Indicadores e políticas públicas de adaptação àsmudanças climáticas: vulnerabilidade, população eurbanização1RESUMOIndicad...
URBANIZAÇÃO E MUDANÇAS                                        mitigação nas cidades, encarados como           que grupos d...
o fator limitante para o desenvolvimento                       as projeções de população para o Brasil são             No ...
políticas públicas, tornando-se mais                           ambiental de uma região. Mas os dados de         e outras s...
serviços, ou faz compras) trará impactos                       populacional parece ser tão óbvia quanto                De ...
está para acontecer, como é o caso dos                         demandas dessa população. No caso              seja, sempre...
Mas esta situação pode ser muito diferente                             Essa proposta tem o mérito de            desenvolvi...
já abriu dois editais de projetos temáticos,                   construídos.                                     Piracicaba...
população, vulnerabilidade e segregação.                       J. Vulnerabilities and risks in population and   (Mestrado ...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Indicadores e políticas públicas de adaptação às mudanças climáticas: vulnerabilidade, população e urbanização

400 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
400
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
6
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Indicadores e políticas públicas de adaptação às mudanças climáticas: vulnerabilidade, população e urbanização

  1. 1. Indicadores e políticas públicas de adaptação àsmudanças climáticas: vulnerabilidade, população eurbanização1RESUMOIndicadores de adaptação e vulnerabilidade são uma demanda de gestores públicos para identificaráreas e populações vulneráveis no contexto da mudança climática. No entanto, para serem efetivos,tais índices e indicadores precisam incorporar as várias escalas de produção e distribuição de riscos,bem como as heterogeneidades inerentes à dinâmica demográfica e à distribuição espacial. Dotaros indicadores de maior capacidade de desagregação é necessário não apenas para realizar o down-scale na análise, mas também para perceber relações não evidentes em todas as escalas. Isso Ricardo Ojimapossibilita identificar com maior aderência grupos e lugares mais expostos a riscos e sua capacidade Sociólogo e Demógrafo, Núcleo de Estudosde resposta, potencializando a eficiência e alcance das políticas públicas. de População, Universidade Estadual de Campinas (Nepo/Unicamp).PALAVRAS-CHAVE: Riscos Urbanos, Dinâmica Demográfica, Medidas de Vulnerabilidade, Indicadores E-mail: ricardo.ojima@gmail.comde Sustentabilidade.ABSTRACT Eduardo Marandola Jr.Adaptation and vulnerability indexes are a necessity for policymakers to identify vulnerable areas Geógrafo, Núcleo de Estudos de População,and populations in the context of climate change. But to be effective they must aggregate the scales Universidade Estadual de Campinas (Nepo/of production and risk distributions, as well as the demographic dynamic and spatial distribution Unicamp).intrinsic heterogeneity. Assign these indexes for better disaggregation capacity is necessary not onlyto down-scale analysis, but even more to understand relationships not evident in all scales. This canenable a better cohesion to identify risky groups and places to their response capacity, potentiatingthe efficiency and the range of public policies.KEYWORDS: Urban Risks, Demographic Dynamic, Vulnerability Measures, Sustainability Indexes.1 Este texto foi desenvolvido no âmbito do projeto: "Urban growth, vulnerability and adaptation: Social and ecological dimensions of climate change onthe Coast of São Paulo"; Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais - PFPMCG; Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo(FAPESP, processo no 08/58159-7); da Rede Brasileira de Pesquisa em Mudanças Climáticas (RedeCLIMA), sub-rede "Cidades e Mudança Climática"(CNPq/MCT/FINEP/FAPESP); e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC), sub-projeto Urbanização e Megacidades(CNPq/MCT/FINEP/FAPESP).Revista Brasileira de Ciências Ambientais - Número 18 - Dezembro/2010 16 ISSN Impresso 1808-4524 / ISSN Eletrônico: 2176-9478
  2. 2. URBANIZAÇÃO E MUDANÇAS mitigação nas cidades, encarados como que grupos demográficos podem ter,CLIMÁTICAS ações emergenciais para diminuir os diferente de outros. Sem este conhecimento impactos das mudanças climáticas. interno da geografia e demografia da cidade, (MARTINE; McGRANAHAN; MONTGOMERY; políticas muito bem estruturadas podem Na discussão contemporânea sobre FERNÁNDEZ-CASTILLA, 2008; BICKNELL; tornar-se completamente ineficazes ouos impactos das mudanças climáticas, seus DODMAN; SATTERTHWAITE, 2009). simplesmente não surtir nenhum efeito. Porriscos e perigos, as cidades possuem um Devido à urgência de lidar com um outro lado, os lugares e as pessoas possuempapel central. Não apenas pela concentração problema que é global e que, dizem os recursos que lançam mão para enfrentarda população que, desde 2008, já é de mais cientistas do clima, já não possui reversão, riscos, e por isso considerar suade 50% da população mundial vivendo em difundiu-se nos últimos anos uma agenda de vulnerabilidade envolve também consideraráreas urbanas, e na América Latina e em necessidades de ações na direção da suas potencialidades, as quais ajudam aoutras regiões é superior a 80% (UNFPA, mitigação e da adaptação dos países e desenhar e direcionar políticas (HOGAN;2007), mas, sobretudo, pela intensidade e cidades. Esta agenda, muito unilateral em MARANDOLA JR., 2005; MARANDOLA JR.,concretude material que perigos ambientais sua concepção, uma vez que é oriunda dos 2009).urbanos possuem nestes ambientes. países desenvolvidos e de seu padrão de A composição dos indicadoresInundações, deslizamentos, inversão produção e consumo,, é também uma ambientais e de sustentabilidade não apenastérmica, ilhas de calor, ondas de frio e de oportunidade de dinamizar a ainda desconsideram tais heterogeneidades comocalor, eventos hidrometeorológicos pendente agenda ambiental que, no caso não estão, em geral, nas escalas