Miguel Torga  :  poeta da Terra, de Deus e do Homem
Uma literatura que produz no mesmo século dois vultos do calibre de Pessoa e Torga,  pode considerar-se uma literatura de ...
Miguel Torga  (Adolfo Correia Rocha)  nasceu em S. Martinho de Anta a 12.08.1907 e  morreu em Coimbra a 17.01.1995. Depois...
Em 1929, com 22 anos,  inicia a sua colaboração na revista  Presença ,  folha de arte e crítica ,  com o poema  “ Altitude...
Com Branquinho da Fonseca fundaria a revista  Sinal que saiu em Julho de 1930
1931  - Pão Ázimo .  1931  - Criação do Mundo .  1934  - A Terceira Voz .  1937  - Os Dois Primeiros Dias .  1938  - O Ter...
                                                            1928  - Ansiedade .  1930  - Rampa .  1931  - Tributo .  1932 ...
Peças de Teatro        1941  - "Terra Firme" e "Mar" .  1947  - Sinfonia .  1949  - O Paraíso .  1950 ...
Prémios        1969 - Prémio do Diário de Notícias.  1976 - Prémio Internacional de Poesia de Knokke-Heist.  1980 - Prémio...
A origem do pseudónimo <ul><li>Em 1934 , aos 27 anos  Adolfo Correia da Rocha  autodefine-se pelo  pseudónimo  que se crio...
Tal escolha indicia já , nas palavras de  José Bernardes [1] ,  a opção por « um programa ético  e estético centrado no co...
Como escreve  David Mourão-Ferreira [1 ] , « a sua posição , nas nossas letras, continua a ser a  de um grande isolado  – ...
Linhas temáticas na poesia de Torga <ul><li>   a problemática religiosa </li></ul><ul><li>   desespero humanista  </li><...
   Problemática religiosa <ul><li>   Recusa do Deus castigador, terrível, intolerante  da religião judaico-cristã: </li>...
«Pão Ázimo» ( Rampa, 1930) <ul><li>«Sim…Perdão…Sim…Mas não posso: Murmuro o Padre Nosso  </li></ul><ul><li>E tenho medo e ...
   Sendo um  permanente lutador pela liberdade humana ,  Torga não podia aceitar as imposições prepotentes das convenções...
«Prece»[1]:exprime a  relação conflituosa que  Torga  mantém com Deus <ul><li>«Senhor, deito-me na cama </li></ul><ul><li>...
<ul><li>Para Miguel Torga,  nenhum deus é digno de louvor: tudo lhe é fácil e possível ;  </li></ul><ul><li>contudo,  o ho...
<ul><li>« Hinos aos deuses, não </li></ul><ul><li>os homens é que merecem </li></ul><ul><li>que se lhes cante a virtude </...
<ul><li>«Não tenho mais palavras.  </li></ul><ul><li>Gastei-as a negar-te…  </li></ul><ul><li>(Só a negar-te eu pude comba...
● Em síntese, podemos pois considerar a existência de  três atitudes  fundamentais de Torga face a Deus:  conflito pessoal...
   Desespero Humanista « O homem  continua a ser a minha  grande aposta.  Sem acreditar nele, como poderia acreditar em m...
<ul><li>   Torga projecta , na sua escrita,  as suas preocupações com o ser humano, as suas limitações e as suas necessid...
   Crítica aos tempos que correm <ul><li>[1]  Cf.  Poesia completa , p 461 </li></ul><ul><li>[2]  Cf.  Poesia completa : ...
«Liberdade»[1] <ul><li>- Liberdade, que estais no céu… </li></ul><ul><li>Rezava o pai nosso que sabia, </li></ul><ul><li>A...
<ul><li>   O poeta invoca com ternura o povo, especialmente o das aldeias que na sua pobreza isolada permanece o guardião...
<ul><li>   Desespero </li></ul><ul><li>«Prece»[1] </li></ul><ul><li>«Esperança» [2] </li></ul><ul><li>« Senhor, acaba com...
<ul><li>«Lavoura» </li></ul><ul><li>«Situação» </li></ul><ul><li>« Brota de mim a angústia, como um joio </li></ul><ul><li...
<ul><li>«Dies Irae »: </li></ul><ul><li>É em «Dies Irae [1] » de  Cântico do Homem  que o desespero mais claramente se man...
   Esperança <ul><li>«Inventário»[1] </li></ul><ul><li>«O Lázaro»[2] </li></ul><ul><li>«  Não! Não me queiram na cova que...
<ul><li>«Exortação»[ 1] </li></ul><ul><li>«Ficam as sombras»[2] </li></ul><ul><li>« Meu irmão na distância, homem </li></u...
<ul><li>«Ave da esperança»[1] </li></ul><ul><li>« Sou a ave da esperança (…) </li></ul><ul><li>pássaro triste que na luz d...
<ul><li>   Daí poemas de intervenção  como « Monólogo [1] » em que o poeta  professa o seu credo: « Creio na perfeição, c...
<ul><li>   A dualidade do ser humano : </li></ul><ul><li> Miguel Torga  sofre ainda com a perspectiva da Morte.  </li></...
 Mito de Orfeu <ul><li>Torga compara a descida de Orfeu aos Infernos para ir buscar Eurídice, com a descida que o próprio...
<ul><li>   Em síntese, e como sublinha Cabrita [1] , a  obra  de Torga  é a expressão de um  humanismo reivindicador, dur...
   Telurismo <ul><li>«Cuido que as coisas mais válidas que escrevi, sabem à terra nativa que trago agarrada aos pés».  «(...
 Mito de Anteu <ul><li>Tal  como Anteu retemperava  as suas forças em Geia,  é na terra e, em particular, em Trás-os–Mont...
« Anda a terra no cio: /Chegou a lua. / E é como um falus de aço macio/ A ponta aguda da charrua. //  Com a certeza de pro...
<ul><li>   Tom nostálgico do regresso à terra natal, S. Martinho de Anta  : </li></ul><ul><li>   Amor por Portugal e pel...
<ul><li>   Em conclusão,  o telurismo de Torga , « filho, neto, bisneto e tetraneto de obscuros cavadores, carroceiros e ...
   o drama da criação poética : Torga ou o poeta «cavador de ideias» <ul><li>« De  quantos ofícios há no mundo, o mais be...
   Aproveitamento do Mito de Orfeu: «Das tuas mãos divinas de Poeta  Herdei a lira que não sei tanger; Por eleição ou mal...
   A tónica do desencanto <ul><li>Desço aos Infernos, a descer em mim. </li></ul><ul><li>Mas agora o meu canto não perfur...
