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Brasil de Fato - Edição 05-11/06/2014

  1. 1. Eleições presidenciais e o papel do esquerdismo CHAMAR ALGUÉM de “velho” é quase uma ofensa. Eu, que velho es- tou, costumo brincar que sou “semi- novo”, como em revendas de veícu- los. O carro é velho, mas o adjetivo ajuda a iludir o freguês. Ficar velho está cada vez mais ca- ro. Tanto para o governo, obrigado a arcar com o crescente número de aposentadorias e pensões, e atendi- mento pelo SUS, quanto para o cida- dão, impelido a investir em plano de saúde, academia de ginástica, medi- camentos fitoterápicos e alimenta- ção saudável, como frutas e legumes orgânicos. Agora a Cellectis, empresa france- sa de biotecnologia, coloca no mer- cado a iPS (sigla em inglês para de- signar células-tronco de pluripotên- cia induzida). A última novidade em medicina regenerativa. Para produzir iPS basta introdu- zir quatro genes em células maduras e, assim, estas regridem ao estado de células-tronco. Esse processo, desco- berto pelo cientista japonês Shinya Yamanaka, assegurou-lhe o prêmio Nobel de Medicina, em 2012. As cé- lulas-tronco obtidas por esse méto- do (iPS) teriam a mesma capacidade que caracteriza as células embrioná- rias: transformar-se em novos teci- dos e órgãos. Quem deseja evitar a natural de- gradação de seu organismo e, desde já, estocar células da pele para que se tornem iPS, basta recorrer à em- presa francesa Scéil, braço da Cel- lectis. A saúde em idade provecta não custa barato. A Scéil cobra 60 mil dólares (pouco menos de R$ 140 mil) para coletar as células, e uma taxa anual de 500 dólares (cerca de R$ 1,1 mil) para armazená-las. Por enquanto esse luxo está disponível apenas nos EUA, Reino Unido, Suí- ça, Dubai e Cingapura. “As pessoas devem poder viver jo- vens”, alardeia André Choulika, pre- sidente da Cellectis. Por enquanto é um luxo adotar esse procedimen- to de recauchutagem genética, mas pode-se recorrer, a preços mais em conta, a cirurgias plásticas por mero capricho estético. De preferência em regiões predominantemente frias, para justificar o uso de cachecol e lu- vas. Pescoço e mãos são traiçoeiros à vaidade senil: denunciam que o nos- so corpo e a nossa idade não são tão jovens quanto o rosto remodelado. No México, o Instituto de Medi- cina Regenerativa promete operar curas via células-tronco. Basta ex- trair 200 mililitros de gordura da coxa do paciente e, em seguida, co- lher cerca de 130 milhões de células- -tronco para implantá-las no órgão enfermo. O procedimento custa, em média, 13,5 mil dólares (em torno de R$ 30 mil). Além de jovialidade perene, mui- tos buscam a imortalidade (sem en- trar para academias de letras). Como o limite natural da célula humana é de 130 anos, há esperança de que, graças às células-tronco, haja possi- bilidade de substituir células enve- lhecidas, com prazo de validade ven- cido, por novas. O título de pessoa mais velha do mundo é atribuído à francesa Je- anne Calment, que viveu 122 anos (1885-1997). Passeou de bicicleta até os 100 anos, andou até os 115, e ti- nha o hábito de beber um copo de vinho e fumar um cigarro todo dia. O boliviano Carmelo Flores Lau- ra, índio Aimara, alega ter 123 anos, graças às longas caminhadas co- mo pastor de gado e ovelhas. Pa- ra o Guinness dos Recordes, nin- guém ainda superou a japonesa Mi- sao Okawa, de 115 anos. A chinesa Alimihan Seyiti afirma ter 127 anos. Seus maiores prazeres são beber água gelada, e cantar e brincar com crianças. O curioso é que, em geral, vive muito quem não teme morrer. E so- bretudo quem imprime à sua vida um sentido altruísta. A ansiedade de prolongar a existência a qualquer custo pode gerar na pessoa um es- tresse que lhe abrevia os dias. Vi na TV, há tempos, Datena en- trevistando um casal longevo, habi- tantes da Zona Rural paulista. Ele com 111 anos, ela com 108. O marido se mostrava mais lúcido que a mu- lher. O entrevistador perguntou a ele a que atribuía tão longa existên- cia. Dieta? “Adoro um torresminho”, reagiu o homem. E beber? Não se fez de rogado: “Uma cachacinha an- tes da comida cai muito bem.” E fu- mar?, perguntou Datena. “Fumar? Nem pensar. Parei desde os 108.” Importa na vida é ser feliz. E a fe- licidade não resulta da soma de pra- zeres nem do acúmulo de bens. É fruto do sentido que se imprime à existência. Frei Betto é escritor, autor de O que a vida me ensinou (Saraiva), entre outros livros. Frei Betto Envelhecer jovem crônica Luiz Ricardo Leitão AS FORÇAS POPULARES devem cul- tivar uma concepção ampla da luta de classes. Isto coloca o desafio de reafir- mar uma estratégia revolucionária e, ao mesmo tempo, combinar firmeza ideológica com flexibilidade na tática. O ponto de partida certamente é fazer a análise concreta da situação concre- ta e aprender com o legado histórico das lutas e revoluções populares. Uma concepção ampla da luta polí- tica significa reconhecer que a arena da luta de classes se caracteriza por três dimensões: a luta social, ideoló- gica e institucional. Um projeto po- lítico de natureza democrática e po- pular deve combinar as três dimen- sões para avançar na construção de hegemonia na sociedade. Além dis- so, como em última instância a polí- tica é definida pelo fator força social de massas, a luta ideológica e a luta institucional devem estar subordina- das à luta social. Ou seja, a batalha de ideias e a disputa das instituições da sociedade burguesa só fazem sentido na perspectiva do fortalecimento das lutas populares e, consequentemente, na construção de uma força social de massas. Atualmente esse desafio está colocado no Brasil. Estamos diante de uma conjuntura em que as eleições presidenciais, en- quanto parte da luta institucional, ga- nha extrema importância. Diante do atual cenário eleitoral, ainda encon- tramos posições esquerdistas em se- tores da esquerda brasileira. O con- teúdo do esquerdismo reside em ig- norar a correlação de forças da luta política no Brasil e na América Lati- na. Para definir sua posição eleitoral, dá-se centralidade aos limites e equí- vocos do governo Dilma e se ignora o retrocesso que significaria para as conquistas populares obtidas nos úl- timos 11 anos em uma eventual vitó- ria das forças neoliberais nas eleições presidenciais de 2014. O esquerdismo ignora que as expe- riências de governos progressistas e populares, como é o caso da Venezue- la, da Bolívia e do Equador, e mes- mo Cuba têm o governo Dilma como importante ponto de apoio. Ignoram que uma derrota de Dilma nas elei- ções de 2014 abre a possibilidade de alteração na correlação de forças na América Latina e, consequentemente, restauração das forças neoliberais. Por isso, para serem condizentes com uma análise concreta de uma si- tuação concreta, os partidos de es- querda sem o mínimo de peso eleito- ral, que não conseguem enraizar sua mensagem programática e nem con- tribuir para o avanço da consciência de classe das massas populares du- rante as eleições deveriam estar for- talecendo a candidatura de Dilma, mesmo sabendo que o neodesenvol- vimentismo em curso não é uma al- ternativa popular. O esquerdismo também se expres- sa nas posições vacilantes de intelec- tuais da academia que subordinam a correlação de forças na luta política à sua suposta “fidelidade” ao marxis- mo. Preferem dormir com sua consci- ência tranquila a votar no PT. São al- guns poucos professores e estudantes que têm uma concepção homogênea das classes sociais e do Estado. Não conseguem identificar frações de clas- ses e seus diversos interesses em tor- no do governo Dilma. Não compreen- dem o retrocesso que seria as forças neoliberais retomarem o controle do Poder Executivo federal. São, na ver- dade, intelectualmente fracos e culti- vam um doutrinarismo que expulsa a dialética do pensamento de Marx. Também é comum o esquerdismo se expressar através do abstencionis- mo eleitoral. Isso não é novo ao longo da história das lutas populares. Lênin derrotou o abstencionismo na nas- cente Terceira Internacional quando o agrupamento italiano liderado por Amadeo Bordiga defendia que os par- tidos comunistas não disputassem o parlamento. Lênin argumentou que, se um comunista não consegue par- ticipar das eleições burguesas man- tendo seus princípios não é digno de ser chamado de comunista. Num tex- to épico, Lênin afirma que alianças e compromissos, inclusive com setores burgueses, perpassam toda a história do bolchevismo. O certo mesmo é que estas con- cepções esquerdistas não estão no seio do povo brasileiro que se benefi- cia das conquistas populares dos úl- timos 11 anos. É tarefa das forças po- pulares propagandear o que real- mente está em jogo no Brasil e na América Latina. A disputa com as forças neoliberais nas eleições de 2014 será acirrada. O esquerdismo, isolado e pregando no deserto, de al- guma forma, jogará água no moinho da restauração neoliberal. de 5 a 11 de junho de 20142 editorial Scrappy Annie/CC Sem perder a ternura – e a razão É tarefa das forças populares propagandear o que realmente está em jogo no Brasil e na América Latina. A disputa com as forças neoliberais nas eleições de 2014 será acirrada Ora, amigos, reconhecer méritos e debilidades é o dever mínimo da boa dialética. Preservar o positivo e superar o negativo, porém, é tarefa bem difícil O título pode parecer paradoxal, mas faz sentido. Hoje em dia quase ninguém curte a velhice. Ou se assume como velho. Mesmo quem já atingiu idade avançada costuma fazer questão de dar a impressão de ser mais jovem opinião HÁ UM ANO ÉRAMOS sacudidos pela “Copa das Manifestações”. Até hoje os analistas não logram explicar bem o fenômeno, quase sempre interpretado segundo o cardápio ideológico do freguês. Todos reco- nhecem, porém, que os eventos de junho estimularam um intenso de- bate sobre os rumos do país – o que, por certo, inclui não apenas no- vos atores forjados nos movimentos sociais, como também velhas se- reias do capital, saudosas dos tempos de exceção. É claro que, após 21 anos de ditadura e um malogrado projeto neo- liberal, nossa precária ‘democracia’ ainda padece mazelas inerentes a uma experiência periférica de (pós-) modernidade. Em tempos de he- gemonia do mercado e de hipertrofia do consumo, a pólis emergen- te sofre para