Amor de perdição 1

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Amor de perdição 1

  1. 1. Amor de PerdiçãoDeCamilo Castelo Brancoa) Acção.Domingos Botelho abandona Vila Real e vai fixar residência em Viseu, paraonde fora nomeado correge-dor. Leva consigo mulher e filhos. Dois deles,Manuel e Simão, estudam em Coimbra.Num palacete, separado de sua casa apenas por estreita viela, vive Tadeu deAlbuquerque com sua filha Teresa, encantadora menina de 15 anos. Ocorregedor e o fidalgo, por questões de tribunal, odeiam-se ferozmente eproíbem os respectivos filhos de falarem uns com os outros.Simão, filho mais novo do corregedor, é um estudante boémio e de ideiasprogressistas. Depois de uma reclusão de meses no cárcere académico, emCoimbra, vem passar o resto do ano lectivo na casa paterna. Vê Teresa eapaixona-se por ela. Sabendo que os pais de ambos se opõem ao casamento,resolve mudar de vida, estudar e formar-se para ter dinheiro e poder constituirum lar, sem depender dos progenitores.Tadeu de Albuquerque, a par dos amores da filha, deseja a todo o transeconsorciá-la com o primo de Castro dAire, Baltasar Coutinho. Teresa resistetenazmente e coloca Simão ao correr de tudo. Este abandonou Coimbra e, parase encontrar com ela livre de suspeitas, hospeda-se na casa do ferrador João daCruz.De acordo com Teresa, Simão abeira-se, duas noites, do palacete onde ela mora,para lhe falar.Baltasar descobre estas visitas nocturnas e faz uma espera a Simão. Simão, quese fazia acompanhar de João da Cruz e do almocreve, é ferido por dois criadosdo fidalgo de Castro dAire, que pagam com a vida o atrevimento.O estudante convalesce em casa do João da Cruz, assistido por Mariana, filha doferrador, que se apaixona por ele, sabendo-o muito embora perdido de amorespela outra.Teresa, entretanto é encerrada num convento da cidade. Corresponde-se comSimão e diz-lhe que a vão afastar dali, internando-a no convento de Monchique,no Porto, e que fará a viagem acompanhada do primo Baltasar e irmãs. Simãofica desesperado com esta particularidade. Na hora da partida, aproxima-se dogrupo. Trava-se de razões com Baltasar e mata-o com um tiro.
  2. 2. Teresa, abaladíssima por tudo o que acabara de acontecer, seguiu paraMonchique. Simão foi encarcerado e Mariana, aflita, não o desampara; é o seuanjo bom no cárcere. Não obstante, Simão só vê no mundo uma mulher —Teresa. E Teresa, a definhar no convento, não pensa em outra coisa que não sejao amor de Simão.E quase três anos se passaram com os dois amorosos detrás das grades: a filhade Tadeu de Albu-querque, por nada a prender ao mundo, e o filho docorregedor, aguardando sentença definitiva.Simão é finalmente degredado para a índia e Mariana, já sem pai, não querseparar-se dele. Entram ambos no navio em frente de Miragaia. Num mirantedo convento, está um vulto a acenar. É Teresa que se despede. Simão não retiraos olhos dela. Mas, de repente, o vulto dela some-se.O comandante do navio, que veio mais tarde a terra, comunicou a morte da filhade Tadeu de Albu-querque àquele que tanto a amava. Simão não parou dechorar e não resistiu a tamanha dor. Dias depois, perto de Gibraltar, lançaram-no ao mar, envolto num sudário. Mariana, como uma estátua de sofrimento,está junto da amurada. Ao mesmo tempo que o cadáver de Simão mergulha naságuas, abraçada nele vai também para o fundo uma mulher, que se atirara donavio. Ë Mariana. Um avental ficou a boiar e junto dele um maço de papéis:eram as cartas de Teresa e Simão.A acção que acabamos de resumir tem como antecedentes o ódio que o romancedenuncia, e o amor: o ódio entre as famílias Botelho e Albuquerque e o amorentre Simão e Teresa. O seu desenvolvimento resumiu-o Camilo nesta frase daIntrodução, alusiva ao -protagonista principal: «amou, perdeu-se e morreuamando». Simão amou Teresa com loucura; assassinou Baltasar Coutinho, quese intrometera entre os dois apaixonados; morreu de amor a caminho dodegredo.Nesta fábula vislumbram-se todas as características clássicas da tragédia:poucas personagens a agir, acção interior intensa expressa sobretudo nas cartastrocadas entre os dois amorosos, uma certa fatalidade a predispor para adesgraça a Simão (que até fora baptizado em perigo de vida), um desafio dosfilhos aos pais desavindos (hibris), o sofrimento dos protagonistas a crescergradualmente (clímax), o autor com seus comentários a fazer de coro.Ao lado da acção principal descobrem-se duas curtas acções marginais: obosquejo histórico da família Botelho (cap. 1.°) e os amores adúlteros de Manuele da açoreana (cap. 16).b) Personagens.As personagens de Amor de Perdição não diferem muito das criadas por Camilonoutros romances. Caracteriza-as o amor e a violência. A violência justificam-nacom a defesa daquilo que supõem ser a honra ferida.No triângulo amoroso Simão-Teresa-Mariana, os dois primeiros comparsas sãode tipo vulgar, convencional. Teresa é o tipo normal de menina romântica da
