1"Numa tentativa de se evadir dos seus conflitos, o homem teminventado diversas formas de meditação, porém, todas elas seb...
2Toda a meditação que envolve esforço deixa deser meditação. Não se trata de nenhum acto derealização nem algo que deva se...
3Se não meditardes sereis sempre umescravo do tempo, cuja sombra é ador. O tempo é sofrimento.A meditação não é via para e...
4suas imagens palavras e percepçõescessa completamente. Essa mentemeditativa é a mente religiosa- amente da religião que n...
5É curioso como a meditação se torna de todoimportante. O seu processo não conhece começo nemfim. Assemelha-se a uma gota ...
6Meditação é trabalho árduo e exigea mais elevada forma de disciplina –e não conformação imitação ouobediência - a discipl...
7de o ser. Meditação é a brisa queentra quando deixais a janela aberta;porém, se o fizerdes deliberadamente,e a convidarde...
8ser livre dele para poder mergulharno desconhecido.Temos de descobrir por nós mesmos e nãoatravés de quem quer que seja. ...
9A meditação, que é a destruição dasegurança, possui uma enorme beleza - não abeleza das coisas reunidas pelo homem nempel...
10fantasias ou de credos românticos não é meditação.O cérebro deve despir-se de todo o mito, de toda ailusão e segurança, ...
11ambição, do desejo de fama? Como poderá florescerà sombra da esperança ou do desespero? Tudo issodeve ser abandonado de ...
12passado nem nas imagens do amanhã. Oamor não tem passado nem futuro;aquilo que o tem é a memória. Opensamento é prazer, ...
13congregado pela vontade. Aconsciência no seu todo é ummovimento incansável e ruidosoestabelecido dentro das fronteiras d...
14diferente. Este silêncio não estáacolá mas onde o observador estiverausente.Somente a inocência pode ter ardência. Oindi...
15sensibilidade da mente. Uma mente assim podepermanecer alerta numa determinada direcçãoestreita e limitada e, ainda assi...
16sempre deverá existir conflito, mas uma mente emconflito não poderá entender a profundidade nem abeleza da meditação.Na ...
17eterno e sem tempo; portanto, a mentetem de ser livre do tempo, o processotemporal da mente deve serdissolvido. Só quand...
18num brinquedo da mente. Se nosdeterminarmos a pôr fim á confusão eá tristeza da vida isso tornar-se-áuma experiência da ...
19Tememos esse despedaçar e por isso,consciente ou inconscientementetratamos de o evitar.A compreensão pode alterar todo o...
20Meditação é a liberdade do pensamento; ummovimento no êxtase da verdade.A meditação é a total libertação da energia.A cr...
21tempo nisso, de modo que a mente ésempre livre.Esta manhã a qualidade da meditaçãoera inexistente, esvaziamento totaldo ...
22tempo. É bom meditar sem esforçar- sem esforçonenhum, aliás- começando como um pequeno fio eindo além do tempo e do espa...
23cada pensamento ou sentimento, bem como acompreensão dos seus motivos e do seu mecanismo-ao permitindo-lhe florescer- é ...
24uma morta não; uma coisa morta pode ser copiada.Necessitamos de austeridade interior se quisermosabandonar completamente...
25A crença é superstição. Aquilo queé, o facto não necessita de crençanem de conclusão nenhuma. Contudoisso impede a perce...
26Eu posso continuar a descrever ameditação, porém a descrição não é acoisa descrita. Se vos chegardes aela, pode tratar-s...
27experiência só fortalece o conhecido.O conhecido nunca é essa essência.A meditação não representa umacréscimo de experiê...
28Existir, significa ser umestranho, não pertencer a nenhumacrença nem dogma, religião ou nação.É essa solitude que vai ao...
29A meditação que se iniciara emprofundezas desconhecidas econtinuara com intensidade eamplitude crescentes entalhou océre...
30conflito. A mente meditativa podeconcentrar-se mas nesse caso não setrata de uma acto de exclusão nem deresistência; por...
31qualquer realidade. Aquela folha, o eucalipto, aágua resplandecente não eram diferentes de vós.A meditação é realmente m...
32Distanciai-vos. Distanciar-se do mundo de caose miséria e no entanto viver nele, imperturbados.Tal só é possível quando ...
33está sempre lá, á espreita,esperando; contudo, aquele que morrea cada dia está livre da morte.A maior parte de nós parec...
34consegue reconhecer isso não pode ser traduzido empalavras nem memória. É algo que nunca aconteceuantes. Isso não é uma ...
35nacionalistas e para adorarem abandeira, de modo a entrarem nestaarmadilha do mundo moderno.Se observarem tudo isso, e t...
36entendeis o significado do silêncio,quando entendeis a confusão, osofrimento, e se este alguma vezpoderá terminar, quand...
37ao longe e no horizonte as silhuetas das árvorestornavam-se mais negras e intensas. Na meditaçãonão há repetição nem a c...
38da relação, durante o dia todo. E ànoite, quando o organismo estiver emdescanso, tal mente não terá sonhos,por ter estad...
39forma de eu, o amor é o conflito do eu e do não-eu. Esse conflito e tortura não são amor. Opensamento é a única negação ...
40completamente nova ela torna-se umarotina e um aborrecimento, uma coisasem sentido nenhum. Assim, ameditação é da maior ...
41do amor de um ou de muitos mas doamor que se assemelha à água, quecada um pode beber por qualquerjarro, seja de barro ou...
42Surgirá uma nova experiência através dameditação? O desejo de experiência- a experiênciamais elevada que se situa acima ...
43e todos os estranhos modos de vida.Aqui viajávamos muito leves semnenhum pensamento, sem nenhum fardo ecom um sentimento...
44equivale a percorrer a vida de braços abertos. Enaquela tarde, ao caminharmos pela areia molhada,com as gaivotas ali em ...
45de acordo com o vosso desejo. Essasolidão sobrevem quando a mente se vêlivre do pensamento. Onde houverinfluência do des...
46E se vos agarrardes à lembrança dissoentão nunca mais ficareis a sós denovo. Assim, meditai nessa solitudesem fim, na be...
47A certa altura soprava uma brisa delicada vindadas colinas fazendo mexer as folhas, mas essaquietude, essa qualidade ext...
48alvas e, nessa solidão saberíeis oque é a meditação.O êxtase da solidão sobrevem quandodeixais de vos sentir assustados ...
49A meditação não é o mero controledo corpo e do pensamento nem umsistema de respiração (como oinspirar e o expirar). O co...
50faz sentido; só cria variadas formasde conflito e compulsão. Opensamento, como matéria que é, nãopode buscar aquilo que ...
51de semi-presença. Não éramos nós que ali nosencontrávamos mas tão só a observação quedecorria. Observávamos os pensament...
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A arte da meditação krishnamurti

  1. 1. 1"Numa tentativa de se evadir dos seus conflitos, o homem teminventado diversas formas de meditação, porém, todas elas sebaseiam quer no desejo, na vontade ou na ânsia por obter algo, oque implica conflito e o emprego de esforço a fim de alcançardeterminados resultados. Esta luta consciente e deliberadasempre se circunscreve nos limites de uma mente condicionada,que não possui liberdade. Todo o esforço empregue nameditação constitui a sua própria negação. A meditação consisteno término da acção do pensamento; só então pode chegar aexistir toda uma dimensão intemporal."Tradução de A Duarte 2002
  2. 2. 2Toda a meditação que envolve esforço deixa deser meditação. Não se trata de nenhum acto derealização nem algo que deva ser praticadodiariamente de acordo com um sistema ou métodoqualquer, para obtenção de um fim almejado. Aocontrário, toda a imaginação e medida devemcessar. A meditação não constitui um meio paraatingir um fim; é um fim em si mesma. Noentanto aquele que medita deve deixar deexistir para que a meditação possa ocorrer.A meditação não é umaexperiência nem uma lembrançaerguida em torno de um dado prazerfuturo. Aquele que experimentamove-se sempre dentro dos limitesdas suas próprias projecções detempo e pensamento. Uma vezinserida nos limites do pensamento,a liberdade não passará de umaideia e uma fórmula; o pensadorjamais poderá alcançar o movimentoda meditação.A meditação diz sempre respeito ao presenteenquanto que o pensamento pertence sempre aopassado. Toda a consciência é pensamento,porém, o estado de meditação não ocorre dentrodas suas fronteiras. A meditação consciente ésomente o acto de redefinir ainda mais esseslimites destruindo assim toda a liberdade. Massomente em liberdade poderá haver meditação.
  3. 3. 3Se não meditardes sereis sempre umescravo do tempo, cuja sombra é ador. O tempo é sofrimento.A meditação não é via para experiências únicasnem excepcionais. Essas experiências conduzem aoisolamento e aos processos auto-encarceradores damemória, e estão sujeitos ao tempo- o queconstitui a negação da liberdade.O vale mais parecia uma carpete deflores e os declives achavam-serepletos de uma abundânciamulticolorida delas, tão abundantesquanto a vastidão da terra com todasas suas cidades, verdes prados,pastos, bosques e cidades. Lá estavamtão ricas e belas quanto o própriovale; todavia, tanto a abundância danatureza como o homem estãodestinados a morrer e a surgir denovo. A abundância da meditação não éreunida pelo pensamento nem peloprazer que o pensamento gera masacha-se para além da flor e da nuvem.A partir disso a abundância torna-setão imensurável quanto a flor e abeleza. Contudo jamais se encontramneste lado da sua manifestação.Sem amor não pode existir silêncio.Para o poderdes compreender, permanecei imóveis.A mente meditativa é aquela que seencontra em silêncio. Não se trata dosilêncio que a mente pode conceber,nem o silêncio de um entardecercalmo, mas o silêncio que sobrevemquando o pensamento, com todas as
  4. 4. 4suas imagens palavras e percepçõescessa completamente. Essa mentemeditativa é a mente religiosa- amente da religião que não é tocadapela Igreja, pelos templos nem peloscantos. A mente religiosa é aexplosão do amor; esse amor nãocomporta qualquer separação. Paraessa mente, longe é perto. Não é “um”nem “muitos” mas sim esse estado deamor em que toda a divisão cessa. Damesma forma que a beleza, não cabe naavaliação das palavras. Só a partirdeste silêncio è que a mentemeditativa pode actuar.Meditar é tornar-se vulnerável. Essavulnerabilidade não tem passado nem futuro- ontemou amanhã. Somente o que é novo pode servulnerável.A meditação é uma das maioresartes na vida, talvez mesmo a maior,mas provavelmente não pode serensinada. Nisso reside toda a suabeleza. Não possui técnica algumanem autoridade sequer. Quando nosobservamos e por meio dessaobservação aprendemos acerca de nóspróprios- sobre o modo comocaminhamos, comemos, aquilo quedizemos, toda a bisbilhotice, ódio,ciúme- se de tudo isso ficarmoscientes, sem escolha, tal processofará parte da meditação. Assim, ameditação pode ocorrer quando nossentamos no autocarro ou caminhamospelos bosques, com sua luz e sombras,ou então quando escutamos o canto dospássaros e olhamos para o rosto danossa esposa ou filho.
