Metodologia da pesquisa (alex carvalho)

3.726 visualizações

Publicada em

Apostila para a primeira prova do professor Valdir.

0 comentários
2 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
3.726
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
3
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
50
Comentários
0
Gostaram
2
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Metodologia da pesquisa (alex carvalho)

  1. 1. O QUE É METODOLOGIA CIENTÍFICA CARVALHO, Alex et al. Aprendendo Metodologia Científica. São Paulo: O Nome da Rosa, 2000, pp. 11-- 69 A aventura histórica da construção dos fundamentos do conhecimento científico Ciência. O que significa esta palavra? Existe apenas um significado paraela? Se não, quais são os outros? Existem relações entre estes váriossignificados? No contexto desse livro -que pretende iniciar o aluno na recepçãoe na produção do conhecimento científico -faz-se necessário delimitar o que seentende por ciência. A palavra ciência surge do latim (scire) e significaconhecimento ou sabedoria. Em geral, fala-se que uma pessoa tem um certoconhecimento (ou está ciente) quando detém alguma informação ou saber comrelação a algum aspecto da realidade. Uma boa cozinheira, por exemplo, possui um conhecimento sobre culinária, assimcomo um engenheiro sobre os possíveis modos de construção de uma casa. No sentidomais geral da palavra ciência, os dois podem e devem ser considerados sábios. Noentanto, não se pode dizer que o conhecimento que os dois apresentam seja do mesmotipo. Tanto o modo como cada um deles veio a aprender o que sabe hoje como a naturezado conhecimento aprendido são diferentes. Assim, por exemplo, a cozinheira, que aprendeu seu ofício com sua mãe, pode fazerbolos muito bem, mas dificilmente saberá explicar o motivo pelo qual o fermento faz o bolocrescer. Já o engenheiro, que freqüentou uma universidade, deverá saber apresentar ascausas relacionadas, por exemplo, à queda de uma casa. Se nem todos os
  2. 2. 2conhecimentos são iguais em sua natureza, o que os diferencia? E o que caracterizaespecificamente o conhecimento cientíico? f Na verdade, pode-se falar, de uma maneira um tanto esquemática, na existência devários tipos de conhecimento, isto é, de dif erentes f ormas de se abordar a realidade,buscando-se compreendê-la ou explicá-la. Assim, o conhecimento pode ser do tipo sensocomum, artí ico, flosóf o, teológico ou cientíico. st i ic f O conhecimento do tipo senso comum, por exemplo, como todo conhecimento, produzinf ormações sobre a realidade. No entanto, tais inf ormações normalmente se prendem aos etivos mais imediatos. Nossa cozinheira assa bolos por causa dos elogios e/ouseus objsalários que recebe. Estes motivos, de natureza mais imediata, bastam para mantê-laassando bolos. Ao mesmo tempo, ela sobrevive muito bem sem o conhecimento do motivopelo qual o f ermento f o bolo crescer. Assim, não precisa se preocupar em saber a azpropriedade que determina o crescimento do bolo. Ou sej não busca descrever os a, f ermento, causam tal efelementos especíicos que, no f eito. Também não precisa sepreocupar com a generalidade do conhecimento que obtém. Não necessita enquadrar umadescoberta sua - sobre um novo j eito de f azer um bolo, por exemplo - em um princí geral pioque estabeleça que tal conhecimento é válido sempre que se apresentarem determinadas,condições (por exemplo, o tempo de cozimento do bolo). A cozinheira também não precisacontar para ninguém como chegou a descobrir uma nova forma de f azer bolo. Não precisanem mesmo divulgar seus resultados, f icando, se quiser, com o conhecimento só para simesma. A NATUREZA DO CONHECIMENTO CIENTË CONHECIMENTO FICO Já o conhecimento chamado de cientíico surge basicamente no século XVII, com a fconstituição histórica da modernidade no ocidente. A separação, tão comum hoj entre e,filosof e ciência não existia antes do advento da modernidade. Aliás, é bom ressaltar iaque a relação da ciência com a filosof e com a arte nunca deixou de existir. São todos, iana verdade, campos que se interpenetram e que mantêm pelo menos um ví nculo emcomum: questionar a realidade de forma a estar sempre discutindo as possibilidades dafelicidade humana. No entanto, existem algumas caracterí sticas que, de uma maneirageral, delimitam o campo da ciência.
  3. 3. 3 Um contraponto com as caracterí sticas do conhecimento do tipo senso comum,conf orme apresentadas no texto anterior, pode ser útil para ilustrar a natureza deste campo.Em primeiro lugar, a ciência não é imediatista, não se contenta com inf ormações superf iciaissobre um aspecto da realidade, mesmo que esta inf ormação sej útil de alguma maneira (por aexemplo, saber que o f ermento f o bolo crescer é proveitoso para a cozinheira mas não é um az iciente para a ciência). Na verdade, a ciência pretende ser c r í c a , isto é,conhecimento suf tibusca estar sempre j ulgando a correção de suas próprias produções. Aliás, este é o sentido dapalavra c r íi c a , de origem grega (kritikós). t O conhecimento cientíico se caracteriza também como uma procura das possí f veiscausas de um acontecimento. Assim, busca compreender ou explicar a realidadeapresentando os f atores que determinam a existência de um evento. Desta f orma, não bastasaber que o f ermento f o bolo crescer. É necessário, sobretudo, caracterizar o que, na azconstituição do f ermento, produz o ef eito que é o crescimento do bolo. Uma vez obtido esteconhecimento, deve-se garantir sua ge n er a lida d e, isto é, sua validade em outras situações. Adivulgação dos resultados também é uma marca f undamental da ciência moderna. Trata-se doque se chama de e xe r c í io da i n t er s ubj t i v id ad e , isto é, da garantia de que o conhecimento c eestá sendo colocado em discussão e que qualquer outro cientista pode ter acesso a ele.Neste sentido, a ciência moderna não se pretende dogmática. Ao relatar seus resultados, ocientista deve também contar como chegou a eles, qual caminho seguiu para alcançá-los.Trata-se, pois, da apresentação do que se chama de método cientíico. f O que caracteriza tal método? Na verdade, método, em ciência, não se reduz a umaapresentação dos passos de uma pesquisa. Não é, portanto, apenas a descrição dosprocedimentos, dos caminhos traçados pelo pesquisador para a obtenção de determinadosresultados. Quando se f em método, busca-se explicitar quais são os motivos pelos quais alao pesquisador escolheu determinados caminhos e não outros. São estes motivos quedeterminam a escolha de certa f orma de f azer ciência. Neste sentido, a questão do métodoé teórica (do grego theoria), uma vez que se ref aos pressupostos que f ere undamentam omodo de pesquisar, pressupostos estes que, como o próprio termo sugere, são anteriores àcoleta de inf ormações na realidade. No iní da modernidade, por exemplo, houve uma valorização da experimentação e cioda observação como procedimentos ou passos necessários para se f azer ciência, mas estesprocedimentos foram escolhidos porque se partia do pressuposto de que o homem seriacapaz de, por si só, descobrir as causas dos f enômenos da natureza, descrevendo em leis
  4. 4. 4gerais seu modo de funcionamento. Também estava suposta uma ordem na natureza: oseventos se relacionavam uns com os outros de f orma regular, assim como todo o dia pode-se observar que, em determinado momento, o sol se põe. No entanto, antes damodernidade, a observação da natureza não era valorizada (ao contrário, muitas vezes eraaté proibida), pois se partia de um pressuposto dif erente: o único conhecimento possí velseria dado por Deus ao homem, através de uma revelação. Assim, pressupostos diferentes determinam procedimentos dif erentes para alcançar oconhecimento. Mas exatamente sobre o que se ref erem tais pressupostos? Ou ainda, são suposiçõesprévias (antes da pesquisa acontecer) a respeito do quê? São basicamente sobre: 1. o que é o homem, suas possibilidades de vir a conhecer a realidade e, se existem,quais são elas e como poderão se dar; 2. as maneiras pelas quais a natureza e a sociedade são concebidas e; 3. o processo de produção de conhecimento, isto é, considerando determinadaconcepção de homem e de natureza e/ou sociedade, resta supor como se originam as idéiasou o saber da ciência, como deverá ser possí produzi-lo. vel Assim, uma ordem ou regularidade nos eventos da natureza era um pressuposto apartir do qual o cientista moderno passou, com os procedimentos que criava com essafinalidade, a observar relações entre eventos (por exemplo, entre uma determinadatemperatura e a passagem da água do estado lí quido para o gasoso). No entanto, se opressuposto fosse radicalmente outro, por exemplo, o de que os f enômenos naturais setransf ormam o tempo todo, então os procedimentos construí seriam outros, uma vez que doso olhar do pesquisador estaria dirigido por outro tipo de pressuposto. A def inição de método acima apresentada f com que, tanto nas chamadas ciências aznaturais ou exatas como nas ciências humanas (que só aparecem no século XIX), tenhamosde lidar com uma pluralidade de perspectivas que procuram f undamentar o processo deprodução do conhecimento cientíico. Ou sej apesar de a ciência possuir critérios que, de f a,uma maneira geral, são aceitos por todos os cientistas como def inidores de sua maneirade trabalhar (como a intersubj etividade, por exemplo), nem todos os cientistas partem,para a realização do seu trabalho, de uma mesma concepção do que sej o conhecimento acientíico. Isto ocorre porque os pressupostos a respeito do que sej o homem, a natureza f a
