação, com a oportunidade de constituir opinião própria sobre um número sempre maior de fenômenos. No plano político, por exemplo, o papel da midia tem sido determinante. Mais que considerá-la a responsável pela dis- torção do debate público, seria desejável avaliar favoravelmen- te a influência dela sobre a maturidade política de um eleitora- do cada vez menos preso a um discurso ideológico ou a uma lógica de classes e cada vez mais sensível aos argumentos das partes em disputa, o que só pode contribuir para o debate de- mocrático. Aliás, nossas sociedades se caracterizam não pelo consenso, mas pelo debate permanente, para o qual a midia con- tribui muito, Privada de sentido transcendente, de autoridade universalmente reconhecida, ela se dedica ao . antagonismo permanente dos discursos, tudo isso sobre um pano de fundo 41 de estabilidade democrática, com a liberdade e a igualdade cons- tituindo uma base de ideal comum - base todavia problemática, já que liberdade e igualdade são principios suscetíveis de inter- pretações opostas. Por conseguinte, não suportamos o reino da uniformidade de convicções e de comportamentos, A homoge- neização dos gostos e dos modos de vida não desemboca numa vida politica e social consensual; perduram os conflitos, mas por meio de uma pacificação individualista do debate coletivo, para a qual a mídia contribui, Um exemplo disso é que a eleição rela- tivamente delicada de George W. Bush não provocou nenhum derramamento de sangue. Não estamos mais no tempo das gran- des tragédias coletivas sangrentas, mas o trágico se vive doravan- te no subjetivo, a dificuldade de viver aumenta, o futuro nunca pareceu tão ameaçador. A hipermodernidade não é nem o reino da felicidade absoluta, nem o reino do niilismo total. Em certo sentido, não é nem o resultado do projeto das Luzes, nem a con- firmação das sombrias previsões nietzschianas. Essa defesa do universo da mídia tem a única função de rela- tivizar os fenômenos e não procura dissimular a negatividade que se opera no sistema midiático, em especial, e na hipermo- dernidade, em geral, É evidente que a sociedade hipermoderna, ao exacerbar o individualismo e dar cada vez menos importân- cia aos discursos tradicionais, caracteriza-se pela indiferença para com o bem público; pela prioridade freqüentemente conferida ao presente e não ao futuro; pela escalada dos particularismos e dos interesses corporativistas; pela desagregação do sentido de dever ou de dívida para com a coletividade, A0 limitarem-se à esfera da mídia, as análises podem ser igualmente críticas, pois as 4)
  24. 24. mídias também são permeadas pela lógica dual caracteristica do mundo hipermoderno, que torna tudo ambivalente. Como não mencionar os efeitos negativos da mídia sobre a cultura e o debate público? supostamente destinada a infor- mar-nos, ela mais é nos desinforma em função de interesses sensacionalistas (as sepulturas coletivas de Timisoara)* ou po- líticos (lembramos o papel duvidoso desempenhado pela rede americana Fox durante a Guerra do lraque, em 2003). Em vez de elevar o nível do debate público, a mídia transforma a polí- tica em espetáculo. Em vez de promover uma cultura de quali- dade, ela_ nos proporciona variedades insípidas, multiplica os programas esportivos e deixa para o horário mais tardio possí- vel, quando não a suprime, a programação de caráter minima- mente cultural. Considera-se que a mídia favoreça a liberdade individual e o gosto da iniciativa, muito embora os consumido- res exibam atitudes cada vez mais compulsivas em relação a ela. Tem como função formar o discernimento e o espírito critico, mas com muita freqüência a lógica da mercantilização faz que a reflexão seja abandonada em favor da emoção, e a teoria, em favor do uso prático. O mesmo vale para os livros de filosofia, que só podem esperar ter sucesso se respondem a preocupações pessoais e propõem receitas para alcançar a felicidade: * Em dezembro de 1989, quando da revolta que derrubaria o governo de Ceausescu, a mídia anunciou que as mortes causadas pela repres- são naquele mês já haviam chegado a 7o mil em toda a Romênia, das quais i2 mil só na cidade de Timisoara, Na realidade, os números eram cem vezes menores. (N . T,) 44 O que vence é não a paixão pelo pensamento, mas a exigência de saberes e de informações imediatamente operacionais. ” A mídia, assim, é tomada pela lógica hipermoderna e pode favorecer tanto os comportamentos responsáveis quanto os irresponsáveis, O futuro da hipermodernidade depende de sua capacidade de fazer a ética da responsabilidade triunfar sobre os comporta- mentos irresponsáveis, Estes não vão desaparecer sozinhos, pois se inscrevem necessariamente na lógica da hipermodernidade. De fato, são os próprios mecanismos do individualismo demo- crático que explicam tanto a responsabilidade de uns quanto a irresponsabilidade de outros, daqueles que preferem corromper a autonomia que herdaram, transformando-a em egoísmo pu- ro. Esses últimos, preocupados apenas com o próprio conforto e felicidade, retiram-se do social para o privado, aliás com a consciência absolutamente limpa, já que as instâncias tradicio- nais de socialização, desacreditadas pelo avanço do individualis- mo, não desempenham mais o papel normativo. Não exageremos, porém, a força desse fenômeno: os com- portamentos responsáveis continuam atuais. Eis talvez o fato mais espantoso: emocional e individualista, a sociedade de con- sumo de massa permite que um espírito de responsabilidade, dotado de geometria variável, coabite com um espirito de irres- ponsabilidade incapaz de resistir tanto às solicitações exteriores quanto aos impulsos interiores. O fato e' que a lógica binária de nossas sociedades seguirá ampliando-se e que a responsabili- 45
