Qual educação ambiental?

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Qual educação ambiental?

  1. 1. A rtigo Qual educação ambiental? Elementos para um debate sobre educação ambiental e extensão rural Carvalho, Isabel Cristina Palavras-Chave: educação ambiental, de Moura* educação popular, educação comportamental, extensão rural, Agroecologia. Resumo Este artigo parte da idéia da educação am- Introduçãobiental como mediação educativa que forma A educação ambiental (EA) vem sendo in-parte do contexto de transição ambiental no corporada como uma prática inovadora emmundo rural. Questiona a idéia de uma úni- diferentes âmbitos. Neste sentido, destaca-ca educação ambiental, chamando a aten- se tanto sua internalização como objeto deção para diferentes matrizes teórico-pedagó- políticas públicas de educação e de meio am-gicas que informam duas orientações em edu- biente em âmbito nacional 1, quanto sua in-cação ambiental, quais sejam: a educação corporação num âmbito mais capilarizado,ambiental popular e a educação ambiental como mediação educativa, por um amplo con-comportamental. Argumenta em favor de junto de práticas de desenvolvimento social.uma educação ambiental popular como alter- Esse é o caso, por exemplo, do diversificadonativa mais afinada com as propostas da ex- rol de atividades e projetos de desenvolvimen-tensão rural agroecológica. to impulsionados pelas atividades de exten- são em resposta às novas demandas geradas pela transição ambiental do meio rural2. Este * Psicóloga, doutora em Educação, assessora da EMATER/RS, e-mail: isabel@emater.tche.br processo de mudanças no mundo rural, que 43 Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.2, n.2, abr./jun.2001
  2. 2. A rtigo tende a gerar novas práticas sociais e cultu- como outros da "família ambiental", sofre de rais em que se verifica a assimilação de um grande imprecisão e generalização. O proble- ideário de valores ambientais, pode ser ob- ma dos conceitos vagos é que acabam sus- servado, por exemplo, no crescente interes- tentando certos equívocos e, neste caso, o se pela produção agroecológica, na busca por principal deles é supor uma convergência medicinas alternativas e fitoterápicas, no tanto da visão de mundo quanto das opções ecoturismo e no turismo rural. Práticas es- pedagógicas que informam o variado conjun- tas que estão muitas vezes associadas a to de práticas que se denominam de educa- ações de EA, tanto na sua difusão como na ção ambiental. Assim, neste artigo preten- valorização da paisagem socioambiental no demos discutir algumas das principais dife- campo. renças nas concepções de educação ambien- Uma vez identificada a entrada da EA como tal, e suas conseqüências no plano político- parte dos processos de transição ambiental pedagógico. Para isto, vamos problematizar e suas inúmeras interfaces com diferentes alguns aspectos da relação entre a EA - to- campos de ação da extensão rural, cabe abrir mada como parte dos processos de ambien- um debate sobre as modalidades desta práti- talização da sociedade - e o campo educativo ca educativa, suas orientações pedagógicas onde esta vai disputar legitimidade como um e suas conseqüências como mediação apro- tipo novo de prática pedagógica. priada para o projeto de mudança social e am- biental no qual esta vem sendo acionada. Em 1 O ambiental como qualificador primeiro lugar, caberia perguntar: existe da educação uma educação ambiental ou várias? Será que Uma primeira questão diz respeito ao sig- todos os que estão fazendo educação ambi- nificado do ambiental como qualificador da ental comungam de princípios pedagógicos e educação. Outras correntes pedagógicas an- de um ideário ambiental comuns? A obser- tes das EAs também se preocuparam em con- vação destas práticas facilmente mostrará textualizar os sujeitos no seu entorno histó- um universo extremamente heterogêneo no rico, social e natural. Trabalhos de campo, qual, para além de um primeiro consenso em estudos do meio, temas geradores, aulas ao ar livre, não são atividades inéditas na edu- cação. Estes recursos educativos, tomados Será que todos os que estão cada um por si, não são estranhos às meto- fazendo educação