Artigo publicado sobre a percepção de jovens aprendizes

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Artigo publicado sobre a percepção de jovens aprendizes

  1. 1.                                                                                                                                                                                                                                                    ISSN  on-­‐line:  2238-­‐4170                                                                                                                                                                                                    http://revistas.es.estacio.br/index.php/gestaocontemporanea                                                          Gestão  Contemporânea,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  abr.,  2014.       k   Silvia  Pires  Bastos  Costa  1     Universidade  Federal  do  Rio  Grande  do  Norte,  Natal/RN    -­‐  Brasil     Denise  Pires  Bastos  Costa2   Universidade  Estadual  do  Ceará,  Fortaleza/CE  -­‐  Brasil   Marcelo  Hugo  de  Medeiros  Bezerra3   Universidade  Federal  do  Rio  Grande  do  Norte,  Natal/RN    -­‐  Brasil   RESUMO – Avaliação de políticas públicas para juventude: uma análise na percepção dos beneficiários de um projeto de formação de jovens aprendizes. O desemprego é um dos maiores problemas que aflige a juventude brasileira, especialmente nos segmentos de baixa renda. Na ociosidade, os jovens se tornam mais vulneráveis ao envolvimento com atividades ilícitas, a violência e a outros fatores que impedem seu exercício pleno da cidadania e desempenho profissional. Este estudo teve como foco o Programa Nacional de Aprendizagem, mais conhecido como Programa Jovem Aprendiz, executado sob a coordenação do Ministério do Trabalho e Emprego com a finalidade de promover oportunidades de trabalho, emprego e renda para jovens em âmbito nacional. O objetivo do artigo foi analisar em que medida os objetivos estabelecidos no projeto estavam sendo atingidos no caso do curso de formação executado pela ONG Movimento de Saúde Mental Comunitária–MSMC na cidade de Fortaleza. No intuito de alcançar o objetivo, a pesquisa se caracterizou como exploratória, qualitativa e utilizou-se de um estudo de caso. A análise de conteúdo de transcrições de entrevistas, depoimentos e outros documentos disponibilizados indica que muitos objetivos do projeto foram alcançados, não apenas no âmbito da capacitação profissional, mas em aspectos como a autoestima e a sociabilidade, dentre outros. Palavras-chave: Políticas públicas; juventude; aprendizagem. ABSTRACT – Evaluation of public policies for youth: an analysis on the perception of beneficiaries of a capacity project for young apprentices. Unemployment is a major problem that afflicts Brazilian youth, especially in low-income segments. In idleness, young people become more vulnerable to involvement with illegal activities, violence and other factors that impede their full citizenship and job performance. This study focused on the Programa Nacional de Aprendizagem, better known as Programa Jovem Aprendiz, implemented under the coordination of the Ministry of Labor in order to promote job opportunities, jobs and income for young people nationwide. The objective is to analyze if goals set in the project were being met in the case of the training course run by the NGO Movimento de Saúde Mental Comunitária - MSMC in Fortaleza. In order to achieve the objective, the research was characterized as exploratory, qualitative and used a case study. The content of the analysis of interview transcripts, testimonials and other documents available indicates that many objectives of the project have been achieved, not only in the context of skills, but in areas such as self-esteem and social skills, among others. Key-words: Public policies; youth; learning.                                                                                                                 1 Graduação em Administração de Empresas e mestrado em Administração (Universidade Estadual do Ceará). Doutorado em Políticas Públicas em andamento (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Conselheira da Federação das Associações dos Jovens Empresários do Ceará. 2 Graduação em Psicologia (Universidade Federal do Ceará); Especialização em Marketing (Escola Superior de Propaganda e Marketing) mestrado em Administração (Universidade Estadual do Ceará). Professora Universitária nas áreas de Marketing e Responsabilidade Social. 3 Graduando em Administração pela UFRN. Técnico em Controle Ambiental pelo IFRN. Bolsista de Iniciação Científica - PROPESQ/CNPq - em Estratégia.   Submetido em 10/01/14 Aceito em 30/03/14   ARTIGO  ORIGINAL   AVALIAÇÃO  DE  POLÍTICAS  PÚBLICAS  PARA  JUVENTUDE:  UMA  ANÁLISE  NA   PERCEPÇÃO  DOS  BENEFICIÁRIOS  DE  UM  PROJETO  DE  FORMAÇÃO  DE  JOVENS   APRENDIZES          
  2. 2. S.  P.  B.  Costa,  D.  P.  B.  Costa  e  M.  H.  de  M.  Bezerra       Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  out.  2014.     2   1 INTRODUÇÃO No Brasil, o desemprego se caracteriza como um fenômeno estrutural; trabalho e capital se relacionam de forma gravemente assimétrica. Segundo Teixeira (2005, p.29), a partir dos anos 80 o país inicia uma longa fase de desaceleração do crescimento econômico, instabilidade monetária, reconcentração da renda e elevadas taxas de desemprego. Passados mais de trinta anos, a juventude brasileira, atualmente com 51,3 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos (PNAD, 2012), continua enfrentando muitas situações adversas. O desemprego, a baixa renda familiar, as dificuldades de moradia e a hipervalorização do consumo são fatores que concorrem para que os jovens sintam-se pressionados a ingressar no mercado de trabalho, deixando com frequência a escola antes até de concluírem a formação básica. Os dados do último censo (IBGE, 2010) evidenciam o grave processo de evasão precoce do sistema escolar, computando 32,2% dos jovens fora da escola sem que tenham concluído o ensino médio. Outro dado preocupante é o aumento de adolescentes longe dos bancos escolares, atualmente mais de dez milhões ou 16,3%. A baixa escolaridade aliada à falta de formação e experiência dificulta ainda mais a empregabilidade dessa faixa da população. Este artigo versa sobre o Programa Jovem Aprendiz, cujo propósito é justamente promover oportunidades de trabalho, emprego e renda para jovens em âmbito nacional, vinculando essa participação à frequência escolar para aqueles que não concluíram o ensino médio e, portanto, agindo no sentido de reduzir os problemas supracitados. O estudo teve como objetivo analisar em que medida os objetivos estabelecidos no projeto estavam sendo atingidos no caso do curso de Formação de Aprendizes para atuar em Apoio Administrativo e Atendimento, dirigido a jovens entre 16 e 24 anos. A ação se desenvolve na região do Grande Bom Jardim, uma das áreas com maiores índices de violência e mortalidade juvenil na cidade de Fortaleza.
