A oração muda as coisas r. c. sproul

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A oração muda as coisas r. c. sproul

  1. 1. AOraçãoMudaas Coisas?
  2. 2. AOraçãoMudaas Coisas?R.C. SproulNo. 3Q U e s t õ e sc r U c i a i s
  3. 3. Caixa Postal 1601CEP 12230-971São José dos Campos-SPPABX.: (12) 3919-9999www.editorafiel.com.brA Oração Muda as Coisas?Traduzido do original em inglêsDoes Prayer Change Things?, por R. C. SproulCopyright © 1983, 1999, 2009 by R. C. SproulPublicado por Reformation Trust Publishinga division of Ligonier Ministries400 Technology Park, Lake Mary, FL 32746Copyright©2011 Editora FIEL.1ª Edição em Português 2012Todos os direitos em língua portuguesa reservados porEditora Fiel da Missão Evangélica LiteráriaProibida a reprodução deste livro por quaisquermeios, sem a permissão escrita dos editores,salvo em breves citações, com indicação da fonte.Presidente: James Richard Denham III.Presidente emérito: James Richard Denham Jr.Editor: Tiago J. Santos FilhoTradução: Francisco Wellington FerreiraRevisão: Elaine R. O. SantosDiagramação: Rubner DuraisCapa: Gearbox StudiosISBN: 978-85-8132-024-3
  4. 4. SumárioUm – O Lugar da Oração.......................................................7Dois – O Propósito da Oração............................................ 13Três – O Padrão da oração.................................................. 27Quatro – A Prática da Oração............................................. 55Cinco – As Proibições da Oração........................................ 83Seis – O Poder da Oração.................................................... 93
  5. 5. capítulo UmO Lugar da OraçãoQual é o alvo da vida cristã? É a piedade resultante deobediência a Cristo. A obediência abre as riquezas daexperiência cristã. A oração motiva e nutre a obedi-ência, colocando o coração na “mentalidade” apropriadapara desejar a obediência.É claro que o conhecimento é importante porquesem ele não podemos saber o que Deus requer. Todavia,conhecimento e verdade permanecem abstratos se não te-mos comunhão com Deus em oração. O Espírito Santoensina, inspira e ilumina a Palavra de Deus para nós. Ele
  6. 6. A Oração Muda as Coisas?8ministra a Palavra de Deus e nos assiste em responder aoPai em oração.Em palavras simples, a oração tem um lugar vital navida do cristão. Alguém pode orar e não ser um cristão,mas alguém não pode ser um cristão e não orar. Romanos8.15 nos diz que a adoção espiritual que nos torna filhosde Deus nos leva a clamar em expressões verbais: “Aba!Pai!” A oração é para o cristão o que a respiração é para avida, mas nenhum outro dever cristão é tão negligenciado.A oração, pelo menos a oração particular, é difícil deser feita a partir de um motivo falso. Alguém pode pregarcom um motivo falso, como o fazem os falsos profetas.Alguém pode se envolver em atividades cristãs com baseem motivos falsos. Muitas das realizações externas docristianismo podem ser feitas com base em motivos fal-sos. Contudo, é altamente improvável que alguém tenhacomunhão com Deus a partir de motivos impróprios.Somos convidados, até ordenados, a orar. A oraçãoé tanto um privilégio como um dever. E qualquer deverpode se tornar laborioso. A oração, como todos os meiosde crescimento para o cristão, exige trabalho. Em um sen-tido, a oração não é natural para nós. Embora tenhamossido criados para a comunhão e interação com Deus, osefeitos da Queda têm-nos deixado preguiçosos e indiferen-
  7. 7. O Lugar da Oração9tes para com algo tão importante como a oração. O novonascimento desperta um novo desejo de comunhão comDeus, mas o pecado resiste ao Espírito.Podemos obter conforto no fato de que Deus conhe-ce nossos corações e ouve nossas petições não proferidas,assim como ouve as palavras que emanam de nossos lá-bios. Sempre que somos incapazes de expressar os senti-mentos e emoções profundas de nossa alma ou quandoestamos totalmente incertos sobre o que deveríamos orar,o Espírito Santo intercede por nós. Romanos 8.26-27diz: “O Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossafraqueza; porque não sabemos orar como convém, maso mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, comgemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os coraçõessabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontadede Deus é que ele intercede pelos santos”. Quando nãosabemos como orar em determinada situação, o EspíritoSanto nos assiste. Há razão para crermos, com base nestetexto, que, se oramos incorretamente, o Espírito Santocorrige os erros em nossas orações, antes que as apresenteao Pai, pois o versículo 27 nos diz que “segundo a vontadede Deus é que ele intercede pelos santos”.A oração é o segredo da santidade – se santidade, defato, tem algum segredo. Quando examinamos a vida dos
  8. 8. A Oração Muda as Coisas?10grandes santos da igreja, vemos que eles eram grandes pes-soas de oração. John Wesley comentou certa vez que nãotinha muita apreciação por ministros que não gastassempelo menos quatro horas por dia em oração. Lutero disseque orava regularmente uma hora por dia, exceto quandoexperimentava um dia muito atarefado - nesses dias, eleorava por duas horas. Depois, ele orava por duas horas.A negligência da oração é uma das principais causasde estagnação na vida cristã. Considere o exemplo de Pe-dro, em Lucas 22.39-62. Jesus foi ao Monte das Oliveiraspara orar, como era seu costume, e disse aos seus discí-pulos: “Orai, para que não entreis em tentação”. Em vezdisso, os discípulos adormeceram. A próxima atitude dePedro foi tentar enfrentar o exército romano com uma es-pada; depois, ele negou a Cristo. Pedro não orou, e comoresultado caiu em tentação. O que aconteceu com Pedrotambém acontece com todos nós: caímos em particular,antes de cairmos em público.Há um tempo certo e um tempo errado para a ora-ção? Isaías 50.4 fala sobre a manhã como o tempo emque Deus outorga o desejo de orarmos diariamente. Masoutras passagens mostram tempos de oração em todasas horas do dia. Nenhuma parte do dia é separada comomais santificada do que outra. Jesus orou de manhã, du-
  9. 9. O Lugar da Oração11rante o dia e, às vezes, durante toda a noite. Há evidênciade que ele tinha um tempo separado para a oração; mas,considerando o relacionamento que Jesus teve com o Pai,sabemos que a comunhão entre eles nunca parou.Em 1 Tessalonicenses 5.17, Deus nos manda orarsem cessar. Isto significa que devemos viver em um contí-nuo estado de comunhão com nosso Pai.A oração é, portanto, central e crucial na vida docristão. Examinemos melhor esta disciplina cristã vital,porém negligenciada e mal entendida.
  10. 10. capítulo DoisO PROPÓSITO DA ORAÇÃOnada escapa da observação de Deus. Nada ultrapassaos limites de seu poder. Deus tem autoridade sobretodas as coisas. Se eu pensasse, ainda que por ummomento, que uma simples molécula corre livrementepelo universo fora do controle e o domínio do Deus todo--poderoso, eu não dormiria hoje à noite. Minha confian-ça no futuro descansa em minha confiança no Deus quecontrola a história. Mas como Deus exerce esse controlee manifesta essa autoridade? Como Deus faz acontecer ascoisas que ele decreta soberanamente?
  11. 11. A Oração Muda as Coisas?14Agostinho disse que nada acontece neste universo àparte da vontade de Deus e que, em certo sentido, Deusordena tudo o que acontece. Agostinho não estava tentan-do isentar os homens da responsabilidade por suas ações,mas seu ensino desperta a pergunta: se Deus é soberanosobre as ações e as intenções dos homens, por que deve-mos orar? Um interesse secundário gira em torno dessapergunta: a oração muda realmente as coisas?Deixe-me responder a primeira pergunta por afirmarque o Deus soberano ordena, por meio de sua santa Pala-vra, que oremos. A oração não é opcional para o cristão;é exigida.Podemos perguntar: e se não acontecer nada? Essanão é a questão. Não importando se a oração faz algumbem ou não, visto que Deus nos ordena orar, temos deorar. O fato de que o Senhor Deus do universo, o Criadore Sustentador de todas as coisas, ordena a oração é razãosuficiente. No entanto, ele não somente nos manda orar,mas também nos convida a tornar conhecidos os nossospedidos. Tiago diz que não temos porque não pedimos(Tg 4.2). Ele também nos diz que a oração de um justorealiza muito (Tg 5.16). Repetidas vezes, a Bíblia diz quea oração é uma ferramenta eficiente. É útil e produz resul-tados.
  12. 12. O Propósito da Oração15João Calvino, nas Instituas da Religião Cristã, fazobservações profundas concernentes à oração:Mas, alguém dirá: Deus não sabe, sem ser lembrado, tan-to em que somos atribulados, como o que é convenientepara nós, de modo que, em certo sentido, parece supér-fluo que ele seja impelido por nossas orações – como seele estivesse pestanejando com sonolência ou mesmodormindo até ser despertado por nossa voz? Todavia,aqueles que raciocinam desta maneira não observam aque propósito o Senhor instrui seu povo a orar, pois eleordenou isso não tanto por causa de si mesmo, e simpor nossa causa. Agora, ele quer – como é certo – que lheseja dado o que lhe é devido, em reconhecimento de quetudo que os homens desejam e conduz ao proveito delesmesmos vem de Deus, e em testemunho disto nas ora-ções. Mas o proveito deste sacrifício, pelo qual Deus éadorado, também retorna a nós. De acordo com isso, ossantos pais, quanto mais confiantemente exaltavam osbenefícios de Deus entre eles mesmos e os outros, tantomais eram fortemente despertados à oração...Além disso, é muito importante que clamemos a Deus:primeiramente, que nosso coração seja aquecido com
  13. 13. A Oração Muda as Coisas?16um desejo zeloso e intenso de vê-lo, amá-lo e servi-lo, en-quanto nos acostumamos, em cada necessidade, a recor-rer a ele como nosso amparo sagrado. Em segundo, quenão entre em nosso coração nenhum desejo e nenhumavontade dos quais nos envergonhemos de torná-lo teste-munha, enquanto aprendemos a colocar todos os nossosdesejos diante de seus olhos e derramar todo o nossocoração. Em terceiro, que sejamos preparados para rece-ber seus benefícios com verdadeira gratidão de coração eações de graça, benefícios que nossa oração nos lembra,procedem de suas mãos. (Calvino, Institutas da ReligiãoCristã, Livro 3, capítulo 20, seção 3.)A oração, como tudo mais na vida cristã, é para aglória de Deus e para nosso benefício, nessa ordem. Tudoque Deus faz, tudo que Deus permite e ordena é, em sen-tido supremo, para a sua glória. Também é verdade que,enquanto Deus busca supremamente a sua própria glória,o homem se beneficia quando Deus é glorificado. Oramospara glorificar a Deus, mas também oramos para receberde suas mãos os benefícios da oração. A oração é para onosso benefício, mesmo à luz do fato de que Deus sabe ofim desde o começo. É nosso privilégio trazer a inteirezade nossa existência à glória da presença infinita de Deus.
  14. 14. O Propósito da Oração17Uma conversa com DeusUm dos grandes temas da Reforma foi a ideia de quetoda a vida deve ser vivida sob a autoridade de Deus, paraa glória de Deus, na presença de Deus. A oração não é umsolilóquio, um mero exercício de autoanálise terapêutica ouuma recitação religiosa. A oração é uma conversa com o pró-prio Deus pessoal. No ato e na dinâmica de orar, eu colocotoda a minha vida sob o olhar de Deus. Sim, ele sabe o queestá em minha mente, mas eu tenho o privilégio de articularpara ele o que está lá. Ele diz: “Venha. Fale comigo. Mani-feste para mim os seus pedidos”. Portanto, vamos à oraçãopara conhecer a Deus e sermos conhecidos por ele.Há algo errado na pergunta “se Deus sabe tudo,por que devemos orar?” A pergunta supõe que a oraçãoé unidimensional e é definida apenas como súplica ou in-tercessão. Pelo contrário, a oração é multidimensional.A soberania de Deus não anula a oração de adoração. Apresciência ou conselho determinativo de Deus não negaa oração de louvor. A única coisa que ela deveria nos dar émaior razão para expressarmos nossa adoração por quemDeus é. Se ele sabe o que eu vou dizer antes que eu o diga,seu conhecimento, em vez de limitar minha oração, apri-mora a beleza de meu louvor.
