Um guerreiro em missão
Margaret Moore
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Warrior SerieWarrior SerieWarrior SerieWarrior Serie
. A Warrior's Heart (992)
2. A Warrior's Quest (993)
3. A Warrior's...
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Capítulo UmCapítulo UmCapítulo UmCapítulo Um
Sir Blaidd Morgan, cavaleiro do reino, amigo e homem de confiança de
Henry ...
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consideração quando o assunto é casamento.
— Suponho que não — replicou Trev, em tom vacilante.
— Claro que não — afirmo...
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Trev se encontrava logo atrás dele. O cavaleiro exibiu um sorriso
divertido quando passaram em frente à residência.
— De...
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caminhavam pelo alto das muralhas. Do outro lado da portaria, havia mais um
portão em carvalho maciço e grosso com baten...
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Blaidd continuou a sorrir, e enquanto respondia a Trev, não afastava o
olhar do rosto delicado.
— De fato, se ela é a se...
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A mulher ergueu o queixo em uma atitude desafiadora.
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— Diga-me, Becca. Sempre fala dessa maneira com seus super...
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pronto.
— Acha que ela é mesmo uma sentinela? — perguntou enquanto
atravessavam o pátio.
— Seja quem for, acho que não é...
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— Só espero que o lorde não fique furioso ao saber como você tratou um
cavaleiro da corte do rei Henry.
— Pois eu esper...
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Capítulo DoisCapítulo DoisCapítulo DoisCapítulo Dois
Enquanto Trev terminava de carregar a bagagem para o quarto que
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alvos.
Blaidd, no entanto, passara anos convivendo com a hipocrisia dos
cortesãos e logo notou que o sorriso amistoso n...
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daquela forma ao casamento de seus pais.
— Meu pai era um cavaleiro quando eles se uniram.
— E belo como o filho — elog...
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um vestido de veludo azul claro, lady Laelia era uma visão angelical, com
feições perfeitas, pescoço delicado e cascata...
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Aceitando o desafio, Blaidd levou a mão ao peito e adotou um tom de
voz baixo e provocante que costumava reservar para ...
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Parecia que haviam lançado um feitiço naquele lugar, neutralizando sua
capacidade de atrair as mulheres. Por outro lado...
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inimigos.
— Gostaria de escutar essa história, milorde? — o tom de voz sereno não
combinava com a expressão furiosa de ...
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toca, encantaria a corte. Espero que me conceda o prazer da próxima dança.
Em vez de se mostrar lisonjeada, a dama o fi...
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Capítulo TrêsCapítulo TrêsCapítulo TrêsCapítulo Três
Movimentar-se na fria escuridão da capela era como mergulhar nas
á...
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O tom de sua voz parecia bastante sincero, apesar de ele não ter
motivos para se desculpar. Além disso, Becca nunca vir...
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homens nessa situação acabam agindo sem medir as conseqüências.
— Acha que ele roubará alguma coisa?
— Não. Ele nunca f...
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— Espero que isso não seja necessário. Falarei com Meg também.
Hesitou por instantes e depois resolveu explicar sua rea...
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Poder? Não permitiria que homem algum a usasse para seu propósito,
qualquer que fosse.
Pensando assim o empurrou.
— Ess...
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sua honradez? Por certo, beijá-la fora um tanto… Ora, havia sido um idiota,
deixando-se levar pelo desejo e esquecendo ...
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Os olhos do adolescente se dilataram de surpresa.
— Por quê?
— Tive uma discussão com lady Rebecca. E antes que me recr...
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Capítulo QuatroCapítulo QuatroCapítulo QuatroCapítulo Quatro
Na manhã seguinte, lady Laelia se encontrava de péssimo hu...
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sua!
Não lhe agradava o fato de ser repreendida como uma criança.
— Parece muito empolgada com o galês. Não sabia que s...
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fitando-a presunçosa. — Sir Blaidd me parece um tanto tosco, mas darei um
jeito nisso.
Becca imaginou Blaidd modificado...
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— A senhorita tem vestidos tão lindos! Por que não os usa?
Becca lançou um olhar à túnica simples que trajava e ao cint...
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próximo ao altar.
— Bom dia, sir Blaidd! — cumprimentou-o o lorde, efusivo. — Folgo em
saber que não é como muitos jove...
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desejo supera a razão.
Becca suspirou exasperada. Seu olhar pousou abaixo da cintura de
Blaidd e depois voltou a encará...
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Capítulo CinCapítulo CinCapítulo CinCapítulo Cincocococo
Alguns dias chuvosos se passaram, durante os quais Blaidd se e...
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parecia tarefa exclusiva de Rebecca. Ela se movimentava pelo castelo com o
molho de chaves tilintando em sua cintura, d...
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marrom ornado com uma sela requintada e brilhante que, por certo,
destinava-se a lady Laelia.
Blaidd deslizou o olhar p...
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— Custou-me uma fortuna, mas valeu cada moeda — afirmou Blaidd,
orgulhoso.
Aderyn Du não era arredio, mas aceitou a car...
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comandante de minha sentinela, para lhe ensinar alguns truques — disse o
lorde, sorrindo.
— Com prazer — retrucou Blaid...
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Laelia se aproximou com o rosto ainda corado. A requintada capa de lã
azul com apliques de pele de raposa realçava aind...
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Capítulo SeisCapítulo SeisCapítulo SeisCapítulo Seis
O sol quente daquele dia radiante de primavera ajudara a secar a
e...
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— Minha mãe está ansiosa por um neto — sorriu o cavaleiro. — Creio
que eu a esteja frustrando nesse sentido.
— Isso ser...
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Puxou as rédeas de Aderyn Du, deixando que lady Laelia e o pai
cavalgassem à frente. Quando os cavalos do escudeiro e d...
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Margaret moore [warrior] - 14 - guerreiro em missão - margaret moore

  1. 1. Um guerreiro em missão Margaret Moore Série WarriorSérie WarriorSérie WarriorSérie Warrior –––– Vol. 4Vol. 4Vol. 4Vol. 4 Copyright © 2OO3 by Margaret Moore Originalmente publicado em 2OO3 por Harlequin Historicals Título original: IN THE KING' S SERVICE Digitalização: Palas AtenéiaDigitalização: Palas AtenéiaDigitalização: Palas AtenéiaDigitalização: Palas Atenéia Revisão: Palas AtenéiRevisão: Palas AtenéiRevisão: Palas AtenéiRevisão: Palas Atenéiaaaa Este Livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos. Sua comercialização é estritamente proibida.
  2. 2. 2 Warrior SerieWarrior SerieWarrior SerieWarrior Serie . A Warrior's Heart (992) 2. A Warrior's Quest (993) 3. A Warrior's Way (994) 4. The Welshman's Way (995) 5. The Norman's Heart (996) 6. The Baron's Quest (996) 7. A Warrior's Bride (998) 8. A Warrior's Honor (998) 9. A Warrior's Passion (998) 1O. The Welshman's Bride (999) 11. A Warrior's Kiss (2OOO) 12. The Overlord's Bride (2OO) 13. A Warrior's Lady (2OO2) 14. In the King's Service (2OO3) Um guerreiro em missãoUm guerreiro em missãoUm guerreiro em missãoUm guerreiro em missão Diziam que com apenas um sussurro ele conquistava o coração de uma donzela… E agora Sir Blaidd estava lançando seu notório charme para Lady Rebecca Throckton. Deveria ela confiar naquele homem? Um trauma de infância tornou-a descrente do casamento, ainda assim o guerreiro galês a fazia sentir que tinha o direito de amar e ser amada! Apesar de não poder se envolver em um romance durante a missão secreta que cumpria em nome do rei, Sir Blaidd descobriu-se arrebatado por Rebecca. Por certo, aquele não seria um mero idílio, como tantos outros que tivera em sua vida mundana. Era um sentimento fadado a ser eterno!
  3. 3. 3 Capítulo UmCapítulo UmCapítulo UmCapítulo Um Sir Blaidd Morgan, cavaleiro do reino, amigo e homem de confiança de Henry III, campeão de torneios e capaz de conquistar o coração de uma mulher com apenas um sussurro, puxou as rédeas de seu cavalo, fazendo-o parar. Água pingava do capuz encharcado do capote de lã e suas botas estavam enlameadas. Um aroma de folhas úmidas se desprendia do bosque a sua esquerda. À direita, algumas vacas pastavam em um prado sob o abrigo de um carvalho. Ao menos agora, podia divisar a aldeia e o castelo mais adiante. — Aquele deve ser o castelo Throckton. Graças a Deus! — disse ele a seu escudeiro enxarcado. — Temia que tivéssemos tomado a bifurcação errada há algumas milhas e fôssemos obrigados a dormir na floresta esta noite. O escudeiro ajustou o capuz do capote à cabeça. — Pensei que vocês galeses fossem acostumados à chuva. — De fato sou, Trev. E devo isso ao estilo de treinamento de seu pai. Mas isso não quer dizer que goste dela. Blaidd e o pai de Trevelyan Fitzroy, sir Urien, eram velhos amigos. Ele o treinou nas artes da guerra, que incluíam praticar em quaisquer condições meteorológicas. O rapaz de dezesseis anos indicou a fortaleza que apreciara à distância. — Não pensei que lorde Throckton fosse um homem tão importante. Aquela residência é um castelo! — É mais suntuosa do que imaginei — confessou Blaidd. Em uma visão mais acurada, parecia uma construção sólida, com paredes internas e externas, uma luxuosa portaria e uma enorme casa no centro. Blaidd conhecia poucos castelos como aquele e imaginou se o rei Henry não ficaria surpreso ao ser informado da extensão da residência do lorde Throckton, se já não o soubesse. Aquilo talvez explicasse as suspeitas do rei. — Nem todos os homens importantes freqüentam a corte — comentou Blaidd, enquanto instigava o alazão preto, Aderyn Du, a trotar. — Nossos pais são um exemplo disso. — Acredita que lady Laelia é tão bela quanto dizem? — inquiriu o escudeiro. Blaidd voltou-lhe um sorriso fraterno. — Provavelmente não, mas não há mal algum em conferirmos. — Atravessamos toda essa distância, para que possa confirmar isso? — indagou Trev, incrédulo. Blaidd não estava disposto a pô-lo a par do verdadeiro motivo pelo qual Henry o havia enviado, portanto, limitou-se a sorrir. — O que mais um nobre cavaleiro poderia fazer se não apreciar? Ouvi muitas histórias sobre a beleza de lady Laelia e decidi que a jornada valeria a pena. Minha mãe está começando a se desesperar, achando que nunca encontrarei uma esposa. — Então se lady Laelia fizer jus à beleza apregoada, casar-se-á com ela? A gargalhada estridente de Blaidd ecoou acima do barulho da chuva e do trote dos cavalos. — A beleza não é o único atributo que um homem deve levar em
  4. 4. 4 consideração quando o assunto é casamento. — Suponho que não — replicou Trev, em tom vacilante. — Claro que não — afirmou o cavaleiro. — Então já pensou sobre o assunto antes? —Claro que sim — afirmou Blaidd. -— Mas nunca encontrei a mulher certa. — E por isso que namora tantas? — Não me relacionei com tantas assim. Não vou negar que gosto da companhia feminina, mas não sou esse estupendo amante que os fofoqueiros pintam. — Mas Gervais disse… — Seu irmão tem tanto conhecimento de minha vida amorosa quanto você. Resignado, Trev permaneceu em silêncio durante a travessia da ponte de pedra que levava à aldeia. Blaidd ficou satisfeito. Não gostava de discutir seus relacionamentos amorosos com ninguém Devido às chuvas, o rio estava cheio. A água revolta batia contra os alicerces da ponte. Aquela era uma refinada obra de engenharia. Incomum para um lugar tão distante do norte e a oeste de Londres. A chuva começou a abrandar e Blaidd pôde observar melhor a aldeia. Compreendia vários chalés de barro e sapê. Lojas e tendas, algumas com moradias acima, margeavam o prado da aldeia. Tinha visto lugarejos em pior estado, mas também conhecera muitos em condições melhores. A igreja não era muito imponente também, o que o levou a suspeitar que muito pouco da renda de lorde Throckton, proveniente de seus inquilinos, era destinada à caridade. Parecia que boa parte dela era gasta com pedras, areia e exímios pedreiros para seu castelo. A aldeia estava deserta, entretanto, Blaidd tinha a impressão de estar sendo observado. Por certo, os aldeãos invisíveis especulavam sobre a identidade dos forasteiros e o que os trouxera ali. A julgar pela maneira como Blaidd montava, a presença do escudeiro e a insígnia no escudo que trazia consigo, seria fácil concluir que se tratava de um cavaleiro da guarda real. A chuva havia cessado quando eles se aproximaram de uma ampla construção que parecia ser uma hospedaria. Blaidd estava avaliando se valia à pena passar a noite naquele lugar, quando uma mulher de cabelos pretos desgrenhados apareceu em uma das janelas abertas do segundo andar. Ela se inclinou sobre a janela a tal ponto que os seios volumosos pareciam querer saltar pela camisola larga. Depois de o fitar por alguns segundos, exibiu um sorriso atrevido e assoviou. No instante seguinte, várias outras mulheres, similares na aparência, assomaram às outras janelas. — Que lindo soldado, não acham? — gracejou a mulher de cabelos pretos. — Aposto que também é valente na cama. As demais gargalharam em uníssono e, em seguida, outra se manifestou. — Que linda arma possui, milorde. Adoraria vê-la de perto. — Eu prefiro o mais novo — atalhou outra. Blaidd olhou por sobre o ombro. Com a face rubra,
