Oniris a dádiva dos deuses de Rita Vilela

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Oníris mudou, voltou a ser um só, caíram as barreiras. Mas as sete raças humanas ainda não estão preparadas para viver juntas. Lutas, conflitos e disputas de poder marcam a nova realidade. Diz a profecia que dois irmãos irão governar Oníris. De noite e de dia, na sombra e na luz, eles conseguem equilíbrio onde domina o caos, e o seu reinado trará de novo a paz. Bigo, Seara, Norma, Kanel e os gémeos Lyra e Aryl, na companhia de Erik e da jovem Suci, têm agora de enfrentar novos desafios. Está nas suas mãos garantir a segurança dos futuros governantes, para que a profecia seja cumprida e a paz regresse.

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Oniris a dádiva dos deuses de Rita Vilela

  1. 1. ÍNDICE Livro V – O renascer da esperança Capítulo 1 – Um parto difícil e uma surpresa 19 Capítulo 2 – A profecia 23 Capítulo 3 – Decisões frente ao fogo 29 Capítulo 4 – Abandonar Colóris 32 Capítulo 5 – Descer o rio 35 Capítulo 6 – À cabeceira do doente 40 Capítulo 7 – Por trás da cortina branca 42 Capítulo 8 – Um beijo que prende 47 Capítulo 9 – Um mundo em conflito 50 Capítulo 10 – Atraiçoados 54 Capítulo 11 – Tentativas malsucedidas… 60 Capítulo 12 – O ataque dos malfeitores 64 Capítulo 13 – Esperança de cura 67 Capítulo 14 – Encurralado 72 Capítulo 15 – Uma experiência de morte 77 Capítulo 16 – Nova oportunidade 84 Capítulo 17 – A dádiva dos deuses 89 Capítulo 18 – Duas histórias perigosas 96 Capítulo 19 – Escolhas difíceis 100 Capítulo 20 – A tarefa de Suci 105 Capítulo 21 – Boas e más notícias 110 Capítulo 22 – Os fazedores de sangue 114 Capítulo 23 – A lição 121 Capítulo 24 – Dois desafios numa só noite 125 Capítulo 25 – Uma notícia terrível 130 Capítulo 26 – Uma ideia louca 134 Capítulo 27 – Plano de fuga 139 Capítulo 28 – Atravessar a fronteira 144 Capítulo 29 – O pior dos pesadelos 151 Capítulo 30 – Matre e a vendedora de velas 157
  2. 2. Capítulo 31 – O passo seguinte 163 Capítulo 32 – Debaixo do altar 167 Capítulo 33 – No covil dos ladrões 173 Capítulo 34 – Tranças de várias cores 180 Capítulo 35 – O ataque à Fortaleza 187 Capítulo 36 – A parede das confissões 196 Capítulo 37 – Fuga sobre as águas 201 Capítulo 38 – O massacre 205 Capítulo 39 – O naufrágio 211 Capítulo 40 – Uma palavra terrível 215 Capítulo 41 – Fazer justiça 222 Capítulo 42 – Um deserto e dois camelos 227 Capítulo 43 – Chegada ao templo 235 Capítulo 44 – O início da mudança 240 Livro VI – O futuro de Oníris Capítulo 45 – Aprender a ser roxu 247 Capítulo 46 – Crescer no templo 251 Capítulo 47 – Controlo e descontrolo 255 Capítulo 48 – Um motivo tolo para brigar 262 Capítulo 49 – Dragões e sonhos partilhados 266 Capítulo 50 – O conselho dos mestres 269 Capítulo 51 – Esperança e desilusão 276 Capítulo 52 – Na Pedra dos Castigos 280 Capítulo 53 – Da boca de um sangui 284 Capítulo 54 – Por um triz 291 Capítulo 55 – Mais obrigado do que nunca 296 Capítulo 56 – Com boas intenções 302 Capítulo 57 – Amar no templo 309 Capítulo 58 – O voo do dragão 316 Capítulo 59 – A revelação 321 Capítulo 60 – Ocupar o trono 327
  3. 3. LIVRO V – O RENASCER DA ESPERANÇA