  5. 5. 5É curioso como a meditação se torna de todoimportante. O seu processo não conhece começo nemfim. Assemelha-se a uma gota de chuva, queconglomera todas as correntes de água, os vastosrios, as quedas de água e os oceanos. Essa gota deágua alimenta a terra e o homem; sem isso a terratornar-se-ia um deserto. Sem a meditação o coraçãotorna-se um deserto, um terreno baldio.Meditação é descobrir se océrebro, com todas as suasactividades e experiências, podeficar em absoluto silêncio. Não demodo forçado, porque no momento emque o forçarmos deverá passar aexistir dualidade. A entidade quediz: "para poder fazer experiênciasespantosas tenho que observar atranquilidade"; tal entidade jamais oconseguirá. Mas se começarmos apesquisar, a observar e a escutartodos os movimentos do pensamento,com as suas condicionantes, as suasbuscas, os seus medos, o seu prazer-e observarmos o modo como o cérebroopera, perceberemos de que modo océrebro se torna absolutamentesilencioso. Esse silêncio não é umsono mas uma coisa tremendamenteactiva e imóvel. É um enorme dínamoque trabalha na perfeição,dificilmente produzindo ruído. Oruído só existe quando há fricção.Silêncio e imensidão andam juntos. A vastidãodo silêncio é a imensidão da mente em que nãoexiste um centro.
  6. 6. 6Meditação é trabalho árduo e exigea mais elevada forma de disciplina –e não conformação imitação ouobediência - a disciplina quesobrevem por meio da atençãoconstante, não só das coisasrelativas a nós externamente comotambém interiormente. Assim, ameditação não é uma actividade deisolamento mas a acção da vidadiária, uma acção que exigecooperação, sensibilidade einteligência. Sem estabelecermos asfundações de uma vida correcta, ameditação torna-se uma fuga e,portanto, não tem valor nenhum. Umviver correcto não significa seguir amoral social, mas liberdade comrelação à inveja, à cobiça e à buscade poder - tudo o que gera inimizade.A liberdade disso não sobrevem pelaactividade da vontade mas pelaatenção para com isso, por meio doauto-conhecimento. Sem conhecermos asactividades do eu, a meditação torna-se excitação sensual e, portanto,possui muito pouco significado.A procura de experiências transcendentais, maisamplas e mais profundas, é sempre um modo deescapar à realidade de "o que é", do que nóspróprios somos - a nossa própria mentecondicionada. Por que razão haverá uma menteinteligente e desperta, liberta, ter umaexperiência qualquer? Luz é luz; ela não pede pormais.Se vos preparardes deliberadamentepara meditar isso deixará de sermeditação. Se fizerdes por ser bons,jamais a bondade poderá florescer. Secultivardes a humildade, ela deixará
  7. 7. 7de o ser. Meditação é a brisa queentra quando deixais a janela aberta;porém, se o fizerdes deliberadamente,e a convidardes a entrar, ela jamaissurgirá.Em meditação temos de descobrir se existeum fim para o conhecimento e também seexiste liberdade do conhecido.Coisa extraordinária é ameditação. Se existir algum tipo decompulsão ou esforço, afim de ajustaro pensamento, tratar-se-á deimitação, o que tornará tudo um fardofastidioso. O silêncio que é desejo,deixa de ser esclarecedor. Quando setorna busca de visões e experiências,então conduz à ilusão e à auto-hipnose. Somente por meio doflorescimento do pensamento e do seuconsequente término, a meditaçãopoderá ter significado. O pensamentosó pode florescer em liberdade e nãoatravés dos padrões sempre crescentesdo conhecimento. O conhecimento podeconferir novas experiências e umaenorme sensação, porém uma mente queprocura experiência de qualquer tipoé imatura. Maturidade é ser livre detoda a experiência, e deixarmos denos sujeitar à influência do ser e donão-ser. A maturidade da meditaçãoconsiste em libertar a mente deconhecimento, porque este molda econtrola toda a experiência. A menteque é uma luz para si mesma nãonecessita passar por nenhumaexperiência. Imaturidade é a ânsiapor experiências mais elevadas evastas, conquanto a meditação é oerrar pelo mundo do conhecimento e
  8. 8. 8ser livre dele para poder mergulharno desconhecido.Temos de descobrir por nós mesmos e nãoatravés de quem quer que seja. Tivemos aautoridade de mestres e salvadores mas, serealmente quiserdes descobrir o que é ameditação tereis de abandonar completamentetoda a autoridade.Não sei se alguma vez notastesque, quando prestais completaatenção, ocorre um estado desilêncio. Nessa atenção não existefronteira nem centro algum, comoaquele que se acha atento econsciente. Essa atenção, essesilêncio, é um estado de meditação.Meditar é transcender o tempo, tempo esseque é a distância que o pensamento percorrena sua realização. Esse percurso está sempreconfinado ao "velho" modo, sendo feito comuma vestimenta nova, com umas novas vistas,porém sendo sempre a mesma estrada queconduz a lado nenhum - exceptuando à dor eao sofrimento. Somente quando a mentetranscende o tempo é que a verdade deixa deser uma abstracção. Então a benção deixa deser uma ideia derivada do prazer e torna-seuma realidade não verbal. O esvaziamento dosconteúdos temporais da mente constitui osilêncio da verdade, e percebê-lo é agir;desse modo não há divisão entre o ver e ofazer, pois nesse intervalo nasce todo oconflito, tristeza e confusão. Aquilo quenão possui tempo é Eterno.A meditação não é um meio para umfim, mas ambos: meio e fim.
  9. 9. 9A meditação, que é a destruição dasegurança, possui uma enorme beleza - não abeleza das coisas reunidas pelo homem nempela natureza mas a beleza do silêncio. Essesilêncio é o vazio a partir do qual todas ascoisas ocorrem e em que passam a existir. Eleé incognoscível. Nem o intelecto nem asensação podem abrir caminho para o atingir etodo o método para esse efeito é invenção doespirito de cobiça. Todos os caminhos e meiosdo "eu" calculista devem ser completamentedestruídos; todo o avanço e recuo - cujosprocedimentos pertencem ao tempo - devemterminar, sem conhecimento do amanhã.Meditação é destruição - é um perigo paratodos quantos desejem levar uma vidasuperficial, uma vida de imaginação e mito.A meditação da mente que seencontra completamente silenciosaconstitui a benção que o homem sempreprocurou. Nesse silêncio ocorre averdadeira diferença.A meditação não tem começo nem fim. Nela nãoexiste realização nem insucesso, nem arrecadaçãonem renúncia. É um movimento sem finalidade alémdo espaço e do tempo. Experimentá-la equivale anegá-la, porque aquele que experimenta está ligadoao tempo e ao espaço, ligado à memória e aoreconhecimento. O terreno para a verdadeirameditação está nessa consciência passiva que éliberdade total da autoridade e da ambição, dainveja e do medo. A meditação não possui qualquersentido- qualquer que seja o significado que selhe dê- sem esta liberdade nem auto-conhecimento.Enquanto subsistir uma forma de escolha não poderáexistir auto-conhecimento.A escolha implica conflito, conflito que impedea compreensão do "que é". Vaguear em torno de
  10. 10. 10fantasias ou de credos românticos não é meditação.O cérebro deve despir-se de todo o mito, de toda ailusão e segurança, e enfrentar a realidade dafalsidade de tudo isso. Não existe distracção;tudo é um movimento da meditação.A flor está tanto na forma como no perfume, nacor e na beleza; num todo. Agora, despedaçai-a empedaços, seja verbalmente ou por via de facto eela deixará de ser uma flor mas somente alembrança do que era- o que certamente não é aflor.A meditação é a ausência daconsciência resultante do tempo e doespaço. O pensamento, como cerne daconsciência, não pode de formanenhuma provocar este silêncio. Otérmino desse intrincado e subtilmecanismo deve ser espontâneo, semdepender de nenhuma recompensa nemgarantia. É o único modo de o cérebropermanecer sensível vital e sereno.Faz parte da meditação o cérebrocompreender as suas actividadessuperficiais e ocultas; nissoconsiste a base da meditação, sem oque ela se torna uma actividade vaziade significado, conducente à auto-ilusão e à auto- hipnose. O silêncioé essencial para que ocorra aexplosão da criação.A meditação floresce na bondade. Sem serpropriamente virtude- cujo lento cultivo exigetempo- nem ser expressão de respeitabilidadesocial e sem representar a chancela da autoridade,a beleza da meditação está no perfume do seudesabrochar. Como poderá haver alegria nameditação se ela provir do desejo e do sofrimento?Como poderá ela florir se a procurarmos através docontrole, da repressão ou do sacrifício? Comopoderá desabrochar das sombras do medo ou da
  11. 11. 11ambição, do desejo de fama? Como poderá florescerà sombra da esperança ou do desespero? Tudo issodeve ser abandonado de modo espontâneo e natural,sem remorsos.A meditação não se presta a erguer muros de defesaou de resistência, para em seguida fenecerem;tampouco é ela talhada segundo um método ousistema. Qualquer sistema padroniza o pensamento,mas todo o conformismo impede o florescer dameditação. Para que ela desabroche é preciso haverliberdade e findar daquilo que é. Sem liberdadenão há auto-conhecimento, e sem auto-conhecimentoa meditação não pode ocorrer. Por mais vasto queseja o alcance do pensamento em sua busca deconhecimento, ele continuará a ser estreito emedíocre. A meditação não reside no processoaquisitivo e expansivo do saber, mas viceja naliberdade total, e termina no desconhecido.A meditação não tem assento notempo. O tempo não pode produzir amutação; pode produzir uma mudança,mas toda a mudança necessita, por suavez, de nova mudança; do mesmo modoque toda a reforma. A meditação quebrota do tempo é sempre factor delimitação, e nisso não pode haverliberdade nenhuma; mas sem liberdadesempre haverá necessidade de escolhae conflito.Perceber é fazer. O intervalo existente entre operceber e o fazer é perda de energia- de quenecessitamos para perceber- que em si mesmo éfazer.Ser mundano é evitar o mundo.Morrer significa amar. A beleza doamor não reside nas recordações do