  3. 3. Avaliação  de  políticas  públicas  para  juventude:  uma  análise  na  percepção  dos  beneficiários  de  um  projeto   de  formação  de  jovens  aprendizes           Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  abr.,  2014.       3   2 BREVE HISTÓRICO DAS POLÍTICAS NACIONAIS DA JUVENTUDE Até a década de 90, a juventude não havia conquistado seu espaço na agenda nacional, não sendo verificadas políticas desenvolvidas especificamente para esta parcela da sociedade. A publicação do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) abriu caminho para esse processo, ao lançar os olhares para públicos antes parcamente contemplados, como as crianças e os adolescentes. Durante o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, havia 33 programas dirigidos à juventude, sendo vários deles desenvolvidos com o intuito de facilitar o ingresso de jovens de baixa renda no mercado de trabalho (SPOSITO, CARRANO, 2003). Um desses programas era o Programa Nacional de Aprendizagem, mais conhecido como Programa Jovem Aprendiz, cujas origens datam da década de 40, tendo absorvido significativas mudanças nesse governo, inicialmente através da publicação da Lei 10.097 de 2000. Os primeiros anos do governo Lula pautaram-se em elementos já utilizados no governo anterior, como as redes, o voluntariado e os cursos de curta duração, sem a promoção de grandes mudanças. Em paralelo, no entanto, se desenvolviam vários movimentos que culminaram com a criação da Secretaria Nacional da Juventude (SNJ) e do Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE), em 2005, marcando o início de um processo importante para a estruturação de uma Política Nacional de Juventude. O principal programa com foco na juventude nessa gestão foi o Projovem Integrado, cujo objetivo era evitar a fragmentação e desarticulação das ações no âmbito federal. Como destaca Gonzales (2009), porém, programas importantes como o Jovem Aprendiz deixaram de ser contemplados, posicionamento confirmado através de consultas aos documentos das câmaras temáticas constituídas para elaborar as diretrizes e perspectivas para a Política Nacional de Juventude, em cujos registros a temática não é explorada (CONJUVE,2006).
  4. 4. S.  P.  B.  Costa,  D.  P.  B.  Costa  e  M.  H.  de  M.  Bezerra       Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  out.  2014.     4   Na gestão da presidente Dilma várias iniciativas são criadas, como o Observatório Participativo da Juventude (Participatório) e o Plano Juventude Vida, enquanto outros são mantidos, como é o caso do ProJovem. Mais uma vez, ao consultar-se a principal publicação da SNJ, a cartilha de Políticas Públicas para Juventude, nenhuma menção ao Programa Jovem Aprendiz (SNJ, 2013). Em agosto de 2013, é sancionado o Estatuto da Juventude, após quase uma década de tramitação. Espera-se com ele obter maior atenção ao programa Jovem Aprendiz, tendo em vista os compromissos estabelecidos no artigo 15 quanto à adoção de políticas públicas voltadas para a promoção da aprendizagem e o estímulo à inserção no mercado de trabalho, programa que já contribuiu para viabilizar os projetos de vida de milhares de jovens em todo o país. 3 O PROGRAMA JOVEM APRENDIZ O conceito de vulnerabilidade designa grupos ou indivíduos fragilizados, jurídica ou politicamente, na proteção ou na garantia de seus direitos de cidadania (AYRES, 2009, p. 132). Já autores como Pitanguy (2003, p. 330) visualizam a ideia da vulnerabilidade social como eficaz para chamar a atenção sobre as condições estruturais que colocam as pessoas em risco, para além do seu comportamento individual. Segundo estudo realizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura - UNESCO e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID, vulnerabilidade social é: O resultado negativo da relação entre a disponibilidade dos recursos materiais ou simbólicos dos atores, sejam eles indivíduos ou grupos, e o acesso à estrutura de oportunidades sociais econômicas culturais que provêm do Estado, do mercado e da sociedade [...] (VIGNOLI e FILGUEIRA, 2001 apud CASTRO; AMBRAMOVAY, 2002, p.13). Para o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE, 2007; p. 18), o conceito é representado por uma grande parte da mão-de-obra que trabalha por baixos
  5. 5. Avaliação  de  políticas  públicas  para  juventude:  uma  análise  na  percepção  dos  beneficiários  de  um  projeto   de  formação  de  jovens  aprendizes           Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  abr.,  2014.       5   salários, sem representação e com pobres perspectivas de melhorar suas condições de trabalho. Entre as iniciativas que visam contribuir para a inclusão de jovens em situação de vulnerabilidade social no mercado de trabalho, destaca-se o Programa de Aprendizagem, que tem como um dos aspectos diferenciais a necessidade de construção de alianças para viabilizar sua operacionalização, promovendo a articulação entre Governo, empresas contratantes e financiadoras, entidades do Sistema S, ONGs e comunidade. A intersetorialidade é caracterizada pelas atividades que têm por objetivo gerar benefícios mútuos ou diminuir problemas sociais. De acordo com Kisil (2000, p. 107), o desenvolvimento da comunidade pode tornar-se um assunto que obrigue os três setores a trabalhar juntos para o benefício social. Para o autor, a ideia de um terceiro setor é complementar a um segundo setor, representado pelo mercado, cujo interesse é regulado pelos indivíduos que