UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ       Rildo Ferreira dos SantosATITUDES PEDAGÓGICAS PARA INDIVÍDUOS    COM A SÍNDROME DE ASPERG...
ATITUDES PEDAGÓGICAS PARA INDIVÍDUOS    COM A SÍNDROME DE ASPERGER.                   Trabalho de conclusão de curso apres...
É a nossa capacidade de entender e reconhecer o outro e, assim, ter o privilégiode conviver e compartilhar com pessoas dif...
Agradecimento aos mestres: Alessandra Nicodemos, Angela Paiva, Anna Rosa Amâncio, Adelaide Maio, Aparecida de Fátima T. do...
RESUMOAspergers são “autistas” que tem preservado o intelecto e a linguagem. São indivíduosaltamente capazes que apresenta...
SUMÁRIOINTRODUÇÃO                                                  7I – O QUE É A SÍNDROME DE ASPERGER                    ...
7INTRODUÇÃO                       É preciso ser para aprender. A aprendizagem significativa é fruto da “permissão de      ...
8a intervenção do professor/a auxiliando-os nas relações interpessoais, onde se encontra ofoco do problema para meninos e ...
9I – O QUE É A SÍNDROME DE ASPERGER? Para tentar responder esse questionamento quero inicialmente recorrer a um pesquisado...
10socialização” (Idem: o grifo em itálico é original do autor). Nas crianças observadas porAsperger, embora preservassem a...
11como sinais de tédio, pressa para deixar o ambiente e necessidade de privacidade. Natentativa de se envolver com outras ...
12                       Eles também podem ser intolerantes com os erros de seus amigos e rápidos para                    ...
13ações segundo as convenções sociais. Asperger são indivíduos que possuem a característicade interpretar literalmente os ...
14  Por serem indivíduos que apresentam um vocabulário rebuscado, interesse circunscrito,com extraordinária aptidão para c...
15II – O PARADIGMA DA INCLUSÃO  O Século XX teve uma importância significativa para os portadores de necessidadeseducacion...
16movimentos mundiais de aceitação das diferenças e o princípio da normalização propondopadrões de vida cotidiana mais pró...
17educação para todos e todas sem qualquer discriminação ou exclusão social e, a partir desteano, o acesso ao ensino funda...
18III – INCLUSÃO OU INTEGRAÇÃO?  Quero neste capítulo falar sobre o processo de inclusão apresentando a visão de algunspes...
19                          [...] a integração desses alunos na comunidade escolar ainda evidencia limitação,             ...
20  O que pensam as professoras das escolas municipais de Japeri e Nova Iguaçu a respeito dainclusão de portadores de nece...
21aula só acarretaria mais preocupação sem que fosse garantido à ela as condições apropriadaspara recebê-lo enquanto aluno...
22XX, e ainda assim, querem professores e alunos criativos, inovadores, inclusivos. Ocomentário da professora é bastante c...
23  N está certa em mostrar-se indignada pelo modo como está sendo feita a inclusão dealunos e alunas especiais? A escola ...
24IV – A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O EDUCANDO COM ASPERGER                       Tenho um menino de 8 anos que pôs fogo no porã...
25  Em entrevista concedida ao Dr. Drauzio Varella, um dos maiores especialistas brasileirosno estudo de autismo define tr...
26interrompi, mas quando necessário redirecionava as conversações para o campo da inclusão,da Síndrome de Asperger e do fa...
27          IV.I.II – Campo 2  A escola Marinete de Oliveira Cavalcante foi inaugurada em 31 de março de 1970 peloentão pr...
28espaço escolar, o serviço é terceirizado e conta com oito profissionais, sendo duasmerendeiras e duas auxiliares de mere...
29V – ASPERGER SÃO PORTADORES DE NECESSIDADES EDUCACIONAISESPECIAIS?    Refletindo sobre os depoimentos das professoras, r...
30  Ora, para nós brasileiros, o contexto nos leva a responder o placar do jogo, mas para osportugueses o contexto é outro...
31  Mas dona L identificou em D algumas deficiências. “Ele não conseguia segurar o prato decomida e o copo de suco, um em ...
32indivíduos a fazerem determinadas coisas que presumiríamos serem capazes de aprendersozinhos” (Shwartzman, in Varella, 2...
33uma das que me respondeu ao questionário dizendo ser necessária a redução do número dealunos em classe para um fazer ped...
34  Ora, vejam que Wing mostra uma preocupação com o desenvolvimento de competênciasque serão necessárias para uma vida ad...
35Secretaria de Educação promove os cursos de atualização, mas limitado a alguns professoresjá que não contempla a todos, ...
36  O quadro da pesquisa estimulada sugere que há que garantir meios para constante pesquisanas escolas. E não vejo outra ...
37VI – Considerações finais  Indivíduos com a Síndrome de Asperger são especiais por sua característica singular. Sãoimbat...
38mas nas necessidades que se apresentam nos alunos e alunas de sua classe para dar cabo aoaprendizado). Mais interessante...
39 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASALVES, Cristina Nassif. Educação inclusiva no sistema regular de ensino – O caso domunicípio ...
40MANTOAN, Maria Tereza Eglér. Educação escolar de deficientes mentais: Problemaspara a pesquisa e o desenvolvimento. 1998...
41Anexos
42Anexo 1          UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ          FACULDADE DE PEDAGOGIA          QUESTIONÁRIO DE PESQUISA EDUCACIONA...
43e) Você sabe o que é (5) Não   Síndrome      de (4) Sim            Defina:   Asperger?3 – Sobre a prática docentea) O   ...
44Anexo 2Imagem capturada do computador por Prt Sc.Conteúdo do email recebido do jornalista Marco Aurélio de Souza:Olá Ril...
Anexo 3      Fotonovela adaptada do Filme por Rildo Ferreira   Radha Mitchell [Isabelle (Izzy) Sorenson]                  ...
Título Original: Mozart and the Whal      Muito bem.     Vamos dar um      jeito nisso. Faz uma ampla faxina lavando ochão...
E Donald?ARRRG!!!                  Indivíduos com a Síndrome de Asperger                          possuem comportamento ri...
Tudo limpo...                    Oh, não!                                    Não!Minha cortina!...
Izzy! Izzy! Onde                                                  está você? Izzy!... Donald?!         Oi! Estou aqui. O q...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Atitudes pedagogicasindividuossa

1.214 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.214
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
3
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
32
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Atitudes pedagogicasindividuossa

  1. 1. UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Rildo Ferreira dos SantosATITUDES PEDAGÓGICAS PARA INDIVÍDUOS COM A SÍNDROME DE ASPERGER. Rio de Janeiro 2010 Rildo Ferreira dos Santos
  2. 2. ATITUDES PEDAGÓGICAS PARA INDIVÍDUOS COM A SÍNDROME DE ASPERGER. Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em Pedagogia. Orientação: Professora Ms. Heloisa Borges Rio de Janeiro 2010
  3. 3. É a nossa capacidade de entender e reconhecer o outro e, assim, ter o privilégiode conviver e compartilhar com pessoas diferentes de nós. A educação inclusivaacolhe todas as pessoas, sem exceção. É para o estudante com deficiência física,para os que têm comprometimento mental, para os superdotados, para todas asminorias e para a criança que é discriminada por qualquer outro motivo. Costumodizer que estar junto é se aglomerar no cinema, no ônibus e até na sala de aula compessoas que não conhecemos. Já inclusão é estar com, é interagir com o outro. Mantoan, Maria Teresa Eglér: Inclusão é o privilégio de conviver com as diferenças. Revista Nova Escola, ed. 182. São Paulo, maio de 2005.
  4. 4. Agradecimento aos mestres: Alessandra Nicodemos, Angela Paiva, Anna Rosa Amâncio, Adelaide Maio, Aparecida de Fátima T. dos Santos, Carmem Lúcia S. Barros, Claudia Barreiros, Daniel Alves Portinha, Dayse Carla Genero, Débora Barreiros, Maria de Fátima Fernandes Rodrigues, Giovanna Aurilo, Heloisa BorgesPaiva, Inez da Paz, Jorge Atílio Silva Iulianelli, José A. OrtizAlexandre, José Carlos Nunes, José Roberto, Luciana Pereira da Silva, Luis Arcos Perez, Marcos Kiperman, Marcos Vinicius M. Andrade, Maria Cristina Lacerda, Maria Imaculada Chao Cabanas, Maria de Lourdes Cysneiros de Moraes, Pablo de Vargas, Paulo Marcos Cardoso Maciel, Raquel Vasertein, Regina Cury, Regina Veiga, Leonardo Berenger, Silvia Helena, Taísa Vliese, Tânia Brito, TerezaRenou, Yara Hudik, Wanda Medrado Abrantes e aqueles que, à distância, dispensaram tempo para mediar novos conhecimentos e me ajudaram até aqui.Agradecimento especial à minha pequena Duda Moreira pela cumplicidade e tolerância.
  5. 5. RESUMOAspergers são “autistas” que tem preservado o intelecto e a linguagem. São indivíduosaltamente capazes que apresentam características incomuns na maioria das pessoas ediagnosticada a partir dos 5 anos de idade. Seu interesse pelo meio ambiente e suacuriosidade impedem que seja diagnosticado mais cedo. Uma de suas característicasmarcantes é a alta capacidade de aprendizagem daquilo que lhe é de seu interesse mostrando-se capaz de aprender em curto espaço de tempo aquilo que na maioria das pessoas sãonecessários anos de estudos. Contudo, por uma disfunção cerebral adota uma postura bizarrae tem prejudicada a coordenação motora. Sua capacidade de entendimento lógico leva-o acomportar-se de maneira indissociável e retraída com o conseqüente isolamento,característica nata dos autistas. Esses indivíduos não conseguem sustentar olhares face-a-face e são comumente vítimas de preconceitos. Para garantir que estes indivíduos sejamincluídos, e mais que incluídos, sujeitos que sejam capazes de construir sua históriacomunitária, precisamos de uma escola apropriada para recebê-los e garantir suapermanência no convívio escolar propiciando-lhes o aprendizado daquilo que lhes sãonecessários, como disse Dr. Shwartzmam em entrevista concedida ao Dr. Drauzio Varella, “épreciso ensinar esses indivíduos a fazerem determinadas coisas que presumiríamos seremcapazes de aprender sozinhos”. São as coisas extremamente fáceis para a maioria daspessoas, mas, a rigor não processadas por Asperger. Por fim, concluo que são indivíduosportadores de necessidades especiais exigindo de professores e professoras uma pedagogiaque aproveite as potencialidades e facilite o aprendizado das coisas que lhes são necessárias,porém difíceis.Palavras-Chave: Asperger. Pessoas com Necessidades Educacionais Especiais. AtitudesPedagógicas.