  25. 25. dade de cada um ganhará cada vez mais importância. Nenhu- ma outra sociedadejamais possibilitou que se exercessem uma autonomia e uma liberdade individual tão grandes, nemjamais o destino dessa sociedade esteve tão ligado aos comportamen- tos daqueles que a compõem. O atrativo da visão binária presente na obra de Lipovetsky está em que ela propõe, fora dos esquemas marxistas e liberais, outra leitura do presente, na qual o futuro de nossas democra- cias está em aberto e a responsabilidade individual e coletiva é plena e total. Contra os liberais, que acham que só o liberalismo pode resolver as dificuldades que ele mesmo cria, Lipovetsky lembra que o papel do mercado tem limites e que a mão invisí- vel providencialista que supostamente o regula de dentro pre- cisa de luvas bem visíveis para precaver-se de seus próprios ex- cessos, Contra os marxistas, que denunciam no capitalismo uma lógica contraditória e militam em favor de uma sociedade sem classes cujo advento é inevitável, Lipovetsky mostra como a contradição se reinseriu no próprio cerne dos indivíduos; quanto as lutas simbólicas perderam intensidade; e por que o futuro é imprevisível, já que deve ser construído coletivamen- te no presente. Ao levar em conta a complexidade do presente e recusar as leituras idealistas ou catastrofistas que disso se fa- zem, Lipovetsky propõe uma interpretação de nossa hipermo- dernidade que se pretende simultaneamente racionalista e prag- mática, e segundo a qual a tomada de responsabilidade é a pedra angular do futuro de nossas democracias. Sem verdadeira to- mada de responsabilidade, não bastarão as virtuosas declarações de intenção desprovidas de efeitos concretos. Será necessário 45 valorizar a inteligência dos homens, mobilizar as instituições e preparar nossos filhos para os problemas do presente e do futu- ro. A tomada de responsabilidade deve ser coletiva e exercer-se em todos os domínios do poder e do saber. Mas também deve ser individual, pois em último recurso cabe a nós assumir essa autonomia que a modernidade nos legou. NOTAS 1 Sobre a relação com Foucault, ver a entrevista que nos concedeu Gilles Lipovetsky e que foi publicada em La philusaphie française en queslíans. " entretiens avec Comte-Spanville, Concha, Ferry, Lipovetsky, Onfray, Russel, Paris, Le Livre de Poche, 2003. Z Lipovetsky, Lempire de l 'éphémérei la mode et san destin dans les sotiétés mudemes, Paris, Gallimard, 1987, p. 67-8 [O império do efêmera, trad. Maria Lúcia Machado; São Paulo, Companhia das Letras, 1939 (2, ed. )]. 3 Lipovetsky, ibid. , p, 38. 4 Lipovetsky, Li-ire du vide, Paris, Callimard, 1983, p. ll [A era da vazia, trad. Miguel Serras Pereira Xi Ana Luísa Faria; Lisboa, Relógio d'Agua, 1990]. 5 Lipovetsky, ibid. , p. 16, 5 Sobre tudo isso, cf, Lipovetsky, "La société dvhyperconsommation", Le Débat, 124, zoo), p. 74 ss. 7 Lipovetsky, "Luxe êternel, luxe émotionnel", em Gilles Lipovetsky XL Elyette Roux, le luxe éternelf de I 'age du sacre' au temps de: marques, Paris, Callimard (collection Le Débat), 2003, p, 60-1. 47
  26. 26. 48 3 Li ovetsky, Llêre du vide, .316-7. P P 9 Cf. Lipovetsky, “Narcisse au piege de 1a postmodernitél", em Mélamnrphnses de la culture libérale. ” éthique, médias, entrepríse. Montréal, Liber, 2002, p. 15 [Metamorfases da cultura liberal, trad. Juremir Machado da Silva; Porto Alegre, Sulina, 2004]. 1” Lipovetsky, Lempine de lephémere, p. 286. 11 lbid. , p. 291. Sobre a leitura que Lipovetsky fez do maio de 1968, ver “Changer la vie, ou l'irruption de lindividualisme transpolitique", Pauvnirs, 39, 1986, 1¡ lbid. , p. 309. 13 Lipovetsky, La trnisiême femme: permanence et revolution du féminin, Paris, Gallimard, 1997, p. i3 [A leiteira mulher, trad. Maria Lúcia Machado; São Paulo, Companhia das Letras, 2000]. ll Li ovetsk , “Monument interdit", Le Débat, 4, 193o, . 47. P y P 15 Sobre a leitura que Lipovetsky propõe da ética comercial, ver seu “Kame de Yentrepriseí mythe ou réalitél", em Métamorphoses dela culture libérale, p. 55785. 15 Lipovetsky, “Mort de la morale ou réssurrection des valeursl", ibid. , p. 31-51. 17 Lipovetsky, Le crépuscule du devnir, Paris, Callimard, 1992, p. 51 [0 crepúsculo da dever, trad. Fátima Gaspar; Lisboa, Dom Quixote, 1994]. 13 Lipovetsky, "Faubil brüler les médiasl", em Mélamurplinses de la culture libérale, op. cit. , p. 93. 19 lbid. , p. 98. EMPO CONTRA TEMPO, OU A SOCIEDADE HIPERMODERNA Gilles Lipovetsky