dele fazem parte. Complementa, também, um primeiro setor, o governo, que utiliza seu papel regulador no cumprimento das decisões legais e estabelece políticas publicas. Sobre as funções sociais do sistema da aprendizagem, Sussekind, Teixeira e Teixeira Filho (2005, p.1021) escrevem: [...] É uma mescla de transmissão de ensinamentos metódicos especializados com concomitante ou subseqüente atividade prática no próprio mister escolhido, com vistas à futura obtenção do emprego, sem a precariedade e as condicionantes inerentes ao processo de aprendizagem. Integra o marco regulatório desta política a Lei 10.097 de 2000, regulamentada pelo decreto 5.598 de 2005, transcrito a seguir. Acerca da aprendizagem, o referido decreto no artigo 2° afirma que “Aprendiz é o maior de quatorze anos e menor de vinte e quatro anos que celebra contrato de aprendizagem, nos termos do Art. 428 da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT”. Os jovens beneficiários são contratados por empresas como aprendizes de ofício previsto na Classificação
  6. 6. S.  P.  B.  Costa,  D.  P.  B.  Costa  e  M.  H.  de  M.  Bezerra       Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  out.  2014.     6   Brasileira de Ocupações (CBO) do MTE ao mesmo tempo em que são matriculados em cursos de aprendizagem, em instituições qualificadoras reconhecidas, responsáveis pela certificação. De acordo com a legislação, a cota de aprendizes está fixada entre 5% no mínimo, e 15%, no máximo, por estabelecimento, calculada sobre o total de empregados cujas funções demandem formação profissional, cabendo ao empregador, dentro dos limites fixados, contratar o número de aprendizes que melhor atender às suas necessidades. As frações de unidade darão lugar à admissão de um aprendiz (art. 429, caput e § 1º da CLT). O marco regulatório da aprendizagem tem se revelado muito dinâmico, com a publicação de várias normas legais que agregaram benefícios crescentes para os jovens, tais como o salário-mínimo hora, o vale-transporte e o direito à certificação, além de promover diretrizes curriculares e recomendações sobre a qualidade das executoras. Na prática, sabe-se que há dificuldades a superar, de forma a melhorar o programa e também possibilitar sua ampliação a um número maior de jovens. Acredita-se que para que essas melhorias sejam possíveis, é primordial ouvir os próprios jovens, que devem ser percebidos como sujeitos de direitos e não como beneficiários passivos das políticas públicas. A próxima seção aborda algumas questões sobre a juventude e sua relação com o universo do trabalho. 4 JUVENTUDE: UM PERÍODO DE MUITAS TRANSFORMAÇÕES A juventude é um período de passagem da dependência para a autonomia. Segundo a UNESCO, corresponde à faixa etária de 16 a 24 anos, no entanto é preciso considerar variações em função de regiões e culturas diferentes. É um período com grandes mudanças afetivas, físicas, cognitivas e sociais, demandando atenção especial em termos de proteção social. Segundo Benevides (1991, p.112) “falar dos dilemas e perspectivas da juventude contemporânea é falar de sociedade de mercado, de sociedade do conhecimento, do processo de globalização e das crescentes desigualdades sociais”.
  7. 7. Avaliação  de  políticas  públicas  para  juventude:  uma  análise  na  percepção  dos  beneficiários  de  um  projeto   de  formação  de  jovens  aprendizes           Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  abr.,  2014.       7   Adorno (2001) analisou os tipos de vulnerabilidade a que estavam expostos os beneficiados pelo Programa Capacitação Solidária, entre 16 a 21 anos, residentes nas regiões metropolitanas, de baixa escolaridade e de famílias de baixa renda, público que guarda semelhanças com o público beneficiado pelo projeto em análise. Ele evidencia diversos tipos de vulnerabilidade, como a ausência do primeiro registro de trabalho; a realidade de viver na periferia de grandes cidades, espaços afetados pela violência, medo e discriminação; as questões de gênero, como a gravidez precoce; a vulnerabilidade de ter família autoritária e de estudar em escolas públicas. A violência é uma das nuances que marcam fortemente a sociedade atual. Esta vulnerabilidade é predominante em relação aos jovens do sexo masculino, sendo neste grupo crescente o número de óbitos por causas externas (violência e suicídio). Gadelha (2008) confirma este aspecto com base em dados de pesquisa realizada pelo Juizado da Infância e da Adolescência em 2004 sobre os jovens em liberdade assistida na cidade de fortaleza: mais de 70% dos adolescentes têm entre 16 e 18 anos de idade e 92% são do sexo masculino. O impacto da violência nessa faixa etária é conseqüência do agravamento da crise social, da falta de perspectiva e principalmente de uma crise de valores como perda da noção entre o bem e o mal (OLIVEIRA, 2000). De acordo com Glaucíria Mota, coordenadora Geral do Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética da Universidade Estadual do Ceará e uma das coordenadoras da pesquisa Cartografia da Criminalidade e da Violência em Fortaleza, os bairros que puxam os índices de homicídios são, em primeiro lugar Jangurussu, depois Messejana, e em terceiro lugar o Bom Jardim (ADITAL, 2009). Sarti (2004) destaca a importância de promover o protagonismo juvenil e ir além da superficialidade para compreender os jovens, inquirir as verdadeiras causas para comportamentos intempestivos, rebeldia, resistências frente a regras pré-estabelecidas.