  4. 4. 19 CAPÍTULO 1 Um parto difícil e uma surpresa – Nunca hei-de ter filhos! – exclamou Suci, observando Lyra. Os caracóis laranja estavam desfeitos, colados à cabeça pelo suor salgado. O rosto comprimia-se numa expressão de dor, que aliviaria de seguida, para surgir de novo, acompanhando o gemido na con- tracção seguinte. No olhar, contudo, uma expressão determinada e a esperança de que já faltasse pouco. Bigo, o futuro pai, movia-se à sua volta, atrapalhando aqueles que trabalhavam, com uma expressão aflita própria de quem vê so- frer a pessoa que ama e não sabe o que fazer. A frequência das contracções estava a aumentar, o que levou Aryl a pedir a todos que se retirassem, com excepção das mulheres, Seara e Norma, pois necessitava da ajuda delas. – Quando houver novidades, eu aviso – prometeu. Suci também queria ficar, mas Aryl não permitiu. Não lhe pa- receu adequado que uma criança que ainda não completara os 12 anos presenciasse aquele processo, além de que só iria atrapalhar. A jovem roxu afastou-se, contrariada. Ela sabia que já tinha idade para assistir, e queria ajudar. Aproveitando a distracção dos restantes, subiu a uma árvore próxima, a partir da qual, oculta pela folhagem, podia continuar a observar a cena. Lyra estava deitada, imersa, da cintura para baixo, na água morna da lagoa. Norma segurava-lhe a mão e tentava, através das palavras, induzir-lhe coragem e confiança. Aryl, apoiado por Seara, empenhava-se agora em auxiliar o relutante bebé a abandonar o local onde permanecera protegido durante nove meses.
  5. 5. 20 Com um grito de esforço, uma pequena cabeça saiu da mãe para cumprimentar o mundo, a que se seguiram o tronco, os braci- nhos delicados e, por fim, as pernas. Uma mudança de posição de Seara impediu Suci de acompa- nhar na totalidade o que se passava. E só quando Aryl se levantou é que a jovem roxu conseguiu ver a recém-nascida, já envolvida nos braços da orgulhosa progenitora. – Bigo, vem cá – ouviu Aryl gritar. – Parabéns! É linda! A minha sobrinha é linda! O mareli aproximou-se com um sorriso aberto que lhe ilumina- va o rosto marcado por sulcos de lágrimas. Ajoelhou-se junto a Lyra, deu-lhe um beijo e aflorou os lábios pelo rosto da filha recém-nascida. “Como podem eles achá-la bonita? Parece uma cria de macaco, está muito vermelha, berra como uma arara e o cabelo é branco como o de uma velha. Se calhar depois fica amarelo, como o do pai, mas…” Um novo grito de dor interrompeu a sequência de pensamentos de Suci. “Pobre Lyra. Que se passará agora? Não era suposto já ter aca- bado?”, questionou-se. Em cima da árvore, a rapariga esticava-se em vão para tentar observar a ruivi, que se encontrava agora oculta por trás dos restantes. Bigo passou junto à árvore, carregando a bebé, que gritava com uma força surpreendente numa criatura tão pequena. Aryl consegui- ra convencê-lo de que a sua ajuda não era necessária junto de Lyra e que alguém tinha de cuidar da recém-nascida. O mareli, no seu íntimo, sentia-se grato, pois não suportava ver a ruivi sofrer. Bigo segurava a filha de uma forma desajeitada, de tão cuidado- sa, como se receasse que se partisse, e Kanel contribuía com suges- tões, embora também nunca tivesse tido contacto com um bebé tão pequenino. Suci divertiu-se, por momentos, a observá-los. Um queixume mal contido, no entanto, reorientou-lhe a aten- ção de volta para Lyra. – Que se passa? – perguntou Aryl. – A criança já nasceu. O que te está a doer agora, mana?
