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Foi esse "show" que deu origem a acirradas querelas sobre efeitos catárticos ounarcotizantes que vêm mobilizando pais, edu...
considerado o "ambiente televisivo", que comprovem danos biológicosirreversíveis como os que refere Marie Winn.A pesquisad...
Em 1991, recebo uma bolsa do CNPq de Pós-Doutorado, com duração de um ano,para o desenvolvimento da pesquisa "Tevê e crian...
Em 1950, a televisão chegou e, rapidamente se desenvolveu e se estendeu a todosos lugares e regiões do país. Mudaram-se os...
Mas as crianças espanholas (Pacheco, 1991) estão consumindo tanta televisãoquanto as crianças brasileiras, e tal fato é mo...
BANDURA, A. "Transmission of agression though imitation of agressive models". In:The Journal of abnormal and psychology, 3...
Profa. Dra. Elza Dias Pacheco é Livre-Docente da ECA/USP e coordenadora do LAPIC - Laboratório de Pesquisassobre Infância
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  1. 1. Televisão, Criança e Imaginário e Educação: Dilemas e Diálogos Profa. Elza Dias Pacheco Livre-Docente pela USPO mundo vive hoje uma nova era, uma segunda revolução - a técnico-industrial - advinda das Novas Tecnologias da Informação. É uma revoluçãosilenciosa que veio para ficar, e que se caracteriza pelo desenvolvimento dastelecomunicações, da informática, da automação de serviços, dos robôs, dossatélites, dos eletrodomésticos, e até dos eletrônicos utilizados para o lazer.A informação, por mais polêmica que seja, já invadiu os lares, as indústrias, asescolas. Nos Estados Unidos, pelo menos dois mil jornalistas desenvolvem a suaprofissão sem sair de casa, através de uma rede de computadores. O mundo cadavez mais usa a tecnologia digital que se tornou uma linguagem universal. Até emescritórios domésticos, nas escolas e nas residências, a correspondência se faz viatelex e fac-simile.Entretanto no Brasil, apenas escolas de grande porte, numa competição para atrairalunos e manter os já existentes, abriram suas portas ao computador, nas escolasfrancesas, inglesas, canadenses e estadunidenses ele já é um instrumento comumaté nas escolas elementares.Já não é novidade o videotexto; agora é o videodisco interativo que associa textos,imagens e vozes armazenadas em videodiscos acoplados a um sistemacomputadorizado. É o diálogo homem-máquina. É a "Terceira Onda" de Toffler.Toda esta alta tecnologia interfere na produtividade, e consequentemente nomercado de trabalho. Tal dilema é bem colocado por Schaff, em "A SociedadeInformática".Em termos de Brasil, em especial no setor da educação, o que foi exposto éum "Admirável mundo novo", completamente ignorado pela maioria dosnossos educadores, o que não parece muito estranho, já que a querela sedesenrola sobre o veículo televisão, que ainda não adentrou oficialmente os murosda escola, embora continue como uma "escola paralela" diante da realidade dosprofessores e dos currículos escolares. O mesmo pode ser dito com relação aovídeo.No entanto, esse crescente desenvolvimento tecnológico criou novas aspiraçõesbaseadas no "american way of life". A casa do bairro afastado foi substituída pelosmini-apartamentos das zonas centrais, onde as crianças foram confinadas.A indústria eletrônica respondeu de pronto: impingiu-lhes uma "babá eletrônica" - aTV - que funciona vinte e quatro horas por dia, condicionando a rotina das criançase de seus familiares, através do "show" que não pára. Nele desfilam heróisinvencíveis e invulneráveis que, através de forças sobrenaturais, vencem os maisvariados monstros e impedem as mais terríveis catástrofes que ameaçam ahumanidade.