ambiental dologias consagradas na educação como aquelas inspiradas em Paulo Freire e Piaget, comungam de princípios entre outras. Assim, qual seria o diferenci- pedagógicos e de um ideário al da educação ambiental? O que ela nos traz de novo que justifique identificá-la como ambiental comuns? uma nova prática educativa? Poderíamos dizer, numa primeira consi- torno da valorização da natureza como um deração, que o novo de uma EA realmente bem, há uma grande variação das intencio- transformadora, ou seja, daquela EA que vá nalidades socioeducativas, metodologias pe- além da reedição pura e simples daquelas dagógicas e compreensões acerca do que seja práticas já utilizadas tradicionalmente na a mudança ambiental desejada. educação, tem a ver com o modo como esta44 Neste sentido, a EA é um conceito que, EA revisita esse conjunto de atividades pe-Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.2, n.2, abr./jun.2001
  3. 3. A rtigo O foco de uma educação dentrodagógicas, reatualizando-as dentro de um do novo paradigma ambientalnovo horizonte epistemológico em que o am-biental é pensado como sistema complexo de tenderia a compreender, pararelações e interações da base natural e so- além de um ecossistema natural,cial e, sobretudo, definido pelos modos de suaapropriação pelos diversos grupos, populações um espaço de relaçõese interesses sociais, políticos e culturais que socioambientais historicamenteaí se estabelecem. O foco de uma educaçãodentro do novo paradigma ambiental, portan- configuradoto, tenderia a compreender, para além de umecossistema natural, um espaço de relaçõessocioambientais historicamente configura- curso, é importante destacar que a dinâmi-do e dinamicamente movido pelas tensões e ca deste campo é a da disputa pelas inter-conflitos sociais. pretações sobre conceitos-chave como "am- De todo modo, a construção de um nexo biental" ou "sustentabilidade". A verdade éentre educação e meio ambiente, capaz de que ainda estamos longe de chegar a umgerar um campo conceitual teórico-metodo- acordo sobre as chances de uma nova alian-lógico que abrigue diferentes propostas de ça sustentável ou um contrato natural, comoEAs, só pode ser entendida à luz do contexto o chamou Serres (1991), baseada na justiçahistórico que o torna possível. Afinal, não e na eqüidade entre a sociedade e a nature-podemos compreender as práticas educativas za. Talvez estejamos no momento de, justa-como realidades autônomas, pois elas só fa- mente, disputar este projeto discutindo so-zem sentido a partir dos modos como se as- bre que bases a reconversão em direção asociam aos cenários sociais e históricos uma ordem sustentável deveria se dar. A EA,mais amplos constituindo-se em projetos pe- como parte deste contexto vai, portanto, tran-dagógicos políticos datados e intencionados. sitar na esfera das relações conflitivas das Desta forma, a emergência de um con- diferentes orientações políticas e pedagógi-junto de práticas educativas nomeadas como cas, sendo afetada pelos diferentes projetosEA e a identidade de um profissional a ela político-pedagógicos em disputa.associada, o educador ambiental3, só podemser entendidos como desdobramentos que 2 As diferentes EAsfazem parte da constituição de um campo am- As práticas de EA, na medida em quebiental no Brasil, a partir do qual a questão nascem da expansão do debate ambiental naambiental tem se constituído como catali sa- sociedade e de sua incorporação pelo campodora de um possível novo pacto societário sus- educativo, estão atravessadas pelas vicissi-tentável. Assim, o qualificador ambiental tudes que afetam cada um destes campos.surge como uma nova ênfase para a educa- Disto resultam pelo menos dois vetores deção, ganhando legitimidade dentro deste pro- tensão que vão incidir sobre a EA: I) a com-cesso histórico como sinalizador da exigên- plexidade e as disputas do campo ambiental,cia de respostas educativas a este desafio com seus múltiplos atores, interesses e con-contemporâneo de repensar as relações en- cepções e II) os vícios e as virtudes das tradi-tre sociedade e natureza. ções educativas com as quais estas práticas Contudo, considerando a assimetria das se agenciam. Estes vetores vão gerar uma grande 45relações de força que estão definindo astransformações sociais e econômicas em clivagem no conjunto das práticas de EA, Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.2, n.2, abr./jun.2001