adequadasextremos de várias naturezas possuem brasileiro e de grande parte dos países da de análise. As unidades de análise em queintensidade e potencial de dano multiplicado América Latina, ainda está incompleta os indicadores estão dificilmente coincidemnas áreas urbanas, repercutindo na forma de (MARANDOLA JR., 2009). com unidades espaciais coerentes, sejaperdas materiais e humanas significativas, Essa nova agenda, no entanto, não demograficamente, geograficamente,mesmo com eventos de baixa magnitude pode ser simplesmente aceita, mas precisa socialmente e até mesmo politicamente - o(NUNES, 2009). ser filtrada em proveito das necessidades das que surpreende. Além disso, os processos Em vista disso, a intensificação dos cidades e de seus habitantes. Um exemplo transescalares não podem ser analisados emextremos climáticos e do ritmo da mudança claro disso é a ênfase que se dá à mitigação tais indicadores, já que estes não possuemambiental é um componente a mais na em detrimento de um investimento maior capacidade de agregação e desagregaçãoequação desequilibrada entre os espaços em adaptação (OJIMA, 2009). As primeiras razoável. Em vista disso, é preciso pensar asconstruídos urbanos e o ajuste ao ambiente. são paleativos que não revêem o modelo de possibilidades de construção de indicadoresO que queremos dizer é que as produção e gestão do espaço urbano, uma com capacidade de produzir diferentesconseqüências que colhemos atualmente necessidade premente não apenas para agregações e desagregações adequadas ànão são apenas resultado da diagnosticada enfrentar as mudanças climáticas, mas, discussão e análise de diferentes fenômenosmudança climática em curso no planeta; esta sobretudo, para ter cidades sustentáveis a e processos.potencializa o déficit que acumulamos por longo prazo, que sejam concebidas a partir Portanto, este artigo procura discutiranos de produção de um espaço urbano que de um paradigma de adaptação e ajuste ao estes dois pontos em busca de caminho paranão leva em conta fatores ambientais em sua ambiente. a construção de indicadores deconstrução, gestão e planejamento (HOGAN, As dificuldades para tal sustentabilidade que ajudem a mensurar a2009). empreendimento são muitas. Entre elas, (1) vulnerabilidade e a adaptação, em busca de Estamos falando de uma agenda a grande heterogeneidade espacial e indicadores desagregados. Estes sãoantiga da política urbana que tem sido populacional das cidades e (2) a falta de fundamentais para o delineamento de açõessistematicamente ignorada, mesmo com os indicadores de sustentabilidade adequados e o planejamento de políticas dejá mais de 40 anos de militância que são fundamentais para que políticas enfrentamento às mudanças climáticas nasambientalista: planos de macrodrenagem públicas efetivas sejam pensadas, cidades.urbana, consideração do microclima urbano,circulação de vento, conforto térmico, implementadas e avaliadas.arborização, preservação de fundos de vale A heterogeneidade espacial e INDICADORES DEe mananciais hídricos, saneamento básico, populacional é raramente reconhecida na SUSTENTABILIDADE E AStratamento de esgoto, tratamento eficiente formulação de políticas urbanas. A VARIÁVEIS DEMOGRÁFICASde resíduos, energias limpas, e controle da diversidade de lugares e da composição dapoluição (atmosférica, do solo e da água) população - em termos de sua estrutura Quando se pensa na relação entre(HARDOY; MITLIN; SATTERTHWAITE, 2001). interna, metabolismo demográfico, urbanização e população, os principaisEsta agenda, juntamente com a questão do etnicidade, estruturas familiares, etc. - indicadores de sustentabilidade nãouso do solo, a pobreza e a segregação urbana interferem diretamente na forma como raramente esbarram em uma premissasão justamente as ações principais, ou ações públicas terão êxito, ou não, bem neomalthusiana. A percepção de que osetores, que estão no foco das ações de como nas próprias necessidades específicas crescimento da população é, por princípio,Revista Brasileira de Ciências Ambientais - Número 18 - Dezembro/2010 17 ISSN Impresso 1808-4524 / ISSN Eletrônico: 2176-9478
  3. 3. o fator limitante para o desenvolvimento as projeções de população para o Brasil são No mesmo período, indicadoressustentável ainda hoje é um consenso de que, em meados de 2030, a taxa de sintéticos passam a ser uma ferramenta cadadentro dos mais diversos âmbitos da crescimento populacional do país passe a ser vez mais utilizada para mensurar qualidadesociedade, inclusive no meio acadêmico negativa. de vida e, em grande medida, balizar(HOGAN, MARANDOLA JR., OJIMA, 2010). Importa, portanto, que os políticas públicas. É verdade que essa novaAssim, o resgate da famosa relação entre indicadores demográficos sejam forma de abordar as políticas públicascrescimento demográfico e capacidade de decompostos e que considerem os avança consideravelmente se forprodução de alimentos, proposta por componentes da dinâmica demográfica, considerado o ganho científico que foi dadoMalthus no século 18, ainda hoje é usado especialmente aqueles que estariam mais a partir dos anos 1960 na construção decomo justificativa para os dilemas diretamente vinculados aos aspectos indicadores sociais. Até então, medidasambientais. O que essa abordagem ambientais; ironicamente, os seus outros diretas como o Produto Interno Bruto (PIB),conservadora deixa de lado é o conjunto de dois componentes: mortalidade e ou outro indicador de renda, era um dosindicadores e de variáveis demográficas que mobilidade espacial. Mas as questões principais indicadores para comparar paísesa perspectiva populacional pode oferecer políticas ambientais emergem no Brasil distintos em termos de desenvolvimentopara o entendimento mais amplo dos limites quase que simultaneamente com o processo econômico e, muitas vezes, social. Ae desafios para a relação população- de descentralização política que, em grande mortalidade infantil, a taxa deambiente-desenvolvimento. medida, estava relacionado com a analfabetismo, a taxa de desemprego, entre O crescimento populacional em áreas democratização do processo decisório e das outros, eram medidas que, isoladamente,urbanas, especialmente no Brasil e na mudanças no pacto