  27. 27. A partir do final dos anos 7o, a noção de pós-modernidade fez sua entrada no palco intelectual com o fim de qualifiv car o novo estado cultural das sociedades desenvolvidas. Tendo surgido inicialmente no discurso arquitetônico (em reação ao estilo internacional), ela bem depressa foi mobilizada para de- signar ora o abalo dos alicerces absolutos da racionalidade e o fracasso das grandes ideologias da história, ora a poderosa dinâ~ mica de individualização e de pluralização de nossas sociedades. Para além das diversas interpretações propostas, impôs~se a idéia de que estávamos diante de uma sociedade mais diversa, mais facultativa, menos carregada de expectativas em relação ao fu- turo. Às visões entusiásticas do progresso historico sucediam-se horizontes mais curtos, uma temporalidade dominada pelo precário e pelo efêmero. Confundindo-se com a derrocada das construções voluntaristas do futuro e o concomitante triunfo das normas consurnistas centradas na vida presente, o periodo pós-moderno indicava o advento de uma temporalidade social inédita, marcada pela primazia do aqui-agora. S¡
  28. 28. O neologismo pás-modemo tinha um mérito: salientar uma mudança de direção, uma reorganização em profundidade do modo de funcionamento social e cultural das sociedades demo- cráticas avançadas. Rápida expansão do consumo e da comu- nicação de massa; enfraquecimento das normas autoritárias e disciplinares; surto de individualização; consagração do hedo- nismo e do psicologismo; perda da fé no futuro revolucionário; descontentamento com as paixões politicas e as militãncias - era mesmo preciso dar um nome à enorme transformação que se desenrolava no palco das sociedades abastadas, livres do peso das grandes utopias futuristas da primeira modernidade. 7 Ao mesmo tempo, porém, a expressão pós-modemo era ambi- gua, desajeitada, para não dizer vaga. lsso porque era_ evidente- mente uma modernidade de novo gênero a que tomava corpo, e não umasimples superação daquela anterior. Donde as reti- céncias legítimas que se manifestaram a respeito do prefixo pós. E acrescente-se isto: há vinte anos, o conceito de pós-mudam) dava oxigênio, sugeria o novo, uma bifurcação maior; hoje, entre- tanto, está um tanto desusado. O ciclo pós-moderno se deu sob o signo da descompressão cool do social; agora, porém, temos a sensação de que os tempos voltam a endurecer-se, cobertos que estão de nuvens escuras. Tendo-se vivido um breve momento de redução das pressões e imposições sociais, eis que elas reapa- recem em primeiro plano, nem que seja com novos traçosk aliza- , momento em_que triunfam a tecnologia genética, a g 1 ção liberal e os direitos humanos, o rótulo pós-modemo a ganh rugas, tendo esgotado sua capacidade de exprimir 0 mundi! que _se anuncia. 52 O pás de pós-modemo ainda dirigia o olhar para um passado que se decretara morto; fazia pensar numa extinção sem determi- nar o que nos tornávamos, como se se tratasse de preservar uma liberdade nova, conquistada no rastro da dissolução dos enquadramentos sociais, politicos e ideológicos.1 Donde seu sucesso. Essa época terminou. Hipercapitalismo, hiperclasse, hi- perpotência, hiperterrorismo, hiperindividualismo, hipermer- cado, hipertexto - o que mais não e' hiper? O que mais não expõe uma modernidade elevada ã potência superlativa? Ao clima de epilogo segue-se uma sensação de fuga para adiante, de moder- nização desenfreada, feita de mercantilização proliferativa, de desregulamentação econômica, de ímpeto técnico-cientifico, cujos efeitos são tão carregados de perigos quanto de promes- sas. Tudo foi muito rápido: a coruja de Minerva anunciava o nascimento do pós-moderno no momento mesmo em que se esboçava a hipermodernização do mundo. Longe de decretar-se o óbito da modemidade, assiste-se a seu remate, concretizando-se no liberalismo globalizado, na mer- cantilização quase generalizada dos modos de vida, na explora- ção da razão instrumental até a "morte" desta, numa indivi- dualização galopante. Até então, a modernidade funcionava enquadrada ou entravada por todo um conjunto de contrape- ' sos, contramodelos e contravalores. O espírito de tradição per- _ durava em diversos grupos sociais; a divisão dos papéis sexuais permanecia estruturalmente desigual; a lgreja conservava forte l ascendência sobre as consciências; os partidos revolucionários , prometiam outra sociedade, liberta do capitalismo e da luta de _ classes; o ideal de Nação legitimava o sacrifício supremo dos 53
  29. 29. individuos; o Estado administrava numerosas atividades da vida econômica. Não estamos mais naquele mundo. . A sociedade que se apresenta é aquela na qual as forças de oposição à modernidade democrática, liberal e individualista não são mais estruturantes; na qual periclitaram os grandes ob- jetivos alternativos; na qual_a modernização não mais encontra resistências organizacionais e ideológicas de fundo. Nem todos os elementos pré-modernos se volatizaram, mas mesmo eles funcionam segundo uma lógica moderna, desinstitucionaliz_ da, sem regulação. Até as classes e as Vciilturas de classes se tol- dam em beneficio do princípio da individualidade autônoma. O Estado recua, a religião e a família se privatizam, a sociedade de mercado se impõe; para disputa, resta apenas o culto ã con- corrência econômica e democrática, a