formular um projeto popular alternativo ao regime dos monopólios e do agronegócio – e muitas vezes não é capaz de respon- der com lucidez às provocações que o nevoeiro midiático destila a ca- da dia. Às vésperas da Copa e das eleições, o tiroteio cresce. Há um clima de histeria reacionária no ar... O cantor Ney Matogrosso, por exem- plo, em entrevista à TV portuguesa, tratou de esculachar a terra natal, afirmando que os pobres passaram a ter filhos só para receber o Bolsa Família. A tola declaração, como tantas outras, só se amparava na ig- norância e no preconceito – se consultasse o IBGE, ele saberia que há cidadãos que, após obter emprego, até abdicam do benefício, ansiosos por um novo status social. Não foi apenas o artista quem se “manifestou”. Um pretenso filóso- fo brasileiro residente nos EUA também disparou: “O povo brasilei- ro é o mais covarde, imbecil e subserviente do universo.” A patacoada foi colossal, mas houve quem lhe fizesse coro nas ‘redes sociais’. Feliz- mente, outra parte da nossa intelligentsia sabe refutar com firmeza (e sem perder a ternura) os iluminados do udenismo pós-moderno. O ator e escritor Gregório Duvivier é um caso. Cansado de ouvir que “o Brasil não vai pra frente”, ele replicou o “ódio chapa-branca”, não hesitando em dizer que a frase é uma mentira. Sem o menor laivo de humor, frisou que até o crítico mais feroz do governo (do qual ele não é eleitor nem fã) deve admitir que “o Brasil vai pra frente, sim”: “Devagar, aos trancos e barrancos, algumas vezes à revelia do gover- no – mas pra frente”. E arremata: “Em contrapartida, nossos intelec- tuais estão ficando pra trás...” Ora, amigos, reconhecer méritos e debilidades é o dever mínimo da boa dialética. Preservar o positivo e superar o negativo, porém, é tare- fa bem difícil. Estamos longe de ter um país que satisfaça as necessi- dades humanas básicas de seu povo e estabeleça o básico para melho- rar e manter a qualidade de vida, como reza o Índice de Progresso So- cial aferido pelos peritos do I Mundo. Há motivos de sobra para co- brar na vida pública muito mais do que a dona Fifa exige para a Co- pa – e de desconfiar de sobra de tudo quanto nos prometera Lulinha Paz & Amor quando entregou as chaves de casa à quadrilha de Blat- ter, Volcke & Cia. Mas o país tem jeito, leitor – e há motivos para a es- perança! O CNJ nos informa um: entre 2010 e 2014, caiu de 39% para 29% o índice de adultos que só aceitam adotar filhos brancos (e cresce o nú- mero de pais dispostos a ter filhos negros e maiores de três anos). A UERJ divulga outro: apesar das inúmeras dificuldades que os cotistas sofrem para concluir seus cursos, sua taxa de evasão é inferior à dos demais alunos. Essas são apenas algumas das trincheiras em que tra- tamos de resistir ao atraso e iniquidade desta pátria tão rica e pobre, tão bela e cruel, descendente direta de Macunaíma e Brás Cubas: la- boriosa e malandra, criativa e oportunista – um enorme desafio para quem sonha transformá-la sem perder a ternura e a razão. Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor associado da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto – o rebelde imprescindível. Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Aldo Gama, Marcelo Netto • Repórter: Marcio Zonta• Correspondentes nacionais: Maíra Gomes (Belo Horizonte – MG), Pedro Carrano (Curitiba – PR), Pedro Rafael Ferreira (Brasília – DF), Vivian Virissimo (Rio de Janeiro – RJ) • Correspondentes internacionais: Achille Lollo (Roma – Itália), Baby Siqueira Abrão (Oriente Médio), Claudia Jardim (Caracas – Venezuela) • Fotógrafos: Carlos Ruggi (Curitiba – PR), Douglas Mansur (São Paulo – SP),Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper (Rio de Janeiro – RJ), João Zinclar (in memoriam), Joka Madruga (Curitiba – PR), Le onardo Melgarejo (Porto Alegre – RS), Maurício Scerni (Rio de Janeiro – RJ), Pilar Oliva (São Paulo – SP) • Ilustradores: Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Marina Tavares Ferreira • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. 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  2. 2. de 5 a 11 de junho de 2014 se tornarão, sem a liderança do Brasil, siglas irrelevan- tes, enquanto a moribunda OEA – o Ministério das Co- lônias, na célebre definição de Fidel Castro – ganhará um novo sopro de vida. Quanto ao Brics, articulação central no combate ao domínio unipolar do planeta pelo império estadunidense, sofrerá um baque, com a deserção (oficia- lizada ou não) do seu “B” inicial. Golpistas latino-americanos, já assanhados após os triunfos em Honduras e no Paraguai (ações antidemocrá- ticas combatidas com firmeza por Lula e Dilma), ganha- rão espaço, certos de contar com a omissão ou até o apoio de um governo brasileiro alinhado com os ditames de Wa- shington. Que o diga a performática Maria Corina Macha- do, líder da atual campanha de desestabilização na Vene- zuela, recebida com fanfarra pelo governador Geraldo Al- ckmin e por uma penca de jornalistas tucanos, no progra- ma Roda Viva. Governos e movimentos sociais progressistas, na Amé- rica Latina e no mundo, perderão um ponto de apoio; as forças das trevas, como o lobby sionista internacional, ga- nharão um aliado incondicional em Brasília. Isso é ape- nas uma parte do que está em jogo nas eleições brasilei- ras. Espantoso é que, no campo da esquerda, tantos pare- çam não se dar conta. Se a direita ganhar O BRASIL ENFRENTA, nas eleições presidenciais deste ano, o risco de um brutal retrocesso político, com o even- tual retorno das forças de direita – representadas, princi- palmente, pelo candidato tucano Aécio Neves – ao gover- no federal. Nesse caso, teremos uma guinada rumo a um país mais desigual, mais autoritário, mais conservador. Engana-se quem imagina apenas uma reprise do que fo- ram os tempos de FHC. Para entender o que pode vir por aí, é melhor pensar no Tea Party estadunidense, no uri- bismo colombiano, na direita ucraniana. Limitando este exercício de imaginação apenas à po- lítica externa, é aposta certa supor que uma das pri- meiras medidas de um governo Aécio seria a expulsão dos profissionais cubanos engajados no programa Mais Médicos. Também imediata seria a adesão do Brasil a um acordo do Mercosul com a União Europeia nos ter- mos da finada Alca, cujas “viúvas” – também conheci- das como o Partido dos Diplomatas Aposentados – re- cuperarão o comando do Itamaraty, ávidas por agradar aos seus verdadeiros senhores, as elites e o governo dos Estados Unidos. O Mercosul, se sobreviver, voltará a ser apenas um cam- po comercial, destituído do projeto político de uma inte- gração mais profunda. A Unasul e a CELAC, esvaziadas, instantâneo Igor Fuser 3 PARA MUITA GENTE, a divisão entre as igrejas cristãs e os conflitos entre as religiões são assuntos internos do clero e não dizem respeito ao mundo. No entanto, há alguns anos, Le Monde des Réligions, re- vista francesa, publicou que no mundo atual existem 36 guerras ou conflitos de caráter internacional ou de maior repercussão. Desses, mais de dois terços têm como motivo principal, ou pretexto, fatores religiosos. Judeus contra muçulmanos (palestinos) em Israel, hin- dus contra muçulmanos no sul da Índia, muçulmanos con- tra cristãos em algumas regiões do Egito e mesmo protes- tantes contra católicos na Irlanda do Norte, muçulmanos e cristãos ortodoxos na antiga Tchecoslováquia. Mesmo em países como o Brasil, onde não existem guer- ras e conflitos abertos entre religiões, diariamente, em al- guma parte do Brasil, há notícias de discriminação e violên- cias da parte de cristãos fundamentalistas contra pessoas ou grupos das religiões afrodescendentes. E esses atos de ódio e intolerância são cometidos em no- me de Jesus que nunca discriminou ninguém e, ao contrá- rio, elogiou a fé de uma mulher da religião cananeia, de um oficial romano e tomou um samaritano (herege) como mo- delo para uma de suas principais parábolas. Essa realidade de conflitos interculturais e inter-religio- sos confirma o que dizia o teólogo Hans Kung: “O mundo não terá paz se as religiões não se entenderem e, por moti- vos históricos e culturais, o diálogo entre as religiões não ocorrerá, se as Igrejas cristãs não se unirem”. Por isso, o movimento pela unidade das Igrejas e pelo diá- logo e cooperação das religiões a serviço da paz e da justiça diz respeito a todas as pessoas de boa vontade que querem um mundo mais justo e fraterno. Como está organizado no mundo, o movimento pela unidade dos cristãos tem pouco mais de cem anos. Co- mo os cristãos acreditam que a unidade é um dom divi- no, a primeira ação para se viver o diálogo e a unidade é a oração. Por isso, uma das iniciativas mais importantes da pastoral ecumênica é a “Semana de oração pela Uni- dade dos Cristãos”. No Brasil, ela é celebrada sempre em preparação à festa de Pentecostes. Neste ano, ela ocorre nesta semana, de 02 a 08 de junho. É preparada e coordenada pelo Conselho Na- cional de Igrejas Cristãs (CONIC), com o apoio da conferên- cia dos bispos católicos (CNBB). Nesse ano, os subsídios preparatórios para as celebrações e cultos ecumênicos foram preparados por cristãos de vá- rias Igrejas do Canadá. Eles têm como tema a palavra pro- vocatória do apóstolo Paulo na carta aos coríntios: “Estará o Cristo dividido?” (1 Cor 1, 1- 13). De fato, a Bíblia ensina que todos os discípulos/as de Je- sus formam o Corpo de Cristo do qual Jesus é a cabeça e to- dos os cristãos formam o corpo. Assim sendo, ao se dividi- rem, as Igrejas dão um testemunho de que o próprio Cristo, embora não esteja, parece ao mundo como dividido. Há 50 anos, na Igreja Católica, o Concílio Vaticano II pro- mulgava o Decreto sobre a unidade dos cristãos. Esse docu- mento começava dando os principais motivos pelos quais todo cristão tem de considerar prioritário e essencial o es- forço para a unidade visível das Igrejas: 1o – a divisão é con- trária à vontade de Deus. 2o – é um escândalo para o mun- do (os cristãos pregarem o amor e eles mesmos serem divi- didos). 3o – Por isso mesmo, a divisão é um obstáculo para a missão. (Jesus orou ao Pai: “Faze que todos os meus dis- cípulos sejam Um para que o mundo creia!”