  6. 6. SUMÁRIOINTRODUÇÃO 7I – O QUE É A SÍNDROME DE ASPERGER 9 I.I – Breve Histórico 9 I.II – Diagnóstico e Características Clínicas 10II – O PARADIGMA DA INCLUSÃO 15III – INCLUSÃO OU INTEGRAÇÃO? 18IV – A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O EDUCANDO COM ASPERGER 24 IV.I – CONTEXTUALIZANDO O CAMPO DE PESQUISA 26 IV.I.I – Campo 1 26 IV.I.II – Campo 2 27 IV.I.III – Campo 3 28V – ASPERGER SÃO PORTADORES DE NECESSIDADES EDUCACIONAIS 29ESPECIAIS?VI – CONSIDERAÇÕES FINAIS 37REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 39ANEXOS 41
  7. 7. 7INTRODUÇÃO É preciso ser para aprender. A aprendizagem significativa é fruto da “permissão de ser”, mais que isso, é fruto da “sensação de ser”. Estamos falando da maneira específica e natural de ser de cada um de nós, que se transforma na medida em que interagimos significativamente com o mundo e com os outros. Alguém que não tem “permissão de ser” não se habilita a aprender, pois não tem referenciais internos para alimentar a interação necessária com o objeto da aprendizagem. Nossos alunos precisam sentir que podem ser o que são na sala de aula e que toda parte de si que não for muito conveniente será fruto de uma negociação respeitosa que levará a uma adaptação de comportamento que, por sua vez, será um ganho de habilidade relacional, um presente para ser melhor no mundo (Santos, 2008). Este trabalho se propõe a levantar questões pertinentes às práticas educativas paraindivíduos com a Síndrome de Asperger na esfera do ensino regular, mas aplicável, também,para as classes especiais buscando a inclusão dos meninos e meninas que apresentem ascaracterísticas singulares dos indivíduos com a Síndrome em resposta à exigência do cursode Pedagogia na Universidade Estácio de Sá. Procuro analisar a trajetória dos eventos que reivindicavam novas práticas no trato com asmuitas deficiências, partindo das instituições de segregação até Jomtien, na Tailândia, ondea Conferência indicou garantias de acesso à sociedade para todos os cidadãos, percebendoque, mesmo antes da conferência, os discursos convergiam para o paradigma de suporte queafirmava que as pessoas diferentes tinham direito a viver em sociedade rompendo com oparadigma da segregação. No âmbito legal não poderia deixar de falar da legislação brasileira que começa com aConstituição Federal seguida de outras Leis que a complementam para levar os Portadoresde Necessidades Especiais à escola regular. Na categoria de Portadores de NecessidadesEspeciais incluímos os indivíduos com a Síndrome de Asperger por serem indivíduos queapresentam características especiais como altíssima habilidade naquilo que lhes interessam,mas carecem de acuidade para o entendimento de coisas simples e corriqueiras, assim como
  8. 8. 8a intervenção do professor/a auxiliando-os nas relações interpessoais, onde se encontra ofoco do problema para meninos e meninas com a Síndrome em idade de escolarização. Ainda nesta linha de pensamento tento discutir os trabalhos produzidos por cientistas queestudam por longos anos a Síndrome de Asperger e assim conhecer suas características demodo mais amiúde. Conhecendo sobre a Síndrome, seus aspectos sintomáticos e suaspeculiaridades, possibilita ao educador adotar postura pedagógica que lhes favoreçam oaprendizado e a interação social. Além dos trabalhos acadêmicos, procuro dialogar tambémcom Robison (2008), um Asperger que, segundo ele, passou a viver quando ingressou naquarta década de vida. O depoimento deste autor mostra que apesar de suas dificuldadestriviais, os indivíduos com essa síndrome são sujeitos que possuem grande capacidadeintelectual dominando inteiramente um assunto de seu interesse como se passasse anos eanos pesquisando sobre ele. Finalmente, espero ser o mais fiel e isento possível para narrar minha experiência vividacom crianças com a Síndrome trazendo à luz da educação uma interpretação pessoal daleitura de mundo desses sujeitos, incluindo os depoimentos de seus pais e pessoas com asquais interage no dia a dia, procurando entender suas dificuldades e suas expectativas,especialmente com relação à educação. Também espero dar igual tratamento para analisar ossurpreendentes depoimentos colhidos das professoras das primeiras séries do Ensinofundamental numa escola pública em Japeri e outra em Nova Iguaçu. Seus depoimentos sejustificam porque desejamos compreender melhor suas necessidades para dialogar acerca dasatitudes pedagógicas necessárias para a práxis educativa na relação professor-aluno com aSíndrome de Asperger e fazer uma discussão acerca da pesquisa estimulada por meio dequestionário que as mesmas professoras se prontificaram a responder. Sem pretender dar por definitiva as conclusões aqui apresentadas, mas dá-las como pontode partida para uma ampla discussão acerca do fazer educacional para alunos diferenciados,compreendendo-os como sujeitos capazes e que a presença deles em sala de aula nas classesregulares favorece o aprendizado tanto para os diferenciados quanto para os demais meninose meninas da classe.
  9. 9. 9I – O QUE É A SÍNDROME DE ASPERGER? Para tentar responder esse questionamento quero inicialmente recorrer a um pesquisadoringlês, o mesmo autor que possibilitou John Elder Robison se reconhecer enquanto sujeitocom a Síndrome dizendo que Crianças com Síndrome de Asperger têm dificuldade em saber claramente como se socializar com seus pares. A sua frustração pode levar a agressão, mas também pode levar à ansiedade. Isso pode ser tão severo que a criança desenvolve mutismo eletivo ou abandona a escola (Attwood, 2002). Este e outros autores afirmam que aspergers são “autistas” com linguagem e intelectopreservados descrevendo uma perspectiva moderada do autismo (Klin, 2006; Schwartzmanin Varella, 2005). Crianças autistas com nível de funcionamento baixo vivem num mundopróprio, isolado, não respondem quando falam com ela, enquanto a criança com autismocom funcionamento mais alto, vive no nosso mundo, mas à sua própria maneira. A melhordefinição sobre a Síndrome de Asperger encontrei no artigo de Klin (2006) ao dizer queAsperger são “indivíduos com linguagem e intelecto preservados”. O caminho a seguir éfazer um breve histórico seguido de uma discussão sobre as possibilidades de diagnosticar asíndrome.I.I – Breve Histórico No início dos anos de 1940 um pediatra austríaco de nome Hans Asperger descreveuquatro crianças que apresentavam dificuldade de interagir socialmente em grupos edenominou esta condição de “psicopatia autística”, indicando um transtorno estável depersonalidade marcado pelo isolamento social. Um ano antes, Leo Kanner descreveu, pelaprimeira vez, 11 casos do que denominou distúrbios autísticos do contato afetivo. Nessesprimeiros casos, observou-se uma “incapacidade de relacionar-se” de formas usuais com aspessoas desde o início da vida (Klin, 2006). Pelas características de ambas as descrições, hoje afirmam-se que tanto o autismo clássicoquanto a Sindrome de Asperger são “entidades diagnósticas em uma família de transtornosde neurodesenvolvimento nos quais ocorre uma ruptura nos processos fundamentais de
  10. 10. 10socialização” (Idem: o grifo em itálico é original do autor). Nas crianças observadas porAsperger, embora preservassem as habilidades intelectuais, elas apresentavam [...] uma notável pobreza na comunicação não-verbal, que envolvia tanto gestos como tom afetivo de voz, empatia pobre e uma tendência a intelectualizar as emoções, uma inclinação a ter uma fala prolixa, em monólogo e às vezes incoerente, uma linguagem tendendo ao formalismo (ele os denominou “pequenos professores”), interesses que ocupavam totalmente o foco da atenção envolvendo tópicos não-usuais que dominavam sua conversação, e incoordenação motora. Ao contrário dos pacientes de Kanner, essas crianças não eram tão retraídas ou alheias (Klin, 2006). A descoberta de Asperger foi publicada em alemão durante a segunda Guerra Mundial oque, provavelmente, o deixou sem a devida atenção por cerca de quatro décadas (Godoy,1998). Somente a partir de 1981, quando Lorna Wing publicou uma série de casos comcaracterísticas sintomáticas similares denominando-a SÍNDROME DE ASPERGER – SA(Godoy, 1998), homenageando aquele que primeiro a descreveu, outros estudos buscaramcolaborar para a complementação das características diagnósticas da SA, passando a sercategorizada pela CID-10 em 1988 no grupo dos Transtornos Invasivos, ou Globais, doDesenvolvimento – F84 (Camargo Jr., 2001). I.II– Diagnóstico e Características Clínicas Indivíduos com Síndrome de Asperger (SA) se apresentam com muitos critérios comunsaos do autismo, porém com particularidades muito especiais como, por exemplo, o fato deque apresentam prejuízos qualitativos na interação social. Os autistas buscam o isolamentopara uma introspecção em um “mundo” próprio, afastado do convívio social. Aspergerquerem contato; não se inibem na presença do outro, mas se comportam de formainapropriada e excêntrica e a falta da compreensão intuitiva de regras do comportamentosocial o leva ao isolamento. Indivíduos desse grupo possuem uma linguagem rebuscada e repetitiva. Tentamestabelecer com o outro, preferenciando um adulto, uma conversação em monólogo sobreum tópico favorito e geralmente não-usual e bem delimitado. Normalmente tentam fazeramizades e encontrar pessoas, mas invariavelmente as abordagens são frustradas pelo mododesajeitado e pela falta de sensibilidade em relação aos sentimentos e intenções das demaispessoas e por não reconhecerem a comunicação não-literal implícita que elas expressam
  11. 11. 11como sinais de tédio, pressa para deixar o ambiente e necessidade de privacidade. Natentativa de se envolver com outras pessoas e de estabelecer relações de amizade, e por sesentirem constantemente frustrados pelos seus repetidos fracassos, “alguns indivíduos comSA desenvolvem sintomas de transtorno de ansiedade ou de humor” (Klin, 2006). Godoy (1998) suspeita que interação social pode ser o maior dos problemas para oportador desta Síndrome e sustenta a hipótese de que Eles podem não necessariamente desejar distanciar-se dos outros, mas o isolamento resulta da falta da compreensão intuitiva de regras do comportamento social, incluindo regras que governam a linguagem, gesticulação, postura, contato de olhar; escolha de roupas e proximidade de outros (Godoy, 1998). Autor do livro autobiográfico “Olhe nos meus olhos: minha vida com a Síndrome deAsperger”, Robison (2008) chegou a afirmar ter mais afinidade com as máquinas que lidarcom pessoas. Ele não conseguia entender que afagar uma menina não seria o mesmo queafagar um cão puddle, que encontrava dificuldade em sustentar um olhar fixo noutro olhar,viu-se vítima de adjetivos diagnósticos como “sociopata” e “psicopata” tornando-o umsujeito introspectro e frustrado cujo refúgio estava em fazeres diferenciados descobrindo,então, possuir aptidão com as máquinas, com a eletricidade e com o som até tornar-se umdos mais importantes recuperadores de carros antigos (fora de linha) do Reino Unido. A linguagem é um aspecto a ser considerado. Ainda que não apresente a severidade e aunidade fastidiosa de tom dos autistas, Aspergers podem apresentar padrões de comunicaçãopobres em variação na altura, intensidade, tom, duração e ritmo da fala. A velocidade, porexemplo, pode ser muito rápida e ser entrecortada, faltando-lhe fluência. Frequentementefala muito alto, apesar da proximidade com seu interlocutor, ainda que dentro de umabiblioteca (Klin 2006; Godoy, 1998). A conversação pode transmitir uma idéia desconexa ou de falta de coerência. “Essesintoma possa ser um indicador de um possível transtorno de pensamento, a falta decontingência na fala é um resultado do estilo de conversação em monólogo e egocêntrico”(Klin, 2006). Eles podem falar sobre assuntos de seu interesse por horas repetidamente e sãoincapazes de demarcar claramente as mudanças de tópico, independente do interesse dequem o escuta. Attwood (2002) acrescenta que