  12. 12. 12passado nem nas imagens do amanhã. Oamor não tem passado nem futuro;aquilo que o tem é a memória. Opensamento é prazer, coisa que não éamor. O amor e a paixão residem bempara além do alcance da sociedade,que sois vós. Morram e estarápresente.A meditação é aquela luz da mente que clareia ocaminho para a acção. Sem essa luz não pode haveramor.A meditação é um movimento no e dodesconhecido. Nós não estamospresentes mas somente o seumovimento. Somos demasiadoinsignificantes ou grandiosos, muitoou pouco significativos para o seumovimento. Ele não possui nada naretaguarda nem na sua frente. É essaenergia que o pensamento, enquantomatéria, não pode tocar. O pensamentoé perversão, pois é um produto doontem; preso na labuta dos séculos é,consequentemente confuso e obscuro.Façam o que fizerem, o conhecido nãopoderá esticar o "braço" para tocar odesconhecido. E a meditação constituium acto de morrer para o conhecido.Meditar é perceber o que é, e transcendê-lo.Olhem e escutem em silêncio. Osilêncio não é o término do ruído; oclamor incessante da mente e docoração não sofre término nosilêncio. Não se trata do produto ouresultado do desejo, nem pode ser
  13. 13. 13congregado pela vontade. Aconsciência no seu todo é ummovimento incansável e ruidosoestabelecido dentro das fronteiras dasua própria formação. Dentro destas,o silêncio e a quietude representam otérmino momentâneo da tagarelice,porém trata-se de uma qualidade desilêncio tocada pelo tempo. O tempo émemória, e nele o silêncio pode sercurto ou extenso porque ele podemedi-lo, dar-lhe espaço econtinuidade; e nesse caso torna-senuma outra forma de entretenimento.Todavia isso não é silêncio. Tudo oque for congregado pela acção dopensamento ainda se encontra dentroda área do ruído, mas o pensamentonão pode, de modo nenhum, tornar-setranquilo. Ele pode construir umretracto do silêncio, e dar-lhe formae adorá-lo, do mesmo modo que faz comtantas outras imagens da sua criação.Mas a forma desse silêncio é a suaprópria negação; os seus símbolosrepresentam a verdadeira negação darealidade.O pensamento deve permanecer imóvelpara que o silêncio possa ocorrer. Osilêncio é sempre novo mas opensamento não é, e sendo "velho"provavelmente não poderá penetrar nosilêncio que se renovaconstantemente. Se o pensamento tocaro novo, este tornar-se-á velho.Olhem e comuniquem neste silêncio. Overdadeiro anonimato é procedentedesse silêncio; não existe outraforma de humildade. Os vaidosos serãosempre vaidosos ainda que enverguemos trajes da humildade, que os tornaásperos e frágeis.Neste silêncio, a palavra amoradquire um significado completamente
  14. 14. 14diferente. Este silêncio não estáacolá mas onde o observador estiverausente.Somente a inocência pode ter ardência. Oindivíduo inocente não sofre, pois não encerrasofrimento nenhum, muito embora possa tervivenciado um milhar de experiências. Não são asexperiências que corrompem a mente mas aquilo quedeixam para trás, os resíduos e as cicatrizes elembranças que se acumulam e amontoam e dessemodo dão origem à mágoa. Esse sofrimento é tempo,e onde existir tempo não pode haver inocência.A paixão não nasce da infelicidade; esta consistena experiência da vida diária, uma vida de agoniae de todo um molhe de prazeres, medo e incerteza.Não podemos escapar das experiências porém não épreciso que elas criem raízes no solo da mente;essas raízes fazem despertar problemas, conflitose luta constante. Mas não há saída disso exceptopelo morrer a cada dia para todo o passado.Somente a mente que possui clareza de entendimentopode ser apaixonada. E sem paixão não podemoscontemplar a brisa por entre a folhagem nem oresplendor do brilho da luz na água. Sem paixãonão existe amor.O amor só pode existir quando opensamento permanece imóvel. Essaimobilidade não pode ser criada demodo nenhum pelo pensamento. Opensamento só pode juntar imagens,fórmulas e ideias, porém estaquietude não pode ser tocada pelopensamento. Este é sempre velho aopasso que o amor não.O organismo físico possui a sua própriainteligência, que é entorpecida pelos hábitos doprazer. Esses hábitos destroem a sensibilidade doorganismo, o que por sua vez entorpece a
  15. 15. 15sensibilidade da mente. Uma mente assim podepermanecer alerta numa determinada direcçãoestreita e limitada e, ainda assim, serinsensível. A profundeza de uma mente assimencerrada dentro das ilusões e imagens, émensurável. A sua própria superficialidade é o seufulgor. Para meditarmos precisamos de ter oorganismo leve e inteligente. A relação entre oorganismo e a mente meditativa assenta numajustamento constante, pela sensibilidade. Porquea meditação necessita de liberdade, e esta é a suaprópria disciplina. Somente em liberdade podehaver atenção. Possuir consciência da desatenção éestar atento. A completa atenção é amor. Só elepode perceber, e o perceber é fazer.O desejo e o prazer culminam nador. Mas o amor não contém dor. Opensamento que dá continuidade aoprazer, esse sim, contém a dor, efortalece-a. O pensamento estápermanentemente em busca do prazer,desse modo convidando o sofrimento. Avirtude cultivada pelo pensamento é anatureza do prazer, em que residem oesforço e toda a aquisição.O desabrochar da bondade não se achano terreno do pensamento mas sim naliberdade da dor. O término da dor éamor.Aquilo que temos estado a fazer é parte dameditação. Tudo o que temos de fazer consiste emobter consciência do pensador e não tentarresolver a contradição, mas produzir integraçãoentre o pensamento e o pensador.O pensador é a entidade psicológica que acumulouexperiência na qualidade de conhecimento; ele é ocentro, limitado pelo tempo, resultante daconstante influência ambiental, e a partir dessecentro ele olha, pensa e experimenta. Enquanto nãoentendermos a estrutura e anatomia desse centro
  16. 16. 16sempre deverá existir conflito, mas uma mente emconflito não poderá entender a profundidade nem abeleza da meditação.Na meditação não pode haver pensador, o quesignifica que o pensamento deve findar; essepensamento que é impelido a seguir em frente, pelodesejo de adquirir um resultado. A meditação nadatem que ver com o alcance de um resultado, nem équestão de respirar de modo particular, nem olharpara o nariz, nem despertar poder para executardeterminados truques nem qualquer tolice ouimaturidade dessas. A meditação não é uma coisaapartada da vida; quando conduzimos um carro ounos sentamos no autocarro, quando conversamos semnenhum assunto, ou quando caminhamos muitorecatadamente pelo bosque ou observamos umaborboleta a ser levada pelo vento e prestamosatenção a tudo isso sem escolha, isso faz parte dameditação.Sem meditação não existe auto-conhecimento, e sem isso não hámeditação; desse modo devemos começarpor saber o que somos. Não podemos irlonge se não começarmos perto, semcompreendermos o processo diário dopensamento, do sentimento e da acção.Por outras palavras, o pensamentodeve entender o seu funcionamento;devemos poder perceber como opensamento funciona dentro do campodo conhecido. Não podemos pensar comrespeito ao desconhecido. Aquilo queconhecemos não é real porque oobjecto do conhecimento só existe notempo.Ser-se livre da rede do pensamento éa preocupação mais importante e não opensar acerca do desconhecido. Amente é o resultado do processo dopensamento, resultante do tempo, e oprocesso do pensamento deve findar. Amente não pode pensar naquilo que é
  17. 17. 17eterno e sem tempo; portanto, a mentetem de ser livre do tempo, o processotemporal da mente deve serdissolvido. Só quando a mente estiverliberta completamente do ontem, edeixa de usar o presente como meiopara alcançar o futuro, será capaz dereceber o eterno.Portanto, o nosso interesse nameditação reside no conhecimento denós próprios, não só superficialmentecomo todo o conteúdo da consciênciaoculta igualmente, a consciênciainterior.Sem conhecimento de tudo isso e semsermos livres do seu condicionamentoprovavelmente não podereisultrapassar os limites da mente. Épor isso que o processo do pensamentodeve cessar, e para tal tem que haverauto-conhecimento. A meditação é ocomeço da sabedoria; a compreensão danossa mente e coração.Meditar é ser-se inocente com relação ao tempo.A meditação não é um escape do mundo, nem é umaactividade fechada sobre si mesma, isoladora, masconsiste na compreensão do mundo e nas suasexpressões. O mundo possui muito pouco a ofereceraparte a alimentação, roupas e abrigo- e o prazer,com seus enormes tormentos. Meditar é vaguear paralonge deste mundo; temos de ser completamenteestranhos a ele, porque nesse caso o mundo adquiresignificado e a beleza dos céus e da terra torna-se uma constância. Então o amor deixa de serprazer; daí provém toda a acção que não consistenum produto da tensão, nem da contradição, dabusca de auto-preenchimento nem do conceito depoder.Se tomarmos uma atitude deliberadaa fim de meditarmos isso tornar-se-á
  18. 18. 18num brinquedo da mente. Se nosdeterminarmos a pôr fim á confusão eá tristeza da vida isso tornar-se-áuma experiência da imaginação, masnão meditação. Tanto a menteconsciente como a inconsciente nãodevem tomar parte no seu processo;não devem nem mesmo ter noção daextensão da beleza da meditação,porque se tiverem, bem que podeis irver uma novela romântica, que terá omesmo valor.Na atenção total da meditação não hálugar para o saber, para oreconhecimento nem para a lembrançado que ocorreu. Tanto o tempo como opensamento terão terminadocompletamente, porque isso forma ocentro que delimita a sua própriapercepção. Num momento de clareza opensamento desvanece-se mas o esforçoconsciente para o experimentar –e asua lembrança- consiste na palavra doque foi. A palavra nunca é o factoactual. Nesse momento, que nãopertence ao tempo, o fim é oimediato, mas esse fim não temsímbolo, e não pertence a nenhumapessoa, a nenhum deus.Meditar é descobrir a existência de um camponão contaminado pelo conhecido.Meditação é o desabrochar dacompreensão; esta não se situa noslimites do tempo, porque o tempojamais trará entendimento. Acompreensão não é um processo gradualde reunir pouco a pouco, através dapaciência e do cuidado. A compreensãoé agora ou nunca; é um clarãodestrutivo e não uma coisa insípida.