federativo. E os desafios buscavam mensurar as condições de vida daAmérica Latina, apresentou características para se pensar em indicadores demográficos população (JANUZZI, 2001).particulares e o foco dos problemas se desagregados na escala das políticas Mais recentemente, no final dotornou quase que óbvio: quais seriam os públicas são inúmeros. Um deles é que na século 20, indicadores sociais sintéticos,limites ao crescimento populacional para a década de 1980, com a transferência de como o Índice de Desenvolvimento Humanosustentabilidade urbana? Em verdade, essa autonomia, parte das decisões políticas (IDH), passam a assumir um destaque noobviedade esconde heterogeneidades e passaram a fazer parte da agenda direta dos contexto das políticas governamentais.obscurece a capacidade de se pensar em municípios. Entre elas, os dilemas Indicadores sintéticos como este agregampráticas políticas mais eficazes, pois ambientais. Assim, nesse contexto, uma mais de uma dimensão do desenvolvimentosimplifica relações muito mais complexas de divergência técnico-metodológica parece social e econômico, buscando dar conta daserem analisadas e limitam o potencial surgir. A escala da gestão intra-municipal multidimensionalidade das condiçõesanalítico de indicadores espaciais e ganha importância com a transferência de sociais e, especialmente, da pobreza.demográficos para se pensar em políticas autonomia e poder decisório para o Combinando informações de saúde,urbanas alinhadas com os dilemas e desafios município; mas, por outro lado, os educação e renda, o IDH se tornou um dosambientais postos e que agora assumem indicadores e modelos de gestão ainda se indicadores sintéticos mais amplamentenova roupagem face ao agravamento desses encontram centralizados (OJIMA, 2003). reconhecidos tanto no âmbito das políticascenários advindos de mudanças no clima Quando o debate ambiental assume públicas como no debate social.esperados para o futuro não muito distante. mais relevância no cenário político Mas indicadores sintéticos como o Assim, os indicadores demográficos brasileiro, sobretudo após a Conferência de IDH são medidas que ainda simplificam avão muito além das taxas de crescimento Estocolmo, em 1972, apontavam-se as realidade complexa dos eventos sociais.populacional ou da variação do estoque elevadas taxas de crescimento populacional Avança na medida em que substituem apopulacional em determinadas regiões, pois dos países em desenvolvimento, o utilização fragmentada de indicadoresconsistiria em pensar nos demais crescimento da população vivendo em sociais separadamente, ou seja, agregam emcomponentes da dinâmica demográfica: megacidades, os desafios para o controle da uma única medida um conjunto denatalidade, mortalidade e mobilidade. poluição atmosférica, a necessidade de informações de forma a permitir aQuando o foco se concentra nessa proteção das áreas de florestas mensuração e comparação de realidadesabordagem neomalthusiana, a ênfase fica (especialmente as florestas tropicais), entre distinta ao invés de trabalhar comapenas no componente dos nascimentos, outros, como os principais desafios para a indicadores de saúde, educação, renda, etc,resgatando potencialmente considerações sustentabilidade a serem enfrentados ao separadamente. Entretanto, servem paraeugenistas de controle de natalidade, longo dos próximos anos. Indicadores uma análise em escalas mais abrangentessobretudo, pela população de mais baixa agregados nessas escalas serviram e servem (como países) onde, sobretudo, há umarenda. A verdade é que, mesmo em países aos propósitos de ter uma compreensão grande dificuldade de se obter dados maiscomo o Brasil, a média de filhos por mulher abrangente da questão ambiental, mas são refinados para fins de comparações(Taxa de Fecundidade Total, TFT) já está em muito limitados para entender os limites internacionais. Em termos de políticasníveis muito baixos; abaixo, inclusive, das ecossistêmicos, pois estes são intermediados efetivas, indicadores sintéticos nessa escala,taxas de reposição da população. Com isso, por muitas outras variáveis (HOGAN, 1996). pouco contribuem para construção deRevista Brasileira de Ciências Ambientais - Número 18 - Dezembro/2010 18 ISSN Impresso 1808-4524 / ISSN Eletrônico: 2176-9478
  4. 4. políticas públicas, tornando-se mais ambiental de uma região. Mas os dados de e outras substâncias tóxicas. Da mesmainstrumentos de avaliação indireta a mortalidade, especialmente a de menores forma, a população economicamente ativa,posteriori. de um ano de idade, são pouco sensíveis a está exposta a doenças cardíacas, No que se refere aos indicadores de desagregações maiores e fazem sentido neoplasias, fadiga e stress, relacionados aossustentabilidade, essa dificuldade é maior apenas para grandes áreas, onde há um processos produtivos e ao ambiente deainda, dado que o próprio conceito de contingente populacional maior. De certa trabalho (HOGAN, 2004).sustentabilidade pode variar muito e as forma, a utilização desse indicador permite Mas como já mencionado, amedidas do que ela representa em cada ter uma primeira aproximação muito utilização destes indicadores depende docontexto são, na maioria das vezes, indiretas. adequada das condições gerais de vida de nível de agregação disponível e suficienteOs indicadores demográficos podem uma população, mas não permitem focalizar para que possam ser analisados. Assim, secontribuir em muito nesse aspecto, desde com detalhe as políticas públicas em escalas por um lado pode-se utilizar estesque superem a limitação da abordagem que façam sentido para o grupo indicadores sociodemográficos deneomalthusiana. Pois o potencial de análise populacional a ser atendido. sustentabilidade para comparar países ouderivado de análises sociodemográficas Entretanto, quando se pensa em uma unidades da federação e ter-se um ganhopode incorporar as dimensões e escalas que escala de políticas públicas municipais, o uso relativo ao detalhe dos tipos defazem sentido para as políticas públicas. da mortalidade infantil apresenta enfermidades que podem estar relacionadas Assim, como apontado por Hogan dificuldades metodológicas para sua a fatores ambientais; por outro, numa escala(1996, p. 