  8. 8. S.  P.  B.  Costa,  D.  P.  B.  Costa  e  M.  H.  de  M.  Bezerra       Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  out.  2014.     8   O trabalho é indicado como um dos direitos mais importantes de cidadania, assim como um dos direitos essenciais dos quais deveriam ser detentores. A centralidade do trabalho para os jovens resulta sobremaneira da sua urgência enquanto problema, instabilizador das formas de inserção social e do padrão de vida. Chama atenção para a questão Guimarães: O desemprego é o problema mais agudamente manifesto como aquele que está a afligir especialmente os jovens entre 18 e 20 anos, notadamente os rapazes (claro que não exclusivamente) com mais baixa escolaridade e menor rendimento [...] (GUIMARAES, 2005. p. 161). 5 METODOLOGIA Este artigo, de natureza qualitativa e exploratória, utilizou-se do método de estudo de caso. Como técnica de coleta de dados foi adotada a análise de conteúdo. De acordo com Bauer (2002), esta técnica pode ser realizada a partir de textos produzidos em pesquisa e de textos produzidos para outros fins. A presente pesquisa investigou, através da análise do conteúdo, textos produzidos em pesquisa, como as transcrições de entrevistas e análise dos depoimentos coletados entre os jovens selecionados, além de textos pré-existentes, como o projeto do curso, atas de reuniões, planos de aula, fichas de inscrição e seleção, com o intuito de contribuir para avaliar o grau de alcance dos objetivos pré- estabelecidos no projeto. Para a realização da pesquisa, foram “retirados” do universo de sessenta e seis alunos contemplados pelo projeto, por sorteio, vinte alunos, aproximadamente um terço do total. A estes foi solicitado que escrevessem depoimentos manifestando suas percepções acerca de possíveis impactos da experiência em suas vidas. A princípio foi construído um instrumento na forma de questionário, mas a aplicação de pré-teste fez crer que a opção pelos depoimentos agregaria maior espontaneidade aos textos.
  9. 9. Avaliação  de  políticas  públicas  para  juventude:  uma  análise  na  percepção  dos  beneficiários  de  um  projeto   de  formação  de  jovens  aprendizes           Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  abr.,  2014.       9   O conteúdo dos depoimentos foi analisado considerando os objetivos determinados no projeto do curso de Formação de Jovens Aprendizes elaborado pela ONG MSMC e credenciado pelo Conselho dos Direitos da Criança e Adolescente – COMDICA Fortaleza. As categorias estabelecidas foram as seguintes: - Mercado de trabalho; - Escola; -Inclusão virtual; - Comunicação, organização e sociabilidade; - Linguagem oral e escrita; - Autoestima, protagonismo e cidadania; - Pais e responsáveis; - Cultura. No estudo de caso a seguir serão apresentados trechos dos depoimentos dos jovens, destacados de acordo com as categorias eleitas. Os comentários explicitados tiveram como base também informações obtidas a partir de outros documentos consultados e entrevistas com as supervisoras. 6 ESTUDO DE CASO: A EXPERIÊNCIA DO CURSO DE FORMAÇÃO DE JOVENS APRENDIZES NO MSMC A área do Grande Bom Jardim está localizada na região oeste de Fortaleza, área de índices sociais bastante desfavoráveis, conhecida pelas altas taxas de criminalidade. Nas décadas de 70 e 80, o êxodo rural resultou em crescimento desordenado da capital e o bom jardim foi um dos bairros que mais cresceu em população; com isso também aumentou a fome, a violência, a pobreza e o desemprego. Em 1996, iniciou- se com Comunidades Eclesiais de Base um trabalho de escuta e acompanhamento terapêutico para famílias em situação de risco. Em 1998, os voluntários fundaram o Movimento de Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim - MSMCBJ. A ONG explicita através do site www.msmcbj.org.br sua missão: Acolher o ser humano,
  10. 10. S.  P.  B.  Costa,  D.  P.  B.  Costa  e  M.  H.  de  M.  Bezerra       Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  out.  2014.     10   respeitando suas dimensões bio-psico-sócio-espirituais, promovendo o desenvolvimento dos seus potenciais, através do resgate dos valores humanos e culturais, no sentido de favorecer a qualidade das relações pessoais, interpessoais e comunitária para a promoção do dom da vida. O MSMCBJ promove formação permanente para seus voluntários, educadores, lideranças e comunidade, em Biodança, Eneagrama, Abordagem Sistêmica da Família, Prevenção às drogas e Constelação Familiar. Proporciona atividades de lazer e cultura para a comunidade, além de atuar em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde na cogestão do CAP’S – Centro de Atendimento Psicossocial, beneficiando a população da Regional V. - Formação de jovens para o trabalho Em 2004, com o patrocínio de uma grande empresa local e a parceria de uma consultoria especializada, a Ong passou a oferecer cursos de qualificação para jovens nas áreas de Atendimento, Vendas, Recepção e Manutenção de computadores. A partir de 2007, percebendo a oportunidade que a lei da aprendizagem representaria na vida dos jovens da comunidade, em termos de efetividade no encaminhamento para empregos formais, os investimentos em qualificação de jovens foram canalizados principalmente para esta modalidade, tendo início as duas primeiras turmas do curso de Formação de jovens aprendizes para atuação em Atendimento e Apoio Administrativo, com trinta e três alunos cada. Desde 2004 mais de dois mil jovens foram beneficiados pelos diversos cursos; mais de quatrocentos foram qualificados de acordo com a lei do Jovem Aprendiz. Alguns dados gerais foram obtidos levando-se em consideração o número total de jovens (66 alunos): todos os jovens possuíam entre 16 e 24 anos, 70% apresentavam renda familiar entre R$ 30,00 e R$135,00 por pessoa. No que se refere ao nível de escolaridade dos genitores, 85% das mães e 75% dos pais possuíam no máximo o ensino fundamental. Como se esperava, a evolução do número de anos na escola