  15. 15. A Oração Muda as Coisas?18Minha esposa e eu somos tão próximos quantoduas pessoas podem ser. Frequentemente, eu sei o queela vai dizer antes que o diga. O contrário também éverdade. Se isso é verdadeiro em relação ao homem,quanto mais verdadeiro é em relação a Deus? Temos oincomparável privilégio de compartilhar nossos pensa-mentos mais íntimos com Deus. É claro que podería-mos simplesmente entrar em nosso c modo de oração,permitir que Deus lesse nossa mente e chamar isso deoração. Mas isso não é comunhão e, certamente, não écomunicação.Somos criaturas que se comunicam primariamentepor meio da fala. Oração falada é obviamente uma formade diálogo, uma maneira de nos comunicarmos e termoscomunhão com Deus. Há um sentido em que a soberaniade Deus deve influenciar nossa atitude para com a ora-ção, pelo menos no que diz respeito a adoração. Nossoentendimento da soberania de Deus deveria provocar emnós uma intensa vida de oração de ação de graças. Por cau-sa desse conhecimento, devemos ver cada benefício, cadabem e cada dom perfeito como uma expressão da abun-dância da graça de Deus. Quanto mais entendemos a so-berania de Deus, tanto mais nossas orações serão cheiasde ações de graça.
  16. 16. O Propósito da Oração19DequemaneiraasoberaniadeDeusafetanegativamentea oração de contrição, de confissão? Talvez poderíamos che-garàconclusãodequenossopecadoé,emúltimaanálise,res-ponsabilidade de Deus e de que nossa confissão é uma acu-sação de culpa contra ele. Todo verdadeiro cristão sabe quenão pode culpar Deus por seu pecado. Posso não entender arelação entre a soberaniadivinaearesponsabilidadehumana,mas compreendo realmente que o que procede da iniquidadede meu coração não pode ser atribuído à vontade de Deus.Então, temos de orar porque somos culpados, rogando o per-dão dAquele que é santo, a quem ofendemos.A oração muda alguma coisa?E o que podemos dizer sobre a intercessão e a súpli-ca? É bom falar sobre os benefícios religiosos, espirituaise psicológicos (e quaisquer outros que possamos obter daoração). Mas, o que dizemos sobre a pergunta real – a ora-ção faz alguma diferença? Certa vez, alguém me fez estapergunta, apenas em termos levemente diferentes: “A ora-ção muda a mente de Deus?” Minha resposta gerou pro-testos intensos. Eu disse apenas: “Não”. Ora, se a pessoativesse perguntado: “A oração muda as coisas?” Eu teriarespondido: “É claro que sim!”
  17. 17. A Oração Muda as Coisas?20A Bíblia diz que há certas coisas que Deus determi-nou desde toda a eternidade. Essas coisas acontecerão ine-vitavelmente. Se você orasse individualmente, ou se vocêe eu uníssemos forças em oração, ou se todos os cristãosdo mundo orassem coletivamente, isso não mudaria o queDeus, em seu conselho secreto, determinou fazer. Se de-cidimos orar em favor de que Jesus não volte, ele voltaráapesar disso. Talvez você pergunte: “A Bíblia não diz que,se duas ou três pessoas concordarem a respeito de algumacoisa, elas o receberão?” Sim, a Bíblia diz, mas essa pas-sagem fala sobre disciplina eclesiástica, e não sobre pedi-dos de oração. Portanto, devemos levar em conta todo oensino bíblico sobre a oração e não isolar uma passagemdas demais. Temos de abordar a questão à luz de toda aEscritura, resistindo a uma leitura separativa.De novo, você talvez pergunte: “A Bíblia não diz,várias vezes, que Deus se arrepende?” Sim, o Antigo Tes-tamento certamente diz isso. O livro de Jonas nos diz queDeus “se arrependeu” do julgamento que planejara parao povo de Nínive (Jn 3.10). Por usar o conceito de arre-pendimento nesta passagem, a Bíblia está descrevendo aDeus, que é Espírito, naquilo que os teólogos chamam de“antropopatia”. Obviamente, a Bíblia não quer dizer queDeus se arrependeu da maneira como nos arrependería-
  18. 18. O Propósito da Oração21mos; do contrário, poderíamos supor corretamente queDeus havia pecado e, portanto, precisava de um salvadorpara si mesmo. O que o texto significa é que Deus remo-veu a ameaça de julgamento do povo. A palavra hebraicanacham, traduzida como “arrepender”, significa “confor-tado” ou “tranquilizado”, neste caso. Deus foi confortadoe sentiu-se tranquilo com o fato de que o povo havia seconvertido de seu pecado; por isso, ele revogou a sentençade julgamento que impusera.Quando Deus ergue a sua espada de juízo sobre aspessoas, e estas se arrependem, e, por isso, Deus não ex-cuta o juízo, ele mudou realmente a sua mente?A mente de Deus não muda, pois ele não muda. Ascoisas mudam, e elas mudam de acordo com a soberanavontade de Deus, que ele executa utilizando meios e ativi-dades secundários. A oração de seu povo é um dos meiosque Deus usa para fazer as coisas acontecerem neste mun-do. Então, se você me pergunta se a oração muda as coi-sas, eu respondo com um resoluto “sim”.É impossível saber quanto da história humana refle-te a intervenção imediata de Deus e quanto revela o agirde Deus por meio de agentes humanos. O exemplo favo-rito de Calvino para isto era o livro de Jó. Os sabeus e oscaldeus tinham roubado os jumentos e os camelos de Jó.
  19. 19. A Oração Muda as Coisas?22Por quê? Porque Satanás havia incitado o coração deles afazer isso. Mas, por quê? Por que Satanás recebera per-missão de Deus para testar a fidelidade de Jó em tudo queele tanto desejava, exceto tirar a vida de Jó. Por que Deusconcordaria com tal coisa? Por três razões: (1) silenciar acalúnia de Satanás; (2) vindicar a si mesmo; (3) vindicarJó da calúnia de Satanás. Todas estas razões são justifica-ções perfeitamente corretas para as ações de Deus.Por contraste, o propósito de Satanás em incitar es-ses dois grupos era levar Jó a blasfemar de Deus – um mo-tivo totalmente ímpio. Mas, observamos que Satanás nãousou algo sobrenatural para realizar seus propósitos. Eleescolheu agentes humanos – os sabeus e os caldeus, queeram maus por natureza – para roubar os animais de Jó.Os sabeus e os caldeus eram conhecidos por sua maneirade viver caracterizada por roubos e mortes. A vontade de-les esteve envolvida, mas não houve coerção. O propósitode Deus foi cumprido por meio das ações ímpias deles.Os sabeus e os caldeus eram livres para escolher,mas, para eles, assim como para nós, a liberdade sempresignifica liberdade dentro de limites. Não devemos con-fundir liberdade humana e autonomia humana. Semprehaverá um conflito entre soberania divina e autonomia hu-mana. Nunca há um conflito entre a soberania divina e a
  20. 20. O Propósito da Oração23liberdade humana. A Bíblia diz que o homem é livre, masele não é uma lei aut noma para si mesmo.Suponha que os caldeus e os sabeus tivessem orado:“Não nos deixe cair em tentação e livra-nos do mal”. Es-tou absolutamente certo de que, apesar disso, os animaisde Jó teriam sido roubados, mas não necessariamentepelos sabeus e os caldeus. Deus poderia ter decidido res-ponder a oração deles, mas teria usado outro agente pararoubar os animais de Jó. Há liberdade dentro de limites,e, dentro desses limites, nossas orações podem mudar ascoisas. As Escrituras nos dizem que Elias, por meio daoração, impediu a chuva de cair. O seu entendimento dasoberania de Deus não o dissuadiu de orar.As orações dos filhos de DeusNenhum ser humano teve um entendimento maisprofundo da soberania de Deus do que Jesus. Nenhumhomem orou mais fervorosamente ou mais eficazmente.Até no Getsêmani, ele pediu uma opção, uma maneira di-ferente. Quando o pedido foi negado, ele se prostrou àvontade do Pai. A soberania de Deus é a própria razão porque oramos, visto que cremos que Deus tem, em seu po-der, o ordenar as coisas de acordo com seu propósito. Isto
  21. 21. A Oração Muda as Coisas?24é a essência da soberania de Deus – ordenar as coisas deacordo com seus propósitos. Então, a oração muda a men-te de Deus? Não. A oração muda as coisas? Sim, é claro.A promessa das Escrituras é esta: “Muito pode, porsua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5.16). O problema éque não somos esse tipo de justo. O que a oração mudamais frequentemente é a impiedade e a dureza de nossocoração. Só isso já seria razão suficiente para orarmos,ainda que nenhuma das outras razões fosse válida ou ver-dadeira.Em um sermão intitulado “O Deus Altíssimo, QueOuve Orações”, Jonathan Edwards apresentou duas ra-zões por que Deus requer a oração:No que diz respeito a Deus, a oração é apenas um re-conhecimento sensível de nossa dependência dele paraa sua glória. Como ele fez todas as coisas para a sua gló-ria, também precisa ser glorificado e reconhecido porsuas criaturas; é justo que ele requeira isto daqueles quesão objetos de sua misericórdia... é um reconhecimentoapropriado de nossa dependência do poder e da miseri-córdia de Deus para aquilo de que necessitamos, mastambém uma honra apropriada prestada ao grande Autore Fonte de todo bem.
  22. 22. O Propósito da Oração25No que diz respeito a nós mesmos, Deus requer de nós aoração... Orações fervorosas tendem, de muitas manei-ras, a preparar o coração. Por meio da oração, desperta--se o senso de nossa necessidade... por meio da oração,a mente é mais preparada para valorizar [a misericórdiade Deus]... Nossa oração a Deus pode despertar em nósum senso e consideração apropriados de nossa depen-dência de Deus quanto à misericórdia que pedimos, bemcomo um exercício apropriado de fé na suficiência deDeus, para que sejamos preparados para glorificar o seunome quando a misericórdia for recebida. (The Works ofJonathan Edwards – Carlisle, Pa: Banner of Truth Trust,1974], 2:116.)Tudo que Deus faz é, primeiramente, para a sua gló-ria e, em segundo lugar, para nosso benefício. Oramosporque Deus nos ordena orar, porque a oração o glorificae porque ela nos beneficia.
  23. 23. capítulo trêsO Padrão da oraçãojesus realizou muitos milagres. No decorrer de seu mi-nistério, ele andou sobre a água, transformou água emvinho, curou enfermos, ressuscitou mortos. ComoJoão disse: “Há, porém, ainda muitas outras coisas queJesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma,creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros queseriam escritos” (Jo 21.25).Sempre me admiro de que os discípulos não tenhamperguntado a Jesus como andar sobre a água, como aquie-tar uma tempestade ou como realizar qualquer de seus
  24. 24. A Oração Muda as Coisas?28outros milagres. Entretanto, eles pediram a Jesus que osensinasse sobre a oração. Observe que eles não pediram aJesus que os ensinasse como orar. Em vez disso, eles roga-ram: “Ensina-nos a orar como também João ensinou aosseus discípulos” (Lc 11.1). Estou certo de que os discípu-los viram com clareza a inseparável relação entre o poderque Jesus manifestava e as horas que ele gastava em soli-dão, conversando com seu Pai.A instrução que Jesus deu sobre a oração vem aténós tanto do Sermão do Monte, em Mateus 6, como deLucas 11. Jesus prefacia seus comentários sobre o padrãopara a oração com estas palavras:E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porquegostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças,paraseremvistosdoshomens.Emverdadevosdigoqueelesjá receberam a recompensa. Tu, porém, quando orares, en-tranoteuquartoe,fechadaaporta,orarásateuPai,queestáem secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios;porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvi-dos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, ovosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes quelho peçais. Portanto, vós orareis assim (Mt 6.5-9).
