Entrevista professor alfabetizador

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Entrevista com uma professora alfabetizadora do Município de Jequié

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Entrevista professor alfabetizador

  1. 1. UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA - UESB COLEGIADO DO CURSO DE PEDAGOGIA - CCP DISCIPLINA: METODOLOGIA DA ALFABETIZAÇÃO DOCENTE: MARIA DA CONCEIÇÃO ALVES FERREIRA DISCENTES: ALINE GOMES SANTOS, SALLY DA CONCEIÇÃO SOARES OLIVEIRA, VANUSA SOUZA CORREA. ENTREVISTA COM O PROFESSOR (A) ALFABETIZADOR (A) 1. CONTEXTO DA ESCOLA 1.1 Você trabalhou numa escola pública ou particular? Escola Pública. Em qual período? 1994. 1.2 Qual foi o município que você trabalhou como professor(a) alfabetizador(a)? Município de Jequié. 1.3 Quais as dificuldades e problemas enfrentados e superados pela escola na qual trabalha? As dificuldades eram aquelas que os professores da escola pública normalmente se queixam: o número de alunos por sala (em média 35 alunos nessa faixa de 6 anos), falta de material didático na escola, falta de uma estrutura física adequada, enfim, bem parecidas com as de hoje. Os problemas eram superados na medida do possível, como podíamos, utilizando materiais que estavam ao nosso alcance: jornal e revistas usadas, levávamos tesoura e cola de casa, etc. No sentido de superação mesmo, de você dá conta de uma realidade, trazendo recursos que estão fora do que o sistema lhe oferece. 1.4 A estrutura física da escola oferecia um espaço didático pedagógico adequado para a alfabetização? Não, como já foi relatado na questão anterior.
  2. 2. 1.5 A escola possuía sala para atendimento especializado? Existia um profissional responsável para esse atendimento? Não, não existia. Na época a política de educação especial, mantinha os alunos com deficiência atendidos em instituições especializadas. 1.6 Qual é o perfil dos alunos? Se falando de idade, eram alunos de 7, 8, 9 anos. No perfil sócio- econômico a escola estava localizada num bairro periférico e pobre da cidade, uma escola de comunidade. Inclusive a rua era conhecida como rua do meretrício (chamado de “brega”). As famílias tinham pouco poder aquisitivo e tinham essa questão social, morando nesse contexto. Muitas crianças não sabiam quem era o pai, porque as mães engravidavam lá na casa de prostituição. Essas crianças chegavam à alfabetização com alguma escolarização anterior? Existiam poucas escolas de educação infantil em Jequié, sendo que as que tinham eram oferecidas pela comunidade católica de Jequié. Então, algumas vinham da creche, outras não. Até a idade de 6 anos elas ficavam na rua, brincando, presenciando muitas vezes a vida noturna das mães. 1.7 Na escola existia biblioteca? Se sim, como se dava a dinâmica de funcionamento? Não. A escola era muito pequena, só tinha duas salas e uma cozinha, não tinha espaço de recreação, só funcionada duas turmas nessa escola que era um anexo da Comunidade Católica São Lucas. E quando a gente queria fazer alguma festinha, alguma comemoração como dia das mães, final de ano, era no salão da paróquia. Não tinha espaço para as crianças brincarem, a escola ficava em uma ladeira por sinal que era onde elas brincavam. A direção era de núcleo, então não tinha uma diretora fixa na escola, e ela ia lá de vez em quando. Na verdade, só ficava na escola a merendeira e as duas professoras: eu que era da alfabetização e a professora que trabalhava com a 2ª série, e a tarde tinha 3ª e 4ª série. 2. O TRABALHO E A VIDA DOS PROFESSORES
  3. 3. 2.1 Qual era a sua formação na época? Na época eu não tinha nem formação em pedagogia, só tinha em magistério. E tinha alguns cursos de capacitação, na área do método montessoriano, cursos na UESB na área de alfabetização. 2.2 Qual foi o processo seletivo que participou para atuar como professor (a)? Concurso Público. Naquela época não tinha concurso específico para professor alfabetizador, como até hoje não se faz. 2.3 Quais os incentivos oferecidos pela escola para a formação continuada dos professores alfabetizadores? Nenhum. A prefeitura e a secretaria de educação do município as vezes faziam curso de formação continuada. 2.4 Havia relação entre área de formação dos professores alfabetizadores com a área de atuação? Eram formadas em magistério, que habilitava para trabalhar na alfabetização. 2.5 Qual é a relação dos professores com as decisões implementadas na escola no que diz respeito às políticas de alfabetização? Essa escola não tinha uma estrutura para que os professores pudessem conversar sobre as implementações de políticas. 2.6 Quais eram as ações de planejamento da escola? Tinha planejamento. No período de atividade complementar, o chamado AC, que eram planejadas as atividades, ai a coordenadora e a diretora passava na escola e a gente mostrava pra ela as atividades que foram pensadas. Eram visitas esporádicas. 2.7 Como se organizava a dinâmica do recreio? Quando dava a hora do recreio os meninos merendavam e ficavam soltos na rua brincando (na ladeira que a escola estava situada). 2.8 Qual era a sua carga horária de trabalho?
