Se os cães falassem... Samuel Ivani

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Sinopse: Se os cães falassem... Sa
“Se os cães falassem...” Narra à vida de um menino chamado Giuliarde, cujo é largado nas ruas aos oito anos, ou mais, em meio às mazelas de uma cidade do século XIX. Cidade esta, em constante crescimento devido à passagem de uma ferrovia e a descoberta de garimpos nos arredores daquela que outrora fora um pacato e pitoresco vilarejo rural. Muitos dos moradores se veem encantados com aquele novo mundo. Junto com as ascensões, chegam também ao vilarejo, charlatões galantes, cujo ludibriavam as filhas dos fazendeiros, as desonrado, e abandonado-as pouco tempo depois, algumas inclusive grávidas. Desta forma, obrigando as moças a povoarem os bordeis que se instalavam na cidade a esmo, para atender operários e garimpeiros viris. Giuliarde nasce de uma dessas moças inocentes, mais sem muitas condições de criá-lo o abandona nas ruas da cidade. Em meio à solidão, sem nada palpável em que o personagem pudesse se agarrar nas ruas, ele encontra em meio ao lixo um cãozinho, do qual este se torna seu fiel escudeiro em sua jornada. Giuliarde encontra em seu cão, alguém para dividir as dores e alegrias da vida nas ruas, e junto com seu fiel escudeiro ele vai descobrindo a vida, tanto no sentido filosófico como no sentindo concreto; descobrindo as mudanças do corpo e da alma, enquanto faz de tudo para deixar de ser invisível. Giuliarde se aventura por a arte da pantomima ( Arte da mímica) e é nesta forma de expressão que ele encontra um meio de ser visto por a sociedade hipócrita da época. Além de um enredo intrigante; repleto de mensagens subentendidas, personagens misteriosos, e segredos... O livro é repleto de teorias sobre o comportamento humano, tudo isso, numa vida de um ser humano simples. O livro é em suma, a construção do homem em todos os âmbitos da vida. É a construção de um grande homem, que independente do que a vida lhe impõe, luta contras as adversidades com o que tem em mãos, que é a própria mente humana. O livro é narrado em primeira pessoa por Giuliarde, este já aos setenta e três anos. Sendo que os anseios e aspirações da idade em questão são também incluídos no livro. Em “Se os cães falassem...” é narrada toda uma vida de um personagem marcante, cujo fora inteiramente moldado a dor e sofrimento. Sendo que de acordo em que o personagem cresce, são narrados com graciosidade as aspirações e questionamentos de todas as faixas etárias da vida. O livro trata da questão social inerente ao período histórico do início do século XIX, em que predominava uma sociedade extremamente católica, patriarcal, e de moral controversa. O livro faz previsões do futuro, mostrando o ponto de vista do personagem para os tempos seguintes, partindo de suas observações do seu presente, assim o leitor pode comparar em que evoluímos e em que retrocedemos. Não se enganem! “O homem, essencialmente continua o mesmo, são as ideias que evoluem de geração para geração e de pessoa para pessoa.” Samuel Ivani

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Se os cães falassem... Samuel Ivani

  1. 1. Se os cães falassem... Samuel Ivani
  2. 2. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 3 - A todas as vidas que vivi e convivi enquanto avidamente morria. Conto a minha história, não para agradar um ou outro. Conto porque chego á uma idade, em que tudo que faço me torna mais vivo... Conto porque sei que escrever minha história, é a melhor forma de eternizar aqueles que eu amei, e assim, ao menos em parte, faço jus a minha existência... Giuliarde Campos de Almeida Setubal
  3. 3. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 4 Capítulo 1 O ano pouco importa. O século era XIX. O lugar era sujo e minúsculo, no entanto, vivendo uma reviravolta em seu estilo de vida pitoresco e pacato. Um vilarejo essencialmente rural, vivenciando uma mudança repentina. Mudança esta, proporcionada por a chegada da notícia da passagem da ferrovia nos arredores não especificados do vilarejo. Com os avanços, chegaram também à vila, vários indivíduos, ou grupo deles, que buscavam trabalho na ferrovia; uns que já trabalhavam no trecho das obras um pouco distante, buscando o aconchego dos serviços oferecidos por vilarejos rurais; outros que surgiam para investir em estabelecimentos para atender a demanda dos trabalhadores, tanto em comida, como outros serviços não tanto essenciais. Pessoas más intencionadas, pessoas boas, todo tipo de seres humanos surgiam de todas as regiões a procura de melhores condições de vida ou formas de arruinarem suas vidas já sem muito sentido. Todas estas mudanças repentinas
  4. 4. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 5 proporcionaram, aos antigos moradores, um mundo novo: o capitalismo. E junto com ele, várias mazelas das sociedades modernas. Despreparados para tamanhas ascensões, muitos foram os que caíram nas lábias de mal intencionados e vigaristas com super ideias de investimentos que os fariam ricos no piscar de olhos, levando a falência dos poucos que possuíam algum dinheiro naquele local essencialmente rural. Muitas foram às filhas de agricultores ludibriadas por malandros galantes, talvez não tão espertos, no entanto, comparando as espertezas, eles se encontravam distantes dos pais, e muito além dos hormônios das garotas fascinadas com tanta gente interessante, que se deixavam aventurarem-se em viagens as capitais; casamentos de princesas ilusórios, promessas de empregos em escritórios da ferrovia... E por aí segue uma lista interminável. Nunca antes se tinha visto tantos engenheiros por metro quadrado. Não aparecia no vilarejo, um operário sequer pra remédio. Todos eram funcionários do mais alto escalão da empreiteira que construía a ferrovia. Sendo que não faltavam bons partidos as moças tímidas e ávidas por aventura e bons casamentos. Não eram elas, as mais afeiçoadas, no entanto, eram as únicas. Por alguma razão, as promessas desses galantes não duravam mais que um quarto de hora. Em pouco tempo, depois de um sorriso ofegante
  5. 5. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 6 e um cigarro, aqueles engenheiros, mesmo sem muita vontade, tinham que regressar para as suas vidas corridas, calculando aonde bateriam o martelo para não acertarem seus dedos sofridos por conta de longas jornadas de trabalho ao sol flamejante. Nessa, o tempo passou na mesma freqüência de crescimento, e com isso, o estilo de vida do pequeno vilarejo mudava. Muito tempo já havia se passado após a promessa da ferrovia. Esta, por sua vez, já bem próxima da cidade; não demoraria até que ela atravessasse bem ao centro do que outrora fora um vilarejo rural e pitoresco. As dimensões da vila já haviam aumentado significativamente. Já as condições de vida, entretanto, não haviam acompanhado as mudanças físicas do local. O alcoolismo dominava a classe trabalhadora, os antigos moradores se deixavam levar pelas as influencias de bordeis que se instalavam a esmo naquela que já podia ser chamada de cidade. No entanto, era visível a falta de governantes, a falta de serviços básicos. As ruas ainda de barro batido, as casas construídas sem planejamento, já que eram construídas apenas para uma passagem breve dos trabalhadores, que sempre se alternavam. Não havia nada que atendesse a demanda de saúde, ou qualquer outro serviço crucial para a boa vida da população.
  6. 6. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 7 A vida se seguia na mais pura depravação, onde as filhas dos antigos moradores já preenchiam as tavernas da cidade, já que lhes foram oferecidas apenas opções ilusórias no início daquela vida moderna. As ruas eram preenchidas por ébrios e por meninos abandonados as suas sortes; cães, gatos, tudo que não rendia lucro imediato era deixado às ruas com destino certo. Do antigo vilarejo o que sobrara fora apenas alguns moradores, que estes, não conseguiam seguir suas vidas como antes. Salvo as exceções, aqueles de índole já desagradável, que se encaixaram perfeitamente ao novo estilo de vida. Tudo isso, me foi contado por uma moradora especial daquele pequeno vilarejo que fora contaminado pela a civilização moderna. Esses relatos me servem de introdução para contar a minha história de vida, espero que o leitor se agrade, caso não: Vão à merda!
  7. 7. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 8 Capítulo 2 Eu devo ter partido de uma daquelas que antes fora uma moça de família, tímida, e sem compreensão das espertezas de operários que surgiam aos montes junto com a ferrovia; com suas conversas ludibriosas e suas profissões de sucesso, cujo se sustentavam apenas quinze minutos. Operários, que depois de atingido seus objetivos, sumiam tão rápido quanto surgiam. No entanto, eles sempre retornavam com uma desculpa qualquer, até que já não viam nas pobres moças, que já não belas, nem ninfas, que não valeria apena gastar tempo formulando desculpas para conseguir uns momentos de prazer. Sem contar que as desculpas já não funcionavam. As moças já cansadas se enveredavam por caminhos sombrios e arriscados da vida em bordeis. Donde quase todas já com uma barriga de pai desconhecido e sem oportunidades de criá-los, não tinham escolhas, se não, tentar o aborto caseiro. Algumas conseguiam, outras se iam com o filho que tentavam arrancar de si. Talvez eu tenha sido vítima de uns desses abortos que
  8. 8. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 9 não deram certo, ou que deram. Como saber? Quando não abortavam, jogavam os filhos para os avôs criarem, ou nas ruas lamacentas da vila em constante crescimento, com o destino de viver, ou não, pertencente totalmente ao mundo peculiar daquele projeto de cidade. Sei que de onde vim, não permaneci por muito tempo. Aos oito anos, ou mais, soltei-me de algum braço flácido e cheio de hematomas, (ou me soltaram) numa rua alagada da cidade. Donde esses braços abandonaram-me a esmo e sem chances, em um local que pudesse me abrigar, ao menos, dos respingos de chuva que caíam àquela manhã de infortúnios. Sabe-se que comumente não se podem ter lembranças claras aos oito anos ou um pouco mais. Não, depois de passada toda uma vida. No entanto, digo-lhe que me recordo com clareza de alguns momentos, na sua maioria árduos, quando deveria ter um pouco mais ou um pouco menos de dois anos. Às vezes o sofrimento lhe aguça a capacidade de memorização, ou a sua capacidade cerebral. Isto é denominado trauma hoje em dia, mas como não conhecia esta denominação, ou sequer que traumas existissem, não sofri nem um destes que se vêem no mundo contemporâneo. Sei que fui deixado naquele local à deriva da vida que se sucederia. Algumas caixas de madeira,
  9. 9. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 10 provavelmente de frutas, protegiam-me de qualquer que fosse os pingos de chuva naquela manhã. Sabe o que se pensa aos oito anos? Nada. Você apenas sofre. E não atenta sequer para a dor que sente. Certo que chorei aquele dia, porém, não me recordo deste fato. Sei que não consegui seguir a pessoa que me abandonou, não sei bem por quê. Eu deveria ter corrido atrás dela, ter implorado que ela não me abandonasse, porém no o fiz. No entanto, boa parte destas lembranças que me veem a mente, não sei se são elas reais, ou eu que as criei com o tempo. Talvez, na época, eu não tive chance de segui-la, pelo o fato dela ter me abandonando ali desacordado. Nem sabia se aquela realmente era minha cidade de verdade. As crianças tomam como reais certas coisas que lhes são relatadas, e acabam que se tornam lembranças verdadeiras, como se deveras as tivesse vivido. Minha história antes daquele dia se encontra em minha cabeça, porém, nem eu mesmo sei o quê que eu inventei, e o que de fato fora real... Mas a partir daquele dia, recordo-me de tudo. Inclusive recordo-me da dor enorme que senti, em estar acostumando com um lar, e de repente, me encontrar abandonado pelas as ruas, sem saber para onde ir. É uma dor horrível. A única coisa que posso dizer é que nos falta o chão, é que tudo a nossa volta nos parece tão
  10. 10. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 11 espaçoso e ao mesmo tempo minúsculo. O céu aquele dia estava mais azul que nunca, no entanto, até o movimento das nuvens me incomodava. Elas sabiam para onde ir, se não, sabiam que tinham que continuar em movimento. Eu, não sabia o que fazer, se me mexia, ou permanecia imóvel. Tentava me mexer, mas qualquer movimento me era constrangedor. Qualquer gesto que fizesse, pelo o fato de não estar em casa, não me era justo. Eu não sabia que utilidade tinha minhas pernas, os braços, tinha medo de movê-los, pois alguém me repreenderia. Tinha a sensação que, qualquer movimento do corpo, ou qualquer palavra, só poderiam ser proferidos, por alguém na própria casa. Enfim, me foi tirado à liberdade. Eu não tinha a liberdade para me mexer ou falar qualquer coisa, pois me encontrava em meio a estranhos..., porém o instinto de sobrevivência sempre toma posse de nós quando mais precisamos, e fui obrigado a me mexer. Depois de um tempo, curto ou longo, pois apesar de boa memória as lembranças daquela idade me são vagas. Ouvi um grunhido, de alguma criatura que se encontrava em meio aqueles escombros, talvez escondido entre caixas de madeira, sacos e latas de lixo. Não recordo se chorei aquele dia, no entanto, recordo-me com clareza daquele barulhinho que vinha
  11. 11. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 12 de qualquer lugar que me penetrou a alma. Se aquilo que ouvi não foi um choro, uma busca de alguém que queria ser encontrado; uma forma de demonstrar uma solidão forçada. Ao certo, meus conceitos do que é um choro, uma lágrima de dor, se difere e muito do que se conhece hoje. Sei que depois de vivenciar a solidão imóvel por um bom período de tempo, o medo me permitiu mover alguns membros, cujo ansiavam por encontrar o quê emitia aquele barulho, que ao certo, não era de alguém em plena felicidade. Esta reflexão só me veio à mente anos depois. Lógico que o que pensava naquele momento, era encontrar algo para me segurar naquela falta de opções. Ou o mais provável é que, a curiosidade de criança, impulsionou-me a encontrar a criatura viva que emitia aquele som. Sei que, mesmo com os poucos movimentos que me restavam ou que me surgiam aos poucos; Fucei todo aquele local em busca da criatura que me aguçara a curiosidade. Em meio algumas frutas por assim dizer, mofadas e outras já sem poupa, devorados por moscas e outros insetos daquele local fétido. Empurrei duas caixas em direção contrária, e assim como um aventureiro abre plantas fechadas nas florestas e descobre um rio ou uma praia de beleza incontestável e chega ao êxtase de uma descoberta magnífica; eu, naquele dia, descobri uma
  12. 12. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 13 criatura aos berros, com pelos jovens e avermelhados, uma leve lista preta que ia do dorso frontal ao final da cauda daquele belo animal, e encontrá-lo foi como encontrar um oásis no deserto. O segurei nas mãos tremulas da solidão, e mesmo que não lembre, sei que entoadas por boas doses de lágrimas. O trouxe ao conforto quente de meu abdômen. Levemente acariciava sua cabeçinha frágil, enquanto ele me aquecia em sua ofegante respiração que se ia acalmando na medida do possível. Logo notei que os batimentos do coração daquele doce animal, eram rápidos e o mantinha aquecido, inclusive também a mim. Os gritos do cãozinho foram se acalmando, o levando ao um silêncio de batimentos acelerados, constantes, que transferiam energia ao meu corpo trêmulo de frio. Uma coisa é certa, naquele instante, não me senti mais sozinho, e tenho certeza que ambos sentimos o mesmo. Mesmo sabendo que aquele cãozinho não escolhera que fosse eu, a sua companhia. Poderia ter sido qualquer um, ou pior, poderia ter sido ninguém. No entanto, eu estava lá no mesmo recinto, ou no mesmo infortúnio que ele. A calmaria que aquele animal proporcionou- me não haveria preço que lhe fosse possível pagar, a não ser, a retribuição do mesmo sentimento, que naquele momento, mesmo inconsciente, fora recíproco.