  11. 11. Avaliação  de  políticas  públicas  para  juventude:  uma  análise  na  percepção  dos  beneficiários  de  um  projeto   de  formação  de  jovens  aprendizes           Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  abr.,  2014.       11   de uma geração para outra é considerável, já que 95% dos jovens estavam cursando o ensino médio ou haviam concluído os estudos. São apresentados a seguir os resultados da pesquisa. Os depoimentos dos vinte jovens foram coletados oito meses após o início das aulas. As entrevistas com a supervisora ocorreram na sequência, com o intuito de esclarecer alguns aspectos identificados nos depoimentos. Informações complementares foram obtidas a partir de documentos pré-existentes, já especificados no item acerca da metodologia. Objetivo1: Encaminhar 90% dos alunos para o mercado formal de trabalho como Jovens Aprendizes Jovem 1: [...] senti que era a oportunidade que estava precisando, não só pelo trabalho [...] Jovem 2: Sabia que era a minha chance. Não podia decepcionar o grupo e nem a mim mesmo... Tinha passado na entrevista e poderia começar a trabalhar [...] Jovem 3: A oportunidade do primeiro emprego foi edificante ... Jovem 6: [...] abre as portas para o mercado de trabalho [...] aprendemos e até nos tornamos verdadeiros profissionais nas empresas em que trabalhamos. Jovem 7: Desde que entrei no movimento, minha vida vem mudando bastante [...] foi através do projeto que consegui meu primeiro emprego [...] vi que o emprego é só um fruto a colher. Jovem 9: [...] me deu oportunidade de arrumar um emprego onesto (sic). Jovem 10: O curso está fazendo eu (sic) crescer, encaminha nós (sic) para o 1º emprego [...]. Jovem 12: [...] possibilita ter acesso ao primeiro emprego. Estou como funcionário permanente na empresa em que comecei como aprendiz Jovem 13: O projeto movimenta a vida de inúmeros jovens do Bom Jardim, ajudando-lhes a conquistarem seu primeiro emprego. Jovem 14: O projeto vem contribuindo para o meu sucesso profissional. Jovem 15: Fui aprovada na seleção para uma distribuidora, não me adaptei e tive o apoio do projeto. Hoje tenho o privilegio de participar do grupo de colaboradores do hospital. Jovem 16: [...] ajuda projetando-nos para o 1º emprego. Jovem 17: [...] traz esperança ao jovem para trabalhar. Jovem 18: [...] fundamental na minha vida, além de me colocar no primeiro emprego [...] Jovem 20: [...] no começo foi muito difícil, eu nem tinha dez reais para me inscrever, finalmente minha mãe conseguiu e me deu [...] concorri com 10 pessoas e não passei na primeira entrevista [...] na segunda concorri com 5 e consegui passar [...] A partir da análise dos contratos dos jovens aprendizes, observou-se que apenas um não havia sido inserido no mercado de trabalho até o momento. Pôde-se
  12. 12. S.  P.  B.  Costa,  D.  P.  B.  Costa  e  M.  H.  de  M.  Bezerra       Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  out.  2014.     12   observar no trecho transcrito que o mesmo, desde o início tinha uma visão mais ampla do alcance da iniciativa, além do econômico; este fator possivelmente interferiu para a satisfação do jovem em relação ao projeto, evidenciada em várias outras categorias. Vale ressaltar que logo depois ele foi selecionado e iniciou sua aprendizagem em empresa do setor supermercadista. Cinco jovens, embora trabalhando, não destacaram isto entre os aspectos que impactaram suas vidas. É interessante observar que vários alunos enalteceram os impactos do projeto no grupo, e não em sua condição individual (“nos tornamos verdadeiros profissionais”; “movimenta a vida de inúmeros jovens do Bom Jardim”, “Não podia decepcionar o grupo”; etc.), elementos que podem indicar que o fator mercado, embora certamente um grande atrativo para a participação no projeto, não seja tão predominante. No projeto constavam as seguintes atividades planejadas no sentido de alcançar este objetivo: - Visitas a empresas; Telemaketing junto às empresas já parceiras; Oficina de preparação para entrevistas e processos de seleção para os jovens selecionados e Formalização dos convênios com as empresas e redação dos contratos dos aprendizes. A entrevista com a supervisora revelou que não foram realizadas muitas visitas a empresas, devido ao custo do transporte e economia de tempo; no entanto, para alcançar a meta de 90% foram contatadas mais de 150 empresas através do telemarketing. As oficinas de preparação foram essenciais, proporcionando maior segurança aos candidatos. Outras iniciativas foram necessárias, dentre as quais se destacam as seguintes: articulação junto ao Conselho dos direitos da Criança e Adolescente para criação do Grupo de Trabalho Jovem Aprendiz, que passou a se reunir mensalmente desde então; as ONGs constituem uma rede integrada, sendo ressaltado o espírito de cooperação entre os membros, que divulgam oportunidades e buscam soluções para problemas comuns e individuais;- forte interação com a SRTE,-contato com diversas associações empresariais para divulgação do curso.
  13. 13. Avaliação  de  políticas  públicas  para  juventude:  uma  análise  na  percepção  dos  beneficiários  de  um  projeto   de  formação  de  jovens  aprendizes           Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  abr.,  2014.       13   Objetivo 2 - Incentivar a continuidade dos estudos do ensino médio Jovem1: [...] revisão de minhas atitudes na escola. Chamou a atenção o fato de apenas um jovem ter mencionado a escola. Um dos esclarecimentos foi que grande parte dos jovens aprendizes já haviam terminado o ensino médio antes da seleção, e muitos outros concluíram no final deste ano. Com a finalidade de atingir este objetivo, constavam no projeto: Exigir o vínculo escolar para os jovens que não concluíram o ensino médio e se afastaram da escola; Palestras sobre planejamento de carreira; Visitas a faculdades parceiras e acompanhamento dos boletins escolares. Constatou-se que estes só foram acompanhados no início do projeto, o que pode ter minorado a importância atribuída pelos alunos à evolução do desempenho escolar. O número de visitas e palestras também deveria ter sido maior, segundo a supervisão do projeto. Objetivo 3 - Promover a inclusão virtual Jovem 2:O movimento começou a movimentar minha vida através do curso de informática. Jovem 5:Um amigo me indicou o curso de informática básica, fiz a seleção e passei [...] me abriu portas para outros cursos como photoshop, linux [...] fui convidado a ser monitor. Jovem 8:Conheci o movimento através do curso de informática [...]. Apenas três jovens mencionaram a informática como contribuição do projeto. As oficinas de informática básica previstas se revelaram desnecessárias diante da disseminação acelerada das tecnologias. Pouquíssimos jovens não detinham este conhecimento, sendo direcionados para as oficinas regulares, dirigidas à comunidade em geral. Outro recurso explicitado foi o uso dos equipamentos do telecentro que o MSMC possui. Segundo a supervisão, esta prática não ocorreu e deveria ter sido explorada, pois facilitaria em vários casos a articulação entre teoria e prática.