ambição técnica, os direi- tos do indivíduo. Elma-seia segunda modernidade, desre- gulamentadora e globalizada, sem contrários, absolutamehte moderna, alicerçando-se essencialmente em três axiomas cons- titutivos da própria modernidade anterior: o mercado, a efi- ciência técnica, o indivíduo. Tínhamos uma modernidade lirni- tada; agora, é chegado o tempo da modernidade consumada. Nesse contexto, as esferas mais diversas são o locus de uma es- calada aos extremos, entregues a uma dinâmica ilimitada, a uma espiral hiperbólica.7 Assim, testemunha-se um enorme inchaço das atividades nas finanças e nas Bolsas; uma aceleração do ritmo das operações econômicas, doravante funcionando em tempo real; uma explosão fenomenal dos volumes de capi- tal em circulação no planeta. Já faz tempo que a sociedade de consumo se exibe sob o signo do excesso, da profusão de mer- 54 cadorias; pois agora isso se exacerbou com os hipermercados e shopping centers, cada vez mais gigantescos, que oferecem uma pletora de produtos, marcas e serviços. Cada dominio apresen- ta uma vertente excrescente, desmesurada, “sem limitesTProva disso é a tecnologia e suas transformações vertiginosas nos referenciais sobre a morte, a alimentação ou a procriação. Mos- tram-no também as imagens do corpo no hiper-realismo por- nô; a televisão e seus espetáculos que encenam a transparencia total; a galáxia Internet e seu dilúvio de fluxos numéricos (mi- lhões de sites, bilhões de páginas, trilhões de caracteres, que do- bram a cada ano); o turismo e suas multidões em férias; as aglo- merações urbanas e suas megalópoles superpovoadas, asfixiadas, tentaculares. Para lutar contra o terrorismo e a criminalidade, nas ruas, nos shopping centers, nos transportes coletivos, nas empresasja' se instalam milhões de câmeras, meios eletrônicos de vigilância e identificação dos cidadãos; substituindo-se à an- tiga sociedade disciplinar-totalitãria, a sociedade da hipervigi- lãncia está a postos. A escalada paroxística do "sempre mais" se imiscui em todas as esferas do conjunto coletivo. Até os comportamentos individuais são pegos na engrena- gem do extremo, do que são prova o frenesi consumista, o do- ping, os esportes radicais, os assassinos em série, as bulimias e anorexias, a obesidade, as compulsões e vícios. Delineiam-se du- as tendências contraditórias. De um lado, os indivíduos, mais do que nunca, cuidam do corpo, são fanáticos por higiene e saúde, obedecem às determinações médicas e sanitárias. De outro lado, proliferam as patologias individuais, o consumo anômico, a anarquia comportamental. Q hipercgpitalismo se faz açprnpa- 55
  30. 30. nhar de um hiperindividualismo distanciado, regulador de si mesmo, mas ora prudente e calculista, ora desregrado, desequi- librado e caótico. No universo funcional da técnica, acumulam- se os comportamentos disfuncionais. O hiperindividualismo / coincide não apenas com a internalização do modelo do homo 'f aecunomicus que persegue a maximização de seus ganhos na maio- ria das esferas da vida (escola, sexualidade, procriação, religião, política, sindicalismo), mas também com a desestruturação de antigas formas de regulação social dos comportamentos, junto a uma mare' montante de patologias, distúrbios e excessos com- portamentais'. Por meio de suas operações de normatização téc- nica e desligação social, a era hipermoderna produz num só movimento a ordem e a desordem, a independência e a depen- dência subjetiva, a moderação e a imoderação. A primeira modernidade era extrema por causa do ideológi- co-político; a que chega o é aquém do politico, pela via da tec- nologia, da midia, da economia, do urbanismo, do consumo, das patologias individuais. Um pouco por toda a parte, os pro- cessos hiperbólicos e subpolíticos compõem a nova psicologia das democracias liberais, Nem tudo funciona na medida do ex- cesso, mas, de uma maneira de ou outra, nada é poupado pelas lógicas do extremo. 7 Tudo se passa como se tivéssemos ido da era do pás para a era do hiper. Nasce uma nova sociedade moderna. Trata-se não mais de sair do mundo da tradição para aceder ã racionalidade mo- derna, e sim de modernizar a própria modernidadeÊ racionali- zar a racionalização - ou seja, na realidade destruir os “arcaís- mos" e as rotinas burocráticas, põr fim ã rigidez institucional e 56 aos entraves protecionistas, relocar, privatizar, estimular a con- corrência. O voluntarismo do “futuro radiante” foi sucedido pelo ativismo gerencial, uma exaltação da mudança, da refor- ma, da adaptação, desprovida tanto de um horizonte de espe- ranças quanto de uma visão grandiosa da história, Por toda a parte, a ênfase é na obrigação do movimento, a hipermudança sem o peso de qualquer visão utópica, ditada pelo imperativo da eficiência e pela necessidade da sobrevivênciaÍNa hipermoder- nidade, não há escolha, não há alternativa, senão evoluir, ace- lerar para não ser ultrapassado pela uevoluçãoi; g , culto da mo- dernização técnica prevaleceu sobre a glorificação dos fins e dos ideais. Quanto menos o futuro é previsível, mais ele precisa ser mutável, flexível, reativo, permanentemente pronto a mudar, supermoderno, mais moderno que os