  5. 5. 5e/ou a sociedade e o próprio modo de produzir conhecimento não precisam ser os mesmospara todos os cientistas. Sendo assim, é mais aconselhável se falar em visões de ciência ou em tendênciasmetodológicas. Tais diferenças no modo de entender e produzir o conhecimento cientíico fj podem ser observadas no momento mesmo do seu surgimento, ou sej no iní daá a, cio ilosof - a epistemologia- que, amodernidade. No século XVII constituiu-se um ramo da f iapartir de então, vem discutindo e formulando diferentes fundamentos para a ciência. O CONHECIMENTO É UMA RELAÇÃO A epistemologia, sobretudo a partir dos trabalhos de I. Kant, utiliza os termos suj to eie obj o para f et azer referência aos dois pólos envolvidos na produção do conhecimento: ohomem (que se propõe a conhecer algo) e o aspecto da realidade a ser conhecido. Adiscussão do papel do suj eito é central para se compreender a ciência, uma vez que seref à f ere eito) deve se comportar para produzir conhecimento, orma como o cientista (o suje, assim, revela pressupostos subj acentes a toda pesquisa. Na história da epistemologia surgiram três perspectivas a este respeito. A primeira -chamada de empirismo - supõe a primazia do obj eto em relação ao suj eito, isto é, oconhecimento deve ser produzido a partir da f orma como a realidade se apresenta aocientista. Neste quadro, seu papel é passivo, dado que a fonte principal do conhecimentoestá no obj eto. A segunda perspectiva – chamada de racionalismo – aponta a primazia do suj eito oude sua atividade em relação ao obj eto, uma vez que toma a razão, isto é, a capacidadehumana de pensar, avaliar e estabelecer relações entre determinados elementos comofonte principal do conhecimento. Assim, por exemplo, a idéia de causa estaria situada narazão e seria a partir dela que se poderia produzir um conhecimento seguro da realidade. De uma maneira bastante genérica (veremos que existem diferenças importantesentre autores situados nas duas perspectivas acima descritas), pode-se afirmar que oempirismo e o racionalismo possuem um elemento em comum: ambos pressupõem umaseparação entre suj eito e obj eto, isto é, partem do princí de que existe uma realidade pioque independe do ponto de vista do pesquisador e que deve ser por este alcançada, sej atomando como sua via principal de acesso a percepção ou a razão. Claro que o suj eito (ou
  6. 6. 6pesquisador), nos dois casos, participa do processo de produção de conhecimento. Noentanto, tal participação é feita supondo-se que o obj eto ou a realidade que se querestudar existe por si só, f e separada do pesquisador. Por este motivo, as duas posições oraapresentadas são chamadas de realistas. Os termos representaci onismo e f ndaci onismo utambém são utilizados para indicá-las, uma vez que ambas pretendem representar oufazer referência à realidade tal como ela, de fato, é, independentemente do suj eito que aestuda. Este é, na verdade, um dos f ndamentos das duas posições apresentadas, daío utermo f ndacionismo ser usado para identif u icá-las como um tipo de epistemologia. A terceira posição sobre o papel do pesquisador na produção do conhecimento - ointeracionismo - afirma que o conhecimento é produzido no quadro da interação entresuj eito e obj eto. Nesta perspectiva, os produtos da ciência seriam os resultados dasinter-relações que mantemos com a realidade, a partir de nossas práticas sociais.Sendo a ciência uma prática social, seus produtos não estariam destituí dos depressupostos dados sobretudo pela cultura ou ideologia predominante numdeterminado perí odo histórico. As verdades da ciência seriam, pois, fundamentalmentehistóricas e, portanto, nunca neutras. Cabe frisar aqui que, na posição interacionista,quando se f na impossibilidade de um conhecimento independente do suj ala eito, não seestá pressupondo ou afirmando a inexistência de uma realidade a ser conhecida. O quese coloca em questão é o pressuposto de que seu acesso possa (e deva) ser feitoindependentemente das condições biológicas, culturais, sociais e até econômicas queconstituem seu produtor, isto é, o cientista. Assim, a idéia de neutralidade cientíica, fpor exemplo, não se enquadra na perspectiva interacionista, uma vez que pressupõeum cientista purificado das condições que determinam a sua própria existência comohomem e pesquisador. U M ROTEIRO DE VIAGEM... A breve história do surgimento da ciência moderna (...) vai centrar a discussãodas diversas propostas ou tendências de fundamentação desse tipo de conhecimentoem dois aspectos. O primeiro refere-se j ustamente à discussão do papel do suj eito naprodução do conhecimento. O segundo diz respeito à forma como a natureza e/ou asociedade é pressuposta pelas diversas tendências.
  7. 7. 7 Basicamente a discussão, mais do que nunca atual, refere-se à possibilidade de osfenômenos serem tomados como coisas que se repetem sempre da mesma maneira, oque revelaria uma uniformidade ou uma unidade na natureza ou nos eventos sociais, ouse são considerados como processos, isto é, eventos que são históricos e, como tal,múltiplos, variados, sendo o vir-a-ser seu modo de existir. Certamente a análise que faremos não é destituí de pressupostos. Acreditamos dano caráter histórico da ciência. E f por este motivo que decidimos percorrer as oiprincipais tendências metodológicas (no sentido de método, tal como f explicitado oianteriormente), apontando algumas possibilidades e impasses que fazem, ainda hoj e,parte do conhecimento cientíico. f O percurso que será realizado com este obj etivo começa no iní da modernidade cio(séc. XVII), passa pelo Iluminismo (séc. XVIII) e pelo século do nascimento das ciênciashumanas (séc. XIX) para, então, chegar ao século XX. É bom lembrar que, nestepercurso, procuramos apenas iniciar o aluno ou interessado na discussão dos diferentesfundamentos da ciência. Para um aprofundamento elas questões aqui levantadas, (...)[sugerimos leituras posteriores]. De todo modo, acreditamos que entender e discutir as diferentes bases da ciênciahoj no momento em que ela parece tão valorizada e até mesmo mistif e, icada pelaopinião pública em geral, é condição para compreender suas reais possibilidades elimites. Como, de forma trágica, j nos mostrou Goya, o sono da razão produz monstros. áAssim, fazer ciência sem saber ou pensar no que isto significa ou implica podeseguramente ser monstruoso. Bom divertimento.O SURGIMENTO HISTÏRICO DA MODERNIDADE E A CONSTITUIÇÃO DOS HISTÏRICO PRIMEIROS FUNDAMENTOS PARA O CONHECIMENTO CIENTË FUNDAMENTOS CIENTËFICO No século XVII o ocidente f rv e. O mundo não tem mais centro, nem no plano ecelestial (Galileu proclama, pela boca de Brecht: aboliu-se o céu! nem no religioso. ) O modo de produção caracterí stico do feudalismo vai sucumbindo, e, de formasdistintas em cada região da Europa, vai emergindo o modo de produção capitalista. Asrelações de servidão vão sendo substituí das pela valorização ontológica e j dica do urítrabalhador livre. Momentos de crise se instauram, portanto, em todas as esferas: nareligiosa (com o surgimento de infinitas seitas, do misticismo, da magia); na polí tica e
  8. 8. 8social (com a j mencionada destruição do f á eudalismo); na da consciência (com a ntese aristotélica-tomista e a conseqüente perda do centro transcendentedestruição da síde referência para a existência) e na teórica (com o surgimento do ceticismo, isto é, coma declaração, feita, por exemplo, por Montaigne, da impossibilidade do conhecimento,dada a verificação do erro, da não-verdade). Mas essa crise também gerou o seu contrário: das cinzas, diz o ditado, se renasce.O Renascimento, antes do século XVII, j propunha a valorização da capacidade humana áde conhecer e transformar a realidade. O homem se coloca como capaz de, por si só,descobrir o modo de funcionamento da natureza, assim como j vinha descobrindo áoutros povos, outros continentes, outras terras e s tr angeir as (dado o referencial europeude análise). Submeter-se à natureza aparece como o primeiro passo do proj moderno etode produção de conhecimento. O segundo passo, relacionado visceralmente ao primeiro, refere-se ao domí nio econtrole da natureza em benefcio do próprio homem. O homem se coloca como dono do ímundo. A crise, nas suas diversas colorações, recoloca a busca da verdade no plano daprocura de uma maneira mais segura de se obter conhecimento, e, como vimos, é deordem existencial, uma vez que a procura da ordem correta das idéias, do como seproduzir conhecimento, que marca o surgimento da ciência moderna, é feita paraapaziguar o medo do novo, da desordem, do desconhecido. É bom lembrar que essabusca não se deu sem conflitos: como vimos, Montaigne, entre outros, não proclamavaum otimismo epistemológico, isto é, não j ulgava ser possí um conhecimento puro, veldestituí do das vicissitudes ou caprichos humanos. De todo modo, a busca dof n d a m e n t o s e gur o , dado pela capacidade humana de conhecer-se a si mesma, de uforma autônoma, vai ser hegemônica na modernidade. A constituição da ciência moderna, que ocorre no âmbito da aventura dasdescobertas marí timas, reflete e atiça a curiosidade pelos fatos. Navegar é preciso.Lançar-se no desconhecido signif apostar na busca do novo. Mas também requer um icaexercí de autodomí cio nio: construir caravelas, usar o telescópio, verificar a posição dosastros para não se perder demasiadamente; enfrentar o mar, controlando-o para não serpor ele devorado. Enf deve-se usar a razão. É preciso navegar, mas com método, com im,ordem e medida, sabendo quais passos dar para atingir um determinado fim. Não sedeve se deixar levar por nenhuma influência de cunho pessoal, passional ou cultural.