  14. 14. S.  P.  B.  Costa,  D.  P.  B.  Costa  e  M.  H.  de  M.  Bezerra       Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  out.  2014.     14   Objetivo 4 - Desenvolver capacidades básicas de comunicação, organização e sociabilidade. Jovem 1:[...] revisão de minhas atitudes, em casa com meus pais, na escola, com o namorado, com as pessoas em geral [...] é a principal aprendizagem que levo do curso. Jovem 2:[...] a convivência era o fundamento para a aprendizagem [...]. Jovem 3: Tive a emoção de conhecer novas pessoas e fazer laços de amizade [...] aprendi como se porta em entrevistas [...] Comunicar-me melhor com as pessoas [...] minha alimentação ficou em horários corretos e deixei o sedentarismo [...] comento com todos os amigos como é modificador (sic) participar do Movimento. Jovem 5:[...] desenvolvo não apenas o meu lado profissional, mas também o social. Jovem 7:Descobri o quanto são legais as pessoas com as quais convivo [...] posso compartilhar minhas alegrias, fazer amigos, contar como foi meu dia [...]. Jovem 14:[...] respeito e carinho uns pelos outros, é isso em especial que levarei sempre comigo desse curso que estou fazendo. Jovem 17:Aprendi a me comunicar melhor com as pessoas [...]. Jovem 19: [...] mudou minha vida e posso falar pelos meus colegas, este projeto movimentou suas vidas por meio das oportunidades oferecidas [...]. Os jovens expressaram de forma espontânea a importância das novas relações e da melhoria das relações pré-existentes, deixando transparecer que essas mudanças favoreceram a aprendizagem. A maior facilidade para comunicar-se também foi valorizada, sendo a timidez a limitação a superar mais citada pelos candidatos no momento da seleção. As atividades previstas no projeto foram: módulos de comunicação, dramatização, oficinas de autoestima, instrumentos de autoavaliação e avaliação pelos facilitadores e supervisores nas empresas. A entrevista com a supervisão confirmou a validade desses módulos para o processo de superação da timidez pelos jovens, aliados à necessidade de maior interação nas empresas. O fato de um dos jovens ter mencionado organizar-se inclusive quanto aos horários de alimentação sugerem a amplitude dos resultados. Porém, a supervisora ressaltou que alguns se queixaram, pois apesar das distâncias percorridas não recebem ajuda de custo ou refeição. Em alguns casos, levam até duas horas para deslocar-se do curso ao local da aprendizagem prática.
  15. 15. Avaliação  de  políticas  públicas  para  juventude:  uma  análise  na  percepção  dos  beneficiários  de  um  projeto   de  formação  de  jovens  aprendizes           Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  abr.,  2014.       15   Objetivo 5 - Aprimorar a linguagem oral e escrita Jovem 3:Aprendi a comunicar-me melhor com as pessoas [...] Jovem 17:[...] mudou minha vida e posso falar pelos meus colegas, este projeto movimentou suas vidas por meio das oportunidades oferecidas neste espaço [...] Apesar de apenas dois jovens citarem expressamente a melhora nesse sentido, foram constatados avanços comparando as fichas de inscrição e os depoimentos escritos dez meses depois. O módulo de comunicação foi apontado pela supervisão como determinante para esta evolução, sobretudo no que se refere à tomada de consciência dos jovens quanto à identificação dos erros decorrentes de vícios de linguagem ou desatenção. A entrevistada admitiu, no entanto, que atividades previstas e não realizadas como a gincana de leitura e, sobretudo o acompanhamento da meta de leitura de 1 livro por bimestre certamente teriam gerado melhor desempenho. Registra que a ONG conseguiu arrecadar doações suficientes para montar uma biblioteca comunitária, mas a ausência de um sistema de informatização do acervo e de profissional da área de biblioteconomia comprometeu o alcance da meta fixada. Objetivo 6 - Fortalecer a autoestima e desenvolver o protagonismo juvenil com cidadania e responsabilidade socioambiental Jovem 2: [...] feliz e grato...o movimento não me deu apenas a oportunidade no mercado e sim a minha transformação como ser humano, ganhei credibilidade, respeito e responsabilidade. Jovem 3: Desde o momento que fui aprovada minha autoestima mudou. A vida ficou com ar de esperança, conquista e realizações [...] aprendi a ter visão empreendedora, assumir responsabilidades, ser mais solidária e ter bom caráter. Jovem 4: É através desses cursos que o movimento, aos poucos, vai transformando o modo de pensar do jovem sobre a sociedade em que o cerca, nos conscientizando da importância da natureza, de nos sentirmos orgulhosos em ter oportunidades de ajudar outros projetos.. Jovem 5: Não imaginei que esta entidade pudesse agregar tantos valores a minha pessoa, como profissional e principalmente como ser humano[...]fui convidado a ser monitor de informática como voluntario, algo que eu particularmente considero o apogeu desse meu contato com o movimento, porque não existe nada mais gratificante do que você está(sic) apto a ajudar alguém, você se sente até mais útil [...] a monitoria é uma experiência, além de única e gratificante ,recíproca, porque eu ,aprendo e fico na ânsia incessante em procurar respostas e esclarecer dúvidas que