modernos dos tempos heróicos. A mitologia da ruptura radical foi substituída pela cultura do mais rápido e do sempre mais; mais rentabilidade, mais desempenho, mais flexibilidade, mais inovaçãofl Resta sa- ber se, na realidade, isso não significa modernização cega, niilis- mo técnico-mercantil, processo que transforma a vida em algo sem propósito e sem sentido. A modernidade do segundo tipoã e' aquela que, reconciliada com seus princípios de base (a democracia, os direitos huma- nos, o mercado), não mais tem contramodelo crivel e não pára de reciclar em sua ordem os elementos pré-modernos que ou- trora eram algo a erradicar. A mogrnidadgdaqual estarj-; os saindo era negadora; a supermodernidade é integradarg, Não mais a destruição do passado, e sim sua reintegração, sua refor- mulação no quadro das lógicas modernas do mercado, do con- 57
  31. 31. sumo e da individualidade. Quando até o não-moderno revela a primazia do eu e funciona segundo um processo pós-tradicio- nal, quando a cultura do passado não é mais obstáculo à mo- dernização individualista e mercantil, surge uma fase nova da modernidade. Do pós ao hiper: a pós-modernidade não terá sido mais que um estágio de transição, um momento de curta duração. Elestejá não é mais o nosso. Tantas convulsões nos convidam a examinar um pouco mais de perto o regime do tempo social que governa nossa época. O passado ressurge. As inquietações com o futuro substituem a mística do progresso. Sob efeito do desenvolvimento dos mer- cados financeiros, das técnicas eletrônicas de informação, dos costumes individualistas e do tempo livre, o presente assume importância crescente. Por toda a parte, as operações e os inter- câmbios se aceleram; o tempo é escasso e se torna um proble- ma, o qual se impõe no centro de novos conflitos sociais. Horá- rio flexível, tempo livre, tempo dosjovens, tempo da terceira e da quarta idade: a hipermodernidade multiplicou as tempora- lidades divergentes. Amsjggulamentaçõesdorneocapitalismo corresponde uma imensa desregulação e individualizaçãodo tempo. O culto ao presente se manifesta com força aumentada, mas quais são seus contornos exatos e que vínculos ele mantém com os outros eixos temporais? De que maneira se articula nesse contexto a relação com o futuro e com o passado? Convém rea- brir a questão do tempo social, pois este merece mais do que nunca uma inquirição. superar a temática pós-moderna, re- conceitualizar a organização temporal que se apresenta 7 eis o propósito deste texto. 58 As duas eras do presente Jean-François Lyotard foi um dos primeiros a notar o vínculo entre a condição pôs-moderna e a temporalidade presentista. Perda de credibilidade dos sistemas progressistas; primazia das normas da eficiência; mercantilização do saber; multiplicação dos contratos temporários no cotidianos ~ o que_ significatudo isso senão que o centro de gravidade temporal de rlossas socie- dades se deslocou do futuro para o presente? A época dita pós- moderna, definida pelo esgotamento das doutrinas emancipa- tõrias e pela ascensão de um tipo de legitimação centrada na eficiência, faz-se acompanhar do predomínio do aqui-agora. Perguntemosí quais as forças socioistóricas que provocaram i a agonia das visões triunfalistas acerca do futuro? Sejamos cla> ros: os insucessos ou as catástrofes da modernidade político- ' econômica (as duas guerras mundiais, os totalitarismos, o Gulag, o Holocausto, as crises do capitalismo, o abismo entre Primeiro e Terceiro Mundo) _jamais teriam, por si sós, causado a ruína das umetanarrativas" se novos referenciais não houvessem alcan- çado êxito maciço em remodelar as mentalidades, em oferecer novas perspectivas para as existências. As desilusões, as decep- ções politicas, não explicam tudo: houve simultaneamente no- ' vas paixões, novos sonhos, novas seduções que se manifestaram dia após dia, sem grandiloqüência, e' verdade, mas onipresentes e afetando o maior número de pessoas. Eis o fenômeno que nos modificou: e com a revolução do cotidiano, com as profundas convulsões nas aspirações e nos modos de vida estimuladas pelo último meio século, que surge a consagração do presente. "uu
  32. 32. No cerne do _ngvogganjo do regime do tempo social, te- mos: (i) a passagem do capitalismo de produção para uma eco- nomia de consumo e de comunicação de massa; e (2) a subs- tituição de uma sociedade rigorístico-disciplinar por uma “sociedade-moda" completamente reestruturada pelas técnicas do efêmero, da renovação e da sedução permanentes. Dos objetos industriais ao ócio, dos esportes aos passatempos, da publicidade à informação, da higiene ã educação, da beleza ã alimentação, em toda a parte se exibem tanto a obsolescência acelerada dos modelos e produtos ofertados quanto os meca- nismos multiformes da sedução (novidade, hiperescolha, self- service, mais bem-estar, humor, entretenimento, desvelo, erotismo, viagens, lazeres). O universo do consumo e da co- municação de massa aparece como um sonhojubiloso. Um mundo de sedução e de movimento incessante cujo modelo não é outro senão o sistema da modaÍTem-se não mais a repe- tição dos modelos do passado (como nas sociedades tradicio- nais), e sim