(Jo 17, 19 – 21). No século 3, Cipriano, pastor da Igreja de Cartago, ensi- nava: “A unidade abole a divisão, mas respeita as diferen- ças”. A unidade dos cristãos não visa a uniformidade de uma só instituição eclesiástica, mas a diversidade reconci- liada de Igrejas irmãs, como um ensaio de um mundo de diálogo e de paz. São Paulo escreveu aos efésios: “Há um só Senhor, uma só fé, um mesmo e único batismo (em todas as Igrejas). Nós cristãos, somos todos chamados a uma úni- ca esperança” (Ef 4, 1- 4). Marcelo Barros é monge beneditino em Goiás e escritor. Tem 45 livros publicados, dos quais o mais recente é Boa Notícia para todo mundo (Conversa com o Evangelho de Lucas), Ed. FASE, Recife. Marcelo Barros Cristo está dividido! A unidade dos cristãos não visa a uniformidade de uma só instituição eclesiástica, mas a diversidade reconciliada de Igrejas irmãs, como um ensaio de um mundo de diálogo e de paz a outra forma de luta, utilizando todos os recursos de guerrilha informacional online, em tempo real. Mar- cos percebeu antes de muitos teóricos que o capitalis- mo contemporâneo atua sobre os símbolos e a lingua- gem. Daí uma retórica repleta de referências culturais, citações literárias, mitologia indígena e altas doses de bom-humor. Para o historiador mexicano Carlos Antonio Aguirre Rojas, podemos falar de três etapas na luta dos zapatis- tas: a do fogo, que vai de 1983 a 20 de janeiro de 1994; a da palavra, que abarca desde janeiro de 1994 até junho de 2005; a da Outra Campanha, que arranca com a Sex- ta Declaração da Selva Lacandona — quando Marcos con- clamou os movimentos sociais a fazerem a “outra campa- nha”, sem finalidades partidário-institucionais. Com a saída de cena de Marcos e a chegada do Subco- mandante Galeano — apelido do zapatista José Luis So- lís, assassinado numa emboscada em 2 de maio último — entramos numa nova fase do zapatismo. Mas também as- sumimos outra dimensão do midiativismo — que nasceu com os zapatistas, passou pelo movimento Occupy e ago- ra enfrenta novos desafios. Mesmo com a sensação de an- darmos às escuras, tudo indica que devemos seguir adian- te com as inspirações de Galeano. Somos todos Galeano O NASCIMENTO do Subcomandante Marcos foi fruto de “uma completa manobra de distração, um truque de ma- gia terrível e maravilhoso, uma maliciosa jogada do cora- ção indígena que somos; a sabedoria indígena desafiava a modernidade em um dos seus bastiões: os meios de co- municação”. É dessa forma que o próprio Marcos, em seu último pronunciamento de 24 de maio, explicou o nascimento da figura mítica do subcomandante. Marcos concretiza a relação criativa que os zapatistas estabeleceram entre o universo tradicional indígena e a tecnologia dos brancos. Quando o mundo divulgava al- guma ação do subcomandante, o ícone do passa-monta- nhas nos remetia imediatamente às injustiças contra os pobres, e à necessidade de algum tipo de insurgência. O título de sua última fala, “Entre a Luz e a Sombra”, insi- nua que, desde o início da trajetória zapatista, sempre empregou-se uma tática que ponderava sobre os limites da visibilidade e a necessidade de permanecer invisível, até para não ser tocado pelo dedo do poder, numa espé- cie de claro-escuro insurrecional. Sua presença física encarna a interface entre a ima- gem tradicional do guerrilheiro (uniforme pesado, fu- zil R-15) com a transparência e a leveza que conduzem Silvio Mieli Carta de repúdio a acordo entre Fifa e McDonald´s A Confederação Nacional dos Trabalha- dores em Turismo e Hospitalidade (Con- tratuh), a Nova Central e outras entidades do movimento social criticam a Fifa pela parceria com o McDonald’s. A crítica está manifestada na “Carta Aberta ao Presiden- te da Fifa”, na qual as entidades repudiam o contrato de patrocínio com a gigante norte-americana de fast-food, durante a Copa do Mundo. O presidente da Contra- tuh, Moacyr Tesch, afirma: “Documento oficial da Fifa diz que a entidade tem como meta “contribuir para a edificação de um futuro melhor para o mundo”. Mas assina contrato de exclusividade com o McDo- nald´s, empresa que impõe condições de trabalho desumanas, salários de fome, além de jogar contra a organização sin- dical”. O contrato garante exclusividade à rede mundial de fast-food no comércio de alimentos dentro e entorno dos 12 estádios da Copa do Mundo, que começa dia 12. Além da Contratuh e da Nova Cen- tral, assinaram a carta representantes da União Internacional dos Trabalhadores da Alimentação (UITA), do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, da Associação Latino-americana de Advogados Laboris- tas e do Centro Humanitário de Apoio à Mulher. O documento foi encaminhado também à Organização Internacional do Trabalho, Ministério Público do Trabalho, Ministério do Trabalho e Emprego, Anistia Internacional, Confederação Sindical In- ternacional e à Confederação Sindical das Américas. Tailandeses rechaçam McDonald’s Manifestantes contra o golpe militar na Tailândia colocaram também o McDo- nald’s no centro dos protestos. As lojas locais (operadas pela rede McThai) vira- ram pontos de encontro pró-democracia. A cadeia norte-americana, a cada dia, mundo afora, é mais identificada com tu- do o que não presta. Justiça paulista manda corrigir FGTS pela inflação O juiz Wilson Zauhy Filho, da 13ª Vara Federal de São Paulo, determinou em duas sentenças que a Caixa Econômica Federal substitua a TR pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo Especial, do IBGE, para corrigir os saldos das con- tas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço. A decisão beneficia cerca de 12 mil trabalhadores na alimentação de Ma- rília e Maracaí, interior de São Paulo. As sentenças foram proferidas mesmo após o Superior Tribunal de Justiça trancar as ações até o julgamento do mérito da questão pela Corte. fatos em foco da Redação Pedro Nathan
  3. 3. brasilde 5 a 11 de junho de 20146 Marcela Belchior de Fortaleza (Ceará) CONSIDERANDO que a realização da Copa do Mundo Fifa 2014 no Brasil po- derá expor ainda mais as pessoas em si- tuação de rua à condição de vulnerabili- dade, o Conselho Nacional do Ministé- rio Público (CNMP), por meio do Fórum Nacional de Articulação do MP na Copa, iniciou no final de maio uma mobilização nacional. A iniciativa marca a adesão do órgão à campanha “Sou morador de rua e tenho direito a ter direitos” e estabele- ce orientações para que seja feito o acom- panhamento e a defesa sistemática dessa parcela da população durante os jogos. Pesquisa nacional sobre população em situação de rua, realizada entre agosto de 2007 e março de 2008, pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), esti- ma que há cerca de 50 mil pessoas nessa condição no Brasil. Essa população, se- gundo o levantamento, se caracteriza por ser um grupo heterogêneo, mas que tem em comum a pobreza extrema, vínculos familiares fragilizados e inexistência de moradia convencional regular. Essa parcela dos brasileiros é retrata- da também por utilizar espaços públicos, como praças, jardins, canteiros, marqui- ses e viadutos, além de locais abando- nados, como prédios, ruínas e carcaças de veículos como abrigo, temporário ou permanente. Sofre intensa discrimina- ção social e está marginalizada do acesso a direitos fundamentais do cidadão. Dados do Centro Nacional de Defesa de Direitos Humanos da População em Situação de Rua e Catadores de Mate- riais Recicláveis (CNDDH) indicam que, de abril de 2011 a abril de 2014, contra essa população foram registradas no país um total de 1.176 denúncias de vio- lência física (dentre estas, 710 por homi- cídios) e 680 por violência institucional, dentre outros casos. De acordo com a coordenadora da Pastoral Nacional do Povo da Rua, Ir- mã Cristina Bove, a atual política nacio- nal do governo brasileiro para a popula- ção que vive nessas condições tem cará- ter inovador e conta com aporte de inves- timento significativo por parte do MDS. Porém, ainda se sustenta em um proje- to assistencialista. “Ficar apenas na pro- teção não dá o fluxo que a pessoa precisa para superar a rua”, aponta. Para avançar na questão, segundo Bo- ve, seria necessária uma vinculação com políticas de trabalho, saúde, educação e, principalmente, habitação. “Se a pessoa não tem habitação, não há como se es- truturar, (...) fica permanentemente em abrigo”, explica. Além disso, para ela, são necessárias ações articuladas de segu- rança alimentar e uma base sólida de in- dicadores sobre essa parcela da popula- ção, que deem subsídios para as políticas públicas do setor. Restrição e discriminação Foi a essas circunstâncias que se so- mou uma determinação arbitrária da or- ganização da Copa do Mundo, que impôs restrições ao acesso e permanência dessa população nessas áreas durante o evento. O CNMP entende que tal medida in- fringe a igualdade de condições dos ci- dadãos no acesso aos direitos e no aten- dimento público, além de negar o direi- to constitucional de locomoção dessas pessoas, uma vez que as ruas são bens de uso comum. Para isso, o CNMP tem divulgado por todo o país o documento Diretrizes de atuação do Ministério Público brasi- leiro em defesa das pessoas em situa- ção de rua. Ele defende que, durante o evento esportivo, o acompanhamen- to da questão seja feito de maneira ar- ticulada entre órgãos públicos e priva- dos. A pretensão é realizar abordagem social humanizada e promover os di- reitos dessa população, atentando pa- ra casos de violação dos direitos huma- nos, assegurando sua dignidade e im- pedindo ações vexatórias ou prisões ar- bitrárias baseadas em estigmas e pre- conceitos sociais. Além disso, os órgãos de defesa deve- rão avaliar periodicamente e monitorar o entorno dos estádios e locais de fes- tas promovidas pela Federação Interna- cional de Futebol (Fifa) e seus patroci- nadores, prevenindo violações, e averi- guar os impactos do evento nessa popu- lação. Trabalham ainda com a perspec- tiva de incentivar a divulgação de ca- nais de comunicação para receber de- núncias de violência contra pessoas em situação de rua. Articulação entre organizações As diretrizes nasceram de um trabalho conjunto entre diversos órgãos e organis- mos dos movimentos sociais, que, desde 2013, discutem juntos a questão da po- pulação em situação de rua. Segundo o promotor de Justiça