<ul><li>   Comparação do trabalho poético ao do cavador: </li></ul><ul><li>Em «Comunhão [1] » declara: « Tal como o campo...
<ul><li>   Missão do poeta:  </li></ul><ul><li>« Cada vez deseja ter / Mais força de inspiração, /Mais poder de encantaçã...
<ul><li>   Incapacidade de exprimir  totalmente  aquilo que  verdadeiramente  sente  e que lhe provoca um  sofrimento inc...
   Mito de Sísifo <ul><li>O SEU TRABALHO É, POIS, O DE UM SÍSIFO, PELO QUE O POETA RECUPERA O MITO DO REI DE CORINTO </li...
<ul><li>Em conclusão, o poeta  define-se como alguém que quanto mais diz, maior é o muro de silêncio que tem de transpor ....
 Conclusão Telurismo (Mito de Anteu) Desespero humanista (mito de Orfeu) Problemática religiosa Drama da criação  poética...
<ul><li>   Se muitos dos textos de Torga nos remetem narcisicamente para o próprio sujeito, a presença dos outros é, cont...
<ul><li>   Torga é simultaneamente o poeta da angústia e da esperança :  angústia provocada pela ausência de absoluto, au...
<ul><ul><ul><ul><ul><li>Fim   </li></ul></ul></ul></ul></ul>
 
<ul><li>Bibliografia  </li></ul><ul><li>AUGUSTO, Armindo (1997)  Miguel Torga – o drama de existir , 2ª edição, Chaves: Ed...
<ul><li>Sitografia </li></ul><ul><li>BERNARDES, José Augusto Cardoso (s.d.) «Miguel Torga – figuras da cultura portuguesa»...
Trabalho de pesquisa apresentado à  Unidade Curricular de Técnicas de Análise Textual (TAT), ministrada no Instituto Super...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Miguel torga: Vida e Obra

21.490 visualizações

Publicada em

Trabalho de pesquisa sobre Miguel Torga: Vida e Obra, apresentado à unidade Curricular de TAT, ministrada no Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração (ISCIA), de Aveiro. Autores: Paulo Marques e Pedro Ribeiro

Publicada em: Educação
3 comentários
11 gostaram
Estatísticas
Notas
Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
21.490
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
375
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
0
Comentários
3
Gostaram
11
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Miguel torga: Vida e Obra

  1. 1. Miguel Torga : poeta da Terra, de Deus e do Homem
  2. 2. Uma literatura que produz no mesmo século dois vultos do calibre de Pessoa e Torga, pode considerar-se uma literatura de excelente saúde . Torrente Ballester In Entrevista a Miguel Viqueira em 1986
  3. 3. Miguel Torga (Adolfo Correia Rocha) nasceu em S. Martinho de Anta a 12.08.1907 e morreu em Coimbra a 17.01.1995. Depois de concluída a instrução primária na terra natal , foi servir para uma casa no Porto . Ainda frequentou o seminário de Lamego durante dois anos. Foi, depois, enviado para o Brasil , para a fazenda de um tio, que, mais tarde, lhe custearia os estudos em Coimbra. Nesta cidade, formar-se-ia em medicina em 1933.
  4. 4. Em 1929, com 22 anos, inicia a sua colaboração na revista Presença , folha de arte e crítica , com o poema “ Altitudes…”. A revista , fundada em 1927 pelo grupo literário de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca , era bandeira literária do grupo modernista . Em 1930 rompe definitivamente com a revista Presença , por razões de discordância estética e de liberdade humana .
  5. 5. Com Branquinho da Fonseca fundaria a revista Sinal que saiu em Julho de 1930
  6. 6. 1931 - Pão Ázimo . 1931 - Criação do Mundo . 1934 - A Terceira Voz . 1937 - Os Dois Primeiros Dias . 1938 - O Terceiro Dia da Criação do Mundo . 1939 - O Quarto Dia da Criação do Mundo . 1940 - Bichos . 1941 - Contos da Montanha . 1942 - Rua . 1943 - O Senhor Ventura . 1944 - Novos Contos da Montanha . 1945 - Vindima . 1951 - Pedras Lavradas 1974 - O Quinto Dia da Criação do Mundo . 1976 - Fogo Preso . 1981 - O Sexto Dia da Criação do Mundo . 1982 - Fábula de Fábulas . Ficção        
  7. 7.                                                           1928 - Ansiedade . 1930 - Rampa . 1931 - Tributo . 1932 - Abismo . 1936 - O Outro Livro de Job . 1943 - Lamentação . 1944 - Libertação . 1946 - Odes . 1948 - Nihil Sibi . 1950 - Cântico do Homem . 1952 - Alguns Poemas Ibéricos . 1954 - Penas do Purgatório . 1958 - Orfeu Rebelde . 1962 - Câmara Ardente . 1965 - Poemas Ibéricos . Poesia        
  8. 8. Peças de Teatro        1941 - &quot;Terra Firme&quot; e &quot;Mar&quot; . 1947 - Sinfonia . 1949 - O Paraíso . 1950 - Portugal . 1955 - Traço de União .
  9. 9. Prémios        1969 - Prémio do Diário de Notícias. 1976 - Prémio Internacional de Poesia de Knokke-Heist. 1980 - Prémio Morgado de Mateus, ex-aecquo com Carlos Drummond de Andrade. 1981 - Prémio Montaigne da Fundação Alemã F.V.S. 1989 - Oficial da Ordem das Artes e Letras da República Francesa . 1989 - Prémio Camões. 1991 - Prémio Personalidade do Ano. 1992 - Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores. 1993 - Prémio da Crítica, consagrando a sua obra .
  10. 10. A origem do pseudónimo <ul><li>Em 1934 , aos 27 anos Adolfo Correia da Rocha autodefine-se pelo pseudónimo que se criou «Miguel Torga». </li></ul><ul><li>Miguel em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno ); nome de artista visionário e genial ( Miguel Ângelo ) e de Arcanjo.. </li></ul><ul><li>Já Torga é um fitónimo que designa uma planta brava da montanha , que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeda ou cor de vinho. </li></ul><ul><li>A sua campa em São Martinho de Anta tem uma torga. </li></ul>
  11. 11. Tal escolha indicia já , nas palavras de José Bernardes [1] , a opção por « um programa ético e estético centrado no confessionalismo e na busca de autenticidade ». Como sublinha Eduardo Lourenço [2 ] , o pseudónimo escolhido é « na sua origem e na sua intenção um baptismo à maneira bíblica onde se inscreve de antemão um destino a cumprir ». ______________________ [1] BERNARDES, José (s.d.) [2] LOURENÇO, Eduardo (1994)“Um nome para uma obra” in Aqui, Neste Lugar e Nesta Hora. Actas do Primeiro Congresso Internacional Sobre Miguel Torga , Porto, Universidade Fernando Pessoa,1994, pp. 278-284.