163), "a capacidade de carga de utilização. Em escalas espaciais pequenas, municipal ou intramunicipal, aindaum país não é igual à capacidade de carga onde o contingente populacional é pequeno carecemos do detalhamento de taisdos seus componentes". Ou seja, para se e as taxas de natalidade baixas, a indicadores. E se pretende-se trabalhar comatingir a sustentabilidade, os ecossistemas mortalidade infantil torna-se um evento raro políticas públicas específicas parae a sociedade devem dar conta das suas e variações nesse indicador podem estar determinados grupos de idade dadistintas "vocações". O que significa dizer sujeitas a variações aleatórias muito população, essa dificuldade se torna maiorque os limites a serem considerados devem, grandes. Da mesma forma, outros ainda.Além dos fatores de mortalidade esobretudo, levar em conta a definição social indicadores de saúde relacionados aos morbidade da população, a mobilidade eou a noção de aceitabilidade dos riscos fatores ambientais como internações distribuição da população no espaço podeenvolvidos nos processos sociais (DOUGLAS, hospitalares e registros de causas de óbitos servir como uma medida importante para1985) e essas definições podem assumir causados por doenças do sistema se pensar a sustentabilidade urbana.distintas facetas dependendo da escala de respiratório, contaminações por agentes Sobretudo, do ponto de vista dosanálise. Mas quais são as escalas que fazem externos, neoplasias, etc. são eventos raros componentes da dinâmica demográfica, asentido para se pensar indicadores para serem tratados em escalas menores e migração ou a mobilidade populacional seambientais de sustentabilidade hoje, a dificuldade em utilizá-los como constitui como um dos elementos maisconsiderando aspectos demográficos? indicadores indiretos de sustentabilidade dinâmicos e imprevisíveis dentro da equaçãoConsiderando os componentes da variação ambiental aumenta conforme a necessidade populacional. Hoje, grande parte dademográfica e não apenas o crescimento de aplicação. dinâmica demográfica de uma região podedemográfico em si, surgem demandas mais A estrutura etária de mortalidade ou ser explicada pelos fluxos migratórios.complexas e os indicadores para se pensar morbidade por causas podem responder Assim, a forma com que a população sea sustentabilidade ambiental, melhor como indicadores de qualidade distribui no espaço, sobretudo nas cidades,especialmente urbana, dependem de um ambiental na medida em que conhecendo pode servir como um importante subsídioolhar mais refinado. Assim, o debate se as causas que mais afetam determinados para se pensar em suas interfacesdeslocaria de uma construção abstrata do grupos populacionais, podemos entender ambientais.conceito, para um exame detalhado de melhor a sua dimensão ambiental. As A ocupação humana sustentável docomo cada componente da dinâmica doenças infecciosas e parasitárias afetam espaço urbano merece atenção, pois asdemográfica interage com a mudança basicamente a população mais jovem e formas de ocupação definem, em grandeambiental (HOGAN, 2004, p. 201). estão associadas às condições medida, fatores ambientais da região. Para Um indicador tradicionalmente socioeconômicas das famílias e a qualidade Hogan e Ojima (2008), a densidadeutilizado é a mortalidade infantil, do saneamento básico. Doenças do sistema populacional urbana pode trazer efeitosnormalmente associado à qualidade de vida respiratório afetam crianças e adolescentes, diretos e indiretos na qualidade do ar, noe diretamente relacionado à expectativa de assim como os mais idosos, e estas estariam consumo de água, na perda de áreas verdes,vida da população. Há uma ligação estreita sendo agravadas pela poluição atmosférica. no custo dos serviços públicos (comoda mortalidade infantil com as As neoplasias e doenças crônico- abastecimento de água, saúde, educação),características de saneamento básico e de degenerativas, afetam de modo cumulativo na saúde e até mesmo na biodiversidade.infraestrutura de serviços de abastecimento a população adulta e idosa, muitas vezes Assim, a mobilidade populacional (onde ade água, coleta de esgoto e salubridade relacionados à exposição a contaminantes população mora, trabalha, se diverte, usaRevista Brasileira de Ciências Ambientais - Número 18 - Dezembro/2010 19 ISSN Impresso 1808-4524 / ISSN Eletrônico: 2176-9478
  5. 5. serviços, ou faz compras) trará impactos populacional parece ser tão óbvia quanto De fato, ainda é difícil pensar nasambientais da mesma forma que também sedutora. No entanto, essa simplificação é questões demográficas que cercam asofrerá os efeitos dela. uma armadilha pois não menciona que 80% dimensão da mudança climática, pois esse Em relação aos indicadores de saúde, das emissões de gases de efeito estufa (GEE) paradigma malthusiano ainda serve deé necessário ter em mente uma escala de são decorrentes do processo produtivo e de parâmetro para muitos estudos, sobretudo,análise adequada para que eles contemplem consumo de apenas alguns poucos países entre as ciências naturais a variávela dimensão dos movimentos populacionais. desenvolvidos, que representam pouco demográfica entra sem o refinamentoNeste caso, menos sujeito aos limites da menos de 20% da população mundial adequado para dar conta de uma novaagregação dos dados para a análise, mas (OJIMA, 2009). Além disso, o ritmo de forma de entender seu impacto ambiental.principalmente, devido à necessidade de crescimento populacional ainda é elevado Mas essa é, em grande medida, uma lacunaobtenção de dados na escala intra-urbana. justamente nos países em desenvolvimento, deixada pelas ciências humanas, onde aAssim, caso se pense em indicadores de onde o padrão de consumo e as emissões interlocução e integração de dadossustentabilidade urbana considerando os de GEE é praticamente insignificante se deveriam ser melhor trabalhadas na medidamovimentos populacionais, estes servirão às comparado aos países mais industrializados. que as escalas de análise pudessem serpolíticas públicas se estiverem sendo Assim, para se pensar em indicadores compatibilizadas entre os campos depensadas para o planejamento urbano. Os para uma demografia das mudanças