  4. 4. A rtigo demarcando pelo menos duas diferentes ori- hábitos e comportamentos cristalizados e de entações que poderiam ser chamadas: EA difícil reorientação. comportamental e EA popular. Cabe lembrar Desta forma, surge uma EA que vai tomar que essa classificação resulta de um esforço para si, como meta principal, o desafio das de análise que se propõe intencionalmente mudanças de comportamento em relação ao a distinguir e matizar as práticas de EA de meio ambiente. Informada por uma matriz acordo com suas filiações pedagógicas. Isto conceitual apoiada na psicopedagogia com- não significa que no plano da observação portamental, esta EA partilha de uma visão empírica não se possa constatar que estas particular do que seja o processo educativo, duas vertentes apareçam muitas vezes so- a produção de conhecimentos e a formação brepostas e/ou combinadas nas práticas dos dos sujeitos. educadores ambientais. Também é verdade A psicologia comportamental é, sobretu- que estas duas tendências não esgotam todo do, uma psicologia da consciência. Isto sig- o campo das EAs, que é ainda muito mais nifica, por exemplo, considerar o comporta- diversificado. Contudo, expressam uma im- mento uma totalidade capaz de expressar a portante distinção entre duas das principais vontade dos indivíduos. Acredita, também, matrizes s ocioeducativas que informam esta que é possível aceder a vontade dos indivídu- prática e que serão objeto dos próximos tópi- os e produzir transformações nas motivações cos deste artigo. das ações destes através de um processo ra- cional, que se passa no plano do esclareci- 2.1 A EA comportamental mento, do acesso a informações coerentes e Com o debate ambientalista generaliza-se da tomada de consciência. Isto quer dizer, um certo consenso no plano da opinião públi- em última instância, que esta matriz teóri- ca, a respeito da urgência de conscientizar os ca supõe indivíduos cuja totalidade da ação diferentes estratos da população sobre os pro- encontra suas causas na esfera da razão, e blemas ambientais que ameaçam a vida no é nesta esfera também que se pretende si- planeta. Conseqüentemente, é valorizado o tuar as relações de aprendizagem e a forma- papel da educação como agente difusor dos co- ção dos valores. nhecimentos sobre o meio ambiente e indutor da mudança dos hábitos e comportamentos 2.2 A EA popular considerados predatórios, em hábitos e com- Esta EA está associada com a tradição da portamentos tidos como compatíveis com a pre- educação popular que compreende o proces- servação dos recursos naturais. so educativo como um ato político no sentido Uma outra idéia bastante recorrente nes- amplo, isto é, como prática social de forma- ta perspectiva é a de que, embora todos os ção de cidadania. A EA popular compartilha grupo sociais devam ser educados para a con- com essa visão a idéia de que a vocação da servação ambiental, as crianças são um gru- educação é a formação de sujeitos políticos, po prioritário. As crianças representam aqui capazes de agir criticamente na sociedade. as gerações futuras em formação. Conside- O destinatário desta educação são os sujei- rando que as crianças estão em fase de de- tos históricos, inseridos numa conjuntura senvolvimento cognitivo, supõe-se que nelas sociopolítica determinada , cuja ação, sempre a consciência ambiental pode ser internali- intrinsecamente política, resulta de um uni- zada e traduzida em comportamentos de for- verso de valores construído social e histori- ma mais bem sucedida do que nos adultos camente. Nesta perspectiva, não se apaga a46 que, já formados, possuem um repertório de dimensão individual e subjetiva, mas esta éAgroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.2, n.2, abr./jun.2001