  12. 12. Como escreve David Mourão-Ferreira [1 ] , « a sua posição , nas nossas letras, continua a ser a de um grande isolado – que, no entanto (ou por isso mesmo) consubstancia e representa , ora de forma mais directa ora através de inevitáveis símbolos, quanto existe de viril, de vertical, de insubornável, no homem português contemporâneo .» O próprio poeta assume que lhe calhou em sorte « ser o mau da peça, o inconformado, o frontal, o desmancha-prazeres [2] » [1] MOURÃO-FERREIRA, 1978 : 1093 [2] Diário XIV
  13. 13. Linhas temáticas na poesia de Torga <ul><li> a problemática religiosa </li></ul><ul><li> desespero humanista </li></ul><ul><li> o sentimento telúrico </li></ul><ul><li> o drama da criação poética </li></ul>
  14. 14.  Problemática religiosa <ul><li> Recusa do Deus castigador, terrível, intolerante da religião judaico-cristã: </li></ul>« Não, / Senhor dum sonho exausto! / Deus, se viesse, /Seria a claridade/Do amanhecer, /Nunca este breu de morte/ Que tu és, / Terrífica presença, / medieva e soturna encarnação ! / Perto do sol a luz é mais intensa, / Corpo de trevas sem ressurreição, / Noite nua suspensa! » «A um Cristo Negro» ( poesia completa : 515)
  15. 15. «Pão Ázimo» ( Rampa, 1930) <ul><li>«Sim…Perdão…Sim…Mas não posso: Murmuro o Padre Nosso </li></ul><ul><li>E tenho medo e vergonha!... </li></ul><ul><li>Sim…Perdão, Padre…Perdão… </li></ul><ul><li>É pecado!...» </li></ul><ul><li>Pedir!...Pedir o meu Pão!... </li></ul><ul><li>Uma boca não pede o que lhe é dado! </li></ul><ul><li>Sim! …Prometo e Comprometo </li></ul><ul><li>A minha Fé!... </li></ul><ul><li>Mas, ó Padre, quem É…?! </li></ul><ul><li>Ah! Não…Não, Padre…Perdão… </li></ul><ul><li>- «E vem a morte…» Pois vem… </li></ul><ul><li>- «E o inferno…» Também… </li></ul><ul><li>- «Vai pedir o perdão a tua Mãe, </li></ul><ul><li>A teu Pai…» </li></ul><ul><li>«Vai…» </li></ul><ul><li>Ninguém me perdoou, Padre, ninguém!... </li></ul><ul><li>Nem meu Pai, nem minha mãe!... </li></ul><ul><li>Dizem no mesmo tom </li></ul><ul><li>Que nem sou mau nem bom!... </li></ul><ul><li>Não me aceitam disforme, </li></ul><ul><li>Mas conforme!... </li></ul><ul><li>-«Pecador! Faz penitência…» </li></ul><ul><li>Já fiz sangue nos joelhos!... </li></ul><ul><li>-«Faz penitência…» </li></ul><ul><li>Já tenho os olhos vermelhos!... </li></ul><ul><li>Já dei murros nos ouvidos!... </li></ul><ul><li>Já matei os sentidos!... </li></ul><ul><li>-«Faz penitência…» </li></ul><ul><li>Perdão, Padre! Perdão!... </li></ul><ul><li>Mas não!... </li></ul><ul><li>Já fiz tudo o que podia!... </li></ul><ul><li>-«Tem paciência!... </li></ul><ul><li>Faz penitência </li></ul><ul><li>Mais um dia…» </li></ul>
  16. 16.  Sendo um permanente lutador pela liberdade humana , Torga não podia aceitar as imposições prepotentes das convenções católicas. Não nega a existência de Deus, mas , como o próprio afirma, corre o risco de o recusar, substituindo-o , com frequência pela religião da Terra, princípio de coerência e de ordem da vida.  Há na sua obra, um permanente confronto entre o Além e o Aqui, um permanente desejo de conciliar Sagrado e Profano, humanizando Deus e mitificando o Homem e a vida.
  17. 17. «Prece»[1]:exprime a relação conflituosa que Torga mantém com Deus <ul><li>«Senhor, deito-me na cama </li></ul><ul><li>Coberto de sofrimento; </li></ul><ul><li>E a todo o comprimento </li></ul><ul><li>Sou sete palmos de lama: </li></ul><ul><li>Sete palmos de excremento </li></ul><ul><li>Da terra-mãe que me chama. </li></ul><ul><li>Senhor, ergo-me do fim </li></ul><ul><li>Desta minha condição : </li></ul><ul><li>Onde era sim, digo não, </li></ul><ul><li>Onde era não, digo sim; </li></ul><ul><li>Mas não calo a voz do chão </li></ul><ul><li>Que grita dentro de mim. </li></ul><ul><li>Senhor, acaba comigo </li></ul><ul><li>Antes do dia marcado; </li></ul><ul><li>Um golpe bem acertado, </li></ul><ul><li>O tiro dum inimigo… </li></ul><ul><li>Qualquer pretexto tirado </li></ul><ul><li>Dos sarcasmos que te digo.» </li></ul>Cf. Poesia completa:101
  18. 18. <ul><li>Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: tudo lhe é fácil e possível ; </li></ul><ul><li>contudo, o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, </li></ul><ul><li>à desgraça e à morte é também capaz de criar , e é sobretudo capaz de se impor à </li></ul><ul><li>Natureza, como os trabalhadores rurais trasmontanos impuseram a sua vontade </li></ul><ul><li>de semear a terra aos penedos bravios das serras </li></ul>
  19. 19. <ul><li>« Hinos aos deuses, não </li></ul><ul><li>os homens é que merecem </li></ul><ul><li>que se lhes cante a virtude </li></ul><ul><li>bichos que cavam no chão </li></ul><ul><li>actuam como parecem </li></ul><ul><li>sem um disfarce que os mude . </li></ul><ul><li>Apenas se os deuses querem </li></ul><ul><li>Ser homens, nós os cantemos. </li></ul><ul><li>E à soga do meu carro, </li></ul><ul><li>Com os aguilhões que nos ferem, Nós também lhes demonstremos </li></ul><ul><li>Que são mortais e de barro .» </li></ul><ul><ul><li>«Cântico da Humanidade» poesia completa : 316 </li></ul></ul><ul><li>Para Torga só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração </li></ul>