  5. 5. 5 Trev se encontrava logo atrás dele. O cavaleiro exibiu um sorriso divertido quando passaram em frente à residência. — Desculpe-nos, estimadas damas — disse como se estivesse se referindo à rainha da Inglaterra. — Mas meu escudeiro e eu seremos obrigados a declinar de tão generosa oferta. — Oh, escutem-no! — gritou a de cabelos pretos. — Não possui a voz mais linda que jamais ouviram? — suspirou com olhar sonhador. — Galeses! Já ouvi falar muito bem deles — e com um gesto deixou claro a que se referia. — Entre, bonitão, e sussurre algo impróprio em meu ouvido. É o mínimo que pode fazer, uma vez que não vai ficar. Blaidd levou a mão ao coração e curvou-se de leve. — Que pena! Temo não poder atender a tão tentador convite. Mas tenho negócios a tratar no castelo e não podemos nos deter por muito tempo. Em seguida, instigou o cavalo a trotar, mas antes que pudessem partir, uma jovem, cuja idade equivalia a de Trev, assomou à porta do casarão. O cabelo loiro se encontrava em completo desalinho, a camisola justa quase colava ao corpo e os olhos esverdeados os fitavam com intensidade. Mas apesar do rosto angelical, o jeito como ela se recostava à porta e o sorriso malicioso estampado na face sem maquiagem, denunciava a vasta experiência que devia possuir naquele ofício. Enquanto seguiam adiante, Blaidd lamentou a perda precoce da inocência, embora entendesse que a pobreza oferecia poucas opções a algumas mulheres. Foi então que percebeu que Trev não o estava seguindo e virou-se para ver o que estava acontecendo. O cavalo do escudeiro se encontrava parado em frente à porta do casarão e o rapaz fitava a jovem como que hipnotizado. Blaidd praguejou: — Fitzroy! Trev estremeceu com o grito, fustigou o cavalo e, em segundos, estava cavalgando a seu lado. — Ela é uma prostituta como as outras — disse Blaidd. — Eu sei. Não sou mais criança — resmungou Trev sem encará-lo. — Minha audição também é perfeita. Escutei o que elas disseram. — Então sabe que deve esquecer aquela menina. O escudeiro enrubesceu. — Tenho dinheiro. — Não estou discutindo se pode pagar ou não. Aquele não é um lugar adequado para você. Além das pulgas e percevejos, mulheres em lugares como esse irão roubá-lo com todo o prazer. Um homem sensato deve se manter longe de confusão. — Está falando como meu pai. — Obrigado pelo elogio — replicou o cavaleiro. — Além disso, sou responsável por sua segurança enquanto estiver a meu serviço. Se seu pai soubesse que o deixei freqüentar um bordel, teria uma síncope. Mas não sem antes me arrancar a cabeça fora. — Já esteve em uma dessas casas? — Nunca quis nem precisei freqüentá-las — respondeu Blaidd com sinceridade. Para seu alívio, alcançaram os portões do castelo Throckton, pondo um ponto final àquela conversa. Sentinelas que patrulhavam a fortaleza
  6. 6. 6 caminhavam pelo alto das muralhas. Do outro lado da portaria, havia mais um portão em carvalho maciço e grosso com batentes de metal que levava a uma ala externa. Blaidd abaixou o capuz e dirigiu-se através da porta levadiça em direção à portaria, passando pelo que podia se chamar de buraco da morte. Se inimigos ficassem presos entre as grades de madeira da porta levadiça e o sólido portão interno, os defensores do castelo poderiam facilmente jogar pedras ou óleo fervente através daquele buraco. Tal pensamento fê-lo estremecer. Quando chegou ao portão interno desmontou e entregou as rédeas de Aderyn Du a Trev que já se encontrava a seu lado. Antes que Blaidd pudesse expressar uma saudação, um painel do lado direito do portão se abriu. Por certo, os sentinelas que montavam guarda no alto do muro alertaram os de baixo sobre os visitantes. Um rosto fino, emoldurado por um grosso capuz de lã marrom apareceu na abertura. Os brilhantes olhos azuis do sentinela fitavam Blaidd com desconfiança. — Quem é você e o que quer? — inquiriu com aspe-reza. — É uma mulher! — exclamou Trev, em um tom de voz mais alto do que desejava. Passados os primeiros momentos de espanto, Blaidd fez como de costume quando encontrava uma mulher. Exibiu um sorriso encantador. — Não sabia que lorde Throckton possuía amazonas em suas tropas. Com uma expressão inquisitiva, os olhos azuis o inspecionaram demoradamente. Desde a cabeça molhada, passando pela espada pendurada na cintura até a sola das botas enlameadas. Então a expressão se suavizou quando ela avistou Aderyn Du. Blaidd se empertigou. Por certo seu cavalo era um belo animal, mas não estava acostumado a ser preterido por ele. Voltando a atenção ao cavaleiro, a expressão rude voltou a se estampar na face delgada. — Não respondeu a minha pergunta. — Ele é sir Blaidd Morgan — interveio um incrédulo Trev, como se o mundo inteiro tivesse obrigação de conhecer a identidade do mentor. Blaidd, no entanto, não partilhava do mesmo pensamento. Por certo, aquela fêmea nunca viajara para o norte de Londres ou leste de Gales. — Como disse meu escudeiro, sou sir Blaidd Morgan — respondeu ele, em tom calmo. — Vim em visita social ao lorde Throckton, desde que nos deixe atravessar o portão. A mulher torceu o nariz. — Veio para cortejar lady Laelia, como muitos já vieram antes. Bem, boa sorte. — Espero tê-la, desde que lady Laelia valha à pena ser cortejada. — Vejo que não possui falsa modéstia, senhor cavaleiro — retrucou a desconhecida. — Deve ser interessante ver como um galês se desempenha. O senhor é galês, não? Aquela altura, Trev estava louco de indignação. — Permitirá que esta mulher lhe fale desse jeito? Temos de permanecer aqui como um par de mascates, suplicando para entrar?
  7. 7. 7 Blaidd continuou a sorrir, e enquanto respondia a Trev, não afastava o olhar do rosto delicado. — De fato, se ela é a sentinela, eu não só vou deixá-la falar dessa forma, como vou permitir que nos faça esperar, se essa for sua vontade. A mulher riu debochadamente. — Vou lhe dar um crédito por seus modos, senhor galês. Entre, e seja bem-vindo. Em seguida, fechou o painel e em instantes o som do pesado portão sendo puxado se fez ouvir. — Finalmente! — resmungou Trev. — Por Deus, Blaidd, essa é a mais rude… — Não se incomode com isso. Viemos sem ter sido convidados, portanto não podemos nos queixar de uma não tão amistosa acolhida. — Espero que lorde Throckton seja mais educado. — Estou certo de que sim. É obrigação de todo nobre oferecer sua hospitalidade a outro. O escudeiro não lhe deu resposta, mas pela expressão contrariada no rosto do rapaz, Blaidd deduziu que ele ainda estava aborrecido. Para ser sincero consigo mesmo, também se sentira incomodado com o jeito atrevido daquela mulher, mas sabia como lidar com o desrespeito. Como não nascera nobre, só fora aceito na corte depois de muitas vitórias em campeonatos e de reconhecida sua amizade com o rei. Apesar daquela não ser a maneira pela qual costumava ser acolhido, tanto em castelos quanto pelas mulheres, não se ofendia tão facilmente quanto Trev. Quanto àquela desconhecida, estava curioso para ver a totalidade de sua face. Se tivesse a metade do fascínio daqueles olhos azuis, a estada seria mais interessante do que pensara. Embora não pudesse perder o foco em seu verdadeiro e mais importante propósito. Os portões se abriram lentamente e Blaidd e seu escudeiro adentraram em um amplo e graminoso pátio. À frente se encontrava a proteção mais interna do castelo, com torres nas laterais. Vários guardas armados — todos homens — encontravam-se a postos na portaria. A mulher de olhos azuis, escondida pela longa capa marrom, aguardava próximo ao portão, como se ela própria o tivesse aberto. A face era delgada, a pele pálida e os olhos azuis pareciam maiores do que o rosto. Mas as feições eram harmônicas e quando Blaidd observou os lábios carnudos, o primeiro pensamento que lhe veio a mente foi beijá-la. — Espero que perdoe minha insistência, senhor. Freqüentemente recebemos visitas de subordinados do rei que nos levam a suspeitar de todos. Subordinados? pensou Blaidd. Não estava mais disposto a lhe perdoar a insolência, tivesse ela olhos estonteantes ou não. — Ele não é um subordinado — vociferou Trev, fazendo eco com seus pensamentos. — Este cavaleiro é amigo do rei Henry e… — Trev, por favor. Permita-me lidar com esta serviçal — interrompeu-o Blaidd, aproximando-se da amazona até ficarem a um palmo de distância. Ela se empertigou, enquanto Blaidd a examinava dos pés à cabeça. — Qual é seu nome, criada? — questionou com calma aparente antes de lhe lançar um sorriso que seus oponentes na luta armada aprenderam a temer.
  8. 8. 8 A mulher ergueu o queixo em uma atitude desafiadora. — Becca. — Diga-me, Becca. Sempre fala dessa maneira com seus superiores? — Não costumo falar com ninguém que se julgue meu superior. Aquela era, sem dúvida, a mais insolente criada que ele conhecera. — Se esta é a hospitalidade que um nobre deve esperar no castelo Throckton, não me causa espécie o fato do lorde não estar em alta estima na corte do rei. O olhar impassível da amazona por fim vacilou. Mas apenas por um breve momento. — Se isso é verdade, apenas confirma o que penso da corte inglesa. — E o que sabe sobre ela? Os olhos azuis se dilataram com o que Blaidd reconheceu como uma perplexidade fraudulenta. — Não disse que sabia algo sobre a corte inglesa, senhor. Disse que isso confirma o que penso dela. Ela se inclinou com uma graciosidade inesperada. — Sinto se o ofendi, sir Blaidd. O cavaleiro inclinou a cabeça, enquanto a fitava não muito crédulo em tal mudança de comportamento. — Sente? — Se o que falei causar algum problema para lorde Throckton, sim. — E então ela sorriu, com uma expressão tão jovial que o fez pensar em ter achado uma flor em botão em meio às folhas secas do outono. — Mas se minha opinião sincera o fez pensar que sou uma subalterna insolente, não estou nem um pouco arrependida. Mediante a magia daquele sorriso, a raiva de Blaidd se desfez. — Talvez eu seja piedoso e não conte a lorde Throckton sobre a impertinência de sua sentinela. — Talvez ele não se surpreenda — o sorriso da amazona secou, mas sua expressão não denotava preocupação. Em seguida, ajustou a capa ao corpo delgado e sorriu outra vez. — Não estava com pressa para conhecer lady Laelia. Acho que o senhor terá alguma chance. — Enfim pareço ter lhe inspirado alguma boa impressão. Estou quase me considerando noivo. Os olhos azuis brilhantes tornaram a mudar, adotando uma expressão séria. — Não parece ter conhecido concorrentes a sua altura até agora, sir Blaidd Morgan de Gales, mas o terá a partir desse momento. Desejo-lhe sorte, se pensa que Laelia e seu dote o farão feliz. — A verei no castelo? — a pergunta lhe escapou dos lábios sem que percebesse. — Espero que não — retrucou ela, parecendo sincera. Os sentinelas próximos tentavam conter o riso. Blaidd Morgan gostava de conviver com pessoas sorridentes a seu redor, mas detestava ser o motivo do riso. E há muito tempo ninguém ousava fazê- lo. Irritado, girou nos calcanhares e montou em Aderyn Du. — Vamos, Trev — ordenou com rispidez. O escudeiro obedeceu-lhe de
  9. 9. 9 pronto. — Acha que ela é mesmo uma sentinela? — perguntou enquanto atravessavam o pátio. — Seja quem for, acho que não é muito boa da cabeça e espero não tornar a vê-la. Quando sir Blaidd Morgan se afastou, Becca lançou um olhar aos guardas e ao chefe deles, homem grisalho e alto. — Pobre homem. Acho que não esperava por uma recepção como esta. Todos irromperam em uma gargalhada. — Já chega, rapazes — ordenou Dobbin, o chefe dos sentinelas. — Voltemos ao trabalho. Quando os guardas retornaram a seus postos, Dobbin juntou-se a Becca, no cômodo próximo da portaria destinado ao descanso dos sentinelas quando não estavam a postos. A construção de pedra era provida apenas de uma mesa e dois bancos e aquecida por uma lareira. Becca e Dobbin penduraram seus capotes em uma cavilha próxima à porta, e se encaminharam para os bancos postados de frente para a lareira. Dobbin esticou as pernas e suspirou. — Estou muito velho para ficar em pé na chuva. — Poderia ter ficado aqui dentro. — Muito arriscado. — Eles eram ágeis no ataque — observou Becca. Dobbin lhe lançou um olhar astuto. — E o que teria lhes dito se eu não estivesse por perto? Ela sorriu marota, reconhecendo a sapiência do velho guarda. Por certo, teria sido ainda mais impertinente. Afinal, tratava-se de mais um cavaleiro que vinha conferir se a beldade de Throckton fazia jus a tal adjetivo e cortejá-la se achasse que sim. — Grande sujeito para um galês — afirmou Dobbin. — Monta com perfeição e tem ombros e pernas de um grande lutador. — Atrevo-me a dizer que deve ser um campeão de torneios — concordou Becca, enquanto esticava a saia molhada para que pudesse secar mais rápido. O chaveiro pendurado em sua cintura tilintou com o movimento. — E um homem muito bonito, apesar daqueles cabelos. Nunca vi um nobre com cabelos à altura dos ombros como um selvagem. — Talvez seja moda entre os galeses. — Nunca os vi usá-los assim — replicou Dobbin. — E conheci muitos deles em torneios. Becca pousou a mão sobre o ombro do guarda. — Que tal eu perguntar-lhe por que não o corta? Dobbin quase caiu do banco. — Acho melhor não. Ele parecia querer estrangulá-la há pouco. Temi que o fizesse quando de você se aproximou. Becca tentou não se lembrar da maneira como seu coração batera descompassado quando o belo cavaleiro se acercou dela com aquele olhar penetrante. Nunca um homem lhe lançara olhar igual. — Está bem. Não vou perguntar — concordou, sorrindo para o amigo. — A julgar por sua empáfia, não me surpreenderia se sir Blaidd esperasse conquistar Laelia com apenas um sorriso.