  19. 19. 19Tememos esse despedaçar e por isso,consciente ou inconscientementetratamos de o evitar.A compreensão pode alterar todo ocurso da nossa vida, o modo depensarmos e agirmos. Pode seragradável ou não, porém, constitui umperigo para todo o relacionamento.Mas sem compreensão o sofrimento sótrará continuidade; o sofrimentotermina unicamente por intermédio doauto-conhecimento- o conhecimento detodo o pensamento e sentimento, todoo movimento do consciente e daquiloque permanece oculto. A meditação é acompreensão da consciência- a ocultae a exposta, bem como a compreensãodo movimento que reside para além detodo o pensamento e sentimento.Nós dificilmente escutamos o latido de um cão,o choro de uma criança ou sequer o riso do homemque passa. Separamo-nos de tudo e nesse isolamentoobservamos e escutamos todas as coisas Talseparação é destrutiva por conter em si todo oconflito e confusão.Se escutardes o som daqueles sinos com um silênciocompleto, viajareis através dele, ou melhor, o somtransportar-vos-á pelo vale e para além da colina.A beleza disso só pode ser sentida quando vós e osom não estão separados, mas fazeis parte dele.Meditação é o fim dessa separação sem ser peloacto da vontade nem do desejo; a meditação não éuma coisa separada da vida, mas a própria essênciada vida, do viver diário. Escutar aqueles sinos ouo riso daquele camponês que passa com a suamulher, escutar o som da campainha de bicicleta damenina que passa- isso é toda a vida que ameditação expõe e não somente um fragmento dela.A meditação é a acção do silêncio.
  20. 20. 20Meditação é a liberdade do pensamento; ummovimento no êxtase da verdade.A meditação é a total libertação da energia.A crença é tão desnecessária quanto o são osideais. Ambos dissipam a energia necessária para oacompanhamento do desdobramento daquilo "que é".Tanto as crenças como os ideais são evasivos dofacto, mas pelo escape não pode haver fim para osofrimento. O fim do sofrimento está nacompreensão do facto, momento a momento. Nãoexiste sistema nem método que possibilite talcompreensão; somente através da consciência semescolha de um facto, isso acontecerá. A meditaçãoque segue um sistema consiste no evitar o facto doque sois. Mas é infinitamente mais importantecompreender-vos a vós mesmos- sobre a constantemudança acerca de vós próprios- do que meditar afim de encontrar Deus ou obter visões, sensaçõesou ouras formas de entretenimento..Na meditação não existe sequência,nem continuidade, porque isso implicatempo, espaço e acção dentro dessecampo. A nossa mente estácondicionada a aceitar o tempo e oespaço mas nesse movimento a acçãoproduzirá sempre contradição e,portanto, conflito. Assim é a nossavida!Mas poderá a acção alguma vezlibertar-se do tempo, de modo que nãoresulte arrependimento nemantecipação (o movimento de buscapara a frente ou para trás) da acção?Perceber é agir. Não se trata de-primeiro perceber e depois agir, masantes um perceber que em si mesmo éacção; não existe elemento nenhum de
  21. 21. 21tempo nisso, de modo que a mente ésempre livre.Esta manhã a qualidade da meditaçãoera inexistente, esvaziamento totaldo tempo e do espaço. Isso era umfacto e não uma ideia nem um paradoxoda especulação contraditória.Sentimos essa estranha vacuidadequando a raiz de todos os problemasse desvanece. Essa raiz é opensamento, o pensamento que divide esustenta. Na meditação a mente torna-se verdadeiramente vazia do passado,porém pode utilizar esse passado comopensamento. Isso ocorre o dia todo edurante a noite o sono consiste noesvaziamento do ontem, e portanto amente raia aquilo que é intemporal.Tratava-se na verdade de um rio maravilhoso detão largo e profundo, rodeado de cidades nas suasmargens, tão descuidado e livre sem jamais seabandonar! Vivia-se toda uma vida nas suasmargens, com campos verdes, florestas, casassolitárias, morte e destruição; lá se situavamalgumas pontes largas e compridas graciosas, bemempregues. Outros ribeiros e rios se lhejuntavam, porém tratava-se do rio principal entreos mais pequenos e os muito grandes. Caudalosoestava em perpétuo movimento de auto-purificação;era uma benção ver as suas águas douradas aoentardecer, por entre nuvens profusamentecoloridas. O pequeno fiozinho de água, lá aolonge, por entre aquelas rochas gigantes quepareciam tão compenetradas em dar-lhe berço,constituía o começo da sua vida, enquanto que oseu término se situava para lá das suas margens,no mar. A meditação era aquele rio, só que nãotinha começo nem fim; tivera início, e o seutérmino seria o próprio começo. Não existia causae o seu movimento era a sua renovação. Era semprenova e nunca juntava para quando fosse velha, nemjamais se via manchada, por não ter raízes no
  22. 22. 22tempo. É bom meditar sem esforçar- sem esforçonenhum, aliás- começando como um pequeno fio eindo além do tempo e do espaço onde o pensamento eo sentimento não podem entrar e onde não háexperiência.A meditação não é nunca oração; aoração, a súplica, nasce da auto-piedade. Oramos quando estamos emdificuldades ou quando existesofrimento, porém, quando sentimosfelicidade e alegria não há súplica.Essa auto-piedade tão intensamenteembutida no homem, é a raiz daseparatividade. Tudo quanto estáseparado, ou pensamos ser separado-mesmo pela procura de identificaçãocom algo que não o seja- trarásomente mais divisão e dor. Dessaconfusão fazemos brotar o nossoclamor para os céus, para o nossomarido ou para uma divindade damente; esse choro pode encontrar umaresposta, porém essa resposta será umeco da auto-piedade, em meio a essaseparatividade. O isolamento dopensamento sempre se situa dentro docampo do conhecido; a resposta áoração é a resposta do conhecido. Ameditação está longe disso; no seucampo não pode o pensamento penetrar.Não existe separatividade e, comotal, identidade nenhuma. A meditaçãoestá na abertura; nela o secretismonão tem lugar. Tudo permanece expostoe claro. Então, surge a beleza doamor.A meditação não constitui um meio para um fim;antes, é um movimento tanto no tempo como foradele. Todo o sistema ou método alia o pensamentoao tempo. No entanto, a consciência sem escolha de
  23. 23. 23cada pensamento ou sentimento, bem como acompreensão dos seus motivos e do seu mecanismo-ao permitindo-lhe florescer- é o campo dameditação. Quando o pensamento e o sentimentodesabrocham e morrem, a meditação torna-se omovimento além do tempo. E nesse movimento existeêxtase. No esvaziamento completo existe amor, ecom amor existe destruição e criação.A ambição é isolamento. A ambiçãoindividual ou colectiva sob qualquerforma conduzirá inevitavelmente aoantagonismo e a ódios auto-encarceradores. Quando a família setorna sobremodo importante, entãoisso vai de encontro ao vizinho dolado ou ao vizinho de longe, e atentacontra a humanidade. Ambição porcoisas mundanas ou pela diferença é amesma coisa, embora pareça diferente.A natureza da ambição é conflito maso conflito, sob qualquer forma que seapresente, põe fim á bondade e aoamor. A ambição e o amor não podemcoexistir. Como pode a beleza estarrelacionada com o homem ambicioso? Sóhá beleza quando a vista não écontaminada pelo pensamento, pois abeleza é a própria essência do vaziodo pensamento. A beleza não é umaexperiência nem uma sensação deprazer. A beleza, do mesmo modo que oamor, é o abandono total do centro. Abeleza, o amor e a morte sãoinseparáveis; num estão os outros.A austeridade não é cruel, agressiva ou brutal;a sua expressão exterior pode não ser discernível;se for, pode fazer parte integrante desse circoque o homem cultiva com tamanha diligência.A austeridade é um movimento interior e não umacondição. Uma coisa viva é difícil de estudar mas
  24. 24. 24uma morta não; uma coisa morta pode ser copiada.Necessitamos de austeridade interior se quisermosabandonar completamente toda a maquinaria doconflito- o eu. Sem tal liberdade não pode haveramor; e sem amor não pode existir beleza.Exclusão não é privacidade; onde existeprivacidade não há exclusão. Construir um muro deresistência em torno de nós é isolar-se, porémisso não confere a privacidade que se necessita.Porque, com a privacidade começamos a descobrir osmovimentos dos nossos próprios pensamentos esensações. Nessa privacidade as portas dapercepção abrem-se completamente.Existe uma beleza além daquela queos olhos percebem. A beleza que oolho percebe é bastante pobre esuperficial; os seus juízos sãoestreitos e limitados. Aquilo que elevê é condicionado por memórias, e écomparativo. Aquela beleza que não émera beleza da vista não se encontrana natureza nem nos livros, nosretratos, no templo nem na Igreja,mas está fora, além disso tudo. Paraa poderdes alcançar tendes de avançarpara onde nem o pensamento nem oprazer podem chegar.O amor jamais equivale ao prazer; no prazersubsistem a dor e o medo, porém, o prazer jamais ébeleza. A mente que procura divertimento no amorencontrará a excitação do pensamento e as imagensque ele construiu. O amor não pode ser induzidopelo pensamento, mas quando o é, é sensação edesejo. Mas o desejo não é amor. O desejo procuraa satisfação sensorial ou intelectual, porém não éamor. O pensamento e o amor jamais se poderãoencontrar; ambos os movimentos são diferentes e umdestrói o outro.