  5. 5. A rtigovista desde sua intercessão com a cultura e bientais passa por uma visão do meio ambi-a história, ou seja, o indivíduo é sempre um ente como um campo de sentidos socialmen-ser social. te construído e, como tal, atravessado pela Assim, o foco de uma EA popular não são diversidade cultural e ideológica, bem comoexclusivamente os comportamentos. Embo- pelos conflitos de interesse que caracterizamra em certa educação popular também exis- a esfera pública. Ao enfatizar a dimensãota uma herança racionalista que se expres- ambiental das relações sociais, a EA popularsa principalmente no conceito de conscienti- propõe a transformação das relações com ozação. É preciso admitir aqui que a perspec- meio ambiente dentro de um projeto de cons-tiva racionalista, que pensa os processos de trução de um novo ethos social, baseado emtransformação pela via régia da consciência, valores libertários, democráticos e solidários.chega à educação ambiental não só pela EA A opção por um grupo etário, por exemplocomportamental mas também por certa EA as crianças, não é uma característica pre-popular. Ocorre que nem toda EA popular se dominante nesta abordagem. Aqui se com-atém estritamente à noção de conscientiza- preende a formação como um processo per-ção, mesmo porque uma crítica deste con- manente e sempre possível. Há várias expe-ceito tem sido feita pela própria educação riências de EA popular, por exemplo, que ele-popular nos últimos anos. Assim, esta EA gem, isto sim, certos atores sociais como su-pode utilizar-se também de conceitos mais jeitos prioritários da ação educativa ambi-complexos, como por exemplo o de Ação Polí- ental, como por exemplo os grupos e organi-tica, no sentido em que é definido pela filo- zações populares. Ou ainda, destacam a im-sofia política de Arendt, para entender o agir portância de trabalhar com os grupos cuja in-dos sujeitos e grupos sociais frente às ques- teração com o meio ambiente é mais direta,tões ambientais4. por exemplo, agricultores ou certas catego- Mais do que resolver os conflitos ou pre- rias de trabalhadores urbanos como osservar a natureza através de intervenções recicladores e outros 5. De qualquer forma,pontuais, esta EA entende que a transforma- não há uma especial valorização da infânciação das relações dos grupos humanos com o como faixa etária privilegiada para a forma-meio ambiente está inserida dentro do con- ção ambiental.texto da transformação da sociedade. O en- Cabe lembrar que a educação populartendimento do que sejam os problemas am- tem sido em grande parte uma educação de 47 Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.2, n.2, abr./jun.2001
  6. 6. A rtigo adultos. No contexto de uma educação que A pesquisa do Instituto ECOAR (Trajber e se dirige a sujeitos capazes de decisão, a Manzochi, 1996) sobre os materiais impres- criança é importante enquanto engajada no sos em EA no Brasil demonstra, de maneira processo de formação de cidadania, mas não exemplar, como as escolhas entre enfatizar é necessariamente prioritária sobre os ou- os comportamento ou a ação política se re- tros grupos passíveis de uma educação am- fletem na produção escrita deste campo. A biental. instigante análise do discurso da EA , reali- zada pela lingüista Eni Orlandi neste estu- 3 Entre a intenção e o gesto: do, alertou para a presença de elementos dou- limites e possibilidades das EAs trinários e normativos nos textos e para o O principal problema de uma EA compor- risco de um fechamento do discurso numa tamental é sua visão restrita dos processos EA pautada em pressupostos comportamen- sociais e subjetivos que constituem os su- tais. Orlandi destacou ainda o silêncio desta jeitos. Em primeiro lugar, poderíamos des- EA sobre a produção social dos problemas eco- tacar o equívoco de supor sujeitos da vonta- lógicos e, decorrente disto, sua tendência a de, isto é, reduzir os indivíduos à sua dimen- culpabilizar os indivíduos como se todos fos- são racional. Em outras palavras, reduzir o sem igualmente responsáveis pelos efeitos sujeito ao ego, desconhecendo que a comple- da degradação ambiental. xidade das determinações da ação humana Comportamento é um conceito muito po- em muito ultrapassam essa instância psí- bre para dar conta da complexidade do agir quica. Do mesmo modo, o processo de forma- humano. Não se trata de induzir novos com- ção e produção de conhecimentos está longe portamentos, pois isso pode ser alcançado de de responder exclusivamente aos ditames da forma pontual sem implicar uma transforma- consciência e da vontade. Entre a intenção ção significativa, no sentido da construção e o gesto há um universo de sentidos con- de um novo ethos, de um novo pacto civiliza- traditórios que a relação causal razão-com- tório desejado por um ideário ecológi c o portamento está longe de comportar. É larga- emancipatório. Uma pessoa pode aprender a48 mente conhecido o tema das descontinuida- valorizar um ambiente saudável e não poluí- des entre o dito da razão e as atitudes6.Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.2, n.2, abr./jun.2001
  7. 7. A rtigo EA popular parece ser uma das mediações educativas afinadas aodo, ter comportamentos tais como não sujaras ruas e participar dos mutirões de limpeza espírito de uma extensão ruraldo seu bairro. Essa mesma pessoa, no en-tanto, pode considerar adequada a política agroecológicade produção e transferência de lixo tóxicopara outra região e não se importar com acontaminação de um lugar distante do seuambiente de vida. Numa perspectiva indivi-dualista, isto preserva seu meio ambienteimediato, a despeito do prejuízo que possa ter, res, comprometida com um ideário emanci-por exemplo, para outras populações afeta- patório e, ao enfatizar a dimensão ambiental,das por estes resíduos tóxicos. Neste senti- amplia a esfera pública, incluindo nesta odo, é possível um comportamento preocupa- debate sobre o acesso e as decisões relativasdo com o meio ambiente local sem qualquer aos recursos ambientais. Nesta perspectiva,compromisso com um pacto solidário global. o educador ambiental é, sobretudo, um medi- Quanto à capacidade de uma educação pro- ador da compreensão das relações que os gru-mover valores ambientais, é importante des- pos com os quais ele trabalha estabelecemtacar que o processo educativo não se dá ape- com o meio ambiente. Atua assim, como umnas pela aquisição de informações, mas so- intérprete dessas relações, um facilitador dasbretudo pela aprendizagem ativa, entendida ações grupais ou individuais que geram no-como construção de novos sentidos e nexos vas experiências e aprendizagem.para a vida. Trata-se de um processo que en- No caso da extensão rural, a EA popularvolve transformações no sujeito que apren- parece ser uma das mediações educativasde e incide sobre sua identidade e posturas afinadas ao espírito de uma extensão ruraldiante do mundo. A internalização de um agroecológica tomada como "um processo deideário ecologista emancipatório não se dá intervenção de caráter educativo e transforma-apenas por um convencimento racional so- dor, baseado em metodologias de intervenção-bre a urgência da crise ambiental, mas so- ação participante que permitem o desenvolvi-bretudo implica uma vinculação afetiva com mento de uma prática social mediante a qualos valores éticos e estéticos desta visão de os sujeitos do processo buscam a construção emundo. Deste ponto de vista, uma EA com- sistematização de conhecimentos que os levemportamental pode ser funcional a diversas a incidir conscientemente sobre a realidade"esferas de ação que visam inibir ou estimu- (Caporal e Costabeber, 2000:33). A afinidadelar, em termos imediatos, certos comporta- da EA popular com o marco da nova extensãomentos bem definidos _ por exemplo: dimi- rural remete à vocação de uma EA que pre-nuir o índice de depredação de árvores pelos tende promover mudanças nos níveis maisvisitantes de uma área de proteção ambien- profundos das relações socioambientais. Étal _ mas dificilmente consegue incorporar a claro que aqui trata-se de uma escolha pe-dimensão mais ampla e coletiva das relações dagógica e não de uma verdade auto-eviden-ambientais associadas a transformações em te. Do mesmo modo que não se trata nestedireção a um novo projeto societário. artigo de pretender dar a palavra final a uma A EA popular, por sua vez, age dentro de discussão que vem se dando entre os educa-um universo onde a educação é uma prática dores ambientais, mas expressar uma posi-de formação de sujeitos e produção de valo- ção e expô-la ao debate. A 49 Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.2, n.2, abr./jun.2001