  10. 10. 10 — Só espero que o lorde não fique furioso ao saber como você tratou um cavaleiro da corte do rei Henry. — Pois eu espero que fique — retrucou Becca. Em seguida, encurvou os ombros, baixou o queixo e falou com voz grossa em uma imitação do senhor do castelo de Throckton. — Ignore-a, sir Blaidd. Ela é sem juízo e tola. Apenas uma mulher. Dobbin meneou a cabeça. — É melhor tomar cuidado, milady, ou qualquer dia desses, seu pai se irritará de verdade. E então, o que será de você?
  11. 11. 11 Capítulo DoisCapítulo DoisCapítulo DoisCapítulo Dois Enquanto Trev terminava de carregar a bagagem para o quarto que dividiriam, Blaidd esperou por lorde Throckton no vasto saguão. Aguardava de pé e de costas para a maciça lareira. O calor agradável o aquecia gradualmente. Seu humor começou a melhorar quando avistou o quarto, que, como o resto da fortaleza, era amplo e mais opulento do que imaginava. Depois de adentrar o pátio de pedra, notou a enorme construção que deveria ser o saguão e o que supôs ser uma capela, a julgar pelos vitrais. Blaidd concluiu que a construção de dois andares deste lado do jardim, próximo ao saguão, abrigava os aposentos que a família e alguns criados ocupavam, bem como o solar do lorde. Os quartos construídos por sobre o estábulo deveriam ser destinados aos sentinelas e cavalariços. Os demais cômodos que podia identificar eram a cozinha, próxima ao saguão com uma ampla chaminé e a oficina do ferreiro. A masmorra, uma enorme estrutura circular à esquerda da entrada, parecia ter sido construída há varias décadas ao contrário do saguão, da capela e da imponente portaria, que aparentavam ser construções recentes. O interior do saguão somente se comparava ao do castelo do rei. Finas tapeçarias cobriam as paredes, retratando batalhas e caçadas. A mobília era nova, brilhante e sem máculas. O aroma delicado de alecrim e verbena dos incensos invadia suas narinas. Grossos toros de madeira sustentavam o teto e as bandeiras de cavaleiros, que deviam obediência a lorde Throckton, balançavam, movimentando o ar. Era uma numerosa coleção e a maior parte dela desconhecida. Poderiam as suspeitas do rei sobre a deslealdade de Throckton ter fundamento? O rosto da sentinela lhe veio à mente. Como seria seu semblante dormindo? Os olhos azuis brilhantes cerrados e os seios erguendo e baixando no ritmo da respiração? Sentiu o corpo aquecer ainda mais e aquilo não tinha nada a ver com o fogo da lareira. Como seria Becca na cama? Não fazia o estilo de mulher passiva. Quando decidia se entregar a um homem, devia fazê-lo com entusiasmo. Por certo lhe corresponderia à altura. Percebeu os evidentes sinais de excitação de seu corpo e apressou-se em lembrar que tinha uma missão importante a cumprir. Devia parecer interessado em lady Laelia. Não podia perder tempo se distraindo com uma serviçal assim como Trev não deveria voltar àquele bordel, não importava o quanto a jovem lhe parecera atraente. — Seja bem-vindo ao castelo Throckton, sir Blaidd! — uma voz profunda o saudou. Blaidd se voltou para olhar em direção a uma escadaria em caracol no final do saguão. Um homem robusto, com vasta cabeleira grisalha e ombros largos, caminhava em sua direção. Estava impecavelmente vestido, trajando uma túnica azul escura com um cinturão dourado. Por sua maneira e desenvoltura, concluiu que se tratava do senhor do castelo. Quando lorde Throckton alcançou a plataforma da escadaria, aproximou- se apressado com um sorriso prazeroso nos lábios que revelava os dentes
  12. 12. 12 alvos. Blaidd, no entanto, passara anos convivendo com a hipocrisia dos cortesãos e logo notou que o sorriso amistoso não combinava com a expressão dos olhos castanhos. Eles eram tão circunspectos quanto os da amazona que guardava o portão. Blaidd sentiu um frio na espinha. Era como se estivesse caminhando em areia movediça, embora a reação do lorde fosse compreensível. Que homem não suspeitaria da visita inesperada de um cavaleiro? Além disso, sua própria aversão a subterfúgios talvez o tornasse mais suspeito ainda. — Saudações, lorde Throckton — retribuiu, inclinando-se. — Péssimo tempo para uma viagem — disse o nobre. — O que me torna ainda mais grato por sua hospitalidade. — É um prazer recebê-lo — o sorriso do lorde se alargou, mas o olhar não perdeu a tonalidade sombria. — Suponho que não seja o mero acaso que o trouxe até aqui. — Tem razão — replicou Blaidd com o mais amistoso dos sorrisos. — No entanto, o que me motivou a vir é um assunto que prefiro discutir a sós, se possível. — Claro! Podemos conversar em meu solar. Dizendo isso, o dono do castelo guiou Blaidd em direção à escadaria pela qual acabara de descer. Quando alcançaram o segundo pavimento, o lorde o orientou a entrar em uma confortável sala que deixava clara a opulência e o gosto pelo luxo do dono. Novas tapeçarias de cores variadas decoravam as paredes. Cadeiras de carvalho com assentos de seda na cor rubi estavam espalhadas em pontos estratégicos do cômodo e uma extensa mesa, coberta de pergaminhos e recipientes com tinta, destacava-se no ambiente. Cortinas de linho pendiam das janelas altas e estreitas, que fechadas impediam a entrada da brisa fria da primavera. Com um suspiro de satisfação, o lorde se deixou afundar no acento sedoso da cadeira por detrás da mesa, e lhe indicou com um gesto o assento do lado oposto. — Por acaso possui algum parentesco com sir Hu Morgan? — questionou lorde Throckton assim que o hóspede se acomodou. Blaidd não escondeu a surpresa pelo fato de o nobre conhecer seu pai. — Sou seu filho. Conheceu-o? — Não. Como acredito que saiba, não costumo freqüentar a corte — respondeu o lorde, sorrindo. Westminster e Londres são muito barulhentas e povoadas para meu gosto. Mas ouvi falar dele. É um homem muito bem relacionado. — Meu pai também não costuma ir à corte com freqüência — informou Blaidd, decidido a não comentar sobre as importantes amizades que ele possuía. — Compartilha sua antipatia pelas cidades e prefere ficar em casa. — Com sua mãe que é reputada como a mulher mais bela de seu tempo — observou o nobre, dando de ombros. — É um homem sábio. — Blaidd limitou-se a concordar com um gesto de cabeça. — Lembro-me de que muitas pessoas ficaram chocadas com o fato de lady Liliana casar-se com um homem de origem tão humilde. Embora o comentário não fosse pontuado por malícia ou desrespeito, o queixo de Blaidd se contraiu como sempre acontecia quando alguém se referia
  13. 13. 13 daquela forma ao casamento de seus pais. — Meu pai era um cavaleiro quando eles se uniram. — E belo como o filho — elogiou o lorde. — Suponho que tenha a intenção de fazer a corte a minha filha. — As qualidades de lady Laelia são comentadas na corte, e sou um homem solteiro. Espero que a origem de meu pai não seja um empecilho para o senhor. Quero sua permissão para conhecê-la. — Decerto que sim. Tenho grande respeito por homens que venceram na vida — retrucou lorde Throckton em tom sincero. — E minha filha também. — Então posso contar com sua aquiescência para cortejá-la, se assim for o desejo de lady Laelia? O nobre pôs-se a brincar com o anel em seu dedo anular esquerdo e, em seguida, lançou-lhe um olhar avaliador. A atmosfera na sala mudou completamente. — O senhor não perguntou pelo dote, sir Blaidd. — Pelo que ouço falar das prendas de sua filha, creio que ela seja o próprio tesouro. O nobre pareceu lisonjeado. — Concordo, mas suponho que não lhe desagradará o fato de saber que o dote dela não será pequeno — fez uma pausa deliberada. — Mas também não será o maior do qual já ouviu falar. Posso lhe adiantar que desde que minha filha completou doze anos de idade, recebo freqüentes ofertas de pretendentes e nenhum até agora reclamou da quantia. Blaidd sorriu para o anfitrião. — Apesar de meus trajes, não sou um homem pobre que considera apenas o dote quando se trata de uma noiva. Estou trajando vestes ordinárias para evitar os ladrões nas estradas. — Devo alertá-lo, sir Blaidd, que não é o coração de Laelia que deve conquistar. E sim minha estima. Seja o senhor um cavaleiro ou um plebeu, bem apessoado ou não, amigo do rei ou não, é a mim que deve impressionar, não a ela. Eu recusei todos os pretendentes que vieram até agora. Ainda está disposto a cortejá-la? Blaidd assentiu. — Se estiver disposto a me dar uma oportunidade, milorde. — Estou, e é bem-vindo a ficar o tempo que quiser — o nobre apoiou-se nos braços da cadeira e se ergueu. — Agora que chegamos a um acordo, sir Blaidd, o jantar já deve estar pronto e eu estou faminto. Podemos? — disse, indicando a saída. O cavaleiro seguiu lorde Throckton até a sala de jantar repleta de mesas, cadeiras, criados e guardas. Trev os aguardava junto a uma das mesas. Depois de um discreto aceno de cabeça a Blaidd, o escudeiro continuou a observar a opulência do lugar. Os homens presentes pareciam ansiosos pelo início do jantar. Não podia culpá-los, a julgar pelo aroma agradável que emanava da cozinha. — Aqui está minha adorável Laelia — disse o lorde. O olhar de Blaidd seguiu o gesto do anfitrião e o que viu o deixou bem impressionado. Já vira beldades irretocáveis na corte, mas nunca conhecera mulher mais bela do que aquela diante de si. Trajando
  14. 14. 14 um vestido de veludo azul claro, lady Laelia era uma visão angelical, com feições perfeitas, pescoço delicado e cascatas de cabelos loiros caindo sobre os ombros delgados. A imagem ficava ainda mais perfeita pela atitude modesta da dama. Ela baixou a cabeça e fitou o chão de junco. — Não é uma beldade? — De fato, milorde, faltam-me palavras para expressar meu encantamento. Lorde Throckton deu de ombros, orgulhoso, e continuou a caminhar pelo aposento como um alazão imponente. Blaidd arriscou um olhar a sua volta e uma onda de choque o envolveu inexorável. Que diabos estava fazendo aquela serviçal sentada à mesa principal? Não se tratava de uma simples criada? E se não o fosse, quem seria ela? O que estaria fazendo, montando guarda no portão? Talvez fosse uma amiga de lady Laelia, e aquele interrogatório não passasse de uma brincadeira. Mas então, por que estaria sentada enquanto o lorde Throckton ainda estava de pé? Os olhos azuis brilhantes encontraram os seus e, mesmo àquela distância, Blaidd podia notar que ela se divertia com sua surpresa. Enquanto lhe sustentava o olhar, um sentimento de determinação apossou-se dele. Quem quer que fosse aquela mulher, e o que quer que estivesse pensando, iria se arrepender do dia em que o fizera de tolo. Lorde Throckton caminhou um pouco mais à frente e tomou a mão da bela loira. — Esta é minha filha, lady Laelia. Laelia este é sir Blaidd Morgan. A jovem não ergueu a cabeça ou os olhos. Ele se inclinou, tomando a mão direita da dama e levou-a aos lábios. — Milady, os rumores sobre sua beleza não lhe fazem justiça. Fora um elogio pouco original. Costumava se empenhar em exaltar a beleza de uma dama, mas a presença da insolente vassala parecia embotar-lhe a mente. — Seja bem-vindo ao nosso lar — replicou lady Laelia, erguendo um par de belos olhos verdes para fitá-lo. O tom de voz era agudo e ansioso, como o de uma menina. Ou de uma mulher, tentando parecer mais jovem. A moça de cabelos castanhos limpou a garganta. Seria ela alguma parenta louca? Isso explicaria seu comportamento impróprio. Lorde Throckton ergueu as grossas sobrancelhas e franziu o cenho, olhando na direção da suposta criada. — Sir Blaidd, esta é Rebecca. Minha outra filha. Filha? repetiu Blaidd para si mesmo. Nunca ninguém havia mencionado que o lorde tinha outra filha. Talvez por ela não ser tão bela quanto Laelia, mas bastante insolente. A falta de beleza física, podia explicar sua rudeza. A inveja podia tê-la transformado em uma megera amarga. — Nenhum elogio para mim, sir Blaidd? — provocou Rebecca, inclinando a cabeça para o lado e esboçando um sorriso cínico. — Admito que não sou páreo para Laelia, mas os cortesãos não são especialistas em lisonjas? Por certo não irá me desapontar.