  20. 20. <ul><li>«Não tenho mais palavras. </li></ul><ul><li>Gastei-as a negar-te… </li></ul><ul><li>(Só a negar-te eu pude combater </li></ul><ul><li>O terror de te ver/ em toda a parte)». </li></ul><ul><li>Fosse qual fosse o chão da caminhada, </li></ul><ul><li>Era certa a meu lado </li></ul><ul><li>A divina presença impertinente </li></ul><ul><li>Do teu vulto calado </li></ul><ul><li>E paciente… </li></ul><ul><li>E lutei, como luta um solitário </li></ul><ul><li>Quando alguém lhe perturba a solidão. </li></ul><ul><li>Fechado num ouriço de recusas, </li></ul><ul><li>Soltei a voz, arma que tu não usas, </li></ul><ul><li>Sempre silencioso na agressão. </li></ul><ul><li>«Mas o tempo moeu na sua mó </li></ul><ul><li>O joio amargo do que te dizia… </li></ul><ul><li>Agora somos dois obstinados, </li></ul><ul><li>Mudos e malogrados, </li></ul><ul><li>Que apenas vão a par na teimosia.» </li></ul>[1]Cf. Poesia completa:636 «Desfecho» [1]( Câmara Ardente ) O que perturba Torga é o facto de não existir um Deus humano e iminente que se possa sentir e ter, que responda às muitas questões do Homem
  21. 21. ● Em síntese, podemos pois considerar a existência de três atitudes fundamentais de Torga face a Deus: conflito pessoal, desafio e acusação a um Deus mudo e ausente.  No fundo, o que o poeta recusa é a perversão dos princípios básicos do Cristianismo pela Civilização que instaurou ritos, crenças e representações, criando a imagem de um Deus-pai terrível, distribuidor de aniquilação e de morte, o que levou Torga a uma disjunção inultrapassável: Ou Deus ou nós [1] ». [1] Fernão Gonçalves, 1995:57
  22. 22.  Desespero Humanista « O homem continua a ser a minha grande aposta. Sem acreditar nele, como poderia acreditar em mim?» Torga, Diário, Lisboa, 23/11/1982
  23. 23. <ul><li> Torga projecta , na sua escrita, as suas preocupações com o ser humano, as suas limitações e as suas necessidades de transcendência , evidenciando um certo sofrimento magoado, um desassossego, que tanto lhe permite a esperança, como o conduz ao desespero. </li></ul><ul><li> O poeta procura o verdadeiro sentido da existência humana , que não consegue atingir na sua plenitude, o que lhe traz, uma certa, angústia. O desespero humanista apresenta-se, assim, ora sob a forma de protesto, ora de revolta, ora ainda de inconformismo. </li></ul>
  24. 24.  Crítica aos tempos que correm <ul><li>[1] Cf. Poesia completa , p 461 </li></ul><ul><li>[2] Cf. Poesia completa : 360 </li></ul><ul><li>[3] Cf . Poesia completa: 377 </li></ul><ul><li>No poema «Memorando [1 ] » </li></ul><ul><li>numa longa estrofe única </li></ul><ul><li>dirige-se ao Senhor </li></ul><ul><li>para criticar os tempos que </li></ul><ul><li>correm: </li></ul><ul><li>« Se o meu tempo é de campos de concentração/ De bombas de hidrogénio e de maldição,/E de cruéis tiranos/ Com pêlos nos ouvidos e no coração , /Que ando eu a fazer aqui, /Funâmbulo de angústia/ Com miragens de esperança? » </li></ul>O desejo de liberdade ganha vida em « Ar livre [2 ] » : « Ar livre, que não respiro!/ Ou são pela asfixia?/ miséria de cobardia/ Que não arromba a janela/ Da sala onde a fantasia/ Estiola e fica amarela! (…) / Antes o caos que a morte! » O mesmo sentimento subjaz, aliás, a «Conquista [3 ] » : « Livre não sou, que nem a própria vida/ Mo consente/ Mas a minha aguerrida /teimosia /É quebrar dia a dia / um grilhão da corrente. // Livre não sou, mas quero a liberdade . / Trago-a dentro de mim como um destino. / E vão lá desdizer o sonho do menino / Que se afogou, e flutua /Entre nenúfares de serenidade/Depois de ter a lua. ».
  25. 25. «Liberdade»[1] <ul><li>- Liberdade, que estais no céu… </li></ul><ul><li>Rezava o pai nosso que sabia, </li></ul><ul><li>A pedir-te, humildemente, </li></ul><ul><li>O pão de cada dia. </li></ul><ul><li>Mas a tua bondade omnipotente </li></ul><ul><li>Nem me ouvia. </li></ul><ul><li>-Liberdade, que estais na terra… </li></ul><ul><li>E a minha voz crescia </li></ul><ul><li>De emoção. </li></ul><ul><li>Mas um silêncio triste sepultava </li></ul><ul><li>A fé que ressumava </li></ul><ul><li>Da oração. </li></ul><ul><li>Até que um dia corajosamente, </li></ul><ul><li>Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, </li></ul><ul><li>Saborear enfim, </li></ul><ul><li>O pão da minha fome. </li></ul><ul><li>-Liberdade, que estais em mim, </li></ul><ul><li>Santificado seja o vosso nome. </li></ul>[1]Cf Poesia completa : 819
  26. 26. <ul><li> O poeta invoca com ternura o povo, especialmente o das aldeias que na sua pobreza isolada permanece o guardião da pura fidelidade às raízes da Vida : </li></ul><ul><li>« Minha terra, / meu povo, / Que sempre vos amei, / Que sempre vos cantei, / E que nunca jurei/ o vosso nome em vão.» declara em «Rebate» [1] </li></ul><ul><li> [1] Cf. Poesia completa , p 828 </li></ul>
  27. 27. <ul><li> Desespero </li></ul><ul><li>«Prece»[1] </li></ul><ul><li>«Esperança» [2] </li></ul><ul><li>« Senhor, acaba comigo/ </li></ul><ul><li>Antes do dia marcado ». </li></ul>« Tantas formas reveste, e nenhuma/ Me satisfaz!/ Vens às vezes no amor, e quase te acredito. / Mas todo o amor é um grito / Desesperado / Que ouve apenas o eco… / Peco / Por absurdo humano: / Quero não sei que cálice profano / Cheio de um vinho herético e sagrado» [1]Cf. Poesia completa: 101 [2] cf. Poesia completa:483