  16. 16. S.  P.  B.  Costa,  D.  P.  B.  Costa  e  M.  H.  de  M.  Bezerra       Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  out.  2014.     16   ficam pendentes nas aulas [...] O curso jovem aprendiz é rico tanto em valores como em conhecimento. Jovem 6: [...] vivências de biodança, em que lidamos com nossos medos [...] tudo para que eu e o grande Bom Jardim movimente-se de forma segura e sadia, modificando a realidade. Jovem 7: A cada dia no curso aprendo uma nova lição de vida [...] Cresço como pessoa. Jovem 9: Quando eu passo na rua com a blusa do curso as pessoas comentam que eu devo fazer parte do projeto jovem aprendiz, eu tenho orgulho de dizer que sim. Acho uma honra. Jovem 11: [...] me proporcionou crescimento pessoal, autoconfiança [...] no início nem sabia quais eram meus direitos no trabalho [...] faz com que os jovens percebam que são capazes. Jovem 13: [...] ajudam os jovens a se tornarem jovens de respeito, valor e sucesso. Jovem 15: [...] tenho o privilégio de participar do grupo de colaboradores do hospital [...]. Jovem 16: [...] não sabia a fantástica lição de cidadania que estaria por vir, nos tornando pessoas melhores. Jovem 17: [...] me ajuda a ser um jovem livre. Jovem 19: [...] a autoestima sendo valorizada a cada dia [...] contribui para a formação do meu caráter, fazendo com que nós possamos nos tornar cidadãos importantes para a humanidade. Os trechos dos depoimentos transcritos sugerem grande influência da missão e valores eleitos pela ONG executora na condução do projeto. Outros documentos apontam para uma forte presença da racionalidade substantiva na gestão da instituição, desde a própria missão. Treze alunos (65% da amostra) citaram expressamente esses impactos, número superado apenas pelas referências aos impactos do primeiro emprego (75% dos respondentes). Objetivo 7 – Envolver pais/responsáveis no processo de evolução do jovem Jovem 1: [...] revisão de minhas atitudes com meus pais Jovem 2: [...] minha família sabia que seria importante para mim esse curso. Jovem 3: [...] com o dinheiro pude ajudar na renda familiar. Jovem 10: Com o meu emprego posso ajudar minha família. Jovem 15: [...] a alegria pela minha seleção foi muito grande para a minha família. Jovem 18: Com o dinheiro que ganho posso ajudar meus pais. Dentre os trechos supracitados, três fazem referência apenas à possibilidade de ajuda financeira às famílias. Outros dois estão relacionados a momentos anteriores à participação dos jovens no curso (inscrição e seleção) e, portanto, não correspondem ao envolvimento de pais e/ou responsáveis no decorrer do processo. Foram realizadas duas reuniões com pais/responsáveis, uma na abertura e outra no início do segundo semestre, que contaram com a presença de pouco mais de 20% dos convidados, de acordo com as atas registradas. Muitos jovens justificaram a
  17. 17. Avaliação  de  políticas  públicas  para  juventude:  uma  análise  na  percepção  dos  beneficiários  de  um  projeto   de  formação  de  jovens  aprendizes           Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  abr.,  2014.       17   ausência pelo fato de serem maiores de idade e residirem sozinhos ou com filhos e cônjuges. A participação de familiares nas atividades culturais, passeios de integração e visitas técnicas foi prejudicada pelo cancelamento da cessão dos ônibus anteriormente liberados pela prefeitura para estes fins. Objetivo 8 - Estimular a ampliação do universo cultural dos jovens e seus familiares Jovem 3: Fui pela primeira vez em uma exposição de arte, e agora pretendo ir outras vezes, pois é muito interessante. Jovem 16: [...] nos propicia cultura. Somente dois jovens demonstraram expressamente valorizar contribuições recebidas na área da cultura. Constatou-se a realização de apenas duas visitas dos grupos a centros culturais, sendo que poucos participaram da segunda, devido a falhas de comunicação decorrentes de reforma no local das aulas. A pequena divulgação de atividades culturais gratuitas e/ou de baixo custo para os jovens foi justificada pela supervisão como consequência da falta de tempo alegada pelos jovens. 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como suporte teórico para a construção deste artigo foram contemplados conceitos sobre vulnerabilidade social, aspectos relacionados à política pública de aprendizagem profissional promovida pelo Ministério do Trabalho e Emprego e alianças intersetoriais. Através da análise de conteúdo de textos relacionados à execução do curso de Formação de Jovens Aprendizes para Apoio Administrativo e Atendimento, um dos projetos credenciados, constatou-se que muitos objetivos fixados foram alcançados, porém vários fatores indicaram a necessidade de reflexão para melhoria das ações empreendidas. Evidencia-se a necessidade de maior integração das políticas públicas. Falhas na disponibilidade de transportes, por exemplo, comprometeram diversas atividades
  18. 18. S.  P.  B.  Costa,  D.  P.  B.  Costa  e  M.  H.  de  M.  Bezerra       Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  out.  2014.     18   previstas no projeto em análise, impossibilitando o atingimento de objetivos como a ampliação do universo cultural dos jovens e seus familiares e a promoção de mais ações com foco na responsabilidade socioambiental. Ressaltam-se também as dificuldades que enfrentaram muitos jovens no período de entrevistas nas empresas, sendo necessário sair de casa com até três horas de antecedência para que não ocorressem atrasos. Após as contratações, os deslocamentos entre o curso, as empresas onde realizam vivência prática e em muitos casos até a escola foram citados como extenuantes pela maioria dos participantes. O objetivo de aprimorar a linguagem oral e escrita já decorre da ineficiência da educação pública. O desafio teria sido facilitado com a disponibilidade de uma biblioteca bem estruturada no bairro; através do esforço direto da ONG executora foi construída uma biblioteca comunitária, mas não se conseguiu dotá-la de profissionais qualificados e sistemas adequados. A inserção da totalidade dos participantes no mercado de trabalho superou o objetivo fixado, um indício da relevância da colaboração intersetorial, que envolveu Governo, empresas privadas e organizações do terceiro setor. A exigência legal da vinculação à escola para os jovens que não concluíram o ensino básico garantiu o atingimento do objetivo de incentivar a continuidade dos