  2. 2. Foi esse "show" que deu origem a acirradas querelas sobre efeitos catárticos ounarcotizantes que vêm mobilizando pais, educadores e especialistas de diversasáreas do conhecimento e de diversos países do universo, continuando semrespostas definitivas a inúmeras questões, diretamente ligadas às nossas crianças,como: • Os programas de televisão propiciam oportunidade de questionamento ou geram passividade e conformismo? • Geram agressividade ou sensibilidade? • A televisão educa para a criticidade e liberação ou para a domesticação? • A televisão interfere no rendimento escolar? • A televisão prejudica o desenvolvimento perceptual e emocional da criança? • Que linguagem usa a televisão para ser tão sedutora e para que seu efeito encantatório seja ilimitado? • Até que ponto chega o seu poder de persuasão para que os comportamentos sejam mudados?Para responder a estas e outras perguntas, pesquisadores de todo mundo vêm sedebruçando sobre o tema "Televisão e seus efeitos". A. Bandura, O. N. Larsen, M.R.Liebert, M. Winn, (...), nos Estados Unidos; H. T. Himmelweit, (...), na Inglaterra;U. Eco, (...) na Itália; E. Verón, (...), na Argentina; E. Santoro, M. Colomina, (...),na Venezuela; M. A . Erausquin, (...), na Espanha. No Brasil, podem-se destacar ostrabalhos de S. Miceli, M. T. F. Rocco, que abordam problemáticas diversas e M. J.Beraldi, E. D. Pacheco, M. F. R. Fusari, que pesquisam o tema "A relaçãoTevê/Criança".São, pelo menos, trinta anos de estudos sobre este onipresente meio que éa televisão, e apesar disso não temos todas as respostas. Possuíamosalgumas que não são definitivas e nem definidoras, como exigem as questões quese levantam. Por quê? U. Eco parece nos responder quando diz que as respostasadvém, em sua maioria, das atitudes das pessoas que, em geral, podem serchamadas "apocalípticas e integradas". Tal afirmação, embora revestida deludicidade, leva-nos a refletir sobre o perigo das avaliações maniqueístas que secristalizam, gerando conflitos na comunicação.Falando de "apocalípticos e integrados", a título de exemplo, citaremos a obra deMarie Winn, "TV, Drogue?", que suscitou grandes preocupações e discussõesquando se referiu aos possíveis efeitos que um programa de televisão trazia aoshemisféricos cerebrais das crianças, em especial ao relacionado com áreas dalinguagem. Acredita a autora, que o fato de a televisão impedir a criança de exercera sua capacidade lingúistica, trará como consequência um prejuízo nodesenvolvimento verbal.Em seu trabalho, de cunho apocalíptico, a autora parece ignorar trabalhos deVygotski quando, em "Pensamento e linguagem", fala sobre o discurso interiorenquanto transformação e evolução do discurso egocêntrico infantil, discurso que acriança pequena mantêm com ela mesma durante as suas atividades lúdicas -solilóquio ou fala egocêntrica, na linguagem de Piaget. Pois é este discurso interiorque a criança, ao assistir televisão, utiliza como tipo de "diálogo" para se relacionarcom o veículo televisivo, e que lhe serve de base para o discurso exterior.Com tal afirmação, e deixando claro que minha posição não é a de "integrada"(retorando ao conceito de U. Eco), quero dizer que de tudo que já li sobre efeitosda televisão em crianças (e como já li!), não conheço nenhum estudo baseadoem pesquisas empíricas, com controle de variáveis, e que tenham