  9. 9. 9 Eis, de forma um tanto tosca, o problema central da ciência moderna: a questão dométodo. Sem ordem não há conhecimento possí vel. O problema dos modernos vai ser ode do ponto de vista filosófico, ou mais especificamente epistemológico, fornecer asbases seguras do conhecimento, desprovendo-o de erros, erros estes advindos da faltade método, da ordem e medida necessários ao correto proceder da razão. A luta é, pois, contra o erro, além, é claro, de ser, pelo menos no iní cio, tambémcontra o dogmatismo (medieval). Verdades produzidas pelo homem se contrapõem àsverdades reveladas às figuras de autoridade. Errar é humano, diz o ditado, mas aciência moderna nasce dessa obsessão contra o erro, contra a parcialidade humana,contra a influência dos interesses particulares (pessoais, culturais, grupais etc.) naconstrução do conhecimento, contra os afetos e suas vicissitudes, contra a imaginaçãoque destrói a diferença entre o real e o oní rico, contra a linguagem que carrega depreconceitos o real, e, portanto, não é capaz de descrever a realidade tal como ela é. Mais: de uma maneira geral, para os primeiros modernos (Descartes, porexemplo) chegar à verdade significa captar uma ordem eterna e imutável que subj azaos fenômenos. Tal ordem implica a existência de relações necessárias entredeterminados eventos da natureza. Assim, por exemplo, supõe-se a existência de umliame essencial entre a ação do fogo e a retirada imediata da mão que o toca. Pode-se,então, considerar que o fogo está necessariamente relacionado, como causa, ao ato deretirar a mão, que surge como efeito. A busca dos fundamentos seguros do conhecimento está, pois, sobretudo com osprimeiros modernos, comprometida com a suposição de que existe uma unidade oupermanência na natureza. Desta forma, ao apresentar as bases seguras da produção deconhecimento, os primeiros modernos estão também apresentando uma concepção deverdade: a comprometida com a valorização da repetição dos fenômenos. Talconsideração é importante, sobretudo se f lembrado que um dos principais obj or etivosda ciência moderna é j ustamente o da previsão da ocorrência futura dos fenômenos,previsão esta subj acente à elaboração das leis cientíicas. No entanto, como veremos, fnem sempre a idéia de repetição dos fenômenos vai ser considerada da mesma formapelos modernos. Hume, por exemplo, busca fundamentar a ciência sem se comprometercom ela. De todo modo, considerando a necessidade de uma purificação do suj eitoprodutor de conhecimento para que se possa alcançar a verdade, a questão que f é: icaserá possí um conhecimento tão destituí de humanidade, ainda que f vel do eito em nome
  10. 10. 10do homem e de sua transformação? Esta será uma questão que vai percorrer nossaanálise do processo de constituição do conhecimento cientíico. f O racionalismo de Descartes De uma maneira geral, no século XVII duas respostas à questão dos fundamentosdo conhecimento cientíico são elaboradas: o racionalismo (de R. Descartes e de G.W . fLeibniz, entre outros) e o emprismo (relacionado, por exemplo, aos nomes de F. Bacon, J. iLocke e T. Hobbes). O racionalismo do "pai" da filosof moderna, isto é, de Descartes, iabusca fundamentar, de forma dedutiva, a existência do cogito, isto é, da razão humana.Descartes parte do princí de que ter conhecimento é ter idéias e de que as idéias são piodiferentes das coisas tomadas em si mesmas. Em outras palavras, a palavra bola não éuma bola, mas a representa. Assim, a questão que se coloca é: como posso ter certeza deque a bola, como representação, se refere, de fato, às propriedades reais da coisa-bola?(Lembrem-se de que a lnguagem carrega preconceitos e, portanto, posso estar me iiludindo quando imagino que as palavras representam fielmente as coisas.) Vamos considerar mais de perto este singelo exemplo da bola: existem idéias, queDescartes inclui na classe da substância pensante ou do pensamento, pura esimplesmente, no caso a idéia de bola; existem as coisas em si mesmas ou a extensão(matéria) como a coisa-bola ou nossos próprios corpos. A questão é: como conhecer ascoisas sem erro? Descartes f o seguinte raciocí az nio: devo duvidar de tudo, posto que alinguagem, a imaginação, meus órgãos dos sentidos e assim por diante me iludem. Mas,ao recorrer à dúvida como método (duvido de tudo sistematicamente), chego, de formadedutiva, a uma certeza: não posso duvidar do f de que estou pensando. ato Assim, penso, logo exsto, ou sej minha certeza de existência decorre do f i a, ato deque eu estou pensando. Esta é uma idéia clara e distinta, dirá Descartes, uma vez quedela não posso duvidar. Todas as idéias claras e distintas que descrevem as propriedadesdef inidoras de um obj eto (como a nossa bola) são tomadas como verdadeiras ecorrespondem às coisas em si mesmas. Fecha-se, assim, o circuito da dúvida metódica:existe uma correspondência entre a matéria e a idéia. Mas o que ou quem garante a capacidade de pensar clara e distintamente (como namatemática, saber abstrato e modelo da proposta cartesiana e da ciência moderna)? Aqui, orma dedutiva, elabora a noção de substância inf ita ou divina. ADescartes, também de f in
  11. 11. 11idéia de Deus é a medida da garantia do conhecimento. Senão vej amos, ainda que deforma muito rápida: a alma finita pensa (substância pensante) e tem a idéia de Deus(infinito) da qual não pode ser causa; sendo Deus uma idéia colocada em nós por Elemesmo, é verdadeira, uma vez que o intelecto divino age sobre o nosso por meio de idéiasverdadeiras; se Deus é perfeito nos torna capazes de idéias claras e distintas, o quesignif que Ele se nos revela assim como nosso corpo e todas as coisas que constituem o icamundo extenso. Pronto: Deus nos capacita a ter idéias corretas, que são, inclusive, inatas,desprovidas de erros, desde que metodicamente produzidas, isto é, elaboradas segundocritérios claros (como, por exemplo, ao classificarmos uma bola numa classe segundocertas propriedades def inidoras) e distintos. Assim, o conhecimento é obra da razão, é ela que garante a correção dasdescobertas e a relação real entre idéias e extensão. E é, sobretudo, de naturezamatemática, saber, por definição, puramente dedutivo. Nessa perspectiva, o suj eitoprodutor de conhecimento se apresenta como um eu que valoriza a si mesmo, pordedução (todo o raciocí f nio eito para garantir a correspondência entre idéia e realidademostra tal operação do intelecto humano). Nesse processo, esse eu se requer purificadodas influências históricas, pessoais, culturais, enf im, humanas, de forma a alcançar averdade imutável das coisas. Pode-se afirmar, então, que a elaboração de tal suj eitopurif icado implica uma valorização da permanência ou de uma ordem inerente ao modode funcionamento da natureza. Assim, o processo da dúvida metódica, em Descartes,resultou numa garantia para a produção de verdades no campo da ciência. Esta garantia éde natureza me ta fsi ca (do grego meta ta p hysika , que signif além da fsica), uma vez í ica íque a certeza do conhecimento verdadeiro passa pelo pressuposto da ação divina nointelecto humano. Cabe lembrar aqui que a concepção cartesiana de produção do conhecimentopressupõe, desde o princí pio, uma clara divisão entre corpo (substância extensa) e mente(substância pensante), divisão esta que vai marcar o modo de ser e pensar do homemocidental. O empirismo Já o empirismo, f ormulado inicialmente por Bacon, parte de outro pressuposto paragarantir a produção correta do conhecimento. “Conhecer" é tomado também como "ter