estudos do ensino médio. Embora apenas um aluno tenha mencionado em seu depoimento impacto relacionado à escola, a análise dos documentos de inscrição dos participantes comprova o atendimento da determinação expressa em lei. No entanto, no que diz respeito à evolução da qualidade do desempenho escolar, o acompanhamento periódico dos boletins não foi realizado, limitando-se ao momento inicial do projeto. A realização de avaliações de progresso mensais seria recomendável para a coordenação do projeto, pois essa sistemática facilitaria a identificação de problemas com maior rapidez, maximizando as chances de revertê-los. A grande maioria dos depoimentos registram impactos positivos referentes a melhorias na autoestima, comunicação, organização e sociabilidade, o que sugere um diferencial na condução do projeto pela ONG em questão, cuja missão consiste em “Acolher o ser humano, respeitando suas dimensões bio-psico-sócio-espirituais, promovendo o
  19. 19. Avaliação  de  políticas  públicas  para  juventude:  uma  análise  na  percepção  dos  beneficiários  de  um  projeto   de  formação  de  jovens  aprendizes           Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  abr.,  2014.       19   desenvolvimento dos seus potenciais, através do resgate dos valores humanos e culturais, no sentido de favorecer a qualidade das relações pessoais, interpessoais e comunitária para a promoção do dom da vida”. Acredita-se que o estudo teve êxito no sentido de contribuir para a avaliação do projeto em questão, além de possibilitar a disseminação de uma tecnologia social, a partir da apresentação e análise de várias dinâmicas funcionais, com elementos norteadores de sua replicabilidade. REFERÊNCIAS ADITAL. Cartografia da Criminalidade e da Violência em Fortaleza. Disponível na internet. http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=43965. Acesso em 23 dez. 2012. ADORNO, Rubens de Camargo Ferreira. Capacitação solidária: um olhar sobre os jovens e sua vulnerabilidade social. São Paulo: AAPCS, 2001. AYRES, J. R. C. M. et al. O conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde: novas perspectivas e desafios. In: CZERESNIA, D. e FREITAS, C. M. (Org.). Promoção da Saúde: conceitos, reflexões, tendências. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2009. p. 117-140. BAUER, M. Análise de conteúdo clássica: uma revisão. In: BAUER, M.; GASKELL,G. Gaskell G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. 3. ed. Petrópolis (RJ): Vozes, 2002. BENEVIDES, Maria Vitória. Conversando com os jovens sobre direitos humanos. In: NOVAES, Regina; VANUCHI, P.(Org). Juventude e Sociedade. São Paulo: Editora Persamo Abreu, 1991. CASTRO, Mary; ABRAMOVAY, Miriam. Drogas na escola. Brasília: Unesco, 2004. CONSELHO NACIONAL DA JUVENTUDE. Política Nacional da Juventude: diretrizes e perspectivas. Disponível na internet. http://www.juventude.gov.br/conjuve/documentos/politica-nacional-de-juventude- diretrizes-e-perspectivas. Acesso em 20 dez. 2012. COSTA, Silvia; VIDAL, Francisco. Tecnologia Social de Inclusão de Jovens pelo Trabalho: Uma análise da experiência de um Consórcio de ONGs no
  20. 20. S.  P.  B.  Costa,  D.  P.  B.  Costa  e  M.  H.  de  M.  Bezerra       Gest.  Contemp.,  Vila  Velha,  v.4,  n.1,  p.  01-­‐20,  out.  2014.     20   desenvolvimento de Ação Intersetorial com Empresas e Governo. Revista Gestão e Regionalidade. V. 24, n. 71, edição especial XI SEMEAD. São Caetano do Sul, 2008. GADELHA, Eugênia Bridget. Juventude, pobreza e políticas públicas: a liberdade assistida em evidência. In: BRAGA, Elza Maria Franco (org). Estado e políticas públicas:vivências e criticidades. Fortaleza: Edições UFC, 2008. GUIMARAES, Nadya A. Trabalho: uma categoria chave no imaginário juvenil? In: ABRAMO, Helena W.; BRANCO, Pedro P. M. (orgs). Retratos da juventude brasileira: análises de uma pesquisa nacional. São Paulo: Instituto Cidadania: Fundação Persel Abramo, 2005. p. 149 – 174 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo 2010. Disponível na internet. http:// www.ibge.gov.br/home. Acesso em: 20 mai 2013. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Avaliação geral dos resultados da PNAD 2012. Disponível na internet. http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/pesquisas/pesquisa_resultados.php?id_pesq uisa=40. Acesso em: 25 maio 2013. KISIL, M. Organização Social e Desenvolvimento sustentável: projeto de base comunitária. In: 3º Setor: Desenvolvimento Social Sustentado. Organizado/ Evelyn Berg Ioschpe. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000. 176p. MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, MTE. Aspectos Conceituais da Vulnerabilidade Social. Convênio MTE – DIEESE. 2007. Disponível na internet. <http://www.mte.gov.br>. Acesso em: 19 jul 2013. OLIVEIRA, C.R. de. A violência escolar. In:ARRIETA, G.A;POLENZ,T. A violência na escola: a violência na contemporaneidade e seus reflexos na escola. Canoas: ULBRA, 2000. PITANGUY, J. Violência de gênero e saúde - Interseções. In: BERQUÓ, E. (Org.) Sexo e Vida. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003. p.319-337. SARTI, C. O jovem na família: o outro necessário. In: NOVAES, Regina; VANNUCHI, P. (Org.). Juventude e sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: Instituto cidadania: Fundação Persel Abramo, 2004. SECRETARIA NACIONAL DA JUVENTUDE. Políticas públicas de juventude. Disponível na internet. http://www.juventude.gov.br/documentos/cartilha-politicas- publicas. Acesso em: 05 Jul. 2013. SUSSEKIND, A. e TEIXEIRA FILHO, J. L. Instituições de Direito do Trabalho. Volume II. 22. ed. São Paulo: Letras , 2005. UNITED NATIONS EDUCATIONAL, SCIENTIFIC AND CULTURAL ORGANIZATION, UNESCO. Disponível na intenet. <http://www.unesco.org.br>. Acesso em: 22 jul. 2010.

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