  28. 28. <ul><li>«Lavoura» </li></ul><ul><li>«Situação» </li></ul><ul><li>« Brota de mim a angústia, como um joio </li></ul><ul><li>Imortal </li></ul><ul><li>Terra de Paraíso, / mal posso conceber tantas raízes/ </li></ul><ul><li>Daninhas! » </li></ul><ul><li>« Não há refúgio, e o terror aumenta. </li></ul><ul><li>É tal e qual o drama aqui na sala: </li></ul><ul><li>A luz da tarde em agonia lenta </li></ul><ul><li>E a maciça negrura a devorá-la// </li></ul><ul><li>Dor deste tempo atroz, sem refrigério, </li></ul><ul><li>Eis os degraus do inferno que nos restam: / </li></ul><ul><li>Morrer e apodrecer no cemitério </li></ul><ul><li>onde fantasmas como eu protestam. </li></ul>[1]Cf. Poesia completa: 488 [2] cf. Poesia completa:496
  29. 29. <ul><li>«Dies Irae »: </li></ul><ul><li>É em «Dies Irae [1] » de Cântico do Homem que o desespero mais claramente se manifesta. </li></ul><ul><li>Apetece cantar, mas ninguém canta. Apetece chorar, mas ninguém chora. Um fantasma levanta </li></ul><ul><li> A mão do medo sobre a nossa hora.// </li></ul><ul><li>Apetece matar, mas ninguém mata. </li></ul><ul><li>Apetece fugir, mas ninguém foge. </li></ul><ul><li>Um fantasma limita </li></ul><ul><li>Todo o futuro a este dia de hoje.// </li></ul><ul><li>Apetece morrer, mas ninguém morre. Apetece matar, mas ninguém mata. </li></ul><ul><li>Um fantasma percorre </li></ul><ul><li>Os motins onde a alma se arrebata.» </li></ul><ul><li>« Oh! Maldição do tempo em que vivemos,/ Sepultura de grades cinzeladas / Que deixam ver a vida que não temos / E as angústias paradas!» </li></ul>Cf. Poesia completa: 372
  30. 30.  Esperança <ul><li>«Inventário»[1] </li></ul><ul><li>«O Lázaro»[2] </li></ul><ul><li>« Não! Não me queiram na cova que não tenho,/ </li></ul><ul><li>Porque eu vivo, e respiro, e acredito!/ </li></ul><ul><li>Sou eu que canto ainda e que palpito/ </li></ul><ul><li>No meu canto!/ Sou eu que na pureza do meu grito/ </li></ul><ul><li>Me levanto! ». </li></ul>« Sou eu, nado e criado para amar, / e que não sei amar! (…)/ que vi Deus e nunca acreditei/ (…)// Sou eu, que há vinte e sete anos/ vivo sem Anjo da Guarda/ Sou eu , que ou tudo ou nada, ou vida ou morte,/ E acerto sempre na Morte// Sou eu – e mostro-me todo!/ Quem puder arranque os olhos/ e venha cheio de fé/ ver o Lázaro real/ que não vem nos evangelhos, mas é!... » [1] Cf. Poesia completa: 357-358 [2] Cf. Poesia completa:69
  31. 31. <ul><li>«Exortação»[ 1] </li></ul><ul><li>«Ficam as sombras»[2] </li></ul><ul><li>« Meu irmão na distância, homem </li></ul><ul><li>Que nesta mesma cama hás-de sofrer:/ </li></ul><ul><li>Que nem a terra nem o céu te domem; </li></ul><ul><li>nenhuma dor te impeça de viver !». </li></ul><ul><li>« Não, Não podeis levar tudo .» </li></ul><ul><li>(…) « Depois do corpo, /E da alma,/ E do nome,/ </li></ul><ul><li>E da terra da própria sepultura,/ </li></ul><ul><li>(..) Fica a memória de uma criatura/ Que viveu,/ </li></ul><ul><li>E sofreu,/E amou,/ E cantou,/ » </li></ul><ul><li>(..) «E nunca se dobrou/ </li></ul><ul><li>à dura tirania que a venceu. » </li></ul>[1] Cf. Poesia completa:116 [2] Cf. Poesia completa:369
  32. 32. <ul><li>«Ave da esperança»[1] </li></ul><ul><li>« Sou a ave da esperança (…) </li></ul><ul><li>pássaro triste que na luz do sol </li></ul><ul><li>Aquece as alegrias do futuro,» (…) </li></ul><ul><li>O tempo há-de vir sem este muro </li></ul><ul><li>De silêncio e negrura (…) tempo que ninguém há-de Corromper». </li></ul>[1] Cf. Poesia completa:480
  33. 33. <ul><li> Daí poemas de intervenção como « Monólogo [1] » em que o poeta professa o seu credo: « Creio na perfeição, creio nos homens ! / Um novo dia, que oportunidade! / o próprio tempo volta à mocidade/Em cada primavera… » </li></ul><ul><li>Reiterado em «Posição [2 ] » « Faço o que posso , e posso combater. / Um verso que resiste é um bom soldado. /Quando a noite é maior, o céu deixa-se ver/à pequenina luz de um pirilampo alado.//(…) //Sozinho na trincheira, vou cantando,/ E o inimigo ouve-me de lá…/Ouve, e não sabe quando/ O poder do meu fogo acabará.» . </li></ul><ul><li>[1] Cf. Poesia completa , p 493 </li></ul><ul><li>[2] Cf. Poesia completa , p 488 </li></ul>
  34. 34. <ul><li> A dualidade do ser humano : </li></ul><ul><li> Miguel Torga sofre ainda com a perspectiva da Morte. </li></ul><ul><li>Mas não se limita a sofrê-la passivamente. Ele desafia-a e vence-a através da sua poesia. Daí a necessidade de criar uma poesia atemporal que o possa fazer sobreviver após a sua morte física. Para tal recorre à criação de uma poesia de « ferro e cimento [1] », granítica, angulosa e de um rigor metaforicamente semelhante ao das penedias de S. Martinho de Anta. </li></ul><ul><li>[1] Cf poema «Identidade» in Poesia completa , p 494 </li></ul><ul><li>« Dois homens num só rosto! / </li></ul><ul><li>Uma espécie de Jano sobreposto, Inocente, </li></ul><ul><li>/Impotente/ E condenado/ A este assombro de se ver forrado/ </li></ul><ul><li>dum pano de negrura que desmente / </li></ul><ul><li>A nua claridade do outro lado. » </li></ul><ul><li>«Câmara Escura [1] » </li></ul>
  35. 35.  Mito de Orfeu <ul><li>Torga compara a descida de Orfeu aos Infernos para ir buscar Eurídice, com a descida que o próprio faz ao mais fundo do seu ser, onde enfrenta o medo, a vergonha, o assombro. </li></ul><ul><li>Em « Orfeu rebelde » [1] , por exemplo, o poeta exprime a revolta não pela perda da amada, mas contra a morte, a passagem inexorável do tempo. : « Orfeu rebelde, canto como sou: / Canto como um possesso / Que na casca do tempo, a canivete, / Gravasse a fúria de cada momento; / Canto, a ver se o meu canto compromete / A eternidade do meu sofrimento. // Outros felizes, sejam rouxinóis… / Eu ergo a voz assim, num desafio: / Que o céu e a terra, pedras conjugadas / Do moinho cruel que me tritura, / Saibam que há gritos como há nortadas, / Violências famintas de ternura // Bicho instintivo que adivinha a morte / No corpo dum poeta que a recusa, / Canto como quem usa / Os versos em legítima defesa. / Canto, sem perguntar à Musa / Se o canto é de terror ou de beleza </li></ul><ul><li>[1] Cf. Poesia completa , p 540 </li></ul>
