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A influência do nível de letramento na construção

  1. 1. A influência do nível de letramento na construção de inferências: algumas considerações Ana Cláudia Junqueira Chiaretto (Doutoranda FALE/UFMG) Muitos autores acreditam que o objetivo do processo da compreensão é criar umarepresentação coerente do texto na memória. O texto deve induzir a uma representaçãocoerente na mente do leitor. Mas é preciso destacar que essa representação não equivale auma cópia literal do próprio texto. A coerência ocorre na mente do leitor, não no textopropriamente dito, embora o texto possa facilitar ou dificultar a interpretação (Sanford &Garrod, 1981). Se o leitor consegue processar o texto de forma satisfatória, construindo umarepresentação mental coerente do mesmo, pode-se dizer que houve compreensão. Mas oque dizer se o leitor não consegue construir uma representação mental que possa serconsiderada coerente? Como avaliar se essa incoerência está relacionada com problemasno próprio texto ou com limitações no processamento das informações textuais pelo leitor? Para Koch & Travaglia (1990), o juízo de coerência não depende apenas do modocomo se combinam elementos lingüísticos no texto, mas também de conhecimentosprévios sobre o mundo e do tipo de mundo em que o texto se insere, bem como do tipo detexto. Kleiman (1989) afirma que é mediante a interação de diversos níveis deconhecimento, como o conhecimento lingüístico, o textual e o conhecimento de mundo,que o leitor consegue construir o sentido do texto. Esses conhecimentos, de acordo comKoch e Travaglia (1990), não são armazenados na memória de forma isolada, mas seorganizam e se representam na mente em blocos que os autores chamam de conceitos emodelos cognitivos globais. Esses modelos cognitivos, ou configurações de conhecimento,podem ter, de acordo com Beaugrande (1980), pelo menos quatro perspectivas: frames,esquemas, planos e scripts, que determinariam a maneira através da qual os conhecimentosseriam armazenados na memória em forma de conjuntos. As categorias apontadas acima são estanques, e acabam por engessar o pesquisador,limitando seu trabalho a tais categorias. Estaríamos falando, dessa forma, de contextosestabelecidos a priori, e de conhecimentos que os leitores detêm, conhecimentos esses quesão prévios à leitura. Torna-se necessário, então, buscar outras formas de avaliar essesconhecimentos que o leitor carrega consigo, uma vez que a teoria dos esquemas já não ésuficiente. Acreditamos que a Teoria da Relevância (Sperber e Wilson, 1995) fornecesubsídios teóricos muito interessantes, por possibilitar toda uma revisão e reformulação deconceitos que são caros à lingüística ortodoxa (e dentre eles a noção de conhecimentoprévio). A Teoria da Relevância é uma teoria que trata da comunicação humana. De acordocom Alves (2001): [...] a TR propõe a reformulação dos pressupostos do modelo de código e do modelo inferencial através do amálgama desses dois modelos. Chega-se, então, à proposta de um modelo de natureza ostensivo-inferencial. Para Sperber e Wilson, o processo de comunicação é assimétrico, ou seja, os pressupostos e as expectativas do falante (emissor) são completamente diferentes daquelas do ouvinte (receptor). O falante tem um comportamento basicamente ostensivo, enquanto o ouvinte apresenta um comportamento, sobretudo, inferencial. Se considerarmos, em conformidade com os pressupostos da Teoria da Relevância,que o contexto não pode ser pré-determinado, fica clara a necessidade de buscar outras 1
  2. 2. formas de estudar o modo pelo qual as informações que o sujeito carrega consigocontribuem (ou dificultam) a compreensão. A noção de conhecimento prévio nãocontempla de forma adequada o que Sperber e Wilson (1995) chamam de comportamentoinferencial do leitor, por implicar a utilização pelo leitor de informações adquiridasindependentemente da leitura do texto em questão. Podemos optar pela noção de ambientecognitivo, que é dinâmico e que, aliado a um determinado comportamento ostensivo-inferencial e uma manifestação mútua pode criar um determinado efeito contextual, que sópode ser estabelecido depois do ato da compreensão. É importante frisar aqui que é a partir da construção de inferências que surgem oschamados efeitos contextuais, ou