o exato oposto, a novidade e a tentação sistemáticas como regra e como organização do presente. Ao permear seto- res cada vez mais amplos da vida coletiva, a forma-moda gene- ralizada instituiu o eixo do presente como temporalidade so- cialmente prevalecente] Enquanto o principio-moda "Tudo o que é novo apraz" se impõe como rei, a neofilia se afirma como paixão cotidiana e geral. lnstalaram-se sociedades reestruturadas pela lógica e pela própria temporalidade da moda; em outras palavras, um pre- sente que substitui a ação coletiva pelas felicidades privadas, a tradição pelo movimento, as esperanças do futuro pelo êxtase 60 do presente sempre novoiNasce toda uma cultura hedonista e psicologista que incita a satisfação imediata das necessidades, estimula a urgencia dos prazeres, enaltece o florescimento pes- soal, coloca no pedestal o paraíso do bem-estar, do conforto e do lazer. Consumir sem esperar; viajar; divertir-se; não renun- ciar a nadai as politicas do futuro radiante foram sucedidas pelo consumo como promessa de um futuro eufórico. A primazia do presente se instalou menos pela ausência (de sentido, de valor, de projeto histórico) que pelo excesso (de bens, de imagens, de solicitações hedonistas). Foi o poder dos dispo- sitivos subpolíticos do consumismo e da_ moda generalizada o que provocou a derrota do heroísmo ideológico-politico da mo- dernidade. O coroamento do presente se iniciou muito antes que se houvessem enfraquecido as razões para ter esperança num futuro melhor', esse coroamento precedeu em varias dé- cadas a queda do Muro de Berlim, o universo acelerado do ci- berespaço e o liberalismo globalizado. A consagração social do presente consumista se fez acompa- nhar de uma pletora de acusações lançadas contra a atomiza- ção social e a despolitização; contra a fabricação de falsas neces- sidades; contra o conformismo e a passividade consumistas; contra a adoção de engenhocas em todas as esferas da vida, num processo sem propósito e sem sentido. Ademais, desde os anos 7o, a temática dos u estragos do progresso" tem repercussão significativa. Todas essas criticas, porém, não impediram de mo- do algum o ímpeto daquilo que poderiamos muito bem deno- minar um otimismo pessoal. No momento em que ressoavam as derradeiras encantações revolucionárias carregadas de espe- 61
  33. 33. ranças futuristas, emergia a absolutização do presente imedia- to, glorificando a autenticidade subjetiva e a espontaneidade dos desejos, a cultura do "tudojá", que sacraliza o gozo sem proibi- ções, sem preocupações com o amanhã. Enquanto o maio de 63 surgiu como uma revolta sem objetivo futuro, antiautoritária e libertária, os anos da liberação dos costumes substituiram o en- gajamento pela festa, a história heróica pelas "máquinas dese- jantes", tudo se passando como se o presente houvesse conse- guido canalizar todas as paixões e sonhos. O desemprego ainda era suportável, as inquietações com o futuro tinham então menos peso que os desejos de liberar e hedonizar o presente. Os “trinta anos gloriososh* o Estado do bem-estar social, a mitolo- gia do consumo, a contracultura, a emancipação dos costumes, a revolução sexual, todos esses fenômenos conseguiram remo- ver o sentido do trágico histórico ao instaurarem uma cons- ciencia mais otimista que pessimista, um Zeílgeíst dominado pela despreocupação com o futuro, compondo um came diem simul- taneamente contestador e consumista. Mas isso já é página virada. A partir dos anos 3o e (sobretudo) 9o, instalou-se um presentismo de segunda geração, subjacente à globalização neoliberal e ã revolução informática. Essas duas séries de fenomenos se conjugam para "comprimir o espaço- tempo", elevando a voltagem da lógica da brevidade. De um la- do, a mídia eletrônica e informática possibilita a informação e * Os anos de x94; a 1973, ou les Trente Clorieuses, assim chamados porque, na França e nos outros paises desenvolvidos, corresponderam a um período de expansão inédita da renda e da qualidade de vida. (NT. ) 62 os intercâmbios em "tempo real", criando uma sensação de si- multaneidade e de imediatez que desvaloriza sempre mais as formas de espera e de lentidão. De outro lado, a ascendência crescente do mercado e do capitalismo financeiro pôs em xeque as visões estatais de longo prazo em favor do desempenho a curto prazo, da circulação acelerada dos capitais em escala glo- bal, das transações econômicas em ciclos cada vez mais rápi- dos? Por toda a parte, as palavras-chaves das organizações são flexibilidade, rentabilidade, just in lime, “concorrência temporal", atraso-zero - tantas orientações que são testemunho de uma modernização exacerbada que contrai o tempo numa lógica urgentista. Se a sociedade neoliberal e informatizada não criou a mania do presente, não há dúvida de que ela contribuiu para a culminãncia disso ao interferir nas escalas de tempo, intensi- ficando nossa Vontade de libertar-nos das limitações do espaço- tempo. Mais: tal reorganização da vida económica não deixou de ter conseqüências dramáticas para categorias inteiras da popula- ção, com o "turbocapitalismo" e a prioridade dada à rentabili- dade imediata acarretando as reduções maciças de quadros fun- cionais, o emprego precário, a ameaça maior de desemprego. O Zeitgeist predominantemente frívolo foi substituído pelo tem- po do risco e da incerteza, Viveu-se certa despreocupação com o futuro - mas agora é na insegurança que, cada vez mais, Vive- se o presente. 0 ambiente da _çiv _zaçãodo Íefêmero fez mudar o tom emo- cional. A sensação de insegurança invadiu os espíritos; a saúde se impõe como' obsessão das massas', o terrorismo, as catástro- 63