  25. 25. 25A crença é superstição. Aquilo queé, o facto não necessita de crençanem de conclusão nenhuma. Contudoisso impede a percepção do que é. Ofacto importa infinitamente mais, enão a conclusão daí tirada. Asactividades da conclusão sãototalmente diferentes da acção do queé. Esta acção trás liberdade; a outraé sujeição ao tempo.A meditação não é a acção da experiência. Seprocurais experiências mais amplas e intensassegui e obedecei. Toda a experiência chega ao fimporém a ânsia e a dor permanecerão. O fim dosofrimento é o começo da sabedoria- a qual não écongregada pela experiência; a experiência sófortalece e cumula o conhecimento. Onde há amorexiste sabedoria.Através do nosso próprioconhecimento- das nossas actividades,dos diálogos sem fim, das nossasimaginações e caprichos- toda a rededa sua acção - está o fim dosofrimento. O sofrimento impede aclareza. A meditação é essa clarezaem que não existe divisão. O oposto éproduto da confusão.O sentimento é coisa do pensamento; não podeexistir separada do pensamento. Mas existirá mesmosentimento? O amor não tem sentimento pois este éemotividade, sentimentalismo, devoção, apego,fúria, etc. O amor não possui qualidade nematributos. O amor não é sensação nem prazer; nelenão existe a labuta do tempo. O amor constitui asua própria acção e a sua própria eternidade.
  26. 26. 26Eu posso continuar a descrever ameditação, porém a descrição não é acoisa descrita. Se vos chegardes aela, pode tratar-se da coisa maismaravilhosa. Cabe a vós aprender ounão tudo sobre ela, olhando para vós,mas nenhum livro nem professor poderáensinar-vos acerca disso. Nãodependais de ninguém nem vosassocieis a organizações espirituais,pois temos de aprender tudo isso pornós mesmos. Desse modo a menteaprenderá coisas incríveis. Mas paraisso não pode haver fragmentação masimensa estabilidade, ligeireza,mobilidade. Para uma mente assim nãoexiste espaço e desse modo o viverpossui um sentido completamentediferente.Uma vez tenhais lançado o fundamento davirtude- o qual representa ordem norelacionamento- pode chegar a ocorrer essaqualidade de amor e morte, que perfaz toda a vida.Então a mente torna-se extraordinariamentesilenciosa- naturalmente, e não forçada aosilêncio pela supressão, disciplina ou controlo, eesse silêncio é imensamente rico. Para lá dissonenhuma descrição ou palavra é importante. Então amente deixa de inquirir sobre o absoluto por nãonecessitar de o fazer, porque nesse silêncioexiste aquilo que é. E tudo isso constitui abenção da meditação.Aquela varanda perfumada, com amadrugada ainda longínqua e asárvores silenciosas, era a essênciada beleza. Porém, essa essência não épassível de ser experimentada; todo oexperimentar deve cessar porque a
  27. 27. 27experiência só fortalece o conhecido.O conhecido nunca é essa essência.A meditação não representa umacréscimo de experiência; não sóconstitui o término da experiência-que é a resposta ao desafio- grandeou pequeno- como é também a aberturada porta a essa essência, como queexpondo um forno que destróicompletamente sem deixar cinzas nemnada. Nós somos os resíduos, aafirmação de um milhar de ontempassados, uma contínua série dememórias sem fim, feita de escolha edesespero. O "eu", grande ou pequeno,é o padrão da nossa existência, eesta é pensamento; pensamento éexistência, com sua infinita dor.O pensamento consome-se na chama dameditação, e com ele o sentimento,pois que de ambos, nenhum é amor. Semamor não existe essência; sem isso sóexiste cinzas- no que se baseia anossa existência. O amor está foradesse vazio.Nenhuma pílula dourada chegará alguma vez aresolver os problemas humanos; estes só poderãoser resolvidos produzindo uma revolução radical namente e no coração do homem. Isso exige umtrabalho árduo e constante, muita observação eatenção; exige que sejamos diligentes nessesentido, e imensamente sensíveis. A mais elevadaforma de sensibilidade é também a supremainteligência; jamais droga alguma inventada pelohomem- em tempo algum- poderá conferir essainteligência. Sem esta inteligência não pode haveramor pois o amor é relação. Sem essa capacidade deamar o homem jamais poderá obter um equilíbriodinâmico. Tal amor não nos pode ser dado- sejapelo sacerdote, seja pelos deuses, filósofos ouqualquer droga dourada.
  28. 28. 28Existir, significa ser umestranho, não pertencer a nenhumacrença nem dogma, religião ou nação.É essa solitude que vai ao encontrode uma inocência que jamais foitocada pela malícia do homem. Tal é ainocência com que se pode viver nomundo, por entre todos os seustumultos, sem no entanto lhepertencermos. Não se reveste ela denenhuma forma particular. Oflorescimento da bondade não está emnenhum caminho, porque não há caminhopara a verdade.Meditação é o descobrimento do novo; o novoestá acima e além do passado repetitivo e ameditação constitui o término dessa repetição. Amorte que essa meditação ocasiona é a imortalidadedo novo. O novo não se encontra na área dopensamento, e a meditação é o silêncio dopensamento. A meditação não é uma aquisição, comonão o é a captura de uma visão, nem a excitação dasensação. É como um rio, indomado, transbordante eligeiro na sua corrente. É música sem som; nãopode ser domesticada nem utilizada. É silêncio emque o observador teve fim no próprio começo.Meditação é o estado mental queencara tudo com completa atenção, demodo total e não só por partes.A morte que a meditação produz é a imortalidadedo novo.Era de manhã cedo e o ambienteestava muito sereno, e nem um únicopássaro ou folha mexia.
  29. 29. 29A meditação que se iniciara emprofundezas desconhecidas econtinuara com intensidade eamplitude crescentes entalhou océrebro num silêncio total, escavandoas profundezas do pensamento edesenraizando o sentimento,esvaziando o cérebro do conhecido eda sua sombra. Era uma operação semoperador, sem cirurgião, que avançavaqual bisturi que corta um cancro,recortando todo o tecido contaminado,sem o que a contaminação poderiaalastrar de novo. Essa meditaçãoavançara por uma hora do relógio econstituía meditação sem meditador. Omeditador interfere com a suaestupidez e vaidade, ambição ecobiça. O meditador é pensamento,alimentado por estes conflitos eofensas, mas o pensamento tem decessar completamente na meditação.Isso forma a base para a ocorrênciade toda a meditação.A meditação naquela altura significavaliberdade e assemelhava-se a penetrar num mundo debeleza e quietude desconhecidos; era um mundo semimagens nem símbolos, nem palavras, nem ondas dalembrança. O amor era a morte de cada minuto ecada morte era a renovação do amor; não era apegoe não tinha raízes. Era uma chama que florescia econsumia as margens e cercas da consciênciacuidadosamente construídas, chama essa destituídade causa. Era uma beleza para lá do pensamento edo sentimento; não estava colocado na tela, empalavras nem no mármore. A meditação era alegria ecom ela veio a benção.Meditação não é concentração- comsua exclusão- um corte de separação,nem um acto de resistência ou
  30. 30. 30conflito. A mente meditativa podeconcentrar-se mas nesse caso não setrata de uma acto de exclusão nem deresistência; porém, uma menteconcentrada não é capaz de meditar.Na compreensão da meditação existe amor masesse amor não é o produto de sistemas nem dehábitos nem de seguir um método. O amor não podeser cultivado pelo pensamento. O amor pode talvezchegar a existir quando há completo silêncio, umsilêncio no qual o meditador está completamenteausente; mas a mente só pode ficar em silêncioquando compreende o seu próprio movimento comopensamento. Para compreendermos este movimento dopensamento e do sentimento não pode havercondenação na observação. Observar desse modo édisciplina e essa forma de disciplina é fluída elivre, e não a disciplina do ajustamento.A meditação é um movimento no e dodesconhecido. Vós não estais lá mastão só o movimento existe. Nós somosdemasiado insignificantes oudemasiado importantes para essemovimento. Ele não tem nada pordetrás nem defronte. É essa energiaque o pensamento e a matéria não podetocar. O pensamento é perversão poisé um produto do ontem; está preso nalida dos séculos e portanto é confusoe obscuro. Façamos o que fizermos, oconhecido não pode chegar aodesconhecido. Meditação é o terminardo desconhecido.As palavras "vós" e "eu" distinguem as coisas;essa divisão não existe nesta quietude e nesteestranho silêncio. À medida que olhávamos pelajanela parecia que o tempo e o espaço tinhamchegado ao fim, e o espaço que divide não tinha
  31. 31. 31qualquer realidade. Aquela folha, o eucalipto, aágua resplandecente não eram diferentes de vós.A meditação é realmente muito simples. Nóscomplicámo-la movendo uma teia de ideias em tornodisso- em termos do que seja ou deixe de ser-porém não se trata de nenhuma dessas coisas. Masporque é bastante simples escapa-nos, devido a queas nossas mentes sejam demasiado complicadas e seencontrem gastas, fundadas como estão no tempo.Essa mente define a actividade do coração, o quefaz com que o problema tenha origem. Contudo ameditação sobrevem naturalmente e comextraordinária facilidade quando caminhamos pelaareia ou olhamos por uma janela ou percebemos ascolinas maravilhosas queimadas pelo sol do verãopassado.Porque somos seres humanos torturados de lágrimasnos olhos e riso constrangido nos lábios? Sepudésseis percorrer a sós aquelas colinas ou osbosques, as extensas areias brancas, nessa solidãosaberíeis o que é a meditação. O êxtase da solidãosobrevem quando deixais de estar assustados porvos sentirdes sós- não mais pertencendo ao mundoou ao que seja, pelo apego. Então, à semelhança dodespontar do dia que sucedeu hoje, ele sobrevemsilenciosamente e traça um trilho dourado nopróprio silêncio, silêncio que existia noprincípio, que ocorre agora e que sempre existirá.O tempo é memória mas o êxtase édestituído de tempo. A benção dameditação não tem duração. A alegriatorna-se prazer quando instituímos acontinuidade. A benção da meditaçãoequivale a um segundo do relógioporém esse segundo contém todo omovimento da vida, destituído detempo- é um movimento sem começo oufim. Em meditação esse segundoequivale ao infinito.