  6. 6. 21 Uma nova contracção voltou a sacudir Lyra, e foi acompanhada de um gemido abafado. A visão parcial da cabeça de um novo bebé trouxe o esclareci- mento sobre o motivo da continuação das dores. – Há mais um a querer sair – exclamou Aryl. – E este é grande. Arrependeu-se imediatamente do comentário ao ver o olhar as- sustado da irmã em resposta à palavra “grande”. – São gémeos, Lyra, tal como nós – disse, entusiasmado, pro- curando contagiá-la. – Faz força, vá. Este está mesmo com vontade de sair. – O que custa é o primeiro. Agora é mais fácil… já tens expe- riência. – Tentou gracejar Norma, mas o sorriso fraco que provocou na amiga evoluiu rapidamente para um esgar de dor, motivando a nili a manter-se em silêncio enquanto segurava, solidária, a mão de Lyra entre as suas. “Pobre Lyra! Deve estar completamente exausta. Não há ener- gia que chegue para fazer força durante tanto tempo! Será que isto nunca mais acaba? Não entendo as pessoas que querem ter filhos… Pobre Lyra!”, repetiu Suci, em cima da árvore. A ruivi parecia, de facto, esgotada. Apesar dos incentivos do irmão e de Seara, não havia grandes progressos, a criança teimava em permanecer dentro de uma mãe cada vez mais enfraquecida. As contracções sucediam-se fortes, frequentes, impiedosas. “Dea, ajuda-a, ela merece, ela tem tido tanta coragem a enfren- tar esta provação! E agora, que tudo devia estar terminado e que devia poder descansar, ainda lhe exiges mais este esforço? Não é justo!”, rezou Suci, contraindo-se, solidária com as manifestações de dor da ruivi. – Vá lá, Lyra, faz força, a cabeça já está quase – insistiu o irmão, contendo-se, para não revelar que havia algo de estranho naquela criança. – Força, Lyra! – repisou Seara. – O teu filho precisa de um em- purrão teu para poder sair. “Por favor, Dea, ajuda-a! Não permitas que nenhum mal lhe
  7. 7. 22 aconteça”, apelou novamente Suci, assustada com a cor vermelha que alastrava pela água. Acompanhando um grito mais sentido, a cabeça do bebé final- mente saiu. Seara, que ajudava no parto, foi a segunda pessoa a ver o que Aryl já tinha descoberto, e a sua expressão traiu claramente a surpresa. Norma, da sua posição à cabeceira de Lyra, inclinou-se, curiosa, sem perceber o que se passava. Receando que houvesse algum pro- blema, absteve-se de fazer perguntas, para não assustar a ruivi, que continuava em trabalho de parto. Com um derradeiro esforço de Lyra, amparado por Aryl e Sea- ra, um gorducho bebé saudou, sorrindo, a sua nova vida, indiferente à surpresa que causava. – Ele é… ele é… – gaguejou Norma, com dificuldade em esco- lher as palavras adequadas. Que ela tivesse conhecimento, nunca, em Oníris, nascera uma criança como aquela. Foi interrompida por Aryl. – É um menino, Lyra. Olha como é bonito e forte. Mas a irmã, de olhos fechados, permaneceu imóvel.
  8. 8. 23 CAPÍTULO 2 A profecia “Tenho de impedir que a profecia seja revelada. Eu avisei-a, disse-lhe que mantivesse silêncio, mas ela é teimosa. Se se souber a verdade, o futuro de Oníris pode estar comprometido. Será que ela não percebe?” A anciã roxu acelerou o passo, vendo ao longe o cenário onde “os dados seriam lançados”. A multidão agitava-se, impaciente. Tinham sido convocados re- presentantes de todas as raças, que se dispunham em semicírculo à espera das anunciadas revelações. Os lugares da esquerda eram ocupados pelos nilis, com os seus cabelos anil cuidadosamente penteados, sentados com as costas mui- to direitas, e preparados para registar com pena e tinteiro tudo o que ali fosse dito. O rigor e organização que os caracterizavam tornavam- -nos com frequência objecto de chacota para as outras raças. Seguiam-se os roxus, identificáveis pelos pesados mantos com capuzes e pelos colares de sete contas que traziam nas mãos e que usavam, enquanto esperavam, para os orientar nas rezas aos deuses. Contígua estava a zona dos cabelos azuis, sempre curiosos no seu cepticismo. Os zulis tentavam trazer lógica às questões de fé. Eles, mais que qualquer outra raça, tinham dificuldade em compreender o sentido de devoção dos roxus, os seus hábitos de recolhimento e ser- viço a algo que não conseguiam ver: os deuses. Mas a singularidade