Pau- lo César Vicente de Lima, da Coordena- doria de Inclusão e Mobilização Social do Ministério Público do Estado de Mi- nas Gerais, no último ano, várias discus- sões convergiram para o acompanha- mento focado na Copa do Mundo, mas as ações deverão se estender também após o evento esportivo. “Anteriormente, cada MP tinha suas perspectivas locais. Agora, queremos estabelecer uma linha de atua- ção nacional”, explica. Mais próximo dos movimentos so- ciais, o Ministério Público pretende avançar na atuação em defesa dos direi- tos fundamentais da população. “Insti- tuição que pretende resolver isso sozi- nha está fadada ao fracasso”, avalia Vi- cente de Lima. “Precisamos abrir o MP mais ainda para os movimentos”, reco- nhece o promotor. Para o período da Copa, o promotor de Justiça ressalta ainda que o Minis- tério Público dedicará esforços no diá- logo com a população e os órgãos de Se- gurança Pública, para garantir o direito à manifestação e a não violência duran- te atos públicos. “A gente tenta com essas mesas de ne- gociação evitar que haja violência para que as pessoas continuem estimuladas a ir para a rua”, indica. “As manifestações na Copa das Confederações (em 2013) foram um marco para a democracia bra- sileira”, conclui o promotor. (Adital) de Fortaleza (Ceará) Legitimando o que já vinha ameaçan- do, a organização para a Copa do Mun- do Fifa 2014 começa a realizar operações para a remoção forçada da população em situação de rua de espaços públicos que interessam para o evento. Denúncias da Associação Rede Rua, organização que promove a inclusão so- cial dessa parcela da população no Bra- sil, afirmam que na manhã do dia 30 de maio, operação policial em São Paulo, maior cidade do país e que vai receber a cerimônia de abertura do evento esporti- vo, expulsou um grupo de pessoas. A ação ocorreu no início da manhã, no viaduto Alcântara Machado, no início da Av. Radial Leste, caminho para o Está- dio Itaquerão, onde acontecerão os jo- gos. Segundo a Associação, os ocupantes da estrutura foram atacados pela tropa policial com bombas de efeito moral na tentativa de dispersá-los. Em reação, as pessoas que se abrigavam no local faziam barricadas com fogo. Pessoas foram atin- gidas por estilhaços das bombas e golpes de cassetetes. De acordo com testemunhas, após a dispersão dos ocupantes, executada com violência, truculência e nenhum diálogo, a operação, munida de caminhões, ini- ciou imediata limpeza e pintura do local. “O f* da p* do comandante autorizou derrubar o barraco com meu filho de 10 meses dentro. Minha mulher está ma- chucada, com o pé machucado”, rela- tou para a Rede Rua um dos ocupantes. No viaduto, se abrigavam adultos, en- tre homens e mulheres, além de idosos e crianças. Segundo a coordenadora da Pastoral Nacional da Rua, que defende os direi- tos da população brasileira que vive em lixões e nas ruas das cidades, Irmã Cristi- na Bove, no processo de dispersão da po- pulação não houve nenhum trabalho de encaminhamento das pessoas em situa- ção de rua para atendimento social. Os ocupantes do viaduto se dissiparam pe- las ruas de São Paulo. “Realmente, foi uma operação de ma- quiagem da cidade contra a cidadania”, avalia. “As autoridades têm que compre- ender que não podem tratar a população dessa maneira. Eles também são cida- dãos”, complementa Irmã Cristina. A duas semanas do início dos jogos, que serão realizados de 12 de junho a 13 de julho em 12 cidades brasileiras, denúncias indicam que operação seme- lhante será realizada em breve na cida- de de Belo Horizonte (MG), que rece- berá no Estádio Mineirão seis jogos da Copa do Mundo. De acordo com a coordenadora, essas foram as primeiras denúncias formais de violação dos direitos humanos da popu- lação em situação de rua vinculadas aos preparativos para o evento. Um trabalho integrado entre órgãos, como o Ministério Público e a Defenso- ria Pública de todos os estados brasi- leiros, em parceria com os movimentos sociais realiza o acompanhamento dos casos. Desde já e durante todo o even- to, equipes estarão de plantão nas 12 ci- dades-sede na defesa dessa parcela da população. Para Irmã Cristina, essa ação da orga- nização da Copa do mundo faz parte de determinação arbitrária — liderada pela Federação Internacional de Futebol (Fi- fa) e coadunada pelos governos estadu- ais e municipais do Brasil — que impôs restrições ao acesso e permanência dessa população nessas áreas durante o even- to. Tal medida deixa essas pessoas ain- da mais vulneráveis, já sofrendo de dis- criminação social e marginalizadas de di- reitos básicos, como moradia e soberania alimentar. (MB) (Adital) Mobilização defende pessoas em situação de rua durante a Copa DIREITOS Essa população sofre intensa discriminação social e está marginalizada do acesso a direitos fundamentais do cidadão Serviço No Brasil,para denunciar crimes contra a po- pulação em situação de rua,ligue para Disque Direitos Humanos,número 100. Moradores de rua começam a ser retirados à força VIOLAÇÕES Operação policial em São Paulo, maior cidade do país e que vai receber a cerimônia de abertura do evento esportivo,expulsou um grupo de pessoas “O f* da p* do comandante autorizou derrubar o barraco com meu filho de 10 meses dentro. Minha mulher está machucada, com o pé machucado” Contra essa população foram registradas no país um total de 1.176 denúncias de violência física (dentre estas, 710 por homicídios) e 680 por violência institucional, dentre outros casos Fotos: Valter Campanato/ABr Entidades denunciam remoções forçadas da população em situação de rua Maioria das famílias da Vila Dique,em Porto Alegre (RS),foram removidas para obras da Copa
  4. 4. brasil 7de 5 a 11 de junho de 2014 Cecilia Reigada de Brasília (DF) DIVERSOS POVOS indígenas de todo o país se reuniram na Mobilização Na- cional Indígena para exigir seus direitos garantidos na Constituição e, especial- mente, o direito à terra. A mobilização, que ocorreu em Brasília entre os dias 26 e 29 de maio, foi promovida pela Arti- culação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e contou com o apoio de diver- sas organizações parceiras. Na entrevis- ta a seguir, Fabio Turibo, jovem lideran- ça Guarani-Kaiowá, nos fala sobre a im- portância dessas manifestações e sobre a atual situação de violência pela qual passa o seu povo. Brasil de Fato – Qual é a sua avaliação sobre esta semana de Mobilização Nacional Indígena? Fabio Turibo – Considero que foi im- portante a ocupação do Congresso e o fa- to de a Proposta de Emenda à Constitui- ção/PEC 215 não ser votada até que ha- ja um consenso na Câmara dos Deputa- dos. Outro ponto importante é que o mo- vimento indígena está mais organiza- do e unido, mesmo que haja muitas di- ficuldades, como por exemplo, o deslo- camento até Brasília, motivo pelo qual muitos povos não puderam estar presen- tes. Os meios de comunicação alternati- vos ajudam muito e também temos mui- tos apoiadores à nossa causa, somando com a gente. Você acha que a sociedade reconhece a luta de vocês? Sim, acredito que há um reconheci- mento entre os pobres, mas não entre os ricos. Essas pessoas são as que tentam colocar a sociedade contra os indígenas, argumentando que nós não temos na- da, que temos terra e não plantamos na- da e o governo está junto com eles, junto com os empresários. Ainda há muito pre- conceito, muitos deles produzidos pelos meios de comunicação, como a rádio e a televisão, ao publicar fatos que não ocor- reram, que não são reais, que são mani- pulados. Como a manifestação que ocor- reu no dia 27, aqui em Brasília, rumo ao estádio Mané Garrinha. Os meios disse- ram que a marcha era para roubar a ta- ça da Copa, quando na verdade era pa- ra exigir a demarcação de nossas terras, nossa manifestação era pacífica. Também divulgaram muito a imagem do indígena atirando com uma flecha, como se fossem uns “bárbaros”. Sim, essa é a manipulação, que os ín- dios são perigosos, quando foram eles que começaram com a violência, jogan- do gás lacrimogênio e atirando balas de borracha. O que nós queríamos era con- tinuar com a nossa manifestação passan- do pelo estádio. Isso é o que a imprensa faz, manipular. O governo está dizendo, para a gente de fora, que o Brasil vai mui- to bem, que não há problemas, que os ín- dios não necessitam de terra, que as ma- nifestações são apenas por causa da Co- pa. Não, nós estamos manifestando por causa da terra, nossa causa é justa. E por outro lado também há meios alternativos que divulgam os fatos como são. Como você vê o uso das redes sociais e outros meios? Essas redes são muitos importan- tes para nós, aproveitamos esses meios para contradizer o que sai nos grandes meios como a Globo, a Record, a Band. Usamos essas redes sociais, o Facebook, os blogs, como uma forma de falar com a nossa voz. Atualmente, como está a situação dos Guarani-Kaiowá? Temos muitos problemas com a demar- cação de terras, muitos conflitos entre fa- zendeiros e indígenas. Há muitas amea- ças, assassinatos e desaparecidos. Recor- remos à justiça, mas não tivemos nenhu- ma resposta. Os crimes acontecem e o go- verno não os vê e a justiça também os ig- nora.Ajustiçasófuncionaparaquemtem dinheiro. A questão do indígena é essa, que nós não temos dinheiro, cultivamos nossos alimentos nos nossos pequenos pedaços de terra. São muitas as amea- ças, nos diversos acampamentos onde es- tamos e em toda a região. Muitos líderes estão sendo ameaçados e, entre eles, mui- tos jovens ameaçados. Morar no acam- pamento acaba com a nossa comunida- de. Não há remédios e não temos escolas porque tem uma lei que proíbe a constru- ção de escolas em área de litígio. Algumas comunidades conseguem montar esque- mas alternativos de educação, mas nem todas têm condições para fazer isso. O número de suicídios entre os Guarani-Kaiowá é muito grande, não? O número de suicídios é muito gran- de, principalmente entre os jovens, e é por causa da falta de terras. Estar nos acampamentos, num lugar confinado, com muitos problemas e sempre em con- flito com os fazendeiros, gera transtor- nos nas pessoas. O estado onde vivemos, Mato Grosso do Sul, é o que apresenta o maior número de assassinatos indígenas no país. A Força Nacional criada pelo go- verno não está lá para nos