  25. 25. O Padrão da oração29Observe que Jesus disse: “Vós orareis assim”, e não:“Vós orareis esta oração” ou: “Fareis esta oração”. Há al-gumas perguntas sobre se Jesus não queria dizer que deve-mos repetir sempre esta oração. Não estou atacando o usoda Oração do Pai Nosso. Não há certamente nada erradoem seu uso na vida pessoal do crente ou na vida devocio-nal da igreja. Contudo, Jesus não estava nos dando umaoração a ser recitada, e sim um padrão para nos mostrar amaneira como devemos orar. Jesus estava nos dando umesboço de prioridades ou de coisas que devem ser priorida-des em nossa vida de oração. Consideremos, uma por vez,as seções da Oração do Pai Nosso.Pai nossoAs duas primeiras palavras da oração são radicais,conforme usadas no Novo Testamento. A palavra Pai nãoera a forma básica de dirigir-se a Deus achada na comu-nidade da antiga aliança. O nome de Deus era inefável.Uma pessoa não se dirigia a ele com qualquer grau de in-timidade. O termo Pai quase nunca era usado para falarcom Deus ou para dirigir-se a ele em oração no AntigoTestamento. Mas, no Novo Testamento, Jesus nos trou-xe a um relacionamento íntimo com o Pai, destruindo a
  26. 26. A Oração Muda as Coisas?30separação simbolizada pelo véu no templo. Jesus nos deuo incomparável privilégio de chamar Deus de “Pai”.Jesus foi o primeiro a mostrar que a oração é umaconversa pessoal com Deus. Jesus, que falava aramaico,usou a palavra aramaica Abba, melhor traduzida “Pai” ou“Papai”. Podemos quase ouvir o clamor de alarme dosdiscípulos e ver o semblante de admiração em sua face:“Você não está dizendo realmente isso, Jesus. Você nãopode estar falando sério! Não temos nem mesmo permis-são de falar o nome de Deus em voz alta. Não o chama-mos de Pai, quanto menos de Papai!”Ironicamente, hoje vivemos em um mundo que su-põe que Deus é o Pai de todos, que todos os homens sãoirmãos. Vemos isso em expressões como “a paternidadede Deus” e “a irmandade dos homens”. Mas, em nenhu-ma passagem, as Escrituras dizem que todos os homenssão nossos irmãos. Elas dizem realmente que todos os ho-mens são nossos próximos.Há um sentido restrito em que Deus é o Pai de todosos homens como o Doador e Sustentador da vida, o pro-genitor por excelência da raça humana. Mas na Bíblia nadaindica que um indivíduo pode se aproximar de Deus emum sentido familiar. A única exceção é quando essa pessoaé adotada na família de Deus, por expressar fé salvadora
  27. 27. O Padrão da oração31na expiação realizada por Cristo e se submeter ao seu se-nhorio. Somente quando isso acontece, a pessoa obtém oprivilégio de chamar a Deus de Pai. Àqueles que “o rece-beram”, Deus lhes deu “o poder [autoridade, privilégio]de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem noseu nome” (Jo 1.12). Somente quando isso acontece, éque Deus chama os homens de “filhos”. A palavra gregaexousia, traduzida “poder”, denota a liberdade de agir e aautoridade para essa ação. Chamar a Deus de “Pai”, sema credencial própria de filho, é um ato de presunção e ar-rogância extrema.Não achamos a ideia de uma paternidade e irmanda-de universal na introdução da Oração do Pai Nosso. Estasuposição cultural tácita nos leva a não compreender oque Jesus está dizendo. Em primeiro lugar, a paternidadede Deus não pode ser admitida como certa por toda pes-soa no mundo. Jesus é a única pessoa que tem o direitode dirigir-se a Deus desta maneira, pois somente ele é omonogenes, o “unigênito do Pai” (Jo 1.14), havendo exis-tido desde toda a eternidade em um relacionamento filialsingular com o Pai.Se há paternidade e irmandade universal em algumsentido, ela teria de ser vista na conversa de Jesus comos fariseus em João 8. Os fariseus estavam reivindicando
  28. 28. A Oração Muda as Coisas?32serem filhos de Abraão, descendência de Deus por asso-ciação ancestral. Jesus os desafiou quanto a isto, dizendo:“Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão. Masagora procurais matar-me, a mim que vos tenho falado averdade que ouvi de Deus; assim não procedeu Abraão...Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lheos desejos” (Jo 8.39-40, 44).Há uma distinção clara entre os filhos de Deus e osfilhos do Diabo. Os filhos de Deus ouvem a sua voz elhe obedecem. Os filhos do Diabo não ouvem a voz deDeus; eles lhe desobedecem por fazerem a vontade de seupai, Satanás. Há apenas duas famílias, e todas as pessoaspertencem a uma ou a outra dessas famílias. Todavia, am-bos os grupos têm uma coisa em comum. Os membrosde cada família fazem a vontade de seu respectivo pai, ouDeus, ou Satanás.Se examinarmos o Novo Testamento, fazendo per-guntas a respeito de quem são os filhos de Deus, a respos-ta é clara. O Novo Testamento não é impreciso nem enig-mático quanto a este assunto. Romanos 8.14-17 diz isto:Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deussão filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito deescravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas
  29. 29. O Padrão da oração33recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clama-mos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nossoespírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos,somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coerdei-ros com Cristo.No versículo 14 desta passagem, a palavra “todos”(autoi, no grego) é o que se chama de forma enfática paraindicar uma exclusividade. O versículo seria melhor tradu-zido assim: “Pois todos os que são guiados pelo Espíritode Deus, somente estes são filhos de Deus” ou “unicamenteestes são filhos de Deus”. Paulo nos ensina que é somentepelo Espírito Santo que podemos chamar a Deus de nos-so Pai. O significado disto no Novo Testamento é quesomos filhos, não filhos ilegítimos, porque estamos emunião com Cristo. Nossa filiação não é automática; não éherdada e não é uma necessidade genética; antes, ela é de-rivada. A palavra do Novo Testamento para esta transaçãoé adoção. Por causa de nosso relacionamento de adoçãocom Deus, por meio de Cristo, nos tornamos coerdeiroscom Cristo.É somente porque estamos em Cristo e ele está emnós que temos o privilégio de dirigir-nos a Deus comonosso Pai e aproximar-nos dele em um relacionamento fi-
  30. 30. A Oração Muda as Coisas?34lial. Martinho Lutero disse certa vez que, se pudesse ape-nas entender as primeiras duas palavras da Oração do PaiNosso, ele nunca mais seria o mesmo.A palavra nosso significa que o direito de chamar aDeus de “Pai” não é apenas meu. É um privilégio coletivoque pertence a todo o corpo de Cristo. Quando eu oro,não chego diante de Deus como um indivíduo isolado,mas como um membro de uma família, uma comunidadede santos.No céusNa época em que Jesus falou estas palavras da Ora-ção do Pai Nosso, havia um debate sobre o local exato dapresença de Deus. Na conversa entre Jesus e a mulher nopoço, Jesus enfatizou que Deus é Espírito e, como tal,não pode ser localizado em um lugar específico (Jo 4). Elenão estava nem no Monte Gerizim, como ela pensava,nem em Jerusalém, como acreditavam alguns dos judeus.Deus é onipresente. Não há restrições finitas à suapresença divina, mas Cristo falou de seu Pai como quemestava no céu. Por quê? Cristo estava falando sobre atranscendência de Deus. Visto que Deus não é parte desteprocesso mundano, ele não é parte da natureza. Ele não
  31. 31. O Padrão da oração35pode ser confinado a uma localidade. O Deus a quem nosdirigimos está acima e além dos limites finitos do mundo.A frase inicial da Oração do Pai Nosso nos apresentauma tensão dinâmica. Embora nos aproximemos do Se-nhor numa atitude de intimidade, há ainda um elementode separação. Podemos nos achegar a Deus e chamá-loPai, mas este relacionamento filial não nos permite tero tipo de familiaridade que produz desrespeito. Devemosachegar-nos a ele com ousadia, sim, mas nunca com ar-rogância ou presunção. “Pai nosso” fala de proximidadecom Deus, mas “no céus” destaca sua singularidade, suaseparação. O ensino é este: quando oramos, temos de lem-brar quem somos e a quem nos dirigimos.Santificado seja o teu nomeNão importando quão intimamente Deus nos con-vida a nos aproximarmos dele, ainda há uma separaçãoinfinita entre a nossa pecaminosidade e a majestade dele.Deus é aquele que está nos céus; nós somos da terra. Eleé perfeito; nós somos imperfeitos. Ele é infinito; nóssomos finitos. Ele é santo; nós somos impuros. Nuncadevemos esquecer que Deus é totalmente “outro”, dife-rente de nós.