seja, os resultados do processamento das informaçõescontidas no texto lido. De acordo com a TR, esses efeitos podem ser de três tipos: os quereforçam as suposições existentes, os que contradizem e eliminam essas suposições e osque resultam em novas conclusões. Observe o texto: Pés nossos que estão no chão Glorificados sejam vossos tênis Seja feita vossa vitória Assim na terra como na grama Pão nosso de cada dia nos dai hoje E não nos deixeis cair na marcação Mas livrai-nos dos passes errados. Para um povo que tem o futebol como religião Torcer pelo Brasil é sagrado. Coca-cola, Pelé e você Juntos na paixão pelo futebol. O texto acima foi extraído do filme “Beija Flor”, divulgado durante a Copa doMundo de 2002, como parte da campanha publicitária feita para a Coca-Cola. Talcampanha foi composta por uma série de peças publicitárias, dentre elas três filmes: BeijaFlor, Torcida e Despertar. Optamos pelo texto Beija-flor por se tratar de uma peçapolêmica, uma vez que há a construção de uma relação que pode parecer desrespeitosa: amistura explosiva de oração (religião) com futebol e com Coca-Cola. As primeiras setefrases parodiam a oração “Pai Nosso”, mas o foco é no futebol, o que se explica pelo fatode tal peça ter sido veiculada na época da Copa do Mundo. Podemos prever, analisando os elementos da codificação conceitual eprocedimental, os seguintes desdobramentos inferenciais: 1. Falta de respeito ao relacionar fé com futebol e com marca comercial (inferência global). 2. O futebol é a religião do brasileiro. 3. Pelé é o jogador brasileiro conhecido no mundo todo graças ao seu talento jogando futebol. 4. Até o Pelé toma Coca-Cola. Ou seja, o Brasil toma Coca-Cola. 5. Coca-Cola tem paixão por futebol. 6. Você, que é brasileiro, com certeza torce para o Brasil, sabe quem é o Pelé e também toma Coca-Cola. Parece-nos interessante avaliar, aqui, a construção de inferências e sua relação como nível de letramento do leitor. E para tanto, podemos contar, no momento, com algunstrechos do texto “Cloaca do Penta”, de Eugênio Bucci (ver anexo). De acordo com a caracterização proposta por Rojo (1995), Bucci faz parte dopequeno grupo brasileiro de leitores com alto grau de letramento. Tomamos a liberdade de 2
  3. 3. fazer tal caracterização ad hoc por conhecermos o trabalho de Bucci, enquanto jornalista ecolunista da Folha de São Paulo. Lendo o texto “Cloaca do Penta”, texto que se refere diretamente à peça publicitáriacitada, ficam claros alguns dos desdobramentos inferenciais feitos por Bucci:  “Coca-Cola”: imperialismo, multinacional, marca que “não por acaso nada tem de nacional, nem de esportiva e muito menos de católica.  “Futebol”: Pelé, uniforme do Santos, chuteira, bola de capotão, rosto do rei, Rei do futebol.  “Publicidade”: campanha, placas, comercial, telespectador, peça, câmera, propaganda, superindústria, imaginário superindustrial, consumo, mercadorias.  “Linguagem”: paráfrase, sentidos e significação, signos, poema  “Décio Pignatari”: “pioneiro da crítica de TV no Brasil e poeta”.  “Confesso”: toda sua argumentação leva à seguinte conclusão “É assim e, no entanto, funciona.” Os elementos da codificação conceitual e procedimental são o ponto de partida paraa construção de inferências demonstrativas e não-demonstrativas, segundo Sperber &Wilson (1986). As inferências demonstrativas são resultado da decodificação lingüística eas inferências não-demonstrativas resultam basicamente de processos inferenciais, apesardo fato de ambas partirem de um pressuposto dedutivo, de acordo com a TR. Inferir que,na frase “Para um povo que tem o futebol como religião”, a palavra povo (elemento dacodificação conceitual) refere-se exclusivamente ao povo brasileiro é construir umainferência demonstrativa. Por outro lado, construir a relação entre Coca-Cola e marca que“não por acaso nada tem de nacional, nem de esportiva e muito menos de católica” éconstruir uma inferência não-demonstrativa, inferência essa construída graças ao grau deletramento de Bucci. Muitos leitores provavelmente não construiriam tal inferência e,ainda assim, poderiam compreender a peça publicitária em questão. Dentre os diversos tipos de publicidade existentes, optamos por estudar o textopublicitário impresso. Uma das principais razões para a escolha do texto publicitário comoobjeto deste