proteger, mas para proteger o agronegócio, a elite, os fazendeiros. Considerando que o maior número de suicídios é entre jovens, também vemos que há muitas lideranças jovens como você. Sim, isso é algo recente. Estão ocor- rendo muitas mortes das nossas lideran- ças e vendo essa realidade do massacre do nosso povo, decidimos assumir es- te lugar. Os jovens hoje têm o papel fun- damental de colocar suas ideias dentro da Aty Guasu. Porque nós somos mais avançados na questão da tecnologia e dos meios de comunicação, o que nos ajuda bastante. Os jovens têm apoiado bastan- te o movimento das lideranças, das mu- lheres, dos rezadores. Como vocês se organizam através da Aty Guasu? Aty significa pessoas unidas e Guasu, grande assembleia. Surgiu na década de 1980 durante as discussões sobre a nova Constituição Federal. A Aty Guasu é for- mada por vários conselheiros; é uma as- sembleia geral de todos e todas, é um es- paço para nos escutarmos, para vermos onde podemos melhorar. Uma das demandas centrais desta mobilização é o direito à terra. Como é a questão da terra para os Guarani-Kaiowá? Existem algumas terras que foram de- marcadas no período do Serviço de Pro- teção ao Índio (SPI), antes de 1967, e outra que foi demarcada há oito anos, mas a maioria das comunidades mora nos acampamentos, esperando que nos- sas terras sejam demarcadas, que o go- verno nos dê uma resposta. O que que- remos, nós Guarani-Kaiowá, é que nos- sas terras sejam demarcadas. Nossos re- zadores reconhecem nossos lugares, sa- bem onde estão, sabem onde viveram quando eram jovens. Nós fomos levados para as aldeias demarcadas pelo SPI, fi- camos confinados, mas os rezadores re- conhecem as suas áreas sagradas. A ale- gria da comunidade é estar aí, no seu lu- gar. Nosso sonho é voltar a viver no que é nosso. Nós somos felizes quando esta- mos na nossa casa, e não quando esta- mos na beira das estradas. É possível plantar nos acampamentos? Em alguns acampamentos sim, mas aqueles que estão nas margens das es- tradas não há como, não têm condições para plantar. Enquanto os fazendeiros – que são poucos, latifundiários – ganham dinheiro com a produção de soja, cana e milho nas terras dos indígenas, nós vive- mos do outro lado da estrada. Sabemos que o agronegócio é muito forte no Mato Grosso do Sul, ainda mais quando pensa- mos nos deputados, na bancada ruralista no Congresso. Você acredita que seja possível construir um diálogo entre o governo e os povos indígenas? O governo tem que dar uma resposta não só para os Guarani-Kaiowá, mas pa- ra todas as etnias. Ou se cria o diálogo es- te ano, que é ano de Copa do Mundo e eleição presidencial, ou ele não será cria- do nos próximos anos. O que pode acon- tecer é uma enrolação, e é o que está acontecendo hoje. Têm acontecido mui- tas manifestações e mobilizações, mas o governo não nos escuta. Brasil é um país onde o governo quer mostrar que é de- senvolvido, mas quem sofre são os povos indígenas. Permaneceremos forte, lutan- do por nossos direitos. A luta não acaba aqui, não é hoje que começou e não será hoje que vai terminar. Como dizem nos- sas lideranças, se um cai outro se levan- ta. Se uma liderança é assassinada, ou- tros dois jovens recomeçam a luta e três mulheres tornam-se rezadoras. Um dá a mão ao outro para que possamos conti- nuar no nosso caminho. Queremos que o governo resolva nosso problema da terra, que o ministro da Justiça assine o decre- to de demarcação. Essa manifestação é um protesto por nossos direitos, por nos- sas terras. (Colaborou Waldo Lao) “Queremos voltar a viver no que é nosso” ENTREVISTA Diante do assassinato incessante de suas lideranças,jovens Guarani- Kaiowá,como Fabio Turibo,vêm assumindo papel de destaque na continuação da luta “Os meios disseram que a marcha era para roubar a taça da Copa, quando na verdade era para exigir a demarcação de nossas terras, nossa manifestação era pacífica” “O estado onde vivemos, Mato Grosso do Sul, é o que apresenta o maior número de assassinatos indígenas no país. A Força Nacional criada pelo governo não está lá para nos proteger, mas para proteger o agronegócio, a elite, os fazendeiros” Cecilia Reigada Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr Fabio Turibo,jovem liderança Guarani-Kaiowá Policiais jogam gás em manifestação indígena em Brasília
  5. 5. brasilde 5 a 11 de junho de 20148 Rodrigo Gomes de São Paulo (SP) AS 19 EMPRESAS de ônibus concessio- nárias do transporte coletivo na capital paulista respondem juntas a 8.111 pro- cessos no Tribunal Regional do Traba- lho de São Paulo. O número corresponde a aproximadamente 15% do total de seus 54 mil funcionários. Entre os motivos, contestação de dis- pensas por justa causa, carga horária ex- cessiva, horas-extras pagas a menos, en- tre outros. Motoristas e cobradores ouvi- dos pela RBA durante a paralisação ocor- rida entre os dias 20 e 22 de maio desta- caram que a insatisfação com as condi- ções de trabalho era a maior motivação para aderirem ao movimento. A empresa mais acionada é a Via- ção Itaim Paulista (VIP), que responde a 2.911 ações na primeira instância. No Tribunal Superior do Trabalho (TST), úl- tima instância, há outros 35 processos. A empresa presta serviço nas regiões nor- deste (área 3), sul (área 6) e sudoeste (área 7) da capital, como participante dos consórcios Plus, Unisul e Sete. As empresas Viação Campo Belo e Via Sul também se destacam no número de processos – 730 e 701, respectivamente. Depois vêm as viações Himalaia e Am- biental (Zona Leste) – que aparecem sob o mesmo número de Cadastro Na- cional de Pessoa Jurídica (CNPJ) – com 529 ações; a Santa Brígida (Zona Noro- este) com 467, e a Sambaíba (Zona Nor- te) com 326. A empresa com menos questionamen- tos é a Viação Novo Horizonte, com ape- nas 11. No entanto, a empresa mudou de nome para Viação Itaquera Brasil, em 2011, e mais recentemente para Express Transportes Urbanos, após a quase fa- lência da Itaquera – o corpo diretivo, po- rém, permanece praticamente inalte- rado. A situação dificulta a pesquisa de ações no sites do TRT e do TST. Além dos processos em primeira ins- tância, há outros 163 movidos contra as 18 empresas tramitando no TST. Neste, a VIP mantém o topo como mais reclama- da, com 35 ações. É seguida pela Viação Sambaíba com 25 processos e pela Santa Brígida (Noroeste), com 20. Regiões A capital paulista é dividida em oito regiões, onde funcionam os consórcios – associação de empresas para presta- ção do serviço de transporte em uma re- gião. Cada uma dessas regiões tem um contrato com a prefeitura da capital pa- ra prestação dos serviços de transporte coletivo do sistema estrutural, que liga os terminais regionais a regiões centrais da cidade. Os consórcios também estão sendo processados por ex-funcionários. São 431 ações contra os oito grupos que atu- am em São Paulo. Também há outros dez tramitando na última instância. O Con- sórcio Sete, uma das áreas onde atua a VIP, é o que sofre maior número de ações: 111. Em seguida vêm os Consór- cios Leste 4 (99), Plus (89) e Unisul (87). Os dados levantados junto às consul- tas processuais dos órgãos da Justiça do Trabalho endossam a versão dada por motoristas, cobradores e fiscais sobre o que levou a categoria, em toda a cidade, a aderir a uma greve iniciada pelos tra- balhadores da Viação Santa Brígida, que opera na zona noroeste da cidade. Greve A paralisação teve como estopim a dis- cordância entre trabalhadores e direto- ria do sindicato da categoria, o Sindmo- toristas, sobre o reajuste salarial. A en- tidade convocou para o dia 20 de maio assembleia para apreciar a proposta de aumento salarial de 10% acertada com os empresários, mas acabou realizando a reunião no dia 19, com 4 mil trabalha- dores que haviam sido convocados para uma passeata. A assembleia realizada no dia anterior ao divulgado causou revolta entre os tra- balhadores, mas, de acordo com moto- ristas e cobradores ouvidos pela RBA du- rante os dias de paralisação, outros mo- tivos alimentam a insatisfação da catego- ria, como condições precárias de traba- lho, assédio moral e estresse. “Nossa carga horária é de sete horas di- árias, mas é raro encontrar um trabalha- dor que faça menos que dez horas diá- rias. A gente sai da garagem sabendo que vai trabalhar mais do que o contrato defi- ne”, conta José (nome fictício), motoris- ta da Viação Sambaíba, que opera na zo- na norte da capital. Nos finais de semana, quando par- te dos profissionais tem folga, a situa- ção dos que trabalham fica ainda mais complicada. “Os coletivos não podem pa- rar, então temos que cobrir os períodos de quem não está trabalhando”, explica Luiz (nome fictício), cobrador da Viação Gato Preto, operadora da zona oeste da cidade. Assim, muitos chegam a fazer 15 horas de trabalho direto, denuncia o fun- cionário. Hora extra A hora extra conta com a concordân- cia dos trabalhadores pela renda maior no final do mês, mas não é computada no holerite. “Todo mundo aqui conhece a ‘fominha’, a renda que é paga por fo- ra. Do holerite, só consta o salário men- sal mesmo”, diz José. Como motoris- tas e cobradores não batem ponto, é di- fícil provar o trabalho além do expedien- te e, segundo Luiz, brigas nas garagens são comuns porque motoristas e cobra- dores acreditam que recebem menos do que deveriam. Além disso, os trabalhadores recla- mam não ser possível obter acordos pa- ra demissão. “Das empresas a gente só sai se pe- dir ou se for demitido por justa causa. Mesmo que não tenha motivo para is- so. Daí tem de procurar a Justiça”, com- pleta José. Coincidentemente, na últi- ma quinta-feira (29), motoristas e co- bradores da Viação Sambaíba denun- ciaram que a empresa estava demitin- do, por justa causa, supostos líderes da paralisação. O superintendente regional do Traba- lho em São Paulo, Luiz Antônio de Me- deiros, que mediou o diálogo entre os sindicatos da categoria e patronal e os trabalhadores rebelados, confirma a si- tuação denunciada pelos trabalhadores. “É um tipo de trabalho precário. Há um excesso de carga horária, problemas no descanso do trabalhador, não há ho- rário de almoço. Tem gente que esquen- ta marmita sobre o motor do veículo”, afirmou. Para ele, as empresas aprovei- tam a condição de serviço essencial