  12. 12. 12 Eles também podem ser intolerantes com os erros de seus amigos e rápidos para criticar, mas pelo contrário, odeiam ser criticados. Outras crianças estão começando a aprender a “pensar em não dizer “ de modo a não ferir os sentimentos de seus amigos. Nesta fase, o conceito de uma “mentira branca” é uma característica da amizade, mas as crianças com Síndrome de Asperger consideram a honestidade e a verdade mais importantes que os sentimentos de alguém. [tradução minha]. Os estudos já realizados mostram que esses indivíduos são capazes de armazenar umagrande quantidade de informações factuais sobre um tópico, de uma forma muito intensa,mas na maior parte das vezes essas informações são aprendidas sobre tópicos muitocircunscritos sem a compreensão dos fenômenos mais amplos envolvidos. Umaparticularidade pode ser observada em indivíduos com SA: quando fala de si mesmo usa a 3ªpessoa pronominal (ele, ou o seu nome) no lugar da 1ª (eu). Para exemplificar: - Eu vou ao cinema. Expressão comumente usada por todos referindo-se a si mesmo. - Fulano vai ao cinema ou Ele vai ao cinema. Expressão usada por indivíduos com aSíndrome de Asperger referindo-se a si mesmo. Outra particularidade desses indivíduos é que são visivelmente desajeitados e possuemuma coordenação motora muito pobre. Andar de bicicleta, subir nos brinquedos dosparques, abrir garrafas, pegar bolas etc., são tarefas penosas em função das deficiências dashabilidades motoras e apresentam déficits significativos nas habilidades visuomotoras evisuoperceptuais e no aprendizado conceitual (idem). Pessoas com esta Síndrome podem ser muito ligadas a objetos pessoais e podem vir atornarem-se extremamente infelizes quando fora do ambiente familiar. No filme “Loucos deAmor”, de Petter Naess, o personagem Donald, de Josh Hartnett, briga com veemência coma personagem de Radha Mitchell, sua companheira, porque esta jogou fora a cortina do boxdo banheiro por estar muito suja e mofada. Entretanto, para Donald ela fez uma incursãoindevida na sua privacidade. Diz ele neste determinado momento do filme: “Você não tinhao direito de fazer isto. Você roubou a minha vida!” (veja fotonovela adaptada em anexo). Attwood (2002), autor do livro que determinou o diagnóstico para Robison, escreve emartigo disponível na sua página pessoal na internet que as crianças portadoras dessaSíndrome não sabem como interagir com seus pares porque não conseguem processar as
  13. 13. 13ações segundo as convenções sociais. Asperger são indivíduos que possuem a característicade interpretar literalmente os comentários e conversações e não toleram ou incorporamsugestões nas brincadeiras e quando as sugestões são realizadas factualmente acabam por seirritar. No depoimento de Robison um claro exemplo de como isso ocorre: [...] eu usava uma colher de cozinha da minha mãe para escavar a terra. Então, cuidadosamente, montava uma linha de blocos azuis. Eu nunca misturava meus blocos. Blocos azuis com blocos azuis, vermelhos com vermelhos. Mas Doug chegava e colocava um bloco vermelho em cima dos azuis. Ele não percebia que estava errado? Depois que batia nele, eu voltava a brincar. Do jeito correto (Robison, 2008: p. 21). Então, percebe-se que os indivíduos com a Síndrome de Asperger são desajeitados edescoordenados; ainda crianças, apresentam um vocabulário diferenciado, repetitivo e,muitas vezes, desconexo com o contexto em debate. Podem desenvolver um interesseintenso por um ou dois assuntos específicos, absorvendo todos os detalhes sobre eles comose estivesse freqüentando uma academia por longos anos. “Este interesse intenso pode seruma variação das habilidades científicas que aparecem em algumas pessoas com o autismoclássico” (Godoy, 1998). Em alguns casos, são confundidos com superdotados. A seguir apresento um quadro (1) que fiz resumindo os principais aspectos sintomáticos daSíndrome de Asperger apresentado pelos vários autores pesquisados. Resumo dos Aspectos sintomáticos da Síndrome de Asperger Não reconhecem expressões faciais. Não entendem o sentimento alheio. Não compreendem as regras sociais e, por conseguinte, possuem poucos amigos, muito embora desejam tê-los. Possuem comportamentos ritualísticos. Encontram enorme dificuldade de se relacionar. Apresentam elevado padrão das habilidades auditivas, contrapondo-se com as frágeis habilidades visuomotoras e visuoperceptíveis. São visivelmente desajeitados e pobres na coordenação motora. Adotam postura bizarra.Quadro 1: Resumo dos principais aspectos sintomáticos da Síndrome de Asperger encontrado na literatura.
  14. 14. 14 Por serem indivíduos que apresentam um vocabulário rebuscado, interesse circunscrito,com extraordinária aptidão para compreenderem problemas complexos e altíssimacapacidade de concentração, mas com marcante deficiência no relacionamento social e nacapacidade de comunicação, comprometimento das habilidades motoras, dificuldade deentender as convenções socialmente aceitas e incapacidade de compreender as feiçõesalheias, assim como não conseguem sustentar o contato visual, torna-os indivíduos quemerecem atenção especializada por parte do educador/a para uma efetiva inclusão dosindivíduos com a Síndrome de Asperger no sistema educacional. A propósito, Inclusão é umassunto que merece uma pausa para uma breve discussão que faço a seguir.
  15. 15. 15II – O PARADIGMA DA INCLUSÃO O Século XX teve uma importância significativa para os portadores de necessidadeseducacionais especiais. O capitalismo financeiro determina que toda mão-de-obra deve serprodutiva e assim surgiram os movimentos que reivindicavam novas práticas no trato dasdeficiências ao se pronunciar que o sujeito com deficiência também é capaz de produziralguma coisa. Na antiguidade, até 476 d.C., a pessoa com necessidades especiais não erasequer considerada humana e por isso exterminada, abandonada, ou tornavam-se pedintes.Desde a queda do Império Romano do Ocidente até a tomada de Constantinopla pelosturcos, embora as formas de produção fossem as mesmas da antiguidade, qualquer pessoacom necessidade especial, oscilando entre o bem e o mal, era possuída pelo demônio outinha poderes sobrenaturais e permaneciam excluídas da sociedade até que a Igreja passou aconsiderá-las criaturas de Deus numa visão ambígua, ora dignas de comiseração, orarejeitadas ou perseguidas pela inquisição católica. Mesmo depois da cisão com o protesto deMartinho Lutero, continuaram a ser tratadas como castigo divino ou como seres diabólicos.Somente com Santo Tomás de Aquino as deficiências passaram a ser consideradasfenômenos naturais da espécie humana (Sassaki, 1997). Os primeiros instrumentos para facilitar a vida de portadores de necessidades especiaissurgiram na Idade Moderna, até a Revolução Francesa em 1789. A cadeira de rodas e osistema Braile são dois exemplos observados, mas as pessoas com necessidades especiaiseram levadas para lugares afastados para evitar “contaminar” o resto da humanidade. Já naIdade Contemporânea, com o avanço da ciência, em especial da medicina, as deficiências setornaram objeto de estudos e, mesmo segregadas, as pessoas com necessidades especiaisforam levadas à ações pedagógicas e surge o paradigma da institucionalização cuja idéia eraconfinar os diferentes em conventos e asilos, em hospitais psiquiátricos ou em instituiçõesresidenciais segregadas ou escolas especiais (idem). As primeiras críticas à esse paradigma surgiram por volta dos anos 1960 e afirmavam seras instituições segregadas inadequadas para recuperar e promover a socialização das pessoasdiferentes. A Declaração dos Direitos Humanos manifesta em 1948 assegurando o direito detodos e todas educação pública e gratuita e direito das minorias. Nascem, então, os
  16. 16. 16movimentos mundiais de aceitação das diferenças e o princípio da normalização propondopadrões de vida cotidiana mais próximo possível do normal para as pessoas diferentes. Nasdécadas de 1970/1980 surgiram os serviços educacionais técnicos, especializados empromover a adaptação da pessoa com necessidades especiais no meio social, localizando nosujeito o alvo da mudança: serviços e recursos para mudar o seu comportamento. É osurgimento do paradigma de serviços. A partir desse movimento surgem as críticas: diferenças não se apagam, mas são administradas da convivência social. Na década de 1990 surge o paradigma de suporte e o discurso era que pessoas diferentes tinham o direito à convivência não segregada e acesso a todos os recursos da sociedade. Nesta década, aconteceu em Jomtien, na Tailândia, a Conferência Mundial de Educação Para Todos de onde apontam garantias do acesso à sociedadeFigura 1: Direitos não garantidos aos portadores denecessidades especiais (Ferraz, s/d.). para todos os cidadãos. Em 1994, em Salamanca (Espanha), construíram aDeclaração que recomendava princípios, política e prática de reconhecimento e atenção àspessoas com necessidades educacionais especiais. No Brasil, promulga-se a Lei 9394/96 deDiretrizes e Bases Educação Nacional - LDB. O Brasil assume o compromisso político depromover a inclusão da pessoa com necessidades educacionais especiais; promover aconscientização dos cidadãos quanto a responsabilidade de cada um no processo deconstrução de uma sociedade inclusiva com a idéia de equidade: oportunidades diferenciadascom vistas à busca da igualdade e a implementação de ações afirmativas na construção deuma sociedade acolhedora para todos (Carvalho, 2002). A partir da Constituição Federal promulgada em 1988 “a educação é direito de todos edever do Estado e da família...”. No seu artigo 208, inciso III, prescreve o “atendimentoeducacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regularde ensino”. Uma garantia constitucional determinando o compromisso do Estado de oferecer
  17. 17. 17educação para todos e todas sem qualquer discriminação ou exclusão social e, a partir desteano, o acesso ao ensino fundamental para as crianças em idade escolar, normais oudiferenciados, passa a ser um direito público subjetivo; inalienável (Martins, 2006). Nãovamos nos deter na discussão sobre a terminologia utilizada para caracterizar os grupos atéentão segregados por não se tratar do nosso objeto de discussão, mas convém dizer que até aConstituição de 1988, usava-se o termo “portadores de deficiência” e corrigido com a LDB,Lei 9394/96, com a terminologia “educandos com necessidades educacionais especiais”(Carvalho, 2002; Martins, 2006).