  3. 3. considerado o "ambiente televisivo", que comprovem danos biológicosirreversíveis como os que refere Marie Winn.A pesquisadora brasileira M. T. F. Rocco (1989:26), assim se refere à obra queacabamos de citar:Ainda que aceitemos discutir as eventuais limitações que possam sobreviver aindivíduos que permaneçam horas a fio diante da televisão, não concordamos como tratamento excessivamente apocalíptico dado ao tema pela obra de Marie Winn.Por certo, alguns efeitos devem ocorrer, mas não cremos, no entanto, numcomprometimento irreversível de níveis menos ou mais complexos no pensamentoverbal. Afinal, não fossem teorias epistemológicamente tão sólidas quanto, no caso,a de Vygotski, teríamos no outro prato da balança, a força das evidências.É diante dessa televisão que sessenta milhões de brasileiros (quase a metade dapopulação), de diferentes idades e de diferentes estratos sociais, pára as suasatividades para assistir a "Novela das Oito", programa de maior audiência levado aoar pela Rede Globo. Qual o motivo de tanta fascinação? Entre as diversas respostastemos: "Esta é um verdadeiro Olimpo, com narrativas fabulosas"; "Ela lida comvivências profundas do cotidiano cercado de mistérios"; "Ela é uma janela para ouniverso"; "Ela nos permite encontros com desejos universais (...)".Essas e outras questões, tendo a criança como centro, direcionam as minhasinvestigações há mais de vinte anos. Elas tiveram início com a minha tese dedoutorado "O Pica-Pau: herói ou vilão? Representação Social da Criança eReprodução da Ideologia dominante", publicada com o mesmo nome, pela EditoraLoyola, São Paulo, 1985.Tal pesquisa, embora de cunho um pouco apocalíptico, foi o marco que originou osmeus trabalhos e observações sobre a relação TV/Criança. Dessas preocupaçõessurgem meus três cursos de pós-graduação : 1 - TV/Criança: uma cultura de lazerou de alienação? ; 2 - Infância, Cotidiano e Imaginário Infantil; 3 - Meios deComunicação, Infância e Educação: representações e imaginário social; a minhalinha de pesquisa, Comunicação e Educação; o LAPIC - Laboratório de Pesquisassobre Infância, Imaginário e Comunicação; e o grupo de trabalho ImaginárioInfantil, que coordenei na INTERCOM até 1996.Foi ainda o Pica-Pau, programa preferido pelos sujeitos da minha tese dedoutorado, que me levou a aprender a ler a linguagem cinematográfica dosdesenhos animados veiculados pela tevê, a fim de entender a fascinação que elesdespertam nas crianças. Assim surge a minha produção, tentando esclarecer asquerelas acirradas sobre efeitos catárticos ou narcotizantes e responder a perguntaainda não suficientemente aclarada, como: Por que a TV, amada por muitos éodiada por poucos? Qual será o enigma de tanta fascinação? Por que o Pica-Pau,Tom e Jerry e outros desenhos tradicionais resistem ao tempo e até a inovaçõestecnológicas do gênero?Em 1989, defendo a minha Livre-Docência, na ECA/USP, intitulada "A ECA pordentro e por fora - escola e trabalho: o poder SER e o poder FAZER dos jovens",que se constituiu em uma denúncia sobre a realidade acadêmica.Em 1990, coordeno o curso de extensão: Comunicação, educação e arte na culturainfanto-juvenil, para um público de 300 pessoas, que gerou a publicação, pelaLoyola, do livro do mesmo nome. Devido a sua repercussão, organizo o segundocurso de extensão com a mesma temática, para o qual se inscreveram 600profissionais de várias áreas do conhecimento.