  36. 36. <ul><li> Em síntese, e como sublinha Cabrita [1] , a obra de Torga é a expressão de um humanismo reivindicador, duro, fustigando as misérias humanas e o empobrecimento da vida de que o homem é culpado, exaltando a terra, numa profunda consciência dos laços do homem com a natureza que o sustenta e defende contra outros malefícios e inseguranças que o envolvem num mundo de isolamento e egoísmo fechado» </li></ul><ul><li>. </li></ul><ul><ul><ul><ul><ul><li>[1] CABRITA, Conceição (2007) </li></ul></ul></ul></ul></ul>
  37. 37.  Telurismo <ul><li>«Cuido que as coisas mais válidas que escrevi, sabem à terra nativa que trago agarrada aos pés». «(…) devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas (…) a terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa (…) Vivo a natureza integrado nela, de tal modo que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor e nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno.» </li></ul><ul><ul><ul><ul><ul><li>Torga, Diário II, p. 150. </li></ul></ul></ul></ul></ul>
  38. 38.  Mito de Anteu <ul><li>Tal como Anteu retemperava as suas forças em Geia, é na terra e, em particular, em Trás-os–Montes que o poeta encontra o refrigério do seu desespero. Torga invoca com Amor e Ternura o povo das aldeias como o povo da antidegradação que, em seu despojamento e pobreza isolada permanece o guardião da pura fidelidade às raízes da vida, mostrando-nos a sua generosidade e o seu sonho, mas também, o seu realismo sem ilusões e a sua forma nua e crua de encarar a dureza da vida. </li></ul>« Filho da terra, minha mãe amada, / É ela que levanta o lutador caído. / Anteu anão / Toco-lhe o coração, / e ergo-me do chão/ Fortalecido. » «Comunicado»[1] [1]Cf . Poesia completa: 648
  39. 39. « Anda a terra no cio: /Chegou a lua. / E é como um falus de aço macio/ A ponta aguda da charrua. // Com a certeza de procriar/ Cai a semente da mão do vento…// E tudo lento, /Num ritual, / Como se o homem, pachorrento, / Realizasse o casamento / Do natural .». «Lavram e semeiam aqui ao lado»[1] [1]Cf . Poesia completa: 412
  40. 40. <ul><li> Tom nostálgico do regresso à terra natal, S. Martinho de Anta : </li></ul><ul><li> Amor por Portugal e pela Ibéria: </li></ul><ul><li>Ex.: colectânea Poemas Ibéricos , onde é nítida a reminiscência da Mensagem de Fernando Pessoa até na própria estrutura: «Ibéria»; «História Trágico-telúrica»; «História Trágico-marítima»; «Os Heróis» e «O pesadelo». </li></ul>Regresso às fragas de onde me roubaram. Ah! minha serra, minha dura infância! Como os rijos carvalhos me acenaram, Mal eu surgi, cansado na distância!// Cantava cada fonte à sua porta: O poeta voltou! Atrás ia ficando a terra morta Dos versos que o desterro esfarelou. Depois o céu abriu-se num sorriso, E eu deitei-me no colo dos penedos A contar aventuras e segredos Aos deuses do meu velho paraíso.» «Regresso»[1] [1] Cf . Poesia completa: 446
  41. 41. <ul><li> Em conclusão, o telurismo de Torga , « filho, neto, bisneto e tetraneto de obscuros cavadores, carroceiros e almocreves que séculos a fio saibraram, sulcaram e palmilharam as encostas do Doiro » [1] , exprime-se no seu apego à terra, na sua fidelidade ao povo, na sua consciência de português, de ibérico, no espírito da comunhão com as raízes. </li></ul><ul><li> [1] TORGA, DIÁRIO (Régua, 19/08/1979 ) </li></ul>
  42. 42.  o drama da criação poética : Torga ou o poeta «cavador de ideias» <ul><li>« De quantos ofícios há no mundo, o mais belo e o mais trágico é o de criar arte . É ele o único onde um dia não pode ser igual ao que passou. O artista tem a condenação e o dom de nunca poder automatizar a mão, o gesto, os olhos, a enxada. Quando deixa de descobrir, de sofrer a dúvida, de caminhar na incerteza e no desespero, está perdido. ». </li></ul><ul><ul><ul><ul><ul><li>Torga , Diário I </li></ul></ul></ul></ul></ul>
  43. 43.  Aproveitamento do Mito de Orfeu: «Das tuas mãos divinas de Poeta Herdei a lira que não sei tanger; Por eleição ou maldição secreta, Tenho uma grade para me prender. Cercam-me as cordas, tensa de emoção, Versos de ferro onde me rasgo inteiro . Mas do fundo da alma e da prisão, Obrigado, meu Deus e carcereiro! «Ode à Poesia» [1] <ul><li>[1] Cf Poesia completa : 219 </li></ul>
  44. 44.  A tónica do desencanto <ul><li>Desço aos Infernos, a descer em mim. </li></ul><ul><li>Mas agora o meu canto não perfura </li></ul><ul><li>O coração da morte, </li></ul><ul><li>À procura </li></ul><ul><li>Da sombra </li></ul><ul><li>Dum amor perdido. </li></ul><ul><li>Agora </li></ul><ul><li>É o repetido </li></ul><ul><li>Aceno </li></ul><ul><li>Do próprio abismo </li></ul><ul><li>Que me seduz. </li></ul><ul><li>Da vontade, </li></ul><ul><li>Que me obriga a sair da claridade </li></ul><ul><li>E a caminhar sem luz. </li></ul><ul><li>Ergo a voz e mergulho </li></ul><ul><li>É ele, embriaguez nocturna </li></ul><ul><li>Dentro do poço, </li></ul><ul><li>Neste moço </li></ul><ul><li>Heroísmo </li></ul><ul><li>Dos poetas, </li></ul><ul><li>Que enfrentam confiantes </li></ul><ul><li>O interdito </li></ul><ul><li>Guardado por gigantes, </li></ul><ul><li>Cães vigilantes </li></ul><ul><li>Aos portões do mito. </li></ul><ul><li>E entro finalmente </li></ul><ul><li>No reino tenebroso </li></ul><ul><li>Das minhas trevas. </li></ul><ul><li>Quebra-se a lira, </li></ul><ul><li>Cessa a melodia; </li></ul><ul><li>E um medo triste, de vergonha e assombro, </li></ul><ul><li>Gela-me o sangue, rio sem nascente, </li></ul><ul><li>Onde o céu, lá do alto, se reflecte, </li></ul><ul><li>Inútil como a paz que me promete. </li></ul><ul><li>«Descida aos Infernos [1] » </li></ul><ul><li>[1] Cf Poesia completa : 543 </li></ul>