  15. 15. 15 Aceitando o desafio, Blaidd levou a mão ao peito e adotou um tom de voz baixo e provocante que costumava reservar para encontros amorosos. — Longe de mim desapontar uma dama… sob qualquer pretexto. Ele se aproximou e lhe tomou a mão, erguendo-a até os lábios. Depositou um beijo suave sobre as articulações dos dedos delicados, e ergueu o olhar para fitá-la. — A senhorita, milady, é a mulher mais surpreendente que jamais conheci. A face delicada se tornou rubra, enquanto ela retirava a mão apressada. — Não considero isso um elogio, senhor cavaleiro. Não me impressionou. Ele curvou os cantos dos lábios em um sorriso indolente que costumava dar a uma mulher depois de ter feito amor com ela. — Asseguro-lhe que um homem gosta de ser surpreendido por uma mulher, e uma dama que consegue fazê-lo é uma criatura rara. Por um breve instante os olhos dela se dilataram de surpresa, e Blaidd conteve um grito de triunfo. Mas logo em seguida ela o fitou com o já familiar brilho zombeteiro no olhar. — Criaturas? — ela perguntou. — É isso que as mulheres significam para o senhor? Criaturas? Blaidd sentiu os músculos tensionarem e em instantes se tornou o cavaleiro que vencera muitos torneios. — Considero as mulheres que fazem troça com seus convidados meras criaturas. — Becca, já ouvimos o bastante por hora! — declarou lorde Throckton. Dizendo isso, passou apressado pela filha e sentou-se em uma cadeira de espaldar alto que lembrava um trono. — Este homem é nosso convidado e deve ser tratado como tal. Ela desviou o olhar de Blaidd para se reportar ao pai. — Eu o estou tratando como faço com todos os pretendentes de Laelia. A forma como a irmã comprimiu os lábios confirmava a informação de lady Rebecca. — Danação, Becca! Esse é o problema. Quando vai aprender a se comportar? Por que não se porta como sua irmã? — Porque não sou igual a ela. — Sabe ao que estou me referindo! — lorde Throckton fez um gesto brusco, indicando um acento a seu lado direito. — Sente-se, sir Blaidd. Não dê importância a Rebecca. — E olhando ao redor perguntou. — Onde está esse padre? Vamos dar graças antes de jantarmos. Concluindo que aquele tratamento entre pai e filha devia ser costumeiro, pois do contrário, não discutiriam na presença de um estranho, o cavaleiro optou por obedecer ao lorde Throckton e tomou o acento destinado aos convidados de honra, entre o anfitrião e lady Laelia. Becca se acomodou ao lado esquerdo do pai e, para sua surpresa, depois que a prece foi feita, ficou em silêncio. A conversa versou sobre os ex-pretendentes de lady Laelia. Toda vez que se fazia silêncio, a dama permanecia calada e limitava-se a responder de forma concisa às perguntas de Blaidd, não obstante o esforço do cavaleiro em parecer galante.
  16. 16. 16 Parecia que haviam lançado um feitiço naquele lugar, neutralizando sua capacidade de atrair as mulheres. Por outro lado, tinha de continuar no castelo Throckton mais algum tempo. Se cortejar a dama era a forma de consegui-lo, teria uma boa desculpa para se demorar. Olhou em volta e descobriu Trev, conversando com uma jovem criada que lhe servia o vinho. A menina gingava o corpo e enrolava uma mecha dos cabelos castanhos entre os dedos enquanto falava. Os sinais femininos de interesse, pensou Blaidd. Talvez devesse lembrar ao escudeiro seus deveres como convidados. — … então mandei aquele janota às favas — disse lorde Throckton, interrompendo-lhe os pensamentos. A voz do nobre já estava alterada pela quantidade de vinho que bebera. — Foi o último que expulsei antes do senhor. Aquilo significava que seu relato estava chegando ao fim, pensou Blaidd aliviado. O anfitrião apoiou as duas mãos na mesa e se ergueu. Blaidd ameaçou seguir-lhe o exemplo, mas o lorde o deteve. — Vou ao toalete. Este vinho francês tem efeito imediato sobre meus sensíveis intestinos — informou o nobre, piscando para Blaidd. — Mas é bom demais para ser evitado — acrescentou, afastando-se e deixando apenas uma cadeira vazia entre o cavaleiro e lady Rebecca. Blaidd não resistiu à tentação. — Então, milady — começou ele. — Costuma bancar a sentinela? Becca lhe voltou um olhar impassível. — Não, senhor cavaleiro. — Mas hoje resolveu se divertir a minhas custas? — Não apenas eu. A tropa também se entreteve deveras. Desculpe-me se não achou graça. Ele não acreditou no pretenso arrependimento da dama. — Ninguém gosta de ser feito de tolo. — Concordo. Especialmente os jovens cavaleiros que costumam ter o mundo a seus pés. Mas a humildade engrandece a alma, não acha? — Claro que sim. É uma pena que a senhorita não possua essa virtude. — Como pode afirmar isso? Claro que sou humilde. Como não poderia ser, se tenho de me comparar a minha irmã todos os dias. — E o que a motivaria, senão a arrogância, a se achar no direito de fazer troça com um cavaleiro? — E o senhor se julga humilde? Um homem que sorri para todas as mulheres que conhece como se elas estivessem salivando de desejo por si? — Becca! — ofegou lady Laelia. Blaidd havia esquecido a presença da outra dama. — Não se incomode, milady — acalmou-a o cavaleiro. — Não estou ofendido. Apesar disso a expressão de Laelia não se suavizou. Ao contrário, seus lábios se contraíram e a face enrubesceu. Blaidd já vira muitas mulheres em guerra. Conhecia aqueles sinais. — Se está tão disposta a falar, minha irmã — rosnou entre dentes. — Por que não conta a ele sobre o dia que caiu da macieira? Foi a vez da face de Becca se tornar rubra. Ela lançou um olhar gélido à irmã. Blaidd teve a impressão de estar em meio a uma linha de fogo entre dois
  17. 17. 17 inimigos. — Gostaria de escutar essa história, milorde? — o tom de voz sereno não combinava com a expressão furiosa de Laelia. — É muito interessante. — Acho que já ouvi histórias demais por esta noite. Em vez disso, não poderíamos escutar música? — questionou Blaidd, tentando apaziguar os ânimos. Lady Rebecca continuou a fitá-lo com frieza. — Ouvi dizer que os galeses são excelentes cantores. Talvez possa confirmar essa fama. — Ele é um convidado de honra, não um trovador — protestou lady Laelia. Blaidd sorriu para as duas damas, demonstrando que não ficara ofendido. — É verdade que a maioria dos galeses são bons cantores, o que muito nos orgulha. Se desejar ouvir minha humilde voz se arriscar em uma melodia, terei prazer em satisfazê-la. Naquele momento, lorde Throckton surgiu, caminhando cambaleante até onde estavam e afundando em sua cadeira. — O que se passou aqui? — Becca foi… — Desagradável como sempre sou — interrompeu ela. — Sir Blaidd acabou de se oferecer para cantar uma melodia galesa. — Verdade? — perguntou o lorde, ignorando a primeira parte do comentário da filha. — Isso é maravilhoso! Sempre quis ouvir uma canção galesa. Mas antes, o que me diz de um pouco de dança? — E voltando-se para a jovem serva com a qual Trev estivera conversando. — Meg, traga a harpa de Rebecca! Bran, Tom, afastem as mesas! Enquanto os criados se apressavam em cumprir de pronto as ordens do patrão, o cavaleiro se voltou admirado para o anfitrião. — Sua filha toca harpa? — questionou Blaidd. — E muito bem — replicou lorde Throckton inclinando-se para sua direita. — Mas não tão bem quanto minha Laelia dança. Aquilo explicava a urgência na dança. Queria ressaltar os dotes da filha casadoura. Meg voltou, trazendo consigo o instrumento. O modo cuidadoso como o entregou a Rebecca, sugeria o valor inestimável que ele possuía para sua dona, embora fosse uma harpa simples. Enquanto lady Rebecca ajustava o instrumento, Blaidd se ergueu e estendeu a mão para Laelia. Ela aceitou de pronto e deixou que ele a guiasse para o centro do salão. E então a impertinente dama começou a tocar. E que talento possuía! pensou Blaidd. Enquanto dedilhava as cordas, balançava o corpo, perdida nos acordes suaves da música. Se vivesse em Gales, seria muito mais valorizada do que a irmã por seu talento. Lady Laelia era uma excelente dançarina, mas o fazia com o automatismo de um soldado em marcha. A dança chegou ao fim, e todos aplaudiram com entusiasmo. Blaidd afastou-se de Laelia, caminhando em direção à irmã. — Magnífico, milady. Seu talento é invejável. Se dança tão bem quanto
  18. 18. 18 toca, encantaria a corte. Espero que me conceda o prazer da próxima dança. Em vez de se mostrar lisonjeada, a dama o fitou como se quisesse fulminá-lo. Com movimentos lentos, se ergueu, apertando a harpa até que as juntas ficassem brancas. — Se me der licença, sir Blaidd. Vou me retirar. E assim o fez.
  19. 19. 19 Capítulo TrêsCapítulo TrêsCapítulo TrêsCapítulo Três Movimentar-se na fria escuridão da capela era como mergulhar nas águas geladas de um rio à noite, refletiu Becca, enquanto fechava a pesada porta atrás de si. Antes de seu acidente, durante os meses quentes de verão, costumava sair do castelo ao anoitecer para um mergulho no tanque abaixo do moinho. Aquele tipo de aventura acabou quando caiu da macieira. Afastando aqueles dias felizes da mente, caminhou vagarosamente, apoiando uma das mãos na parede para guiar seus passos. O ar tinha o aroma de umidade e incenso. Uma única vela ardia próximo à imagem da Virgem Maria. A luz da lua penetrava através das janelas estreitas. Becca se ajoelhou em frente à santa e uniu as mãos em uma prece. — Pai do céu. Fazei com que o dia de amanhã seja melhor, para que eu possa cavalgar um pouco. Se eu não puder, conceda-me o dom de manter minha boca fechada para não dizer coisas das quais me arrependa. Faça com que eu não tenha inveja de Laelia. Ela não tem culpa de ser bonita. Ajudai-me a conter minha raiva por não poder ter um pretendente como… — suspirou fundo e apertou as mãos até as juntas se tornarem brancas. — Por não ter um homem que deseje casar comigo — corrigiu. — Não quero ser desagradável, mas ter outro cavaleiro em nossa casa, desejando cortejar Laelia é difícil de suportar! — a voz se elevou cheia de rancor. — E agora apareceu esse homem cujo sorriso e voz me fazem sentir como se estivesse envolta em um manto de veludo. O mero roçar de seus lábios em minha mão, faz-me o sangue ferver… — prendeu a respiração sem poder conter o rubor que lhe assomava à face. — Oh, Deus! Afastai esses pensamentos luxuriosos de minha mente. Permiti-me aceitar meu destino. No silêncio que se seguiu à fervorosa oração, Becca ouviu a porta se abrir e depois fechar. Assustada, tentou se levantar de imediato, apesar de ter uma das pernas um pouco mais curta. Contendo um espasmo de dor, olhou ao redor e avistou a silhueta de um homem próximo à janela. Não havia como não reconhecê-lo. Nenhum homem no castelo Throckton usava o cabelo na altura dos ombros. Estaria Deus brincando com ela? Enviar justo o cavaleiro que lhe inspirava os pensamentos que acabara de rogar para que Ele os afastasse de si? Decidida a não deixar seus pensamentos transparecerem, ergueu o queixo em uma atitude desafiadora. — O que deseja, sir Blaidd? — Como sabe que sou eu? — inquiriu, enquanto se aproximava dela. — Seus cabelos são característicos. Além disso, todos no castelo, sabem como essa porta range e teriam cuidado se quisessem entrar sem serem ouvidos. Ele se aproximou, encurtando a distância entre eles. — Não tinha intenção de entrar despercebido. Estava procurando por meu escudeiro e a vi entrar aqui. Achei que seria uma boa oportunidade para me desculpar de qualquer ofensa que lhe tenha feito.