  32. 32. A Oração Muda as Coisas?36A “distinção” sagrada de Deus é um fato que os fi-lhos de Arão esqueceram, mas a esqueceram somente umavez. Em Levítico 10.1-3, lemos:Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seuincensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso,e trouxeram fogo estranho perante a face do Senhor, oque lhes não ordenara. Então, saiu fogo de diante do Se-nhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor. Efalou Moisés a Arão: Isto é o que o Senhor disse: Mos-trarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mime serei glorificado diante de todo o povo.Deus exige ser tratado como santo, porque ele é san-to. Ele é zeloso de sua honra. Ele não implora por respeitonesta passagem. Antes, a passagem é uma afirmação deum fato: “Eu serei tratado como santo”. Nunca devemosesquecer o erro fatal de Nadabe e Abiú e aproximar-nosdo Deus soberano numa atitude petulantemente incerta.Examinando a primeira súplica da Oração do PaiNosso, podemos ver que esta é a primeira prioridade so-bre a qual Jesus falou. Seu pedido inicial foi que o nomede Deus fosse santificado. É a palavra grega hagios, que étraduzida literalmente por “santo”. A principal prioridade
  33. 33. O Padrão da oração37para o cristão é ver que o nome de Deus é mantido santo,porque ele é santo. Se este fosse o único pedido de oraçãoque a comunidade cristã sempre fizesse, e se os crentes ofizessem com regularidade e sinceridade, suspeito que oavivamento pelo qual oramos e a reforma que tanto anela-mos aconteceriam imediatamente. Tudo – nosso trabalho,nosso ministério e todos os aspectos de nossa vida diária– seria afetado.No Antigo Testamento, o propósito declarado para aeleiçãodosisraelitas,suareligião,leisalimentaresecerim -nias era estabelecê-los como uma nação santa, separadadas culturas da antiguidade. Isso tinha em vista a honradeles mesmos? Não, tinha em vista a honra de Deus. Ahonra de Deus tem de tornar-se a obsessão da comunidadecristã hoje. A honra não deve ir para as nossas organiza-ções, as nossas denominações, o nosso modo de culto ounossas igrejas particulares, mas somente para Deus.Considere as palavras escritas em Ezequiel 36.22:“Assim diz o Senhor Deus: Não é por amor de vós queeu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome,que profanastes entre as nações para onde fostes”. Quemudança! A nação escolhida para ter o incomparável pri-vilégio de mostrar a grandeza de Deus escolheu profanarpublicamente o nome de Deus. Deus teve de puni-los por
  34. 34. A Oração Muda as Coisas?38sua traição. Em última análise, nosso nome, nossas orga-nizações e nossos esforços são todos sem significado senão honram o nome de Deus.Hoje, uma assustadora falta de temor a Deus prevale-ce em nosso mundo. Certa vez, Martinho Lutero comentouque as pessoas que viviam ao seu redor falavam com Deus“como se ele fosse um aprendiz de sapateiro”. Se isso eraverdade nos dias de Lutero, quanto mais é verdade hoje?Contudo, a principal prioridade que Jesus estabeleceu é queo nome de Deus seja santificado, honrado e exaltado.O nome de Deus é uma expressão do que ele é. So-mos portadores da imagem de Deus. Onde Deus não érespeitado, é inevitável que os portadores de sua imagemtambém sofram perda de respeito.Venha o teu reinoUm tema central nas Escrituras é o reino de Deus.Era o principal pensamento do ensino e da pregação deJesus. Jesus veio como o cumprimento da mensagem deJoão Batista, que era clara, precisa e simples: “Arrependei--vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2).No Sermão do Monte, Jesus se focalizou no reino,o tema-chave de sua pregação. Por causa deste foco, o ser-
  35. 35. O Padrão da oração39mão era mais do que simplesmente uma apresentação éti-ca de princípios para viver bem. Jesus estava falando sobreos traços de caráter de pessoas que vivem um estilo de vidaredimido no reino de Deus.O conceito de reino é difícil de ser entendido para ocristão americano. Nossa forma de governo é a democra-cia, em que a simples ideia de monarquia é repugnante.Somos herdeiros dos revolucionários que proclamaram:“Aqui não serviremos nenhum soberano!” Nossa naçãoé construída sobre uma resistência a soberania. Os ame-ricanos travaram batalhas e guerras inteiras para seremlibertos da monarquia. Como podemos entender a men-te das pessoas do Novo Testamento que oravam paraque o Filho de Davi restaurasse a monarquia e o tronode Israel?O Rei chegou. Cristo se assentou exaltado à direitade Deus e reina como Rei. Mas Jesus não é meramenteo Rei espiritual da igreja, cuja única responsabilidade éexercer autoridade sobre nossa piedade, como se houvesseseparação entre igreja e estado. Jesus é o rei do universo.Esse é o fato de sua ascensão. Esta realidade, porém, nãoé acreditada ou reconhecida pelo mundo. Embora esse rei-nado seja um fato estabelecido, é invisível para o mundoem que vivemos. No céu, não há perguntas sobre isso. Na
  36. 36. A Oração Muda as Coisas?40terra, há muitas perguntas sobre isso. Jesus estava dizen-do que temos de orar para que o reino de Deus se tornevisível na terra, que o invisível se torne visível.RebeliãocontraaautoridadedeDeusnãoéumacoisanova ou exclusiva de nossos dias ou da cultura ocidental.Em Salmos 2.2-3, lemos: “Os reis da terra se levantam,e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seuUngido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamosde nós as suas algemas”.Qual é a reação de Deus a esta insurgência: “Ri-seaquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles” (Sl2.4). Mas Deus não se alegra por muito tempo, porquelemos nos versículos 5 e 6: “Na sua ira, a seu tempo, lheshá de falar e no seu furor os confundirá. Eu, porém, cons-tituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião”.O Senhor fala àqueles que se rebelaram contra ele –aqueles que estão envolvidos nesta declaração cósmica deindependência – e lhes diz: “Eu constituí o meu Rei, ungio meu Cristo, é melhor vocês se submeterem a ele”. Lendoem seguida, no versículo 10, aprendemos algo mais:Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir,juízes da terra. Servi ao Senhor com temor... para que senão irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em
  37. 37. O Padrão da oração41pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos osque nele se refugiam.Os cristãos devem orar pela manifestação do reinode Cristo e a vinda de seu reino. Se essa é a nossa oração, anossa responsabilidade é mostrar lealdade ao Rei. As pes-soas não têm de adivinhar a quem nós exaltamos.Faça-se a tua vontadeEsta frase não está pedindo a Deus que determinadoconselho se torne realidade ou que Deus faça as coisas quepreordenou desde a eternidade. Em vez disso, estamosorando por obediência à vontade revelada de Deus – o queele nos deixou evidente por meio de seus mandamentos. Aterceira petição é uma súplica por obediência da parte dopovo de Deus, uma súplica no sentido de que as pessoasque fazem parte do povo de Deus obedeçam aos manda-mentos de Deus.Assim na terra como no céuOs anjos na corte de Deus fazem o que ele quer edeseja. Seu povo na terra não age assim. Deus é o formu-
  38. 38. A Oração Muda as Coisas?42lador da aliança; somos os transgressores da aliança, en-trando frequentemente em colisão com a vontade do Pai.Há um sentido em que as primeiras três petições es-tão dizendo a mesma coisa. A honra ao nome de Deus,a visibilidade de seu reino e a obediência à sua vontadesão quase o mesmo conceito repetido de três maneirasdiferentes. Estão inseparavelmente relacionados. Deus éhonrado por nossa obediência, seu reino é tornado visívelpor nossa obediência, e muito obviamente sua vontade éfeita quando somos obedientes a essa vontade. Estas sãoas prioridades que Jesus estabeleceu.Não devemos entrar precipitada e arrogantementena presença de Deus, atacando-o com nossas petiçõesinsignificantes, esquecendo a quem estamos nos dirigin-do. Devemos assegurar-nos de que exaltamos apropria-damente o Deus da criação. Somente depois que Deusfoi corretamente honrado, adorado e exaltado, as peti-ções subsequentes do povo de Deus assumem seu devidolugar.O pão nosso de cada dia dá-nos hojeDeus supre as necessidades de seu povo. Devemosressaltar que a súplica agora é o pão diário, não o lombo
  39. 39. O Padrão da oração43assado ou o filé mignon diário. Deus supre as necessida-des, mas nem sempre os caprichos.Veja a experiência dos israelitas depois de teremsido libertos da terra do Egito. Deus supriu maravilho-samente o povo com pão, na forma do maná. O queaconteceu depois? Primeiro, eles pararam de agradecer aDeus por sua provisão. Em segundo, começaram a mur-murar da provisão feita por Deus. Por fim, começaram arecordar as coisas boas que haviam desfrutado no Egito.Lembraram os pepinos, os melões, os alhos silvestrese as delícias que tinham comido no Egito – enquantoesqueceram a opressão, as dificuldades e as torturas quehaviam suportado às mãos de Faraó. Murmuraram deterem de comer o maná no desjejum, no almoço e na jan-ta. Os israelitas comiam suflê de maná, torta de maná,merengue de maná, maná cozido, maná assado, manágrelhado. Logo eles clamaram por carne. A história estáregistrada em Números 11.18-20:Dize ao povo: Santificai-vos para amanhã e comereiscarne; porquanto chorastes aos ouvidos do Senhor, di-zendo: Quem nos dará carne a comer? Íamos bem noEgito. Pelo que o Senhor vos dará carne, e comereis.Não comereis um dia, nem dois dias, nem cinco, nem
  40. 40. A Oração Muda as Coisas?44dez, nem ainda vinte; mas um mês inteiro, até vos sairpelos narizes, até que vos enfastieis dela.Deus falou: “Se vocês querem carne, eu lhes dareicarne, e vocês comerão carne até que enjoem dela”.Uma das coisas que denuncia a nossa condição caí-da é o conceito de homem de sucesso pessoal, aquele quetoma o crédito por toda a abundância de seus bens e es-quece a Fonte de toda provisão. Temos de lembrar que,em última análise, Deus nos dá tudo que temos.Perdoa-nos as nossas dívidas,assim como nós temos perdoado aos nossosdevedoresEste é um pedido extremamente perigoso parafazermos em nossa oração, mas contém um princípioque o Novo Testamento leva muito a sério. Uma ad-vertência suprema de Jesus é que Deus nos julgará deacordo com a maneira como temos julgado as outraspessoas. Visto que o homem é salvo pela graça, que me-lhor evidência poderia haver da salvação de um homemdo que ele oferecer aos outros a graça que ele mesmorecebeu? Se essa graça não é evidente em nossa vida,
  41. 41. O Padrão da oração45podemos tornar válida a pergunta sobre a genuinidadede nossa alegada conversão.Temos de levar Deus a sério neste assunto. Em Ma-teus 18.23-35, Jesus nos conta a história de dois homensque deviam dinheiro. Um devia dez milhões de dólares, ooutro devia aproximadamente dezoito dólares. O débitodaquele que devia a enorme quantia de dinheiro foi perdo-ado por aquele a quem ele devia. Mas ele, por sua vez, nãoquis perdoar o homem que lhe devia a desprezível soma dedezoito dólares.Interessantemente, ambos os homens pediram amesma coisa – mais tempo, e não a isenção total da dí-vida. Foi c mico o homem que tinha uma dívida extre-mamente grande pedir mais tempo, visto que mesmopelos padrões de salário de hoje a quantia devida eraastron mica. Um dia de salário naquele tempo equiva-lia a cerca de dezoito centavos. O homem que tinha adívida menor poderia ter pago sua dívida em três me-ses. Seu pedido por mais tempo não era ilógico, masseu credor, em vez de expressar o perdão que recebera,começou a acossá-lo. O ensino deve ser claro. As ofen-sas que cometemos um ao outro e as ofensas que aspessoas cometem contra nós são como uma dívida dedezoito dólares, enquanto as inumeráveis ofensas que
  42. 42. A Oração Muda as Coisas?46temos cometido contra Deus são como a dívida de dezmilhões de dólares.Jonathan Edwards, em seu famoso sermão “A Justi-ça de Deus e a Condenação de Pecadores”, disse que todopecado é mais ou menos detestável, dependendo da hon-ra e da majestade daquele a quem ofendemos. Visto queDeus possui honra infinita, majestade infinita e santidadeinfinita, o menor pecado tem consequência infinita. Ospecados aparentemente triviais não são nada menos que“traição cósmica” quando visto à luz do grande Rei con-tra quem temos pecado. Somos devedores que não podempagar sua dívida, mas temos sido livres da ameaça de pri-são dos devedores. Insultamos a Deus quando retemos operdão e a graça daqueles que nos pedem, enquanto nósmesmos afirmamos ser perdoados e salvos pela graça.Há outro ensino importante a ser considerado. Mes-mo em nosso ato de perdão não há mérito. Não podemosrecomendar-nos a Deus e reivindicar perdão apenas por-que perdoamos a outra pessoa. Nosso perdão não obri-ga, de maneira alguma, Deus para conosco. Lucas 17.10ressalta com clareza que não há mérito nem mesmo namelhor de nossas boas obras: “Depois de haverdes feitoquanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis,porque fizemos apenas o que devíamos fazer”.
  43. 43. O Padrão da oração47Não merecemos nada por nossa obediência, porquea obediência, mesmo ao ponto de perfeição, é a exigênciamínima de um cidadão do reino de Deus. Tendo cumpri-do o dever, a única coisa que poderíamos reivindicar é umaisenção de castigo, mas, com certeza, nenhuma recompen-sa, porque teríamos feito apenas o que se esperava de nós.A obediência nunca se qualifica como “acima e além dachamada ao dever”. Entretanto, não temos obedecido; te-mos pecado gravemente. Por isso, estamos apenas numacondição de prostrar-nos a nós mesmos diante de Deuse rogar o seu perdão. Mas, se obedecemos, temos nósmesmos de estar preparados para mostrar esse perdão; docontrário, nossa posição em Cristo oscila precariamente.A principal lição do que Jesus estava dizendo é esta: “Pes-soas perdoadas perdoam outras pessoas”. Não ousamosafirmar que possuímos a vida e a natureza de Cristo e, aomesmo tempo, falhamos em exibir essa vida e natureza.Ampliando o pensamento, se Deus perdoou umapessoa, podemos nós fazer menos do que isso? Seria in-crível pensar que nós, que somos tão culpados, nos recu-saríamos a perdoar alguém que foi perdoado por Deus,que é totalmente inculpável. Devemos ser espelhos da gra-ça para outros, refletindo o que nós mesmos recebemos.Isto implementa a regra áurea em termos práticos.