  32. 32. 32Distanciai-vos. Distanciar-se do mundo de caose miséria e no entanto viver nele, imperturbados.Tal só é possível quando possuímos uma mentemeditativa, uma mente que vigilante para com aflor e a nuvem. A mente meditativa não estárelacionada com o passado nem com o futuro e noentanto é capaz de viver de forma sã com clareza esensatez neste mundo. Este é um mundo de desordem;a sua ordem é desordenada e a sua moral é imoral.A clareza não está lá fora para ser procurada nemordenada para ser usada neste mundo; quando issoocorre transforma-se em trevas. A natureza destaclaridade é o seu próprio vazio; porque é vazia, éclara- porque é negativa, é positiva. Distanciai-vos sem saber onde estais. Aí não existe nenhum"vós" nem " eles".A morte é somente para aqueles quepossuem um local de repouso. A vida éum movimento de relação e apego, e anegação deste movimento constitui amorte. Não tenhais abrigo externa neminternamente; possuís um quarto ouuma casa ou uma família porém nãopermitais que isso se torne umrefúgio, uma forma de evasão de vóspróprios.O porto de abrigo seguro que a vossamente construiu pelo cultivo davirtude, pela superstição da crença,pela capacidade astuta ou pelaactividade, conduzirá de modoinevitável á morte. Se pertencerdes aeste mundo e á sociedade a que estaisligado não podeis escapar á morte. Ohomem que morre na porta ao lado ou aum milhar de milhas de distância évós próprios; andou anos a preparar-se, com enorme zelo, para morrer,exactamente como vós. Ele chamou-a asi, exactamente como vós, através deuma vida de luta, sofrimento oualegre show divertido. Porém a morte
  33. 33. 33está sempre lá, á espreita,esperando; contudo, aquele que morrea cada dia está livre da morte.A maior parte de nós parece não dar suficienteimportância á meditação. Para a maioria trata-sede uma coisa passageira, da qual se espera algumgénero de experiência, qualquer conquistatranscendental, uma nova forma de preenchimentoonde todas as tentativas de preenchimentofalharam. A meditação torna-se um movimento auto-hipnótico no qual aparecem vários símbolos eprojecções; mas estes são uma continuidade daquiloque foi, talvez modificados ou aumentados, porémsempre numa área de satisfação.Tudo isso é bastante imaturo e infantil,desprovido de significado e situa-se não muitodistante da ordem (ou desordem) estabelecidaatravés de eventos passados.Tais factos tornam-se extraordinariamentesignificativos para a mente que se interessa peloseu próprio progresso, melhoria e expectativasdeterminadas para si própria. Quando a mente abrecaminho através de todo esse lixo- o que só podeocorrer através do auto-conhecimento- então aquiloque acontece não pode ser narrado. Até mesmo nosimples acto de as narrar, as coisas já sofrerammodificação. É como descrever uma tempestade; elajá está para lá das colinas e dos vales; então anarrativa torna-se algo pertencente ao passado, eportanto não mais aquilo que está a acontecer.Podemos descrever algo de modo acurado, como umevento, mas o próprio modo de descrever issotorna-se inadequado quando a coisa já se afastou.A exactidão da memória é um facto porém a memóriaé o resultado de algo que já ocorreu. Se a menteacompanha a corrente de um rio não tem tempo paraa sua descrição nem tempo para deixar que alembrança se forme. Quando esse género demeditação ocorre têm lugar numerosas coisas quenão são projecção do pensamento. Cadaacontecimento é totalmente novo no sentido de quea memória não o consegue reconhecer; e como não o
  34. 34. 34consegue reconhecer isso não pode ser traduzido empalavras nem memória. É algo que nunca aconteceuantes. Isso não é uma experiência; experiênciaimplica reconhecimento, associação e acúmulo, soba forma de conhecimento. É evidente que certospoderes são libertados mas estes tornam-se numenorme perigo enquanto a sua ocorrência tiverlugar na actividade auto-centrada. Quer taisactividades sejam identificadas com conceitosreligiosos ou com tendências pessoais.É absolutamente necessário que tenhamos liberdadedo "eu" para que a coisa real ocorra. Porém, opensamento é demasiado astuto eextraordinariamente subtil nas suas actividades, ea menos que estejamos tremendamente despertos edestituídos de escolha em meio a todas essassubtilezas e astutas buscas, a meditação torna-seuma questão de aquisição de poderes além dosmeramente físicos. Todo o sentido de importânciada acção do eu deve inevitavelmente conduzir áconfusão e á tristeza. Eis pelo que, antes deconsiderardes a meditação deveis começar com acompreensão de vós mesmos, a estrutura da naturezado pensamento. De outro modo perder-vos-eis eesbanjareis as vossas energias. Portanto, para irlonge deveis começar bem perto: o primeiro passo étambém o último.Meditação não é uma coisadiferente do viver do dia a dia; nãose abandonem num canto do quarto ameditar por dez minutos, para depoisdo acto saírem a comportarem-se comocarniceiros- tanto como uma metáforaquanto uma realidade. A meditação éuma das coisas mais sérias. Podeisfaze-la durante todo o dia noescritório, ou junto da família,quando dizeis a alguém "eu amo-te" ouquando vos interessais pelos vossosfilhos. Mas depois educais os vossosfilhos para se tornarem soldados epara matar, para se tornarem
  35. 35. 35nacionalistas e para adorarem abandeira, de modo a entrarem nestaarmadilha do mundo moderno.Se observarem tudo isso, e tomaremconsciência da vossa parte em tudoisso, isso fará tudo parte dameditação.E, se meditardes assim encontrareisnisso uma extraordinária beleza;actuareis correctamente em todas assituações mas, se não agirdescorrectamente num dado momento, issonão terá importância pois semprepodereis fazê-lo uma outra vez- masnão perdereis tempo com o remorso. Ameditação é parte da vida e não umacoisa diferente dela.Temos de alterar a estrutura da sociedade, suainjustiça e moral aterradoras, as divisões quecriou entre o homem, as guerras, a total falta deafecto e amor que aniquila o mundo. Se a vossameditação for somente uma questão pessoal, umacoisa de que desfrutais pessoalmente, nesse casonão se trata de meditação. A meditação implica umamudança completamente radical da mente e docoração mas isso só é possível quando existe esseextraordinário sentido de silêncio interior; sóisso produz a mente religiosa. Essa mente conheceo sagrado.A beleza significa sensibilidade-ter um organismo sensível, o queimplica regime alimentar correcto emodo correcto de viver. Então a mentetorna-se calma e inconsistente demodo inevitável e natural. Não podeistorná-la tranquila pois sois vós quelançais a discórdia. Vós própriossois perturbados, inquietados,confundidos- como podereis poistranquilizar a mente? Porém, quando
  36. 36. 36entendeis o significado do silêncio,quando entendeis a confusão, osofrimento, e se este alguma vezpoderá terminar, quando entendeis oprazer, dessa compreensão sobrevemuma mente extraordinariamentesilenciosa; não tendes de a procurar.Tendes de começar pelo princípio, e oprimeiro passo é também o último.Isso é meditação.A madrugada tardava; as estrelas aindabrilhavam e as árvores ainda se encontravam emretiro; não se ouvia um único chamado dos pássarosnem mesmo dos mochos pequenos, que à noite fazemruído a passar de árvore em árvore. Estava oambiente estranhamente sereno à excepção doquebrar das ondas do mar. Havia aquele odor dasmuitas flores e folhas em decomposição e solohúmido; o ar estava demasiado parado e aquele odorestendia-se por toda a parte. A terra esperava amadrugada e o dia porvir. Havia expectativa,paciência e uma estranha quietude.A meditação acompanhou esse silêncio que era amor;não o amor por alguma coisa ou por alguém, nem aimagem o símbolo, a palavra ou os retratos. Erasimplesmente amor sem sentimento nem sensação.Tratava-se de algo completo em si mesmo, desnudo,intenso, sem raiz nem direcção. O som daquelepássaro distante era esse amor; ele estava tantona direcção como na distância; estava lá sem temponem palavra. Não se tratava de uma emoção que sedesvanece e se mostra cruel; o símbolo e a palavrapodem ser substituídos porém não a coisa. Despidacomo era, achava-se completamente vulnerável eassim também indestrutível. Possuía o vigorinacessível daquela diferença, o incognoscível quese aproximava por entre as árvores e para além domar.A meditação era o som daquele pássaro que chamavano vazio e o marejar das ondas rebentando deencontro á praia. O amor só pode existir no maiscompleto vazio. A madrugada acinzentada lá estava
  37. 37. 37ao longe e no horizonte as silhuetas das árvorestornavam-se mais negras e intensas. Na meditaçãonão há repetição nem a continuidade do hábito; dá-se a morte de todo o conhecido e o florescimentodo desconhecido. As estrelas desapareciam e agoraas nuvens assomavam com o sol que se erguia.A meditação não é a repetição dapalavra nem a experiência de umavisão; tampouco reside no cultivo dosilêncio. Tanto as contas do rosáriocomo a palavra podem silenciar amente tagarela, porém, nessa actoexiste uma efeito auto-hipnótico. Masbem que podíamos do mesmo modo tomaruma pílula. A meditação implica nãonos envolvermos num padrão depensamento, nem encantamento deprazer. A meditação não tem começo e,portanto, não conhece fim. Sedisserdes: "começarei hoje mesmo acontrolar os meus pensamentos, asentar-me em silêncio numa postura demeditação, a respirar de modorítmico" então deixar-vos-eis apanharpelos truques com que nos enganamos.A meditação não é questão de nosdeixarmos absorver numa ideiaqualquer ou imagem grandiosa; isso sósilencia a mente durante algum tempo,como uma criança absorvida com umbrinquedo, silenciada por uminstante. Porém, assim que obrinquedo deixar de ter interesse,recomeçarão a inquietação e otumulto. A meditação não reside naperseguição de um caminho invisívelconducente a uma qualquer bençãoimaginária. A mente meditativa éobservação- olhar, atender e escutarsem a palavra, sem comentário e semopinião; ela é atenciosa para com omovimento da vida em toda a extensão
  38. 38. 38da relação, durante o dia todo. E ànoite, quando o organismo estiver emdescanso, tal mente não terá sonhos,por ter estado desperta durante todoo dia. Somente a mente indolente temsonhos; só a mente meio adormecidaprecisa das intimações dos própriosestados. Porém, à medida que a menteobserva e atende ao movimento doviver- tanto interior como exterior-sobrevem um silêncio que não ésuscitado pelo pensamento. Não setrata de um silêncio que o observadorpossa experimentar; se o fizer e oreconhecer como tal, não mais setratará de silêncio. Esse silêncio damente meditativa não se situa noslimites do reconhecimento, pois talsilêncio não tem fronteiras; sóexiste o silêncio em que o espaço dadivisão deixou de existir.No espaço que o pensamento cria em torno de simesmo não existe amor. Esse espaço divide o homemdo seu semelhante e nele está todo o vir a ser e aluta da vida; a agonia e o medo. A meditação é ofim desse espaço; o findar do eu. Então, orelacionamento adquire um sentido completamentediferente porque, nesse espaço, que não é criadopelo pensamento, o outro não existe, porque nósnão existimos. A meditação então não é aperseguição de uma visão, conquanto possa ter sidosantificada pela tradição. Ao contrário, é umespaço infinito onde o pensamento não podepenetrar. Para nós, o pequeno espaço criado pelopensamento em torno de si- que forma o "eu"- éextremamente importante, porque é tudo o que amente conhece, identificando-se ela mesma com tudoo que está contido nesse espaço. Mas na meditação,quando isso é compreendido, a mente pode penetrarnuma dimensão espacial em que acção é inacção.Desconhecemos o que o amor seja, porque nesseespaço criado pelo pensamento em torno de si, na