  13. 13. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 14 Por uns bons instantes, permanecemos ali, sem opções visíveis. Ao menos já não havia a solidão que me afligia nos primeiros instantes. Eis que nada aconteceu, diferente do que esta narração exige de minha pessoa, definitivamente nada aconteceu por um bom tempo. Com o tempo a fome inevitavelmente me caia o estômago, dirá naquele cãozinho, que muito jovem, com certeza, necessitava de proteínas. O que ocorrera depois de um tempo, foi que a fome impulsionou-nos a sair daquela solidão, e partirmos em uma caminhada leve e receosa ao longo daquela parede de madeira. Aos oito anos, eu não sabia distinguir se estava defronte ou na parte de trás de uma construção qualquer, no entanto, ao me pegar em reflexão depois de tanto tempo passado, sei que encontrávamo-nos numa viela qualquer em meio ao lixo de algum estabelecimento comercial.
  14. 14. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 15 Capítulo 3 Ao caminhar mais um pouco, a luz ofuscante do dia cegou- me os olhos. O cãozinho com o rosto pregado as minhas vestes frágeis, tão frágeis quanto ele, que se encontrava dormindo ao conforto de minha respiração, não notou a luz que me atordoava. Notei alguns poucos cavalheiros a caminhar apressados, algumas senhoras, que talvez não fosse tão senhoras assim, a deixar o estabelecimento agora já na parte da frente. Comecei a caminhar, no intuito creio eu, de me encontrar na realidade, embora naquela idade a realidade seja sempre uma grande fantasia, que com o passar do tempo, se torna apenas doces lembranças opacas. Caminhava, matinha sempre o olhar ao alto, que ao certo, me proporcionaram dores no pescoço. A vida definitivamente não era para pessoas de minha estatura. Se bem que eu era bem pequeno para a minha idade, posto por minha desnutrição. Para ver o mínimo tinha que esticar o pescoço ao máximo para manter um campo de visão razoável. Caminhei por alguns segundo ou horas, o tempo
  15. 15. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 16 sempre lhe é vago em lembranças antigas. Depois de cansado de caminhar, resolvi parar ou não consegui mais seguir em frente, procurei um lugar ali mesmo, que melhor servisse de abrigo para meu cãzinho. A fome já nos era insuportável, era preciso forrar o estômago com qualquer coisa. Recordo-me em lembranças vagas, de tempos que antecederam estes que narro aqui, quando ainda residia em uma casa humilde, que, no entanto, me parecia um lar. Quando a fome me caia, e que ao certo não havia nada que servisse de alimento naquele minúsculo lugar: uma figura feminina aconselhava-me a forrar o pé da barriga com o paninho, cujo este, me acompanhara até o dia que fui deixado aquele local na solidão. Era uma estratégia para diminuir os espaços das vísceras vazias, e disfarçar a fome. Esta lembrança me perece ser uma das mais duras que me vem à mente, ainda depois de ter passado toda uma vida. A sensação de não poder alimentar um filho, se não for à pior para uma mãe, não se distancia muito das mais árduas. Recordo-me de olhar em todas as direções, o que vi foram algumas latas de lixo, algumas casas de madeira, alguns estabelecimentos comerciais. Creio que já me encontrava muito distante do local onde havia sido deixado à deriva da realidade.
  16. 16. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 17 Sei que as alternativas não me deixaram escolhas, e por instinto, passei a procurar alimento que fosse naquelas latas nojentas. O sabor do alimento depende inteiramente da intensidade da fome. Há uma frase que me recordo sempre que alguém um dia me dissera: “O tempero é a fome” esta frase me acompanhou por longos tempos e me ajudou, e muito, a driblar as adversidades. Recordo-me que buscando qualquer coisa para alimento, e pulando de lata em lata, fui aos poucos encontrando algumas frutas e restos de frangos. Parece-me que meu metabolismo jovem da época me foi bem útil, impedindo que não tivesse uma infecção intestinal, ou indigestão. Tive poucas vezes um mal estar aqui, outro ali, entretanto, sem opções, o suportei e curei- me sozinho com o tempo. A vida é assim, quanto menos se conhece menos se sente a dor. Às vezes, apenas às vezes, adoecemos apenas das doenças que conhecemos. Depois de recolher qualquer coisa que forrasse o estômago; acordei o cãozinho com o cheiro de comida, que para ele fora agradável. Ele rapidamente devorou tudo que o ofereci para mordiscar. A cena que presenciei, daquele pequeno animal a devorar o alimento, jamais saiu de minha mente até então, e jamais também quero esquecer, pois me lavou a alma. Aquele
  17. 17. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 18 barulhinho que ele fazia. Sei que, desde então ouvi por muitas vezes o mesmo som, no entanto, o primeiro me foi o mais doce e mais agradável. Apesar da pouca idade eu compreendi o que aquele som significava; o que aquele som representaria para a minha vida. Depois de comer, certo que não matamos inteiramente a fome, porém mesmo ainda com fome, nos veio à sede. Olhei em todas as direções, nada que representasse, ainda que ilusório, um líquido que nos aliviasse a secura da garganta. Então ainda que caminhar representasse um aumento significativo da sede, não tivemos escolhas. Peguei novamente o cãozinho ao colo, e nos dirigirmos para qualquer direção. Parei em qualquer porta aos arredores para pedir um gole de água que fosse, no entanto, recebi tantas respostas negativas que talvez não quisesse narrar aqui, pois seria sentir a mesma humilhação novamente. Aos oito anos ou mais, que depois de pensar direito, tive que crer que apenas inventei esta idade. Até hoje não sei que idade eu tenho ao certo. O que poderia representar as humilhações naquela idade? Nada, no entanto de acordo com o tempo, elas haveriam de representar alguma coisa. Depois de respostas negativas ao montes, continuamos caminhando. Por alguma razão, muitas portas tinham algum
  18. 18. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 19 mecanismo de detecção de nossa presença, pois sempre que nos aproximávamos muitas se fechavam automaticamente. Em uma insistência infantil, desisti após várias tentativas sem sucesso, de conseguir água pedindo ou suplicando as pessoas. Por sorte, ou pela a força de meu desejo de encontrar algum líquido que fosse para matar a nossa sede, chegamos até um lugar aberto e claro, mais claro que as ruas que antecederam a caminhada até ali. Era uma praça com pedras quadradas enormes que formavam o piso, e ao centro, uma fonte com a estátua de um anjo cor de cinza, que deixava fluir água limpa pela a boca. Notei apenas a fonte, meu subconsciente se encarregou de gravar outros detalhes da praça, meu consciente focou apenas no que me era útil a realidade. Corri em direção aquele anjo doce, que nos salvaria a vida e mataria nossa sede, pouco importa. Sem demora deixei o cãozinho ao chão, subi no baixo muro que envolvia a fonte, e por sorte, consegui sem muito esforço, alcançar com a boca o esguicho de água que saia das entranhas daquele anjo. Depois de matar a minha sede, comecei a pegar água com as mãos, tanto quanto, as dimensões de minhas mãos conseguiam, e dava para o cãozinho que bebia com vontade. Não me cansaria nunca de ouvir aquele barulho; ver meu
  19. 19. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 20 cãozinho a matar um desejo ou uma necessidade que fosse. Às vezes me pego a pensar, que seja injusto denominá-lo de meu, tendo em vista que talvez eu fosse mais dele do que ele meu. Não sei quem naquele instante se encontravam mais perdido. Depois de muito tempo, o dia tendia ir-se junto com a segurança que a luz do sol me propiciava. Seria a minha primeira noite na companhia do cãozinho e na solidão desconcertante da escuridão. Talvez o justo para este livro, fosse não relatar minha primeira noite naquela praça, que por um bom período de tempo, fora meu lar. Simplesmente, porque não lembro que se sucedera depois que o sol se pôs. Sei que pelo que me recordo da rotina que tinha; devo ter me direcionado a um pé de tamarineiro que havia ao sul da praça, donde uma fenda entre duas grandes raízes, por muito tempo, me servira de cama e aconchego. Por um longo período cultivei este hábito forçado.