  18. 18. 18III – INCLUSÃO OU INTEGRAÇÃO? Quero neste capítulo falar sobre o processo de inclusão apresentando a visão de algunspesquisadores sobre esse assunto estabelecendo uma reflexão com a pesquisa realizada emambas as escolas. Sobre a pesquisa, tanto a estimulada (por questionário) como a espontânea,vamos identificar as pessoas entrevistadas por letras que maiúsculas para preservar o sigiloprometido no momento da abordagem. Embora este assunto esteja presente nos grandes debates dos dias contemporâneos, aindahá uma ligeira confusão entre o que vem a ser integração e o que vem a ser inclusão. Denomina-se mainstreaming uma das opções de integração e se refere à integraçãotemporal, instrucional e social do diferente com as crianças “normais” de forma progressiva,que leva em conta as características individuais do indivíduo, e o aluno com necessidadeseducacionais especiais deve ter acesso à educação, e sua formação deve ser adaptada às suasnecessidades específicas (Mantoan, 1998). Sassaki (1997) definiu três formas de integração social: 1) pela inserção das pessoas com deficiência que conseguem utilizar os espaços físicos e sociais, programas e serviços, sem que seja necessária uma mudança das instituições sociais; 2) pela inserção dos portadores de deficiência que necessitam de adaptações para exercer atividades comuns como estudar, trabalhar, conviver com outros não deficientes etc.; 3) pela inserção de pessoas com deficiência em ambientes separados. O movimento integracionista surgiu para superar a fase da segregação. Na educação élevantada a bandeira para que o aluno e a aluna com necessidades educacionais especiaissejam integrados no sistema regular de ensino. Carneiro e Ramalho (2008) disseram que
  19. 19. 19 [...] a integração desses alunos na comunidade escolar ainda evidencia limitação, uma vez que a mesma ocorre não em turmas regulares, mas em salas especiais criadas dentro das instituições educacionais para atender essa demanda. Assim, mesmo com a integração, a falta de acesso a um atendimento educacional justo e igualitário para os estudantes que apresentam deficiência ainda continuou vigorando (p. 111). Ora, a integração levou portadores de necessidades especiais a vivenciar condições iguaisem desigual condição. Sim, porque dar à eles o direito de viver tal como os não portadoresde necessidades especiais, não significa garantir acesso aos bens e serviços. Em sua páginana internet, Bartalotti (s/d) diz: Integrar-se é um caminho de mão única: cabe à pessoa com deficiência modificar- se para poder dar conta das exigências da sociedade. É um processo de seleção, processo que atinge todas as pessoas, uma vez que vivemos em uma sociedade altamente competitiva; com as pessoas com deficiências, no entanto, o processo se faz mais perverso: não lhes é dada nem a oportunidade de competir, elas são excluídas por princípio, o princípio da incapacidade (Bartalotti, s/d). Ao contrário, o que se percebeu na integração foi que para usufruir dos direitos garantidos,os portadores de necessidades especiais eram muito dependentes dos não portadores denecessidades especiais. Os conceitos de autonomia e independência para que essesindivíduos possam tomar suas próprias decisões só aparece com a superação desseparadigma da integração e é o da inclusão o paradigma que apresenta uma ruptura com asvelhas atitudes para a adoção de atitudes inclusivas. Então temos como conceito de integração a inserção da pessoa com necessidade especialpreparada para conviver na sociedade o que difere substantivamente do conceito de inclusãoque institui a inserção de uma forma mais radical, completa e sistemática. Seeducacionalmente integrar um aluno era o mesmo que incluir um ou um grupo de alunos quejá foram anteriormente excluídos, o fundamental da inclusão é não deixar ninguém fora doensino regular desde o começo (Mantoan, 1998). Werneck, citado por Carneiro e Ramalho,(2008) diz que esse paradigma exige uma “transformação da escola... exige rupturas. Nosistema educacional da inclusão cabe à escola se adaptar às necessidades dos alunos e nãoaos alunos se adaptarem ao modelo da escola”. Não apenas isso, mas a “inclusão causa umamudança de perspectiva educacional, pois não se limita a ajudar somente os alunos queapresentam dificuldades na escola, mas apóia a todos: professores, alunos, pessoaladministrativo, para que obtenham sucesso na corrente educativa geral” (Mantoan, 1998).
  20. 20. 20 O que pensam as professoras das escolas municipais de Japeri e Nova Iguaçu a respeito dainclusão de portadores de necessidades educacionais especiais? De modo geral elas acreditam na inclusão como um processo de desenvolvimento daspessoas portadoras de necessidades educacionais especiais, mas fizeram duras criticas aomodo com é imposto a presença desses indivíduos em sala de aula concentrando aresponsabilidade desse desenvolvimento no professor sem que, para isso, lhes dêemcondições pedagógicas ideais. Um dos depoimentos que mais se destacou, a meu ver, foi o de uma das professoras, aoexpressar sua indignação, porque é o sentimento de muitas outras professoras do ensinoregular, especialmente público, quando falamos de incluir alunos com necessidadeseducacionais especiais. Em geral, ao ser entrevistado, o professor ou a professora tentamostrar que está praticando uma pedagogia envolvente, interacionista e se mostramfavoráveis à inclusão, mas em off dizem que para incluir há muito mais a ser feito que apenasgarantir a matrícula do aluno na escola regular. Igual pensamento pode ser constatado naobra de Mantoan (2003) ao dizer que “não há inclusão, quando a inserção de um aluno écondicionada à matricula em uma escola ou classe especial. Por isso o depoimento foimarcante e revela um pensamento comum entre professores e professoras. Disse aprofessora: Quando o pesquisador realiza um experimento, ele o faz com dedicação exclusiva, bom salário, muito recurso pedagógico, poucos alunos em seu experimento e é temporal, sem levar em consideração um longo período com o seu objeto de pesquisa. Quero ver o pesquisador aqui nesta sala de aula com quase 40 alunos, níveis cognitivos diferenciados, alunos que chegam sujos, sem os cuidados higiênicos básicos e que encontram uma escola onde até papel higiênico nos falta. Em períodos quentes, somos obrigadas a mandá-los para casa porque não temos água e o calor é insuportável. Se para estes não damos conta de uma pedagogia diferenciada por níveis de cada aluno ou grupos de alunos, imagine um portador de necessidades especiais em sala de aula!... (N, entrevista espontânea). Esta professora fez questão de me apresentar alguns de seus alunos. Deixou clara adiferença entre uma menina de 10 anos, já sabendo ler muito bem e desenvolvendo oaprendizado de modo satisfatório, e um menino de 12, retido no 3º ano com enormedificuldade de aprendizagem. Ela então me mostra que é difícil estabelecer uma pedagogiaque dê conta de dedicar-se ao menino sem deixar de lado as outras crianças insistindo naargumentação de que um indivíduo que exige uma atenção mais amiúde presente em sala de
  21. 21. 21aula só acarretaria mais preocupação sem que fosse garantido à ela as condições apropriadaspara recebê-lo enquanto aluno. MW, professora de uma turma do segundo ano, disse não conhecer a Síndrome deAsperger. Quando soube que era uma expressão branda do autismo exclamou: “Deus melivre ter um autista em sala de aula!”. Assim, do modo como escrevi, certamente muitosficarão indignados. Entretanto, quando insisti para saber o motivo ela revelou que não tinhaformação médica e, portanto, diante de uma crise do autista, ela não saberia como proceder,deixaria a sala de aula para solicitar a presença dos pais para cuidar da criança. Não creio sernecessário ter uma formação médica para tentar aplacar uma crise autística, mas odepoimento deixa claro que falta uma qualificação dos professores e professoras no sentidode atender alunos e alunas diferenciados, com necessidades educacionais especiais. Em suaautobiografia Robison (2008) explica que alguns fenômenos psíquicos simplesmenteacontecem, sem o controle do Asperger, como o de se balançar sistematicamente, porexemplo. Ele conta que junto com esses movimentos regulares, era também criticado ouridicularizado por demonstrar expressões pouco apropriadas. “Esses ataques pareciam vir donada, e me deixavam com vontade de fugir dali e me esconder” (Robison, 2008: p. 84), masele mesmo mostra-nos como uma medida simples poderia aplacar o incômodo revelando acausa. “Eu teria sido capaz de lhes dizer, se tivessem perguntado” (idem, p. 85). Assim, amedida não é médica nem de se afastar do aluno autista, mas de se aproximar e conversarcom ele procurando saber o motivo de sua inquietação. Na verdade, a compreensão que tive ao conversar com elas não é a de rejeição ao processode inclusão, mas à forma como está sendo conduzida, ou seja, coloca-se o portador denecessidades especiais em sala de aula e deixa tudo por conta do professor ou da professora.Se alguma coisa sair errado, a quem será atribuída a culpa? Então N., já formada e pós-graduando, diz que o problema não é teórico, já que as teorias estão atualizadas e modernas,próprias do século XXI. Acontece, porém, “que a instituição escola parou no século XX.Estamos falando de um processo que exige uma pedagogia moderna, com recursosigualmente modernos, mas que não está presente na escola.” N. me pergunta como podepromover inclusão quando ela mesma não está incluída. Diz que a escola não temcomputadores, não tem internet, não tem projetores, não tem sala de música, não tem sala depintura e a sala de recursos é limitadíssima; continua a mesma escola do início do século
  22. 22. 22XX, e ainda assim, querem professores e alunos criativos, inovadores, inclusivos. Ocomentário da professora é bastante coerente com Mantoan (2004) ao falar da inclusão paradeficientes mentais na escola regular sugerindo: “temos de propiciar ao aluno inseridoexperiências de controle dos processos cognitivos em um meio escolar adaptado às suasnecessidades (p. 37 – grifo meu)”. Ainda pesa o fato de receberem salário aviltante, nadacondizente com o que esperam da práxis pedagógica. Outra professora do 4º ano, a quem chamo de RC, depõe favoravelmente à inclusãodizendo que o convívio com as diferenças ajudam as duas partes: tanto aos portadores quantoaos não portadores de necessidades educacionais especiais. Para ela, entretanto, a eficáciadessa interação educativa estaria ligada à capacidade que o professor adquire para lidar comeles, o que não é possível quando elas precisam acumular matrículas para ter renda que lhesgarantam qualidade de vida. RC tem na classe para a qual leciona um aluno de 13 anosautista “Ele conversa, gosta das outras crianças, mas não consegue brincar com elas”. Diz. Pé um menino que tem características autísticas e o diagnosticaram como Asperger. Eleadotou uma rotina da qual a professora não participa. Dado um determinado momento daaula, ele simplesmente sai de sala e caminha pela escola. S, uma das professoras da escola,me diz que P normalmente vai à biblioteca e à cozinha onde consegue alguns biscoitos comas merendeiras e um copo de leite ou de suco. RC me diz que não se importa: “Acho que elefica entediado com a aula e sai”. Me pergunto neste momento se os outros alunos tambémnão estão entediados. Não seria hora de interromper a aula para uma atividade lúdica? Seráque a atitude de P de deixar a sala não sinaliza um momento de ruptura das tradições para ofazer uma nova pedagogia? Então pergunto a RC o que ela faz quando ele sai de sala. “Nada.Me diz ela – Ele sempre volta depois de algum tempo”. Este fato ilustra significativamente oabismo ainda existente entre a teoria e a prática. Elas, as professoras entrevistadas, não sãocontra a inclusão de alunos especiais e algumas já possuem na classe de alunos criançaautista. Por mais que o discurso venha carregado de preocupação com o aluno diferenciado,na prática a pedagogia aplicada é aquela tradicional. Isso implica dizer que o alunodiferenciado tem que se adaptar às modalidades instituídas pela escola. Ora, se é o portadorde necessidades educacionais especiais que tem de se adaptar às formas instituídas pelaescola, e a escola não se adapta ao aluno, isso é inclusão ou integração?