  44. 44. A Oração Muda as Coisas?48O perdão não é uma coisa particular, e sim coletiva.O corpo de Cristo é um grupo de pessoas que vivem dia-riamente no contexto de perdão. O que nos distingue é ofato de que somos pecadores perdoados. Jesus nos chamaatenção não somente aos elementos horizontais da peti-ção, mas também aos elementos verticais. Devemos orartodos os dias pelo perdão de nossos pecados.Alguém talvez pergunte: “Se Deus já nos perdoou,por que devemos pedir perdão? Não é errado pedir algoque ele já nos deu?” A resposta final para uma pergun-ta como esta é sempre a mesma. Nós o fazemos porqueDeus manda que façamos. O texto de 1 João 1.9 ressaltaque uma das marcas de um cristão é sua atitude contínuade pedir perdão. O tempo do verbo no grego indica umprocesso incessante. O desejo de perdão distingue o cris-tão. O incrédulo racionaliza seu pecado, mas o cristão ésensível à sua indignidade. A confissão toma uma partesignificativa de seu tempo de oração.Pessoalmente acho amedrontador pedir a Deusque nos perdoe na medida em que perdoamos os ou-tros. É quase sempre como pedir justiça a Deus. Eucostumava advertir aos meus alunos: “Não peçam jus-tiça a Deus. Vocês podem recebê-la”. De fato, se Deusme perdoasse na exata proporção de minha disposição
  45. 45. O Padrão da oração49de perdoar os outros, eu estaria numa dificuldade pro-funda.O mandamento de perdoar os outros como fomosperdoados se aplica também à questão de perdoar a si mes-mo. Temos a promessa de Deus de que, se confessarmosos nossos pecados, ele nos perdoará. Infelizmente, nemsempre cremos nessa promessa. A confissão exige humil-dade em dois níveis. O primeiro nível é a admissão da cul-pa; o segundo nível é a aceitação humilde do perdão.Um dia, certa mulher perturbada com um problemade culpa veio até mim e disse: “Tenho pedido a Deus, re-petidas vezes, que perdoe este meu pecado, mas ainda mesinto culpada. O que posso fazer?” A situação não envol-via a repetição múltipla do mesmo pecado, e sim a repeti-ção múltipla de um pecado cometido uma única vez.“Você deve orar novamente e pedir a Deus que a per-doe”, eu respondi. Um olhar de impaciência frustrada seevidenciou em seus olhos. “Mas já fiz isso!”, ela excla-mou. “Tenho pedido a Deus repetidas vezes que me per-doe. Que proveito há em lhe pedir isso de novo?”Em minha resposta, apliquei a força do provérbio dopau na cabeça da mula: “Não estou sugerindo que vocêpeça a Deus que lhe perdoe esse pecado. Estou lhe pedin-do que busque o perdão para sua arrogância”.
  46. 46. A Oração Muda as Coisas?50A mulher ficou admirada: “Arrogância? Que arro-gância?” Ela estava supondo que seus repetidos pedidos deperdão eram prova determinante de sua humildade. Esta-va tão contrita por seu pecado que achava devia se arrepen-der dele sempre. Achava que seu pecado era muito grandepara ser perdoado por uma dose de arrependimento. Queos outros cristãos recebam o perdão por graça; ela sofreriapor seu pecado, não importando quão gracioso seja Deus.O orgulho fixara nesta mulher uma barreira para a suaaceitação de perdão. Quando Deus nos promete que nosperdoará, nós insultamos sua integridade quando recusa-mos aceitar o perdão. Perdoar a nós mesmos depois queDeus nos perdoou é um dever, bem como um privilégio.Não nos deixes cair em tentação;mas livra-nos do malA princípio, esta seção da Oração do Pai Nosso pa-rece duas petições separadas, mas este não é o caso. Elasegue a forma literária de paralelismo usada do AntigoTestamento – duas maneiras diferentes de dizer a mesmacoisa. Jesus não estava sugerindo que Deus nos tentaráao mal, se não fizermos esta súplica. Tiago 1.13 diz es-pecificamente que Deus não tenta a ninguém. Deus pode
  47. 47. O Padrão da oração51testar, mas ele nunca tenta para o mal. Um teste é para ocrescimento; a tentação é para o mal.Nem toda tentação procede de Satanás, pois Tiagodiz também que somos tentados por nossa própria cobiça.O mal inerente no coração do homem é capaz de tentar ohomem sem a ajuda de Satanás.O apelo para evitar a tentação e a petição por li-vramento do mal são uma e a mesma coisa. A traduçãodeste versículo em português não é a melhor, porque omal do qual Jesus falou não é o mal no sentido geral.No grego, a palavra traduzida por “mal” é de gêneroneutro; nesta seção da Oração do Pai Nosso, a pala-vra está no gênero masculino. Jesus estava dizendo quedevemos pedir ao Pai que nos livre do Maligno, das in-vestidas que Lutero chamou de “desenfreados ataquesde Satanás”, o inimigo que deseja destruir a obra deCristo neste mundo.Jesus estava nos dizendo que peçamos ao Pai queconstrua uma cerca ao nosso redor. O pedido não tem opropósito de evitar as provações neste mundo, e sim pro-teger-nos da exposição desprotegida aos ataques de Sata-nás. Em sua “Oração Sumo Sacerdotal”, Jesus pediu aoPai, não que tirasse os seus discípulos do mundo, e simque os guardasse “do mal [poneros]” (Jo 17.15).
  48. 48. A Oração Muda as Coisas?52Nesta parte da oração, pedimos a presença reden-tora de Deus. Sem essa presença, somos presas fáceisdo inimigo. Pense em Pedro quando ele terminou deexpressar entusiasticamente a Jesus a extensão de seucompromisso, a profundeza de seu amor e de sua devo-ção, bem como a intensidade de sua lealdade. Olhandopara ele e prevendo a sua negação, Jesus disse: “Simão,Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirarcomo trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fénão desfaleça” (Lc 22.31-32). Em outras palavras, Je-sus disse a Pedro que por si mesmo ele se colocaria nasmãos de Satanás. Se não fosse a intercessão de Cristoem favor de Pedro, este teria se perdido; sua fé teriafracassado.Não somente temos Jesus a interceder por nós, paranos proteger do inimigo, mas também nós mesmos de-vemos pedir a Deus que nos guarde seguros das mãos doinimigo.Em seis petições, Jesus delineou o padrão e as prio-ridades para a nossa vida de oração. A conclusão tradi-cional da Oração do Pai Nosso – “pois teu é o reino, opoder e a glória para sempre. Amém!” – não se acha nosmelhores manuscritos. Com toda probabilidade, ela nãoestava no texto original, mas era uma conclusão usual
  49. 49. O Padrão da oração53para as igrejas primitivas. No entanto, ela é uma conclu-são apropriada e verdadeira. Retorna ao assunto do iní-cio da oração, elevando uma doxologia Àquele que ouvenossas petições.
  50. 50. capítulo QuatroA Prática da OraçãoaOração do Pai Nosso foi dada à igreja em respostaao pedido dos discípulos de que o Senhor os ensi-nasse a orar. No sublime exemplo da Oração do PaiNosso, vemos as prioridades da oração. Podemos tam-bém detectar um padrão de oração, um movimento quecomeça com adoração e se dirige, finalmente, à petiçãoe suplica.O acróstico “A-Ç-Ã-O” pode ser útil como padrãopara a oração. Cada letra do acróstico representa um ele-mento vital da oração eficaz:
  51. 51. A Oração Muda as Coisas?56AdoraçãoConfissãoAção de graçasOração O acróstico completo sugere a dinâmica da oração. Aoração é ação. Embora seja expressa num espírito de quie-tude serena, a oração é ação. Quando oramos, não somosobservadores passivos ou neutros, espectadores distantes.Gastamos energia no exercício da oração.A Bíblia nos diz que “muito pode, por sua eficácia,a súplica do justo” (Tg 5.16). Fervor caracterizou a agoniade Jesus no Getsêmani, onde seu suor caiu no chão comogotas de sangue. Fervor descreve a luta de Jacó com o anjo,durante a noite, em Peniel. A oração é um exercício depaixão e não de indiferença.Jesus contou a parábola da viúva persistente queapresentou o seu caso a um juiz. O juiz, um inescrupu-loso, sem temor a Deus e ao homem, ouviu os apelos daviúva. Ele não se comoveu por um ímpeto repentino decompaixão, mas, pelo contrário, ficou cansado dos apelosrepetidos da viúva. Em síntese, a mulher se tornou umapeste, impelindo, por meio de sua importunação, o juiza agir.
  52. 52. A Prática da Oração57O principal ensino da parábola não é que Deus éindiferente às nossas necessidades e tem de ser impor-tunado, se desejamos ser ouvidos. Não é uma questãode correspondência entre o juiz injusto e Deus, o juizperfeitamente justo. É um contraste. Jesus usou fre-quentemente o tema “quanto mais” em suas palavras.Nesta, ele afirmou: “Não fará Deus justiça aos seusescolhidos, que a ele clamam dia e noite?” (Lc 18.7). Oponto de comparação/contraste é este: se um juiz hu-mano injusto ouve a petição de uma mulher insistente,quanto mais o nosso justo Juiz celestial ouvirá nossaspetições?A mulher persistente é comparada com os santosque clamam dia e noite. Como o rei Davi, cujo travesseiroera encharcado com suas lágrimas, os santos se achegam aDeus com emoção genuína e, até, lágrimas.Fervor é um elemento apropriado da oração ativa. Oentusiasmo não o é. Existe uma linha tênue entre ambos.Os dois contêm paixão. Ambos estão carregados de emo-ção. O fervor cruza o entusiasmo em dois pontos: o men-tal e o emocional. O fervor se torna entusiasmo quando amente para de pensar, e as emoções saem de controle. Aoração entusiasta cai na incoerência dos dervixes dançan-tes (grupo turco), e Deus não é honrado.
  53. 53. A Oração Muda as Coisas?58O entusiasmo, a imitação do fervor, é uma tenta-tiva falsa de simular o fervor piedoso. Aqueles que ma-nipulam deliberadamente as emoções das pessoas sãoadvertidos aqui. Há algo santo, algo soberano no genu-íno fervor espiritual que não pode ser produzido artifi-cialmente. É fácil confundirmos fervor com entusiasmo,mas a confusão é mortal.AdoraçãoComo no modelo da Oração do Pai Nosso, a manei-ra mais apropriada de começarmos a orar é com adoração.Infelizmente, somos mais frequentemente impelidos a orarpor nossos desejos e necessidades. Buscamos a Deus quandoqueremos algo dele. Estamos com tal pressa para apresentar--lhe nossos pedidos e contar-lhe nossas necessidades (queDeus já conhece), que omitimos por completo a adoração oupassamos rapidamente por ela, de maneira negligente.Omitir a adoração significa excluir o âmago da ora-ção. Uma coisa é ser fervoroso nas súplicas, especialmen-te quando se ora em uma trincheira; outra coisa é ser fer-voroso em adoração. As orações dos grandes santos, asorações dos guerreiros da história da igreja, são marcadaspor sua adoração fervorosa a Deus.
  54. 54. A Prática da Oração59Deus não permita que menosprezemos o ensino deCristo, mas tenho de confessar que fiquei, pelo menos,surpreso com a resposta de Jesus ao pedido dos discípu-los sobre a oração. Quando eles disseram: “Ensina-nos aorar”, eu aguardaria uma resposta diferente dos lábios deJesus, diferente da que ele deu na forma da Oração do PaiNosso. Eu esperaria uma resposta mais ou menos assim:“Vocês querem aprender a orar? Leiam os Salmos”.Fiquei surpreso com o fato de que Jesus não reco-mendou os Salmos aos discípulos. Ali, achamos não so-mente o coração de Davi exposto, mas também um tesou-ro de adoração divinamente inspirado, cheio de modelospara seguirmos.Nossa hesitação e fraqueza, em expressar adoração,pode ter duas causas principais. A primeira é nossa faltade vocabulário conveniente. Tendemos a ser indistintosno que concerne à adoração. Foi Edgar Allan Pole quedisse que, para comunicar instrução, a prosa é um instru-mento mais apropriado do que a poesia. Não é surpreen-dente que os salmos tenham sido escritos em forma poéti-ca. Neles, os mais elevados ápices de expressão verbal sãoatingidos no serviço do louvor da alma a Deus.Muitas pessoas no movimento carismático têmdeclarado que uma das principais razões para a sua bus-
  55. 55. A Oração Muda as Coisas?60ca do dom de línguas é um desejo profundo de ven-cer ou superar a deficiência de um vocabulário pobrepor meio de uma língua de oração diferente. Pessoasacham frequentemente que sua própria língua é ina-dequada para expressar adoração. Este sentimento deinadequação, de ter de usar as mesmas palavras velhase desgastadas, produz frustração. Charles Wesley ex-pressou opinião semelhante em seu hino “Oh! se eutivesse mil línguas para cantar”. O hino se queixa deque a restrição a uma língua é um obstáculo lamentávelao louvor, a ser libertado somente pelo acréscimo de999 outras línguas.Os salmos foram escritos em vocabulário simples,mas poderoso, pelo qual o coração de vários escritores ex-pressou reverência para com Deus, sem ignorar a mente.Abrindo sua boca, os salmistas proferiram louvor. Comcerteza, esse louvor foi dado sob inspiração do EspíritoSanto, mas por meio de homens cuja mente estava imersanas coisas de Deus.Outra grande barreira para expressar louvor é a ig-norância. Sofremos não tanto de um vocabulário limita-do, mas, principalmente, de um entendimento limitadodaquele que adoramos. Nossa adoração sofre de uma faltade conhecimento de Deus.