  3. 3. época, sensível, amorosa, frágil. Não tem outras possibilidades na vida senãoescolher entre amar e morrer, pois não sabe fazer mais nada. Simão é já umapersonagem mais prosaica e, por isso, bastante mais humana. Loucamenteapaixonado a princípio, o tempo que passou na cadeia arrefeceu-lhe oentusiasmo amoroso. Quando lhe deram a escolher entre dez anos de prisão emVila Real, onde poderia ser visitado por Teresa, e o degredo ao ar livre na índia,embora sem oportunidades de a ver, não hesitou: preferiu o ar livre longínquo àreclusão junto da amada (cfr. caps. 18 e 19).Mariana é uma personagem diferente, rara. Determina-se no decorrer da obrapara direcções talvez não previstas pelo autor, dedicando-se a um homem quesabia muito bem estar louco por outra, num amor-vassalagem aparentementeassexuado. Espécie de confidente e moderadora de impulsos passionais dafábula trágica que em Amor de Perdição se vislumbra, dá-se ares de mulher-forte. Dona de casa muito cedo, Mariana começou por ser para Simão umaespécie de mãe, deslizando logo para a situação de companheira amorosa,esperando contra toda a esperança unir-se ao infeliz moço que um dia lheapareceu ferido em casa (cfr. cap. 18).Albuquerque e Botelho são caracteres comuns da pequena fidalguiaprovinciana, dominados pela raiva e desejo de vingança. João da Cruz é um tipobem urdido, espécie de bandido bom, disposto a tudo em prol dos amigos, massem escrúpulos nem remorsos perante o crime útil.c) O espaço e o tempo.Na parte introdutória da acção, o espaço dispersa-se por Vila Real, Lisboa,Cascais, Vila Real outra vez, Lamego, Coimbra e Viseu. Depois começa areduzir-se aos arredores de uma cidade provinciana (Viseu), para ir ficandocada vez mais coarctado: celas do convento e da prisão, beliche de um barco.Com o tempo sucede quase o mesmo. Sempre cronológico e contínuo, é aprincípio vertiginoso, abarcando quatro décadas em poucas páginas, para se irretardando depois cada vez mais na intriga propriamente dita, que abrange trêsanos. O ritmo narrativo rápido do capítulo primeiro passa logo a lento até quaseatingir a intemporalidade no fim da obra, projectando-se no pensamento dosamorosos para além da morte.d) Ponto de vista do narrador.O subtítulo da obra — Memórias de uma Família — parece sugerir-nos queCamilo pretendia, talvez em novelas sucessivas, fazer toda a história dosBotelhos. A intriga assenta em factos reais: Simão Botelho existiu na realidade efoi preso (mas por ter ferido um criado de José Cardoso Cerqueira); foi julgado eo pai intercedeu por ele e foi condenado a degredo para a índia (mas não morreuna viagem — chegou lá em 7-11-1807); teve um irmão chamado Manuel quedesertou e foi encoberto pelo pai. Todavia como se vê, os factos reais foramtotalmente adulterados na novela. Algumas personagens são pura invenção.O autor narra na terceira pessoa e, uma vezes, é omnisciente come se estivessedentro das personagens e no meio dos acontecimentos; outras vezes, porém,
  4. 4. confessa ter tido notícia do que conta através de cartas que transcreve (mais deuma dúzia) e até através de apontamentos ras¬cunhados por Simão.As descrições são poucas e sumárias (convento de Viseu, ambiente que cercaSimão na altura do assassinato de Baltasar, o panorama do Porto visto da janelada prisão). Só em traços muito vagos é que sugere o retrato das personagens.Predominam o diálogo e a narração.As peripécias são expostas com muita rapidez e economia de vocabulário, queestá reduzido ao mínimo essencial da comunicação, com predomínio desubstantivos e verbos. A linguagem é retórica quer nos diálogos amorosos quernos comentários do autor; no resto, como habitualmente no estilo camiliano,ora se reveste de eruditismo literário ora baixa ao nível popular, segundo aspersonagens que a usam. Alterna em toda a novela a prosa narrativa com aprosa poética, esta em evidência sobretudo nas cartas de amor.

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