  8. 8. A rtigo Referências bibliográficas ARENDT, H. A condição humana. Rio de pensa da ecologia. Rio de Janeiro: MAST e Janeiro: Forense, 1989. CEPEM/CNPQ, Agência Estado e ISER, 1992. CAPORAL, F. R., COSTABEBER, J. A. Agroecologia CRESPO, S. (coord). O que o Brasileiro pensa e desenvolvimento rural sustentável: do meio ambiente, do desenvolvimento e perspectivas para uma nova extensão rural. da sustentabilidade. Rio de Janeiro: MAST/ jan./mar. Agroecologia e Desenvolvimento CNPQ e ISER, 1998. Rural Sustentável, Porto Alegre, v.1, n.1, p 16- RUIZ, J. R. Diagnóstico mexicano sobre 37, jan/mar, 2000. educación popular ambiental. In: SEMINARIO CARVALHO, I.C.M. Educação, meio ambiente e REGIONAL DE CAPA CITA CIÓN DE LAS ação política. In: ACSELRAD, H. (Org). Meio COMUNIDADES PARA EL MANEJO ambiente e democracia. Rio de Janeiro, IBASE, SUSTENTABLE DE L OS RECURSOS NATURALES. 1992. Rede de Educación Popular Ambiental - REPEC, México: 1995 (mimeo). COSTABEBER, J. A.; MOYANO, E. Transição agroecológica e ação social coletiva. out./dez. SERRES, M. O contrato natural. Rio de Janeiro: Agroecologia e Desenvolvimento Rural Nova Fronteira, 1991. Sustentável, Porto Alegre, v.1, n.4, p 50-60, TRAJBER, R.; MANZOCHI, L. Avaliando a out/dez. 2000. educação ambiental no Brasil. São Paulo: CRESPO, S. e LEITÃO, P. O que o brasileiro Editora Gaia, Coleção Gaia-Ecoar,1996. Notas 1 No âmbito das iniciativas de políticas multidimensional de mudança social orientado públicas, destacam-se, em nível nacional, a a ecologização das práticas agrícolas no criação dos Núcleos de Educação Ambiental manejo dos agroecossistemas. Diferencia-se no IBAMA desde 1992; os centros de Educação desse apenas no sentido de destacar a Ambiental desde 1993 pelo MEC; Programa expansão da assimilação de um ideário Nacional de Educação Ambiental (PRONEA) ambientalizado também para um conjunto de instituído em 1994 pelo MEC e MMA; a práticas sociais e culturais no mundo rural não inclusão da educação ambiental nos necessariamente agrícolas. 3 Parâmetros Curriculares definidos pelo MEC Este pode ser entendido como um espaço em 1998; e aprovação da Política Nacional de de relações sociais e históricas onde se produz EA em 1999. e reproduz a crença no valor da natureza 2 A noção de transição ambiental aqui como um Bem que deve ser preservado, acima proposta compartilha com o conceito de dos interesses imediatos das sociedades. Esta transição agroecológica tal como proposto por crença alimenta a utopia de uma relação Caporal e Costabeber (2000) e Costabeber e simétrica entre os interesses das sociedades e50 Moyano (2000), enquanto processo os ciclos da natureza, no respeito aosAgroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.2, n.2, abr./jun.2001
  9. 9. Notasprocessos vitais e aos limites da capacidade uma discussão do conceito arendtiano de Açãode regeneração e suporte da natureza que Política e sua aplicação no contexto dadeveriam balizar as decisões sociais, e educação ambiental ver Carvalho (1992). 5reorientar os estilos de vida e hábitos coletivos Sobre a definição de sujeitos prioritários,e individuais. ver Ruiz, Javier Reyes. “Diagnóstico mexicano 4 Para Arendt (1989), o conceito de Ação sobre educación popular ambiental”. SeminarioPolítica é a expressão mais nobre da condição regional de capacitación de las comunidadeshumana. Os humanos se definem por seu agir para el manejo sustentable de los recursosentre seus pares, influindo no destino do naturales. Rede de Educación Popularmundo comum. Esta capacidade de agir em Ambiental - REPEC, México, 1995 (mimeo). 6meio a diversidade de idéias e posições é a A pesquisa "O que brasileiro pensa dabase da convivência democrática, da liberdade ecologia" (Crespo e Leitão, 1992), por exemplo,e da possibilidade de criar algo novo. Desta verificou entre os entrevistados essa lacunaforma, o Agir humano é o campo próprio da entre o convencimento racional e a disposiçãoeducação enquanto prática social e política para agir diferente frente ao meio ambiente.que pretende transformar a realidade. Para 51 Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.2, n.2, abr./jun.2001

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