  4. 4. Nessa época era só vinte horas. 2.9 Quantos anos você possui no magistério como alfabetizador (a)? Hoje não alfabetizo mais, mas atuei 6 anos como professora alfabetizadora. Inclusive participei da formação da Fundação Luís Eduardo Magalhães (capacitação estadual, porque tinha mais 20 horas no estado) e ganhei o título de professor alfabetizador depois que fiz uma prova e uma aula pública. 2.10 De que forma você trabalhava os conteúdos disciplinares no processo de alfabetização? Como tínhamos uma grade curricular onde tínhamos que dar conta de todas as disciplinas, a gente buscava trabalhar tomando como base a questão da linguagem oral e escrita percebendo a necessidade do alunos de melhorar e adquirir a escrita e a fala. A gente ia trabalhando os conteúdos prevendo a busca do aperfeiçoamento da linguagem, para que as crianças pudessem está treinando justamente para melhorar as habilidades deles. 2.11 Quais eram os conteúdos selecionados para o trabalho de alfabetização com os alunos? Na parte de linguagem a gente ia trabalhando os conteúdos conforme os interesses dos alunos, de acordo com a proposta apresentada no currículo que a gente tinha que seguir, de acordo com o material que os alunos tinham. 2.12 Como você trabalhava a questão da diferença de fases de aquisição da lecto-escrita em sala de aula? Quando eu fiz o magistério eu não tive essa informação, por isso quero pontuar a importância da formação continuada. Então quando eu fui formada eu aprendi que existia métodos de formação: sintético, global e eclético. Só que na hora da prática qual era a minha idéia enquanto professora? Alfabetizar os meninos como eu fui alfabetizada (o método sintético, partindo das letras para o texto). Na medida que fui trabalhando dessa forma, e também fiz um curso com a professora Shada Martha, que era doutora em alfabetização pela UFRJ, ela veio trazendo essa discussão sobre o construtivismo. Então eu aprendi que o construtivismo não é método e sim uma filosofia de trabalho, uma teoria, baseada na epistemologia do conhecimento de Piaget, onde Emilia Ferrero era
  5. 5. traz um questionamento: é possível o sujeito construir o seu conhecimento? Então ela faz pesquisas de como o sujeito adquire o conhecimento da escrita e publica, difundindo o construtivismo. Erroneamente, no tempo que eu trabalhei como alfabetizadora os professores deixavam de fazer o método sintético que sabiam fazer e começaram a fazer nada. Na verdade, como toda teoria, chegou e não podia mais mandar o menino lê o ‘B’ e o ‘A’, não podia mais juntar e nós professoras ficavam sem saber o que fazer. Como eu tava na Faculdade nesse período comecei a saber mais sobre essa teoria, e fazendo bom uso dela pude perceber que realmente eu poderia colocar algumas atividades em prática e perceber que realmente essas fases acontecem e que de fato a criança pode construir o seu conhecimento da linguagem sem precisar necessariamente você está repetindo exercícios de memorização. 2.13 Como estava estabelecida a rotina (passos) da sua sala de aula? A rotina na sala de aula era: chegava na escola; fazia uma oração que as crianças já sabiam; depois procedia com a chamada (tinha uma ficha que eles colocavam no painel que auxiliava na escrita do nome); iniciávamos as atividades que durava até o horário da merenda; horário da merenda; segundo momento de atividades; fazia retomada daquele dia, lendo texto, livrinho de história; e as crianças eram liberadas. 2.14 Quais eram as dificuldades encontradas em sala de aula no que diz respeito à alfabetização dos alunos? A questão do letramento. Uma coisa que eu percebi foi que o método sintético correspondia bem com aquela clientela porque eles tinham muito pouco letramento na área de linguagem, era muito restrito. Eles não tinham em casa material escrito para observar, eram crianças que na condição social que viviam elas na tinham muito acesso a material escrito, elas não eram incentivadas à leitura, elas não tinham familiares que liam em casa e por isso não tinham experiência com a função social da escrita. Então, a dificuldade que eu tinha era que pra trabalhar num método mais global numa situação daquela ficava complicado porque as crianças não tinham vivência. Então além de alfabetiza-las, fazendo atividades para cada nível de escrita, também tínhamos que fazer a parte do letramento, que era a contando histórias, trazendo jornal e revista pra sala; muitas vezes as crianças pegavam a revista de cabeça pra baixo, rasgavam o material, brigavam muito porque tínhamos pouco material e dividíamos eles em grupos, eles não viam aquele material