  56. 56. A Prática da Oração61Pense num adolescente apaixonado que escreve bi-lhetes de amor para sua namorada durante uma aula. Ojovem pode ser tímido e hesitante, mas lhe dê uma canetae tempo para pensar sobre o objeto de seu romance, e,repentinamente, ele é outro Shakespeare. Ora, bilhetesde amor podem ser, de um ponto de vista literário, senti-mentais e menos do que sofisticados, mas não há falta depalavras. O coração motiva a caneta.Como alguém escreve cartas de amor para um Deusdesconhecido? Como os lábios formam palavras de louvorpara um Ser supremo, indefinível e indescritível? Deus éuma pessoa que tem uma história sem fim. Ele se reve-la a nós não somente no glorioso palco da natureza, mastambém nas páginas da Escritura Sagrada. Se enchermosnossa mente com a Palavra de Deus, nossos gaguejos im-precisos se tornarão padrões inteligentes de louvor signi-ficativo. Por nos imergirmos nos salmos, não somente ga-nharemos discernimento a respeito de como louvar, mastambém aprimoraremos nosso entendimento daquele queestamos louvando.Por que devemos adorar a Deus? Como seres huma-nos, fazer isso é nosso dever. Fomos chamados a enchera terra com a glória de Deus. Fomos criados à imagem deDeus para refletirmos a sua glória. Nossa principal função
  57. 57. A Oração Muda as Coisas?62é exaltar o Senhor. De modo semelhante, devemos adorara Deus, mas não bajulá-lo, como que “preparando-o” paraas nossas súplicas. Notamos que os anjos, no céu, sãodescritos como que cercando o trono de Deus com louvore adoração.Em termos práticos, por que adoração é tão impor-tante para nós? Por que toda a vida do cristão – que deveser uma vida de obediência e serviço – é motivada e enri-quecida quando a santidade e a dignidade de Deus são gra-vadas em nossa mente. Antes que eu seja motivado a fazeralgo difícil para alguém, preciso ter certa quantidade derespeito por aquela pessoa. Quando alguém me pede quevá ao mundo e suporte perseguição e hostilidade da partede pessoas contrárias e iradas, tenho de respeitar profun-damente aquele que me pediu isso. Quando agimos assim,a tarefa se torna mais fácil.Quando começamos nossas orações com adoração,estamos estabelecendo o tom para nos achegarmos a Deuscom confissão, ação de graças e súplicas. Hebreus 4.16nos diz que devemos entrar no Santo dos Santos confian-temente, pois o véu foi removido pela cruz. A espada que oanjo segurava à porta do Paraíso foi removida. Cristo nosdeu acesso ao Pai. Mas, se examinarmos a história da igre-ja, pessoas têm mantido uma distância respeitável, pen-
  58. 58. A Prática da Oração63sando que Deus permanece indiferente a elas. A oraçãose tornou tão formal, que a igreja e suas pessoas reagiramcom igual intensidade na direção oposta.Hoje, temos a “oração conversacional”. Nossa con-versa com Deus se dá nestes termos: “Olá, Deus! Comovocê está? As coisas não estão indo bem para mim hoje,mas, você sabe, você e eu, Deus, sairemos bem de algummodo, não é?” Esta é uma aproximação muito casual deDeus. Representa a reação contrária ao formalismo, masé o tipo de informalidade que produz desdém. Criada paraeliminar a artificialidade, ela produziu o pior tipo de ar-tificialidade. É difícil imaginar que um ser criado teria aaudácia de falar desta maneira com Deus, em sua presençaimediata.Deus nos convida a chegarmos livremente à sua pre-sença, mas temos de compreender que estamos diante deDeus. Quando confrontados com o Senhor Deus onipo-tente, quem falaria como se estivesse falando com umamigo em um jogo de baseball? Podemos nos achegar aDeus com confiança, mas nunca com arrogância, nuncacom presunção, nunca com frivolidade, como se estivésse-mos lidando com um colega.Quando começamos nossa oração com adoração elouvor, reconhecemos aquele com quem estamos falando.
  59. 59. A Oração Muda as Coisas?64A gramática não precisa ser perfeita, nem as palavras re-quintadas e eloquentes, mas elas têm de refletir o respeitoe a honra devidos a Deus. Há um sentido em que a adora-ção nos introduz no modo pelo qual confessamos nossospecados, expressamos nossos agradecimentos e fazemosnossas súplicas.Vários livros recentes querem que creiamos que tudoque devemos fazer é seguir certos passos, e Deus nos daráo que quer que peçamos. Os autores dizem, em essência:“Siga este procedimento ou use estas palavras específicase tenha certeza de que Deus cederá aos seus pedidos”. Issonão é oração, é mágica. São artifícios tencionados a manipu-lar o Deus soberano. Mas quem ora desta maneira esqueceaquele com quem ele está falando. O Deus soberano nãopode ser manipulado, porque conhece os corações de todosque oram a ele. A verdadeira oração pressupõe uma atitudede submissão humilde e adoração ao Deus todo-poderoso.ConfissãoDepois de expressarmos adoração, temos de achegar--nos a Deus com corações de confissão. Não temos qual-quer direito de estar diante dele, exceto com base na obraconsumada de Cristo. Não podemos fazer qualquer rei-
  60. 60. A Prática da Oração65vindicação, em e de nós mesmos, aos ouvidos de Deus.Não temos nenhum direito intrínseco de estar em sua pre-sença. As Escrituras nos dizem que Deus é muito santoaté para olhar para o pecado. Deus se deleita nas oraçõesdos justos, mas não somos muito justos em nossa vidadiária. No entanto, o Deus a quem servimos nos convidaa entrar em sua presença, apesar do nosso pecado.Em nosso estudo da Oração do Pai Nosso, conside-ramos alguns dos elementos importantes. Como a oraçãomodelo sugere, a confissão deve ser uma parte normal denossa conversa com Deus. A confissão não é um assuntofrívolo com o qual nos envolvemos somente em ocasiõesoportunas e certas datas durante o ano. A confissão deveser uma atividade diária para o cristão, cuja peregrinaçãoé caracterizada, em sua inteireza, pelo espírito de arrepen-dimento. A principal razão por que a confissão tem de serfeita diariamente é que nossos pecados contra as leis deDeus são cometidos todos os dias. Fazemos coisas quenão devemos e deixamos de fazer aquelas coisas que Deusnos manda fazer. Temos uma dívida diária perante Deus.Consequentemente, nossas orações diárias têm de incluiratos genuínos de confissão.Não foi por acaso que a Igreja Católica Romana ele-vou o rito de penitência ao nível de um sacramento. Visto
  61. 61. A Oração Muda as Coisas?66que o sacramento da penitência estava no centro do conflitoda Reforma Protestante, uma reação de negativismo paracom a penitência se estabeleceu entre os protestantes. Foium caso clássico de reação extrema, de “jogar tudo fora semaproveitar o que é útil”. Os reformadores não procuravameliminar o arrependimento e a confissão, e sim a reformadas práticas da igreja relacionadas a estas coisas.O sacramento de penitência católico romano contémvários elementos: confissão verbal, absolvição sacerdotale “obras de satisfação”. Estas obras de satisfação podemser atividades mecânicas, como dizer muitas “Ave-marias”ou “Pais-Nossos”, ou podem ser atos mais rigorosos depenitência. As obras de satisfação tencionam garantir“mérito congruente” para o cristão penitente, tornando-opronto para que Deus restaure a graça da justificação.Foi o terceiro aspecto do sacramento de penitênciaque criou tanta controvérsia no século XVI. As obras desatisfação, aos olhos dos reformadores, eclipsavam a sufi-ciência e a eficácia da obra consumada de Cristo em nossofavor, na cruz. O “mérito congruente”, do qual Roma fa-lava, obscurecia a doutrina bíblica da justificação somentepela fé.Na controvérsia sobre o arrependimento, os refor-madores protestantes não repudiaram a importância da
  62. 62. A Prática da Oração67confissão e reconheceram que confessar os pecados a ou-tra pessoa é bíblico. Todavia, eles desafiaram a exigênciade confissão a um sacerdote.O princípio de absolvição sacerdotal não era umaquestão fundamental. A Igreja Católica Romana sempreensinara que as palavras sacerdotais “Te absolvo” (“Eu teabsolvo”) acham sua força na promessa de Jesus à igre-ja: “O que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e oque desligares na terra terá sido desligado nos céus” (Mt16.19), garantindo ao porta-voz da igreja um direito deproferir o perdão de Cristo à pessoa penitente. A IgrejaCatólica Romana entende que o poder de perdoar pecadosnão reside, em última análise, no sacerdote. O sacerdoteé apenas o porta-voz de Cristo. Na prática, a absolviçãosacerdotal difere muito pouco da “segurança de perdão”do ministro protestante, que é dada dos púlpitos, em todoo país, cada domingo.O apóstolo João nos diz: “Se confessarmos os nos-sos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecadose nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1.9). Aqui, temosa promessa de Deus de perdoar nossos pecados confessa-dos. Ignorar ou negligenciar esta promessa é seguir umcaminho perigoso. Deus nos ordena a confessar nossospecados e promete perdoá-los. O fato de que devemos con-
  63. 63. A Oração Muda as Coisas?68fessar nossos pecados diariamente é claro. O que a confis-são significa e o que ela envolve são questões que precisamde algum desenvolvimento.Podemos distinguir entre dois tipos de arrependi-mento: atrição e contrição. Atrição é o arrependimento fal-sificado, que nunca nos qualifica para o perdão. É comoo arrependimento de uma criança que é apanhada no atode desobedecer a sua mãe e clama: “Mamãe, mamãe, sintomuito; por favor, não bata em mim”. Atrição é o arrepen-dimento motivado estritamente pelo temor de punição.O pecador confessa o seu pecado a Deus, não impelidopor tristeza genuína, e sim por um desejo de garantir umlivramento do inferno.O verdadeiro arrependimento reflete contrição, umatristeza piedosa por ofender a Deus. Aqui, o pecador la-menta o seu pecado, não pela perda de recompensa ouameaça de julgamento, mas porque ele trouxe injúria àhonra de Deus.A Igreja Católica Romana usa uma oração de con-fissão chamada “O Ato de Contrição” para expressar estetipo de arrependimento: “Ó meu Deus, estou triste decoração por ter ofendido a ti. Detesto todos os meus pe-cados por causa de tua justa punição, mas, acima de tudo,porque ofendi a ti, ó meu Deus, que mereces todo o meu
  64. 64. A Prática da Oração69amor. Resolvo firmemente, com a ajuda de tua graça, nãopecar mais e evitar a ocasião de pecado”.Esta oração vai além da atrição, o mero temor depunição, chegando a uma tristeza piedosa por ofender aDeus. Observe que o pecador reconhece que Deus é todo obem e merece o nosso amor. Este reconhecimento silenciatodas as tentativas de autojustificação.A oração inclui uma firme resolução de não cometernovamente o pecado, uma disposição de abandonar o male evitar até a ocasião dele. Um reconhecimento humildeda dependência da misericórdia e da ajuda divina tambémestá incluído.É claro que é possível alguém usar esta oração demaneira mecânica, recitando-a como um exercício formal,sem qualquer tristeza sincera. Mas as palavras da oraçãoexpressam os elementos da verdadeira confissão.A contrição perdeu muito de seu significado em nos-sa cultura. Não é difícil convencer as pessoas de que elassão pecadoras, pois ninguém dirá que é perfeito. A respos-ta comum é: “Sim, eu sou um pecador. Todos são pecado-res. Ninguém é perfeito”. Há poucos, se há alguém, queafirmam ser inculpáveis, estar levando vidas de coerênciaética e cumprindo a Regra Áurea em toda situação. O pro-blema está no reconhecimento da intensidade de nosso pe-
  65. 65. A Oração Muda as Coisas?70cado, a extrema falta de bondade de nossas ações. Porquesomos todos pecadores e sabemos que compartilhamosda mesma culpa, nossa confissão tende a ser superficial,frequentemente não caracterizada por sinceridade, ou umsenso de urgência moral.O salmo 51, uma súplica de perdão proferida por umpecador contrito, foi escrito pelo rei Davi depois de havercometido adultério com Bate-Seba. Davi não se aproximoude Deus com desculpas. Ele não pediu a Deus que conside-rasse as circunstâncias que produziram o pecado ou o isola-mento de sua posição como governante. Davi não procurouminimizar a gravidade de seu pecado na presença de Deus.Não houve racionalizações e nenhuma tentativa de autojus-tificação, que caracterizam tanto pessoas culpadas.Davi disse: “Eu conheço as minhas transgressões, eo meu pecado está sempre diante de mim... serás tido porjusto no teu falar e puro no teu julgar” (vv. 3-4). Em ou-tras palavras, Davi acreditava que Deus seria totalmentejustificado se não lhe desse nada, exceto punição comple-ta. Davi exibiu aquilo que Deus disse não desprezará: umcoração quebrantado e contrito.Em seguida, Davi suplicou restauração ao favor deDeus: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renovadentro de mim um espírito inabalável. Não me repulses
  66. 66. A Prática da Oração71da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito. Res-titui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com umespírito voluntário” (vv. 10-12). Ele entendeu o elementomais crucial da confissão: dependência total da misericór-dia de Deus. Davi não podia expiar seus próprios pecados.Não havia nada que ele pudesse fazer e nada que pudessedizer para desfazer o que tinha feito. Não havia meios deele “compensar seu erro” a Deus. Davi entendeu o que Je-sus deixou claro mais tarde – somos devedores incapazesde pagar nossas dívidas.A confissão é como uma declaração de falência. Deusexige perfeição. O menor pecado mancha um registro per-feito. Todas as “boas obras” no mundo não podem apagar amancha e mover-nos da imperfeição para a perfeição. Quan-do cometemos o pecado, estamos moralmente falidos.Nossa única esperança é ter esse pecado perdoado e cobertopor meio da expiação dAquele é totalmente perfeito.Quando pecamos, nossa única opção é o arrependi-mento. Sem arrependimento não há perdão. Temos dechegar diante de Deus em contrição. Davi o expressoudesta maneira: “Não te comprazes em sacrifícios... Sacri-fícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; cora-ção compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus”(Sl 51.16-17).