do transporte público para manter as con- dições de trabalho desfavoráveis aos trabalhadores. Para Medeiros, o que existe é um “mo- dus vivendi” entre trabalhadores, sindi- cato e empresas. “A justiça é muito len- ta. Em boa parte das vezes o trabalha- dor acaba por fazer um acordo, induzido pela Justiça, para evitar que o processo se arraste ao longo dos anos. As empre- sas sabem disso e acabam mantendo a situação sem melhorias, porque é van- tajoso”, avaliou. Por essa razão, o superintendente es- tá convencido de que o movimento gre- vista foi espontâneo e considera natural que o trabalhador abra processo contra a empresa posteriormente. “É por isso que essas greves estouram assim. Não era uma briga de diretoria. Foram gre- ves reais e espontâneas, movidas pela insatisfação”, concluiu. Roberto (nome fictício), motoris- ta da Viação VIP, reforça o argumento de Medeiros. “Nossa frustração com es- sas condições foi o que fez a maior parte dos trabalhadores aderir ao movimen- to iniciado na Viação Santa Brígida. São muitos anos nessas condições e o acor- do de reajuste deste ano foi apenas um estopim. Muitos aqui botaram fé na no- va diretoria e ficaram revoltados com a aprovação do acordo sem consentimen- to da maioria, mas as principais ques- tões são anteriores.” Anteriores são, por exemplo, as ava- rias nos veículos, que também entram na conta dos trabalhadores, assim co- mo as ocorrências de assalto. “Se um ca- ra bater na traseira do veiculo e conse- guir fugir sem que eu possa identificá- -lo, tenho de pagar o conserto”, denun- cia o motorista da Viação VIP, na zona sul da cidade. Ele afirma que os traba- lhadores costumam revisar todo o cole- tivo antes de sair da garagem para evi- tar surpresas. O mesmo ocorre com os cobradores. “Se meu cobrador for assaltado, o valor vai ser descontado do salário dele. Não adianta fazer boletim de ocorrência”, conta Roberto. Com a criação do Bilhete Único, a situação melhorou, mas o risco ainda é frequente. O horário de almoço dos profissionais também é curto. São apenas 30 minutos para comer, o que coloca a categoria em outra situação difícil. “Exceto pelos que operam em termi- nais, temos sérios problemas para ir ao banheiro ou almoçar. Muitos pontos fi- nais estão localizados em áreas mais re- motas. Quando tem um boteco, a gente se vira”, relata Roberto. Ele, que está no sistema há 13 anos, diz que todas essas situações são comuns. Boa parte dos rodoviários de São Pau- lo é levada ao trabalho por “caronas” da própria empresa. No entanto, se chega- rem atrasados – mesmo vindo na caro- na – não podem trabalhar. Ficam à dis- posição, aguardando ser enviados para outra linha. Assim, passam o dia todo no trabalho, mas não recebem pelo pe- ríodo parado. “Só vai passar a contar quando eu sair de algum ponto final para render outro trabalhador”, comenta Roberto. Essa perda de horário faz grande diferença no final do mês. Aliadas ao trânsito complicado de São Paulo e a problemas eventuais com pas- sageiros, essas condições levam a catego- ria ao topo do ranking de estresse ocupa- cional no país, perdendo apenas para po- liciais e seguranças privados. Consequências O estudo “Condições de trabalho e saú- de de motoristas de transporte coletivo urbano”, realizado pelos especialistas em psicologia Márcia Battiston (Centro Uni- versitário Barriga Verde), Roberto Mo- raes Cruz (Universidade Federal de San- ta Catarina) e Maria Helena Hoffmann (Universidade do Vale do Itajaí), cons- tatou as consequências físicas das condi- ções de trabalho dos motoristas e cobra- dores, em geral, como dores na cabeça e nas pernas, problemas auditivos e dis- túrbios emocionais e psíquicos, como es- tresse, irritabilidade e fadiga. Segundo a pesquisa, os motoristas es- tão submetidos a uma série de pressões externas aos veículos em que trabalham, entre as quais destacam-se as exigências do trânsito, o respeito às leis de trânsito, os limites de seu trabalho – por exemplo, nível do tráfego, semáforos, congestiona- mentos, acidentes –, além de condições adversas como o clima e o estado de con- servação da pista. Além dessas, eles ain- da sofrem com as condições ergonômicas do veículo: posição do motor e precarie- dade mecânica, além do ruído e das vi- brações. Em São Paulo, a transferência do mo- tor para a parte traseira do veículo me- lhorou, em parte, as condições de traba- lho, já que reduziu a incidência de ruído e calor. Assim como a implementação das faixas exclusivas de ônibus, que reduzem a parada em congestionamentos. Mesmo assim, um levantamento sobre os melhores e piores empregos no Bra- sil, realizado pelo site de vagas Adzuna. com, colocou a profissão de motorista de ônibus no topo como a pior. O estres- se, as más condições de trabalho, a baixa remuneração e a falta de perspectiva de progredir em uma carreira são os princi- pais problemas. O Sindimotoristas informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que es- tá formando comissões para discutir os problemas que afetam a categoria e vai buscar melhorias nas condições de traba- lho, ressaltando que a nova diretoria to- mou posse há apenas seis meses. O Sindicato das Empresas de Trans- porte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo (SPUrbanuss) informou, por meio de nota, que sua função “é cuidar dos interesses do setor, buscando a me- lhoria e o desenvolvimento dos serviços, bem como a defesa de políticas públicas que priorizem o transporte coletivo sobre o individual”. A entidade afirma que trata dos proble- mas que são comuns às empresas e não se envolve nas relações diretas entre pa- trões e empregados. E não comentou o número de processos. A reportagem procurou pelas empre- sas, mas foi orientada a buscar pelo sin- dicato patronal, que seria o único porta- -voz das concessionárias. Em entrevista à RBA, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), reafir- mou que a gestão não vai interferir nas questões trabalhistas, e que o papel da prefeitura é gerir o sistema e garantir o atendimento à população. “Os motoristas e cobradores não são funcionários da prefeitura, eles são funcionários das concessionarias de transporte público da cidade. Obvia- mente, por se tratar de um serviço es- sencial, a prefeitura acompanha pa- ra verificar se está havendo diálogo, se estão chegando a um bom termo, mas sempre como um terceiro observador, sem nos imiscuir nos assuntos internos aos sindicatos.” (RBA) Empresas de ônibus têm 8 mil processos na Justiça do Trabalho SÃO PAULO Motoristas e cobradores relatam condições de trabalho abusivas e necessidade de recorrer à Justiça para reaver direitos negados como justificativa para adesão à greve que parou São Paulo há duas semanas Entre os motivos, contestação de dispensas por justa causa, carga horária excessiva, horas extras pagas a menos, entre outros “Nossa carga horária é de sete horas diárias, mas é raro encontrar um trabalhador que faça menos que dez horas diárias” Coletivo AJA/CC Ônibus parados:insatisfação geral com as condições de trabalho
  6. 6. de 5 a 11 de junho de 2014 9brasil Igor Ojeda  de São Paulo (SP) A VASSOURA que você usa em casa pode ter tido trabalho escravo em seu processo de fabricação. Uma operação realizada entre 27 de abril e 11 de maio resgatou 13 pessoas em condições análogas à de es- cravos trabalhando na extração de piaça- va em duas comunidades rurais entre os municípios de Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro, no norte do estado do Ama- zonas, a cerca de 400 quilômetros da ca- pital Manaus. A fibra, originária de uma das espécies de palmeira, é amplamente utilizada na produção de vassouras. Os trabalhadores resgatados eram sub- metidos a jornadas excessivas e servidão por dívida e ficavam alojados em cons- truções improvisadas no interior da flo- resta Amazônica, sem condições de segu- rança e higiene. Segundo os relatos colhi- dos pelos integrantes da fiscalização, eles extraiam a piaçava de segunda a sexta- -feira. Nos fins de semana, faziam o be- neficiamento da fibra, conhecido como “penteamento”. Participaram da opera- ção representantes do Ministério Públi- co Federal no Amazonas (MPF/AM), Mi- nistério Público do Trabalho no Amazo- nas (MPT 11ª Região), Ministério do Tra- balho e Emprego (MTE), Exército e Polí- cia Federal. De acordo com informações do MPT, os trabalhadores contraíam dívidas já antes de iniciarem as atividades. Inter- mediários chamados de “patrõezinhos ou “aviadores” davam adiantamentos em dinheiro ou forneciam mercadorias e insumos necessários para a realização dos trabalhos, como combustível e ali- mentos, com valores superfaturados em até 140%. Segundo o procurador Renan Bernardi Kalil, os “piaçabeiros” precisavam passar um longo período de tempo extraindo piaçava para enfim quitarem a dívida e obterem algum rendimento, que em mé- dia ficava em R$ 200 mensais. Nenhum dos 13 resgatados havia conseguido ga- nhar um valor correspondente ao salá- rio mínimo brasileiro, de R$ 724, e em alguns casos novas dívidas eram contraí- das. Além disso, descontos de 20% eram aplicados sobre o peso da piaçava extra- ída, tanto na entrega dos piaçabeiros aos intermediários, quanto no repasse destes ao empregador. A escravidão contemporânea no Bra- sil é definida pelo artigo 149 do Código Penal. Segundo este, tanto jornadas ex- cessivas, quanto condições degradantes de trabalho e servidão por dívida servem para caracterizar o crime. De acordo com o que os integrantes da operação apura- ram, o empregador dos 13 trabalhadores resgatados era o empresário Luiz Cláu- dio Morais Rocha, o “Carioca”, proprie- tário da empresa Irajá Fibras Naturais da Amazônia. Depoimentos das vítimas e do próprio Luiz Cláudio confirmam que este visitava periodicamente os locais de ex- tração e, portanto, sabia das condições precárias a que estavam submetidos seus funcionários. O lugar onde os piaçabeiros trabalha- vam e se alojavam era de acesso muito difícil. A equipe de fiscalização teve de viajar por horas para chegar à base mon- tada pelos próprios trabalhadores. Um piaçabeiro de 61 anos, há 45 anos no ra- mo e desde novembro no atual trabalho, relatou que já continuou a extrair piaça- va mesmo depois de ter sido picado por um escorpião. “Quando sou