  20. 20. 20 O tom de sua voz parecia bastante sincero, apesar de ele não ter motivos para se desculpar. Além disso, Becca nunca vira um cavaleiro expressar arrependimento, muito menos com relação a ela. — O senhor não sabia que sou aleijada — disse ela, decidindo ser um pouco magnânima também. — Desculpe se aborreci um convidado de honra de meu pai. Não é o comportamento adequado para uma dama. — O que diz de recomeçarmos, milady? Becca contornou o altar de madeira até que ele ficasse entre ambos como uma barreira defensiva. — Concordo, sir Blaidd. Esqueçamos minha insolência no portão e seu convite para dançar e comecemos de novo. — Excelente! O prazer genuíno que o cavaleiro demonstrava a surpreendeu e a agradou ao mesmo tempo. Talvez o nobre estivesse apenas sendo educado e tentando evitar problemas enquanto fosse hóspede de seu pai. — Agora que chegamos a um acordo, o senhor pode se retirar. Não é adequado ficarmos sozinhos aqui. — Suponho que não. Mas antes pode responder a uma pergunta? Ela consentiu. — Costuma brincar de sentinela ou aquela foi uma acolhida especial? — Apenas de vez em quando — replicou, decidida a não admitir que o vira se aproximar com o escudeiro e decidira testá-lo para saber se era tão arrogante quanto os outros. Blaidd se curvou em uma mesura. — Sinto-me honrado por ter me destacado da horda de pretendentes que vêm cortejar sua irmã. — Tem razão, senhor cavaleiro, o senhor é um entre muitos que já vieram. — Então quis pôr-me à prova antes que eu conhecesse sua irmã mais nova? Espero ter passado no teste, uma vez que sua opinião parece ter muito valor para lady Laelia. Becca cruzou os braços sobre o peito. — Sou a caçula. — Perdoe-me — disse ele, tomado de surpresa. — Ela parece menos… madura. A dama o olhou com desconfiança. Não sabia se podia considerar aquilo um elogio. — Isso explica a necessidade de casá-la. Assim ficará livre para aceitar seus próprios pretendentes. Ela o fitou, estarrecida. Nunca alguém sugerira que ela estivesse solteira por causa de Laelia. — Nunca houve ofertas de casamento para mim. — Como assim? Nenhuma? O cavaleiro parecia de fato chocado. Becca lutou para manter seu autocontrole e resolveu mudar de assunto. — Não estava procurando por seu escudeiro? — Sim. Quero me certificar de que ele não se meta em confusão. É a primeira vez que sai do seio da família e tem o gosto da liberdade. Muitos
  21. 21. 21 homens nessa situação acabam agindo sem medir as conseqüências. — Acha que ele roubará alguma coisa? — Não. Ele nunca faria isso. — O que teme …? — deteve-se, pensando no jovem que conversava com Meg. Em seguida, conteve uma imprecação, encaminhando-se para a porta. — Sua preocupação tem fundamento, sir Blaidd. Se ele tentar importunar qualquer uma de nossas criadas, serei obrigada a pedir a meu pai que os mande embora. Eu já vi os problemas que um belo nobre pode causar… Blaidd a segurou pelo braço. O contato era caloroso, forte e irresistível. — Não vejo razão para se preocupar tanto. Trev é um bom rapaz, e quando eu o encontrar, farei uma severa recomendação para que… — Está dizendo que lhe recomendará não seduzir as serviçais? — questionou ela, com olhar cético. — Exatamente — replicou Blaidd em tom firme. Aquilo poderia ser o suficiente para deter o adolescente, mas as criadas daquele castelo eram sua responsabilidade e não permitiria que nenhum convidado abusasse delas. — Isso não quer dizer que ele lhe obedecerá. Seu escudeiro e Meg são muito jovens para pensar nas conseqüências — argumentou Becca, escancarando a porta. Quando deu um passo em direção ao pátio, avistou Meg saindo da cozinha e se encaminhando em direção aos aposentos dos empregados. Sozinha. Não querendo ser vista pela criada, voltou à capela, deixando a porta entreaberta. Blaidd parou muito próximo a ela. O corpo másculo perfeito a apenas alguns centímetros de distância. — O que foi? — perguntou, seguindo-lhe o olhar. — Lá está Meg — retrucou ela, apontando em direção à criada e tentando ignorar a força que emanava da presença viril. A serviçal subiu apressada a escada externa e com apenas um olhar para trás, adentrou o aposento. Blaidd suspirou aliviado. — Aquela era a criada com quem Trev estava conversando e a essa hora ele já se recolheu. Foi um dia bastante cansativo. Assim que ele completou a frase a porta da cozinha se abriu e seu escudeiro saiu para o jardim. O jovem olhava ao redor como a procurar alguém. Instantes depois, aparentando uma certa frustração, voltou para a cozinha, batendo a porta atrás de si. Blaidd soltou uma imprecação. — Vejo que terei de ter uma conversa austera com Trev. — Concordo — retrucou Becca. — Dou-lhe minha palavra de cavaleiro da realeza que direi a Trev que se não adotar uma conduta impecável, não só o mandarei de volta como o envergonharei perante o pai. — Não me parece uma punição tão rígida para um menino dessa idade. — Fala isso por que não conhece o pai dele. Já ouviu falar de sir Urien Fitzroy? — O homem que treina os cavaleiros nas artes da guerra? — Sim. Eu mesmo fui treinado por ele. E acredite-me, milady, não haverá castigo maior para Trev. De repente Becca se sentiu penalizada pelo rapaz.
  22. 22. 22 — Espero que isso não seja necessário. Falarei com Meg também. Hesitou por instantes e depois resolveu explicar sua reação. Não queria que ele a considerasse tão severa. — Tivemos uma criada chamada Hester. Era ainda mais bela do que Meg e talvez um pouco mais atrevida. Certo dia, um jovem cavaleiro que viera com a intenção de cortejar Laelia, partiu sem ao menos se despedir. Achamos que meu pai o dispensara por não achá-lo adequado. Algumas semanas depois, descobrimos que Hester esperava um filho dele. O nobre encheu a pobre criada de promessas a fim de levá-la para a cama. Pedi a meu pai que enviasse um mensageiro, levando a notícia do bebê. Esperava que ele lhe mandasse algum dinheiro, ou mesmo uma carta com palavras de apoio, mas tudo o que o cavaleiro fez foi dizer que Hester deveria ser grata por ele a ter introduzido na arte do amor. Becca estremeceu de revolta. — A luxúria daquele homem destruiu Hester. Para seu infortúnio ela perdeu o bebê, e com ele toda sua alegria de viver. Blaidd lhe acariciou o queixo. — Acho que não é apenas sua irmã ou os portões deste castelo que você protege, milady — disse ele em tom suave. — Sua preocupação é tocante. Becca deu um passo atrás, afastando-se daquele toque firme e daquela voz cativante. — Prometo-lhe solenemente que não permitirei que Trev faça algo tão repugnante. — Obrigada — murmurou ela, ofegando. Blaidd estendeu a mão e a pousou sobre o ombro delgado. Rebecca entreabriu os lábios para pedir que se afastasse, mas as palavras lhe morreram na garganta. Nunca alguém a tocara daquela maneira. Como se ela fosse frágil e preciosa. Sendo assim, não resistiu quando ele a puxou para si. Para ser sincera consigo mesma, não tinha vontade de protestar. Deslizou as mãos em torno do corpo viril permitindo o que estava por vir. E então ele a beijou. Os lábios sensuais roçaram os dela em um contato macio. Becca recostou-se ao corpo másculo, permitindo que Blaidd aprofundasse o beijo, enquanto o correspondia com igual intensidade. Que sensação maravilhosa! Depois de todos aqueles, anos à sombra de Laelia, pensar que um homem podia desejá-la. Ele a fazia acreditar ser uma mulher normal e atraente. O desejo que emanava daquele homem lhe incendiava o corpo e lhe embotava a mente. Uma das mãos de Blaidd deslizou ao longo das costas franzinas até alcançar as nádegas e pressionou-a de encontro ao corpo viril excitado, enquanto a outra a amparava. Becca precisava daquele suporte para não desfalecer de desejo. Sem poder conter o clamor de seu corpo, deslizou as mãos pelos ombros largos, sentindo os músculos exaltados. Um grito ecoou no ar, anunciando a troca da guarda e recordando-a de onde estava e de quem ela era. Não era a bela Laelia. Não passava de uma jovem de beleza comum. A moça cujo defeito físico impedia que qualquer homem se interessasse por ela. E aquele belo cavaleiro estava ali para cortejar sua irmã. Então por que ele a beijava? O que almejava com aquilo? Sedução?
  23. 23. 23 Poder? Não permitiria que homem algum a usasse para seu propósito, qualquer que fosse. Pensando assim o empurrou. — Essa é sua idéia de conduta honrada? — inquiriu, indignada. — Pensa que só pelo fato de ser aleijada e solitária devo estar ansiosa por ser seduzida? — Deus, não! — exclamou Blaidd, quando conseguiu recobrar o equilíbrio. — Juro-lhe, milady… — Pode jurar pelo que quiser, mas me beijar é uma maneira estranha de cortejar Laelia. Ou sou apenas um meio de por em prática sua técnica? Blaidd se empertigou. As costas tão eretas quanto uma lança. — Não tinha a intenção de beijá-la quando vim até aqui e para seu governo, não tenho o hábito de seduzir as filhas de meus anfitriões, por mais tentadoras que sejam. — Então o que significou esse beijo? — Se não sabe, então foi um estúpido engano, o qual não cometerei outra vez — replicou feroz. Ótimo. Era mais fácil lidar com homens irados. — Se eu fosse o senhor, não tentaria seduzir Laelia também — aconselhou-o. — Ela pode parecer um pouco tonta, mas quando se trata de homens e seus truques sujos, minha irmã os conhece todos. Blaidd aproximou-se, parecendo ainda mais alto e ameaçador. Cada centímetro do corpo atlético refletia o guerreiro acostumado a vencer torneios. — Não costumo lançar mão de truques sujos quando desejo conquistar uma mulher, portanto seus conselhos são inúteis. E devo dizer que esse beijo foi um tanto ousado para uma modesta donzela de limitada experiência. O que me faz imaginar o que a senhorita estaria fazendo aqui a essa hora da noite. E não tente me convencer que é uma devota que de repente foi tomada por uma vontade súbita de rezar — vociferou ele, percorrendo com olhar malicioso o corpo franzino. — Interrompi alguma coisa? Estava esperando alguém? — Como ousa se referir a mim nestes termos? — perguntou Becca, com a face rubra de raiva. — Como se atreve a suspeitar da probidade de meus propósitos? — O senhor me beijou! — E a senhorita correspondeu! — Não tive escolha. — Claro que teve. Poderia ter me impedido a qualquer momento. Mas não o fez, ao contrário, gostou. — Oh! Trata-se de um especialista em sentimentos' femininos? — Apenas sei reconhecer quando o desejo de uma mulher corresponde ou supera o meu. — De todos os homens arrogantes, pretensiosos e hipócritas que já conheci… — Sim. Você os supera. — Seu… seu vil e repugnante aproveitador! Nunca mais ouse se aproximar de mim novamente! — disparou, dando um passo à frente, determinada a se afastar daquele homem. — Acredite-me, não o farei! — gritou Blaidd a suas costas. Todos as imprecações galesas escaparam de seus lábios em um murmúrio de frustração e raiva. Como aquela mulher ousava por em dúvida
  24. 24. 24 sua honradez? Por certo, beijá-la fora um tanto… Ora, havia sido um idiota, deixando-se levar pelo desejo e esquecendo o verdadeiro propósito de sua estada no castelo. Descobrir se lorde Throckton estava conspirando contra o rei Henry. Não seria capaz de cumprir seu dever se o anfitrião o expulsasse no dia seguinte devido a sua ousadia. Deveria ter se controlado, não obstante quão tentadora fosse a dama. — Tola! — resmungou, enquanto Blaidd, se dirigia apressado ao prédio que abrigava o quarto dos hóspedes. Quando alcançou o cômodo que dividia com Trev, abriu a porta com cuidado e adentrou o aposento pé ante pé. Um braseiro ficava localizado próximo a sua cama, bem como o baú que continha a bagagem dos dois. A esquerda, estava posta uma mesa com uma bacia de água destinada à higiene. Não havia tapeçarias ou tapetes, mas o lugar era bastante confortável. Para seu desagrado, Trev ainda não havia adormecido. — Onde esteve? — questionou o escudeiro, erguendo-se em um impulso. — Estava começando a me preocupar. — Procurando você — retrucou Blaidd, com sinceridade. O rapaz lhe lançou um olhar inquisitivo. — Estou aqui há bastante tempo. O cavaleiro resolveu abordar o assunto sem rodeios. — Não sem antes andar à procura de Meg, a bela criada. A face do adolescente se tornou rubra de vergonha. — Esteve me espionando? — Vi quando foi procurá-la no jardim, como qualquer pessoa poderia ter visto — replicou Blaidd cansado de acusações por aquela noite. — Observei-a sair apressada da cozinha e você foi logo atrás dela. — E que mal há nisso? — Preste atenção no que vou lhe dizer. Meg é uma serviçal e você um nobre que está hospedado na casa de seu senhor. Seria um insulto à hospitalidade de nosso anfitrião, envolver-se com a criadagem. — E se ela… estiver interessada? Blaidd recordou um conselho que certa vez seu pai lhe dera. — Certos atos acarretam responsabilidades para um homem honrado. E se ela ficasse esperando um filho seu? — Oh! — exclamou o escudeiro envergonhado. — Nesse caso você teria dinheiro o suficiente para sustentá-la? E o que faria se um dia um rapaz batesse à sua porta alegando ser seu filho? Teria coragem de acolher um bastardo? — Não havia pensado nisso — confessou o mancebo, pensativo. — Mas com uma prostituta seria diferente… — Não vai freqüentar nenhum prostíbulo enquanto estiver sob minha guarda! — afirmou Blaidd em tom autoritário que pareceu surtir efeito. Trev engoliu em seco, concordando. Blaidd sentiu uma pontada de arrependimento pelo tom ríspido com que se referiu ao rapaz. Afinal, ele mesmo não tivera uma atitude apropriada aquela noite. Não sabia qual seria a repercussão de seu ato. — Talvez tenhamos que partir amanhã.