conhecimento. As escalas temporais eplanos diretores, leis de zoneamento urbano climáticas, algumas informações deveriam espaciais, tradicionalmente usadas pelase outras ferramentas de gestão do espaço ser desagregadas para poder identificar em ciências humanas, são de curto prazo e deurbano, e que são atribuições do poder que medida esses consensos são ou não dimensão local, respectivamente. E essalocal, poderiam se valer de tais informações cortinas de fumaça que mais dificultam do característica dificulta a incorporação depara minimizar as pressões ambientais e que elucidam os desafios para o análises sociais dentro dos modelosdemandas sociais que se originam pelo enfrentamento das vulnerabilidades e das climáticos, por exemplo.desenvolvimento urbano não planejado. medidas de adaptação necessárias aos Retomando a questão demográfica, cenários de mudanças ambientais mais a primeira desagregação que deve ser feitaDEMOGRAFIA DAS MUDANÇAS gerais que estão associadas às mudanças no é que quase a totalidade do crescimentoCLIMÁTICAS clima. Para isso, serão desagregados aqui os populacional futuro ocorrerá em áreas dados populacionais, desde a sua escala urbanas. Assim, o crescimento demográfico Quando as questões das mudanças global até os aspectos mais locais, terá características específicas que merecemclimáticas assumem destaque maior na considerando os desafios que já existem e um tratamento diferenciado, pois se essesmídia, sobretudo, a partir da publicação do as dificuldades analíticas já mencionadas na 2,5 bilhões de pessoas adicionais até 20504o relatório do IPCC (Intergovernmental busca de indicadores de sustentabilidade. fossem assumir a mesma distribuição rural-Panel on Climate Change), o AR-4, em 2007, Quando da publicação do AR-4, as urbano de hoje, os impactos seriam bema temática ambiental é resgatada sob uma estimativas de crescimento populacionais menores. Há que se pensar que se esseperspectiva mais urgente do que havia projetadas pela Organização das Nações adicional será em áreas urbanas, o impactosendo discutida até então. Embora tenham Unidas (ONU), apontavam para um das emissões de GEE será maior que essaocorrido muitos avanços desde a acréscimo de 2,5 bilhões de pessoas até o estimativa de 11 bilhões de toneladas ano.Conferência de Estocolmo (1972) e da Rio ano de 2050. Embora, esse ritmo de Mas qual a razão dessa razão de emissões92, a temática ambiental não parecia estar crescimento esteja em pleno declínio já há maior?tão na agenda das políticas públicas quanto algumas décadas, este crescimento ainda vai Aqui é importante mais umaocorreu após a publicação deste relatório. se manter até a estabilização da população desagregação para verificar como essaA síntese realizada pelo IPCC colocou mundial. Baseado nas emissões médias de população adicional irá se distribuir dentroevidências sólidas de que estaria ocorrendo GEE atuais, essa variação populacional traria dessas cidades. O padrão de urbanizaçãograndes alterações no clima global e essas um adicional de 11 bilhões de toneladas de futuro, como mencionado anteriormente,mudanças teriam fortes relações com as CO2 por ano (OJIMA, 2009). Assim, com base apresenta impactos diferenciados de acordoatividades humanas, com o modelo de nessa conta direta e rasteira, a conclusão com densidade, estruturação, padrão dedesenvolvimento econômico e o padrão de seria óbvia: bastaria reduzir o crescimento consumo, entre outros. Assim, na busca deconsumo atual. populacional para mitigar o impacto da ação indicadores sociodemográficos que façam Nesse cenário, a questão humana sobre o aquecimento global. sentido para as mudanças climáticas epopulacional é retomada e a perspectiva Simples? Aliás, se até 2050, a população cidades, um dos elementos importantes émalthusiana, ainda muito marcada no senso mundial tiver um declínio de 2,5 bilhões de entender a distribuição da população nascomum e até nos meios acadêmicos não pessoas, seria muito mais simples atingir as áreas urbanas atuais para podermos pensarespecializados, assume novo fôlego. Afinal, metas do Protocolo de Kyoto, não é em quais seriam os padrões maisna escala do planeta, a simplificação do verdade? Para responder a essa pergunta, sustentáveis de uso do espaço naquelesdilema ambiental a partir do crescimento os dados serão detalhados. contextos em que a transição urbana aindaRevista Brasileira de Ciências Ambientais - Número 18 - Dezembro/2010 20 ISSN Impresso 1808-4524 / ISSN Eletrônico: 2176-9478
  6. 6. está para acontecer, como é o caso dos demandas dessa população. No caso seja, sempre optando por um dos dois ladospaíses asiáticos, primeiramente, e brasileiro, onde a maior concentração da do processo: ou a exposição ou a capacidadeposteriormente africanos. população hoje está nos grupos em idade de resposta. No que tange aos indicadores ativa, a tendência de um modelo de A questão não é desmerecer taisdemográficos urbanos dois elementos expansão urbana mais disperso com fluxos índices, mas apontar que para seremimportantes se destacam no contexto das de mobilidade diária de mais longa distância desenvolvidos efetivamente indicadores demudanças climáticas: 1) a população em parecem ser incentivados e assim, tendo vulnerabilidade, precisa-se de medidas quesituações de risco referente às mudanças consequências tanto no padrão de emissões incorporem as heterogeneidades inerentesclimáticas e sua vulnerabilidade e 2) os de GEE como na vulnerabilidade dessa aos indivíduos, grupos familiares, bairros,aspectos urbanos que contribuem para as população, mais exposta aos fatores de risco cidades, regiões. Em outras palavras,emissões de GEE. Afinal, apesar dos esforços comuns aos longos deslocamentos. precisa-se de indicadores dinâmicos quede estudos ambientais em áreas urbanas, A questão da vulnerabilidade, no captem e relativizem as possibilidades deainda existem lacunas que merecem ser entanto, não pode ser encarada como uma combinações em dados circunstâncias (nodetalhadas, pois a identificação de áreas de fórmula onde a exposição prevaleça. As tempo e no espaço). Por que?risco a eventos climáticos, planos de manejo, possibilidades analíticas do conceito estão Parte-se de um entendimentoprojetos