  23. 23. 23 N está certa em mostrar-se indignada pelo modo como está sendo feita a inclusão dealunos e alunas especiais? A escola enquanto instituição que recebe todos os alunos temcondições mínimas para receberem portadores de necessidades educacionais especiais?Como estudiosa do assunto, Mantoan (2003) afirma ser A inclusão é uma inovação que implica um esforço de modernização e de reestruturação das condições atuais da maioria das nossas escolas (especialmente as de nível básico), ao assumirem que as dificuldades de alguns alunos não são apenas deles, mas resultam, em grande parte, do modo como o ensino é ministrado [...] (p. 57). Na pesquisa estimulada (ver anexo 1), a pergunta d) do item 2, A escola está preparadapara receber alunos com dificuldades de aprendizagem ou com altas habilidades?, asprofessoras confessaram o despreparo da escola onde faltam recursos pedagógicos,adaptação do espaço escolar e atualização do corpo docente. N, RC e MW concordam que hámuito para mudar na escola pública. Elas e a escola não estão preparadas para receberemalunos surdos, cegos e doentes mentais. Eles até podem ser matriculados, mas elas nãosaberiam o que fazer. Do aluno P, Asperger, RC o trata como um aluno não Asperger e diz:“estou aprendendo como lidar com ele fazendo”. Em nossa conversa, ela ficou sabendo queautistas adotam rotinas que organizam suas vidas, como disse Wing (s/d), “respondemmelhor quando existe um regular e organizada rotina” e chegou a conclusão que poderiaevitar que P deixe a sala de aula e prometeu pesquisar sobre a matéria para ajudar melhor odesenvolvimento do aluno.
  24. 24. 24IV – A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O EDUCANDO COM ASPERGER Tenho um menino de 8 anos que pôs fogo no porão da casa. Quando viu a fumaça, saiu correndo, mas cruzou com o pai que lhe falou: “Muito bem, veja só o que você fez”. Passada a confusão, o menino perguntou -lhe se havia gostado do que tinha feito. O pai disse que não, pois ele poderia ter acabado com a casa. “Por que você falou muito bem, então?” (Schwartzman in Varella, 2005). Com a LDB (Lei 9394/96) as escolas regulares devem aceitar alunos com NecessidadesEducacionais Especiais (NEE). Nesta categoria incluímos os portadores da Síndrome deAsperger por serem autistas que apresentam características especiais como altíssimahabilidade naquilo que lhes interessam, mas carecem de acuidade para o entendimento decoisas simples e corriqueiras, assim como intervenção do professor/a auxiliando-os nasrelações interpessoais, onde se encontra o foco do problema para meninos e meninas com aSíndrome em idade de escolarização. Por serem indivíduos que apresentam um vocabulário rebuscado, interesse circunscrito,com extraordinária aptidão para compreenderem problemas complexos e altíssimacapacidade de concentração, mas com marcante deficiência no relacionamento social e nacapacidade de comunicação, comprometimento das habilidades motoras, dificuldade deentender as convenções socialmente aceitas e incapacidade de compreender as feiçõesalheias, assim como não conseguem sustentar o contato visual, torna-os indivíduos quemerecem atenção especializada por parte do educador/a para uma efetiva inclusão dessesindivíduos no sistema regular de ensino. O depoimento de Robison (2008) é definitivamente elucidativo dos prejuízos que se podecausar ao indivíduos com SA quando suas habilidades ou dificuldades são vistas e tratadascomo doença do retardo mental, esquizofrênico ou depressivos. Diz ele: “Sociopata” e “psicótico” eram dois dos mais comuns diagnósticos para meu comportamento [...] Passei a acreditar no que as pessoas diziam, porque eram tantos a falar a mesma coisa que devia ser verdade, e a compreensão de que eu era “defeituoso” realmente machucou. Tornei-me ainda mais tímido e introvertido, e comecei a ler sobre pessoas com desvio de personalidade... Será que eu cresceria como um assassino serial? Tinha lido que eles eram pessoas sorrateiras e não olhavam as pessoas nos olhos (Robison, 2008, p. 16).
  25. 25. 25 Em entrevista concedida ao Dr. Drauzio Varella, um dos maiores especialistas brasileirosno estudo de autismo define três aspectos fundamentais para o comportamento autista:primeiro, são indivíduos que ignoram a presença do outro como pessoa; segundo,apresentam muita dificuldade de comunicação e terceiro, são restritos e repetitivosafirmando que “o conceito de autismo é muito amplo. Costumo compará-lo com o dedeficiência mental, outro conjunto de sinais e sintomas presentes numa série imensa depessoas” (Schwartzman in Varella, 2005). Se ele como estudioso do assunto compara oautismo com deficiência mental, o que dizer dos pobres mortais que pouco ouvem e poucoconhecem da matéria? Sobre Asperger, Schwartzman afirma que são indivíduos muito inteligentes a ponto deserem “confundidos com gênios porque são imbatíveis nas áreas do conhecimento em que seespecializam [...], Entretanto, se lhe fizermos uma pergunta simples - Quantas pessoas vivemna sua casa? -, ele se comporta como se estivéssemos falando grego (in Varella, 2005).” Os estudos sobre a Síndrome de Asperger, o depoimento de Robison e os muitos outrosestudos acerca do autismo e sua relação com a educação, combinado com a preocupação deum processo inclusivo no sistema educacional apontam para um fazer pedagógico comprofunda preocupação com o ser humano e o seu desenvolvimento. Mas estariam nossosprofessores e professoras preparados para o enfrentamento do desafio de educar umAsperger? Eles conhecem esta Síndrome? E se conhecem, como seria a sua prática educativadiante de uma classe com 3 ou 4 dezenas de alunos e entre eles um Asperger? Quaiselementos devam ser observados para que seu fazer pedagógico atendam as necessidadeselementares dos indivíduos com SA? Buscando aplacar minha inquietação, ao longo do ano de 2009, e no primeiro semestre de2010, visitei duas escolas públicas da Baixada Fluminense para conversar com 9 professorasdas séries iniciais. Foram duas as formas de diálogo com os professores: a primeira, a qualchamei de estimulada, apresentei um questionário (anexo1) contendo nove perguntas sendocinco delas referentes ao conhecimento sobre inclusão e sobre a SA e quatro sobre a práticadocente; a segunda, deixei fluir o diálogo com cada professora de modo espontâneopermitindo a cada uma delas expressar suas expectativas, frustrações, medos, protestos eilações interrogativas que demandam novas investidas acadêmicas para respondê-las. Não as
  26. 26. 26interrompi, mas quando necessário redirecionava as conversações para o campo da inclusão,da Síndrome de Asperger e do fazer pedagógico de cada professora entrevistada. Antes deentrar no mérito das conversações com as professoras, permitam-me apresentar meuscampos de pesquisa e os sujeitos que contribuíram com este trabalho lembrando que aidentificação será feita por letras maiúsculas para preservar o sigilo prometido. IV.I – CONTEXTUALIZANDO O CAMPO DE PESQUISA IV.I.I – Campo 1 Este campo se refere a algumas observações que fiz na casa de J, 20 anos, indivíduos coma Síndrome de Asperger. Foram três visitas distintas. No primeiro dia eu conheci J e seuspais e sua irmã. Agendei entrevistas e conheci o espaço preferido de J. Na segunda visita euconversei com o Sr. JM e dona T, pai e mãe de J, para saber sobre a primeira infância e sobrecomo descobriram a síndrome do filho. Por fim, tentei um diálogo com J para algumasobservações subjetivas. J vive com os pais em Engenheiro Pedreira, distrito da cidade Japeri, na BaixadaFluminense. A casa é típica de uma família de trabalhadores pobres com dois quartos, sala,cozinha e uma grande varanda. Nos fundos do quintal há um quarto coberto com telha deamianto e uma varanda. É o preferido de J onde costuma dormir e “organizar sua bagunça”,como diz dona T. No quarto há uma televisão e um armário onde guarda sua roupa ealgumas revistas, alguns livros e jornal, muito jornal deixados “desorganizadamente”, pelomenos para nós, uma cama de solteiro e um ventilador. Dentro do quarto percebe-se cuidadocomo organização da roupa no armário e limpeza do ambiente e a cama arrumada comlençol e manta estendida sobre o colchão e um grande travesseiro. Na varanda é possívelperceber uma “organizada bagunça” com muitos objetos recolhidos em situação de descarte. O quarto nos fundos foi uma maneira encontrada para garantir que J pudesse acumularseus objetos sem comprometer a estética dentro de casa, mas JM garante que há completaliberdade para o filho dentro da casa.
  27. 27. 27 IV.I.II – Campo 2 A escola Marinete de Oliveira Cavalcante foi inaugurada em 31 de março de 1970 peloentão prefeito João Ruy de Queiroz Pinheiro (Arena) e Lucinda Oliveira nomeada diretorada Unidade Escolar. A atual diretora é Alda Moreira Aguiar, uma de nossas colaboradoras. O prédio onde a escola funcionou até 2008, cujo endereço é o oficialmente apresentadopara fins de documentação e correspondências, fica localizado à Rua Irene, número 77, emComendador Soares, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. No período em que realizei a pesquisa aunidade escolar funcionava num um galpão e num centro comunitário localizados à ruaRibeirão, sem número, no bairro Jardim Pernambuco, cidade Nova Iguaçu. No galpão, cincopequenas salas separadas por divisórias e com cobertura com telhas de amianto, o queproporciona uma sensação de extremo calor nos dias ensolarados. Não há ventiladores nassalas e a oferta de água potável e fresca é precária. Os alunos e alunas matriculados na unidade escolar são crianças da própria região. Amaioria filhos de pais que compõem o extrato social classe “D”. Um número significativo depais separados e que vivem com familiares como avô, avó, tios e tias, já que a mãe tem detrabalhar fora de casa para garantir o sustento familiar. Pelo relato das professoras, poucassão as crianças que se apresentam com aparência de cuidados de higiene, alimentação e desaúde. Maioria absoluta apresenta sinais da ausência de tais aspectos de cuidado. É possíveladmitir grande parte ser dependente fundamentalmente da alimentação que é oferecida pelaescola. A escola funciona em dois turnos distintos: manhã, de 7 horas e 30 minutos às 11 horas etrinta minutos, atendendo a 222 alunos divididos em oito turmas, e à tarde, de 13 às 17 horas,atendendo a 210 alunos divididos em 8 turmas. A equipe docente é composta por 20profissionais assim distribuídos: uma diretora, uma diretora adjunta, uma coordenadorapedagógica, uma orientadora pedagógica, uma orientadora educacional (de licença e prestesa se aposentar), uma secretária escolar, dois auxiliares administrativos (nesta função,constatamos a presença do único profissional do gênero masculino), onze professoras e umainspetora de disciplina. Para as atividades que resultam na merenda escolar e na limpeza do
  28. 28. 28espaço escolar, o serviço é terceirizado e conta com oito profissionais, sendo duasmerendeiras e duas auxiliares de merendeiras e quatro auxiliares de serviços gerais. As professoras têm ou estão cursando o nível superior. Não há na escola um programa deaperfeiçoamento, atualização ou de formação continuada, mas o poder público incentiva ocorpo docente do sistema público de educação a buscarem a formação superior. Das onzeprofessoras que se desdobram para cuidar de 16 turmas em dois turnos distintos, num totalde 432 alunos. IV.I.III – Campo 3 Japeri já foi considerada uma das cidades mais miseráveis do Brasil. Ali, no distrito deEngenheiro Pedreira, no bairro Alecrim, Rua Flack, sem número, está localizada a EscolaMunicipal Professora Célia Sobreiro, uma escola espaçosa, com rampas para cadeirantesalcançarem o segundo piso, câmeras de segurança, 18 salas de aula, biblioteca, um granderefeitório, com salas destinas à secretaria, direção e uma especialmente para professores euma quadra de esportes. A escola possui 1.077 (mil e setenta e sete) alunos distribuídos em dois turnos. O primeiroturno começa às 7 horas e termina às 11 horas com 560 alunos e o segundo turno começas às13 e termina às 17 horas com 320 alunos. Como recurso pedagógico a escola dispõe de Rádio, TV e vídeo que circulam pelas salasconforme a demanda. Só a secretaria possui computadores, mas não dispõem de internet. Abaixo elencamos o quadro de funcionários da escola: 1 Diretora – Cristina Aparecida da Silva 1 Diretora Adjunta – Kátia Pereira Vitório da Silva 1 Secretárias Escolar – Vânia Maia Gomes 2 Orientadoras Pedagógicas – Márcia e Adriana 12 Professores/as; 6 merendeiras; 2 vigias; 4 auxiliares do serviço de limpeza. 29 funcionários no total.
