Gênero, Shoujo Mangá e História Alternativa: Reflexões sobre Ōoku de Fumi Yoshinaga

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A História Alternativa exerce grande atração sobre escritores, cineastas e, também, quadrinistas ao longo de séculos. A pergunta “E se?” possibilita inúmeras reflexões a respeito de questões políticas, sociais, econômicas e, também, sobre gênero. Em 2005, a quadrinista Fumi Yoshinaga iniciou a série Ōoku, mostrando um Japão feudal no qual boa parte da população masculina foi dizimada por uma peste e as mulheres assumiram o poder. Contando com sete volumes até o momento, a série vem reconstruindo meticulosamente o passado de um Japão no qual, por força das circunstâncias, a organização social, as relações de poder e os costumes precisaram ser reinventados. O Ōoku, que dá nome à série e é o local principal da ação, é o harém do shógun, agora habitado por homens. Em nossa comunicação discutiremos como os papéis de gênero são abordados, subvertidos e reconstruídos. Refletiremos, também, sobre o caráter feminista da obra e até que ponto ela pode ser considerada como subversiva ou reforçadora dos papéis tradicionais de gênero.

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Gênero, Shoujo Mangá e História Alternativa: Reflexões sobre Ōoku de Fumi Yoshinaga

  1. 1. Gênero, ShoujoMangá e História Alternativa:Reflexões sobre Ōoku de Fumi YoshinagaProf.ª Dr.ª Valéria Fernandes da Silva
  2. 2.  No início do século XVII, uma praga, a varíola vermelha, dizimou a população masculina do Japão. A proporção é de 1 homem para 5 mulheres. Com o tempo, todos os cargos de mando são transferidos para as mãos das mulheres. 2
  3. 3.  80 anos depois, a velha ordem foi esquecida. A praga recuou ligeiramente e a proporção é de 1 homem para cada 4 mulheres. A shogun Yoshimune decide investigar porque os títulos são masculinos, apesar das mulheres estarem no poder. 3
  4. 4.  Ōoku ( 大 奥 ), de Fumi Yoshinaga, é publicado na revista Melody desde 2005 e tem sete volumes até o momento. Indicado e vencedor de vários prêmios, recebeu o James Tiptree, Jr. Award que premia a ficção científica feminista. No Ocidente a série é publicada na França e Estados Unidos. 4
  5. 5.  Ōoku se passa no período Edo (1603-1868), dominado pelo clã Tokugawa e auge do Shogunato ou Bakufu. O período Edo sucedeu sangrentas guerras civis (Período Sengoku) e foi marcado pela relativa paz interna e isolamento do Japão em relação a outros países. 5
  6. 6.  O Ōoku (Grande Interior) foi estabelecido pelo segundo shogun, Tokugawa Hidetada, em 1607. Era a residência das concubinas e da esposa do shogun e totalmente isolado do mundo exterior. Tal realidade, entretanto, é relativa. (Hisako Hata, 2008) 6
  7. 7.  Em Ōoku é utilizada uma linha temporal alternativa. O factual da história japonesa é ajustado às necessidades da série. Exemplo: o isolamento do país visa impedir que os estrangeiros descubram que boa parte da população masculina foi dizimada. 7
  8. 8.  A praga é o motor das mudanças sociais e a falta de homens força as mulheres a ocuparem os postos masculinos. Os volumes 2 e 3, em especial, mostram as transformações e resistências. “(...) embora o sexo biológico atinja os corpos sexuados, o sexo social, o que chamamos de ‘gênero’ atinge tudo”. (Susan Paulson, 2002) 8
  9. 9.  A autora enfatiza o papel das mulheres idosas na manutenção da velha ordem e dos papéis de gênero tradicionais. Somente quando a geração nascida antes da praga perece, o poder é ocupado pelas mulheres definitivamente. A idéia, no entanto, é que tal situação seria temporária. 9
  10. 10.  As mudanças nos papéis de gênero não são apresentadas como automáticas. A nova ordem dominada pelas mulheres não é mostrada como melhor em si mesma que a anterior ou desprovida de violência. Não existe a exaltação de uma ordem matriarcal, mas um painel de como a sociedade se reorganiza para sobreviver. 10
  11. 11.  O Ōoku – o harém – demonstra o poder e riqueza da soberana. A maioria das mulheres não tem marido próprio e precisa recorrer a prostitutos. A prostituição forçada dos homens é um dos temas discutidos na série. Entrar para o Ōoku é uma das formas de fugir deste destino e obter recursos para a família. 11
  12. 12.  "Nossas vidas inteiras são em vão e um desperdício. Somos mantidos como peixes dourados em um aquário, (...) sem outra finalidade a não a ser o próprio ato em si. Ter tantos homens em um só lugar, sem nenhum uso real, e deixar a sua preciosa semente ir para o lixo. É um grande desperdício, este luxo, é evidência da força e do poder do Shogun, não é mesmo?" Ōoku, Volume #1. 12
  13. 13.  A maternidade é outra questão central na série. Apesar de todo o seu poder, as shogun precisam procriar, em alguns casos destruindo-se física e emocionalmente no processo. A autora advoga que a necessidade da maternidade não deveria subordinar a vida de uma mulher, suas relações afetivas e/ou sexuais. 13
  14. 14.  No volume 7, encerra-se o longo flashback e a shogun Yoshimune questiona a validade e a lógica do patriarcado. A crítica não significa um rejeição da velha ordem como um todo. O governo cabe às mulheres, mas a shogun considera que a guerra é atividade masculina. Na série, a polícia é composta por mulheres; já o exército 14
  15. 15.  As autoras de mangás produzem muito material na área de ficção científica e fantasia. Por exemplo, Marginal, de Hagio Moto, mostra um futuro no qual só existe uma única mulher sobrevivente. Ōoku se distingue pelo recorte realista, muito mais presente em distopias futuristas, do que nas representações de um passado alternativo. 15
  16. 16.  Distopias nas quais os homens desaparecem não são novidade. Y The Last Man é um exemplo. Ōoku traz um olhar feminino para a questão, utilizando-a para discutir papéis de gênero sem simplificações e maniqueísmos. Como a obra está em andamento, outras considerações só poderão ser feitas quando do seu término previsto para 12 volumes. 16
  17. 17.  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: • YOSHINAGA, Fumi. Ōoku: The Inner Chambers. Viz Signature Edition. São Francisco: VIZ, 2009-2012, vol. 1-7. • HATA, Hisako. Servants of the Inner Quarters – The Women of the Shogun’s Great Interior. In WALTHALL, Anne (ed.). Servants od the Dinasty – Palace Women in World History. Los Angeles: UCLA, 2008, p. 172-190. • PAULSON, Susan. Sexo e Gênero através das culturas. In: ADELMAN, Miriam, SILVESTRIN, Celsi Brönstrup (org.). Gênero Plural – Coletânea. Curitiba: UFPR, 2002, p. 23- 32. 17

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