de adaptação, etc., ainda não justamente no avanço em relação à ideia de fenomenológico da vulnerabilidade, no qualparecem ter entrado na agenda das políticas fatores de risco, na busca por incorporar ao esta expressa ao mesmo tempo tanto apúblicas. Ainda hoje, chuvas intensas e mesmo tempo a exposição com a capacidade de resposta quanto a suaeventos de extremo climático atingem e capacidade de resposta (WISNER, et al., incapacidade. Ou seja, ela é processual evitimam pessoas, apesar de todo o 2004). Neste sentido, vulnerabilidade é uma circunstancial, pois ninguém é 100%conhecimento acumulado e a tendência de perspectiva que exige pensar indicadores vulnerável, nem 100% protegidoagravamento desses eventos, previstos pelas abrangentes em níveis desagregados para (MARANDOLA JR., 2009). Isso significa quemudanças climáticas globais, devem afetar abarcar a multiplicidade de possibilidades qualquer tentativa de mensurar ouum contingente cada vez maior da combinadas de exposição e capacidade de desenvolver índices de vulnerabilidade devepopulação. A tendência aponta para o resposta. levar em consideração a sua intangibilidade.incremento tanto no contingente atingido Ao invés de mensurar-se a vulnerabilidade,quanto na intensidade dos danos sofridos. VULNERABILIDADE: EM BUSCA DE tem-se que buscar medidas para os Em relação ao segundo ponto, INDICADORES DESAGREGADOS elementos contextuais e indicadores quemerece atenção os estudos que podem indiquem capacidade de resposta ouavaliar a morfologia urbana de maneira a Muito tem se escrito e discutido exposição de perigos.otimizar o planejamento em torno de um sobre vulnerabilidade. Está entre os No entanto, se ela é intangível emodelo de expansão urbana que seja mais conceitos mais importantes no diálogo circunstancial, precisa-se ir além destesustentável. Ewing et al (2008) ilustra essa interdisciplinar e intersetorial atualmente. entendimento, e procurar indicadores quedimensão do espaço intraurbano como um Sua relevância, no entanto, é menos tenham medidas e pesos diferenteselemento significativo para a redução de operacional (são conhecidas as dificuldades dependendo da composição do índice. Nãoemissões de GEE e destaca em seu trabalho de composição de índices e indicadores se pode, por exemplo, continuar utilizandocomo pequenas intervenções urbanas relevantes que abarcam várias dimensões) o senso comum de que quanto menor apodem propiciar uma morfologia urbana do que conceitual. Isso significa que pensar renda, mais vulnerável, ou famílias commais adequada para otimizar os fluxos de em termos de vulnerabilidade é importante idosos e crianças ou com chefia feminina sãomobilidade populacional, sobretudo, o vai- considerar os fenômenos em tela por outra mais vulneráveis. Estes fatores podeme-vem diário (o chamado commuting), ou perspectiva: mais abrangente e com nexos significar uma vulnerabilização da família,seja, a mobilidade da população entre casa, de causalidade imprecisos em matrizes de mas em determinados contextos. O índicetrabalho, estudo, compras, lazer, etc. causalidade complexas (HOGAN; deveria ser capaz de realizar e relativizar Retomando o processo de MARANDOLA JR., 2005; MARANDOLA JR.; estes contextos.desagregação e detalhamento das questões HOGAN, 2007). Mas, que contextos? O primeiro é odemográficas, o padrão etário da população A maioria dos indicadores e índices espacial, e tome-se foco neste exemplo parapode ter impactos sobre a própria estrutura de vulnerabilidade que têm sido esclarecer este ponto. Uma família comda urbanização. Ao analisar-se uma região desenvolvidos não medem, de fato, a idosos é comumente apontada comoonde a população é mais envelhecida, com vulnerabilidade. Na realidade, o que eles vulnerável pois suas especificidadesum peso relativo importante dos grupos de fazem é mensurar elementos ou fatores que, onerariam a família financeiramente, alémidade mais avançados, verifica-se uma junto com vários outros processos, de gerar dificuldades em situações dedemanda menor de movimentos diários. compõem a vulnerabilidade. Em sua maioria emergência (devido ao peso relativo que osNeste caso, um modelo de urbanização mais quase absoluta, tais medidas estão gastos com sua saúde, somado à sua poucacompacto poderia corresponder às mensurando perigos ou fatores de risco, ou mobilidade e/ou necessidades de atenção).Revista Brasileira de Ciências Ambientais - Número 18 - Dezembro/2010 21 ISSN Impresso 1808-4524 / ISSN Eletrônico: 2176-9478
  7. 7. Mas esta situação pode ser muito diferente Essa proposta tem o mérito de desenvolvidos, mas talvez aindade acordo com a região do país (a ampliar o entendimento da vulnerabilidade, preliminares no que se refere à integraçãoimportância das aposentadorias no total do indo além da exposição ou da questão entre escalas tão distintas. Ou seja, comorendimento domiciliar é, em certas regiões, econômica. Por outro lado, o peso que se colocar em prática a máxima ambiental domais significativo do que em outros), além dá aos indicadores econômicos (e outros "pensar globalmente e agir localmente"?de variar muito de acordo com áreas que estão estreitamente relacionados, comourbanas e rurais, bem como entre os educação) somado à dificuldade de POLÍTICAS PÚBLICAS DEdiferentes níveis hierárquicos do urbano. Em indicadores de qualidade de capital social, ADAPTAÇÃO E CIDADESmuitas localidades e famílias, o prestígio ou acaba por tornar a perspectiva tambémo conhecimento e reconhecimento dos muito dependente do viés de renda. Medir e compreender aidosos é fator chave para as oportunidades Outro elemento que aponta para a vulnerabilidade é apenas o primeiro passo.ou para os riscos que uma família poderá importância do contexto espacial são as Políticas urbanas para dar resposta aoscorrer. Ademais, com o processo de relações de vizinhança, acessibilidade, perigos relacionados à mudança climáticaenvelhecimento relativo pelo qual passa a proximidade e distância que marcam os precisam também de indicadores depopulação brasileira atualmente, há uma estudos ecológicos (ENTWISLE, 2007; KYLE, adaptação. O desafio da composição destestendência de que em poucos anos, todo 2004; LEWICKA, 2010). Por este ângulo, parece