  12. 12. 12idéias", mas a via privilegiada da sua produção não é a razão: trata-se da experiênciasensorial, isto é, a que se tem com os órgãos dos sentidos. É pela indução, isto é, pelaobservação dos muitos eventos se repetindo da mesma maneira, que se pode, f inalmente,elaborar leis que descrevem o funcionamento da natureza. Assim, os resultados daexperimentação, tí pico procedimento de investigação da ciência moderna, ganham umfundamento diferente da dedução proposta por Descartes. No entanto, como f dito, o empirismo também considera que conhecer é ter idéias, oiestabelecendo, assim, uma diferença entre a realidade e a sua representação (idéia). Deuma maneira geral, Locke, por exemplo, considera que existem idéias de sensação, quandopercebemos as qualidades sensí veis de um obj - por exemplo, na nossa bola, sua cor etoou peso - e idéias de ref xão, que se ref le erem às operações da mente - por exemplo,relacionar duas bolas, duvidar da quantidade percebida etc. De todo modo, o f undamentoprimeiro do conhecimento é a experiência sensí e não a razão tomada em si mesma. vel À afirmação deste fundamento, no entanto, subj uma conseqüência que dif az erencia,de uma maneira radical, empiristas e racionalistas. Na medida em que, para os primeiros,a base do conhecimento está na experiência sensí vel, e esta, por def inição, sempre ocorrenum determinado tempo e espaço, ou sej é sempre contingente, como será possí a, vel irmara universalidade das leis que explicam os faf enômenos? Em outras palavras, como sepode saber se, no f uro (a ciência moderna, como f visto, trabalha com previsão), o ut oifogo fará novamente com que o braço - que o tocou no passado - vai novamente seretrair? De uma maneira geral, vimos que Descartes recorre à mediação divina parasustentar a correção do conhecimento produzido, chegando a postular a existência deidéias inatas. Os empiristas, porém, a partir mesmo de sua valorização da experiênciasensí vel como fonte principal do conhecimento, vão colocando cada vez mais nascondições psicológicas do suj eito produtor de conhecimento a possibilidade de elaboraçãode leis gerais. Desse modo, um aspecto impuro - as facetas pessoais, culturais ou mesmobiológicas do indiví duo - subj ao processo de produção de conhecimento. Assim, como azalcançar a verdade das coisas tais como elas são se o processo para conhecê-las dependede condições muito subj etivas, por exemplo? Por isso, vai sendo colocada em questão apossibilidade de o homem alcançar verdades últimas ou essências que constituiriam, paraos racionalistas iniciais, o obj etivo maior da ciência.
  13. 13. 13 No caso do empirismo, nem todos os autores radicalizam esta conseqüência. Locke,por exemplo, ainda acredita numa realidade substancial, independente do suj eito, quedeveria ser por este descrita. Nesse sentido, boa parte dos empiristas ainda separa suj eito(que deve se expurgar de preconceitos como os dados pela linguagem, pela experiênciapessoal, enfim, ao que Bacon chamou de í olos) e obj (aspectos da realidade sempre d etotomados como ordenados e possí veis de serem descritos pelo cientista). No entanto,Hume, no século XVIII, como veremos, vai tirar todas as conseqüências do empirismo elançar sérias dúvidas sobre a possibilidade de o suj eito humano elaborar umconhecimento que independa de suas condições humanas e históricas de produção. A fsica new toniana í O perí odo entre os séculos XVII e XVIII conheceu uma f igura luminar que, pela suaatividade cientíica, vai permitir que o proj f eto da ciência moderna se estabeleçadef initivamente: I. New ton. Suas contribuições se estendem às mais dif erentes áreas doconhecimento: na matemática, criou o cálculo dif erencial;na astronomia, f ormulou a lei dagravitação universal;na ótica, f ormulou a teoria corpuscular da luz;na mecânica, as leis dosmovimentos cios corpos; e, na quí mica, o atomismo. Com certeza, ele não f ví oi tima damaçã! Ela não caiu sobre sua cabeça, como pretendem alguns. Mas reza a lenda que,observando a queda desta f ruta, ele intuiu a explicação da gravitação e f ormulou a leirelativa a esse f enômeno. O método matemático elaborado por New ton permitia converter os princí pios fsicos í(verificáveis pela observação) em resultados quantitativos, e chegar igualmente aosprincí pios fsicos pela observação. Assim, New ton combinou de maneira apropriada as duas ítendências até então antagônicas: o empirismo e o racionalismo. Af irmava ele que tanto osexperimentos sem interpretação sistemática (empirismo) como a dedução sem a evidênciaexperimental (racionalismo) não levam a uma teoria confiável. Para New ton, tudo o que nãoé deduzido dos fenômenos constitui mera hipótese, e, na sua filosof empí ia rica, esta nãotinha lugar, porque as proposições particulares são inf eridas dos fenômenos e depoistornadas gerais por indução.Com as leis dos movimentos e gravitação universais, New ton não admitia ter chegado àcausa dos f enômenos, mas apenas conseguido explicá-los. E isso, para ele, j era suf á iciente.Era suf iciente a existência da gravidade, que f osse constante e que f uncionasse de acordo
  14. 14. 14com as leis descobertas. A natureza era, assim, entendida como uma máquina que f n cio na uperf eitamente. Não dispondo em sua época de instrumental técnico e teórico para ter acessoàs causas dos f enômenos, New ton não tem dificuldade em aceitar e postular a existência deum Deus que cria um mundo de acordo com a mecânica que os cientistas vãodesvendando. Assim, Deus cabe na explicação cientíica do mundo e esta pode ser aceita, fentão, pela cultura ocidental cristã;coisa que Galileu, por exemplo, quase um século antes,não havia conseguido. O êxito da mecânica new toniana na astronomia permitiu sua extrapolação para outrasáreas da fsica (o estudo do movimento contí í nuo dos f luidos e dos corpos elásticos). Afsica, por sua vez, torna-se base para a conf í iguração de todas as outras ciências, tambémdas ciências humanas que vão surgir na segunda metade do século XIX (A. Comte, porexemplo, vai f alar em fsica social, e a psicologia cientíica vai procurar explicar a dinâmica í fdas subj etividades empregando terminologia emprestada da fsica). í C onsiderações para os primei ros f ndamentos estabelecidos u para o conhecimento cientíico f A ciência moderna nasce sob o signo da diversidade, tanto no que se ref às suas erecondições de nascimento (ver as dif erentes crises mencionadas no iní do texto) como nas ciodiversas propostas (algumas das quais foram anteriormente assinaladas) sobre seusfundamentos. De todo modo, vai se constituindo ao longo da modernidade e, de certaforma, até hoj como um campo seguro, provedor de certezas e de f e, ormas especíicas de se festabelecer no mundo, provendo sentidos para a existência. No entanto, para não transf ormá-la num conhecimento dogmático, que ela mesmabuscou criticar f erozmente, devemos lembrar sua natureza essencialmente histórica. A ciência, para além das pretensões de racionalistas e empiristas, constitui-se comocontingência, isto é, é determinada por fatores de natureza social, polí tica, religiosa,cultural. Assim, o proj eto da ciência moderna não é neutro, destituí de valores. A dopretensão de conhecer para prever e dominar a natureza j revela uma disposição tí á picado modo de produção capitalista. A valorização do eu autônomo e da liberdade individualé um correlato da valorização burguesa do indiví duo, invenção da modernidade. A observação e a experimentação, como procedimentos de pesquisa, não sãodesprovidas desses recortes que, se, de um lado, revolucionam a forma de produzir
  15. 15. 15conhecimento, de outro trazem as marcas de um novo tempo que vai tentar fazer daciência sua aliada na construção de uma nova e supostamente def initiva ordem social.Mesmo no campo da epistemologia, vários autores, ainda na modernidade, em especial noséculo das luzes (XVIII), apontam que a pretensão a um conhecimento desumanizado, frio,supostamnete obj etivo, independente das caracterí sticas mais humanas dos suj eitos(como seus afetos ou como a linguagem que inventa formas culturais especíicas de se festar no mundo) é falsa. Hume, como f assinalado, do lado dos de tradição empirista, aponta o caráter oicontingente da produção de conhecimento; G. F. Hegel, do lado dos racionalistas, abraçaa história e tenta pensar o movimento de transf ormação do homem pelo homem. Já K.Marx, no século XIX, pretende situar na terra a análise hegeliana. Neste último século(XIX) surgem as ciências humanas, j no boj de uma discussão f á o ilosóf que tem em F. icaNietzsche uma figura de peso: ao afirmar não exstem f os, só interpretações, o autor de i atPara além do bem e do mal busca minar as pretensões a um conhecimento desprovido degenealogia histórica. As ciências humanas surgem no contexto de briga entre o que sepretende como obj etividade, nos moldes das ciências chamadas de exatas, e o que sedenomina conhecimento histórico, o qual, de várias maneiras (na Sociologia, naAntropologia, na Psicologia etc.), vai se configurando como obj eto próprio de seuestudo. Os problemas dessa tensão entre um modelo obj etivista e um modelo históricode ciência, antes do aparecimento das ciências humanas, é o que continuaremos a verno próximo item, que trata do século da luzes (XVIII). O ILUMINISMO E A QUESTÃO DO CONHECIMENTO QUESTÃO Luzes, luzes! O século XVIII, o século da revolução francesa, apresenta-se como oséculo da claridade, da iluminação, que, agora, não se coloca mais no plano datranscendência, do divino (como o era para Descartes, por exemplo), mas sim no campoda experiência humana, radicalmente humana. A Ilustração (ou Auf lär un g) radicaliza o kc o gi t o cartesiano e a esperança dos empiristas, isto é, vai até a raiz ou aprofunda acrença na razão humana como possibilitadora do conhecimento e de todas as formasde relação humana na terra. Razão equivale à luz.