estudo reside em ser um gênero discursivo muito próximo da oralidade, apesarde ser escrito. Por esse motivo, trata-se de um gênero que atinge uma camada muito grandeda população brasileira. Afinal, somos bombardeados o tempo todo por textospublicitários. Não é preciso nem sair à rua em busca dos mesmos: basta abrir uma revista elá estão eles. Não há dúvidas, portanto, de que esse gênero textual faz parte do cotidiano damaioria das pessoas, o que nos leva a acreditar que ele seja um dos gêneros mais lidos. E éjustamente pelo espaço que o texto publicitário ocupa na nossa sociedade que surgemmuitas questões, tais como:  As peças publicadas em revistas de circulação nacional conseguem realmente ser compreendidas pelos leitores aos quais elas se remetem, tendo em vista as prováveis diferenças culturais que cada leitor de cada ponto desse Brasil carrega consigo?  Parece óbvio afirmar que o processo de compreensão do texto é individual e exige esforço particular de construção de significado para o mesmo. Mas até que ponto a carga de conhecimento do leitor influencia nesse processo de compreensão?  Sendo que o efeito contextual almejado pelo texto publicitário é a persuasão, ou seja, convencer o leitor a comprar um determinado produto ou serviço, em que medida seria o letramento um fator decisivo para o sucesso ou fracasso desse processo de convencimento? 3
  4. 4.  Pode-se dizer que, na leitura de textos publicitários, o processamento de inferências se dá de forma satisfatória, resultando nos efeitos contextuais desejados (persuadindo o leitor a comprar os produtos ou serviços oferecidos)? Por quê?  Outra questão que se coloca está relacionada ao papel do letramento no processamento de inferências. Sujeitos com diferentes níveis de letramento processam inferências da mesma forma? Um nível maior de letramento facilita ou não o processamento de inferências? Até que ponto? As perguntas acima remetem diretamente à questão do letramento. Isto porque sesabe que, para compreender um texto, são necessárias habilidades que extrapolam a meradecodificação de sinais gráficos. E entender o ato de ler como algo que vai muito além dadecodificação é entender o leitor como elemento fundamental no processo da leitura: é elequem construirá a representação mental do texto lido. E é a partir dessa mudança deenfoque (mais no processo do que no produto) que a lingüística passa a contar comimportantes contribuições de outras áreas de conhecimento, como a psicologia e apsicanálise, a filosofia, a antropologia e a inteligência artificial. Essa visão da leitura como processo de construção de significados acarreta todauma revisão nos estudos sobre a linguagem, uma vez que elementos fora do texto tambémprecisam ser investigados. É preciso levar em consideração o leitor enquanto indivíduo, ecada indivíduo traz consigo suas próprias experiências, seus próprios conhecimentos, suaspróprias capacidades. Como lidar com tantas diferenças? Como obter sucesso nacomunicação diante de tamanha heterogeneidade? Não temos a pretensão de trazer aqui respostas ou soluções para as questõesapontadas. O objetivo, neste momento, é chamar a atenção para a importância dainvestigação do fenômeno letramento e sua relação com a construção de inferências e,conseqüentemente, da compreensão. De qualquer forma, as escolhas teóricas propostasacima parecem abrir todo um leque de possibilidades de investigação lingüística para quese possa chegar, no futuro, a conclusões mais precisas sobre a leitura, não apenas de textospublicitários, mas de outros gêneros textuais, até mesmo os que estão surgindo a cada diacom as novas tecnologias, como os chats, os blogs e as homepages.Referências Bibliográficas:ALVES, F. Teoria da Relevância e Estudos da Tradução: perspectivas e desdobramento.In: ALVES, F. (org.) Teoria da relevância e tradução: conceituações e aplicações. BeloHorizonte: Faculdade de Letras, UFMG, 2001.Beija Flor. Filme divulgado durante a Copa do Mundo de 2002, como parte da campanhapublicitária da Coca-colaBUCCI, Eugênio. Cloaca do Penta. Folha de São Paulo. São Paulo: 09/06/2002. TV Folha,Crítica, p. 2.KLEIMAN, Ângela. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. Campinas, São Paulo:Pontes, 1989.KOCH, I. V. & TRAVAGLIA, L. C. A Coerência Textual. 5a ed. São Paulo: Contexto,1990SANFORD, A. J., GARROD, S. C. Understanding written language: Explorations of comprehension beyond the sentence. New York: John Wiley & Sons, 1981.SPERBER, D.& WILSON, D. Relevance: Communication and Cognition. Oxford:Blackwell, 1986/1995. 4