  29. 29. 29V – ASPERGER SÃO PORTADORES DE NECESSIDADES EDUCACIONAISESPECIAIS? Refletindo sobre os depoimentos das professoras, reconheço a complexidade do assunto,já que os indivíduos com a Síndrome de Asperger possuem capacidades que fogem à nossacompreensão. Ora, para os assuntos de seu interesse se tornam imbatíveis (Shwartzman, inVarella, 2005; Robison, 2008) e capazes de superar muitos que frequentaram universidadespor anos e anos como se estivessem aprendendo a empinar uma pipa. Entretanto, para outrosassuntos são completamente ignorantes, como nos casos narrado por Shwartzman (inVarella, 2005) em que um portador de SA não consegue abrir a mala do carro ou descascarum ovo, ou não consegue ver lógica no que está sendo tratado, como é possível perceberneste fragmento do depoimento pessoal de Robison (2008): Sou um cara muito lógico. Psicólogos dizem que é um traço dos portadores de Asperger. Isto pode levar a alguns problemas em situações sociais, porque uma conversa banal nem sempre se encaminha logicamente. No esforço para melhorar minhas habilidades interpessoais, tenho estudado programas de computador que engatam conversas com seres humanos. Os melhores programas seguem caminhos lógicos para chegar às respostas adequedas. Os resultados, porém, nem sempre soam naturais, e não acho que me comporto muito melhor do que as máquinas (Robison, 2008, p. 171). Um exemplo interessante sobre entendimento lógico ocorreu durante os eventos da Copado Mundo de Futebol, numa transmissão televisiva do Sportv, canais GLOBOSAT, quandoo repórter Marco Aurélio de Souza1 entrevistava um grupo de portugueses e estabeleceu oseguinte diálogo: - Você viu o jogo Portugal e Escócia? - Sim. Respondeu a entrevistada. - Cristiano Ronaldo jogou? - Não, não jogou. - E você sabe quanto foi o jogo? Neste momento a entrevistada fica algum tempo sem responder até que sentencia: - 20 Euros.1 Marco Aurélio de Souza respondeu email que confirma o diálogo apresentado. Veja nos anexos.
  30. 30. 30 Ora, para nós brasileiros, o contexto nos leva a responder o placar do jogo, mas para osportugueses o contexto é outro. Para saber sobre o placar, Marco Aurélio Souza deveriaperguntar pelo placar do jogo e não quanto foi o jogo. Asperger agiria como a portuguesadiante de uma pergunta assim ou ficaria sem responder por não entender o que significaquanto no enunciado. Portanto, Aspergers são indivíduos lógicos. Alguns procedimentos sociais não sãocompreendidos por eles e, em geral, aquilo que é normal para as outras crianças, para umAsperger não faz sentido. Essa dicotomia apresentada no entendimento das coisas triviaisentre aspergers e os outros indivíduos torna-se um problema de interação social. Estes, assimcomo os autistas clássicos, apresentam prejuízo qualitativo na interação social e nacomunicação, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interessescircunscritos e indiferença ou aversão à afeição ou contato físico, falta de contato visualdireto, de respostas faciais, de sorrisos sociais etc (Farias, Maranhão e Cunha, 2008). Se inclusão para Portadores de Necessidades Educacionais Especiais exige umaradicalização para ser completa e sistemática, as escolas devem se propor a adequar seussistemas educacionais às necessidades especiais da clientela de alunos, todos os alunos, nãose restringido somente aos alunos com deficiência. Isso significa dizer que uma educaçãoinclusiva pressupõe a educação para todos, não apenas quantitativa, mas tambémqualitativamente, garantindo aos alunos se apropriarem tanto dos conhecimentos disponíveisquanto das formas e das possibilidades de novas produções para uma inserção criativa nomundo (Alves, 2002). Aos professores e professoras cabe buscar conhecimentos necessáriospara adotar atitudes pedagógicas condizentes com as necessidades dos indivíduos com a SA. Retomando o diálogo com a pesquisa, agora com um menino de 11 anos, aluno do 4° anoe com a Síndrome, conversei com ele e com sua mãe ao mesmo tempo. Dizia-me dona L queD lhe causou espanto quando, com um ano e oito meses, identificou o número do caixa dosupermercado, apontando para o símbolo e dizendo “16”. Assustada dona L vai para outrocaixa e ele aponta para o número e o identifica “34”. Então dona L vai de caixa em caixaenquanto D vai identificando os números. Com 2 anos D aprendeu a ler palavras simples e,um ano depois, sabia ler tal como um adulto que freqüentou escolas por anos e anos.
  31. 31. 31 Mas dona L identificou em D algumas deficiências. “Ele não conseguia segurar o prato decomida e o copo de suco, um em cada mão. É muito desastrado, tem problemas decoordenação motora”. Disse-me. Pergunto ao D se tem problemas com os colegas na turma.Ele me responde que não e dona L complementa: “Aqui não. Mas na escola anterior, osmeninos diziam que ele tinha fugido da APAE (Associação de Pais e Amigos dosExcepcionais). Ele chegava em casa e me dizia que não queria ir para a escola por causadisso.” Este é um problema a ser mediado pelos professores. Quando se tem um Asperger naturma, me parece interessante que todos saibam o que é isto e que todos os meninos emeninas contribuam com a interação deste indivíduo na turma. Essa troca pode ser muitointeressante. Vejam: pergunto ao D se tem dificuldade em alguma disciplina. Ele responte:“em matemática”. E complementa: “Eu não consigo compreender algumas coisas”.Permitam-me interromper o diálogo para dizer que, também, neste caso, surge a necessidadeda mediação do professor. Tal como disse Mantoan (1988, p. 161) “um trabalho devanguarda e de inestimável valor para a educação em geral, [...] é o de especializar-se noaluno” e, tal como revelado por RC em sua entrevista, muita coisa se aprende fazendo com oaluno. A professora de D, a quem chamo de DLT me fez uma relato de como aprendeu alidar com o menino. Eu dou aula normalmente para a turma. Algumas coisas sou obrigada a me debruçar sobre ele, mas em geral, é um aluno como outro qualquer. O diferencial está no comportamento dele. Normalmente, quando toca o sinal de fim de aula, todos se levantam para irem embora. Ele permanece sentado. Ele só guarda o material na mochila quando eu peço. E só fecha a mochila quando eu peço. Se o cadarço do sapato desamarra, ainda não consegue amarrar e eu tenho que ajudar. Teve um dia que ele chegou na sala e eu ainda não tinha entrado. Vieram correndo me chamar porque o D começou a chorar compulsivamente (DLT, em entrevista). Este é um relato que corrobora com o que disse Wing (S/d), afirmando que Asperger “sãomuito infelizes quando está longe de lugares familiares”; e ainda com Attwood (2002) aodizer que “a sua lealdade é para com as regras”. Indivíduos com essa síndrome temdificuldade de se relacionar com seus pares e acabam por preferenciar a amizade de umadulto. E como são sujeitos que organizam uma rotina para um ajustamento de sua condiçãoàs condições reais do contexto em que vivem, me parece ser admissível que D veja em DLTum apoio condicional para estar em sala de aula. O relato da professora acaba por revelar anecessidade de atitudes pedagógicas especializadas para minimizar os impactos negativosem D. Safran (2001) diz que torna-se necessário “treinamento das habilidades sociais” paraindivíduos com SA. Estas apresentadas por DLT, nos mostra que é “preciso ensinar esses
  32. 32. 32indivíduos a fazerem determinadas coisas que presumiríamos serem capazes de aprendersozinhos” (Shwartzman, in Varella, 2005). Voltando ao menino, a mãe de D conta que o matriculou em uma escola de música paratreinar as habilidades motoras. Com dois meses de aula o menino já sabia ler qualquerpartitura e ele me conta que é possível perceber o som pelo signo representado na pauta, maslhe é impossível tocar qualquer instrumento. Não seria bom, não apenas para D, mas paratoda a classe de alunos, a professora realizar exercícios para a prática da coordenaçãomotora? Não seria este um momento em que D pudesse se sentir mais integrado à classe dealunos? O que dizer de realizar exercícios para amarrar sapatos, organizar livros e cadernos,limpar a mochila com toda a classe? Medidas simples com o objetivo claro de treinar D, masalcançando toda a turma. Ora, Attwood (2002) diz que as crianças com SA tem tendênciapolítica de controlar as atividades praticadas em grupo. D, por exemplo, conhece as capitaisdo mundo inteiro. De países e de Estados. Como explorar esse conhecimento de D numaatividade em grupo? Que tal pedir a D para orientar seus colegas como identificar num mapaos países e suas capitais? A mãe de D me conta que ele lê compulsivamente um dicionário.D compreende o sentido das palavras literalmente, por seu conceito. Fico imaginando umaroda de crianças escrevendo palavras para o entendimento do conceito delas e D ali,praticando com seus colegas. Então percebo que há fazeres em que a turma pode ajudar D, eoutros em que D ajuda seus colegas. Então ouço DLT em seu depoimento acerca de comoaprendeu a lidar com o aluno: Eu só tenho o Magistério (ensino médio). Quando o D chegou aqui, ele chorava muito. Eu ficava desesperada. Então mandei chamar a mãe e ela me explicou a condição dele. Só então eu fui entender que ele era um menino especial e que eu teria que dar uma atenção especial pra ele. Só que eu achava... eu pensava que D era retardado mental. No início não me interessei muito não. Só ficava preocupado com as outras crianças perturbando ele e as crises de choro que ele tinha. Mas depois eu fui aprendendo a lidar com ele. Fui descobrindo que ele aprende como os outros, mas que tinha algumas dificuldades, que só queria ficar perto de mim, e algumas coisinhas bobas você precisa ficar o tempo todo pedindo pra ele fazer, senão ele não faz. Mas você tem que ver a letra dele! Esse garoto me surpreende a cada dia (DLT, em entrevista). DLT revela também sua preocupação com indivíduos portadores de necessidadeseducacionais especiais em sala de aula. Para ela se a escola não mudar, a criança pode serintegrada, mas incluída não. A obrigatoriedade de cumprir um programa cheio de conteúdosimpede atividades extra-classe. “é pouco tempo e muitos alunos em sala de aula”. Ela foi
  33. 33. 33uma das que me respondeu ao questionário dizendo ser necessária a redução do número dealunos em classe para um fazer pedagógico diferenciado quando se tem um aluno como D naclasse. Vou falar um pouco de outro indivíduo com Asperger. J já não estuda mais. Tem 20 anos etambém não trabalha. Ele sorri quando o pai lhe pede que me fale do período escolar eresponde: “eu não sei o que falar”. “Fala da professora, pede JM, como ela era”. “ela não erabonita”, responde. J não fala muito, mas gosta de responder sobre endereços no Rio deJaneiro. Se lhe perguntam onde fica determinada rua, ele diz onde começa e onde termina.Mais ainda: diz como chegar lá. Sua leitura preferida é o caderno dos classificados dosjornais e um livro “GUIA REX”. Neste livro é possível pesquisar ruas do Rio de Janeiro ever a localização dela no mapa. JM me diz que ele é criativo. Fez de um ventilador velho umcortador de grama. Pergunto como fez e ele responde. “Fácil. Tira a hélice do ventilador ecoloca na ponta do eixo do motor um fio de aço de 30 centímetros. Quando o motor girar emalta velocidade, ele faz do fio de aço uma ferramenta de corte”. Peço para me mostrarquerendo fotografar o objeto, mas JM disse que teve que destruí-lo porque J “tava cortandoas árvores dos vizinhos”. J sorri. JM me conta que seu filho conserta aparelhos de rádio e de televisão “quando quer”.Conta, ainda, que J consertou o rádio de um amigo do trabalho, mas “depois não queriadevolver o rádio. Queria ficar com ele”. Esse é um comportamento típico da síndrome.Asperger se apegam facilmente aos objetos (Wing, s/d; Klin, 2006; Safran, 2002). Serianecessário trabalhar com objetos de propriedade de várias pessoas para que esses indivíduospercebam a propriedade alheia? Será que J foi educado para compreender determinadassituações sociais? Vejamos o que diz Wing sobre a educação para crianças com SA: Educação é de particular importância porque podem ajudar a desenvolver interesses e competências gerais o suficiente para permitir a independência na vida adulta. Professores/as tem que encontrar um compromisso entre, por um lado, deixando a criança siga seu próprio curso, e, por outro lado, insistindo em que ele se conformar com a condição. Eles também precisam garantir que ela não será provocada e intimidada pelo resto da classe. Não há nenhum tipo de escola que é particularmente apropriado para aqueles com síndrome de Asperger [...] (Wing, s/d).