  39. 39. 39forma de eu, o amor é o conflito do eu e do não-eu. Esse conflito e tortura não são amor. Opensamento é a única negação do amor, e não podeentrar nesse espaço onde o eu não está presente.Nesse espaço existe a benção que o homem busca enão encontra. Ele busca-a dentro das fronteiras dopensamento mas o pensamento aniquila a benção- oêxtase dessa benção.A percepção sem a palavra, sem opensamento, é um dos fenómenos maisestranhos, pois é muito mais viva;não somente a percepção com o cérebromas com todos os sentidos. Essa não éfragmentária como a do intelecto e adas emoções. Pode ela ser chamadapercepção total, e faz parte dameditação. Percepção na meditação semaquele que percebe significa comungarcom a elevação e a intensidade doImenso. Tal percepção é inteiramentediversa da visão de um objecto sem oobservador porque no percebimento dameditação não há objecto e portantonão há experiência.A meditação pode, contudo, ocorrerquando os olhos estão abertos e nosencontramos cercados por objectos detodo o género. Mas nesse caso, essesobjectos não adquirem importânciaabsolutamente nenhuma. Percebemo-los,mas não se dá nenhum reconhecimento,o que significa que não há nenhumacto de experimentar.Que significado tem tal meditação?Não possui significado nenhum; nãotem qualquer utilidade. Mas nessameditação dá-se um movimento de umenorme êxtase que não deve serconfundido com prazer. Este êxtaseconfere a qualidade de inocência àvisão, ao cérebro e ao coração. Semuma percepção da vida como uma coisa
  40. 40. 40completamente nova ela torna-se umarotina e um aborrecimento, uma coisasem sentido nenhum. Assim, ameditação é da maior importância.Ela abre a porta para o indefinível eo imensurável.Quando estendeis o olhar por todo o horizonte,os olhos percebem o vasto espaço que contém todasas coisas do céu e da terra. Tal espaço é semprelimitado pela linha que divide a terra do céu; oespaço da mente é muito limitado. Todas as nossasactividades parecem ter lugar nesse pequenoespaço: o viver diário e as lutas ocultas pormotivos e desejos contraditórios. Nesse pequenoespaço a mente busca liberdade e assim torna-sesempre prisioneira de si mesma. A meditação é otérmino desse pequeno espaço. Para nós a acçãoconsiste em produzir ordem nesse pequeno espaço damente. Mas existe outra acção que não está em pôrordem nesse pequeno espaço; o espaço vasto que amente e o eu não pode alcançar é o silêncio. Amente nunca poderá ficar em silêncio por si mesma;só alcançará o silêncio nesse vasto espaço que amente não consegue tocar. A partir desse silênciohá acção que não pertence ao pensamento. Meditaçãoé esse silêncio.A meditação é uma das coisas maisextraordinárias, mas se não souberdeso que seja sereis como um cego nummundo de cores vivas, sombras e luzcambiantes. Não se trata de umaquestão intelectual mas do coraçãopenetrar a mente esta adquirir umaqualidade bastante diferente; eentão, torna-se realmente ilimitada,não somente na capacidade de pensar eagir eficientemente como também nosentido de viver num vasto espaço emque fazeis parte de tudo. A meditaçãoé o movimento do amor. Não se trata
  41. 41. 41do amor de um ou de muitos mas doamor que se assemelha à água, quecada um pode beber por qualquerjarro, seja de barro ou de ouro: éinesgotável. E acontece uma coisapeculiar que nenhuma droga nem auto-hipnose pode produzir: a mente comoque penetra em si mesma, começando nasuperfície e avançando fundo, até queprofundidade e elevação tenhamperdido todo o seu sentido e toda amedida tenha cessado. Nesse espaçoexiste paz total- não o contentamentoque sobrevem com a gratificação, masuma paz que contém ordem, beleza eintensidade. Essa paz pode serdestruída do mesmo modo como podeisdestruir uma flor mas apesar de tudo,devido à sua vulnerabilidade torna-seindestrutível.Essa meditação não pode ser aprendidacom ninguém; deveis começardesconhecendo tudo sobre ela, emover-vos no campo da inocência. Ocampo em que a mente meditativa podeter início é o campo da vida de todosos dias: o conflito, a dor e aalegria fugaz. Ela deve começar aproduzir ordem aí, e a partir daímover-se infinitamente. Mas se vosempenhardes somente noestabelecimento da ordem então essamesma ordem produzirá a sua próprialimitação, e a mente será suaprisioneira. Em todo este movimentodeveis, de algum modo, começar da"outra ponta"- da outra margem- e nãoestar sempre preocupado com esta, oucom "como atravessar o rio". Deveisdar um mergulho nessa água sem sabercomo nadar. Além disso a beleza dameditação está em nunca saberdes ondeestais nem onde ides, nem qual o fim.
  42. 42. 42Surgirá uma nova experiência através dameditação? O desejo de experiência- a experiênciamais elevada que se situa acima e além do diário edo vulgar é o que mantém esse estado deflorescimento vazio. A ânsia de mais experiências,visões, percepções mais elevada, uma ou outraforma de realização, isso leva a que a mente olhepara o exterior, o que não é distinto da suadependência do meio em que se insere e daspessoas.A parte curiosa da meditação é a de que umaocorrência não se transforma em experiência;situa-se ali, tal como uma nova estrela nos céus,sem que a memória se aposse dela e a sustente esem o processo habitual do reconhecimento, emtermos de preferência ou aversão. A nossa busca ésempre extrovertida: ao buscarmos uma experiênciaqualquer a mente é sempre extrovertida.Introspecção significa não buscar, absolutamente;mas sim perceber. A resposta é sempre repetitivaporque procede sempre do mesmo "banco de dados" damemória.Após aquelas chuvadas as colinasachavam-se esplendidas; ainda estavamqueimadas pelo sol do Verão, masagora todas as coisas verdesbrotariam de novo. Tinha chovidofortemente mas a beleza dessascolinas era indescritível. O céuainda se achava nublado e no arpairava um odor a sumagre, salva eeucalipto.Era esplêndido encontrarmo-nos emmeio a isso, possuídos por umaestranha calma. Ao contrário do mar,que ficava lá longe e embaixo,aquelas colinas encontravam-secompletamente calmas. À medida queobservávamos tudo ao redor, naquelecasa, tínhamos deixado para trás- asnossas roupas, os nossos pensamentos
  43. 43. 43e todos os estranhos modos de vida.Aqui viajávamos muito leves semnenhum pensamento, sem nenhum fardo ecom um sentimento de completo vazio ebeleza. Os pequenos arbustosadquiririam em breve uma tonalidadede um verde mais acentuado e noespaço de algumas semanas fariabrotar um aroma mais forte. Ascodornizes chamavam-se entre si.Sem o saber a mente encontrava-se emestado de meditação, no qual o amordesabrochava. Afinal, só no terrenoda meditação pode essa flordesabrochar. Era bastante maravilhosoe estranho o modo como aquilo nosperseguia pela noite dentro; quandoacordávamos, muito antes do sol seerguer, aquilo ainda lá estava nonosso coração, com sua incrívelalegria destituída de razão. Alisurgia sem causa nenhuma,completamente intoxicável. Haveria deficar lá por todo o dia sem que opedíssemos ou a convidássemos apermanecer connosco.Durante a noite e o dia tinha chovidointensamente e lá pelas ravinas corria umatorrente de água enlameada em direcção ao mar,torrente que se tornava castanha cor de chocolate.À medida que caminhávamos pela praia, vagasenormes espraiavam-se com estrondo, traçandocurvas magníficas na areia. Caminhávamos contra ovento e subitamente sentíamos que não havia nadaentre nós e o céu, e essa abertura era o Céu.Ser-se completamente aberto e vulnerável àscolinas, ao mar e ao homem é a própria essência dameditação; não termos nenhuma resistência, nembarreiras interiores com relação ao que quer queseja, mas sermos realmente livres, completamentelivres dos menores anseios, compulsões e demandas-com todos os seus conflitos e hipocrisias- isso
  44. 44. 44equivale a percorrer a vida de braços abertos. Enaquela tarde, ao caminharmos pela areia molhada,com as gaivotas ali em torno de nós, podíamossentir um extraordinário sentido de amplaliberdade e a enorme beleza do amor que não estavaem nós nem fora de nós, mas em todo o lado. Nemalcançamos o quanto é importante ser-se livre dascontínuas formas do prazer e das suas dores, demodo que a mente permaneça só. Unicamente a menteque é completamente só pode ser aberta.E de repente nós sentíamos isto, semelhante a umaenorme corrente de vento a varrer a terra e a nósmesmos. Lá estávamos- desnudados de tudo e vazios;e assim também completamente abertos. A belezadisso não residia na palavra nem no sentimento masparecia estar em todo o lado (em tudo) e ao nossoredor, em nós, nas águas e nas colinas. Ameditação é isso.Era uma daquelas manhãsesplêndidas como nunca tínhamosvisto. Percebia-se o sol a erguer-sepor entre os eucaliptos e ospinheiros; aparecia sobre as águasdourado e lustroso, com essa luz quesó existe por entre os montes ou nomar. Era uma manhã clara, semdeslocação de ar e cheia daquelaestranha luz que podemos perceber nãosó com os olhos como igualmente com ocoração. Mas quando o percebemos oscéus estão muito mais próximos daterra, numa beleza em que nosperdemos. Nunca deveriam meditar empúblico sabem; nem com outra pessoanem em grupo; Deveis meditar semprena solidão, na quietude da noite ouna calma da manhã. Quando meditam emsolidão deve tratar-se de verdadeirasolidão. Deveis estar completamentesós, sem seguir nenhum sistema, nemmétodo nem repetição de palavras, semperseguir o pensamento nem moldá-lo
  45. 45. 45de acordo com o vosso desejo. Essasolidão sobrevem quando a mente se vêlivre do pensamento. Onde houverinfluência do desejo ou das coisasque a mente persegue- quer no passadoquer no futuro- aí não haverásolidão. Essa solidão está somente naimensidão do presente. Mas então, coma calma discrição com que toda acomunicação chega a um término e emque não existe o observador com assuas ânsias e os seus estúpidosapetites e problemas, só nessasolitude calma se torna a meditaçãoalgo que não pode ser posto empalavras por se tornar, nesse caso,um movimento eterno.Não sei se alguma vez meditastes; sealguma vez estivestes sós convoscomesmos, distantes de tudo e de toda agente, de todo o pensamento eocupação- se alguma vez estivestesassim completamente sós, e nãoisolados nem retirados num qualquersonho ou visão fantasiosa, unicamentedistanciados de modo que em vós nadareste de reconhecível nem nada quetoqueis pelo pensamento nem pelosentimento. Tão distantes que nessasolitude plena o próprio silêncio setorne a única flor, a única luz eaquela qualidade intemporal que nãopode ser mensurável pelo pensamento.Somente numa meditação assim toma oamor existência. Não vos incomodeisem expressá-lo; ele expressar-se-á asi mesmo. Não o utilizeis nem tenteispô-lo em acção; ele actuará, e quandoagir, essa acção não conterá remorsonem pesar, contradição nem tristeza,sofrimento. Assim, meditai sós;perdei-vos sem tentar relembrar ondeestivestes. Se tentardes relembrá-loentão tratar-se-á de uma coisa morta.