  16. 16. 16 O futuro da humanidade está, novamente, em j ogo, e a razão iluminista seapresenta como luta contra as trevas, contra o obscuro que caracterizou os séculosanteriores. Obscuro, nesse caso, representa ignorância, incapacidade de fazer da razãohumana fonte e critério da existência. A razão deve, pois, se desdobrar sobre si mesmapara se posicionar como critério a partir do qual o homem deve construir seu destino."Destino eu faço, não peço", disse uma vez Caetano Veloso. De certa forma estaafirmação nos aj rito do Iluminismo: o eu se af uda a entender o espí irma como ponto departida racional da batalha contra as trevas, se posicionando como evidênciaautofundante de certezas e garantindo, assim, a produção do conhecimento. É claro que Descartes e Bacon, no século anterior, j anunciavam a luta contra o áprincí da autoridade e tomavam a razão humana, no sentido racionalista ou empirista, piocomo base da produção de verdades. Mas o Iluminismo vai além dos racionalismos eempirismos do século XVII no sentido de prescindir cada vez mais de uma mediaçãodivina e, assim, apontar não só as possibilidades da razão como seus limites. No quadrodo Iluminismo, três pensadores são fundamentais para nosso estudo da questão doconhecimento: D. Hume, I. Kant e G.F. Hegel. O empirismo radical de D. Hume e suas conseqüências no campo da f n d a m e n t a ção do c o n he c i m e n t o c i e n t íic o u f D. Hume, como j af á irmado anteriormente, radicaliza a proposta empirista defundamentação da ciência moderna. Sua análise do processo de constituição doconhecimento cientíico esteve visceralmente relacionada ao seu proj de constituição de f etouma ciência da natureza humana. Por que estudar a natureza humana? Porque, paraHume, o fundamento do conhecimento não se encontra em alguma mediação divina - porexemplo, as idéias inatas colocadas por Deus em nós, como queria Descartes - mas nopróprio homem. Desencantado, ou sej impedido de apelar para algo além de si mesmo, a,j que se colocou como centro (antropocentrismo), esse homem deve descobrir em si asácondições puramente psicológicas que possibilitam a produção de conhecimento. Sãoestas condições que serão elaboradas por Hume. Como empirista, Hume defende o critérioda experiência sensí como condição de garantia de, pelo menos, alguma correção veldo conhecimento produzido pela ciência. Mas quais são os pressupostos a partir dosquais chega a tal critério? São dois. No primeiro, Hume parte do princípio de que
  17. 17. 17tudo o que é dif ren te é s e par ado, isto é, dois eventos - por exemplo, água e f e ogo -não apresentam, de antemão, nenhuma relação de necessidade entre eles. Só sepode saber que a água ferve e muda de estado (do lí quido para o gasoso) ao contatocom o fogo depois de se observar um evento (fogo) ser seguido de outro (mudança deestado da água). O mais importante aqui é que Hume não parte da suposição de queexistam relações necessárias a priori (antes da experiência) entre eventos danatureza. Ao contrário, antes da experiência sensí não é possí af vel vel irmar qualquerespécie de ordem subjacente à natureza (como fez, por exemplo, Descartes, com aidéia de s ub stânc i a e xtens a). É importante notar que, desta forma, Hume rompe coma idéia, tão comum no iní cio da modernidade, de regularidade inerente aosfenômenos da natureza, assim como com a idéia de causalidade t el eol ógic a (opressuposto relacionado à finalidade intrí nseca das relações entre eventos). No segundo pressuposto relacionado à sua escolha da experiência sensí velcomo fonte principal do conhecimento, Hume assume que, de fato, a modificação nanatureza é pensável e é possível, o que reforça sobremaneira sua ausência decompromisso com a valorização ontológica da permanência, da eterna regularidadedos fenômenos. Se a realidade pode se transformar, está, desde o princí pio,descartada, na perspectiva de Hume, a possibilidade de um conhecimento absoluto,de verdades ou representações (idéias) que correspondam à essência das coisas. Nãosó não podemos alcançar, com base no critério da experiência sensí vel, tal essência,como essa mesma experiência, com base na possibilidade da mudança na realidade, talcomo ela se nos apresenta, pode ser outra. É por isso que Hume é considerado um cético.Para ele, nada se pode af irmar da realidade em si mesma, em termos da permanênciaabsoluta de um fenômeno, a não ser como um devaneio ou um delí da imaginação. rio Mas o ceticismo de Hume não é avesso ao conhecimento produzido pela ciência.Apenas busca fundamentá-lo noutras bases, isto é, no campo das condições psicológicasdo suj eito humano. O que, pois, neste campo, garante a produção adequada doconhecimento cientíico? Para Hume, uma operação psicológica do suj f eito ou da naturezahumana: o hábito ou costume. Este se constitui como uma tendência, presente em todosnós, de associar determinados eventos depois de observarmos ocorrerem j untos, numacerta ordem temporal, várias vezes. Observo, por exemplo, que sempre que coloco águapróxima ao fogo ela tende, depois de certo tempo, a mudar de estado. Por associação,estabeleço, então, que o fogo é a causa do ef to mudança de estado da água. ei
  18. 18. 18 Hume, na verdade, busca, com a elaboração da idéia de hábito, explicar sobretudo omodo de f uncionamento da noção de causalidade, central na ciência moderna. Do seuponto de vista, a af irmação da causa de um f enômeno decorre da observação derepetições de sucessões de eventos. Da repetição conj unta de eventos na natureza, osuj eito produtor de conhecimento inf ou supõe uma regularidade. Mas, como a própria erenatureza é tida como modificável, na forma - pelo hábito - pela qual temos acesso a ela,só resta a Hume tratar o determinismo dos eventos da natureza (ou sua regularidade)como probabilí ico. Ou sej suponho que é muito provável que o sol vá nascer amanhã, st a,com base no f de que nasceu todos os dias anteriores. ato Mas o que garante que, no futuro, tal evento se repetirá? Apenas minha crença,baseada na minha experiência passada de observação desse mesmo f enômeno. O grau deminha crença pode ser maior ou menor, dependendo do número de vezes que o mesmofenômeno se apresentou da mesma maneira. Como o futuro estará sempre além daexperiência presente, só resta à ciência contentar-se com graus de crença, determinados porcálculos de probabilidade, para fazer suas previsões. O problema é que, ao se estabeleceruma previsão, se ultrapassa o tempo presente da observação e inf ere-se uma repetição nofuturo. O mecanismo da crença, para Hume, explica tal ultrapassagem. O trabalho de Hume é, pois, o de f undamentar, no campo psicológico, os mecanismospelos quais: (1) chega-se à noção de causa e (2) espera-se que, no f uturo, o passado serepita. O hábito e a crença aparecem como tais mecanismos. A redução do conhecimentocientíico a uma questão de crença se apresenta como um dos pontos mais instigantes da fproposta de Hume. Com ef eito, ao valorizar a possibilidade de transf ormação ou variação danatureza, Hume coloca-se do lado de autores que, ainda na modernidade, estabelecemalguma valorização da mudança, da possibilidade de considerar o vir-a-ser dos eventos danatureza. Além disso, ao situar apenas no suj eito humano, com suas caracterí sticas puramentepsicológicas, a possibilidade do conhecimento, Hume se coloca também ao lado dos autoresque não compartilham da concepção de que, no processo de produção de conhecimento,exista uma separação do suj eito em relação ao obj eto. Uma prova disso é sua afirmação deque o mecanismo do hábito explica a aquisição não só de f enômenos da natureza como deidéias sociais, como as decorrentes da educação ou da cultura. Se é assim, não há ummecanismo dif erenciado - como o suj eito ou o eu cartesiano - a partir do qual se possaestabelecer um grau maior de certeza ou verdade do conhecimento cientíico. Tudo o que se f