  20. 20. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 21 Capítulo 4 Recordo-me com clareza do dia seguinte, do qual a fome reapareceu e já me era insuportável novamente. A busca por alimento foi por um bom tempo, a minha atividade principal, sobrevivência na verdade. Vivi por tempos com a vida de um animal, apenas buscando alimentos para os segundos seguintes que me garantiriam permanecer respirando. Creio que fui por algum tempo, menos que eles, pois alguns animais instintivamente armazenam alimentos para épocas de escassez, no entanto, eu sequer era capaz de tal proeza. Na manhã seguinte, ainda com o cãzinho junto ao meu coração, sempre exalando aquele calor que me mantinha aquecido. Devo ter levantado do aconchego do tamarineiro e saído à busca de alimento. Foi a partir do segundo dia, que conheci outra figura feminina, da qual teve papel essencial na minha longa existência. Também ao sul da praça, havia uma casa que reluzia vida, seus lampiões, com revestimentos, que tornavam a luz vermelha por toda varanda, deixavam aquele local mais
  21. 21. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 22 interessante, até mesmo que a paróquia. Muitas figuras masculinas adentravam aquele local, desde as primeiras horas da noite até o dia amanhecer. Estes, quase sempre saiam aos risos, outros aos trancos e barrancos, outros até tentavam sair voando, fazendo ameaças a quem lá dentro ficava... No primeiro dia é obvio que não notei estas características, porém, como em muitos outros, a rotina se seguia sem qualquer mudança aparente, me deram plena segurança ao contar estes relatos. Com a consciência que me era possível, nos dirigimos para uma pequena viela que dava para a parte traseira da casa colorida. Donde lá, encontrei uma cena parecida com a qual fui deixado por alguém para a vida decidir qual seria a razão de minha existência, ou se ia realmente sobreviver naquela manhã. Lá encontrei lixo aos montes, caixas; gatos que fuçavam o lixo, moscas e mosquitos que buscavam sobreviver dos restos de comida daquele local; muitas garrafas quebradas, copos, restos de roupas tudo jogado a esmo no chão lamacento. Encontrei também uma porta minúscula que de lá saiu uma bela mulher, aparentava não mais que seus vinte e cindo anos, vestes vermelhas de um colorido que jamais havia visto. Usava um chapéu engraçado com uma pena também vermelha que a deixava intrigante. Seu vestido tinha quase que somente a parte
  22. 22. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 23 traseira. A moça vinha em minha direção com um ar cansado, quase que sem mover as pernas, seus pés arrastavam ao chão, que mesmo no barro batido e molhado da viela, fazia um barulho desmotivador. Ela caminhava ou se arrastava em linha reta, notou-nos apenas quando por pouco não passou por cima de minha insignificante existência. Reagiu a moça com um grito abafado, que quase não saiu de sua boca, esta, também vermelha de batom. Ela assustada perguntou: - Donde saíra garoto? Não tive reação! Permaneci calado, com os olhos fixos na caixa que ela carregava. - Haveria o gato comido sua língua? - Perguntou ela. Permaneci em silêncio. Talvez não tivesse forças para falar ou sequer sabia falar alguma palavra que fosse. Por sorte, não a irritei com meu silêncio, ela então complementou: - Já sei! Está com fome! - Esta era uma afirmação que meus olhos e o restante de meu corpo flácido refletiam, porém, para não me deixar ser ignorado, fiz qualquer gesto instintivo de confirmação com a cabeça. Rapidamente aquela bela moça de vestes coloridas retorna de onde viera e deixando a caixa que carregava sobrepostas a outras que já se encontravam ali. Sem demora e crente que naquela caixa haveria algo para alimentar a
  23. 23. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 24 fome que já me corroia por dentro. Tratei de derrubá-la ao chão com um graveto qualquer que encontrei em minha mente, ali jogado. Não tive escolha, Já que a moça deixara a caixa um pouco inacessível a minha estatura. Depois de algum tempo remexendo o conteúdo da caixa, havia encontrado um repolho velho, um pedaço de pão seco que, sem demora e involuntariamente, pus na boca e a duras penas comecei a mastigá-lo, ato que me feriu as gengivas. Encontrei um resto de farofa com alguns ossos, avidamente coloquei junto às mandíbulas fortes do cãzinho, meu fiel companheiro até então. Seus olhinhos brilhavam, não na intensidade dos meus, porém brilhavam. Eu mastigava o pão velho e observava o lindo animal se alimentando com uma voracidade justa, já que não se sobrepunha a intensidade de sua fome. Não sei quanto tempo leva para um cão adquirir um vinculo afetivo por alguém. Mas sei que naquele instante, já tinha um profundo apreço por aquele belo animal de pele alaranjada, das cores que me acalentavam. Talvez já não pudesse viver sem ele, era tão frágil, ele precisava de mim, no entanto, sei que necessitava bem mais dele do que o contrário. Se os cães falassem, sei que ele ficaria no mínimo agradecido por ter o ajudado em um momento de necessidade, suas palavras
  24. 24. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 25 seriam sinceras, simples e sinceras. Sei que eu mesmo possuindo dom da voz, jamais encontraria palavras para agradecê-lo. Sentei-me ao chão ainda que sujo. Não tinha senso nem condições de analisar qual local era propício ou higiênico para acalentar meu cansaço justo. Sentei-me mastigando o velho pão que já tinha gosto de sangue, engoli como o manar dos deuses, já que fora com meu esforço que eu havia conseguido. De repente ouvi uma voz sussurrando paralela a minha pessoa: - Não faço isso, Curumim! Esta comida estar estragada. Vais acabar tendo uma indigestão. Tome, lhe trouxe um pouco de comida e leite para o cãzinho. Aquela voz! Jamais esquecerei aquela voz ou aquela frase que saíra da mesma moça de vestes vermelhas reluzentes de outrora. A voz mais doce que alguém no universo já poderia ter ouvido. Agarrei a vasilha de cor verde, e de cheiro de plástico de péssima qualidade, porém aquele cheiro acalmou-me a alma. Duvido que em toda a minha existência tenha experimentado aroma mais gratificante. Balbuciou ela: - Eis aí o resto do jantar de ontem, no entanto, não há de se comparar com o lixo de dias atrás que se encontrava nesta caixa. E faça-me o favor de não repetir o que fez hoje. Dá
  25. 25. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 26 trabalho recolher o lixo, depois de comer recolha a bagunça que fizeste. Eu a ouvi com gosto, com o gosto daquele alimento que fora o mais delicioso de toda a minha vida. Sem medo afirmo e reafirmo estes relatos. Depois da comida em mãos, não me recordo se ela logo entrou, ou permaneceu ali ainda me observando. Talvez ela pediu-me que não fizesse barulho, para não chamar a atenção de uma “Madame.” O Cãozinho devorava com sua língua fina e leve o leite, levando as suas vazias entranhas o néctar dos deuses. Eu naquele momento não o observava com tanto afinco, não podia perder tempo, na verdade não conseguia fazer nada além de me alimentar com comida de verdade. Se me recordo bem, aquela fora à primeira refeição decente que tive na vida. Era naquele momento como um animal feroz, que depois de caçar apenas ratos magros, havia caçado um servo grande e nutrido, e o devorava com o êxito merecido de uma bem sucedida caçada. Não poderia perder tempo. Depois de passar tanta fome, comendo apenas restos, a realidade não me permitia ir devagar com aquele alimento, que por sua vez, me sustentaria de pé por mais um dia. Não saberia quando teria outra refeição daquela, então a devorava como um leão faminto.
  26. 26. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 27 Depois de comer, já com as idéias infantis em plenas atividades, atendi as recomendações da moça que me alimentara, eu não podia negar. Parece-me que a honra foi-me uma virtude inata. Recolhi o lixo que eu próprio havia jogado ao chão. Depois de terminado o serviço, peguei o jovem cãzinho e o coloquei junto ao meu abdômen como de costume. Dirigimo- nos até a fonte daquele anjo, que por inúmeras vezes, sem reclamar, nos matou a sede. O cãozinho já com uma saliência na sua silhueta, do qual outrora só apareciam ossos. “O leite lhe caíra muito bem!” Pensei com meus botões. Feliz e já conseguindo emitir algumas palavras que antes a fome não me permitia deixar fluir, iniciei uma conversa com meu cão. Por alguma razão o chamei de Curumim, a vida definitivamente quando criança acontece. A vida devia ser sempre assim: um eterno acontecer. Curumim de olhinhos fechados junto as minhas vestes, que se me recordo bem, eram feitas de algum tecido forte e duradouro. Meus chinelos de couro durariam uma eternidade, se não fosse meu constante crescimento naquela época. Curumim não dizia uma palavra sequer, mais quem seria o tolo de dizer que eu não o ouvia; o ouvia com o coração, com o desejo e com a necessidade de ter alguém para conversar na constante solidão do início de minha vida. Conversávamos
  27. 27. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 28 constantemente, sei que ouvíamos um ao outro sempre, até mesmo em silêncio. O levei até a fonte, lá o dei de beber, e involuntariamente o banhei. Ele era meu fiel escudeiro, se ele falasse naquele momento talvez não concordasse com o banho, mas com as palavras que sei que me eram pobres na época, o tentava convencer que era um mal necessário. Depois de banhá-lo e enxugá-lo com o tecido que tinha a disposição, que eram as minhas próprias vestes. Novamente nos dirigimos ao tamarineiro, agora já com uma calma que não sentia desde que fui deixado em meio aquele entulho da vida. Aquele tamarineiro foi mais uma criatura viva que foi essencial para a minha sobrevivência, pois nele, encontrei o aconchego em meio as suas raízes fortes. Tenho certeza que sentia a sua vida, vida essa, que era transferida no respirar quando eu e meu cãozinho dormíamos nos braços disfarçados em raízes do tamarineiro. Não sei por que os humanos e outros animais necessitam e se sentem bem ao tocar uma criatura viva. Parece-me que a vida pode ser transferida ao toque. Por essa razão as carícias. Eu podia sentir a vida de curumim e daquele tamarineiro quando os
  28. 28. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 29 tocava. Se não, ao menos tínhamos uma ligação magnética que era transferida ao toque. Depois de uma nova soneca aos braços do tamarineiro, soneca que foi mais vantajosa que a anterior, já que a noite a fome e o medo não haviam me permitido descansar. Recordo- me de várias estratégias que uma figura feminina em minha vida se utilizava para enganar a fome. Figura que ao certo seria minha mãe, pois se não, não conheci ninguém que pudesse desempenhar este papel nos meus foscos dias, antes de entrar na árdua vida das ruas. Note caro leitor, às vezes me perco em meus pensamentos e reflexões que acabo não tecendo a ideia original da qual pretendia repassar com qualquer relato neste livro. No entanto, agora irei descrever o que me veio à mente anteriormente, que era mais uma estratégia de minha mãe para driblar a fome. Tais estratégias que me vem à mente de acordo com que pincelo minha história passada nestas pobres palavras... Cá estou novamente deixando me levar por novas ideias e atropelando as antigas. Devo lhe confessar que seria uma injustiça tremenda, não lhes descrever os detalhes que desejo, devido meu raciocínio desvairado que sempre adiciona idéias novas antes mesmo de completar as antigas. Ao tardar tanto,
  29. 29. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 30 depois destes delírios, temo que fiquem fora do contexto as ideias anteriores. Como verde leitor, é um martírio. Sei que em honra a ti, digo que minha mãe sempre me fazia dormir para esquecer a fome, um ato racional presumo eu. Digo-lhe também que os conselhos de minha mãe me foram e são úteis até os dias de hoje. Mais rogo a qualquer ser que me ouve, que não precise jamais usá-los na prática novamente. A fome ensina tanto quanto uma escola; ensina viver, a driblar com mais afinco as adversidades. Ou talvez não! Parece-me que aprendo com tudo, pois acima de tudo o que mais gosto é de aprender.