  4. 4. Em 1991, recebo uma bolsa do CNPq de Pós-Doutorado, com duração de um ano,para o desenvolvimento da pesquisa "Tevê e criança : produção cultural, recepçãoe sociedade", Espanha, na Universidad Complutense de Madrid, que objetivouestabelecer um paralelo cultural sobre a relação TV/criança na Espanha e no Brasil.Em 1994, organizo o LAPIC - Laboratório de Pesquisas sobre Infância, Imaginário eComunicação - que aglutina pesquisadores de várias instituições de ensino. De1994 a 1997, o LAPIC, com a subvenção do CNPq, realiza a Pesquisa Integrada"Televisão, Criança e Imaginário : contribuições para a IntegraçãoEscola/Universidade/Sociedade".Em 1997, tem início uma nova Pesquisa Integrada, financiada em parte (bolsistas)pelo CNPq, e em parte pela FAPESP, denominada "O Desenho Animado na Tevê :Mitos, Símbolos e Metáforas".O LAPIC vincula-se ao Departamento de Comunicações e Artes, da Escola deComunicações e Artes da Universidade de São Paulo, e tem como finalidades: • Realizar pesquisas que visem a produção de novos conhecimentos e o desenvolvimento de novos paradigmas para o estudo das mediações no processo de recepção, da leitura crítica e na análise de conteúdo da produção cultural para a infância, com a participação integrada de pesquisadores de várias instituições acadêmicas; • Colaborar na formação de novos pesquisadores na área de Comunicação/Educação e Tecnologia, a partir de alunos/bolsistas de Iniciação Científica; • Desenvolver grupos de estudos avançados com especialistas que já tenham produzido trabalhos sobre representações da infância, a fim de abrir espaço para a discussão acadêmica e a sistematização de temas conjunturais relevantes para a integração Universidade/Escola/Sociedade."Mais do que integrar academia, escola e sociedade, o LAPIC vem discutindo anecessidade do professor, através da Comunicação Social, de recursos midiáticosdas novas linguagens e da mídia eletrônica, trabalhar as disciplinas curriculares apartir de eixos temáticos globalizados e que fazem parte do cotidiano de umasociedade plural como: SAÚDE, que inclui a qualidade do desenvolvimento físico,emocional, sexual, intelectual, moral e social; CULTURA, que inclui o conhecimentoe respeito pela diversidade cultual (incluindo etnias, religiões, ideologia...);EDUCAÇÃO, que não inclui apenas o direito ao ingresso e permanência na escola(educação democrática), mas o amor e respeito por tudo que é nosso e do outro,como a cidade, o bairro, a escola, o clube, as instituições públicas e privadas, asmatas (...); TRABALHO, que sem opressão, permita a satisfação das necessidadesbásicas; LAZER, não apenas para o descanso dos fins de semana, mas para odesenvolvimento da criatividade. Só uma educação, formal ou informal, queconsidere esses eixos temáticos, como "fins" e como "meios", estará possibilitandoa formação do cidadão consciente e crítico dos seus direitos e responsabilidades,permitindo-lhes assim, a análise crítica da realidade para que seja co-participantedas transformações sociais" (Pacheco, 1998:10).2. Falamos das rápidas transformações que o mundo vive hoje em funçãoda revolução tecnológica, na qual a televisão tem um papel preponderante. Antesda televisão, no Brasil, as reuniões de amigos ocorriam em praças, nas esquinas,nos bares, nas calçadas, onde cada um dispunha da melhor forma a sua cadeira,para participar das conversas que ocorriam sob a vigilância do luar.
  5. 5. Em 1950, a televisão chegou e, rapidamente se desenvolveu e se estendeu a todosos lugares e regiões do país. Mudaram-se os costumes, a moda passou a orientar-se pelos astros da TV, o linguajar perdeu as suas características próprias, ascrianças, pouco a pouco, foram deixando as "trocinhas" e "peladas", que lhesoferecia a oportunidade do contato com a diversidade cultural, e foram se rendendoaos encantos da "telinha mágica". Tudo isso em função do "american way of life"que, sem pedir licença adentrou as nossas casas pelo tubo eletrônico.A partir da década de 60, em todos os países, a televisão comparece ao tribunalpara ser julgada. "Ela é o mais alienante dos meios de comunicação", dizem uns;"ela é o melhor invento da sociedade contemporânea", dizem outros. Umberto Ecoentra em cena com a obra "Apocalípticos e