  25. 25. 25 Os olhos do adolescente se dilataram de surpresa. — Por quê? — Tive uma discussão com lady Rebecca. E antes que me recrimine, devo lhe dizer que sei que foi uma idiotice de minha parte. Trev, no entanto, não o criticou. — Parece-me uma dama afeita a discussões. Acho que o pai e a irmã também não aprovam seu comportamento. Talvez eles lhe dêem razão. — Descobriremos amanhã — disse Blaidd, descalçando as botas. — Agora durma. Talvez tenhamos que voltar à estrada mais cedo do que esperávamos. Quando o escudeiro adormeceu, Blaidd fitou o teto pensativo. Se tivessem de partir no dia seguinte, como ma explicar o fracasso de sua missão ao rei?
  26. 26. 26 Capítulo QuatroCapítulo QuatroCapítulo QuatroCapítulo Quatro Na manhã seguinte, lady Laelia se encontrava de péssimo humor. Becca havia aprendido com a experiência que o melhor a fazer naquelas ocasiões era permanecer em silêncio até que a irmã se dignasse a falar. Sendo assim, limitou-se a observar Meg ajudar Laelia a amarrar as fitas do lindo vestido de veludo verde-esmeralda, em frente ao amplo espelho do quarto que dividiam. Em seguida, a irmã mais velha se sentou ao tocador repleto de potes de creme e perfumes e começou a pentear os cabelos, passando em seguida a se dedicar às jóias. Becca não possuía fitas ou badulaques e as suas poucas jóias estavam guardadas em uma pequena caixa com desenhos em alto-relevo que ficava guardada ao lado de sua cama. O leito de Laelia era recoberto por lençóis de linho e grandes travesseiros. Cortinas acetinadas cor de pêssego bloqueavam o ar frio da manhã. A cama de Becca era tão suntuosa quanto a da irmã. Não era afeita a usar trajes tão caros, porém não dispensava o conforto. Quando eram crianças, costumavam dividir a cama, que agora pertencia a Becca. Cochichavam animadas até o sono chegar, mas tudo mudou depois do acidente da irmã mais nova. Laelia não podia mais dividir o leito com Rebecca e o lorde comprou uma cama nova para ela. Era fácil deduzir o motivo pelo qual Laelia estava tão aborrecida naquela manhã. Ficara furiosa quando Rebecca saiu claudicante em disparada pelo corredor. Sem contar com a recepção pouco calorosa que a caçula havia dispensado a sir Blaidd no portão. Laelia ficara sabendo antes do jantar da troça que Becca fizera com o cavaleiro por ocasião de sua chegada, e a discussão que tivera com Blaidd no salão parecia ter aumentando ainda mais sua ira. Por sorte, Laelia estava dormindo quando Becca voltou da capela, poupando-a de uma desagradável discussão. Mas naquele momento, à luz do dia, e levando em conta que o pai nunca tomava seu partido, decidiu que o melhor seria não tocar no assunto. Não havia motivos para acreditar que sir Blaidd seria considerado merecedor da mão de Laelia. Por sua vez, também não se comportara como uma dama. A despeito da beleza e da voz macia do cavaleiro, deveria ter se retirado da capela no momento em que ele chegou. Por essa razão e para evitar maiores conflitos, decidiu não dizer nada sobre o encontro noturno com o cavaleiro, pelo menos enquanto ele estivesse disputando a mão da irmã. — Foi muito rude com sir Blaidd ontem à noite — manifestou-se Laelia, observando a expressão pensativa da outra pelo espelho. — E sobre a brincadeira de mau gosto no portão, aposto que Dobbin a incentivou a fazê-lo. — Claro que não. Foi idéia minha — replicou Becca determinada, enquanto tentava amarrar as fitas de sua túnica. Estava usando um vestido marrom simples por baixo e raramente necessitava de assistência para se vestir. — O que torna o fato ainda pior. E depois, sair claudicando pelo salão como… uma… sei lá o que! Se sir Blaidd decidir partir hoje, a culpa será toda
  27. 27. 27 sua! Não lhe agradava o fato de ser repreendida como uma criança. — Parece muito empolgada com o galês. Não sabia que se impressionava tão facilmente. — O quê? — inquiriu Laelia, indignada, enquanto Becca penteava os cabelos para depois prendê-los o mais rápido possível e tentar escapar daquela discussão. — Não estou impressionada, mas não posso negar que ele é bonito, charmoso e um cortesão. Há de concordar comigo que, dada à opinião de papai sobre a rainha Eleanor, não é sempre que recebemos um homem da corte aqui. Parecia que sir Blaidd tinha uma vantagem na opinião de Laelia. — Desculpe-me, por um momento esqueci-me de sua obsessão por ser apresentada à corte. — Enquanto você prefere ficar enfurnada aqui neste… deserto, cercada de camponeses. — Gosto deles — retrucou Becca em tom sereno, enquanto arrumava a própria cama. — Será que nunca terá respeito por sua classe? — Eu tenho, bem como pelas responsabilidades inerentes a ela, mas não almejo casar com um homem só para ser apresentada à corte. — Essa não é a única coisa que admiro em sir Blaidd. E me atrevo a dizer que o simples fato de ele ser um homem lhe desagradou. Você detesta os homens. — Isso não é verdade. — É sim! — vociferou Laelia. — Nenhum homem que veio aqui até hoje gozou de sua simpatia. — Porque todos eram superficiais, mimados e arrogantes. — Não pode dizer isso de sir Blaidd. Suas roupas e seus aparatos militares são simples e ele não me parece arrogante. De fato, o cavaleiro trajava vestes bastante comuns quando chegou ao portão. Um capote de lã pendendo dos ombros largos e a calça de tecido grosseiro colada às coxas musculosas. No jantar, usava uma túnica simples com alguns bordados na bainha e uma camisa branca por baixo. — Talvez se vista dessa maneira por ser pobre — argumentou Becca. O que significaria que o cavaleiro não estaria à altura de desposar Laelia. — Papai disse que ele é rico. Rebecca se viu tentada a lhe lembrar que o pai também cometia enganos. As censuras públicas que lançava à esposa do rei não era uma atitude inteligente. — E o corte de cabelo dele? Não me parece o estilo adequado à corte do rei. Laelia considerou as palavras da irmã por alguns instantes como se fosse uma questão de importância nacional. Os cabelos longos lhe caem bem. Mesmo assim, se nos casarmos, pedirei que os apare. — E se ele não concordar? Laelia lançou um sorriso presunçoso que sempre a desconcertava. Era cheio da superioridade feminina que ela nunca iria possuir. — Estou certa de que ele fará tudo que eu pedir — afirmou Laelia,
  28. 28. 28 fitando-a presunçosa. — Sir Blaidd me parece um tanto tosco, mas darei um jeito nisso. Becca imaginou Blaidd modificado até parecer com todos os nobres refinados que ela conhecera. Talvez fosse melhor fazer Laelia ver que o cavaleiro não era tão maravilhoso quanto ela imaginava. — Não o acho adequado para você pelo simples fato de ele ser belo e charmoso. Um homem como ele deve ter hordas de amantes e gostar de mantê-las. Talvez i nunca seja um marido fiel. Laelia observou seu belo reflexo no espelho, sem esboçar a mínima preocupação. — Não me surpreenderia o fato de ele ter amantes, agora. Mas depois que nos casarmos, não ficará tentado a mantê-las. — Se sir Blaidd for um homem lascivo, não mudará; com o casamento, não importa quem seja a esposa ou o quanto ele disser que a ama. Satisfeita com sua aparência matinal, Laelia suspirou profundamente e encarou a irmã. — Você não consideraria um arcanjo um bom marido. Antes que Becca pudesse argumentar que arcanjos não se casam, Laelia lhe lançou um olhar austero, indicando que já estava na hora de rumarem para a capela para a missa matinal. — Vá à frente — disse Becca. — Tenho um assunto a tratar com Meg. Quando ficaram a sós, a serviçal ergueu o olhar, temerosa. — Espero não ter feito nada errado, milady — apressou-se a criada, franzindo a testa. — Ou esquecido algo. — Não vou lhe chamar atenção — afirmou Becca em tom sereno, indicando o banco próximo ao tocador. Meg se sentou insegura, como se o banco fosse desaparecer debaixo de si. — Quero lhe falar sobre Trevelyan Fitzroy. A criada tensionou o corpo. — Não fiz nada de indecoroso! — Acredito em você, mas quero alertá-la para que tome cuidado. Estou certa de que ele é um persuasivo e fascinante jovem, mas você é uma criada e ele um nobre. Se esse rapaz tentar tomar liberdades, autorizo-a a repeli-lo com o vigor necessário e se ele insistir, conte-me imediatamente. Não vamos permitir que nossos hóspedes faltem com o respeito a nossos criados. Não quero que tenha o mesmo destino de Hester. Ela mesma havia conhecido as terríveis conseqüências da sedução na noite anterior, pensou Becca. — Claro que eu lhe contaria, milady. Nenhum escudeiro de fala macia se aproveitará de mim. — Fico feliz que pense assim — disse Becca aliviada — Agora, é melhor nos apressarmos. Meu pai ficará furioso se eu chegar atrasada à missa. Meg se ergueu de pronto. — Fico agradecida, milady, por me alertar. Becca assentiu, dirigindo-se à porta. — Milady! — Sim? A criada parecia mais nervosa do que costumava ficar quando Laelia tinha um ataque de nervos.
  29. 29. 29 — A senhorita tem vestidos tão lindos! Por que não os usa? Becca lançou um olhar à túnica simples que trajava e ao cinto com o molho de chaves pendurado que abria! todas as portas do castelo, exceto o baú que se encontrava no solar do lorde. — Meus vestidos de lã são confortáveis e não preciso me preocupar em sujá-los. Não me sinto à vontade em um traje requintado. — Se os usasse, acabaria se acostumando a eles — contra-argumentou a criada. — Acho que esse tipo de vestimenta não me cai bem — declarou Becca, dando de ombros. — Além disso, o que importa minha aparência? Já me conscientizei de que nunca serei uma mulher bonita. — Mas também não é feia — insistiu Meg. — Não quer ser uma donzela para o resto de sua vida, quer? Se trajasse vestidos requintados e penteasse os cabelos como sua irmã, ficaria muito mais bonita. — Não estou disposta a me enfeitar para agradar homem algum — retrucou Becca indignada. — Se alguém se interessar por mim, terá de ser pelo que sou, e se isso não for o suficiente, é por que esse alguém não me merece. — Sim, milady — concordou a criada, corando. — Desculpe-me, não quero parecer desrespeitosa. Becca fitou Meg com ternura. — Eu que é que lhe peço desculpas por não controlar meu temperamento. Sei que teve a melhor das intenções. — Entendi o que milady quis dizer — afirmou a serviçal. — Sobre um homem lhe dar valor pelo que é. Acho que isso vai acontecer antes do que a senhorita imagina. — E um dia os homens caminharão sobre a lua — completou Becca, sorrindo. — Venha, estamos atrasadas — disse, disparando pela porta. Embora temendo ser expulso do castelo, Blaidd se encaminhou à capela como se nada tivesse acontecido no dia anterior. Não queria que ninguém percebesse o quanto era importante para ele permanecer ali. A despeito de seu comportamento impetuoso e atrevido, nutria a esperança de que lady Rebecca admitisse que ele não forçara aquele beijo e guardasse em segredo o que acontecera na noite anterior. Pensando assim, o cavaleiro abriu a porta da capela e viu o senhor do castelo de Throckton e sua bela filha se voltarem sorridentes em sua direção. Em seguida, apartaram-se para que ele tomasse lugar entre os dois. O que tornava óbvia sua acolhida. Blaidd observou as demais pessoas presentes e seu olhar pousou na dama, parcialmente oculta pelo robusto soldado grisalho que se encontrava no comando da sentinela no dia de sua chegada. O homem assentiu com um certo interesse e algo mais que o cavaleiro não sabia definir, quando a dama lhe sussurrou ao ouvido, talvez… afeição. A julgar pelo lugar que ocupava, o guarda devia ser o chefe da sentinela e por certo, conhecia lady Rebecca desde criança. Talvez tivesse o tipo de afeto paterno que alguns criados desenvolvem pelos filhos de seus senhores. Quando Becca percebeu que o cavaleiro os fitava, encarou-o com o mesmo desprezo que se costuma dispensar a um fora da lei. Temendo mais uma vez por sua estadia no castelo, Blaidd caminhou até
  30. 30. 30 próximo ao altar. — Bom dia, sir Blaidd! — cumprimentou-o o lorde, efusivo. — Folgo em saber que não é como muitos jovens de hoje que demonstram desrespeito pela fé, a não ser que uma Cruzada esteja a ela relacionada. O modo amigável como o lorde o tratava o fez lamentar ainda mais seu comportamento na noite anterior. — Há muitos jovens mais devotos do que eu. Alguém atrás de si fungou com audível desdém e não foi difícil deduzir de quem se tratava. O padre chegou e pôs-se a rezar a missa. Blaidd não conseguia se concentrar nas palavras do pároco. A imagem de lady Rebecca dirigindo-se ao pai ao final da cerimônia e dizendo-lhe que ele não passava de um vil e imoral patife que devia ser expulso do castelo, não lhe saia da mente. Ao término da missa, aquela imagem estava tão vivida, que ele não se conteve em olhar para trás, tentando localizá-la, mas Becca já havia desaparecido. Por um lado sentiu-se aliviado, mas por outro temia que aquilo só estivesse adiando o inevitável. Se tinha de ser desmascarado, preferia que fosse de uma vez. Talvez fosse essa a intenção de lady Rebecca. Atormentá-lo com a cruel expectativa. Se fosse esse o objetivo da dama, iria frustrá-la em seu intento. Sir Blaidd Morgan não admitia que nenhum homem ou mulher o fizesse de tolo, pensou enquanto seguia o lorde e lady Laelia em direção ao jardim. Assim que saíram para a brisa da manhã, avistou Becca, conversando com alguns soldados próximo à caserna e decidiu descobrir qual era sua verdadeira situação no castelo. Disse ao anfitrião e sua bela filha que gostaria de perguntar algo sobre sua bagagem a lady Rebecca e encaminhou-se ao local onde ela estava. Becca se mostrou bastante surpresa ao vê-lo. — Se me dá licença, Dobbin — desculpou-se ao velho guarda. — Nosso hóspede parece querer me falar. O criado anuiu, antes de ordenar que os demais criados o seguissem. — De fato, desejo trocar algumas palavras com a senhoria, caso não se importe — afirmou, tentando não parecer impaciente, embora seus nervos estivessem esticados como uma flecha num arco. — Há algum lugar mais privado, onde possamos conversar? A dama ergueu uma sobrancelha. — Acha que me arriscaria a ficar sozinha com o senhor outra vez? — perguntou em tom sereno. — O que quer que deseje falar, terá de dizê-lo aqui. Blaidd carregou o sobrolho. — Gostaria de saber se pretende contar a seu pai sobre… — em vez de completar a frase, lançou-lhe um olhar sugestivo. — E por que não o faria? — Becca fitou-o com a frieza com que sir Urien Fitzroy costumava encará-lo quando ele falhava no treinamento. — Porque lhe dei minha palavra que aquilo não se repetiria. — Não deveria ter acontecido a primeira vez. Ela parecia se divertir com sua aflição. Afinal, estava no controle da situação. — Concordo e peço desculpas por meu comportamento. Às vezes, o
  31. 31. 31 desejo supera a razão. Becca suspirou exasperada. Seu olhar pousou abaixo da cintura de Blaidd e depois voltou a encará-lo. — Neste aspecto, o senhor é como a maioria dos homens. Mas como está se desculpando de novo, serei tolerante — o olhar de lady Rebecca tornou-se ainda mais frio. — Mas não interprete isso como um sinal de liberdade. Aconselho-o a evitar situações que requeiram posteriores escusas. Ele se curvou em uma reverência, decidido a não desafiá-la. — Tentarei. — É melhor se esforçar de verdade, ou não logrará êxito em cortejar minha irmã. Agora se me der licença, verei em que pé está o almoço. — Dizendo isso, afastou-se com o andar altivo de uma rainha, ainda que claudicante.