  19. 19. 19pode f azer é assumir o caráter bastante humano deste tipo de conhecimento, esperando oucontando com a repetição de eventos no f uturo, com um grau um pouco maior de certezadado pelos cálculos - cuj resultados podem se modif os icar - de probabilidades. As possibilidades e os limites da razão. I. Kant O debate entre empirismo e racionalismo, assim como a fsica new toniana, constitui o ícontexto a partir do qual Kant elabora sua obra. Vamos analisar aqui o modo como Kantpretende superar a dicotomia racionalismo-empirismo, ou sej como o autor vai buscar a,resolver o processo de produção de conhecimento, considerando a ciência de sua época. Éna Críica da razão pura que Kant, inspirado por D. Hume, elabora uma sí t ntese sobre aquestão do conhecimento. O horizonte da Críica, como não poderia deixar de ser, é a razão thumana, liberta de tudo o que é exterior a si mesma. Assim, Kant considera, comoDescartes, que a ciência produz um conhecimento universal e correto (do qual não se podeduvidar). Sendo universal, ultrapassa o plano da pura experiência sensí e contingente. É a velrazão humana, nas suas possibilidades e limites, que garante, perante o tribunal kantiano, aprodução de verdades universais pela ciência. amos: para Kant, não conhecemos as coisas em si mesmas (o noumenon) Senão vejmas como elas aparecem para nós (como f nômenos). Assim, nossa razão fltra a realidade e ino sentido de que só temos acesso ao que ela permite. Quando, por exemplo, vemos umarosa, a situamos no tempo e no espaço (esta rosa, neste momento e neste lugar), buscamossuas caracterí sticas definidoras como sendo uma rosa (e não uma bola, por exemplo) eassim por diante. O tempo e o espaço são, para Kant, categorias a priori (antes daexperiência) a partir das quais situamos nossa própria experiência. Do mesmo modo, acategoria de substância (o que def ine a rosa no nosso exemplo), assim como a decausalidade (entre outras), é anterior à experiência. As primeiras (tempo e espaço) sãocategorias de sensibilidade humana; as outras (substância e causalidade, entre outras) doentendimento. Ambas constituem as formas a priori do conhecimento, ou sej as f a, ôrmas(ou os f iltros) que possuí mos na razão e que possibilitam, mas também limitam (vimosque nosso conhecimento só se atém aos fenômenos) a ciência. É claro, dirá Kant em sua busca de superação do empirismo e do racionalismo, quea experiência sensí também conta na elaboração do conhecimento cientíico. O material vel f rico ou a matéria são necessários na medida em que f rmas sem matéria nãoempí o
  20. 20. 20fornecem conhecimento da realidade. Por outro lado, a organização das impressõescaptadas pelos sentidos é dada pelas categorias a priori, ou sej pela estrutura da razão a,pura, que é comum à espécie humana - o que garante a universalidade do conhecimentoproduzido. Por ser universal, tal estrutura é tida por Kant como transcendental, isto é,independente da experiência particular de cada ser humano, sendo própria, como f dito, oide todos os homens. É claro que, no contexto do Iluminismo, transcendental, para Kant,não signif ica além do homem, mas sim aquilo que demarca a experiência racionalhumana. Assim, pode-se dizer que a questão do conhecimento, no pensamento kantiano, seapresenta como uma formulação radicalmente moderna, no sentido histórico, uma vez queatrelada à idéia de racionalidade como luz, como fundamento do conhecer. A superaçãodo empirismo e do racionalismo tentada por Kant busca elucidar o papel da razão nosassuntos humanos e f azer com que, como diz o próprio Kant, o homem saia damenoridade (ignorância) para chegar à maioridade (tomar a direção de sua existência emsuas próprias mãos). No entanto, apesar de tomar a matéria como necessária à produçãode conhecimento, Kant acaba considerando a pura razão como fonte principal da ciência.Por esse motivo é denominado, na linha de Descartes (embora de forma diferente desteúltimo), como idealista gnosiológico. A idéia comanda a produção de conhecimento, filtraas informações dadas pelos sentidos e, assim, tem primazia sobre a própria impressão.Nesse sentido, Kant se coloca ao lado dos autores que privilegiam a atividade do suj eitocomo fonte principal do conhecimento (racionalismo). Ao mesmo tempo, os obj etos doconhecimento aparecem como realidades "fixas", suscetí veis de serem compreendidaspelos esquemas, também eles f ixos, da razão pura. G.F. Hegel discordará de Kant,justamente nesse ponto: considerará que a razão é histórica. A razão é hist órica: G. H. Hegel A Revolução Francesa, com seus ideais de igualdade, liberdade e f raternidade, comsua ênfase na razão humana e no desprezo pela ignorância, constituiu, também paraHegel, o contexto histórico a partir do qual sua f ilosof f sendo elaborada. A burguesia ia oichega ao poder polí tico, o modo de produção capitalista vai se tornando hegemônico, assubj etividades vão se privatizando, no sentido da valorização ontológica e, como vimos,epistemológica, do suj eito livre. Para Hegel todo esse movimento se deu no espaço da
  21. 21. 21luta, da guerra, da contradição, do embate entre opostos. A nova ordem social, polí tica eeconômica nasce das contradições engendradas pela velha ordem. O novo nasce do velho,num movimento tenso e contraditório. Hegel nos apresenta uma filosof da história, iabuscando compreender racionalmente (como todos os modernos, embora sej o mais radical ade todos! o movimento dos acontecimentos humanos. ) Para Hegel o movimento contraditório também se aplica aos f enômenos da natureza. irmar que o real é racional e o racional é real, busca estabelecer uma relação entre aAo afestrutura da razão e o modo de f ncionamento da natureza. Ou sej f u a, unda uma ontologia,isto é, uma concepção sobre a natureza da realidade, na qual tudo o que existe vem-a-ser, apartir do que está sendo. O adulto nega a criança, assim como a rosa nega o botão, mas,nos dois casos, a negação só é possí a partir de um estado anterior: o de criança e o de velbotão. Já Heráclito, na Grécia antiga, havia elaborado uma ontologia deste tipo: trata-se dadialética. A palavra dialética, etimologicamente considerada, constitui a j unção de dois termosgregos: diá = entre e lógos = palavra, discurso. Assim, remete ao discurso entre dois pólos(duas pessoas, por exemplo), e esteve, com Heráclito, relacionada ao conceito de luta econtradição à procura de uma conciliação ou superação. Hegel toma-a neste sentido e, ao icar o pensamento e a realidade, subsume todo e qualquer ser às leis da dialética,identifaprofundando as idéias de Heráclito e f ormulando uma idéia de racionalidade visceralmentecomprometida com as idéias de historicidade, de mudança ou transformação, de eterno vir-a-ser. A razão humana se desdobra sobre si mesma para se tomar como puro movimento,como articulação de uma imanência (vimos que os modernos não trabalham com a idéia detranscendência, com a suposição de algo além do homem, como na f ilosof cristã, por iaexemplo): o mundo, humano ou não, é, em si mesmo, movimento e movimento a partir dacontradição. Pode-se considerar agora, de uma f orma um pouco mais aprofundada, como seconstitui este movimento. Vamos tomar um exemplo bastante simples: um artista diante deum pedaço de madeira. Sem dúvida, o artista tem uma identidade, o que f com que o az ustamente de artista. Mas o pedaço de macieira também se apresenta com umachamemos jidentidade (o que o f dif az erente de uma porção de água, por exemplo). Estamos diante dedois seres dif entes. Tanto o artista como a matéria-prima (nosso pedaço de madeira) er ntese de f rma ou idéia e matéria (como j havia assinaladoexistem como uma sí o áAristóteles).
  22. 22. 22 Mas em Hegel tal sí ntese é imanente à natureza, ao real. Suponhamos agora que oartista comece a esculpir uma estátua. Ora, nesta relação de opostos (de um lado o artista;de outro o pedaço de madeira - dois seres com identidades próprias e, portanto, dif erentes) ormação: o artista destrói seu contrário, isto é, nega oocorre um movimento de transfpedaço de madeira enquanto tal, na medida em que sua f orma natural se rompe para darlugar à idéia do artista. Assim, a estátua de uma mulher, por exemplo, surge no lugar dopedaço de madeira. No entanto, não podemos dizer que o pedaço de madeira tenha sidosimplesmente eliminado. A forma que assumiu em decorrência do trabalho do artista aindaa conserva. Trata-se, no entanto, de uma nova f orma, ou sej houve um movimento de a,superação da f orma antiga, de tal maneira que a estátua representa um obj etoqualitativamente dif erente e superior. Mais do que isto: o artista, embora dif erente dopedaço de madeira, só se torna artista em razão do seu contrário, isto é, da matéria pelaqual e na qual se aliena, se coloca como idéia. É possí pensar em um artista sem sua obra, sem um suporte material no qual ele se velrealizou como tal? Do mesmo modo, o pedaço de madeira, tal qual está sendo no primeiromomento, impõe resistência ao artista. Não se pode f azer qualquer coisa com a madeira, e,mais importante, ela impõe uma luta pela qual resiste e se entrega, morre e renasce, e vema ser outra coisa a partir de sua interpenetração com o seu contrário, isto é, com o artista.Tensão, luta de contrários: não é necessário se submeter à matéria para dominá-la? Traduzindo: o movimento dialético se constitui em três momentos, quais sej am: a. o da identidade ou tese - vimos que pedaço de madeira e artista constituemidentidades diferenciadas; b. o da contradição ou negação - vimos que existe uma relação recí proca entre pedaçode madeira e artista, de tal f orma que para que este último faça da matéria uma estátuafaz-se necessária uma luta, um conf lito de opostos; com efeito, a matéria, para serdominada, requer que o artista a ela se submeta; c. o da positividade ou negação da negação - vimos que a estátua aparece comosí ntese de um processo no qual pedaço de madeira e artista não são mais os mesmos. Eisaí de f , icada, a dinâmica própria da dialética. O ser, qualquer que sej orma bastante simplif aele, se constitui neste movimento que se apresenta como constante: novas sí nteses sempreserão possí veis a partir de sí nteses anteriores. Para Hegel, tanto a história humana como a natureza são processos pelos quais o vir-a-ser acontece. Porém, tanto na história como na natureza tal processo signif ica o
  23. 23. 23movimento da Idéia. A história humana, por exemplo, pode e deve, para Hegel, seranalisada do ponto de vista do conflito entre idéias que foram sendo f adas e orjtransf ormadas em vista das contradições postas por elas mesmas. Assim, por exemplo, aRevolução Francesa, ponto de partida de nossas notas sobre Hegel, deve ser analisadacomo resultado da luta entre duas idéias: a relacionada às f ormas de estruturação do antigoregime (por exemplo, as relações contraditórias entre senhor e servo) e a vinculada às novasmaneiras de se organizar as relações humanas, ou sej ao modo burguês de pensar e se a,situar no mundo. Mas tal f orma nova se produz como sí ntese ou resultado dos conf litosengendrados pelo velho regime. Em outras palavras, o senhor só se constitui como tal emrazão da existência do servo, assim como o artista só se apresenta como tal conforme secoloca ou se aliena no pedaço de madeira. Tal relação de reciprocidade e de luta constitui o movimento da Idéia. Na medida emque concebe o movimento da história e da natureza como o movimento da idéia, Hegel seapresenta como idealista. No próximo item, veremos que K. Marx vai se apropriar dadialética hegeliana invertendo-a, isto é, pensando a história como luta de contrários que seconstitui na prática social, nas f ormas especíicas e historicamente situadas pelas quais os fhomens, no conf ronto com a natureza e com outros homens, produzem sua própria história.Entraremos, assim, na análise de uma proposta de produção de conhecimento que toma asrelações sociais, ou sej materiais, como ponto de partida para a elaboração do a,conhecimento cientíico. Ao mesmo tempo, estaremos analisando uma proposta que se fcontrapõe à concepção dialética da história: o positivismo de A. Comte. As duas tendências,ou sej a de Marx e a de Comte, aparecem no centro de um debate sobre os f a, undamentosdas novas ciências que surgem no século XIX: as ciências humanas. A EMERG‰NCIA DAS CI‰NCIAS HUMANAS: CI‰NCIAS A CONSTRUÇÃO DE NOVAS TEND‰NCIAS METODOLÏGICAS NOVAS METODOLÏGICAS NO CONTEXTO HISTÏRICO DO SÉCULO XIX HISTÏRICO O século XIX se apresenta com algumas caracterí sticas peculiares, a primeira delas seref erindo à continuidade das transformações engendradas pelas duas grandes revoluções:uma de cunho mais econômico - a chamada Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra - ea Revolução Francesa, de natureza polí tica, ambas na segunda metade do século XVIII.
  24. 24. 24 Se, por um lado, trata-se da continuidade do processo de ruptura com o modo deprodução f eudal, por outro, a nova ordem engendra suas próprias crises ou contradições: a. A criação de um sistema f abril mecanizado - que produz em grandequantidade a um custo cada vez menor e que acaba por não mais depender da demandaexistente mas de criá-la - gerou um aprof undamento da diferença entre a classe detentorados meios de produção e o proletariado, dependente unicamente de sua f orça de trabalho.Ao mesmo tempo, este último, em def de seus próprios interesses, se organiza em torno esade sindicatos e partidos. b. O Estado, preocupado com a def esa de uma determinada ordem social,burocratiza-se, assim como surgem as forças armadas, também elas vinculadas ao controlee preservação dos interesses hegemônicos. c. A produção padronizada e mecanizada gera o consumo de massas para os produtosindustriais, o que signif uma padronização das "escolhas" do consumidor. ica d. A presença, mesmo disf arçada, da disciplina, do controle docomportamento, em todas as esferas da vida, inclusive na esf privada. era e. Todas essas crises colocam em questão os fundamentos polí ticos e econômicosdo sistema capitalista: os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, assim como oliberalismo econômico, geram, na verdade, a luta pela def de interesses particulares. esa O contexto histórico apresentado redimensiona a questão do conhecimento: surgemas ciências humanas como tentativa de compreensão das crises instaladas. Duastendências metodológicas marcam e conf iguram a construção de novos obj etos deconhecimento: o positivismo e o materialismo histórico-dialético. O positivismo O positivismo, f undado por A. Comte, está relacionado ao aparecimento dasociologia. Os fundamentos do positivismo são: a. A sociedade é entendida como fenômeno natural. Assim, como se pressupõe umaharmonia na natureza, deve existir uma harmonia na vida social. b. A sociedade constitui um todo integrado cuj partes tendem naturalmente ao asdesenvolvimento. Nesse sentido, a ordem capitalista representaria a culminância daevolução da humanidade.
  25. 25. 25 c. As leis que regem a vida social são tomadas como naturais e invariáveis, portanto,independentes da vontade e da ação humana. Assim, o método proposto pelo positivismo para as ciências sociais deveria ser o dasciências da natureza, segundo os passos concebidos por Comte: 1. Observação neutra, obj etiva, desligada dos f enômenos, o que implica umaseparação entre o suj eito produtor de conhecimento e seu obj de estudo. eto 2. Valorização exclusiva do f ato, tomado como aquilo que pode ser conhecido somenteatravés da observação e da experiência. 3. Segmentação da realidade, ou sej a compreensão da totalidade se dá pela a,compreensão das partes que a compõem. Algumas crí ticas podem ser f eitas ao positivismo, tal como proposto por Comte: a. A valorização exclusiva do f ato pode ser questionada, uma vez que existe umesquema conceitual prévio dado pelos f undamentos do próprio positivismo, que servem deparâmetro para a análise dos f enômenos sociais. Assim, por exemplo, a idéia de harmonianatural na sociedade - e na natureza mesma - é um pressuposto que vai ser questionado porMarx. b. Do mesmo modo, as idéias de ordem e progresso e do todo composto por partesperf eitamente integradas estão em consonância com o modo de pensar historicamenteelaborado pela burguesia. Assim, a idéia de Comte de que o conhecimento passa por trêsestágios - o teológico, o filosóf e o cientíico - que são "naturais", acaba por revelar um ico fcompromisso com o modo capitalista de se entender como o mais avançado dos sistemassociais elaborados pela humanidade. c. A rigidez com que Comte concebe tanto o sistema social quanto o da naturezaimpede a compreensão da realidade como processo. Um exemplo disso é a sua dificuldadeem aceitar a teoria da evolução de Darw in, uma vez que esta impede classif icações f ixasdos seres vivos.
  26. 26. 26 O materialismo histórico-dialético histórico- O materialismo histórico-dialético concebido por K. Marx constitui outra tendênciametodológica que configura uma f orma de conceber a realidade social. Marx elaborou talproposta a partir das seguintes inf luências: a. A dialética hegeliana, ou sej o real existe como movimento contraditório e a,processual; a construção do conhecimento cientíico, portanto, deve ser f f eita nessaperspectiva. Pensar dialeticamente a realidade é desvendar os movimentos contraditóriosque a compõem. O que dif erencia Marx de Hegel é a concepção do primeiro de que é o sersocial do homem que determina sua consciência e não, como afirma o segundo, suaconsciência ou idéia. b. Feuerbach f um segundo marco. Segundo a análise da religião f oi eita por este autor,o homem se aliena quando atribui a entidades, que são criações suas, qualidades e poderesque pertencem ao próprio homem. Surge, assim, uma concepção materialista e naturalistade homem. c. De A. Smith e D. Ricardo, Marx se apropriou da noção de valor do trabalho. d. Dos socialistas utópicos (Ow en, Fourier e Saint Simon), Marx considerou apossibilidade de construção de uma abordagem cientíica da sociedade capitalista e de suas fcondições de superação. Este, aliás, é o cerne do trabalho de Marx. Em outras palavras,Marx busca estudar as leis que regem o desenvolvimento do capitalismo e indicam suasuperação. Os fundamentos do materialismo histórico-dialético são: l. A base da sociedade e do próprio homem, para Marx, é o trabalho. É pelo trabalhoque o homem se relaciona com a natureza e com os outros homens de f orma a produzir suaexistência material, incluindo na compreensão de material as formas de organizaçãoj dica, políurí tica, artí stica ou outro tipo qualquer de idéia. As idéias devem ser analisadas apartir da compreensão do modo de produção (economia) que caracteriza um momentohistórico de uma sociedade, o que não implica que elas (as idéias) estej am sempre emconsonância com a ordem vigente. O próprio pensamento de Marx, surgido no contexto docapitalismo, questiona-o, buscando explicitar suas condições de superação.
  27. 27. 27 2. O homem se f historicamente, não existe como entidade ou essência anterior à azexperiência histórica que o constitui e através da qual se f homem. Ao f az azer sua história,em condições determinadas, passa a ser determinado e determinante da/pela natureza e poroutros homens, à medida que transf orma a natureza para satisfazer suas necessidadesbásicas e, nesse processo, cria novas necessidades que se transf ormam também. 3. O conhecimento cientíico, para Marx, é uma f f erramenta de compreensão e detransf ormação da sociedade humana, o que implica a ausência de neutralidade da ciência,uma vez que se estará analisando sempre uma f ormação histórica de um determinado pontode vista: o da classe explorada. O conhecimento que se pretende neutro é tratado comoideológico, isto é, são idéias produzidas pela classe que detém o poder e que sãoapresentadas como entidades, como verdades eternas, como universais a-históricos. Naverdade, trata-se de uma universalização de interesses particulares, ou sej uma classe a,apresenta os seus interesses como sendo os interesses de todos os membros da sociedade. 4. O conhecimento a-histórico se apresenta como aparência, uma vez que não revelasuas condições históricas de produção. Uma análise histórica e dialética, portanto, seriaaquela que alcançaria a essência dos f enômenos, revelando-os como inter-relacionados comoutros f enômenos com os quais e a partir dos quais constituem totalidades dinâmicas. TEND‰NCIAS METODOLÏGICAS NO SÉCULO XX METODOLÏGICAS As tensões e conf litos relacionados ao desenvolvimento e expansão do modo deprodução capitalista, verif icados j no f á inal do século XIX, ampliam-se e ganham novoscontornos no iní do século seguinte. Durante as primeiras décadas do século XX ocorrem cioa Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, as experiências polí ticas totalitárias a elasrelacionadas - o fascismo e o nazismo -, além da Revolução Socialista na Rússia, em 1917.A quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, gera o colapso de boa parte do capital mundiale manif esta as contradições internas inerentes ao próprio desenvolvimento capitalista. Essesacontecimentos, entre outros, podem ser tomados como í ndices da f alência ética e polí ticadas sociedades ocidentais. Surge uma nova onda de ceticismo e irracionalismo, assim comoum descrédito com relação à possibilidade de convivência pacíica entre os homens e de fsuperação das particularidades (dif erenças individuais, grupais, étnicas, nacionais etc.).
  28. 28. 28 Nesse contexto, genericamente desenhado, surgem propostas para a produção deconhecimento cientíico ainda atreladas ao ideal de obj f etividade, traçado pelo proj da etociência moderna. Trata-se j ustamente de salvar a civilização ocidental do caos pelo resgateda razão. Nesse sentido, o proj iluminista vai reaparecer em tendências metodológicas, etotais como o empirismo lógico e a f enomenologia, no século XX. Ao mesmo tempo, surgemoutras tendências metodológicas (por exemplo, a Escola de Frankf e o pragmatismo), urtque discutem, entre outras coisas, a neutralidade da ciência, isto é, se é possí a velindependência do suj eito com relação ao obj do conhecimento. Se o conhecimento não etoé neutro (como j propunha Marx), então a questão da produção do conhecimento ácientíico não é só cognitiva mas também ética e polí f tica.A c o nt i n uida de do p r o j t o epi st e m o lógi c o da m o d e r n id a d e : n o v a s t e n dênc i as e Três tendências metodológicas – o neopositivismo, o estruturalismo e afenomenologia – buscam manter e, ao mesmo tempo, aprofundar os fundamentos teóricosestabelecidos j quando do nascimento da ciência moderna. á Neopositivismo Os principais representantes do neopositivismo, também chamado empirismo lógico,são R. Carnap, O. Neurath, H. Hahn e M. Schlick, reunidos num grupo conhecido comoCí rculo de Viena. Este grupo tem um obj etivo em comum: a luta contra o pensamentometafsico, não só na ciência como em todas as esf í eras do comportamento humano. Talobj etivo está atrelado à procura de um consenso racional (intersubj etividade) a partir doqual as relações sociais, econômicas e culturais em crise deveriam ser modif icadas. Emoutras palavras, a concepção de ciência formulada pelo neopositivismo implica umaprodução de conhecimento atrelada a uma transf ormação racional da ordem social. Em suma, o conhecimento produzido pela ciência deve servir como uma ferramentapara transformar a realidade. Nesse sentido, o espí do Iluminismo permanece como um ritodos traços do neopositivismo. Dois aspectos são f undamentais para a compreensão doneopositivismo: a) trata-se de uma concepção empirista e positivista, isto é, só existeconhecimento legí timo baseado numa experiência empí rica; e b) pela aplicação do métododa análise lógica ao material empí rico, busca-se o ideal da ciência unif icada.

×