  5. 5. Anexo - Cloaca do penta1CONFESSO que bebo Coca-Cola. Ao longo da minha existência, devo ter tido asentranhas lavadas por uma Baía da Guanabara de Coca-Cola. Um oceano de Coca-Cola.Um século de imperialismo de Coca-Cola. Eu obedeço as placas que ordenam "Beba Coca-Cola". Eu bebo Coca-Cola. E é assim, dessa condição de um animal que bebe Coca-Cola eque pela Coca-Cola é bebido que eu posso afirmar: eu tenho nojo dessa campanha daCoca-Cola em prol do Brasil na Copa do Mundo. Tenho nojo sobretudo desse comercialem que Pelé aparece suado, pingando, com o uniforme do Santos e, claro, bebendo Coca-Cola. O Pelé bebe Coca-Cola. O leitor, telespectador que é, há de ter visto a peça emquestão. [...] É isso aí: a publicidade se apropria das cores da bandeira nacional, do Rei dofutebol e do "Pai Nosso" para construir o valor da marca que, não por acaso, nada tem denacional, nem de esportiva e muito menos de católica. É isso aí: eu sinto nojo. Apublicidade é uma superindústria sem cerimônia que fabrica sentidos e significações para avida vazia dos sujeitos do público. Para nós. Cada um de nós se completa nos signos que asuperindústria da publicidade nos oferece. Antes, essas significações eram proporcionadaspela cultura; hoje, são confeccionadas na superindústria. Quem sou eu? Antes, eu seria umbrasileiro, um fã do Pelé, um cristão que gostava de rezar o "Pai Nosso". Hoje, eu sou umbebedor de Coca-Cola, como um ralo, como um bueiro, como o Pelé. Por isso a marca daCoca-Cola tem tanto valor, porque ela se infiltra nos nossos mecanismos identitários, como perdão da expressão, e com o perdão da rima em "ão", e aí, infiltrada, ela nos diz quemsomos. [...] Voltemos, enfim, ao juízo que nunca tivemos. O imperativo "Beba Coca-Cola"entra assim nos desvãos da fé religiosa, do patriotismo, da devoção a um rei, nem que sejaum rei do futebol. E cria seu valor. Como se fôssemos todos idiotas, todos inimputáveis,todos obedientes bebedores de Coca-Cola. É assim e, no entanto, funciona.1 Bucci (2002) 5
  6. 6. Anexo - Cloaca do penta1CONFESSO que bebo Coca-Cola. Ao longo da minha existência, devo ter tido asentranhas lavadas por uma Baía da Guanabara de Coca-Cola. Um oceano de Coca-Cola.Um século de imperialismo de Coca-Cola. Eu obedeço as placas que ordenam "Beba Coca-Cola". Eu bebo Coca-Cola. E é assim, dessa condição de um animal que bebe Coca-Cola eque pela Coca-Cola é bebido que eu posso afirmar: eu tenho nojo dessa campanha daCoca-Cola em prol do Brasil na Copa do Mundo. Tenho nojo sobretudo desse comercialem que Pelé aparece suado, pingando, com o uniforme do Santos e, claro, bebendo Coca-Cola. O Pelé bebe Coca-Cola. O leitor, telespectador que é, há de ter visto a peça emquestão. [...] É isso aí: a publicidade se apropria das cores da bandeira nacional, do Rei dofutebol e do "Pai Nosso" para construir o valor da marca que, não por acaso, nada tem denacional, nem de esportiva e muito menos de católica. É isso aí: eu sinto nojo. Apublicidade é uma superindústria sem cerimônia que fabrica sentidos e significações para avida vazia dos sujeitos do público. Para nós. Cada um de nós se completa nos signos que asuperindústria da publicidade nos oferece. Antes, essas significações eram proporcionadaspela cultura; hoje, são confeccionadas na superindústria. Quem sou eu? Antes, eu seria umbrasileiro, um fã do Pelé, um cristão que gostava de rezar o "Pai Nosso". Hoje, eu sou umbebedor de Coca-Cola, como um ralo, como um bueiro, como o Pelé. Por isso a marca daCoca-Cola tem tanto valor, porque ela se infiltra nos nossos mecanismos identitários, como perdão da expressão, e com o perdão da rima em "ão", e aí, infiltrada, ela nos diz quemsomos. [...] Voltemos, enfim, ao juízo que nunca tivemos. O imperativo "Beba Coca-Cola"entra assim nos desvãos da fé religiosa, do patriotismo, da devoção a um rei, nem que sejaum rei do futebol. E cria seu valor. Como se fôssemos todos idiotas, todos inimputáveis,todos obedientes bebedores de Coca-Cola. É assim e, no entanto, funciona.1 Bucci (2002) 5

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