  6. 6. de forma curiosa, como se buscassem alguma coisa. Isso pra mim foi uma dificuldade. 2.15 Já participou de cursos de formação continuada com foco em alfabetização? Quais? Qual é a origem dos investimentos feitos para essa formação? Já, vários. Teve um que falava do construtivismo e alfabetização pela UFRJ, participei de alguns oferecidos pela Escola Mundo Infantil para conhecer o Método Montessori; Jornadas Pedagógicas, Encontro de Professores, etc. Alguns pagos pelo Estado, outros pelo Município, outros saiam do meu bolso. 2.16 Quais eram os meios que utiliza para se informar sobre a sua área de atuação na escola? Naquela época a informática não era tão acessível, então, a gente se informava através de cartilhas, panfletos, colegas que iam para eventos e traziam as informações, ou então quando eu mesma ia para esses eventos. E os contatos com os livros? Só se fossem comprados ou emprestados, a gente não tinha acesso a livros se não fosse dessa forma. 2.17 Qual é o método que você utilizava para alfabetizar? Inicialmente a partir da minha experiência pessoal de alfabetização e do que tinha aprendido no magistério, apresentando a letra, depois a sílaba, depois formar as palavras. Com o tempo, fui me informando e me formando, já comecei a trabalhar mais com apresentação de textos, trabalhar o contexto, com produção livre dos alunos, pegar o texto fazer grande numa cartolina ou no quadro, comparar o texto dos alunos com o texto correto, para que eles perceberem o que tava diferente, aprendi a ter uma concepção diferenciada do que era o erro. Assim fui clareando minha visão e modificando a minha prática, passando de sintético para global depois de uma compreensão do que era trabalhar essa alfabetização de uma forma mais ampla. E a gente percebe que ela é muito mais rica, muito mais significativa para o aluno, e muito menos dolorosa. O que você tem a dizer sobre a alfabetização das escolas públicas atuais?
  7. 7. Hoje, mesmo tendo saído da educação regular, porque trabalho na educação especial, acompanho esse trabalho como professora itinerante, como psicopedagoga (avaliando essas crianças que chegam na minha instituição), eu percebo que o método sintético que foi tão criticado ele ainda existe, tem muitas escolas que trabalham dessa forma, a postura tradicional ainda persiste. Eu acho que hoje muitos professores alfabetizadores se sentem perdidos em relação ao método, à postura de professor, a teoria.. No município de Jequié se adotou o ciclo básico de desenvolvimento, que é o ensino fundamental de nove anos, mas os professores parecem não compreender como funciona esse ciclo, só mudando a nomenclatura, ainda por cima se instaurando a cultura da progressão automática, pois os professores acreditam que não podem reprovar, mas também não trabalham de forma processual, como o ciclo pede ainda seriando as crianças. Claro que hoje com a solicitação de formação, todo mundo passa pelo curso de Pedagogia e chega com outra visão. Mas quando chega lá na prática eu penso: as condições da escola continuam as mesmas, poucas coisas melhoraram, acho que a quantidade de aluno por sala, a oferta de educação infantil aumentou um pouco, mas falta ainda professor alfabetizador, professor que participe desse processo junto com a criança e que realmente tenha condição de levar essa criança ao conhecimento através da construção. A alfabetização ainda é muito decodificação, não dando a criança condições de sair de uma fase da lecto-escrita para outra, as atividades sempre as mesmas para todas, por isso algumas chegam com oito anos sem se alfabetizar, porque a metodologia da alfabetização ficou perdida dentro dessa teoria de ciclo básico de desenvolvimento e de aprendizado. Então eu vejo o município de Jequié hoje com uma perda muito grande em relação a isso, percebo que a nossa alfabetização está precária porque tem crianças que chegam no ensino fundamental II sem saber ler. Isso é tanto uma realidade que o Governo Federal resolveu fazer o Programa de Alfabetização na Idade Certa, que foi implantado no ano de 2012, e eu espero que as crianças sejam orientadas, porque elas tem condição sim de serem alfabetizadas aos 8 anos de idade. Então, muitas dificuldades tem surgido, os professores se queixam muito das crianças que tem dificuldades de aprendizado, mas que na verdade a criança ficou numa fase da escrita porque não é oferecido desafios para que ela possa avançar para próxima fase. Ou então ela chega na fase alfabética, e fica naquela fase, sem criar fluência, nem melhorar a sua escrita, sua ortografia.. Isso mostra que há muitos equívocos, como todas as teorias, e em todas as áreas, as teorias vem e não são discutidas, quando eu vi essa coisa do ciclo básico foi a mesma coisa que
  8. 8. aconteceu em 96 com o construtivismo, aquela febre, mas sem base teórica. 3. IDENTIFICAÇÃO 3.1 Nome (opcional) 3.2 Faixa etária (idade): 44 anos 3.3 Gênero: Feminino

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