  32. 32. 32 Capítulo CinCapítulo CinCapítulo CinCapítulo Cincocococo Alguns dias chuvosos se passaram, durante os quais Blaidd se esforçou para evitar lady Rebecca. Era óbvio por seu comportamento, que ela comungava do mesmo pensamento. Apesar de se encontrarem diversas vezes no salão, só se falavam durante as refeições ou quando era extremamente necessário. Becca tocava a harpa sempre que o pai pedia e Blaidd dançava com lady Laelia. Ele passava a maior parte do tempo com a bela dama, como era a obrigação de um pretendente. Apesar da beleza estonteante da filha mais velha, aquilo se tornava cada vez mais maçante. Laelia não costumava lhe fazer perguntas pessoais e se mostrava esquiva em falar sobre sua família ou seu lar. Por fim, após inúmeras tentativas em achar um assunto que lhe despertasse o interesse, Blaidd encontrou um quando mencionou a corte. A dama se mostrou animada, fazendo várias perguntas sobre o rei, as damas e °s lordes. Quando não estava sendo interrogado por Laelia, desfrutava da companhia de lorde Throckton, disputando jogos de damas e xadrez e esperando que o nobre expressasse suas opiniões políticas para tentar descobrir algum indício de descontentamento por parte do anfitrião com o reinado de Henry. Para seu infortúnio, Throckton o estimulava a passar a maior parte do tempo com Laelia, como se aquilo fosse um grande favor e nunca tocava em assuntos polêmicos ou dizia algo que sugerisse estar planejando uma rebelião. Apesar de suas obrigações como pretendente no castelo, Blaidd mantinha sua atenção sempre voltada para o nobre, e ao que parecia Throckton não se comportava de modo suspeito. Se estivesse planejando uma insurreição, fazia-o com extrema discrição. Ainda assim, havia indícios que impediam Blaidd dei descartar por completo a possibilidade de uma conspiração. Não podia ignorar a fortaleza que Throckton construíra no entorno de seu castelo. Era como se estivesse esperando um confronto a qualquer momento. A guarda compreendia mais de cem homens rigorosamente treinados e armados. Blaidd havia passado a maior parte de sua vida em companhia de guerreiros e sabia reconhecer os melhores. Um lorde poderia alegar a necessidade de proteger suas terras, mas poucos investiam tantos recursos nisso. Onde Throckton arranjaria tanto dinheiro para pagar os soldados, comprar todo aquele armamento e sustentar o castelo? Seus negócios pareciam prósperos, mas não seriam suficientes para arcar com aquela despesa, a não ser que contasse com outras fontes. Mas o anfitrião aparentava ser um homem tão gentil e pacífico… Seu pai sempre lhe dissera para não confiar nas aparências, mas Blaidd achava difícil aceitar que um homem pudesse ser tão hospitaleiro com um cortesão do rei que pretendia destruir. Outro aspecto que chamou a atenção de Blaidd fora a posição de lady Rebecca no castelo. Por direito, como irmã mais velha, lady Laelia deveria ser a castelã. Mas ali acontecia exatamente o contrário. A governância da casa
  33. 33. 33 parecia tarefa exclusiva de Rebecca. Ela se movimentava pelo castelo com o molho de chaves tilintando em sua cintura, dando ordens aos empregados e conversando com os mascates que batiam à porta. Teria de descobrir o que lady Laelia fazia além de se manter bela e enfeitada. Mas não era o único a parecer entediado ali. Trev estava começando a dar sinais de enfado. Fora obediente ao conselho de Blaidd a respeito das criadas, mas um jovem ocioso e uma bela criada sempre solícita poderiam se meter em confusão se o tempo não clareasse nos próximos dias. Por fim, após uma tarde nublada, na qual ele e Trev combinaram cavalgar no dia seguinte, chovendo ou não, o sol raiou em uma manhã típica de primavera. Blaidd acordou bem disposto e resolveu galopar pelos Prados ao redor. Estava de tão bom humor que se descobriu assoviando quando saiu da missa naquela manhã, ladeado por lorde Throckton e lady Laelia e seguido por Trev. Lady Rebecca havia desaparecido. Por certo, estaria dando Ordens na cozinha. — Que belo dia, não sir Blaidd? — questionou o anfitrião. — Próprio para uma caçada. Acompanha-me? — Será um prazer, milorde — retrucou Blaidd, sorrindo para lady Laelia. — Nos dará o prazer de sua companhia? — questionou, percebendo o olhar preocupado que ela lançou ao pai. — Claro que sim! — gritou o lorde. — Não tenha medo, Laelia. Estou certo de que sir Blaidd irá moderar o galope se lhe pedir. O cavaleiro teve de lutar para não deixar transparecer seu desapontamento. Ansiava por um galope e estava certo de que Aderyn Du também. Lady Laelia o fitou com angústia. — Temo não ser uma boa amazona, milorde. Se preferir cavalgar sozinho, entenderei. — Não se preocupe — retrucou, Blaidd em tom gentil, colocando de lado a frustração.— Trotaremos apenas. De que outra forma poderia apreciar sua bela propriedade? Ou se preferir, podemos ficar aqui — acrescentou, lembrando que deveria cortejá-la, mesmo que isso significasse perder a oportunidade de conversar com o lorde. — Isso não será necessário — interveio o pai. — Ela irá conosco, não é Laelia? — Claro, papai — e dirigindo-se a Blaidd. — Espero que compreenda meus temores. Aquelas palavras fizeram sua mente voar para uma outra dama que não partilhava dos mesmos melindres Seria mais fácil imaginar lady Rebecca montando em pêlo do que temendo o galope. — Fique tranqüila, milady — assegurou-lhe, tentando afastar a irmã mais nova da mente. — Minha maior recompensa será sua companhia. Laelia o fitou com gratidão e admiração. Parecia que ele havia lhe oferecido a vida em sacrifício. Algum tempo depois, Blaidd se encontrava no estábulo, selando Aderyn Du. Os batedores e outros criados que iam a pé, já estavam a postos próximos ao portão interno. Um cavalariço aproximou-se, trazendo consigo um alazão
  34. 34. 34 marrom ornado com uma sela requintada e brilhante que, por certo, destinava-se a lady Laelia. Blaidd deslizou o olhar pela construção e percebeu um andaime em um muro do lado leste do castelo. Não havia homens trabalhando lá naquele momento. Talvez estivessem em outra parte da residência. Lorde Throckton mencionara um portão que precisava de reparos no dia anterior. Deveria ter prestado mais atenção naquilo do que na brincadeira de lady Rebecca quando chegara. Aderyn Du abanava a cabeça e raspava as patas no chão, demonstrando ansiedade em galopar. Blaidd desejava não ter que manter as rédeas tão apertadas, mas talvez mais tarde pudesse fazer outro passeio sozinho. Lorde Throckton e lady Laelia não iriam sentir sua falta por algumas horas. Blaidd observava a porta do estábulo, imaginando se não deveria entrar e apressar Trev, quando lady Rebecca assomou à entrada, guiando uma notável égua. Trajava uma vestimenta simples como sempre, com exceção de uma longa capa cinza e um par de luvas de couro rústicas. Era óbvio que iria cavalgar. Becca nunca se mostrava disposta a desfrutar da companhia deles. As obrigações de castelã pareciam absorver todo seu tempo. Seus olhares se encontraram por instantes e Blaidd teve ímpetos de desviar o rosto como um garoto tímido. Mas ele era um guerreiro, e portanto continuou a fitá-la. Esperou que ela o ignorasse. Mas Becca não o fez. — Parece surpreso, senhor cavaleiro — observou ela, enquanto alinhava sua égua com Aderyn Du, como se antecipasse uma disputa de corrida de cavalos. — O fato de ter uma perna mais curta do que a outra não me impede de cavalgar. — Estou certo de que não, milady. Seria necessário muito mais para impedi-la de fazer qualquer coisa — retrucou ele. — Apenas pensei que suas obrigações não lhe permitissem tempo para o lazer. Um sorriso zombeteiro curvou os cantos dos lábiosda dama e iluminou os olhos azuis. Ela parecia tão ansiosa por sair do castelo quanto ele e Aderyn Du. — Não sou indispensável. Fiquei enfurnada lá dentro por um bom tempo. A criadagem vai ficar feliz ei» se livrar de mim por algumas horas. — Comandar é uma tarefa árdua — concordou ele — E o tempo tem estado sombrio. — Pensei que os galeses fossem acostumados a chuva — replicou Becca, alargando ainda mais o sorris! enigmático. Era como ver o sol brilhar por detrás das nuvens. Gracioso e bem-vindo. — Somos acostumados, pois dias como este são raros em Gales, mas isso não significa que não os apreciamos. Estou ansioso por aproveitar este. — Seu cavalo parece comungar do mesmo pensamento. — Sim — concordou Blaidd, deslizando a mão pelo cerro do animal. — Ele precisa de um bom galope para se acalmar. — O que será impossível se cavalgar com Laelia. — Tem razão, mas espero ter outra chance mais tarde. Becca concordou, fitando Aderyn Du. — É um lindo animal. Posso? — perguntou, esticando o braço para acariciar o focinho do alazão.