  45. 45. <ul><li> Comparação do trabalho poético ao do cavador: </li></ul><ul><li>Em «Comunhão [1] » declara: « Tal como o camponês , que canta a semear/ A terra, / Ou como tu, pastor, que cantas a bordar /A serra /De brancura, / Assim eu canto, sem me ouvir cantar, / Livre e à minha altura. ». </li></ul><ul><li>«Vessada» ,[2] rico em vocabulário ligado à agricultura: « Vai a pena lavrando o papel, /E eu à rabiça, a destilar tristeza. » (. .) «Sim, mourejo, /E de repente vejo / Que os sulcos, a meus pés, são redondilhas! » bem como «Lavoura [3 ] » em que declara : « Lanço os versos à terra ». « E no chão semeado / Ergo uma negra cruz da minha altura. / Cruz tosca e sibilina / Que esconjura / E assina… » </li></ul><ul><li>[1] Cf Poesia completa : 362 </li></ul><ul><li>[2] Cf Poesia completa : 485 </li></ul><ul><li>[3] Cf Poesia completa : 850 </li></ul>
  46. 46. <ul><li> Missão do poeta: </li></ul><ul><li>« Cada vez deseja ter / Mais força de inspiração, /Mais poder de encantação , / </li></ul><ul><li>Mais livre sinceridade. /E ser, nessa liberdade, / </li></ul><ul><li>Hálito de comunhão / Do mundo, da humanidade. » </li></ul><ul><li>«Ambição [4] », </li></ul><ul><li>« (…) seja um poema / Como um cacto a crescer num areal! / </li></ul><ul><li>Cada verso um punhal / </li></ul><ul><li>direito ao coração / De quem lhe estenda a mão / Sem ternura. » </li></ul><ul><li>(…) «Poetas, meus irmãos, heroicamente, Façamos dum poema um aguilhão . » </li></ul><ul><li>«Rebate»(1) </li></ul><ul><li>« Canta, poeta, canta ! / Violenta o silêncio conformado. / </li></ul><ul><li>Cega com outra luz a luz do dia. / </li></ul><ul><li>Desassossega o mundo sossegado. / </li></ul><ul><li>Ensina a cada alma a sua rebeldia. » </li></ul><ul><li>«Voz activa»(2) </li></ul>« Ergo a voz no silêncio hostil do mundo, / Como um galo que canta a horas mortas. / nem me posso calar, / nem posso amortecer/ A força que faz dela um desafio. ». «Caudal» (3) [1] Cf Poesia completa: 465 [2] Cf Poesia completa: 835 [3] Cf Poesia completa: 746 [4] Cf Poesia completa: 743
  47. 47. <ul><li> Incapacidade de exprimir totalmente aquilo que verdadeiramente sente e que lhe provoca um sofrimento incrível. </li></ul>Pisa os meus versos , Musa insatisfeita! Nenhum deles te merece. São frutos acres que não apetece Comer. Falta-lhes génio, o sol que amadurece O que sabe nascer. Cospe de tédio e de nojo Em cada imagem que te desfigura. Nega esta rima impura Que responde de ouvido. Denuncia estas sílabas contadas, Vestígios digitais do evadido Que deixa atrás de si as impressões marcadas. E corta-me de vez as asas que me deste . Mandaste-me voar; E eu tinha um corpo inteiro a recusar Esse ímpeto celeste. <ul><li>[1] Cf Poesia completa: 490 </li></ul><ul><li>“ Maceração” </li></ul>
  48. 48.  Mito de Sísifo <ul><li>O SEU TRABALHO É, POIS, O DE UM SÍSIFO, PELO QUE O POETA RECUPERA O MITO DO REI DE CORINTO </li></ul>Sem musa que me inspire, Canto como um pedreiro Que, de forma singela, Embala a sua pedra pela serra fora… Upa! que lá vai ela! Upa! Que vai agora! A pedra penitente que eu arrasto Tem o tamanho duma vida humana. E só nesta toada a movimento, Embora o salmo já me saia rouco. Upa! Meu sofrimento! Upa! Que falta pouco… <ul><li>[1] Cf Poesia completa: 769 </li></ul>“ Cantilena de Pedra ”
  49. 49. <ul><li>Em conclusão, o poeta define-se como alguém que quanto mais diz, maior é o muro de silêncio que tem de transpor . Ser poeta é , para Torga, pesquisar-se : « Cavo, / Lavo, / Peneiro, / Mas só quero a fortuna/ De me encontrar /(…) Inteiramente nu e descoberto.», declara em «Prospecção» [1] </li></ul><ul><li>[1] Cf Poesia completa: 574 </li></ul>
  50. 50.  Conclusão Telurismo (Mito de Anteu) Desespero humanista (mito de Orfeu) Problemática religiosa Drama da criação poética (mito de Sísifo Liberdade e esperança
  51. 51. <ul><li> Se muitos dos textos de Torga nos remetem narcisicamente para o próprio sujeito, a presença dos outros é, contudo, para o poeta, condição de plenitude. A incompreensão e o isolamento forçado levam-no ao ressentimento, à amargura que emerge no Diário . </li></ul><ul><li>Com efeito, há em Torga uma necessidade muito clara de fraternidade : « Se é um poema fraterno que pedis/ Arrancai-o de mim, escavando-lhe a raiz, / E plantai-o no vosso coração ». </li></ul>António José Saraiva e Óscar Lopes, 2001:1015