  30. 30. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 31 Capítulo 5 Depois de tantos desvarios necessários, a vida deu um sopapo, um pulo nos dias, passou o tempo sem que eu visse. De repente, me encontrei não tão maior que anteriormente. Levantei-me daquelas raízes do tamarineiro, se minhas lembranças não me traem. Notei em meus braços curumim já bem mais crescido, não adulto, mais forte, me parece que a moça de vermelho do qual dedicarei boa parte deste livro justamente, alimentou-nos bem aponto de tornar curumim um cão forte e sadio. A vida enquanto criança, como disse; dar saltos. Pelo menos nas lembranças dos adultos. A vida a parti daquele dia que acordei no tamarineiro em minhas memórias já tinha mais cores, ou já tem mais cores, pois revivo sem as mesmas tristezas aqueles momentos que descrevo aqui neste livro com alegria. Sei que apesar de curumim ter diminuído sua cor alaranjada, pois seu pelo havia escurecido com o tempo, não
  31. 31. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 32 havia diminuído o apreço e a beleza que via nele. Desde aquele dia especial a vida me é mais clara nas lembranças. Dia especial, pois se não, creio que não me recordaria dele com tantas cores e com tanta clareza. E nem lembraria os acontecimentos que se sucederam após este fatídico dia. Sei que do nada, sem sequer ter limpados os olhos direitos, me apareceram três garotos maltrapilhos e espertos. Obviamente não notei estas características de primeira, tudo aconteceu tão rápido. Esses garotos arrogantes arrancaram de mim o curumim e saíram em disparada em direção contrária a minha. Sem assimilar o que de veras havia ocorrido, minha reação instintiva foi correr em direção a eles, mas eram rápidos e ágeis, em pouco tempo descobri que eram treinados para aquele tipo de ação. - Creio que atropelei a ordem dos fatos com esta informação. Correndo desesperado, eu seguia os moleques, pois haviam levado com sigo meu único alento e companheiro de todas as horas. Corriam eles rápido, ao ponto de quase perder suas pegadas naquela estrada que evidenciava a prova do furto de meu cão. Os segui até um campo aberto, que me aparece escuro até hoje em minhas tristes recordações. Havia poucas cores, recordo-me bem do amarelo do feno que poucos cavalos
  32. 32. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 33 se alimentavam a balançar os rabos despreocupados; lonas azuis com estrelas prateadas quase desbotando ao chão; algumas cabines de madeira, outras de aço. Creio que para armazenar algo ou alguma coisa. Homens trabalhavam em toda parte, ficando alguns ganchos no terreno úmido daquele local. Escondi-me assustado atrás de umas gaiolas e caixas que havia ali. E permaneci observando por alguns minutos para ver se via os garotos que furtaram meu curumim. Eu estava encantado e assustado com todo aquele movimento. Era tudo tão novo, acima das caixas grandes de madeiras: havia gaiolas com pequenos animais brincalhões, que ao me observarem ali, escondido, começaram um alvoroço. Gritavam eles desesperados, como se quisessem me dedurar para alguém ou para todos que se encontravam ali exercendo alguma atividade laboral apressados. Todos estranharam aquele barulho e logo presumiram que havia algo ali incomodando os animais de aparência engraçada e cacoetes. Por pura inocência, não tive reação; podia ter procurado outro local para me esconder, podia ter ido embora e voltado outra hora, mas não, simplesmente esperei que me encontrassem. Esta foi minha atitude humana quando criança, que ao analisá-la, depois de tanto tempo, me intrigou demasiadamente. Pois sabia que ser
  33. 33. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 34 encontrado não seria bom para mim e para meus planos. Planos estes, quase que instintivos. Paralisei, com um leve medo, e certa aflição que não me paralisaram os membros, no entanto mesmo assim, resolvi esperar e saber o que aconteceria depois. Desta vez o instinto se sobrepôs a razão, me senti inerte e fraco, porém por razões que hoje conheço me deixei ser encontrado. Por ser uma criança abandonada na rua a esmo das mazelas da sociedade, creio que só queria ser encontrado. Esta talvez seja a razão real pelo qual nada fiz além de continuar ali fingindo estar escondido, para logo ser visto por um pequeno homem de estatura pouco maior que a minha. Era um homem de voz engraçada e perninhas curtas que se mexiam rapidamente; gritava e dava pequenos pulinhos apontando em minha direção. Um homem surgiu e me olhou de cima, enquanto eu ainda tinha a ilusão que estava realmente escondido. O homem tinha um bigode horroroso, que a primeira vista, eu achei engraçado. Era um bigode enrolado que quase ultrapassavam as dimensões de seu grande rosto gordo. O bigode ia em direção as suas orelhas, enrolados em seus próprios fios, cujo pareciam asas de urubus, assim como desenhamos em paisagem quando criança. Ele me agarrou e retirou-me do meu esconderijo imaginário, e me levou para
  34. 34. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 35 dentro de uma grande carruagem. Lá encontrei o garoto gordo que corria quase mais que eu com o meu Curumim no colo a alisá-lo. Logo o cãozinho reagiu a minha presença latindo e balançando a cauda. Se ele pudesse falar diria sem pestanejar: “Que bom vê-lo! Vamos voltar para a nossa vida, antes que este gordinho que me segura arranque-me os membros com suas carícias sem o devido amor que não vejo em seus olhos.” O Homem gordo segurava fortes meus braços franzinos, e indagou: - Este cão é seu? Respondi com um gesto qualquer de confirmação, sem poder emitir som algum de tanto medo, mas que o homem entendeu. - Então devolva o cão ao garoto, Bola. Neste instante senti um alívio profundo, apesar das mãos do homem de bigode engraçado me segurarem forte os braços, cujo impediam que meu sangue circulasse nas veias. Mas o garoto gordo se negou a devolver alegando que queria ficar com o meu curumim. O homem grande retrucou: - Devolva agora! Não conteste minha autoridade, sabes bem o que acontece quando me desobedecem? Não é? O garoto assustado e trêmulo coloca o curumim no piso da carruagem que rapidamente corre em direção aos meus pés que
  35. 35. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 36 já não se mantinham no chão, tamanha era a força que aquele homem gordo e forte me segurava. Ele aliviou um pouco a força e permitiu que me soltasse, corri e agarrei meu cãozinho com uma felicidade tremenda. Quão é louvável a capacidade de viver os momentos singulares, um de cada vez, enquanto somos crianças. Quando adultos tudo se acumulam e forma uma bola de neve e vai tornando-nos pessoas rancorosas e traumatizadas. Os adultos possuem o acúmulo de maus pensamentos vividos e vistos durante a vida toda, mesmo que sua vida se resuma apenas a manter-se respirando. Eu abraçava meu cão e talvez também chorasse naquele instante. Eu que imagino que chorava devido à emoção que ainda sinto só de me recordar daquele dia enquanto escrevo estes relatos. Sentei-me no assoalho da carruagem sem objetivo algum; quem haveria de saber quais as razões pelo o qual apenas sentei-me ali? Com curumim no colo, passei a observar as dependências daquele local colorido. Um garoto sentado com seu cão no colo e nada na cabeça, esta cena jamais saiu de minha mente. Não por o encanto que havia nela, mas talvez pelo o sofrimento que os acontecimentos seguintes me proporcionaram. Aquele local era cheio de cores cujo jamais
  36. 36. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 37 havia visto antes; havia roupas reluzentes, artefatos vermelhos em toda parte engajados em estruturas estranhas. Tudo me era novo naquele instante. Não permaneci sentado ali por muito tempo; logo o homem gordo e de voz forte arrancou-me do chão e levou-me há um local cheio de animais engaiolados e presenteou-me com uma vasilha de alumínio, e uma pequena pá. Instruí-me ele a catar os dejetos que aqueles animais deixavam no fundo da gaiola. Caro leitor, poderia descrever qual sentimento sentia naquele instante, mas nada sentia. Além creio eu, de um profundo vazio nada mais sentia. Eu não tinha objetivos. Era um garoto nas ruas, com apenas objetivos instintivos biológicos. Qualquer um que me mandasse fazer algo, eu faria. Esta narração exige que eu descreva um sofrimento profundo e melancólico ao ser obrigado a juntar coco de animais pequenos e engraçados que pareciam humanos. No entanto, eu estaria sendo hipócrita caso dissesse que eu estava sofrendo e chorava enquanto limpava as gaiolas, muito pelo o contrário, me sentia útil, me sentia vivo. Doce inocência, pois logo perderia aquele sentimento de calmaria... O garoto gordo que outrora havia furtado meu cão, que agora se encontrava no chão a me
  37. 37. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 38 acompanhar naquele primeiro serviço que eu o concluía com pouca destreza. Aproximou-se com seus dois amigos magros, e irritados chutaram em meus pés o balde já com uma boa quantidade de dejetos e restos de comida úmida. Se eu dissesse que naquele instante senti raiva ou sentimento parecido, estaria mentindo mais uma vez, eu não conhecia tal sentimento e permaneci sem reação alguma, apenas continuei meu serviço. Apenas eu permaneci estático, curumim não; reagiu latindo e agarrou os cadarços da velha bota do gordinho que todos chamavam de bola. Ele não disse uma palavra, apenas chutou com força curumim em minha direção. Ele choramingou em meus pés sujo de dejetos de animais engaiolados. Naquele instante, conheci a raiva tão inerente aos humanos, porém creio que este sentimento instintivo a primeira vista me foi um sentimento nobre, já que o senti devido terem machucado meu companheiro. Eu sentia raiva na intenção de protegê-lo. Sem pensar nas conseqüências, avancei sem coordenação alguma em direção aos três com a pequena pá como arma nas mãos; Inevitavelmente fiz o que eles desejavam desde o início; que era me provocar até eu reagir para usar como pretexto para me dar uma surra. A inocência te ensina tanto nesta vida. Como
  38. 38. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 39 previsto, apanhei no chão sujo daquele local por um bom tempo, desta vez lembro bem da dor que senti. Só que dor de verdade eu senti quando bateram no curumim injustamente. A partir daquele momento, eu comecei precocemente acumular as lembranças ruins, raiva e outros sentimentos indignos e justos em meu coração e mente. Nunca me tornei alguém mal, não externamente. Por dentro essencialmente somos pessoas desprezíveis. Não que eu seja hoje um homem mal nem integro; talvez se tivesse que colocar em gatos pretos as minhas depravações e sentimentos maus talvez tivesse que usar milhares deles. Em compensação minhas virtudes, apenas um gato branco, franzino, dariam com sobra para comportar todas elas, porém precisamos de poucas virtudes para sermos considerados pessoas boas pelos os demais. Já que a ética humana não permite que tenhamos tantos pensamentos maus ou antéticos; então os resguardamos em vielas em nossas mentes e fingimos o tempo todo sermos cordeiros, quando instintivamente, desejamos apenas destruir uns aos outros, para garantir a sobrevivência imaginaria no futuro, mas não é maldade, é natureza. Na verdade a nossa capacidade de imaginar é que nos torna, ( não diria maus) inconsequentes talvez seja a palavra correta. Enquanto os
  39. 39. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 40 animais irracionais apenas lutam por sua sobrevivência presente ou no futuro real, pois não possuem a capacidade de criar realidades ilusórias. Nós humanos, criamos infinitas realidades, possuímos a capacidade de imaginar uma necessidade que não temos para sobreviver, que chamamos de ambição; daí surge às desigualdades sociais. Enquanto muitos sonham apenas em ter o que comer nos momentos presentes, outros sonham em acumular o máximo de qualquer coisa para se vangloriar em sua própria mente, e para os outros humanos, achando que se sobressaiu os demais, por ser um guerreiro mais forte e mais ávido. Os sonhos de muitos que apenas desejam o que comer todos os dias, se torna mais surreais do que muitos que sonham em aumentar alguns dígitos em suas contas bancárias. Esta é a verdadeira face da desigualdade; a intensidade dos sonhos dos homens, pois um sonho pode ser considerado grande, de acordo com a intensidade que se sonha e a dificuldade ou tempo que leva para realizá-lo. E nada molda mais seus sonhos do que a fome; ela limita os seus sonhos e desejos em apenas algo de comer, ou seja, arranca literalmente as ambições e a capacidade humana de criar realidades, que de certa forma, é a receita para realizar os sonhos. Com fome nos tornamos animais comuns
  40. 40. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 41 com apenas o desejo de sobreviver seus segundos presentes. Por tanto, digo que a decadência maior do homem, é quando ele perde a capacidade de sonhar, ou quando seus sonhos são limitados apenas respirar, sem nem uma aspiração a mais. Fugi um pouco da narração, espero que o leitor não se irrite. As ideias nascem, e devem ser lançadas aos ventos, para que aqueles que possuem as redes corretas, às fisguem e as façam alimento de suas almas. Voltemos então à narração de minha história... Depois de ter adquirido com honra vários hematomas, fiquei sem muitas opções, a não ser, permanecer ao chão ali me contorcendo de dor; curumim aproximou-se e começou com um leve grunhido lamber a minha orelha. Não sabendo o que se passava em sua cabeça, ao menos criei a sensação que ele queria aliviar a minha dor e sentia compaixão. Não destas que se aproxima do sentimento desprezível que chamamos de pena. Daquela compaixão cheia de toda honra, sendo que estava fazendo tudo que ele podia para ajudar, mesmo com suas limitações físicas que não lhe permitia fazer nada além. Sei que se ele possuísse patas fortes o suficiente, me levantaria daquele local sujo e tentaria aliviar minha dor com este gesto sincero. De certa forma ele o fez, pois conforto maior talvez não possa
  41. 41. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 42 descrever em todo o restante deste livro após este fatídico dia. Recordo-me com clareza das lágrimas que me esquentaram o rosto com sensação de conforto úmido e quente ao presenciar aquele ato de Curumim. O trouxe com os movimentos que me restavam junto ao meu rosto que se desmanchava em lágrimas. Curumim talvez com a sensação que nada podia fazer, além do muito que já havia feito, resolveu então se igualar as minhas condições na compaixão honrosa que descrevi anteriormente; deitou-se e levemente deixou sua cabeçinha deslizar em meu pescoço sujo de tudo que a vida havia me propiciado até então; permaneci ali a eternidade que todo homem é capaz de criar no universo de sua mente.