  34. 34. fes, as epidemias são regularmente noticia de primeira página. As lutas sociais e os discursos críticos não mais oferecem a pers- pectiva de construir utopias e superar a dominação. Só se fala de proteção, segurança, defesa das “conquistas sociais", urgên- cia humanitãria, preservação do planeta. Em resumo, de "li- mitar os estragos". O clima do primeiro presentismo liberacio- nista e otimista, marcado pela frivolidade, desapareceu em favor de uma exigência generalizada de proteção. O momento denominado pós-moderno coincidiu com o movimento de emancipação dos indivíduos em face dos papéis sociais e das autoridades institucionais tradicionais, em face das limitações impostas pela filiação a este ou aquele grupo e em face dos objetivos distantes; aquele momento é indissociável do estabelecimento de normas sociais mais flexíveis, mais diver- sas, e da ampliação da gama de opções pessoais. Disso resultou um sentimento de udescontração", de autonomia e de abertu- ra para as existências individuais. Sinônimo de desencantamen- to com os grandes projetos coletivos, o parêntese pós-moderno ficou todavia envolto numa nova forma de sedução, ligada ã individualização das condições de vida, ao culto do eu e das feli- cidades privadas. _lá não estamos mais nessa fase: eis agora o tempo do desencanto com a própria pós-modernidade, dades- mitificação da vida no presente, confrontada que está _com a escalada das inseguranças. O alívio e' substituído pelo fardo, o hedonismo recua ante os temores, as sujeições do presente se mostram mais fortes que a abertura de possibilidades acarreta- da pela individualização da sociedade. De um lado, a sociedade- moda não pára de instigar aos gozosjá reduzidos do consumo, 64 do lazer e do bem-estar. De outro, a vida fica menos frívola mais estressante, mais apreensiva. A tomada das existências pela insegurança suplanta a despreocupação "pós-moderna". E com os traços de um composto paradoxal de frivolidade e ansiedade, de euforia e vulnerabilidade, que se desenha a modernidade do segundo tipo. Nesse contexto, o rótulo pás-modema, que antes anunciava um nascimento, tornou-se um vestígio do passado, um lugar da memória". Os novos hábitos do futuro Será que o eixo do presente tem excessivo poder na economia temporal de uma época? Disso há pouca dúvida, na era do capi- talismo financeiro e da precariedade salarial, da democracia de opinião, da lnternet e do "Tudo e descartável". Mas como encarar o fato? Será que, conforme sugerem alguns, o sistema temporal prevalecente equivale a um "presente absoluto", fe- chado, encerrado em si mesmo, separado do passado e do fu- turo? Será que o individuo contemporâneo vive realmente num estado de “imponderabilidade temporal", confinado numa imediatez esvaziada de qualquer projeto e herança? Será que ele se confunde com o "homem presente"? transformado em es- trangeiro no tempo, mergulhado apenas no tempo da urgên- cia e da instantaneidade? Será que a aceleração generalizada, o frenesi do consumo, o retraimento das tradições e utopias te- riam conseguido criar a civilização do “presente perpétuo" sem passado e sem futuro, do qual falava George Orwell? ” Essas 65
  35. 35. idéias expressam uma' verdade apenas parcial. Os fluxos econô- micos de curto prazo, o insucesso das certezas progressistas, a derrocada do poder regulador das tradições - todos esses feno- menos presentistas são indiscutiveis. Parece-me, porém. que eles não nos autorizam a diagnosticar a irrupção de uma cultu- ra do “presente eterno" ou "auto-suficiente". Tal conceituali- zação deixa passar excessivamente em branco as tensões para- doxais que animam o regime do tempo na hipermodernidade. Na verdade, não ficamos órfãos nem do passado nem do futu- ro, pois as relações com essas coordenadas adquirem nova rele- vância à medida que o presente amplia seu domínio. Nada de grau zero da temporalidade, de um presente "auto-referente feito de indiferença radical tanto ao antes quanto ao depois: o presentismo de segundo tipo que nos rege não é mais pós-mo- derno nem autárcico', ele não pára de abrir-se a outras coisas além de si mesmo. Confiança e futuro Ninguém duvida de que a época marcada pelos temores da tecnociência e pela decomposição das utopias políticas é aque- la da "crise do futuro". Nada mais de fe' num futuro necessa- riamente melhor que o presente; nada mais de espera pelo combate final e pela Cidade Radiosaí a absolutização do porvir histórico foi sucedida pela inquietação, pela pane das represen- tações do futuro, pelo eclipse da idéia de progresso. Mas, apesar disso, a página do progresso está muito longe de ter sido virada 66 -. -. q de vez. Se a mitologia do progresso