integrados" tentando de certa formaequacionar a polêmica: "A televisão é um dos fenômenos básicos de nossacivilização e é preciso portanto, não só encorajá-la nas suas tendências maisválidas, como também estudá-la nas suas manifestações" (1976:125).Após tanto tempo decorrido, o debate entre "Apocalípticos e integrados",em torno da televisão, continua acirrado. Apesar de todos os ataques às 625linhas do tubo de raios catódicos, a televisão continua como peça principal da casa,ora como "babá eletrônica", ora como pano de fundo para as conversas entreamigos, ora como convidada assídua das refeições, ora como convite ao silênciofamiliar, mas sempre ligada: como se fora "o convidado especial do dia" ou "ohóspede eterno". "As profecias não se realizam (...) a vida continuou. 1984 chegou.O apocalipse não veio, no entanto, também não vieram o "riso" e nem a "utopia"(1989:39).Ao contrário, estamos vivendo o revigoramento da TV através do vídeo, dos jogoseletrônicos e está prevista a TV de alta definição. Não serão mais 625 linhas, mas1200 o que permitirá imagens eletrônicas semelhantes ao cinema. E tudo isso é econtinuará sendo televisão. Assim, ela não acaba, apenas se modifica,permanecendo em pauta os discursos que a acusam de todos os males e aquelesque vêem nela o melhor evento da humanidade. É o que se pode ler em artigos,informes, notícias, teses (...) de autores estrangeiros. Podemos adiantar que taisfalas não diferem muito da dos brasileiros, pois, embora catalogada como umserviço técnico de telecomunicação, a televisão é discutida apenas como fenômenosocial, e como tal, fala-se dos seus prováveis efeitos, muitas vezes utilizando-separadigmas teóricos e metodológicos inadequados.Afirmações desse tipo, em parte, ainda se baseiam em estudos norte-americanos,cujo referencial continua a ser experimentos semelhantes aos de Bandura. Quandose fala em violência é necessário saber explicitar o que se está considerando comotal. Quando se aborda a violência da televisão, em geral, se fala de quantasmortes, quantos estupros, quantos assassinatos já foram vistos por uma criança dedeterminada idade e, a partir daí, faz-se uma estimativa de quantos eventossangrentos ela terá assistido ao completar a sua maioridade. Nisso parece quereside a preocupação da maioria dos pais e mestres, e de alguns estudiosos muitopreocupados em contabilizar tais eventos. No entanto, há que perguntar-se apropósito do filme ou outra produção cultural, o que se considera violento nele, sesão os tiros, os pontapés, os socos, ou se está se considerando o outro lado, que éconstituído pela autoridade, pela ideologia dos poderes do "establishment", aapologia dos que mantêm a ordem que não está em discussão e que, portanto,podem utilizar de toda espécie de violência. É bom não nos esquecermos de quetodo programa de televisão é carregado de ideologia, desde o desenho animadomais curto e simples até as publicidades, e por que não, as instituições família,escola, igreja, clube, sindicato (...).
  6. 6. Mas as crianças espanholas (Pacheco, 1991) estão consumindo tanta televisãoquanto as crianças brasileiras, e tal fato é motivo de preocupação para os doispaíses, em especial, com a colonização cultural alienígena denominada, naEspanha, de "Yankenização", que atinge as atividades intelectuais, o estilo de vida,a escala de valores individuais e coletivos, resultante da invasão da programaçãonorte-americana que atinge a faixa de 50%, sem se contabilizar os comerciais damesma procedência.Mas qual a saída? É necessário unir esforços para se repensar as atividades lúdicasda criança, reorientando a utilização da TV, que no lar, quer na escola, impedindoque ela seja mais um meio de escapismo às carências afetivas e ao isolamento dascrianças. É esta a proposta de pesquisadores brasileiros que, a par das qualidadespró-sociais da TV, tentam ajustá-la ao currículo escolar não só para que ela sejalida em seus aspectos técnicos, mas para que através dela se aprenda a ter contatocom a contemporaneidade e com os problemas atuais.Esta é também a proposta dos pesquisadores do LAPIC que, acreditando no poderda televisão, dizem que não se pode demonstrar que as crianças sejam passivasdiante da TV e nem que sua capacidade de leitura se