  34. 34. 34 Ora, vejam que Wing mostra uma preocupação com o desenvolvimento de competênciasque serão necessárias para uma vida adulta e, pela complexidade do assunto, os professoresprecisam estar constantemente pesquisando acerca de um fazer pedagógico apropriado paralunos com necessidades educacionais especiais. É mais um compromisso pessoal doprofessor buscar essa especialização. E pela pesquisa estimulada, no item 3, letra d), eles semostram prontos para aprenderem um pouco mais em qualquer tempo e horário. N diz queas escolas precisam estar equipadas com internet, mas lamenta: até telefone é difícil. “Pelainternet podemos buscar algumas respostas que não encontramos no nosso meio”, diz ela.Ambas as escolas usam computadores, mas nenhuma delas tem internet disponível. Logo,percebo que o fazer pedagógico precisa ser feito com base numa rede de relacionamentos eum canal onde seja possível discutir os principais problemas na unidade com outras unidadesescolares. Este me parece ser um problema da educação. A escola e os educadores se fecham nelaquando deveria ser diferente. Em tempos de interatividade cibernética, educadores eeducadoras deveriam formar uma grande comunidade virtual para trocar idéias, saberes,indicações, conhecimentos etc. Na escola particular, onde o aluno é tratado como cliente,isso pode parecer despropositado, mas na escola pública deveria se tornar uma constante.Mas neste caso, é o poder público, através dos gestores, quem deve tomar a iniciativa, acomeçar por equipar as escolas com laboratórios de informática com acesso à internet. Aoprofessor/a deve ser garantida a oportunidade de estar em constante pesquisa, em constantedebate, em constante conversação para conhecer o desconhecido a fim de oportunizar seusalunos e alunas o acesso à este saber. Esse assunto me remete à pesquisa estimulada que fiz com as professoras. No item 3, letrac) (Figura 1), pergunto aos professores se a direção da escola promove cursos de atualizaçãopara o corpo docente, merendeiras e outros profissionais. Das 9 professoras entrevistadas 1(11,11%) afirmou que apenas para o corpo docente; o outro grupo ficou dividido entre sim eestimula que todos busquem atualizar o seu fazer profissional e que a Secretaria de Educaçãopromove cursos de atualização. Esta divisão pode ser estabelecida pelas cidades em que asescolas estão localizadas. Em Japeri, não há uma iniciativa do poder público, mas da direçãodas escolas que estimulam os professores a buscar uma atualização, embora nas escolas nãoexistam laboratórios de informática para ajudá-las nesse processo. Em Nova Iguaçu a
  35. 35. 35Secretaria de Educação promove os cursos de atualização, mas limitado a alguns professoresjá que não contempla a todos, segundo as professoras pesquisadas (Figura 1). Figura 1: Quadro da pesquisa estimulada item 3, letra c). Depoimentos que revelam parcialidade na atualização dos professores e professoras das escolas municipais em Nova Iguaçu. Garantir meios de pesquisa na escola é uma necessidade identificada na pergunta seguinteda pesquisa estimulada. Na letra d), do mesmo item, pergunto se as professoras gostariam decurso de atualização na sua escola. 5 (55,55%) dizem que sim, desde que seja dentro dohorário de trabalho. Essa resposta tem um pouco que ver com aquilo que já comenteianteriormente quando RC, uma professora pesquisada, me diz que para garantir um saláriomelhor são obrigadas a acumular matrículas, dar aulas em duas escolas eliminando aspossibilidades de tempo para cuidar da educação continuada. 4 (44,44%) me dizem quefariam cursos de atualização em qualquer tempo e horário. Quero destacar aqui que entre aspesquisadas, cinco delas não possuem graduação superior, enquanto que as outras trêsprofessoras fazem curso de pós graduação; uma tem curso superior e pretende fazer pósgraduação num momento futuro.
  36. 36. 36 O quadro da pesquisa estimulada sugere que há que garantir meios para constante pesquisanas escolas. E não vejo outra medida senão a de equipar as escolas com microcomputadorescom acesso à internet para que docentes e discentes se atualizem juntos. Talvez seja maisinteressante ensinar aos professores e professoras como fazer uma pesquisa virtual querealizar um curso com assunto específico. Ora, se vou às escolas para falar da Síndrome deAsperger, por exemplo, porque consideramos importante que elas saibam sobre a síndromepara saber como lidar com aluno ou aluna portadora de SA, falo apenas disso. Mas se aocontrário, falo da internet como ferramenta fonte de saber, ela pode, por meios próprios,conhecer sobre a síndrome e aprender com os muitos depoimentos de autistas, familiares eamigos, sobre como lidar com eles. Quero concluir esse capítulo afirmando que Asperger são portadores de necessidadeseducacionais especiais. A melhor maneira de lidar com um aluno ou aluna Asperger éconhecendo-o e fazendo-o conhecido pela classe. Precisamos instrumentalizar nossas escolaspara que os professores e professoras tenham condições mínimas de buscar conhecimento donovo; atualizar o que já está velho e, quem sabe?, apresentar sugestões que permitam ainclusão absoluta dos indivíduos com a Síndrome de Asperger. O que não podemos admitir éconviver com uma escola que é a mesma do início do século XX, como disse N, professoraentrevistada, e querer um fazer pedagógico próprio do século XXI com toda a suamodernidade. Os gestores públicos devem tomar para si a responsabilidade de trazer essaescola para os dias atuais. Além disso, é preciso conseguir mecanismos para garantir umsalário mais justo, compatível com o fazer pedagógico, e fazer do professor um profissionalespecializado no aluno, capaz de dar conta do aprendizado de TODOS os alunos e alunas nasua classe, sendo portador de necessidades educacionais especiais ou não.
  37. 37. 37VI – Considerações finais Indivíduos com a Síndrome de Asperger são especiais por sua característica singular. Sãoimbatíveis em assuntos de seu interesse, como já demonstramos, mas apresentam enormesdificuldades para lidar com coisas triviais, como vimos no depoimento de DLT que afirmouestar aprendendo a lidar com D no seu dia a dia. Coisas simples, que consideramos serpossível fazerem sozinhos, mas que Asperger não fazem. Nisto está a importânciapedagógica do professor atento. Precisamos treiná-los diariamente até adotarem os fazerescomo uma rotina a ser realizadas por eles. Se é verdade que adotam pedagogiasdiferenciadas e levam em consideração a capacidade de cada um de aprender, comodemonstrado na pesquisa estimulada, item 3, letra a), compreendo que agem corretamentepara a promoção da inclusão desses alunos especiais, mas é preciso garantir o aprendizadodeles sem se acomodarem na progressão continuada. E garantir o aprendizado dessesmeninos e meninas é especializar-se no alunado. Tornar rotineira sua atualização. Asperger não suportam mudanças abruptas. Toda mudança necessária para estesindivíduos precisa ser feita com a participação dele e deve ser lenta, mas contínua, até quetoda a mudança esteja concretizada. Dona T, mãe de J, já descobriu isso. Todas as vezes quetentou limpar o quarto de J, viu o filho manifestar uma crise deixando-a agoniada. Agora,quando precisa intervir, convida o filho para ajudá-la na limpeza e arrumação do quarto.Enquanto faz isso, vai lhe explicando porque é necessário tal fazer, e assim J vai aceitando atransformação do seu ambiente. Dona L, mãe de D, também descobriu isso junto com omenino. Quando lhe pede para alterar sua rotina, D reluta, resiste. Ela insiste e lhe explica arazão. Aos poucos D vai alterando seu comportamento e aceitando as mudanças ambientais. O filme “Loucos de Amor”, de Peter Næss, nos apresenta um pouco disto, como já citeianteriormente. Quando a menina Izzy limpa e organiza o quarto de Donald, ele se rebela emostra insatisfação com tal transformação sem o seu consentimento, a ponto de dizer paraSuzi: “você roubou a minha vida!”. Mudanças abruptas não são bem vistas por Asperger. Naescola, me parece ser interessante oferecer segurança para estes indivíduos estabelecendorotinas que lhes favoreçam a interação com os colegas e promovam o aprendizado. Issoimplica numa atitude pedagógica que exige do professor/professora especializar-se noalunado (Especializar-se no alunado, neste caso, não significa especializar-se em Asperger,
  38. 38. 38mas nas necessidades que se apresentam nos alunos e alunas de sua classe para dar cabo aoaprendizado). Mais interessante para professores e professoras, nos casos de alunos comAsperger, é buscar conhecer a síndrome em suas particularidades. Quanto mais se conhece,melhor adapta seu fazer pedagógico para estes indivíduos. Aproveita melhor suaespecialidade e adota medidas que simplificam suas vidas no cotidiano. Vimos que estes indivíduos são comumente vítimas de bulling. Em parte, isso aconteceporque eles são vistos como deficientes mentais. Demonstrei que esta agressão pode sereliminada, quando não, drasticamente diminuída, desde que a condição do indivíduo comAsperger seja do conhecimento de todos. Mostrar para os demais meninos e meninas que oindivíduo possui habilidades extraordinárias que pode servir para o aprendizado de todos etodas, mas ao mesmo tempo deixar claro que outras habilidades necessárias estão ausentes eque eles podem ajudá-lo a superá-las. Concluo este trabalho reafirmando não pretender dar por definitiva as conclusões aquiapresentadas, mas apresentá-las como ponto de partida para uma ampla discussão acerca dofazer educacional para alunos diferenciados, compreendendo-os como sujeitos capazes e quea presença deles em sala de aula nas classes regulares favorece o aprendizado tanto para osdiferenciados quanto para os demais meninos e meninas da classe.