  42. 42. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 43 Capítulo 6 Como eu queria que livros tivessem trilhas sonoras; a cada página ou capítulo, uma parte de uma trilha clássica, criada exclusivamente para este livro, seria acionada. Uma suave música que despertasse o sentimento do leitor para as emoções e lições que seus relatos repassam ou deveriam repassar. Ao menos aos leitores mais atentos, estou certo, que estas palavras sinceras a de ser útil de alguma forma. Existem certos tipos de leitores que se pudesse colocar alguma porção mágica neste livro, para que não conseguissem ver as palavras nele escritas, o faria de bom grado e sem medo algum de estar sendo injusto; existem pessoas que não lêem, decodificam símbolos, não falam, emitem sons, não compreendem os silêncios, compreendem apenas gritos que nada dizem. Estes tipos de leitores são menos que os cães que não podem falar. Eu sei que os cães dizem muito mais do que alguns que falam pelo os cotovelos. No entanto, caro leitor, que se encontra lendo estas palavras, digo-lhe que se chegou até esta página, é de veras um merecedor de estar lendo este livro, e com honra, iremos juntos
  43. 43. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 44 terminá-lo. Se naquela época curumim era meu fiel escudeiro e meu principal objetivo na vida, hoje tu és meu companheiro nesta velhice que com muita honra é vivida. Depois de minha eternidade, deitado e me contorcendo de dor, fui obrigado a levantar e recolher toda a sujeira que eu acabara de fazer; por muito tempo acreditei que eu era o único culpado por aquele ato. Ouvi do senhor gordo, que se eu tivesse feito meu trabalho direito, nada daquilo teria acontecido. Aquele senhor tinha um poder de persuasão desprezível, pois fingia estar fazendo o bem para adquirir vantagens das crianças e indefesos que o acompanhava em sua empreitada desonesta. Recolhi toda a sujeira ainda soluçando, curumim sempre ao meu lado. Depois do trabalho concluído, poderia ter ido embora, ter corrido desesperadamente até a antiga praça, para o aconchego das raízes do tamarineiro, porém algo me impedia de dar os primeiros passos; um misto de incertezas com medo, uma curiosidade estranha, um desejo de saber que vantagem poderia eu adquirir com aquele homem que parecia estar me dando razões para viver. É tão simples prender uma criança que não tem ninguém que a aconselhe, que demonstre o certo ou o errado. Encontrava-me preso aquele local, por ser criança, por ser indefeso, por ser sozinho. Penso que sequer possuía
  44. 44. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 45 personalidade, e por pouco a vida junta aquele homem gordo, de bigode engraçado, não me impediu de construir uma personalidade forte que com honra descreverei neste livro. A noite se aproximava, um azul escuro já me enchia os olhos em contraste com luzes e com lonas que agora já formavam uma grande estrutura no terreno aberto de outrora. Homenzinhos corriam apresados, outros maquiados, com maquiagens que lhe forçavam o sorriso. Eu todo sujo caminhava com curumim nos braços, encantado com toda aquela vida. O Homem barbado dava ordem nos arredores a muitos que se apressavam para preparar algo que se iniciaria mais logo. Ele notou-me sem rumo, ali apenas observando; haviam pessoas a correr. Inclusive os três moleques travessos que me furtaram Curumim. O homem gordo, logo nota em mim o mau cheiro que não suportava o nariz e qualquer outro órgão sensitivo. Pediu- me, ou melhor, ordenou que fosse até uma torneira molhar as fuças para arrancar de mim o mau cheiro insuportável. O fiz inconscientemente. Depois de já molhado, talvez não limpo, mais úmido. Trouxe-me bola uma vestimenta colorida e pediu que me livrasse das antigas. Ele demonstrava uma submissão que não havia quando me surrara anteriormente. Poderia ter percebido nestes atos, que aquele homem gordo de bigode
  45. 45. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 46 engraçado não era um bom samaritano, porém a inocência e a minha falta de vida, não me proporcionaram este raciocínio naquela pouca idade de sofrimento inconsciente. Tirei as vestes com um pouco de vergonha, a roupa era uma calça marrom, poucas foram às vezes até aquele momento que tinha visto vestimentas de cores tão fortes. Uma camisa de botões vermelhos e grandes, e um colarinho engraçado que deixava meu rosto com aparência de um botão de flor, tamanha era uma estrutura engraçada que dava uma volta completa em meu pescoço de mesma cor dos botões em contraste com o verde da camisa. Gostei das cores, em muito tempo era uma das poucas vezes que tomava o que poderia se chamar modestamente de banho. Passei alguns minutos girando em torno de mim mesmo apreciando a roupa colorida, até que um dos moleques magros me trouxe um chapéu. Um chapéu tão engraçado e gracioso, ao menos a meu ver de criança. Um chapéu em formato de triângulo com bolas em três pontas em suas extremidades, com partes vermelhas e verdes que se alternavam dando um colorido vivo ao chapéu e aquela roupa que me deixou leve e feliz. Depois fui direcionado, ou instruído a ir a um local onde tinham várias panelas reluzentes e grandes. Foi-me oferecido
  46. 46. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 47 por uma senhora de grandes brincos e lenço na cabeça colorido uma gosma de nutrientes, não creio que poderia ser chamada de comida aquela gosma branca. Com a fome costumeira devorei parte do que me foi oferecido e o restante eu coloquei no chão para curumim saciar sua fome. Notei que ele teve mais receio do que eu em encostar-se à comida aparentemente pouco atraente. No entanto, sua fome e os instintos lhe falaram mais alto, e devorou com voracidade o mingau pouco saboroso. Ainda hoje me pego raciocinando sobre que ingredientes poderia haver naquela gosma, e não chego à conclusão alguma. Penso até que se acaso me aproximar desta descoberta, a julgar pelo o gosto que me recordo, creio que não chegue a uma conclusão agradável, pelo que, prefiro não me aprofundar demais neste raciocínio para evitar náuseas. Sei que ao menos era rico em nutrientes, pois me suou a testa e deixou-me com força nas pernas para correr e até brincar inocentemente com curumim que também demonstrava uma energia incomum. Depois de algum tempo passado, pessoas se aproximavam daquele local, que agora tinham um ar de alegria, música animava o local, e uma voz saia de qualquer canto anunciando um espetáculo circense que se iniciaria logo. Eu fiquei escondido em um local donde dava para ver as pessoas
  47. 47. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 48 que aos poucos se aproximavam e enchiam aquela grande estrutura erguida no chão úmido. Até então não tinha entrado as dependências da grande lona colorida que me inspirava qualquer coisa que nunca soube. Resolvi sair de meu esconderijo e explorar mais um pouco toda aquela vida aos arredores. Depois de andar apenas alguns passos, bola me encontrou e disse: - Por onde andou moleque? O grande mago Big Man deseja vê-lo antes de começar o espetáculo. Ele não esperou sequer minha reposta positiva ou negativa. Também pouco importava a minha opinião a todos que vivenciaram comigo esta parte da minha vida; Segurou em meu braço e educadamente, forçando minha caminhada, fui levado para dentro da mesma grande carruagem de outrora. Ao adentrar, notei um grande homem de bigode engraçado com vestes azuis, repleta, em toda parte, de estrelas coloridas, e um grande chapéu que hoje chamo de cartola seguindo o mesmo estilo de suas roupas. Ele disse em um tom forte sem olhar nos meus olhos mexendo em uma grande mala também toda colorida. Aquele local definitivamente era repleto de cores, se cores representasse alegrias, a vida naquele lugar devia de ser uma festa eterna.
  48. 48. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 49 - O que sabe fazer garoto? Esta era uma pergunta que não tinha reposta. Embora quisesse que tivesse algo que dizer que fosse para ludibriar aquele homem de aparência assustadora. Permaneci estático, um garoto sem vida e parado obstruído por um olhar profundo e suado de um homem mágico que sumiria com a calma de qualquer um. Ele gritava: - Como não sabes fazer nada? Algo deve saber! Ao menos falar que seja. Disse ele. Eu, nada disse, permaneci em minha mente como um animal acuado. A imagem daquele homem jamais saíra de minha mente; seus gritos de ódio, salivados e fétidos que batiam em meu rosto flácido. Hoje me vejo como se aquele dia tivesse saído de meu corpo e como em um sonho via a cena do alto. O mágico Big man, com o dedo indicador quase que furando os meus olhos, o mundo girava e ele gritava desaforos, quem dera fosse apenas desaforos: - Que garoto inútil, não merece viver, se nada sabe fazer. Estas palavras em conjuntos com palmadas, tapas, talvez até chutes, pancadas e muitas outras palavras que para não honrá-lo de forma alguma irei citá-las aqui. Não o agraciei aquele dia com as lágrimas que de certo aquele homem queria. Se acaso
  49. 49. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 50 agora o tornar-se humano, mesmo que minimamente, não seria justo com esta narração, nem com a minha história de vida. Sabendo eu que a arte dos palavrões é uma das características humanas mais peculiares seria humanizar demasiadamente aquele homem que por inúmeras vezes me marcou os couros. Parecia que a vida havia me destinado a pancadas e impropérios. Eu, de forma alguma, aceitava de bom grado aquelas surras sem sentido, ao menos, em minha mente, embora meu corpo frágil nada pudesse fazer para impedir. Mais uma vez naquele dia fui espancado pela a vida que nem ao menos aquela época sabia que tinha. Curumim, este não aceitava as injustiças, no entanto desta vez não me deixaram subir com ele a carruagem. Que de certa forma, fora algo vantajoso, pois lhe poupou a vida. Creio eu, que certamente, ele não resistiria um chute que fosse daquele homem. O mágico gordo, e, horrendo me espancou por algum tempo, aquele bafo quente me falava malicias, sentia uma ira naquele homem que de certo não havia sido eu que a provocara. Depois dos braços já cansados, o mágico Big Man decidiu parar de bater, e numa suave conversa, fingindo nada ter acontecido, diz- me com a voz de um bom samaritano.
  50. 50. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 51 - Irás aprender a fazer algo. Dar-te-ei o talento. Neste circo todos são bem tratados, e tu não serás diferente. No gesto estranho e como quisesse redimir-se do que havia feito. Ele arranca meu chapéu, e passa a mão em meus cabelos, com uma total falta de culpa, ou melhor, com todo remorso possível na mente, estes gestos apenas lhe serviram para arrancar de si talvez algo que ele repugnava, no entanto não conseguia evitar. “Vamos saia, preciso preparar para minha apresentação.” Digo que levantei a duras penas, a dor já não importava muito. Temos dores eternas, que são substituídas por outras mais intensas e assim sucessivamente, elas não somem, apenas esquecemos que a sentimos constantemente, pois são sempre substituídas por outras. Uma dor menor é curada por uma dor maior. Sai aos trancos, desci os degraus da velha e grande carruagem com a mão ao abdômen, tudo em mim doía em uma intensidade inocente. O pior das dores inocentes: é que elas amadurecem inevitavelmente. Daquela vez, não consegui me agarrar em curumim, ou em seu forte respirar para amenizar as dores. Caminhei a passos lentos até o feno próximos a alguns cavalos em um local coberto
  51. 51. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 52 para proteger alimentos e os animais da chuva. Deitei-me ali, curumim seguindo meus passos, se acomodou um pouco distante. Até então ninguém me compreendia tanto quanto ele. Curumim fitava-me distante, no constante abrir e fechar de olhos. Parecia-me que ele cuidava de mim de longe, não se aproximava por que compreendia minha dor. Dormi o mais profundo sono de tentativa de esquecimento. O Caro leitor deve estar se perguntando: Por que ele não foge? - Já te respondi esta pergunta em capítulos anteriores, se não te recordas, aconselho que volte a leitura um pouco.