  67. 67. A Oração Muda as Coisas?72Aqui, os pensamentos profundos de Davi revelamseu entendimento do que muitas pessoas do Antigo Tes-tamento não compreenderam – a oferta de sacrifícios notemplo não obtinha mérito para o pecador. Os sacrifíciosapontavam para além deles mesmos, para o Sacrifícioperfeito. A expiação perfeita foi oferecida pelo Cordeiroperfeito e sem mancha. O sangue de touros e de bodesnão remove o pecado. O sangue de Jesus o remove. Paranos aproveitarmos da expiação de Cristo e obtermos essacobertura, precisamos achegar-nos a Deus com quebranta-mento e contrição. Os verdadeiros sacrifícios para Deussão um coração quebrantado e um espírito contrito.Havia um importante elemento de surpresa na ex-periência de perdão de Davi. Ele havia rogado a Deus quepurificasse o seu pecado e o tornasse limpo. Em certo sen-tido, o perdão nunca deve ser uma surpresa. Nunca deve-mos ficar surpresos quando Deus cumpre sua palavra deperdoar aqueles que confessam seus pecados. Deus cum-pre suas promessas; o homem não. Deus é o Elaboradorda Aliança; nós somos os transgressores da aliança.Considerando a questão à luz de outra perspectiva,devemos ficar surpresos toda vez que experimentamos operdão. Nunca devemos ver a misericórdia e o perdão deDeus como naturais, embora vivamos numa cultura que
  68. 68. A Prática da Oração73faz isso. É assustador considerar a facilidade com que ve-mos a graça de Deus como algo natural. Ocasionalmente,faço estas perguntas a universitários, seminaristas e pro-fessores de seminário: Deus está obrigado a ser amoroso?Ele está obrigado a mostrar perdão e graça? Repetidas ve-zes, a resposta deles é afirmativa: “Sim, é claro; a naturezade Deus é ser amoroso. Ele é essencialmente um Deusde amor. Se ele não mostrasse amor, não seria Deus. SeDeus é Deus, ele tem de ser misericordioso!”Ele tem de ser misericordioso? Se Deus tem de ser mi-sericordioso, então sua misericórdia não é mais espontâneaou voluntária. Ela se torna obrigatória. Se isso é verdade,ela não é mais misericórdia, e sim justiça. Ninguém podeexigir que Deus seja misericordioso. Quando pensamos queele está obrigado a ser misericordioso, uma luz vermelha de-veria brilhar em nosso cérebro, indicando que não estamosmais pensando em misericórdia, e sim em justiça. Precisa-mos fazer mais do que cantar “Graça Admirável” – precisa-mos ficar constantemente admirados com a graça.Ação de graçasAção de graças tem de ser uma parte integral da ora-ção. Deve estar ligada inseparavelmente às nossas petições
  69. 69. A Oração Muda as Coisas?74de súplica. As Escrituras nos mandam que nos achegue-mos a Deus e lhe apresentemos todas as nossas petiçõescom ações de graças. Ação de graças é um reconhecimentode Deus e de seus benefícios. Em salmos 103.2, Davi afir-ma: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esque-ças de nem um só de seus benefícios”.Ingratidão é um problema sério. As Escrituras nosfalam muito sobre ela. O não ser grato é uma marca tantodos pagãos como dos apóstatas.Em Romanos 1.21, Paulo chama atenção a dois pe-cados elementares dos pagãos. Ele diz: “Tendo conheci-mento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhederam graças”. Honra e ação de graças devem ser distin-guidos, mas não separados. Deus é honrado por ação degraças e desonrado por sua ausência. Tudo que temos etudo que somos devemos, em última análise, à benevolên-cia de nosso Criador. Desprezá-lo por retermos a gratidãoapropriada é exaltar a nós mesmos e aviltá-lo.Os pagãos devem ser distinguidos dos apóstatas. Ospagãos nunca entraram na família da fé. São estranhos àcomunidade da aliança. Idolatria e ingratidão os caracte-rizam. Os apóstatas são pessoas que se unem a uma igre-ja, se tornam membros da comunidade da aliança visívele, depois, repudiam a igreja, deixando-a em troca de uma
  70. 70. A Prática da Oração75vida de satisfação secular. Os apóstatas são pessoas “queesquecem”. Têm memória curta.O encontro de Jesus com os dez leprosos ilustra aimportância da ação de graças. Inúmeros sermões já fo-ram pregados sobre a cura dos dez leprosos, focalizandoa atenção no tema de gratidão. O principal argumento demuitos destes sermões é que Jesus curou dez leprosos,mas somente um deles ficou grato. A única resposta edu-cada a esse tipo de pregação é chamá-la o que ela é – absur-do. É inconcebível que um leproso que suportou a terrívelmiséria que ele enfrentava todos os dias, no mundo an-tigo, não teria ficado grato por receber cura instantâneadaquela doença terrível. Se tivesse sido um dos leprosos,até Adolf Hitler teria ficado grato.A questão-chave da história não é gratidão, e sim açãode graças. Uma coisa é alguém se sentir grato; outra coisaé expressar isso. Os leprosos eram separados da família edos amigos. Purificação instantânea implicava livramen-to do exílio. Podemos imaginá-los delirantemente felizes,apressando-se em ir ao lar, para abraçar a esposa, os filhose anunciar sua cura. Quem não seria grato? Mas somenteum deles adiou seu retorno ao lar e tomou tempo paradar graças. O relato em Lucas 17 diz: “Um dos dez, ven-do que fora curado, voltou, dando glória a Deus em alta
  71. 71. A Oração Muda as Coisas?76voz, e prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus,agradecendo-lhe; e este era samaritano” (vv. 15-16).Todas as nossas orações devem incluir ação de gra-ças. Como o leproso, temos de parar, voltar e agradecer.Somos tão devedores a Deus que jamais poderemos esgo-tar nossas oportunidades para expressar gratidão.Esquecer os benefícios de Deus é também a marcado cristão imaturo, aquele que vive por seus sentimen-tos. Ele é propenso a uma vida espiritual do tipo mon-tanha-russa, movendo-se rapidamente de auges estáticospara depressivos. Nos momentos de auge, ele tem umsentimento exultante da presença de Deus, mas entra emdesespero no momento em que sente uma ausência pro-funda desses sentimentos. Ele vive de bênção em bên-ção, sofrendo as angústias de uma memória curta. Vivesempre no presente, saboreando o “agora”, mas perden-do de vista o que Deus fez no passado. Sua obediência eculto são tão fortes quanto a intensidade de sua últimarecordação de bênção.Se Deus jamais nos desse outro vislumbre de sua gló-ria nesta vida, se ele jamais nos respondesse outro pedido,se ele jamais nos desse outro dom da abundância de suagraça, ainda assim estaríamos obrigados a gastar o restode nossas vidas agradecendo-lhe pelo que já fez. Já temos
  72. 72. A Prática da Oração77sido abençoados com tanta suficiência que devemos sermovidos diariamente por ação de graças. No entanto,Deus continua a nos abençoar.OraçãoAlguém disse: “Com tantas pessoas famintas, podeser errado eu orar por um tapete para a minha sala deestar”. Todavia, o Deus que cuida de est magos vaziosdo mundo é o mesmo Deus que se interessa por salasde estar vazias. O que é importante para nós talvez sejaimportante para nosso Pai. Se não temos certeza a res-peito da conveniência de nosso pedido, devemos contarisso a Deus. Tiago 1.5 diz: “Se, porém, algum de vós ne-cessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá libe-ralmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida”.A expressão grega traduzida por “nada impropera” sig-nifica, literalmente, “sem lançar de volta em sua face”.Não precisamos temer a reprovação de Deus, contantoque estejamos buscando sinceramente sua vontade emdeterminada situação.Nada é grande demais ou pequeno demais diante deDeus em oração, desde que não seja algo que temos cer-teza de que é contrário a vontade expressa de Deus, ma-
  73. 73. A Oração Muda as Coisas?78nifestada com clareza em sua Palavra. Obviamente, seriamuito inapropriado pedir a Deus que nos torne ladrõescompetentes. Não podemos tentar a Deus, como o fez ohomem que revelou, durante uma entrevista em um pro-grama nacional de televisão, que tinha feito um pacto comDeus. O homem declarou que tinha prometido a Deusque, se ele o abençoasse com dois bordéis, ele o serviriapelo resto de sua vida.E se as nossas orações parecem não ser respondidas?Às vezes, nos sentimos como se faltasse às nossas oraçõeso poder de ir além do teto. É como se as nossas petiçõescaíssem em ouvidos surdos, e Deus permanecesse quietoe desinteressado por nosso apelo fervoroso. Por que estessentimentos nos assombram?Há várias razões por que ficamos às vezes frustradosem oração. Veremos as mais importantes:1. Oramos por generalidades vagas. Quando todasas nossas orações são vagas ou universais em escopo, édifícil experimentarmos a alegria que acompanha as res-postas claras e óbvias de oração. Se pedirmos a Deusque “abençoe todas as pessoas do mundo” ou “perdoetodas as pessoas de nossa cidade”, dificilmente veremosa resposta da oração de maneira concreta. Ter um escopo
  74. 74. A Prática da Oração79de interesse amplo em nossa oração não é errado, mas,se toda oração for geral, nenhuma oração terá aplicaçãoconcreta e específica.2. Estamos em guerra com Deus. Se não estamosem harmonia com Deus ou estamos em rebelião paracom ele, não podemos esperar que ele tenha um ouvidobenevolente para com nossas orações. Seus ouvidos seinclinam para aqueles que o amam e buscam obedecer--lhe. Ele afasta os seus ouvidos dos ímpios. Portanto,uma atitude de reverência para com Deus é vital à eficá-cia de nossas orações.3. Tendemos a ser impacientes. Quando eu oro porpaciência, tendo a pedir que me seja dada “agora mesmo”.É comum esperarmos anos, realmente décadas, para quenossos pedidos mais sinceros sejam respondidos. Deusraramente está com pressa. Por outro lado, nossa fidelida-de a Deus tende a depender de atos “imediatos e amáveis”da parte dele. Se ele demora, nossa impaciência dá lugar àfrustração. Precisamos aprender a ter paciência, pedindoa Deus sua paz.4. Temos memória curta. É fácil esquecermos os be-nefícios e os dons dados pelas mãos de Deus. O crentelembra os dons de Deus e não exige um novo dom a cadahora, para manter a sua fé intacta.