ainda maior.domicílio ou família conterá em sua questões de saúde ambiental, valores Um primeiro desafio é identificar ocomposição pelo menos uma pessoa em culturais, redes sociais, mobilidade, sistemas que é adaptação. Adger, Lorenzoni e OBriengrupos etários considerados idosos e, de transporte, acesso à moradia, (2009) lembram que adaptação fez parte deconsequentemente, terá aumentando seu o infraestrutura etc., estão implicados na todas as sociedades, e continua fazendo.grau de vulnerabilidade, caso o indicador forma da cidade, sua organização interna e Nem sempre a questão, no entanto, éseja sensível aos processos dinâmicos da a distribuição (concentração ou dispersão) querer, ou saber se adaptar. Atualmente,sociedade. de serviços e recursos urbanos. A posição apontam os referidos autores que a questão- O mesmo pode-se dizer das famílias na cidade, portanto, é um contexto chave é que o sistema global geroucom chefia feminina. Conforme afirma Bilac fundamental para pensar a vulnerabilidade, comunidades resilientes e comunidades que(2006), as estratégias destas famílias são embora os demais contextos (cultural, não terão oportunidade de se adaptar.distintas, e podem compensar diferenciais econômico, social, político) tenham o Isso coloca uma questãode rendimentos e outros fatores ao lançar mesmo peso, e, por isso, nenhum deles é fundamental sobre que tipo de indicadoresmão de redes de parentesco e outras definitivo para, por exemplo, caracterizar de adaptação serão precisos: aqueles queestratégias, como a própria composição homogeneamente uma parte da cidade mostrem em que medida países ou cidadesmais complexa da estrutura familiar no como mais vulnerável que a outra. Este tipo estão se adequando ao padrão imposto demesmo domicílio. É difícil imaginar que uma de consideração é sempre uma urbanização sustentável, ou indicadores quefamília nuclear com os dois progenitores generalização que pode estar escondendo revelem a capacidade adaptativa das cidadescujo chefe possui problemas de violência vulnerabilidades muito diferentes entre e sua resiliência? A possibilidade dadoméstica ou outras dificuldades de vizinhos. adaptação estaria, portanto, nesse dilema.relacionamento seja menos vulnerável que Em vista disso, o desafio é conseguir Como colocar dentro da agenda das políticasuma família de chefia feminina pelo simples incorporar aos indicadores estas públicas medidas de adaptação, se as formasfato da presença do homem em casa. heterogeneidades de forma que elas possam de mensuração não se ligam entre as Em ambos os casos, a base para o interagir entre os vários elementos que diversas escalas de ação? Uma das grandespressuposto da pretensa vulnerabilidade compõem e contextualizam a dificuldades para o planejamento demaior para tais grupos e famílias é a de base vulnerabilidade. Mas, apesar do desafio políticas públicas é a focalização do públicoeconômica, estando na composição dos posto pelo AR-4 de se considerar as a ser atendido, assim, em termos dedomicílios ou nas características mudanças climáticas, é preciso ter em mente mudanças climáticas globais, como poder-demográficas impedimentos para participar que elas não trarão nenhum desafio se-ia enfrentar esse desafio?de atividades e lançar mão de certos propriamente novo para a análise ou para No Brasil, alguns esforços estãorecursos. Foi neste sentido, por exemplo, as políticas urbanas; o que temos de novo sendo tomados nesse sentido. A Redeque demógrafos e sociólogos nesse cenário é a relativa previsibilidade ou Brasileira de Pesquisas sobre Mudançaslatinoamericanos procuraram alternativas certeza/incerteza de que mudanças no clima Climáticas (RedeCLIMA), com um sub-para medir a vulnerabilidade, entendendo- ocorrerão nas próximas décadas e as projeto sobre mudanças climática e cidades,a como duplamente articulada entre a medidas de adaptação poderiam ser tem proporcionado fóruns de debate paraestrutura de oportunidades e os ativos, que planejadas com antecedência. Dentro deste pensar os impactos e consequências dassão fruto dos capitais social, humano e físico. contexto, não se trata de empreender novos mudanças no clima sob essa perspectiva. O(KAZTMAN, 1999; KAZTMAN; FILGUEIRA, esforços, mas sim aprofundar e detalhar Programa Fapesp de Pesquisa sobre2006; CUNHA, et al., 2006). estudos que ora já vêm sendo Mudanças Climáticas Globais - PFPMCG, queRevista Brasileira de Ciências Ambientais - Número 18 - Dezembro/2010 22 ISSN Impresso 1808-4524 / ISSN Eletrônico: 2176-9478
  8. 8. já abriu dois editais de projetos temáticos, construídos. Piracicaba: limites e possibilidades. In:coloca também sob uma perspectiva FERREIRA, Leila da C.; VIOLA, Eduardointerdisciplinar esse desafio. Um dos REFERÊNCIAS (Orgs.). Incertezas da Sustentabilidade naprojetos, dentro do qual esse trabalho se Globalização. Campinas: Ed. da Unicamp,insere, tem como objetivo pensar as ADGER, Neil; LORENZONI, Irene; OBRIEN, 1996. p.161-176.dimensões humanas das mudanças Karen. Adaptation now. In: ADGER, Neil;climáticas a partir dos dilemas ambientais LORENZONI, Irene; OBRIEN, Karen. (eds.) HOGAN, Daniel J. Indicadoresurbanos e suas dimensões políticas, sociais Adapting to climate change: thresholds, sociodemográficos de sustentabilidade. In:e ecológicas. Um dos objetivos do values, governance. New York: Cambridge ROMEIRO, Ademar R. (Org.). Avaliação ecomponente de urbanização e dinâmica 2009. p.1-22 contabilização de impactos ambientais.demográfica constitui na elaboração e Campinas: Ed. da Unicamp, 2004. p.198-215.consolidação de indicadores BICKNELL, Jane; DODMAN, David;multidimensionais que permitam integrar as SATTERHWAITE, David (eds.) Adapting cities HOGAN, Daniel J. População e mudançasdiversas escalas de análise e construir to climate change: understanding and ambientais globais. In: HOGAN, Daniel J.;formas de articulação destes dados de modo addressing the development challenges. MARANDOLA JR., Eduardo (Orgs.).que as preocupações com as mudanças London: Earthscan, 2009. População e mudança climática: dimensõesclimáticas em sua escala global possam ser humanas das mudanças ambientais globais.entendidas na escala do litoral do Estado de BILAC, Elizabeth D. Gênero, vulnerabilidade