picado tra- balho do mesmo jeito. A gente trabalha doído, mas faz esforço para terminar o trabalho, para pagar o que a gente deve. Se eu for embora no dia que eu fui pica- do, é um dia de trabalho perdido, por is- so que a gente faz esse esforço”, relatou à fiscalização. Investigação Com base em denúncias, o MPF e o MPT já apuravam as irregularidades tra- balhistas na cadeia produtiva da piaçava em Barcelos. Em dezembro do ano pas- sado, integrantes do MPF aproveitaram a realização de um projeto do órgão na região para colher depoimentos e fazer um diagnóstico da situação. A estimati- va é que pelo menos mais 80 trabalha- dores vinculados a Luiz Cláudio estejam nas mesmas condições que os 13 resgata- dos, além de outros ligados a outros em- pregadores. Por essa razão, as investiga- ções e fiscalizações vão continuar. O MPF estuda adotar medidas judiciais na esfe- ra criminal. No fim de maio, a Justiça do Traba- lho do Amazonas, a pedido do MPT, de- terminou a quebra do sigilo bancário de Luiz Cláudio e sua empresa, e o bloqueio de R$ 255.472,94, além de imóveis e veí- culos, para que se garanta o pagamento das verbas rescisórias e indenização dos trabalhadores resgatados. Segundo comunicado do órgão, o pro- curador Renan Kalil pediu a liminar “diante das condições extremamente de- gradantes a que estavam submetidos os empregados, endividados, isolados geo- graficamente e sem qualquer expectativa de receber seus direitos trabalhistas”. Se- gundo ele, a medida foi necessária por- que o empregador “descumpriu o poder de notificação do Ministério do Trabalho e Emprego para a realização dos proce- dimentos administrativos cabíveis e tam- bém procedeu de má fé nas negociações entabuladas na semana seguinte ao res- gate dos trabalhadores, quando houve o acordo de pagamento das verbas rescisó- rias e indenizações devidas”. No dia 21 de maio, o MPF e o MPT en- tregou uma lista de recomendações a ór- gãos e autarquias estaduais e federais das áreas do meio ambiente, produção rural, trabalho e emprego e política fundiária no Amazonas, com indicações compro- missos no sentido de regularizar a cadeia produtiva da piaçava e acabe com o regi- me de aviamento – sistema de adianta- mento de mercadorias a crédito – na ati- vidade extrativista do estado. À Secreta- ria de Meio Ambiente e Desenvolvimen- to Sustentável, por exemplo, recomen- dou-se que “deixe de promover qual- quer tratativa com os patrões que explo- rem a piaçava sob o regime de aviamen- to, no qual os trabalhadores são subme- tidos a condições análogas à de escravo, que legitime essa prática” e “desenvol- va ações permanentes de formação e ca- pacitação dos piaçabeiros, inclusive me- diante ações de conscientização quanto às relações de trabalho nos piaçabais”. (Repórter Brasil) Fiscalização flagra escravidão na extração de piaçava noAmazonas EXPLORAÇÃO Treze trabalhadores eram submetidos a servidão por dívida,jornadas excessivas e condições degradantes de alojamento em Barcelos (AM),no meio da floresta Amazônica MPT/AM Para pagarem suas dívidas,trabalhadores chegam a trabalhar mesmo após picada de escorpião
  7. 7. culturade 5 a 11 de junho de 201412 www.malvados.com. br dahmer Braulio Tavares O PRIMEIRO GRANDE spoiler da minha vida literária foi num texto que hoje reencontrei meio por acaso. Para quem não sa- be, spoiler é aquela revelação indesejada que estraga o prazer de uma narrativa: “O assassino é o Doutor Fulano.” Na arte da nar- rativa, contudo, existem surpresas, segredos e mistérios de toda natureza. Eu via desde menino na estante da minha casa o Gran- de Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, que já tinha folheado por curiosidade, mas considerei impenetrável. Sagarana eu conse- gui ler alguma coisa antes dos doze anos; mas aquele ali era proi- bitivo. Eu tinha apenas uma vaga noção da história e dos perso- nagens. Anos depois, li num jornal ou revista esta resenha/carta de Ma- nuel Bandeira, de março de 1957, endereçada a Guimarães Rosa, e exprimindo as primeiras emoções de Bandeira diante da leitura do livro. Como é inevitável, Bandeira se dirige ao autor meio que adotando a voz narrativa de Riobaldo, uma contaminação inevi- tável a qualquer leitor bom de verbo que tenha acabado de rece- ber aquele choque monumental de palavreado de alta voltagem. (Aqui, a carta inteira: http://tinyurl.com/otpawfr). E a certa altura Bandeira dizia: “E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe. Mas eu tive a minha decepção quando se descobriu que Diadorim era mulher. ‘Honni soit qui mal y pense’, eu preferia Diadorim homem até o fim. Como você disfarçou bem! nunca que maldei nada.” Eu li isso, ergui os olhos da página para a parede em branco. Então o tal do jagunço Diadorim, brabo e feroz, que eu já vira aparecer no texto, era uma Joana d’Arc! Uma donzela guerreira! Como na época eu não tinha a menor intenção de ler o livro, dei de ombros e fui em frente. E chego ao ponto. É aconselhável ficar discutindo esses segre- dos em público? Todo dia nascem pessoas, Brasil afora, que ain- da não sabem o segredo de Diadorim. Alguns milhares lerão o livro de Rosa daqui a 20 ou 30 anos. Até então, o segredo será mantido? Para uma geração mais jovem do que a minha, Diado- rim é Bruna Lombardi, ou seja, tchau segredo. Quando li aquelas terríveis sessenta páginas derradeiras do romance, ao longo da- quelas fugas, dos cercos, dos confrontos, da batalha apocalíptica, a coisa que menos importava ali era o sexo dos anjos. Rosa de- ve ter pressentido que o segredo da sua Donzela Guerreira iria se esvaindo à medida que o livro se tornasse famoso, como ele devia ter certeza que iria ocorrer. Mas o segredo, que numa literatura menor seria A Grande Revelação, acaba se minimizando, porque num grande livro há grandes revelações em cada parágrafo, em cada linha. (Texto publicado em sua coluna diá­ria no Jornal da Paraíba – Campina Grande-PB) Braulio Tavares é escritor, poeta e compositor de Campina Grande (PB). De Bandeira para RosaCRÔNICA Li num jornal ou revista esta resenha/carta de Manuel Bandeira,de março de 1957,endereçada a Guimarães Rosa,e exprimindo as primeiras emoções de Bandeira diante da leitura do livro Como é inevitável, Bandeira se dirige ao autor meio que adotando a voz narrativa de Riobaldo, uma contaminação inevitável a qualquer leitor bom de verbo que tenha acabado de receber aquele choque monumental de palavreado de alta voltagem PALAVRAS CRUZADAS Horizontais: 1. Renomado economista brasileiro que concedeu entrevista para a edição zero do Brasil de Fato – Partido brasileiro fundado em 1980 que tem como símbolo uma estrela vermelha. 2.Pessoa que exerce influência sobre o comportamento, pensamento ou opinião dos outros – Unidade de Terapia Intensiva. 3. A Terra possui cinco (singular) – Em tupi, diz-se “can- ga” - Caim (bíblia) o matou. 4.Que não tem movimento próprio – Sem outro da sua espécie ou qualidade. 5.Há muita controvérsia sobre a sua invenção, que geralmente tem sido atribuída a Alexander Graham Bell – Determinado (plural). 6. Esconde – Travessura. 7.Jornal conhecido por suas manchetes bem sacadas e do qual se dizia que se“espremesse sairia sangue”- Nome de um pássaro que também dá nome a uma espécie de cabideiro – Na Índia, ela é considerada sagrada. 8.Manifestação – Aldo Rebelo e José Serra estão entre seus antigos presidentes. 9.Companheira de Luís Carlos Prestes entregue pelo governo Vargas a Hitler – Incomplacência.10.Sigla de agên- cia – Triture – Derrame cerebral. 11.Sigla de Bahia - Brasileiro de ascendência africana (plural). Verticais: 1.Presidente dos Estados Unidos que se envolveu em um escândalo sexual com Mô- nica Lewinsky, uma das estagiárias da Casa Branca – Sem a aprovação no exame desta ordem, formados em Direito não podem exercer a advocacia.2.Interjeição usada como forma de chama- mento – Entusiasma.3.Lei de Diretrizes Orçamentárias – Unidade de distância chinesa que indica meio quilômetro. 4.Lança secreção para fora – Adora. 5.Reze – Machuca -“De”, em inglês. 6.Aviso de Recebimento. 7.Fazer adormecer, geralmente ao som de cantigas. 8.Sobrecarrega. 9.Artista que representa em teatros. 10.Causo aflição. 11.Contração da preposição “de” com o pronome demonstrativo“isto”- Canto entoado por uma torcida de futebol quando o seu time está ganhan- do de lavada (plural).12.Símbolo gráfico usado para apontar ou indicar uma direção.13.Relativo ou pertencente ao campo ou à vida agrícola. 14.O fruto da videira - Espaço longitudinal entre fileiras de colunas ou entre as colunas e a parede de uma igreja. 15.Faz vento com um leque – Ganhei. 16.Banco Interamericano de Desenvolvimento. 17.Ideia ou conceito formado antecipa- damente e sem fundamento sério ou imparcial. 18.“Os”, em espanhol. Horizontais:1.CelsoFurtado–PT.2.Líder–UTI.3.Oceano–Osso–Abel.4.Inerte–Único. 5.Telefone–Motivados.6.Omite–Arte.7.NP–Arara–Vaca.8.Ato–UNE.9.Olga–Intolerância. 10.Ag.-Moa–AVC.11.BA–Afro-brasileiros. Verticais:1.Clinton–OAB.2.Ei–Empolga.3.LDO–Li.4.Secreta–Ama.5.Ore–Fere–Of. 6.AR.7.Ninar.8.Onera.9.Ator.10.Atormento.11.Disto–Olés.12.Seta.13.Rural.14.Uva–Nave. 15.Abana–Venci.16.BID.17.Preconceito.18.Los. PALAVRAS CRUZADAS 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Reprodução do desenho de capa de edição de Grandes Sertões:Veredas da editora Nova Fronteira Reprodução