  52. 52. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 53 Capítulo 7 De manhã, o sol nasceu com uma cor opaca, mais uma cor nova. Fazia tempos que não acordava em outro local, a não ser na praça da cidade. Já havia até esquecido os acontecimentos da noite anterior. Curumim já brincava com uma folha seca um pouco distante. Logo que acordei, ou fui acordado por o garoto gordo que todos chamavam de Bola. Orientou-me aos gritos, que fosse tomar o café rápido que o dia seria longo. Tais palavras soaram como música aos meus ouvidos, eu iria tomar café, sem ter que buscá-lo com as próprias mãos. Sensação que durou pouco, pois logo ao chegar onde os peões comiam; notei que mais uma vez iria me deliciar com o caldo nutritivo de outrora. Deliciei-me aos custos da vida, e coloquei um pouco em uma velha tigela de argila que se encontrava por ali para que curumim também pudesse alimentar-se e se manter de pé por mais um dia. Ao terminar o manjar, fui instruído e levado ao que todos chamavam de picadeiro, chegando lá começaram os treinamentos. O mágico big man estava a minha espera, não mais com suas roupas coloridas, mais o velho bigode assustador
  53. 53. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 54 se encontrava no mesmo rosto suado de sempre. Estando lá tímido, o velho homem pediu-me que dançasse qualquer coisa, qualquer movimento serviria para ele analisar o que seria mais apropriado as minhas condições. Notando ele que permanecia estático, sem ao menos mexer um dedo sequer, ele gritou forte com uma voz de trovão. - Vamos! Mexa-se! Grite qualquer coisa. Com receio de passar por outra surra, timidamente comecei balançar os braços em um profundo silêncio. Tinha total controle de meus membros que se mantinham firmes, como se minhas mãos fossem partes de uma estrutura que não pertencia ao meu corpo, e as mantinha em um movimento como se estivesse alguma parede invisível a minha frente. Era o movimento que me saia da mente no profundo desconforto daquele instante. Era como me sentia: preso inconscientemente dentro de minha própria mente. Logo, diante daqueles singelos movimentos, a mente do homem do bigode de abutre se encheu de ideias. Ele começou analisar de perto, meus braços flácidos e fortes. Curumim, sempre próximo a mim, entrançava entre minhas pernas em uma
  54. 54. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 55 alegria comum aos cães. Se ele falasse naquele instante, com certeza usaria de palavras motivadoras: - Dance garoto. Dance! Se não, este homem mau mais uma vez irá adicionar algumas manchas rochas as tantas outras que já enfeita seu corpo. Curumim, sempre sereno, dava-me a força e a coragem que me faltava naquele instante. O homem tinha lá seus talentos, e diante dos meus gestos, sem qualquer expressão oral, alinhando as pontas do bigode, o gordo suado, disse: - Teu talento me parece inclinar-se para pantomima, já que vejo que não gosta de falar. Parece-me que falar sequer é uma de tuas virtudes. Garoto do silêncio. Precisamos apenas dar um sentido cômico a teus gestos desprovidos de vozes. Enfim, um sentido que divirta o público, como tu não gostas de falar, teus gestos de certa forma já tem algum sentido de fácil compreensão. Facilitará e muito o trabalho. Tu exercitarás a arte milenar da mímica, que tanto divertiram os gregos e franceses antigos, e ainda hoje tem muitos de seus representantes que fazem sucesso. Estávamos precisando de alguém com este gênero. Agora o único entrave é este cão, creio que ele não irá acrescentar nada a teu aprendizado.
  55. 55. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 56 O homem então pediu ao Bola, que fosse pegar a maquiagem que ele usava nas apresentações de mágico. Bola acompanhava o treinamento forçado de perto, não inteiramente forçado. No fundo, a ideia de aprender algo novo me era bem vista. Ele correu, rapidamente trouxe o que o homem pediu. Tão rápido quanto Bola trouxera a maquiagem, foi o tempo em que o homem levou, para desenhar em meu rosto qualquer coisa que não vi, pois ali não haviam espelhos. Terminado a maquiagem o homem disse: - Agora imagine objetos a tua frente, estes objetos impedem tua saída, tu estás preso a uma grade imaginária e tentas a todo custo sair. Mantenha as tuas mãos sempre no mesmo plano, para que a grade imaginária seja real para quem assiste. Tais palavras e exigências não me era preciso interpretar a tanto custo, já que minha situação real não era lá tão diferente do que o senhor de bigode descrevia. Iniciei a minha tentativa de fuga da prisão imaginária (prisão, pelo que creio que todo homem vive, e tão poucos fogem) curumim tentava a todo custo entrar na dança, mas pouco ele compreendia de tudo aquilo. Diante dos fatos, e vendo o meu pretensioso professor que o cão estava por atrapalhar os andamentos dos treinos. Pediu ele que Bola o retirasse para um
  56. 56. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 57 local seguro, longe dali: - Cuide para que nada de mal lhe aconteça. Ouviste bola?Bola, com um gesto qualquer de confirmação pegou Curumim e seguiu para fora do picadeiro. Calmamente o homem dizia: - Sentimento! Ponha teus profundos sentimentos nos gestos. Diante da situação, preocupado com Curumim, que saíra com bola que ao certo bem não lhe queria. Comecei a tentar fugir das grades que no momento já me eram bem reais. Dentro do desespero que me saiam dos olhos, Tentava fugir para recuperar meu cão. Já que não podia, eu buscava trazer meu cão com os gestos condicionados as exigências, que os olhos suados do mágico Big Man pediam-me com palavras. Pensava que com certeza, Curumim estava em sérios apuros. Vendo tais gestos de desespero, que transpareciam verdade, o homem começou a rir, e me incentivava a continuar com os gestos e principalmente com a expressão facial que era muito engraçada. Risos são gestos particulares de quem ver, não de quem o faz rir. Continuou o homem: - Muito bem! Agora te imagine em um cais, puxando
  57. 57. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 58 um barco na água por uma corda. Sendo que o barco muito pesado, o faz com grande esforço. Sem muitas escolhas e já gostando das ideias, o fiz com todo afinco. Continuou com as instruções: - O barco de grande porte ao chegar ao cais, machuca teu dedo e a dor te é insuportável. Passe para mim que te olha, esta dor desesperadora. Gesticulei o que ele pediu-me com tanta vontade. Que o homem gordo e vivido quase cai ao chão de tanto rir. - Por hoje basta! Amanhã continuará. Peça que Bola lhe entregue o cão. Sai em disparada a procura de meu fiel escudeiro. Logo encontrei Bola a brincar com ele, sentado em um pequeno tamborete, não sei se curumim também brincava, sei que ele não deixava muitas opções para que ele fugisse. Corri e o arranquei dos braços de Bola, que em um gesto infantil, fingiu que ia me socar a cara. No entanto, deu-me o cão e entrou na grande lona.
  58. 58. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 59 Capítulo 8 De dentro daquele local; saiam gritos eufóricos, e luzes que me instigou a curiosidade. Sem muitos entraves, adentraram a grande lona colorida, hoje penso que não tinham proporções tão gigantes aquela lona, eu é que era pequeno demais. Ao adentrar suas dependências, fiquei logicamente encantado, era um mundo totalmente novo; pessoas se divertiam loucamente, pais e filhos em uma alegria só, apreciando duas figuras coloridas, que faziam brincadeiras gritavam coisas engraçadas. Acomodei-me aos poucos por baixo da arquibancada e permaneci observando a apresentação por o tempo que ela se sucedeu. Enquanto os dois se apresentavam, eu sonhava. Neste dia tive a consciência que era um sonhador nato, pois tudo que via tudo mesmo, me imaginava fazendo, não só imitando, me imaginava fazendo melhor, recebendo muito mais aplausos. Essa característica me tornou o que sou hoje e jamais a perdi. Mesmo, nesta honrosa velhice que vivo ainda me pego sonhando de vez e sempre; quando vejo alguém a desenvolver qualquer desempenho artístico, imaginado que teria capacidade de fazer melhor, assim
  59. 59. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 60 como fazia quando era criança ou adolescente. Depois de um curto período, as duas figuras se retiraram sobre uma salva de palmas, não maior do que aquela que eu receberia se acaso tivesse sido eu a me apresentar, na entanto, era uma razoável salva de palmas. Um pequeno intervalo, antes da apresentação principal da noite, foi avisado previamente, por um homem que tratava o público com respeito. Fiquei logo curioso para saber que apresentação seria. O homem então fala alto, que seria a apresentação do maior mágico do mundo, o mágico Big Man. A minha curiosidade só aumentava com o tempo. Permaneci embaixo da arquibancada com meu cão, ouvia alguns sussurros das pessoas acima de minha existência ainda que insignificante; diziam a sorri; que adoravam show de mágica ou qualquer coisa parecida. Depois de um tempo relativamente longo, pois minha curiosidade era maior que qualquer coisa naquele momento. Entrou em cena uma grande caixa, e uma mulher formosa e bem feita com pouca roupa. Logo depois foi dito por um homem, algumas falácias ilusórias para anunciar a entrada do grande mágico Big Man. O homem gordo entra, na mesma hora do anúncio, sobre uma leve salva de palmas, com um grande sorriso no rosto, e com as mãos para o alto cumprimentando o público.
  60. 60. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 61 O grande mágico por assim dizer, fez alguns truques baratos, com um talento louvável. As crianças estavam fascinadas com o homem pintado, que fazia fogo com as mãos, sendo que a cada novo truque, gritos inocentes ecoavam por entre a pequena grande lona daquele circo. Depois de um tempo, preparava o maior mágico do mundo, o truque principal da noite. Iria ele perfurar a bela moça, com espadas, sendo que ela ficaria dentro da grande caixa que veio a cena antes da entrada do próprio mágico. As pessoas esperavam ansiosas, o tempo passava ao som das vozes dos ali presentes. O mágico Big Man então, suavemente apresentou a mulher, lhes mostrando o corpo por trás e pela frente. E com as mãos, em um gesto firme, segura a mão de sua assistente, lhe dando apoio para entrar na grande caixa, do qual suas dimensões davam para confortavelmente comportar a moça de pé, deixando apenas sua cabeça de fora. Um grande mágico fechou a caixa, girou trezentos e sessenta graus, e então pegou nas mãos a primeira espada e a introduziu em um orifício na grande caixa. Logo notei que, era perfeitamente possível, que a moça ficasse em uma posição na caixa, de modo que, as espadas não lhe atravessassem seu corpo. A partir deste pensamento, perdi completamente o fascínio pelo o truque. Definitivamente, a
  61. 61. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 62 beleza nos truques está na fé de quem ver, na imaginação de quem assiste. Se soubermos como um truque é feito, perde completamente a graça, pois na verdade os seres humanos estão fartos da realidade, que sempre lhes mostra que o sobrenatural não existe. Então, qualquer um que lhes dê uma prova, mesmo que ilusória, do sobrenatural, eles se agarram, e preferem não buscar evidências para provar que na verdade é um truque, pois viver em mundo mágico é muito mais gracioso, do que viver a dura realidade da vida humana. Naquele dia, desejei nunca mais saber o segredo por trás de nem um truque de mágica. No entanto, sempre que via algo que parecia impossível na realidade humana, logo minha mente se enchia de explicações, plausíveis ou não, de como era feito o truque ou mesmo qualquer outro fenômeno sobrenatural, que pairava nas mentes rudimentares do povo da cidade. Este meu caros, foi o meu carma na vida, pois preferiria crer e viver estórias sobrenaturais sendo elas reais, pois ai a vida teria, infinitamente, mais graça. Por sorte, escrevo; crio e vivo minhas histórias, caso do contrário, cairia em melancolia, por a falta de tudo que é bom. O show desinteressante passou, o tempo passou tão rápido quanto. Curumim e eu nos dirigimos até o feno ao lado dos cavalos, dormimos por lá, como sempre ocorreu depois
  62. 62. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 63 daquele noite. Pouco se importavam comigo no circo, mais tarde descobri que não nos expulsaram de lá, por que viam vantagens em crianças inocentes.