  46. 46. 46E se vos agarrardes à lembrança dissoentão nunca mais ficareis a sós denovo. Assim, meditai nessa solitudesem fim, na beleza desse amor, nessainocência do novo- e então surgiráuma benção imperecível.O céu estava bem azul, com um azulque sobrevem depois das chuvas,chuvas essas que vieram ao fim demuitos meses de seca. Depois daschuvas os céus ficam lavados de novo,as colinas rejubilam e a terra ficacalma. Cada folha contém em si a luzdo sol e o sentimento da terra estámuito chegado a nós. Por isso meditainos próprios recessos secretos dovosso coração e mente, onde nuncaantes estivestes.Naquela manhã o mar assemelhava-se a um lago ouum enorme rio sem ondulação, tão calmo que nóspodíamos perceber os reflexos das estrelas, cedoque era de madrugada. Esta ainda não despontara epor isso percebíamos as estrelas, os reflexos dorochedo e as luzes distantes da cidade na água. Àmedida que o sol aparecia no horizonte de um céusem nuvens, estabelecia um caminho dourado; eraextraordinário ver essa luz da Califórnia inundarcada folha, a relva, a terra. À medida queolhávamos sobrevinha-nos uma grande sensação decalma. O próprio cérebro tornava-se muitosilencioso, sem reacção nenhuma, sem um únicomovimento; era estranho sentir esse imensosilêncio; "sentir" não é a palavra indicada. Aqualidade desse silêncio, dessa quietude, não erasentida pelo cérebro, pois está além do cérebro.O cérebro pode conceber, formular ou fazer umaperspectiva (traçar um plano) para o futuro masessa calma está além do seu alcance, além de todaa imaginação e de todo o desejo. Ficamos tãosilenciosos que o nosso corpo se tornou parteintegrante da terra, e parte de tudo o que estavasereno.
  47. 47. 47A certa altura soprava uma brisa delicada vindadas colinas fazendo mexer as folhas, mas essaquietude, essa qualidade extraordinária desilêncio não sofria perturbação nenhuma.A casa encontrava-se entre as colinas e o mar,voltada para nascente. À medida que olhávamosassim, tão quietos, nós tornávamo-nosverdadeiramente parte de tudo. Éramos a luz e abeleza do amor. Mas, uma vez mais, dizer que nostornávamos parte de tudo é errado: a palavra "nós"não é adequada porque nós realmente não estávamoslá, nós não existíamos. Existia somente essa calmae a beleza, o extraordinário sentido do amor. Aspalavras "nós" e "eu" dissociam as coisas; nesseestranho silêncio e quietude essa divisão nãoexiste.À medida que olhávamos pela janela parecia que oespaço e o tempo tinham chegado ao fim, e o espaçodivisivo não tinha nenhuma realidade. Aquela folhae o eucalipto e a água azul brilhante não eramdiferentes de nós.A meditação é realmente muitosimples, mas nós complicámo-la.Tecemos uma rede de ideias em tornodela, sobre o que é ou deixa de ser.Mas não é nenhuma dessas coisas.Porque é tão simples ela escapa-nos.As nossas mentes são muitocomplicadas e acham-se gastas pelotempo. Mas essa mente determinaactividade do coração e aí adificuldade começa. A meditaçãosobrevem naturalmente e comextraordinária facilidade quandocaminhamos pela areia ou olhamos pelajanela e distinguimos aquelas colinasqueimadas maravilhosas, queimadaspelo sol do Verão passado.Porque somos seres tão torturados,com lágrimas nos olhos e riso forçadonos lábios? Se pudésseis percorrersozinhos essas colinas e bosques,iríeis pelas vastas praias de areias
  48. 48. 48alvas e, nessa solidão saberíeis oque é a meditação.O êxtase da solidão sobrevem quandodeixais de vos sentir assustados porestar sós, sem pertencer mais aomundo nem apegado a nada. Então, comoaquela alvorada que estava estamanhã, isso sobrevem silenciosamentee estabelece um caminho dourado naprópria quietude que existia noinício, que existe agora, e quesempre estará aí.Alegria e prazer podeis comprar em qualquermercado por um preço qualquer. Mas beatitude écoisa que não podeis comprar- quer para vós querpara os outros. A felicidade e o prazer sãofactores criadores de tempo; somente em totalliberdade pode existir essa benção. O prazer,assim como a felicidade, podeis vós buscar eencontrar, de formas variadas. Mas eles vêm e vão.A beatitude- esse estranho sentido de alegria- nãotem motivo. Com certeza que não podeis buscá-la.Mas uma vez lá- dependendo da qualidade da vossamente- ela permanecerá sem tempo nem causa, comoalgo que não é mensurável pelo tempo.A meditação não é a perseguição do prazer nem abusca de felicidade. Pelo contrário, a meditação éum estado da mente em que não existe conceito nemfórmula, e portanto, total liberdade. Somente auma mente assim pode sobrevir a beatitude- de modoimprevisto e sem ser convidada. Uma vez emexistência, conquanto possamos viver neste mundocom todo o seu ruído prazer e brutalidade, essascoisas não tocarão a mente. E uma vez existente oconflito cessará. Mas o fim do conflito nãorepresenta necessariamente a liberdade total. Ameditação é um movimento da mente nesta liberdade.Nesta explosão de benção os olhos são tornadosinocentes, e então o amor torna-se benção.
  49. 49. 49A meditação não é o mero controledo corpo e do pensamento nem umsistema de respiração (como oinspirar e o expirar). O corpo deveachar-se calmo, saudável e semtensão; a sensibilidade do sentirdeve ser aguçada, e a mente, deve pôrum término a toda a sua tagarelice,perturbação e tactear. Não é peloorganismo que devemos começar masantes tendo consideração pela mente,com suas opiniões, preconceitos eauto-interesse.Quando a mente se acha saudável echeia de vitalidade e vigor então asensibilidade será elevada e tornar-se-á extremamente apurada. Então ocorpo, com toda a sua inteligêncianatural, não será deteriorado pelohábito nem pelo gosto e funcionarácomo deve ser.Assim, devemos começar pela mente enão pelo corpo, sendo que a mente éo pensamento e a variedade das suasexpressões. A mera concentração tornao pensamento estreito, limitado efrágil, quebradiço, mas aconcentração acontece como uma coisanatural quando temos consciência dosprocessos do pensar. Essa consciêncianão procede do pensador que escolhe edescarta, que mantém e rejeita. Essaconsciência sem escolha é tanto oexterno como o interno; trata-se deuma mistura de ambos de tal modo quea divisão entre externo e internodesaparece. O pensamento destrói asensibilidade do amor. O pensamentosó pode oferecer prazer mas na buscado prazer o amor é empurrado parafora. O prazer de comer, de beber,tem a sua continuidade no pensamento;controlar ou suprimir meramente esseprazer que o pensamento produziu não
  50. 50. 50faz sentido; só cria variadas formasde conflito e compulsão. Opensamento, como matéria que é, nãopode buscar aquilo que está além dotempo, porque o pensamento élembrança e a experiência associada aessa lembrança é tão morta quanto afolha do Outono que passou. Daconsciência de tudo isso vem aatenção, que não é produto dadesatenção. É a distracção que ditaos hábitos prazerosos do corpo edilui a intensidade do sentir. