OGÜL ¨    IREPOGLUA CONCUBINA  Tradução Marina Mariz
“Eu nunca esperei ter este amor.”     Æ    Sua Majestade, minha Vida, meu Bem-Amado,    Única luz da minh’alma, meu Sobera...
O8                                            GÜL ¨                                                 IREPOGLUprontamente a ...
A CONCUBINA                                                            9jestoso salão imperial, sob o domo iluminado, prep...
O10                                                     GÜL ¨                                                           IR...
A CONCUBINA                                                       11do provado seu valor, consideradas boas o suficiente p...
O12                                                      GÜL ¨                                                            ...
A CONCUBINA                                                      13     A única coisa que elas têm em comum é a beleza.   ...
O14                                           GÜL ¨                                                 IREPOGLUlado que teima...
A CONCUBINA                                           15sonho remoto, embora eu preferisse que fosse verdade,apenas imagin...
O16                                                   GÜL ¨                                                         IREPOG...
A CONCUBINA                                                17      Quem sabe que maravilhas esse domo fabuloso e or-nament...
O18                                            GÜL ¨                                                  IREPOGLUentão se mov...
A CONCUBINA                                            19    Œ     As musicistas escolhidas a dedo estão esperando emsilên...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

A concubina

3.350 visualizações

Publicada em

Esta história de um amor impossível se desenrolou em pleno século XVIII no palácio de um sultão otomano. Uma concubina de beleza e sabedoria incomuns se destaca entre centenas de outras.

O sultão convidou-a apenas uma vez para partilhar de seu leito, mas ela suspira de desejo por ele. Está apaixonada pelo homem mais poderoso da face da Terra.

Inteligente, ela vai usar de sua astúcia para se fazer notada e correspondida, mesmo que as regras do harém, chefiado por um eunuco, sejam impiedosas e desumanas.

Gül Irepoglu usa as asas da ficção para compor esta história – a maior parte dela aconteceu de fato – abordando a sociedade e o “harém” de várias formas, afora a mais comum – a da sexualidade.

Costumes, educação, cerimônias, entretenimento, vestuário, joias e decoração da época são descritos pela autora, criando um cenário de contos de fada, mas também abrindo uma janela para pensarmos nas formas de poder e de exercer a femilidade.

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
3.350
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
1.964
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
3
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

A concubina

  1. 1. OGÜL ¨ IREPOGLUA CONCUBINA Tradução Marina Mariz
  2. 2. “Eu nunca esperei ter este amor.” Æ Sua Majestade, minha Vida, meu Bem-Amado, Única luz da minh’alma, meu Soberano, Eu não esperava por isso. Claro que havia muitas coisas pelas quais esperei, so-nhei e ansiei, mas não isso. O prazer de ser escolhida, ogosto do triunfo, a delícia de ser mimada... Eu estava pron-ta para tudo isso; estava preparada. Mas ter o amor sobre o qual eu lia nas lendas... Por isso eu não esperava; não esperava mesmo. Não esperava ter este amor. Naquela noite, todas as vezes em que o senhor mechamou, toda vez que dizia com prazer “minha Askidil1”,meu coração se enchia de amor, igual a esse nome queme foi dado... Toda vez que elogiava a cor dourada domeu cabelo, torcendo os cachos entre seus dedos, dizen-do que descobriu o mar ao olhar nos meus olhos, meucoração se enchia de alegria... O que nós dois compartilhamos, naquela única noiteaté a manhã, pode muito bem ter sido mais pleno do queuma vida inteira. Sim, “pleno” é a palavra mais apropria-da; “rico” não seria suficiente, pois esta palavra se presta1 Askidil: amor da alma, essência do amor. (N. T.)
  3. 3. O8 GÜL ¨ IREPOGLUprontamente a muitas outras interpretações. Pleno é muitomais adequado. Que choque vigoroso no campo de batalha, que nu-vem de energia que emana no coração da luta poderia secomparar com a radiosa luz que resultou do toque denossos corpos? Que ribombar silencioso criado pelos co-rações dos guerreiros, pulsando violentamente ao se en-frentarem, poderia se igualar ao nosso tremor? Não faço ideia por que um campo de batalha me ins-pirou; aconteceu naturalmente... Eu devo ter interpreta-do instintivamente nossa união como um embate, igua-lando o infernal calor da batalha com o celestial calor dosexo. Aqueles momentos em que me aproximei do senhor,ofegante, poderiam facilmente ser comparados ao passofinal dado em direção ao instante fatal e inevitável na ba-talha, o instante sem retorno e o momento que não sequer evitar, afinal... Ou será que estávamos em um galeão imaginário,navegando por mares imaginários, na esteira de dragõesperseguindo peixes gigantes? Estaríamos, talvez, sentin-do e balançando a cada movimento desse mar que se er-gueu e arrebentou em ondas dentro de nós? A união das quimeras mais assustadoras, sensaçõesde luxúria sem fim e o auge da felicidade... Œ O Mabeyn2 está cheio novamente. Estamos na fasefinal dos preparativos para a festa desta noite... Este ma-2 Aposentos imperiais. (N. T.)
  4. 4. A CONCUBINA 9jestoso salão imperial, sob o domo iluminado, prepara-separa receber de novo seu senhor. É fácil dizer: este é o centro da principal moradia doPadisah3, o sultão Zillullah fi’l-arz, a sombra de Alá sobrea terra, cabeça do augusto Estado. Nosso senhor santifica esse lugar com sua presença;o harém é seu espaço inacessível e intocável. E, natural-mente, servi-lo é um privilégio de poucos súditos aben-çoados, e eu sou um deles. Alguns eunucos de rosto negro e brilhante vagueiampor aqui, com seus caftans brancos como a neve, calçasbufantes vermelhas, acompanhados de escravas. Todos se esmeram em suas tarefas, desdobrando-segraças à minha presença. Isso é fora do comum; essasnoites normalmente são organizadas por mulheres de altostatus, recebendo ordens da própria Hazinedar Kalfa4; maspara essa ocasião nosso senhor pediu minha supervisão.É fato notório que sou seu servo especial. Os aghas5 estão se movendo calmamente. Cada pessoa nessa ordem perfeita é um mestre consu-mado em sua arte, quem quer se sobressair faz mais esforço... Logo, com poucas exceções, todos deixarão o salãopara as mulheres. As mulheres que eles guardam inexo-ravelmente, as mulheres que eles nunca, jamais, poderãotocar... Sua masculinidade pode ter sido eliminada, mas equanto aos seus sentimentos? Tão difícil de lidar, muito difícil. E o que, precisamente, cria essa privação? É o sofri-mento durante essa operação destrutiva, a dor que ad-3 Título de um imperador otomano reinante. (N. T.)4 Kalfa: tesoureira imperial. (N. T.) o5 Agha/Aga: criados de uma casa, normalmente os eunucos, brancos ou negros, que agem como criados, privilegiado do sultão ou de dignitários otomanos, desempenham desde tarefas sem importância em casas otoma- nas até o equivalente a um camareiros-mor. (N. T.)
  5. 5. O10 GÜL ¨ IREPOGLUvém depois, a incansável tortura da sobrevivência à me-dida que a vida continua ou a insuportável frustração desentir-se eternamente menos que completo? Talvez sejamelhor não pensar muito nisso. É justamente isso que eles fazem, ah, eu sei bem... Do contrário, seria fácil demais encontrar-se numbeco sem saída... O salão imperial está lindamente iluminado esta noite. Vermelho e ouro, duas cores que se harmonizam per-feitamente, dominam todo o salão... Vermelho e ouro juntos parecem dar calor e majesta-de ao salão. Vermelho e ouro parecem captar a luz que se refletenos espelhos a partir dos azulejos azuis das paredes, dan-do-lhes calor... Tudo faz tecer um mundo de conto de fadas, ummundo sobrenatural. Todos estão na expectativa. Expectativas tão diferentes... As mais bonitas do harém estão em fila, defendendoimpiedosamente seus títulos ao fazerem isso... As Kadinefendis6 sentam-se no alto... As mulheres privilegiadas que não só conquistaramo coração do Sultão, mas também lhe deram filhos. Aspreciosas sultanas do harém. As mulheres poderosas do harém. Mas por quantotempo ninguém sabe. Um dos muitos imponderáveis do harém. Agora, todas elas estão prontas para deixar de ladosuas existências incansavelmente vulneráveis. Todas edu-cadas nessa dura e intrincada escola, algumas conseguin-do, de uma forma ou de outra, ascender de posição, ten-6 Kadin ou Kadinefendi: quando dão um filho ao sultão ocupam a mais alta posição no harém. (N. T.)
  6. 6. A CONCUBINA 11do provado seu valor, consideradas boas o suficiente parasatisfazer o Soberano, alcançando assim uma condiçãoexcepcional. Elas estão sentadas no largo divã à direita dotrono do senhor, ao centro. Elas tomaram seus lugares,de pernas cruzadas, recostando-se em almofadas borda-das com fios de prata. Sua superioridade é evidente; elas a usam quase comose fosse um revestimento próprio. As ikbals7, a quem o Sultão com frequência gosta demanter isoladas, acomodaram-se nas laterais, desejosas deserem escolhidas mais uma vez... Resplandecentes de or-gulho por terem satisfeito aquele homem, o senhor detodas elas, animadas pela crescente esperança, já que su-peraram a rejeição da escolha passageira... O restante das concubinas está disperso pelos lados. Elas se levantam, as mãos postas respeitosamente,prontas para obedecer aos comandos e melhor exibiremseus encantos... Elas são tão jovens, tão puras e tão entusiasmadas. Etão belas. Normalmente, a Sultan Valide8 estaria sentada no cen-tro do setor das mulheres; é assim que a regra tem sidoaplicada. Infelizmente, como a mãe de nosso senhorAbdülhamid Han morreu há muito tempo, seu assentoagora fica vazio. E, por mais privilegiada que seja, a Hazi-nedar Kalfa, a tesoureira imperial, jamais pensaria em to-mar esse lugar, apesar de ter assumido boa parte dos de-veres administrativos da Sultan Valide. Logo começará a música para receber nosso ditososenhor... As musicistas e cantoras já se posicionaram noandar de cima.7 Concubina que dormiu pelo menos uma vez com o sultão. Algumas podem ser chamadas de gözde, ou “aos olhos”, significando favorita.(N. T.)8 Mãe do sultão no Império Otomano, sultana mãe.(N. T.)
  7. 7. O12 GÜL ¨ IREPOGLU Nós decidimos pela música Hicaz9 para esta noite, oafrodisíaco makam que aguça o apetite... A afeição de Sua Majestade o Sultão pelas mulheres ébem conhecida, tanto quanto seu apreço e sua compai-xão por elas. As mulheres do único proprietário dos domínios oto-manos, as mulheres do seu harém. Algumas se prepararam para as festividades notur-nas em acomodações mais espaçosas; outras, em seus alo-jamentos mais modestos; e o resto, em seus dormitórios.Algumas tiveram a ajuda de criados, enquanto outras searrumaram sozinhas... Todas se ocupando para suprimir a ansiedade e cadauma lançando olhares furtivos para as outras... As mulheres, algumas das quais um único homemconhece intimamente, outras, um pouco menos e o res-to, totalmente desconhecidas desse homem... Algumas atingirão suas metas um dia, enquanto amaioria continuará a esperar, passando os dias em servi-dão a outras; algumas podem ir embora um dia, para di-rigirem seu próprio lar modesto, enquanto a maioria aca-bará deixando o harém pelo Portal da Morte numamortalha... Algumas vêm do norte, das aldeias empoleiradas nasencostas íngremes do Cáucaso; outras vêm do leste, dasflorestas agraciadas com quedas-d’água no rígido climageorgiano; outras, do oeste, das cidades dos Bálcãs sobreas quais ecoam melodias nostálgicas e, o resto, de naçõeseuropeias anotadas nos diários de bordo de barcos, seusdestinos determinados quando foram colocadas no ca-minho de piratas berberes que rondavam as águas doMediterrâneo...9 Hicaz makam: tipo de música turca clássica. (N. T.)
  8. 8. A CONCUBINA 13 A única coisa que elas têm em comum é a beleza. Se isso é a sua felicidade ou a infelicidade é difícil dizer... As mulheres reunidas no salão imperial competemnão só na silhueta, mas também nos trajes, cada uma sen-do uma rosa rara do Jardim do Éden... Suas finas blusas de seda semitransparente têm a cordo diamante com decotes profundos deixando entreveros tesouros aninhados por baixo. As mangas abertas dos casacos são debruadas comfinos bordados florais, de todas as cores imagináveis, doaçafrão ao rosa, do azul-marinho ao verde, do roxo ao anil... Caftans de mangas três-quartos de seda brilhante fo-ram elegantemente presos a um lado, para revelar as co-xas viçosas por baixo das calças bufantes cor de pistache,lilás ou nogueira, confortavelmente presas nos tornoze-los, enquanto filigranas de ouro ou cintos de cristal in-crustado de rubis enfeitam as barrigas à mostra. Os botões dos casacos longos ou os cintos dos caftansficam abertos para exibir melhor os pescoços decoradoscom ouro e esmeraldas... Ornamentos de diamantes com penas de pavão ougarça, tiaras douradas e joias delicadas competem com flo-res verdadeiras; colares de pérola e coral faiscando entreas mechas de cabelo trançado que descem até os ombros... Fileiras e mais fileiras de braceletes envolvem os pul-sos brancos como neve, enchendo o ar com seu tilintarintangível e inimitável... Qual delas o agradará mais? Qualdelas ele desejará? Binnaz dos olhos esmeraldas, que elamantém fixos no Sultão, suas tranças douradas, que en-feitou com minúsculas flores de esmeralda, iguais aos seusolhos, ou a frágil e tímida Dilpezir, sorrindo impercepti-velmente, acentuando suas covinhas e com os longos cí-lios que arrematam seus olhos escuros lançando sombrasem seu rosto? Ou será Mutebere, que se esforça para atraira atenção do nosso amo ostentando seu cabelo encaraco-
  9. 9. O14 GÜL ¨ IREPOGLUlado que teima em cair sobre sua testa e o fio de pérolas erubis que o adorna e afaga a própria face rosada numexibicionismo impossível de ignorar? Ou irá a predileção do Soberano recair uma vez maissobre essa nova jovem, a recatada e delicada loira cujabeleza os piratas berberes que a capturaram considera-ram digna apenas do Sultão, essa sereia que eles passarama chamar de Naksidil… Sim, é patente que AbdülhamidHan dá uma atenção especial a Naksidil. Askidil agorasabe que ela não tem esperança. Há tanto tempo os olhosdo Sultão não se demoram nela ou... Ou meu magníficoamo se esforça para evitar olhar em sua direção? Ou quem sabe ele receia não ser capaz de se conter eretomar aquele pico de paixão com ela uma vez mais...Ele acredita que eu ignoro a excitação daquela noite quepassaram juntos. Æ Meu Soberano: devo confessar que adoro os brincosque tão generosamente me enviou. Aqueles gloriosos cris-tais em forma de lágrimas dispostos como uma meia florme emocionaram a ponto de me deixar sem palavras.Preciso agradecer. Imagino se o seu olhar me pegou admirando os cris-tais do magnífico candelabro do grande salão do harém.Será que, de alguma forma, notou a afinidade que sintopor essa gema, meu amado Soberano? Se assim for, mi-nha felicidade não tem comparação. Esse até pode ser um
  10. 10. A CONCUBINA 15sonho remoto, embora eu preferisse que fosse verdade,apenas imaginar que o senhor possa abrigar o desejo deacentuar meu prazer... Eu comparei os cristais montados em ouro dessesbrincos elegantes a lágrimas; foi meu primeiro pensamen-to assim que os peguei. Ainda assim, as lágrimas se juntaram para criar umaflor. Como a que tem estado no meu coração. Seu amor,que me fez derramar lágrimas, também inspira em mimuma felicidade sem par, como se eu possuísse a mais raraflor do universo. É uma sensação tão extraordinária que meu coraçãoadeja como um pássaro indefeso, me levando a sonharacordada nas horas mais inoportunas e me obrigando aquerer viver e reviver aquelas coisas que eu vivi e, oh,como me fazem regozijar na dor! É impossível desvendar o mistério dessa afeição. Im-possível. Œ A excitação no Salão Imperial atingiu o auge. Mas eu estou calmo, solene e até distante, como seestivesse participando de um ritual que se repete cons-tantemente. Desesperadamente ocupado tentando controlar o tu-multo dentro de mim, alheio a tudo o que acontece àminha volta, apesar de toda a esplêndida comoção ou dosilêncio dominante.
  11. 11. O16 GÜL ¨ IREPOGLU Mas não me esquivo de supervisionar tudo diligente-mente. E não tenho dúvidas de que o orgulho por fazer bemo que me foi pedido especificamente pelo nosso amo,apesar de ser uma tarefa que execute raramente, se refle-te em minha conduta. Uma pessoa digna. Um homem digno. Sim, esta é minha imagem. Um homem alto, que não nega suas origens, de sem-blante escuro. Ainda assim um homem com inesperadosolhos verdes; um verde profundo que, ao vê-los, o inter-locutor tenta abafar sua surpresa, um verde-musgo dofundo do mar... Quanto aos lábios grossos e as sobrance-lhas negras, eles são meramente atávicos, oriundos de umlado de suas raízes étnicas. Um sorriso torto, exibido emraras ocasiões, revela dentes perolados; mas, como eu dis-se, essas ocasiões são bastante infrequentes. O nariz aqui-lino e o queixo com uma covinha profunda são dois dostraços pelos quais eu sempre agradeci! Em resumo, umhomem cuja presença aqui e agora teria sido impossível,exceto pelo conhecimento dessa característica que faz deleo que ele é... Na verdade, vir ao harém, ao próprio epicentrodo harém, não está ao alcance de qualquer homem,salvo nosso Soberano. Mesmo quando os decretos ex-traordinários de nosso Magnífico Amo desvirtuam asregras... Esta é a entrada para a câmara do Sultão no harémdo Novo Palácio10; além dela está a vida particular do se-nhor do universo...10 Palácio Topkapi: construído por ordem de Fatih Mehmet em 1475, foi residência dos sultões otomanos. (N. T.)
  12. 12. A CONCUBINA 17 Quem sabe que maravilhas esse domo fabuloso e or-namentado do maior cômodo do harém testemunhou atéagora... Tudo aqui parece flutuar em um ambiente encanta-do... De dia, as luzes multicoloridas que filtram pelos vi-trais no alto das paredes banham os divãs com uma som-bra suave, enquanto à noite, as velas do candelabro decristal que pende do domo refletem a luz dourada dosentalhes da colossal cúpula de madeira... Minha Askidil sempre olha para esse candelabro, semcessar ela observa os grandes cristais, as gemas esplêndi-das extraídas das rochas, revestindo o grande anel suspen-so por uma longa corrente. Dos castiçais de cristal enta-lhado às minúsculas esferas de cristal que acompanham acorrente passando pelas lágrimas, diferentes de todo o res-to... Ela se deixa absorver pelo que é diferente, como elamesma... O cristal que se mexe à menor brisa, o cristalque capta a luz e a reflete, enquanto a alimenta em suadensidade semitransparente. Essa gema incolor, claracomo a água, era extraída de cavernas secretas gregas. Osmineiros, convencidos de que tinham criado o gelo eternoque jamais derreteria, chamaram esta gema de êñýóôáëëïò,que significa gelo. Essa aparência pura e clara tornou-sesinônimo de inocência e, por centenas de anos, o cristalmanteve uma posição sólida em presentes sagrados. Foi só por causa de Askidil que eu pesquisei intensa-mente sobre essa pedra. Afinal, o aprendizado não temfim. Essa gema preciosa e muito dura costuma adornarcaixas, tigelas, cálices, fivelas de cintos, brincos e colaresdo tesouro, mas, em minha opinião, em nenhum dessesornamentos ela tem essa forma perfeita; pessoalmente,acho que a forma mais adequada para o cristal de rocha éa lágrima. Como se lágrimas escorrendo da essência darocha tivessem se congelado ao fluir... Askidil habita essamilagrosa metamorfose, essa transição sem paralelos, e
  13. 13. O18 GÜL ¨ IREPOGLUentão se move para sua própria conversão, eu sei bem... De minha parte, eu a vejo como o próprio cristal derocha, essa gema que reflete a luz; eu vejo Askidil no cris-tal de rocha… Eu gostaria de presenteá-la com uma joia de cristal. Um dia talvez, quem sabe... Æ Eu coloquei os brincos, meu Soberano. Eu teria prefe-rido passá-los pela ferida que o senhor abriu no meu cora-ção e não pelos buracos das minhas orelhas, se eu pudesserasgar a minha pele. As lágrimas de cristal são muito pesa-das. Cheguei a me lembrar de quando furei as orelhas,revivi mais uma vez aquele momento. Eu me lembrei comoa Kalfa calmamente furou o centro do lóbulo, usando aponta de ouro de um brinco e limpou o sangue com umpano limpo, enquanto eu engolia as lágrimas e cerrava osdentes... O senhor sabe, meu amo, como cada mulher doharém usa um par de brincos o tempo todo. Todas se en-feitam para agradá-lo, para ter um toque de cor entre oscabelos... Para assim atraírem sua atenção... O principalobjetivo não é satisfazer a si mesma. Sem falar da impor-tância do valor; quem recusaria uma peça exclusiva de joa-lheria? Já se tornou um costume o senhor mandar umajoia para cada concubina de quem gosta na manhã seguinteà noite em que ela lhe causou deleite. As mulheres basei-am seu futuro no tipo e tamanho da joia. Eu me pergunto,será que o senhor escolhe as joias pessoalmente?
  14. 14. A CONCUBINA 19 Œ As musicistas escolhidas a dedo estão esperando emsilêncio total desde que tomaram seus lugares no meza-nino acima da área das Kadinefendis. Eu contribuí bastante para o treinamento delas. Atéagora, um grupo de musicistas como esse jamais tinhasido visto no harém. Essas moças foram selecionadas en-tre incontáveis concubinas apenas e tão somente por suaexcelência. De qualquer forma, o harém é uma escola, amais rigorosa de todas; o mundo em geral pode pensar oque quiser, a maioria das mulheres aqui pode nunca seravistada por seu amo, mas todas, sem exceção, recebemo melhor treinamento que existe. Toda vez que nosso amo confia a mim a organizaçãodas festividades, desejoso de excelência além da perfei-ção, ele me ordena: “Você organiza, Jaffar!” e eu me es-forço para me superar. Nosso Soberano jamais pousa osolhos no grupo de musicistas lá em cima, nem nas canto-ras, apenas escuta a música. Em outras palavras, essasmoças têm pouca chance de serem agraciadas com a li-sonja do senhor do mundo, quer dizer, a menos que avoz excepcional de uma cantora atraia sua atenção. Dequalquer modo, essas moças ascenderam, não por suabeleza física, mas por seu talento musical e foram treina-das durante anos para satisfazer o prazer musical do Sul-tão. Mesmo assim, uma vez ou outra, a Hazinedar Kalfapode decidir que uma das musicistas é adequada para acama do Soberano, ordenando que a moça sirva o caféno salão; que o amo avalie a garota, se ele gostar dela,tanto melhor...

×