contínuo e necessário está caduca, nem por isso se parou de esperar e acreditar nos "mila- gres da ciência" - a idéia de aprimoramento da condição huma- na pelas aplicações do saber cientifico continua a fazer sentido. Simplesmente, tornou-se incerta e ambivalente a relação com o progresso, esse último estando associado tanto à promessa de um mundo melhor quanto à ameaça de catástrofes em cadeia. Assistimos não ao fim de toda crença no progresso, mas ao sur- gimento dékíh-. a idéia pós-religiosa do progresso, ou seja, de um porvir indeterminado e problemático - um futuro hiper- moderno. As sociedades modernas se constituíram mediante uma imensa “inversão do tempo" que instituiu a supremacia do fu- turo sobre o passado. ” Mas essa temporalidade dominante nem por isso deixou de prolongar em forma laicizada crenças e es- quemas mentais herdados do espírito religioso (avanço inevi- tável rumo à felicidade e ã paz, utopia do homem novo, classe redentora, sociedade sem divisão, espirito sacrificial). Hoje, con- tudo, todas essas "religiões seculares" portadoras de esperanças escatológicas estão mortas. Nesse sentido, a “ausência de futu- ro", ou o estreitamento do horizonte temporal que subjaz ã so- ciedade hipermoderna, deve ser considerada uma laicização das representações modernas do tempo, um processo de de- sencantamento ou modernização da propria consciência tempo- ral moderna. A decadência do culto mecânico ao progresso confunde-se não com o “presente absoluto", mas com o futura puro, a construir-se sem garantias, sem caminhos traçados de antemão, sem nenhuma lei implacável acerca do porvir. ” Al- 67
  36. 36. cançou-se uma etapa nova na emancipação em face da tutela do elemento religioso: ápice da modernidade, essa etapa é sinô- nimo de hipermodernização da relação com o tempo histórico. Nada de ruína da força do futuro: essa última simplesmen- te não e' mais ideológico-política, estando agora contida na di- nâmica técnica e cientifica. Quanto mais a época se organiza no culto democrático erigido num absoluto de novo tipo, mais os laboratórios concebem um futuro dessemelhante e trabalham para produzir um universo de ficção científica, até mais inacre- ditável que esta. Quanto menos se tem uma visão teleológica do futuro, mais ele se presta à invenção hiper-realista, com o bí- nômio ciência-técnica ambicionando explorar o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, remodelar a vida, gerar mu- tantes, oferecer um simulacro de imortalidade, ressuscitar es- pécies desaparecidas, programar o futuro genético. Nunca antes a humanidade lançou tão grande desafio ao homem e ao espa- ço-tempo. Embora triunfe o tempo breve da economia e da midia, o fato é que nossas sociedades continuam voltadas para o futuro, menos romântico e paradoxalmente mais revolucio- nário, pois se dedica a tornar tecnicamente possível o impossí- vel. A impotência para imaginar o futuro só aumenta em con- junto com a sobrepotência técnico-científica para transformar radicalmente o porvir: a febre da brevidade é apenas uma das facetas da civilização futurista hipermodema. Enquanto o mer- cado estende sua "ditadura" do curto prazo, as preocupações relativas ao porvir planetário e aos riscos ambientais assumem posição primordial no debate coletivo. Ante as ameaças da po- luição atmosférica. da mudança climática, da erosão da biodi- 68 versidade, da contaminação dos solos, afirmam-se as idéias de "desenvolvimento sustentável" e de ecologia industrial, com o encargo de transmitir um ambiente viável “as gerações que nos sucederem. Multiplicam-se igualmente os modelos de simu- lação de cataclismos, as análises de risco em escala nacional e planetária, os cálculos probabilísticos destinados a discemir, ava- liar e controlar os perigos. Morrem as utopias coletivas, mas in- tensificam-se as atitudes pragmáticas de previsão e prevenção técnico-cientificas. Se o eixo do presente é dominante, ele não é absoluto: a cultura de prevenção e a "ética do futuro" dão nova vida aos imperativos da posteridade menos ou mais distante. Sem dúvida, os interesses econômicos imediatos têm pre- cedência sobre a atenção para com as gerações futuras. Durante esse espetáculo de protestos e de chamamentos virtuosos, a des- truição do meio ambiente continua: o máximo de apelos à res- ponsabilidade de todos, o minimo de ações públicas. Mas o fato é que as preocupações referentes ao futuro planetário estão bem vivas; elas habitam e alertam permanentemente a consciência do presente, alimentando as controvérsias públicas, solicitando medidas de proteção para o patrimônio natural. O presente total da rentabilidade imediata pode dominar, mas não conti- nuará assim indefinidamente. Mesmo que o ecodesenvolvimen- to ainda esteja longe de dispor dos meios técnicos e sistemas reguladores dos quais necessita, ele já começa, aqui e ali, a alte- rar certas práticas. No amanhã, essa dinâmica deve ampliar-se. Ê pouco provável que a consciência e as limitações de longo prazo não produzam efeito; elas transformarão tanto as práti- cas presentistas quanto os modos de vida e de desenvolvimen- 69

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