  75. 75. A Oração Muda as Coisas?80Embora Deus nos acumule de graça sobre graça, de-vemos ser capazes de regozijar-nos com os benefícios deDeus, ainda que não recebamos nenhum outro benefícioda parte dele. Lembre-se dos benefícios do Senhor quandoestiver diante dele. Ele não lhe dará uma pedra, quandovocê lhe pedir pão.
  76. 76. capítulo cincoAS PROIBIÇÕES DA ORAÇÃOnas Escrituras, há poucas proibições referentes à ora-ção. Em Salmos 66.18, o salmista Davi escreveuestas palavras divinamente inspiradas: “Se eu nocoração contemplara a vaidade, o Senhor não me teria ou-vido”. O versículo no hebraico poderia ser traduzido: “Seeu tivesse iniquidade no meu coração, o Senhor não teriaouvido”.Em qualquer caso, Davi estava apresentando umacondição sob a qual sua oração não seria eficaz e não seriaouvida. A palavra hebraica traduzida por “contemplara” é
  77. 77. A Oração Muda as Coisas?84raah, que significa apenas “ver”. Em outras palavras, se euolho para minha vida e vejo pecado e o alimento, minhasorações são um exercício de futilidade.Isto significa que, se o pecado está presente em nos-sa vida, Deus recusa ouvir nossas orações? Não. Se fosseassim, toda oração seria fútil. Todavia, se nosso coraçãoestá endurecido em um espírito de impenitência, nossasorações não são apenas fúteis, mas também um escárniode Deus.No Salmo 66, Davi recordou a si mesmo que há umtempo em que a oração é um ato presunçoso, arrogante,detestável e odioso perpetrado contra o Todo-Poderoso.Este salmo se abre com 17 versículos de alegria e de lou-vor a Deus por suas realizações poderosas. De repente,aparece no versículo 18 o lembrete sombrio de como todaa história poderia ter sido diferente. Somos alertados daimportância de achegar-nos apropriadamente a Deus emoração. Se há algo pior do que não orar, é orar em umaatitude indigna.Outras passagens da Escritura refletem esta atitude.Salmos 109.7 sugere que a oração dos ímpios deve serconsiderada pecado. João 9.31 afirma especificamenteque o Senhor não ouve pecadores. Provérbios 15.29 diz:“O Senhor está longe dos perversos, mas atende à oração
  78. 78. As Proibições da Oração85dos justos”. Provérbios 28.9 diz que a oração do desobe-diente ou rebelde é “abominável” para o Senhor. É repul-siva ou detestável para ele.Por outro lado, Tiago nos diz que a oração do jus-to realiza muito (5.16). Mas não somos justos em nossavida diária. Sim, estamos vestidos da justiça de Cristo, porisso, no que diz respeito à nossa posição diante de Deus,somos justos. Todavia, a manifestação prática do que so-mos em Cristo é terrivelmente inadequada e incoerente.Às vezes, os teólogos definem um conceito por dize-rem o que algo não diz e o que ele realmente diz. O que osalmista não estava dizendo era que, se tivesse sido culpa-do de pecado, o Senhor não o teria ouvido. O salmista es-tava dizendo que, se tivesse pecado em seu coração, Deusnão o teria ouvido.Confissão é parte integrante da oraçãoDavi confessou frequentemente pecados nos salmos.Sabemos que ele não disse que, para orar, uma pessoa temde ser santa. Do contrário, ninguém oraria. De fato, serum pecador é um dos pré-requisitos para a entrada no rei-no de Deus. Jesus disse que não viera chamar justos, esim pecadores, ao arrependimento. Examinando de novo
  79. 79. A Oração Muda as Coisas?86a Oração do Pai Nosso como modelo, observamos queconfissão é uma parte integral da oração. Sem a confissãode pecado, 1 João 1.9 nos diz, não há perdão de pecado.Meu mentor, o Dr. John Gerstner, falou-me de umaocasião, em uma de suas reuniões, em que uma mulherlhe disse que ela não tinha pecado por mais de vinte anos.O Dr. Gerstner disse que sentia pesar por ela, porque issosignificava que ela não tinha orado por mais de vinte anos,pelo menos não da maneira como o Senhor nos ensinoua orar.Não estou sugerindo que, quanto mais pecamos,tanto mais qualificados estamos para a oração. Obvia-mente, isso seria uma conclusão falsa. Entretanto, con-fessar o pecado, pedir perdão por “nossas dívidas” ou“transgressões” é parte integral da prática da oração,como o próprio Senhor delineou. De fato, quanto maispiedosos somos, quanto mais nos esforçamos para serdedicados, tanto mais dolorosamente c nscios de nossopecado seremos. É como andar em direção a uma monta-nha. Quanto mais nos aproximamos da montanha, tan-to maior ela parece ser.Pense no conto de fadas “A Princesa e a Ervilha”.A princesa esteve fora por um tempo, e alguns tentaramreivindicar o trono. Para provar a verdadeira realeza, um
  80. 80. As Proibições da Oração87esquema foi elaborado. Vários colchões foram empilha-dos um sobre o outro, com uma pequena ervilha escondi-da sob a pilha de colchões. Nenhuma das falsas princesastinha noção de que algo estava lá, mas a verdadeira prin-cesa não p de dormir por causa do extremo desconfortocausado pela ervilha. Ela foi extraordinariamente sensívelà presença da pequena ervilha.A lição para os cristãos deve ser clara. Quando temosesse tipo de sensibilidade ao pecado, temos sensibilidadereal. Quanto mais próximos estivermos de Deus, tantomais o menor pecado causará em nós profunda tristeza.Podemos ter certeza de que ser culpado de pecadonão nos desqualifica do privilégio de entrar na presençade Deus. O salmista não estava falando sobre cometer pe-cado, e sim tolerar o pecado. Os puritanos falaram sobreeste conceito de tolerar o pecado. Precisamos olhar nãotanto para a vitória sobre o pecado, e sim para a própria ba-talha. Estamos numa batalha constante contra o pecado, enunca saímos ilesos.Uma das marcas de um verdadeiro cristão é que elenunca para de lutar. Ele não vence sempre, ainda que ven-cerá a batalha final por causa de Cristo. Se alguém desisteda luta, ele aceita verdadeiramente o mal, tornando-o legí-timo. Em resumo, ele ignora o mal e o permite.
  81. 81. A Oração Muda as Coisas?88Em um sermão sobre a primeira das bem-aventuran-ças, “Bem-aventurados os humildes de espírito”, o grandepregador inglês Charles Haddon Spurgeon disse que “opecador orgulhoso quer Cristo e suas festas, Cristo e suasconcupiscências, Cristo e sua própria obstinação. Aqueleque é verdadeiramente humilde de espírito quer somentea Cristo, e fará qualquer coisa, e dará qualquer coisa paratê-lo”. Isto é o que o Salmo 66 está sugerindo. A própriaideia de uma pessoa tentar orar enquanto nutre algum pe-cado, enquanto se apega ao pecado que ele não está dis-posto a render ao senhorio de Cristo, lança dúvidas sobrea validade da filiação dessa pessoa.Não permitindo obstáculosAs Escrituras citam outras aplicações práticas desteconceito. Em 1 Pedro 3.7, lemos: “Maridos, vós, igual-mente, vivei a vida comum do lar, com discernimento;e, tendo consideração para com a vossa mulher comoparte mais frágil, tratai-a com dignidade, porque sois,juntamente, herdeiros da mesma graça de vida, para quenão se interrompam as vossas orações”. A palavra gregatraduzida por “se interrompam” é ekkepto, que significa,literalmente, “cortar”. Se não tratamos da discórdia no re-
  82. 82. As Proibições da Oração89lacionamento conjugal, as orações são cortadas. Isto ecoaa advertência inicial do Salmo 66.Um segundo exemplo se acha em Mateus 5.23-24:“Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembraresde que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa peran-te o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teuirmão; e, então, voltando, faze a tua oferta”. Nesta pas-sagem, Jesus está dizendo que, se há conflitos não resol-vidos em nossa vida, nossa adoração está maculada. Eleestá estabelecendo prioridades. Primeiro, devemos cuidardaquelas coisas que exigem atenção; depois, podemos ofe-recer nossa adoração. Embora a passagem não fale espe-cificamente de oração, o princípio de acertar as coisas éconstante.Quando fazemos pedidos a Deus com pecado nãoconfessado – e não purificado – em nosso coração, somoscomo o universitário irado que confrontou seu professorsobre uma nota baixa. O professor ouviu educadamente asfrustrações do aluno, mas comentou que, em sua estimativaprofissional honesta, o aluno recebera a nota que merecia.O aluno argumentou que não somente ele, mas também vá-rios outros na classe, sentiram que a nota fora injusta.O professor, com curiosidade compreensível, per-guntou o que eles achavam deveria ser feito. O aluno ex-
  83. 83. A Oração Muda as Coisas?90plicou: “Eles decidiram que devem atirar em você. Mas háum pequeno problema: nenhum deles tem um revólver”. Oprofessor suspirou de alívio e expressou seu mais profundosentimento de tristeza pela “triste condição” destes alunos.“Mas você tem um revólver”, o jovem disse. Este aluno tevea ousadia de perguntar ao gentil professor se ele não em-prestaria seu revólver para que os alunos atirassem nele.De maneira semelhantemente audaciosa, se vemos ainiquidade em nossa vida e a abrigamos no coração quandooramos, estamos pedindo a Deus a força de que precisamospara amaldiçoá-lo. Estamos pedindo a Deus mais forçaspara desobedecê-lo ainda mais. Assim como o professornão estava disposto a emprestar seu revólver para aquelesque desejavam matá-lo, Deus não está disposto a honrarnossos pedidos resultantes de corações pecaminosos.
  84. 84. capítulo seisO Poder da Oraçãosomos motivados pela litania da fé que achamos emHebreus 11. Ali temos a “Lista de Chamada da Fé”,que cataloga os atos heroicos de homens e mulheresbíblicos de fé. Seus atos são resumidos parcialmente nosversículos 33 e 34: “Os quais, por meio da fé, subjuga-ram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas,fecharam a boca de leões, extinguiram a violência do fogo,escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fi-zeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitosde estrangeiros”.

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