deteriore. A TV, como osvídeojogos, e, em certa medida, os computadores, favorecem um novo tipo decompreensão e de comunicação baseada nas propriedades da imagem. Nem apsicologia nem qualquer outra ciência pode adotar um resposta definitiva sobre sea TV é boa ou não para as crianças. Sua influência dependerá de como ela éutilizada.A TV comercial pode e deve ser utilizada como meio didático, já que através dela acriança recebe muita informação. Para tal deverá haver uma seleção de programasque estão em relação com as temáticas em estudo, o que exige que os professoresconheçam a programação televisiva. Quem sabe se sintonizar a televisão nosprogramas infantis não tem para nossas crianças ressonância e poder de seduçãoda velha "era uma vez"?Todos nós somos conscientes da importância de Heide ou Sandokan, que depois depassar pela televisão marcaram tanto as crianças. E não é estranho queprofessores se questionem sobre estas séries, tentando descobrir tanto seus efeitospositivos como negativos. Perceber o espetáculo pela TV na atualidade é tãonecessário como aprender a ler e escrever. Por sua natureza, a TV reúne todos ostipos e formas de arte e de todos os procedimentos para apresentar ação dosacontecimentos no momento e local em que ocorrem. A câmera é capaz demostrar, desde o brilho dos olhos de um cosmonauta após sua descida à Terra, atéum grandioso terremoto. Assim, aprender o alfabeto da TV resulta algo parecido aaprender a ouvir música, a ver um espetáculo, um filme, uma pintura. Énecessário, no entanto, explicar como a televisão interpreta o mundo e a arte. Énecessário que se entenda que a capacidade do quadro exclui, em comparação como cinema, a grande magnitude da imagem, onde se limita a participação humana.Por outro lado, se ganha nas tomadas em "close-up" e em outros planos._____________________________________________Web-site do LAPIC:http://www.eca.usp.br/nucleos/lapic/lapic.htmlReferências bibliográficas
  7. 7. BANDURA, A. "Transmission of agression though imitation of agressive models". In:The Journal of abnormal and psychology, 3 vol. 63, p.575-582, 1961.BERALDI, M. J. Televisão e desenho animado. Dissetação de Mestrado, USP, 1978.CAPPARELLI, S. Publicidade na televisão e questão de gênero. Porto Alegre: mimeo,1990.ECO, U. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 1976.ERAUSQUIN, M.A. Os teledependentes. São Paulo: Summus, 1983.FUSARI, M.F.R. O desenho animado que a criança vê na televisão. São Paulo:Loyola, 1985.HIMMEL WEIT, H. La television y el niño. Buenos Aires: Farina, 1962.LARSEN, O.N. Violence and the mass media. New York: Harper and How, 1968.LIBERT, N.R. The early window: effects of television on children and youth. NewYork: Pergamon Press Inc, 1975.MICELI, S. A noite da madrinha. São Paulo: Perspectiva, 1972.PACHECO, E.D. Tevê e criança: produção cultural, recepção e sociedade (Espanha).Relatório de Pós-Doutorado, realizado na Universidade Complutense de Madrid,1991/1992 (tese financiada pelo CNPq).PACHECO, E.D. Comunicação educação e arte na cultura infanto-juvenil. São Paulo:Loyola, 1991.______________. O Pica-Pau: herói ou vilão: representação social da criança ereprodução da ideologia dominante. São Paulo: Loyola, 1985.______________. Televisão, criança, imaginário e educação: dilemas e diálogos.Campinas: Papyrus, 1998.ROCCO, M.T.F. Linguagem autoritária. São Paulo: Brasiliense, 1989.SANTORO, E. La televisión venezoelana y la formación de esteriotipos en el niño.Caracas: Edicione de la biblioteca Central de Venezuela, 1969.VERÓN, E. Ideologia y comunicación de massas: la violencia política. In: Lenguagey comunicación social. Buenos Aires: Nueva Vision, 1969.VYGOTSKY, I.S. Pensamento e linguagem. Lisboa: Antídoto, 1979.WINN, M. Tv, drogue? Paris: Fleurus, 1979.___________________________Este "paper" foi apresentado no "Salão Internacional do Livro de São Paulo - 1999 - EXPO Center Norte -Brasil", contém reflexões advindaas do meu trabalho sobre a relação TV/Criança realizado, de 1977 até opresente no Brasil, e de 1991 a 1992 em Madrid/Espanha.
  8. 8. Profa. Dra. Elza Dias Pacheco é Livre-Docente da ECA/USP e coordenadora do LAPIC - Laboratório de Pesquisassobre Infância

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