  63. 63. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 64 Capítulo 9 Em uma noite, depois de passadas tantas noites iguais, sem nada de novo, apenas mais um espetáculo, mais pessoas que caminhavam com seus filhos a degustar pipocas, maçãs do amor, e outras guloseimas que me enchiam a boca de saliva. A fome como minha companheira constante, tão mais presente que Curumim, me enchia de sonhos pobres. Eu caminhava entre as pessoas, a observar com os lábios, indivíduos que comiam o que queriam; pessoas que tinham uma mão da qual se agarrar em momentos únicos. Tão fascinado fiquei, que me esqueci de curumim. Ele talvez estivesse ao meu lado, pouco importava, estava a observar a vida das pessoas. Eis que surge do nada o Bola. Pediu-me educadamente que fosse até a barraca do senhor Big Man, que ele tinha assuntos a tratar. Chegando à carruagem, o homem em seus preparativos para a sua apresentação, sentando em sua velha cadeira e emite em uma voz torra: - Tentas tirar a carteira que estar em meu bolso de meu casaco, como leveza suficiente de modo que eu não perceba. Sei
  64. 64. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 65 que é uma habilidade que se adquire com muito treino, no entanto tudo na vida é preciso que haja uma primeira vez. Notando mesmo de costas, que não havia feito o que ele pedia, ou outro movimento sequer, o homem se irrita e expressa em gritos: - O que há com teus ouvidos, acaso é surdo? Tais palavras estremeceram-me as pernas e todos os membros que tinha. O homem levanta-se em fúria, e sem pensar, reage com uma bofetada. Cuja tamanha força me jogou ao chão. Neste ato traiçoeiro, cai-me ao assoalho da carruagem. A carteira que há tempos já se encontrava comigo, fica ao lado de meu corpo que se contorcia de dor. Vendo que já havia pegado a carteira, o homem fica aturdido e indaga: - Como fizeste isto? Tens muito talento! Diante de tal proeza, não necessitas mais de treinamento algum. - Levanta-te! Vamos, antes que o agracie com mais uma pancada. Tolamente não levantei ao pedido do patrão. Ele então quase que arranca meus braços e levanta-me a força. Já com muito suor no rosto que cobria a maquiagem, com uma calma conseguida não sei de onde diz:
  65. 65. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 66 - Escutas com atenção o que deves fazer. Ficarás abaixo das arquibancadas, onde há muitos com muito dinheiro em suas carteiras. Deves observá-los e sem que percebam, lhes tire a carteira e me tragas. Não tenha nem uma crise de consciência, pois este dinheiro não é ganho por estes homens, honestamente. É provável que surrupiem das obras da ferrovia. O que faremos é apenas pegar de volta o dinheiro que eles já roubaram de outros. Nada mais justo, não achas? Instruiu-me o homem gordo: - Pegue apenas uma carteira por noite, se acaso muitos frequentadores tiverem suas carteiras surrupiadas na mesma noite, desconfiaram de alguém do circo. E não é bom para os negócios, saberem que integrantes do circo estão lhes tirando seu dinheiro, embora seja ganho desonestamente. Pois muito que bem, terás mais uma chance de me impressionar. - O homem gordo então me mostrou um retrato com quatro homens distintos, dos quais suas vestimentas se distinguiam ao ponto de influenciar e muito em sua aparência e indagou-me: - Qual destas figuras aparenta ter mais dinheiro? Apontei com o dedo a figura mais cheia, com gravata e chapéu. Durante a infância tinha a ilusão que pessoas gordas e com grandes barrigas eram ricas, pois só podia ser gordos quem tinha
  66. 66. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 67 o que comer todos os dias, tinha barrigas grandes por que andavam apenas de carruagens, e com certeza não trabalhavam na roça, nem praticavam qualquer esforço físico. Acreditem, tais ideias não me surgiram à mente do nada, pois tinha evidências de sobra que embasavam tais teorias. O único gordo que conhecia, era o dono da mercearia da esquina, e na minha percepção ele era o homem mais rico do mundo, pois tinha comida ao montes em seu estabelecimento, e podia comer sempre que quisesse. Essa era a minha ideia de riqueza na infância, hoje não mudou tanto... Passava horas no período em que vivi na praça, observando as mercadorias na prateleira da mercearia, adorava as cores, as letras e os produtos que sempre eram coloridos dentro das embalagens transparentes. Desenhava na areia amarela perto do tamarineiro, minha venda, com todos os produtos alimentícios que queria comer. Desde sempre, como já disse, fui o sonhador e ainda sou hoje, ainda coleciono embalagens de produtos antigos, pois sou fascinado. Hoje os alimentos não têm o mesmo gosto de antigamente, são coloridos, mas não tem a mesma vida, o mesmo significado de antes. Era tão raro eu comer um produto industrializado que com certeza eles tinham o gosto do manar dos deuses. Por esta razão, até hoje fico fascinado com as marcas antigas e as
  67. 67. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 68 coleciono. Todo grande medo, com o tempo ou se transforma em um grande fascínio ou em um trauma, fiz questão de transformar todos os meus grandes medos e mazelas em fascínio; a fome hoje é homenageada em minha vida, com este singelo gesto de colecionar embalagens antigas. Mas continuemos com a narração... Aquela escolha do homem na foto, foi o motivo para o homem gordo, irritar-se profundamente e me dar mais uma bofetada, que até nele, rendera algumas lágrimas se não, era seu costumeiro suor que lhe caiam nas bochechas rosadas. Sem razões, e com todas as razões aparentes, o homem se irritava com meu silêncio, ou com qualquer outra coisa que ilusionava em sua mente perturbada. Sei que depois de me recompor de mais uma pancada certeira, me veio o homem calmamente, como se nada estivesse acontecido, com até um aparente carinho no timbre de sua voz; ensinando-me qual deveria ser a escolha correta na foto; ensinava-me como um bom pai ensina qualquer coisa a um filho amado, dizendo-me: - Não verdes, que este homem que escolhera, apesar de aparentemente bem vestido; suas vestes estão amarrotadas, usa chapéu que não condiz com seu terno, suas calças não lhe cobre inteiramente as pernas, e suas botas estão sujas de lama? É de
  68. 68. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 69 veras um caipira, que não tem nada além de um alqueire de terra, que planta a duras penas, para alimentar sua pobre família. Eu apenas observava soluçando e ouvindo as lições que aquele homem me ensinava, ele continuou: - O que deverias escolher(e como sei que é um rapaz inteligente, vais aprender rápido a lição que te paço hoje) é este homem da esquerda; pois ele usa cartola, segura uma bela bengala, tem postura ereta no sentar e suas vestes impecáveis, combinam perfeitamente com as botas de um brilho estonteante, que provam que a pouco foram engraxadas. Nota-se de longe, que este é um homem de posses. Este é quem deves surrupiar a carteira... Digo, este é que deves recuperar o dinheiro que ele ao certo, rouba de outros. Os outros dois, eram vistos até por mim, de mente pouco desenvolvida, que eram de poucas posses; vestiam roupas rasgadas, tinham qualquer coisa na boca que se assemelhava ao um pedaço de capim, no entanto, o que mais evidenciava suas condições financeiras, eram seus rostos sofridos; boca com poucos dentes, cara sujas e queimadas do sol. A vida de todo homem, é evidenciada em seu corpo, há muitas poucas exceções a esta regra. Depois destas poucas lições, como já havia demonstrado as minhas habilidades inatas para ser imperceptível aos olhos do
  69. 69. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 70 homem, fui logo mandado a campo. Com o medo inocente de toda criança, adentrei por entre as vigas que sustentavam as arquibancadas do velho circo junto com Curumim. Comecei a observar as botinas de todos que apreciavam o espetáculo. Depois de muito observar e só ver botinas de couro suja de bosta e de lama, pés de crianças a balançar livremente, notei uns pés, com sapatos limpos que brilhavam de longe, seguido por boas meias que subiam umas pernas brancas que ao certo, pouco via a luz do sol. Logo associei aquelas sapatos ao homem da foto. Como sabia que os homens guardavam seus dinheiros nos paletós, o processo da arquibancada, era apenas para observar o alvo; vigiar se ele comprava pipocas, ou maçãs do amor, se estava acompanhado ou não, em fim construir o perfil da vítima, e só então na saída, pegar a sua carteira que ao certo estaria cheia de dinheiro. Depois de memorizar as cores das vestes do homem, e observar que ele sempre comprava mimos e doces para umas pernas que balançavam ao seu lado; de certo de uma menina que seria sua filha; ela vestia meias de cor branca, seus sapatos, eram tão limpos quanto aos do homem, ao seu lado. Sabia que tinha feito a escolha certa. O tempo passou, mais uma vez assisti ao espetáculo de mágica do maior Mágico do mundo. Em circos pequenos, são sempre as
  70. 70. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 71 mesmas piadas, as mesmas apresentações todos os dias, no entanto, nunca me chateavam. Cada vez que via os palhaços, até mesmo o mágico, era sempre uma nova oportunidade de observar e ver algo que não havia visto antes, o fascínio era o mesmo. Ao término de todas as atrações, já quase esquecendo minha missão, devido estar boquiaberto sonhando como sempre, no entanto, surgiu em minha mente a realidade; sai a correr por entre as pessoas em busca de achar o homem dos sapatos bem cuidados, cujo havia notado no primeiro momento. Logo o vi, com seu terno azul escuro, segurando a mão de uma menina de vestido rosa, sempre a mordiscar qualquer coisa. Dei a volta em todos, e vim em direção contrária ao homem, sai abrindo espaço por entre aquela multidão, curumim fazia o mesmo, correndo sério risco de ser pisoteado. Chegamos perto do homem, e em um gesto bastante discreto, olhei em seus olhos, não tive tempo, e nem quis olhar a menina que o acompanhava. Então fingi que esbarrei nele, e com habilidade peguei a carteira em seu bolso esquerdo. Depois de feito, apenas segui meu caminho, peguei Curumim no colo, e segui em frente, nervoso como nunca, tremendo como nunca. Quem diria que fazer algo errado seria tão difícil. Apesar de seguir as instruções do homem
  71. 71. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 72 mau e gordo, por nem um momento eu acreditei em suas falácias, sabia que o que estava fazendo era roubo. Se existe algo que aprendi com uma figura feminina que me criara; é que pegar o que não lhe pertencia era errado, e era pecado, e um ser poderoso lá do céu, me castigaria por isto. O que não podia, no entanto, era desobedecer ao homem que me batia sempre, pois doía. É humanamente digo: que doía. E no fundo achava que devia qualquer coisa ao homem que me dera um abrigo, que me dera comida, em suma: havia proporcionado um sentido para a minha vida. Enquanto criança, qualquer abrigo é um castelo. E qualquer um que dê ordens é um rei. Então me dirige até a carruagem do grande mágico Big man, adentrei e sem olhar o conteúdo da carteira, entreguei ao homem que retirava a maquiagem, ele olhou e disse: - Pois muito que bem, vejo que já me rendeu lucros. Vejo que é um bom menino. Depois de dito isso, um silêncio, um olhar fulminante em meus olhos e disse o homem suado: - Por Deus, moleque! Fale qualquer coisa que seja, notei que não és surdo, então por que não falas? Permaneci, sem saber o que dizer, e resolvi que o silêncio seria o melhor, então nada disse. O homem em uma fúria, fúria esta que vinha de
  72. 72. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 73 qualquer recôndito de sua mente. Em uma ira, assim de repente, e falando palavrões começou a me bater mais uma vez. Recordo de umas poucas palavras que dizia enquanto me enchia de pancadas: - Ah, então se acha esperto, seguro de si, um verdadeiro cavaleiro que nada fala. Não acha que seja útil as palavras? Tantos as utilizam e tu por ser especial, não? Vejo que se acha melhor que todos, Curumim soberbo. Enquanto me esbofeteava, eu o ouvia e ouvia... Depois de já cansado, o homem sentou-se em sua cadeira de couro, olhou-se no espelho, e baixou a cabeça, mais uma vez tentou olhar no espelho, no entanto, não conseguia permanecer se olhando. Devia estar ele, repugnando a própria imagem, repugnado o homem que era, e o homem que não conseguia ser. Depois de uns suspiros, o homem dócil volta; pegou três doces em uma caixa colorida, e me entregou. Eu ainda soluçando, recebi os doces, já um tanto feliz, já esquecendo o que ocorrera há segundos atrás. A vida lhe é dócil, lhe é boa, até certo tempo. Nisto, o homem acariciou minha cabeça e pediu educadamente que me retirasse. Desci as escadas, abracei curumim que sempre me esperava fora da carruagem, e dirigi-
  73. 73. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 74 me até o local onde sempre dormia, comi os doces, dei um pedaço qualquer a Curumim, que o devorou habilmente. Deitei- me e dormi; dormi um sono justo, refletindo sobre a dor que havia sentido, a dor que sentia todo dia. Depois de várias surras e impropérios que aquele homem me dizia, passei a sentir um remorso, algo que me repugnava, embora não soubesse o que era. Passei a ter pesadelos, muitos deles, mais acordado, do que dormindo; sonhava em acordar no dia seguinte, com o tamanho de um gigante, para poder girar o grande homem gordo nas mãos, e o jogá-lo para longe, para que eu nunca mais pudesse vê-lo. No início eu não fugia daquele circo, por que não queria, tinha curiosidade, precisava me segurar em qualquer coisa; depois de um tempo, eu já não conseguia, o homem gordo influía em mim certo poder, cujo não me permitia sair e ir embora. Era algo inconsciente, algo que me segurava, é como em um pesadelo, em que nada te segura às pernas, a não ser seu próprio medo, e você não consegue se mexer. Assim era como me sentia, um ser livre atado por um poder invisível que desconhecia: quantos no mundo não vivem no mesmo impropério e não percebem. Descontava estas minhas dores, de quando em quando, em Curumim; dava-lhes pequenas surras,
  74. 74. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 75 que logo após, arrependia-me profundamente, e o abraçava como nunca. Certa vez, Curumim, depois de eu lhes agraciar com uns bons chutes, irritado por ter apanhado do homem gordo de bigode; se afastou, sentou-se ao lado, olhou para mim com os olhinhos tristes, mudou o campo de visão, e depois como que quisesse que eu estivesse arrependido do que fiz, olhou-me mais uma vez com esperança. E repetiu este mesmo gesto por três vezes, enquanto eu permanecia irritado. -Não me aguentei ao descrever estes relatos e hoje choro, no dia não chorei, porém hoje choro as lágrimas dos arrependidos. Mesmo sendo sabedor que não fora minha culpa, aquela e outras pequenas surras que acabei por dar em Curumim.