  9. 9. 24 das práticas dos portadores de cabelo roxo era incompreendida por quase todos os outros povos e transformava-os num dos temas favo- ritos das piadas étnicas que circulavam por Oníris. Uma das mais recentes contava que num grupo de fundamen- talistas roxus, sujeitos a um código de silêncio tão rigoroso que os impedia de falar com quem quer que fosse, certo dia um dos seus elementos tropeçou e caiu. Ao vê-lo cair, um outro roxu do mesmo grupo radical não conseguiu conter o riso. O roxu que caíra, irado com o comportamento impróprio do seu companheiro, prometeu a si mesmo que nunca mais lhe dirigiria palavra. Os marelis chegavam agora num grupo numeroso, alegre e ba- rulhento. A sua estatura imponente, os seus longos cabelos loiros e o ruído que faziam tornavam difícil não reparar neles. As restantes raças cravejaram-nos de olhares críticos, dando a entender que desejavam si- lêncio. Por momentos o grupo acalmou-se, contido pela pressão social. Os verdis, junto dos quais se sentaram, eram gente simples, de pequena estatura, com cabelos tão verdes como a natureza de que tanto gostavam. E se antes já pareciam deslocados, em contraste com o exuberante grupo recém-chegado, essa sensação tornava-se ainda mais notória. – Parecem meninos do campo no seu primeiro dia de aulas – comentou alguém, e a frase percorreu a multidão, provocando sor- risos. No meio dos representantes ruivis, o grupo que se seguia à volta do círculo, uma jovem com perfil delicado, tez e olhos claros, e ca- belos laranja característicos da sua raça, atraiu a atenção de um dos marelis. O assobio lisonjeiro que este se atreveu a emitir motivou nos seus companheiros uma explosão de gargalhadas, e reacendeu as reclamações dos restantes grupos. Depois dos ruivis, destacava-se uma área não ocupada. Os por- tadores de cabelos vermelhos, representantes da raça sangui, não estavam ainda presentes. – Devem estar a trapacear alguém, e esqueceram-se disto – ouviu-se murmurar, e várias cabeças acenaram em concordância.
  10. 10. 25 A enigmática personagem, envolta num manto branco debrua- do a negro, avançava lentamente, abrindo caminho entre a multidão, para alcançar a plataforma de pedra que se erguia a uma braçada do solo. A assistência sentava-se directamente na areia, de pernas cruza- das, aguardando. Quando ela venceu o último dos toscos degraus, afastou o ca- puz que trazia sobre a cabeça, pondo a descoberto uma pele desfi- gurada pela peste, em que múltiplas crateras negavam a beleza a um rosto que, de outra forma, poderia parecer atraente. A sua idade constituía um mistério, uns viam nela uma velha sábia; outros, uma jovem sobredotada. Mas todos a respeitavam, re- conhecendo a verdade e a sabedoria nos conselhos que fornecia e nas visões do futuro que com eles partilhava. Ninguém sabia o seu nome verdadeiro, era conhecida apenas por Oráculo. Com a sua chegada, a plateia silenciou-se, cessaram todas as con- versas, todos os movimentos, e mesmo os marelis interromperam as suas brincadeiras. Ninguém se atrevia a fazer algo que a pudesse perturbar. Quando ela abriu a boca, a sua voz soou melodiosa e encheu o espaço. – Ainda faltam os representantes sanguis… sem eles, não posso invocar a “imagem”. A arte divinatória exige que o todo esteja com- pleto – disse, enfatizando a palavra “todo”. Uma onda de desagrado percorreu os rostos da assistência, mas não assumiu qualquer expressão audível. A Oráculo continuou. – Enquanto esperamos, quero recordar-vos uma história: Oníris foi criado por Deo e Dea como uma oferta muito especial para os seus sete filhos, os Íris. E, como sabem, todos nós que habitamos este mundo fomos criados pelos sete jovens deuses. Porque não nos soubemos entender, Deo criou bar- reiras e separou as diferentes raças em diferentes territórios. Porque os Íris não se souberam entender, foram castigados, aprisionados, pelo próprio pai.