  8. 8. américa latina 13de 5 a 11 de junho de 2014 Elaine Tavares A CENA ESTÁ gravada na memória de quem conhece a saga do libertador Simón Bolívar. Depois da pesada der- rota da primeira tentativa de libertação, como um soldado de Francisco de Mi- randa, Simón é desterrado da Venezue- la e vai para a Jamaica. De lá, ele busca apoio da recém-liberta nação haitiana, comandada pelo valente Petión. Nas conversas com o líder negro, Simón pede armas e dinheiro para voltar à Venezuela e levar a cabo o processo de libertação da metrópole espanhola. Mas, além disso, insiste numa outra contribui- ção, que considera a mais importante de todas: uma prensa. Como um homem da ilustração, Bolí- var acreditava que a batalha, para além do campo das armas, também tinha de ser travada no campo das ideias. E, pa- ra isso, o jornal deveria circular por todos os lugares na colônia. Assim, quando os navios começam sua viagem de regresso para a Venezuela, ele insiste numa parada em uma das ilhas do Caribe. Seus assessores diretos pensam que o que ele quer é estar nos braços de uma anônima dama. Mas não. Quando volta para o navio traz nos braços aquela por quem realmente esperava com pro- funda ansiedade: a prensa. Com ela, grudada na garupa do cava- lo, ele atravessaria as planícies e os An- des, nas suas campanhas de libertação. Dali, sairiam as palavras que incendia- ram também todo o continente. “Notí- cias, notícias... isso é o que interessa ao povo”, dizia, inflamado. Não é sem razão que quando instala o Conselho de Estado, em 1817, ele afirma: “A primeira força para a criação de um Estado é a opinião pública. A considera- ção popular, que saberá inspirar o Con- selho de Estado, será o mais firme escu- do do governo”. Ele via como absolutamente necessário cuidar do espírito público e entendia que sem o seu auxílio, a força física apenas produziria um efeito precário. É que na- queles dias, os veículos de imprensa es- tavam todos nas mãos dos realistas. Por isso, os jornais que criaria se levantariam contra o monopólio e o despotismo. Correio do Orinoco O primeiro jornal criado por Bolívar é o Correio do Orinoco, instalado na solidão de uma região esquecida, e que, segundo ele, seria o aríete da empresa libertadora. Simón tinha clareza de que era preci- so firmar a opinião pública. Sempre cita- va as palavras de Napoleão: “Quatro jor- nais hostis fazem mais danos do que 100 mil homens na batalha”. Assim, numa Venezuela tomada pelos realistas, o jornal serviria para abrir uma cunha na cabeça do povo. Apesar do al- to nível de analfabetismo, os jornais, na- queles dias, tinham uma aura quase má- gica, sempre funcionando como um ar- gumento de autoridade. Se estava no jor- nal, devia ser verdade. Bolívar usaria isso a favor da causa da integração. No primeiro número do jornal, lançado em 27 de junho de 1818, um dos decretos de Bolívar, publicados com destaque diz: “Determinar que se instruam três jovens na arte da prensa. Será dada preferência aos que sabem ler e escrever corretamen- te. Esses jovens serão mantidos pelo Es- tado e, assim que tiverem instruídos, se- rão colocados convenientemente”. No editorial, Bolívar anunciava o que considerava as primeiras necessidades da revolução: moral e luzes. “A escravi- dão é filha das trevas. Um povo ignoran- te é instrumento cego de sua própria des- truição”. Lembrava ainda que estavam num país que não tinha visto mais livros do que os que trouxeram os espanhóis “para dar ao povo lições de barbárie”, e era preciso que houvesse outros pontos de vista para que a nação pudesse pensar por si mesma. Semeador de jornais A partir daí Bolívar passou a ser um semeador de jornais, não na Venezue- la, mas nas demais repúblicas que iam sendo criadas. Tinha, inclusive, um, que era volante, o Sentinela em Campanha, o qual ia imprimindo na sua prensa mó- vel por todo o território onde andava pe- leando. Nas folhas, ele contava das bata- lhas, fazendo a crônica dos acontecimen- tos e também publicava seus proclamas. Toda a proposta de mundo que a re- volução trazia era impressa nos jornais. Ali, Bolívar defendia a soberania do po- vo, explicava como seria a divisão dos poderes, a liberdade civil, pregava o fim da escravidão e a liberdade de pensar e escrever. “Conjuro a todos para que não fiquem em silêncio, que escrevam, que difundam as luzes e instruam seus com- patriotas”. Bolívar acredita que a imprensa livre era uma espécie de tribunal espontâ- neo, um órgão capaz de disseminar os pensamentos alheios, livre de precon- ceitos e coação. “Ao dizer a verdade, a imprensa é fiscal da moral pública e freio das paixões”. E foi assim que os jornais começaram a nascer em todos os lugares, sempre promovendo a integração entre as re- públicas novas. Era política editorial de Bolívar jamais inflamar república con- tra república. O projeto visava basica- mente promover a unidade, contra os perigos exteriores e contra as oligar- quias locais. Por isso, são muitas as cartas que ele escrevia para os partidários da liberta- ção no Peru, pois os jornais de lá fala- vam mal de Bolívar e contra as leis, cria- das por ele, que distribuíam terra aos in- dígenas. E, além das cartas indignadas, escrevia também artigos em resposta, exigindo que fossem publicados. “Não posso deixar que importante fato tenha uma só versão”. Era já o começo da oposição que leva- ria à derrocada do projeto da Grande Co- lômbia. Mas, enquanto estava no coman- do, Bolívar definia a política de comuni- cação. E era reconhecido pelos inimigos nessa sua obsessão pela disputa da opi- nião pública. Imprensa como arma Tanto que a Gazeta de Caracas, jornal realista, dizia: “A imprensa é a primeira arma de Bolívar, dela sai o incêndio que devora a América e é por ela que ele se comunica com o exterior”. Essa era a mais pura verdade. O Cor- reio do Orinoco, como primeiro e prin- cipal veículo da libertação, buscava no- ticiar os principais fatos que aconteciam em toda a América e era levado, de na- vio, para a Europa, para que pudesse circular nos mais importantes centros de pensamento. Com o discurso sempre focado na uni- dade latino-americana, o jornal trazia também textos de publicações estrangei- ras que falavam das lutas de outros po- vos. Os resumos e traduções eram feitos pelo próprio Bolívar, que usava essas in- formações a favor da independência. Ao mostrar a luta dos demais povos ele in- centivava seu povo a unir-se na luta local. Outra diretiva importante dos veículos comandados por Bolívar era a crítica im- piedosa que eles deveriam fazer à admi- nistração pública, denunciando qualquer desmando, mesmo nos momentos mais duros da guerra. Ele considerava a cor- rupção como o delito mais grave que al- guém poderia cometer, porque ia contra a fé do povo. Assim, defendia que a im- prensa deveria ser a “sentinela contra to- do o excesso e omissão”, mantendo a opi- nião pública sempre em alerta e fiscali- zando o governo em cada passo. Simón era um “escrevinhador” com- pulsivo e, se não escreveu livros, deixou, nas cartas e artigos de jornais, toda a sua visão de mundo, seus sonhos e seus ide- ais. No campo do jornalismo ele também fazia questão de fazer circular por toda a América liberta, as suas contribuições. Muitas vezes ficava indignado com a falta de bons jornalistas, porque enten- dia que o jornal devia informar bem, daí sua preocupação com a formação de jo- vens para a escrita. Também no campo da estética ele dava seus palpites. Exigia que o jornal fosse bem cuidado no dese- nho e na impressão. “A forma do jornal deve ser agradável, para encantar.” Ti- nha uma dedicação especial aos títulos. Acreditava que era por ali que pegava o leitor. “Há que chamar a atenção e cap- tar a admiração do leitor. Há que ganhar seu interesse com coisas úteis e um esti- lo simples, mas elegante, de grande dig- nidade”. Variedades Outra de suas invenções, lá pelo ano de 1823, foi a criação do gênero “varie- dades” nos jornais que comandava, bem como nas folhas volantes que distribuía por onde passava. Nessa seção, ele in- sistia que os textos deveriam ser leves, divertidos, picantes e brilhantes. Fa- ziam sucesso. Essa faceta de jornalista de Simón Bo- lívar vem se somar ao gigante que ele foi em todo o processo de libertação, seja co- mo estrategista militar, guerreiro, políti- co, articulador. Um homem capaz de em- punhar a espada com a mesma energia com a qual empunhava a pluma. Fazia a guerra nas duas frentes e fazia bem. Não bastasse isso, ainda gastava suas noites, entre um artigo e outro que inflamaria as gentes para a libertação, com ardentes cartas à sua amada Manuela Saenz. Fez da palavra o seu aríete, com o qual en- frentava tudo na vida. Como homem de seu tempo, estava certo de que aquele era o tempo das luzes e que elas só viriam pe- lo esclarecimento da opinião pública. Causou inveja e ódio aos inimigos que não suportavam sua política de uni- dade, integração, moralidade e inten- sa divulgação dos fatos. Como sempre, quem pensa em dominar não quer sa- ber de opinião pública bem informada. Não era o caso de Bolívar. Tinha a firme convicção que só com as pessoas cientes dos fatos e dos problemas, seria possí- vel construir um bom governo. Sua po- lítica de transparência, o desejo de infor- mar e fiscalizar, foram alguns dos pontos que levaram a sua derrocada. Depois de ter incendiado a América com sua espa- da e com suas palavras, ele foi traído pe- la maioria dos seus generais, perseguido e, finalmente, morreu, abandonado e só. Mas, como fez da palavra o centro do seu mundo, elas sobreviveram a ele e estão aí, até hoje, iluminando seu tem- po e inspirando novas gerações. “Como fazem falta bons jornalistas”, dizia, tão atual. “Notícias, notícias, textos úteis. É o que interessa”, conclamava, mais atual ainda. Naqueles dias, como hoje, também há que se travar a luta, intensa, contra o mo- nopólio e o despotismo. E assim, da larga noite da história, Bolívar desperta, cha- mando para a luta, também nesse cam- po: o do jornalismo. Elaine Tavares é jornalista. Texto escrito a partir do trabalho de pesquisa de Ignácio de La Cruz, consolidado no texto: Bolívar – su concepción de periodismo. Editado pelo Ministerio del Poder Poder Popular para la Comunicación y la Información; Julío, 2009. Venezuela. Simón Bolívar, jornalista ARTIGO Após ser derrotado em sua primeira tentativa de libertação,Simón pede armas e dinheiro para voltar à Venezuela, mas,insiste numa outra contribuição, que considera a mais importante de todas: uma prensa Como um homem da ilustração, Bolívar acreditava que a batalha, para além do campo das armas, também tinha de ser travada no campo das ideias. E, para isso, o jornal deveria circular por todos os lugares na colônia O Correio do Orinoco, como primeiro e principal veículo da libertação, buscava noticiar os principais fatos que aconteciam em toda a América e era levado, de navio, para a Europa, para que pudesse circular nos mais importantes centros de pensamento AVN lbaciudad.org Jornalista segura“Premio Nacional de Periodismo Simón Bolívar” Participantes de seminário de jornalismo popular na Venezuela

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