  39. 39. 39 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASALVES, Cristina Nassif. Educação inclusiva no sistema regular de ensino – O caso domunicípio do Rio de Janeiro, 2002. Disponível em:http://www.cnotinfor.pt/inclusiva/pdf/Educacao_inclusiva_RJ_pt.pdf; acessado em 23 deoutubro de 2009.ATTWOOD, Tony. O Perfil de Competências Amizade em Síndrome de Asperger.disponível em http://www.tonyattwood.com.au/articles/pdfs/attwood2.pdfacessado em 17/10/09 às 14:07h [Este artigo foi publicado no Jornal Jenison Autismo, 2002Volume 14 Número 3].BARTALOTTI, Celina C. Terapia Ocupacional e Inclusão Social: disponível em:http://celinacb.tripod.com.br/toeinclusaosocial. Acessado em 13 de julho de 2010 às 12horas.CAMARGOS JR., Walter. Aspectos Médicos da Síndrome de Asperger. 2001. Disponívelem http://maoamigaong.trix.net/sindromeasperger.htm. Acessado em 22 de julho de 2009.CARNEIRO, Maria Aparecida B.; RAMALHO, Maria Noalda. A inclusão de Estudantescom Necessidades Educacionais Especiais na Universidade Estadual da Paraíba:Aspectos dessa experiência. Revista Teias, Rio de Janeiro, Ano 9, número 18,julho/dezembro 2008.CARVALHO, Rosita Edler. Nova LDB e a educação especial. 3ª. ed. Rio de Janeiro:WVA, 2002.FARIAS, Iara Maria de; MARANHÃO, Renata Veloso de A.; CUNHA, Ana Cristina B. da.Interação Professor-Aluno com Autismo no Contexto da Educação Inclusiva: Análisedo Padrão de Mediação do Professor com base na Teoria da Experiência de AprendizagemMediada (Mediated Learning Experience Theory). Revista Brasileira. Ed. Esp., Marília, Set.-Dez. 2008, v.14, n.3, p.365-384. Disponível emhttp://www.scielo.br/pdf/rbee/v14n3/v14n3a04.pdf, acessado em 23 de outubro de 2009.FERRAZ, Ricardo. Cartoon. Disponível em:http://celinacb.br.tripod.com/toeinclusaosocial/id2.html. Acessado em 26 de agosto de 2010.GODOY, Hermínia Prado. Síndrome de Asperger: Revisão Bibliográfica. São Paulo:Mackenzie, 1998. Disponível em:http://www.centrodedifusao.com/monog_sindasperger.pdf: acessado em 16 de setembro de2009 às 22 h.KLIN, Ami. Autismo e Síndrome de Asperger: uma visão geral. Revista Brasileira dePsiquiatria. Número 28. Suplemento I – S311, 2006. Disponível na internet em:http://www.scielo.br/pdf/rbp/v28s1/a02v28s1.pdf. Acessado em 06/9/09 às 20h. 42 m.MARTINS, Vicente. Quem Necessita de Educação Especial. Revista Construir Notícias.No. 27: ano 5 – Março/Abril de 2006.
  40. 40. 40MANTOAN, Maria Tereza Eglér. Educação escolar de deficientes mentais: Problemaspara a pesquisa e o desenvolvimento. 1998. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-32621998000300009. Acessado em 1 de setembro de 2009às14h, 44 m.__________. Inclusão Escolar. O que é? Por que? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003– (Coleção Cotidiano Escolar).__________. Ser ou Estar, eis a questão: explicando o déficit intelectual. Rio de Janeiro:WVA, 2004.ROBISON, John Elder. Olhe nos meus olhos: minha vida com a Síndrome de Asperger.Tradução de Júlio de Andrade Filho e Clene Salles. São Paulo : Larousse do Brasil, 2008.SAFRAN, Stephen P. Asperger Syndrome: The Emerging Challenge to Special Education.2001. Disponível em:http://findarticles.com/p/articles/mi_hb3130/is_2_67/ai_n28821545/pg_11/?tag=content;coll;tradução Rildo Ferreira, com Google translation. Acessado em 28 de abril de 2010, às 14 h.53 m.SANTOS, Júlio César Furtado dos. O Papel do Professor na Promoção da AprendizagemSignificativa. Disponível em:http://www.pedagogia.com.br/artigos/aprendizagemsig/index.php?pagina=0: 2008.Acessado em 28 de abril de 2010, às 15 h. 20 m.SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. 2ª. ed., Rio deJaneiro WVA, 1997.SOUZA, Marco Aurélio. Entrevista ao vivo para o Sportv.VARELLA, Drauzio. Autismo. Entrevista concedida por José Salomão Schwartzman.Disponível em: www.drauziovarella.com.br/entrevista/autismo.asp. Acessado em 19 defevereiro de 2009WING, Lorna. Asperger syndrome: a clinical account. Disponível emhttp://www.mugsy.org/wing2.htm; tradução Rildo Ferreira, com Google translation. s/d.
  41. 41. 41Anexos
  42. 42. 42Anexo 1 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ FACULDADE DE PEDAGOGIA QUESTIONÁRIO DE PESQUISA EDUCACIONAL1– IdentificaçãoEscolaEndereço da EscolaNome do Entrevistado Facultativo : Não é necessário se identificarDocente da (s) série (s)Tempo de Magistério2– Conhecimentos do assunto específicoa) O quanto você (0) Absolutamente nada . conhece de (1) Pouco. Autismo: (1) Razoável, mas não posso ajudá-lo quando necessário. (7) Suficiente para compreendê-lo e posso ajudá-lo em determinadas condições. (0) Bastante para compreendê-lo e ajudá-lo em qualquer situação..b) Tem ou já teve (1) Não contato com uma (8) Sim Defina o grau do relacionamento pessoa autista? (0) Não sei.c) Como você (0) Como um problema. Não estou preparado/a para essa encara a situação. possibilidade de (3) Preocupado/a. Nem eu, nem a escola estamos preparados ter um (a) aluno para receber alunos autistas em sala de aula. (a) autista em sala (0) Sem problemas, mas seria tratado como qualquer outro de aula? aluno. (4) Normal. Tentaria dar atenção especial à ele. (2) Com naturalidade. Estou preparado/a pedagogicamente para lidar com alunos de necessidades educacionais especiais..d) A escola está (0) Não sei. Ainda não avaliei essa possibilidade. preparada para (8) Não. Faltam recursos pedagógicos, adaptação do espaço receber alunos escolar e atualização do corpo docente. com dificuldades (1) Sim, mas precisa reduzir o número de alunos em sala de de aprendizagem aula. ou com altas (0) Sim, Falta apenas uma valorização salarial para o docente. habilidades? (0) Absolutamente preparada, tanto o espaço escolar como o corpo docente..
  43. 43. 43e) Você sabe o que é (5) Não Síndrome de (4) Sim Defina: Asperger?3 – Sobre a prática docentea) O seu fazer (0) Não. Tenho um programa e um conteúdo a seguir. pedagógico leva (1) Não. O número de alunos em sala de aula e os vários níveis em consideração não me permitem praticar diferentes pedagogias . as diferenças (1) Sim, mas adoto um conteúdo único para todos por conta do cognitivas dos tempo e das condições de trabalho. alunos? (3) Sim, mas mesclo uma pedagogia diferenciada para os que apresentam dificuldades no aprendizado com uma pedagogia comum para todos os alunos. (4) Sim, adoto pedagogias diferenciadas e levo em consideração a capacidade de cada um aprender. Os que apresentam facilidade exijo um pouco mais; os que têm dificuldades procuro respeitar sua capacidade cognitiva..b) Como você (0) Sou professor/a há muitos anos e adoto uma pedagogia atualiza a sua própria - 0 pedagogia e com (2) Participo de cursos de atualização promovidos pela escola. que frequência? (1) Faço pesquisas pessoais e leio publicações científicas e afins semanalmente. (3) Pesquiso, Leio novas publicações, participo de cursos de atualização de seminários etc. regularmente. (3) Faço curso de graduação ou de pós-graduação, de especialização, mestrado ou doutorado..c) A direção da (0) Não escola promove (0) Não, mas já manifestou interesse em realizar um evento e cursos de estimula a todos para buscar melhorar o seu fazer profissional atualização para o (1) Sim, apenas para o corpo docente. corpo docente, (4) Sim e estimula que todos busquem atualizar o seu fazer merendeiras e profissional. outros (4) Outro: defina. profissionais?.d) Você gostaria de (0) Não. um curso de (0) Já temos curso de atualização. atualização na (0) Não é necessário. Quando precisar procuro um curso sua escola? apropriado. (5) Sim, desde que seja dentro do horário de trabalho. (4) Sim, em qualquer tempo e horário.Professor, professora agradeço sua colaboração garantindo que sua resposta não seráidentificada, salvo quando permitido. Muito obrigado.
  44. 44. 44Anexo 2Imagem capturada do computador por Prt Sc.Conteúdo do email recebido do jornalista Marco Aurélio de Souza:Olá Rildo,seu relato é fiel. A conversa com torcedoras portuguesas aconteceu no Mandela Square, emJoanesburgo, antes do início da Copa. Eu estava participando do programa Tá na Área, ao vivo, noSportv. Não sei se isto ainda é possível, mas gostaria que você colocasse no texto que eu alertei a"confusão" que a minha pergunta causou. Citei que os portugueses tem uma lógica diferente danossa nos diálogos. Lembro muito bem da cena, da minha pausa e desta minha explicação.Boa sorte no seu trabalho e obrigado pela citação e pela audiência.abraço,Marco
  45. 45. Anexo 3 Fotonovela adaptada do Filme por Rildo Ferreira Radha Mitchell [Isabelle (Izzy) Sorenson] Josh Hartnett (Donald Morton) Olá! Oi. Que criaturas lindas!
  46. 46. Título Original: Mozart and the Whal Muito bem. Vamos dar um jeito nisso. Faz uma ampla faxina lavando ochão, organizando os jornais sem eliminá-los e limpa a cozinha... Só por hoje, nada de cocô crianças.
  47. 47. E Donald?ARRRG!!! Indivíduos com a Síndrome de Asperger possuem comportamento ritualístico. Criam rotinas que lhes ajudam nas tarefas diárias. Ao fim do dia Izzy está exausta Que nojo! e resolve dormir para descansar. Conceitualmente Izzy fez algo importante para impressionar Donald. Isso vai para o lixo. 3
  48. 48. Tudo limpo... Oh, não! Não!Minha cortina!...
  49. 49. Izzy! Izzy! Onde está você? Izzy!... Donald?! Oi! Estou aqui. O que é? Onde estão minhas coisas Izzy? O que você fez? Onde estão as minhas coisas?... Calma! Está tudo aí só que arrumadas. E a cortina do Box? Onde está minha cortina?Eu a joguei fora. Estava muito suja. Você não tinha esse direito Izzy. Eram as minhas coisas. Você roubou a minha vida!

×