Campinas: NEPO/UNFPA, 2009. p.11-24.São Paulo, nas suas regiões, nos município, das famílias e capital social: algumasbairros e domicílios. reflexões. In: CUNHA, José M. P. da. (org.) HOGAN, Daniel J.; MARANDOLA JR., O primeiro passo é pensar a Novas metrópoles paulistas: população, Eduardo. Towards an interdisciplinaryvulnerabilidade nestas escalas diferentes, vulnerabilidade e segregação. Campinas: conceptualisation of vulnerability.passando à discussão das medidas NEPO/UNICAMP, 2006. p.51-65. Population, Space and Place, v. 11, n. 6, p.adaptativas. A promoção da resiliência é 455-471, 2005.fundamental, e por isso a discussão precisa CUNHA, José M. P. da; JAKOB, Alberto A. E.;passar pela compreensão dos riscos e HOGAN, Daniel J. e CARMO, Roberto L. do. HOGAN, Daniel J.; MARANDOLA JR.,perigos já existentes, projetando-se cenários A vulnerabilidade social no contexto Eduardo; OJIMA, Ricardo. População epara as mudanças ambientais futuras. metropolitano: o caso de Campinas. In: Ambiente: desafios à sustentabilidade. São Independente das cidades ou dos CUNHA, José M. P. da. (org.) Novas Paulo: Blucher, 2010.países, no âmbito da política pública as metrópoles paulistas: população,mudanças já se instalaram. Financiamentos, vulnerabilidade e segregação. Campinas: HOGAN, Daniel J.; OJIMA, Ricardo. Urbanrecursos, legislações e planos de manejo ou NEPO/UNICAMP, 2006. p.143-168. sprawl: a challenge for sustainability. In:gestão já estão prevendo e/ou exigindo a MARTINE, George; et al. (eds.) The Newcontemplação dos cenários de mudanças DOUGLAS, M. Risk Acceptability according Global Frontier: urbanization, poverty andclimáticas. A vulnerabilidade, um pouco to the social sciences. Russel Sage environment in the 21st century. London:antes, já havia sido incorporada à dimensão Foundation: New York. 1985. Earthscan, 2008. p.203-216.da gestão e, muito em breve, se passará daatual ênfase da mitigação para a adaptação. ENTWISLE, Bárbara. Putting people into JANNUZZI, Paulo M. Indicadores sociais no A questão, portanto, não é se é place. Demography, v.44, n.4, p.687-703, Brasil: conceitos, fonte de dados enecessário ou não medidas de adaptação. 2007. aplicações. Campinas: Alínea, 2001.A questão verdadeira é como e de quemaneiras as cidades irão adaptar-se. EWING, R.; BARTHOLOMEW K; KAZTMAN, Ruben. (coord.) Activos ySeguindo uma perspectiva aberta da WINKELMAN, S.; WALTERS, J.; CHEN, D.; estructuras de oportunidades. Estúdiosvulnerabilidade e da adaptação, o McCAN, B.; GOLDBERG, D. Growing Cooler: sobre lãs raíces de La vulnerabilidad socialfundamental é buscar no próprio devir e no The Evidence on Urban Development and em El Uruguay. Montevideo: Oficina Delpacto social urbano as respostas para cada Climate Change. Urban Land Institute. 2008. Programa de lãs Naciones Unidas para Elcaso. A imposição de agenda e os pacotes Desarrollo (PNUD) Y Oficina de La CEPAL emde adaptação na forma de intervenções HARDOY, Jorge E.; MITLIN, Diana; Montevideo, LC/MVD/R, 1999. [n.180]urbanas não terão a mesma efetividade em SATTERHWAITE, David (eds.) Environmentaltodos os contextos. É necessário problems in an urbanizing world: finding KAZTMAN, Ruben; FILGUEIRA, Fernando. Ascompreender a multidimensionalidade da solutions for cities in Africa, Asia and Latin normas como bem público e privado:vulnerabilidade, e pensar medidas America. London: Earthscan, 2001. reflexões nas fronteiras do enfoque "ativos,adaptativas igualmente múltiplas. Para isso, vulnerabilidade e estrutura denovos indicadores, dinâmicos e HOGAN, Daniel J. Desenvolvimento oportunidades" (AVEO). In: CUNHA, José M.desagregados, precisam ser pensados e sustentável na bacia hidrográfica do rio P. da. (org.) Novas metrópoles paulistas:Revista Brasileira de Ciências Ambientais - Número 18 - Dezembro/2010 23 ISSN Impresso 1808-4524 / ISSN Eletrônico: 2176-9478
  9. 9. população, vulnerabilidade e segregação. J. Vulnerabilities and risks in population and (Mestrado em Sociologia) - Instituto deCampinas: NEPO/UNICAMP, 2006. p.67-94. environment studies. Population and Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Environment, v. 28, p. 83-112, 2007. Estadual de Campinas, Campinas.KYLE, Gerard; et al. Effects of placeattachment on users perception of social MARTINE, George; McGRANAHAN, Gordon; OJIMA, Ricardo. Perspectivas para aand environmental conditions in a natural MONTGOMERY, Mark; FERNÁNDEZ- adaptação frente às mudanças ambientaissetting. Journal of Environmental CASTILLA, Rogelio (eds.). The new global globais no contexto da urbanizaçãoPsychology, n.24, p.213-225, 2004. frontier: urbanization, poverty and brasileira: cenários para os estudos de environment in the 21st Century. London: população. In: HOGAN, Daniel J.;LEWICKA, Maria. What makes neighborhood Earthscan, 2008. MARANDOLA JR., Eduardo (Orgs.).different from home and city? Effects of População e mudança climática: dimensõesplace scale on place attachment. Journal of NUNES, Lucí H. Mudanças climáticas, humanas das mudanças ambientais globais.Environmental Psychology, n.30, p.35-51, extremos atmosféricos e padrões de risco a Campinas: NEPO/UNFPA, 2009. p.191-204.2010. desastres hidrometeorológicos. In: HOGAN, Daniel J.; MARANDOLA JR., Eduardo (Orgs.). UNFPA - UNITED NATIONS POPULATIONMARANDOLA JR., Eduardo. Tangenciando a População e mudança climática: dimensões FUND. State of World Population 2007:vulnerabilidade. In: HOGAN, Daniel J.; humanas das mudanças ambientais globais. Unleashing the potential of urban growth.MARANDOLA JR., Eduardo (Orgs.). Campinas: NEPO/UNFPA, 2009. p.53-73. New York: UNFPA, 2007.População e mudança climática: dimensões WISNER, Ben; BLAIKIE, Piers; CANNON,humanas das mudanças ambientais globais. OJIMA, Ricardo. Instituições políticas e Terry; DAVIS, Ian. At risk: natural hazards,Campinas: NEPO/UNFPA, 2009. p.29-52. mudança ambiental: os novos arranjos peoples vulnerability and disasters. 2ed. institucionais na gestão de recursos hídricos London: Routledge, 2004.MARANDOLA JR., Eduardo; HOGAN, Daniel e suas interfaces políticas. 2003. DissertaçãoRevista Brasileira de Ciências Ambientais - Número 18 - Dezembro/2010 24 ISSN Impresso 1808-4524 / ISSN Eletrônico: 2176-9478

×