  11. 11. 26 Rezava a lenda que representantes das diferentes raças teriam de cooperar entre si, ultrapassando as suas diferen- ças, para alcançar o território proibido e aí superar as provas de Deo, libertando os Íris do seu cativeiro e restabelecendo a unidade do seu… do nosso mundo. Sabemos que Oníris mudou, caíram as barreiras, vol- tou a ser um só. Não conhecemos os responsáveis por esta mudança, para lhes podermos agradecer. Não sabemos quem foram as pessoas que conseguiram cumprir a lenda, mas não temos dúvidas de que, nesse grupo de seres hu- manos muito especiais, havia nilis, roxus, zulis, verdis, mare- lis, ruivis e sanguis… havia representantes de todas as raças. – E o que fazemos nós com o novo futuro que nos foi legado? A pergunta da Oráculo pairou no ar por alguns instantes, antes de ela continuar. – Estão as sete raças humanas preparadas para viverem juntas? – questionou, observando os olhares críticos que eram unanimemente lançados aos representantes sanguis, que só agora ocupavam o seu lugar no semicírculo. – Penso que não! Observem à vossa volta e digam-me o que vêem. Lutas, conflitos, disputas de poder, marcam a nova realidade. Fez uma pequena pausa, e o silêncio criado foi tão nítido que se poderia ouvir o voo de um insecto, se algum por ali passasse. – Estamos aqui, hoje, para saber o que a seiva da vida nos revela sobre o futuro. Estamos aqui reunidos para conhecer o que nos está reservado, sabendo que, juntos, com coragem, poderemos alterar o destino… o nosso destino. Respirou fundo sete vezes, antes de ordenar: – Dêem as mãos. Fechem o círculo. E que nenhuma mão fique vazia! A ordem foi obedecida, mas havia expressões que revelavam que, para alguns, o contacto físico com outra raça, implicado neste simples gesto, se tornava desconfortável.
  12. 12. 27 – Concentrem-se, agora… Fechem os olhos… Das vossas mãos unidas nascerão bolas de luz… que irão crescer em energia de cada vez que pensarem nelas. – As pausas reforçavam o efeito de cada pedaço de mensagem. – Ergam os braços e… quando eu disser… canalizem essa luz na direcção da taça. A taça era um prato metálico martelado contendo água – a seiva da vida – até à borda. Por baixo, uma lamparina queimava um óleo aromático, cuja chama aquecia o líquido, provocando pequenas vibrações na sua superfície. Os olhos vivos da Oráculo perscrutavam a superfície do prato, quando a ordem foi emitida. – Agora! – exclamou, num tom imperioso. A atmosfera vibrou e momentaneamente tudo ficou turvo, como que perturbado pela corrente de energia criada. Uma cortina de névoa ro- dopiou junto ao prato, espevitando a chama. O aroma adocicado tornou- -se mais intenso, estimulando as narinas dos que estavam mais próximo. E então ela falou, numa voz que soou estranha, completamen- te diferente do timbre melodioso com que iniciara o seu discurso. A Oráculo parecia agora possuída por uma outra alma, mais velha, mais cansada, quando proferiu: – Diz a profecia que dois irmãos governarão Oníris. Noite e dia, sombra e luz, forte e fraco, eles conseguem equilíbrio onde domina o caos, e o seu reinado trará de novo a paz. A anciã roxu aproximou-se num passo estugado pela preocupa- ção. Avistou um monge de pé e segredou-lhe a questão que lhe oprimia o peito. – A Oráculo já revelou a profecia? Um aceno afirmativo de cabeça deu-lhe a resposta que ela mais temia. “Cheguei tarde de mais”, pensou, desanimada, apoiando a ca- beça entre as mãos suadas. “Ela não podia ter feito isso! Não podia
  13. 13. 28 ter revelado o segredo! Não tinha esse direito! Esta revelação põe em risco a vida dos dois irmãos. A ambição e a sede de poder motivarão muitos a intervir…“ Esquecendo por momentos a existência da multidão à sua volta, deixou que a sua voz se elevasse num lamento. – Se ao menos eu tivesse chegado um pouco antes. – Abanou a cabeça, repetindo, consternada. – Ela não podia ter feito isso!

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