  52. 52. <ul><li> Torga é simultaneamente o poeta da angústia e da esperança : angústia provocada pela ausência de absoluto, ausência de Deus ou do divino nos homens, pela morte e pela tirania, e esperança, resposta raivosa da vida que continua a latejar no Homem; esperança num mundo novo, num amanhã luminoso, reflectindo as apreensões, esperanças e angústias do seu tempo. [1] </li></ul><ul><li> Ao lermos os poemas de Torga apercebemo-nos facilmente do homem solitário e solidário, em constante e obsidiante confronto com Deus e a Tirania, oscilando entre a esperança e o desespero. Como sublinha Cabrita [2] , apesar de tudo, nunca o poeta perdeu a confiança na Natureza, no Homem e na sociedade como forças regeneradoras perante a adversidade. Como o próprio afirma no seu Diário, Torga é um « sinaleiro da esperança », mas, concomitantemente «amarrado à cruz do sofrimento » </li></ul><ul><li>[ 1] SARAIVA e LOPES, 2001: 1015 </li></ul><ul><li>[2] CABRITA,2007 </li></ul>
  53. 53. <ul><ul><ul><ul><ul><li>Fim </li></ul></ul></ul></ul></ul>
  54. 55. <ul><li>Bibliografia </li></ul><ul><li>AUGUSTO, Armindo (1997) Miguel Torga – o drama de existir , 2ª edição, Chaves: Edições Tartaruga; </li></ul><ul><li>ALVAREZ, Eloísa (2005) “Miguel Torga”, in Biblos , 5º vol., 2005, pp. 461-67; </li></ul><ul><li>BERNARDES, José Augusto Cardoso (1997) “Vocação e penitência na poesia de Miguel Torga”, in Sou um homem de granito. Miguel Torga e seu compromisso, Lisboa, Editorial Salamandra, pp. 75-89; </li></ul><ul><li>COELHO, Jacinto do Prado (1976) «Casticismo e Humanidade em Miguel Torga» i n Ao contrário de Penélope , Amadora: Bertrand </li></ul><ul><li>GONÇALVES, Fernão de Magalhães (1998), Ser e ler Miguel Torga , Chaves, Edições Tartaruga; </li></ul><ul><li>LOPES, Teresa Rita (1993) Ofícios a um Deus de terra , Rio Tinto, Editorial Asa, 1993; </li></ul><ul><li>LOURENÇO, Eduardo (1955) «O desespero humanista de Miguel Torga e o das novas gerações » in Tempo e Poesia , Lisboa: Relógio d’Água </li></ul><ul><li>LOURENÇO, Eduardo (1994)“Um nome para uma obra” in Aqui, Neste Lugar e Nesta Hora. Actas do Primeiro Congresso Internacional Sobre Miguel Torga , Porto, Universidade Fernando Pessoa </li></ul><ul><li>MONIZ, António (1997) Para uma leitura de sete poetas contemporâneos , Lisboa : Editorial Presença </li></ul><ul><li>MOURÃO-FERREIRA, David (1978) «Miguel Torga» in Coelho, Jacinto do Prado (dir) Dicionário de Literatura , 3ª edição, volume IV, Porto : Figueirinhas </li></ul><ul><li>PONCE de Leão, Isabel (2004) O essencial sobre Miguel Torga , Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda </li></ul><ul><li>REIS, Sara Silva (2002) A identidade ibérica de Miguel Torga , S. João do Estoril, Principia, 2002; </li></ul><ul><li>ROCHA, Clara Crabbé (1977) O espaço autobiográfico em Miguel Torga , Coimbra, Livraria Almedina </li></ul><ul><li>ROCHA, Clara Crabbé (2000) Miguel Torga. Fotobiografia , Lisboa, Publicações Dom Quixote </li></ul><ul><li>SARAIVA, António José e LOPES, Óscar (2001) História da Literatura Portuguesa , Porto : porto Editora 17ª edição </li></ul><ul><li>TORGA, Miguel (2000) Poesia Completa, Lisboa: Dom Quixote </li></ul><ul><li>TORGA, Miguel (1941), Diário I, Coimbra : edição de autor </li></ul><ul><li>TORGA, Miguel (1943), Diário II, Coimbra : edição de autor </li></ul><ul><li>TORGA, Miguel (1946), Diário III, Coimbra : edição de autor </li></ul><ul><li>TORGA, Miguel (1949), Diário IV, Coimbra : edição de autor </li></ul><ul><li>TORGA, Miguel (1951), Diário V, Coimbra : edição de autor </li></ul><ul><li>TORGA, Miguel (1953), Diário VI, Coimbra: edição de autor </li></ul><ul><li>TORGA, Miguel (1964), Diário IX, Coimbra: edição de autor </li></ul><ul><li>TORGA, Miguel (1968), Diário X, Coimbra: edição de autor </li></ul><ul><li>TORGA, Miguel (1973), Diário XI, Coimbra: edição de autor </li></ul><ul><li>TORGA, Miguel (1987), Diário XIV, Coimbra: edição de autor </li></ul>
  55. 56. <ul><li>Sitografia </li></ul><ul><li>BERNARDES, José Augusto Cardoso (s.d.) «Miguel Torga – figuras da cultura portuguesa» disponível em http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/mtorga.html , consultado a 15/03/2010 às 14:46 </li></ul><ul><li>CABRITA, Maria Da Conceição Vaz Serra Pontes (2007) «Miguel Torga uma criatura de esperança», disponível em http://www.revistalimite.es/volumen%201/ConceicaoCabrita.pdf , consultado a 28 de Março de 2010, às 14:30 </li></ul><ul><li>MORAIS, Maria da Assunção Monteiro (s.d.) «Da Heteronímia Em Eça De Queirós E Fernando Pessoa à alteronímia Em Miguel Torga» disponível em </li></ul><ul><li>http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/zips/assunc05.pdf, consultado a 29 de Março de 2010, às 15:20 </li></ul><ul><li>CHAVES, José António Garcia (2001) «Este Marão que eu sou » disponível em http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/zips/jgarcia02.rtf , consultado a 28 de Março de 2010, às 16:00 </li></ul><ul><li>PEREIRA, Maria Helena da Rocha (1978) «Os mitos clássicos em Miguel Torga » in Colóquio nº 43, Maio de 1978, pp 26-29, disponível em http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issueContentDisplay?n=43&p=20&o=p , consultado a 6 de Março de 2010, às 14:30 </li></ul><ul><li>CORTEZ, Clarice Zamonaro, (2009) «Um estudo da obra poética de Miguel Torga: sinais e tendências» disponível em http://www.revistas.ufg.br/index.php/sig/article/view/8613/6081 , consultado a 20 de Março de 2010, às 16:30 </li></ul>
  56. 57. Trabalho de pesquisa apresentado à Unidade Curricular de Técnicas de Análise Textual (TAT), ministrada no Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração (ISCIA), de Aveiro Maio de 2010 Autores do trabalho: Paulo Marques Pedro Ribeiro Docente: Professora Doutora Dina Baptista

×