  75. 75. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 76 Capítulo 10 Passou-se uns dias, eu sempre furtava uma carteira ou outra; Bola e os outros garotos seguindo as ordens do grande mágico Big Man, iam sempre à cidade para roubar outros bêbados. O mágico instruiu-me que não furtasse todos os dias, era preciso certo intervalo, para mão dar nas vistas. Sempre treinava a arte da pantomima, e já me encontrava em um nível aceitável. Assim era a vida no circo, furtos e espetáculos, sempre muito rentáveis para o homem gordo, que pensava até fixar residência naquela cidade tão lucrativa. Depois de um tempo, enquanto treinávamos, o homem disse-me, que já me encontrava pronto para minha primeira apresentação. Confesso que fiquei entusiasmado, seria a chance de me expressar, de colocar para fora minhas dores, minhas frustrações com a vida. Ensaiamos quais atos faria na apresentação, quais gestos fariam o público rir; decidido tudo, esperei ansioso a noite chegar para me apresentar. Ao chegar à noite, as pessoas enchiam as arquibancadas, crianças, adultos e idosos, todo tipo de gente buscando uma fuga
  76. 76. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 77 rápida da dura realidade, ou não... Eu me encontrava daquela vez, do outro lado, naquela noite, eu seria o artista. Confesso que estava me sentindo bem com isso. Eu já compreendia a vida, pois se cresce mais com a dor, do que com qualquer outra coisa na vida. Eu era um homem realizando um sonho, ou talvez fosse eu, uma criança, realizando o sonho maduro de um jovem que já muito havia vivido. Não ouvi nada, e pouco vi até a hora de minha apresentação. Curumim brincava e mordia minha perna, enquanto em minha ansiedade, eu o ignorava. Fui maquiado, por uma moça de longos cabelos loiros, que desta vez me foi permitido ver como era a maquiagem; estava pintado todo o meu rosto de branco, e meus olhos eram contornados com uma cor preta; as sobrancelhas eram pintadas em parte distintas da testa, de modo que elas me davam um ar triste e engraçado; uma lágrima também foi pintada na minha bochecha direita, assim fiquei um menino ironicamente triste. Foram-me tiradas as roupas coloridas que há tempos já usava, e me colocaram uma camisa de listras pretas que se alternavam com brancas, uma calça preta, e grandes sapatos de palhaços coloridos. A me ver no espelho, fiquei fascinado com minha nova figura. Feliz, eu girava defronte ao espelho em plena felicidade. Curumim, este então parecia muito feliz, enquanto
  77. 77. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 78 puxava com a boca o bico longo de meus sapatos. Era chegada a hora, o tempo, apesar da ansiedade e insegurança, passou rápido até demais aquele dia. Se bem que, nas lembranças raramente se consegue, de veras, detalharem o tempo com uma certeza razoável. Logo chegou à hora de minha apresentação; fui anunciado pelo o mesmo homem elegante que anunciava todas as apresentações do circo que se chamava Ellegance. O Nome em inglês dava a sofisticação que as dependências do circo, muito precárias, não davam. Pensei eu agora, que deveria descrever todo o circo e tudo em volta, nos seus mínimos detalhes. Pois, pelo o que vejo na literatura de tempos atrás, e até na literatura de hoje; os autores preocupam-se demasiadamente em descrever os lugares por onde passam, dando muitos sinônimos para locais, até mesmo rústicos, sem muitas necessidades, creio que para abrilhantar suas obras. Estes autores acabam por tornar a leitura um tanto aborrecível ao leitor. Sendo assim, não seguirei o exemplo de meus colegas, como Júlio Ribeiro, pois li a pouco, um de seus livros, que tem como título “A carne”; Apesar de ser um bom livro, e de ter aprendido muito com a leitura, a sua descrição de cidades como “Santos” e outros lugares, não tão
  78. 78. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 79 interessantes, nas viagens do personagem Barbosa me chatearam um pouco. Estas descrições acabam por tornar a leitura menos prestigiosa. Não poderia eu, um reles escritor, compreender as razões de mestres da literatura, talvez eles precisassem provar que conheciam determinadas áreas de conhecimentos para tornar suas obras modernas e verídicas. Peço então ao leitor desculpas por minha falta, caso goste destas descrições, sempre repleta de belas palavras, que tornam qualquer obra mais elegante e árdua de se ler. Prosseguimos na narração, que melhor aproveitamos nosso tempo. Depois de anunciado, timidamente dirigi-me até o centro do picadeiro, fitei as arquibancadas lotadas. Ao observar em volta e ouvir os aplausos, acabou por se esvanecer toda a minha vergonha, isso, apenas ao pensar que estava sendo visto por todos. Maquiado como estava, ninguém me reconheceria, sendo assim, pela a primeira vez naquele circo; senti-me livre, senti uma liberdade que nunca havia sentido antes na vida. Tinha um nome artístico, do qual fui anunciado, aquele dia, recordo- me bem dele, no entanto não o colocarei neste livro, é meu livro, e resolvi que não darei a honra ao homem gordo, ter sido responsável, por algo que se eternize em mim. Não por fuga, não é por trauma, nem por ser um covarde, muito pelo o
  79. 79. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 80 contrário, é um ato de coragem, pois se tem algo que as ruas me ensinaram, foi não ser um covarde. Na verdade, as ruas não me ensinaram tal lição, apenas não me deram a oportunidade, a escolha, de ser um covarde. Pode ter havido em algum momento, nestes meus mais de setenta anos, que eu tenha fugido, porém lhes digo: que mesmo estes atos de fuga, foram na verdade o mais puro ato de coragem e honra. Então comecei a me apresentar... Apenas movimentos comuns, típicos da arte da mímica. No entanto, senti-me forte, senti-me um deus, e nada podia me impedir de voar, e voava em minha mente, voava na mente das pessoas... Senti-me livre ao ponto, de deixar o roteiro ensaiado, e comecei seguir meus próprios anseios, sentindo-me livre com nunca antes em toda a minha vida. Iniciei então, a fazer o que me vinha à mente: Mimicamente fiz parecer ao público, que tinha um senhor bem vestido ao longe; e eu então instruía uma criança a observá-lo, e com a mímica, o ensinava a se aproximar do homem elegante, sem que ele percebesse. A platéia ria ao montes, enquanto ia em direção ao homem ilusório, e como este homem me olhava de vez e sempre, então eu fingia fazer qualquer coisa para disfarçar, como: contar alguma coisa no céu, ou que andava despreocupado pelo o caminho, assoviava, olhava o relógio que
  80. 80. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 81 não tinha no casaco, para que ele não percebesse que eu ia a sua direção. Ao chegar ao homem peguei qualquer coisa e sai correndo, tropecei, as pessoas caíram na gargalhada. Voltei com o prêmio, mesmo a duras penas, porém comemorando. Depois deste ato, com gestos firmes comecei empurrar o meu pupilo, em direção ao homem para fazer o mesmo, sendo que ele resistia bravamente. Sem demonstrar que ia de boa vontade, o homem então começava a espancar seu pupilo, em momentos eu representava o mestre, em outros o pupilo, o público ia ao êxtase. Sendo que soluçando e limpando o rosto, finalmente o garotinho, timidamente saiu em direção ao homem, que ao certo, se encontrava ali, à esquerda. Ele chegava ao homem, ficava apenas parado, não esboçava reação alguma, apenas o cumprimentava, e retornou, sem muita demora, para junto do mestre. Ao chegar próximo de seu mestre, aparentemente com nada nas mãos, o pobre pupilo leva mais duas bofetadas que o leva ao chão. Ele levantou-se, se limpa com honra, e entrega ao homem um objeto qualquer, do qual seu mestre ficou profundamente impressionado. Então tira a boina do pupilo, alisa seus cabelos e o beija com um carinho verdadeiro, não real, mas verdadeiro. Esta fora a descrição da minha primeira
  81. 81. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 82 apresentação. Aplausos intensos, como nunca aquele circo havia visto em toda a sua existência, emanavam das arquibancadas. Eu reverenciava e agradeceria ao público. Então deixei o picadeiro, com toda alegria do mundo em minha face, por ter sentido aquele poder. Certo que não duraria muito, no entanto, existem sensações que valem mais que qualquer vida. Enquanto tirava a maquiagem em frente o espelho, veio o grande mágico Big Man, com os devidos tabefes que me cabiam. Irritado, com toda razão, o homem suspirava profundo, como um bisão prestes a atacar. Eis que não deu outra, apanhei mais uma vez, meu couro já devia ter calejado depois de ter tanto apanhado na vida. No entanto, doía cada vez mais, era uma dor injusta que eu não podia mais aceitar. Depois de apanhar; o homem suado, bufando como um touro começou a se acalmar, pois já havia despejado justamente, sua ira em mim, que era o culpado por sua raiva. Ele, em um gesto costumeiro iniciou a dar a forma de sempre ao seu bigode, que havia se deformado com o esforço para encher-me de pancadas. Ele sentou-se em sua cadeira, olhou ao lado, respirou, e só então me perguntou: - Que diabos fora aquilo no picadeiro? Há de me explicar diretinho. Acaso queres ver minha ruína? Não verdes que fui eu
  82. 82. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 83 que pus um lar sobre tua cabeça imunda? Ingrato! Judas traidor! Se descobrirem, que sou eu quem instrui os moleques a roubar os malditos granfinos desta cidade, eu serei preso. Tu então garoto, não terás mais um lar, nem um trabalho, nada que te dei. Espero que isto nunca mais isto se repita! O homem gordo já se acalmando, disse: - Prepara-te, amanhã irás se apresentar novamente, e ai de te, caso resolva bancar o bobo da corte novamente. Agora retira teu traseiro de minha frente, antes que eu te encha mais uma vez a tua cara de bofetadas. Retirei-me cabisbaixo, porém, com as minhas ideias mais vivas do que nunca.
  83. 83. Se os cães falassem..., por Samuel Ivani 84 Capítulo 11 Naquele restante de noite, não consegui pregar os olhos, era como se ainda estivesse no picadeiro sendo aplaudido. O mundo era meu, e o pegaria para mim; pensava eu durante a noite. Outro motivo que não me deixava dormir era o fato de que, minhas costas e meu corpo, já não tinham parte que não doía. A minha pele queimava; meus pensamentos também não encontravam paz. Pensava em várias coisas, minha cabeça se enchia de ideias, não tão honrosas. Não conseguido de fato dormir aquela noite, levantei-me de meu imundo local de dormir costumeiro, deixei curumim no aconchego do feno a suspirar em um sono profundo, dirigi-me até a carruagem do grande mágico Big Man, adentrei, ouvia apenas o ressonar intenso do homem gordo, que ao certo, tinha grandes dificuldades para dormir. O vi indefeso, em seu sono profundo, pensei que se algo lhe acontecesse durante o sono, o mundo, no dia seguinte, agradeceria, não estaria fazendo, nada além de um favor para humanidade. Nisto, olhei para as espadas

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