  35. 35. 35 — Custou-me uma fortuna, mas valeu cada moeda — afirmou Blaidd, orgulhoso. Aderyn Du não era arredio, mas aceitou a carícia de lady Rebecca com inesperada simpatia. Blaidd observava inebriado as mãos enluvadas deslizando pela crina do animal. — Qual é o nome dele? — Aderyn Du — informou o cavaleiro, focando sua Menção nos olhos azuis brilhantes. — É galês, não? — Sim. Significa ave negra. Dei-lhe este nome porque ele costuma voar quando galopa. Ela sorriu, um som mais agradável ainda do que o brilho de seu olhar. — Combina com ele — disse ela, indicando sua égua. — Esta é Claudia. Não fui eu que escolhi esse nome — Becca apressou-se em explicar. — Também é muito veloz. — Qual nome teria dado a ela se o tivesse escolhido? Lady Rebecca ponderou por instantes, franzindo os lábios carnudos. — Rebelde. Ela lhe voltou um sorriso que o fez desejar tomá-la em seus braços e beijá-la até que ambos perdessem o fôlego. — Vejo que estão prontos! Assustado como se tivesse sido pego beijando a filha do anfitrião em pleno jardim, Blaidd se virou para encontrar lorde Throckton, descendo a escada, apressado. O nobre trajava as vestes de costume e sua capa parecia forrada de pele de lobo. O cavaleiro tentou disfarçar o embaraço com um sorriso encantador. — Sim, milorde. Estava admirando as paredes de seu castelo. Lorde Throckton gesticulou para o cavalariço que guiava o alazão marrom para que viesse em sua direção. — Estes muros ainda estão inacabados, mas ainda não tive recursos para finalizar a obra. Não com as taxas desse ano no patamar que se encontram. Aposto que seu pai notou o aumento. — É verdade — retrucou Blaidd com sinceridade. — Mais dinheiro para a coroa, menos para mim. E tão terei de esperar até o próximo ano para acabar portão dos fundos e alguns merlões nas paredes do lado leste. É uma pena, mas o que posso fazer? Blaidd deu de ombros. Era estranho se sentir aliviado ante a possibilidade de o anfitrião não ser tão abastado quanto parecia. — Laelia já está a caminho — acrescentou lorde Throckton, piscando para o hóspede. — Sabe como são as mulheres. Algumas, pensou Blaidd, observando lady Rebecca dirigir-se ao portão sem falar com o pai. — Onde está seu escudeiro? Ele não vem conosco? — Já está aqui, milorde — disse Blaidd ao ver Trev sair do estábulo, guiando seu cavalo. — Está tão ansioso por uma cavalgada quanto eu. — O pai dele goza de grande fama — observou o nobre. — Foi ele que o treinou? — Sim, milorde. A mim, a meu irmão Kynan e a Trev, claro. — Seria interessante se tivesse uma conversa com Dobbin, o
  36. 36. 36 comandante de minha sentinela, para lhe ensinar alguns truques — disse o lorde, sorrindo. — Com prazer — retrucou Blaidd. — Na verdade, gostaria de praticar um pouco. Do contrário, meu braço ficará tão enferrujado quanto uma lâmina exposta à chuva. O anfitrião soltou uma sonora gargalhada. — Duvido muito! Ansioso por começar a cavalgar, Blaidd olhou para o portão. Lady Rebecca estava conversando e rindo com os soldados como se fosse um deles. Mas ela nunca seria. Era uma mulher. Mas, além disso, havia algo em Becca que a destacava dos demais. Era como se possuísse uma maturidade e inteligência que a diferenciava de todos. — Suponho que sua outra filha irá juntar-se a nós? — perguntou Blaidd, voltando sua atenção ao anfitrião. — Como? — tomado de surpresa, o nobre seguiu o olhar de Blaidd. — Oh, sim. Certamente — respondeu em tom indiferente. — Mas ficará conosco por muito pouco tempo. Vai cavalgar pelos arredores do castelo e só voltará quando tiver vontade. — Com um guarda, naturalmente. Lorde Throckton franziu a sobrancelha, meneando a cabeça em um gesto negativo. — Ele a perderia de vista antes de alcançarem os limites do castelo. Rebecca sempre fez isso. — Mas mesmo suas terras sendo seguras, uma mulher sozinha sempre corre o risco de… — Ela ficará bem — interrompeu-o o lorde. — Rebecca faz isso há anos. Além disso, não existe fora da lei que consiga pegá-la. — Milorde — insistiu Blaidd, surpreso com a falta de preocupação de lorde Throckton com a filha. — Por certo deve haver um ou dois sentinelas que cavalguem bem para acompanhá-la. — Acredite-me, ela faz isso desde criança — replicou o anfitrião sorrindo, mas demonstrando impaciência. — Tentei alertá-la, proibi-la, amedrontá-la, e nada surtiu efeito. A única alternativa seria amarrá-la ao pé da cama. Se souber de algum outro meio para convencê-la, será bem-vindo, mas não lhe garanto que vá funcionar. Blaidd percebeu o quão insistente fora e procurou reparar o estrago. Afinal, lady Rebecca era responsabilidade do pai e não dele. — Desculpe-me, milorde. O nobre pareceu esquecer o assunto de imediato. Com um sorriso largo, colocou a mão no ombro de Blaidd. — Não há necessidade de se desculpar. Sua observação foi deveras pertinente, mas esse caso é uma exceção. Agrada-me o fato de falar o que o preocupa e não o que eu quero escutar — em seguida, voltou o olhar para a entrada principal do castelo. — Em nome de Deus, onde será que se meteu Laelia! Apresse-se minha filha, se não nem ao meio-dia conseguiremos sair daqui! — gritou ele, ecoando contra as paredes do castelo e chamando atenção de todos. — Estou aqui, papai! Não precisa gritar — respondeu a linda dama, aparecendo à entrada do saguão. — Estava vestindo minha capa.
  37. 37. 37 Laelia se aproximou com o rosto ainda corado. A requintada capa de lã azul com apliques de pele de raposa realçava ainda mais sua beleza e elegância. Outro cavalariço, segurando uma égua branca se aproximou. De pronto, Blaidd se ofereceu para ajudá-la. Juntou as mãos em concha como um calço para auxiliá-la a montar, mas lançou um olhar ao portão para ver lady Rebecca pulando por sobre a sela de seu cavalo sem nenhuma ajuda. A pressão do pé de Laelia contra a palma de sua mão, lembrou-lhe do que ele deveria estar fazendo. Dar atenção a ela e não a irmã.
  38. 38. 38 Capítulo SeisCapítulo SeisCapítulo SeisCapítulo Seis O sol quente daquele dia radiante de primavera ajudara a secar a estrada antes enlameada pelas chuvas dos últimos dias, com exceção de pequenas poças ao longo do caminho. A caçada começou quando alcançaram o bosque. Os cães iam à frente farejando tudo que encontravam e os cascos dos cavalos golpeavam a lama, produzindo um barulho que fazia revoar a passarada da floresta. Os batedores haviam partido na frente, e os demais criados cuja função era transportar as armas, tomar conta dos cachorros e carregar a caça para casa se encontravam um pouco atrás. Ocasionalmente, ouvia-se as gargalhadas deles e Blaidd podia distinguir a de lady Rebecca entre elas. Ela parecia estar se divertindo bastante. O cavaleiro cavalgava entre uma silenciosa lady Laelia e seu pai. Outro estouro de gargalhadas se fez ouvir e dessa vez, além da de Becca, reconheceu a de Trev. Blaidd olhou para trás e constatou que o jovem escudeiro havia se reunido ao divertido grupo que acompanhava a filha caçula. — Deve perdoar lady Rebecca — disse o anfitrião com expressão aborrecida. — Ela passa muito tempo em companhia dos camponeses. É outro costume que não consigo fazê-la perder. Blaidd notou que Laelia também não aprovava o comportamento da irmã. — É raro uma dama se sentir tão à vontade com seus criados — observou Blaidd, optando por um comentário neutro. Aquilo lhe recordava a própria mãe. Ela recebera uma educação refinada, e no entanto era muito atenciosa com toda a criadagem. Blaidd não conseguia se imaginar vivendo em um castelo onde os nobres tratavam os subalternos como escravos. — Diga-me, é verdade que a rainha está grávida? — questionou lorde Throckton. Blaidd tentou não parecer surpreso com a pergunta inesperada. — Sim. O anfitrião sorriu debochado. — Pelo que ouvi falar do amor de Henry pela esposa, causa-me espanto ela já não ter lhe dado um herdeiro. Se não me engano, faz dois anos que estão casados, não? Blaidd deu de ombros. — Quem pode explicar por que isso acontece até nos casamentos mais felizes? Além do mais, ela era muito nova quando se casaram. — Bem jovem — concordou lorde Throckton, olhando de soslaio para Laelia, que parecia não prestar atenção na conversa. — Mandaram rezar uma missa em intenção ao nascimento de um filho homem. — É natural. Todo homem deseja um herdeiro — retrucou o anfitrião com um tom de desgosto na voz. Todo nobre ansiava por um filho homem para herdar seu nome, título e terras. Blaidd não era uma exceção, embora desejasse ter filhas também. — Mas se Deus não nos dá herdeiros, esperamos por um genro que nos dê netos varões — continuou lorde Throckton.
  39. 39. 39 — Minha mãe está ansiosa por um neto — sorriu o cavaleiro. — Creio que eu a esteja frustrando nesse sentido. — Isso será solucionado, tão logo se case. Estou certo de que qualquer mulher que escolha ansiará por cumprir seu papel de esposa. — Pai! — gritou Laelia, escandalizada. — Não seja grosseiro! — Não se ofenda, milady — interveio Blaidd, sorrindo. — Meu pai costuma dizer que é dever de todos os pais embaraçar os filhos, para se vingarem das noites sem dormir que passaram quando eram bebês. Lorde Throckton e a filha sorriram divertidos. — Simon de Montfort continua sendo o favorito entre as damas da corte — afirmou Blaidd, tentando desviar o assunto para a corte do rei. — Quem é esse? — inquiriu Laelia, com os olhos cintilando de curiosidade. — Pelo nome parece francês. — É nascido francês, mas renunciou a suas propriedades e títulos franceses em favor dos ingleses. O rei o nomeou recentemente o conde Leicester. — Então ele não é um parente da rainha? — Não. Muitos barões ingleses ficaram insatisfeitos com o casamento de Montfort com a irmã do rei. Eles acharam que deveriam ter sido consultados se aprovavam ou não, uma vez que ela quebrou o voto de castidade que teve de fazer quando o marido morreu. — Ela fez um voto de castidade? — Admirou-se Laelia. — Para quê? — Por respeito ao ex-marido, claro — interveio lorde Throckton. — Isso deveria mantê-la fora das maquinações políticas de seus irmãos. Fiquei chocado quando soube que ela concordou. Para um homem que vivia tão longe da corte, lorde Throckton parecia bem informado. O que não era muito suspeito. Seu pai também quase não se aventurava a sair de casa, mas sempre se mantinha informado sobre o que estava acontecendo na nobreza por intermédio dos filhos e dos amigos. Quem sabe o anfitrião também não tinha esse mesmo costume? — O senhor não conhece Simon de Montfort — explicou Blaidd. — Ele é um homem muito habilidoso. Apesar de sua nacionalidade, acho que podemos esperar grandes feitos seus no futuro. Ele acredita em um conselho permanente, algo que ele chama de parlamento para aconselhar o rei e administrar o governo. Muitos barões e cavaleiros são simpáticos a suas idéias. Lorde Throckton franziu o cenho. — Montfort deveria manter segredo sobre suas idéias, cunhado ou não, pode aborrecer Henry. — Pois eu espero que ele ouça Simon e aprecie suas idéias. — Como pode um galês admirar o rei? Pelo que me consta, ele não é nada generoso no tratamento com os galeses. — É verdade. E estou ciente das justas queixas de meu povo. Mas não sou afeito a guerras e batalhas. Prefiro a diplomacia. Sendo assim, tento representar os galeses na corte, defendendo-os sempre que posso. Além disso, Henry é meu legítimo rei, jurei-lhe fidelidade quando recebi o título de cavaleiro. É meu dever honrá-lo. — Aversão à violência é um estranho sentimento em se tratando de um cavaleiro — declarou Rebecca. Blaidd não se dera conta da aproximação da dama e de Trev.
  40. 40. 40 Puxou as rédeas de Aderyn Du, deixando que lady Laelia e o pai cavalgassem à frente. Quando os cavalos do escudeiro e de Becca parearam com o dele, instigou o animal a trotar. — O fato de ser treinado para lutar não significa que anseie por fazê-lo. Já presenciei as atrocidades da guerra, e garanto-lhe, não há de que se orgulhar nela. — E se a diplomacia não surtir efeito? Os homens são obrigados a partir para a luta armada. — Se todos os recursos falharem, então concordo que não há outra saída senão a guerra. Porém, muitas vezes os nobres vão para a guerra apenas por ganância ou poder, sem se importar quantas mortes custarão sua ambição. — Um nobre pensamento — opinou lorde Throckton, fitando-o por sobre o ombro. — Gostaria que o rei comungasse dele. — Acredito que Henry está ansioso por evitar a guerra, milorde — garantiu Blaidd. — Ele é um homem pacífico por natureza. Mas também é recém-casado. Acredito que com a idade adquirirá maior sapiência e menos vontade de agradar a esposa. — Sim, acho que devemos lhe dar uma chance — afirmou lorde Throckton, voltando a olhar para frente. Naquele instante, alcançaram uma bifurcação na estrada que curvava para o oeste, através de uma extensa floresta e vegetação rasteira. — Já ouvi bastante sobre guerras e reis — declarou lady Rebecca. — Adeus. Sem mais uma palavra, fustigou o flanco do cavalo e disparou em cavalgada pelo estreito caminho. Ninguém pareceu surpreso com a atitude da dama, com exceção de Blaidd. As terras de Throckton podiam ser seguras, mas e se ela sofresse uma queda? Não se atreveria a ofender o anfitrião ou lady Laelia a seguindo, mas não conseguia aceitar o fato de deixar uma dama cavalgar sozinha. — Trev, vá com lady Rebecca. O mancebo o encarou atônito. — Mas, vou perder a caça… Blaidd lhe voltou um olhar austero que o fez corar e obedecer-lhe de imediato. — Não era necessário — disse lorde Throckton quando o rapaz partiu em disparada. — Quando ela alcançar o prado do outro lado do rio, ele jamais a alcançará. — Espero que esteja certo, milorde. Quero que meu escudeiro perceba o quanto tem de melhorar sua montaria se não conseguir alcançá-la — explicou Blaidd, satisfeito por ter encontrado uma desculpa coerente. Estava confiante de que Trev a alcançaria, e pôs-se a imaginar o que Becca acharia de sua atitude. Por certo não ficaria nada satisfeita, mas seria bom descobrir que podia ser surpreendida e não necessariamente por um jovem escudeiro. — Os batedores já estão preparados, milorde! — gritou um dos criados. — Excelente! — retrucou um lorde Throckton bem-humorado. — Se a caçada vai começar, acho melhor me retirar — disse lady Laelia, rumando para a estrada. — Boa caçada, milorde — desejou Blaidd, cumprindo seu dever de

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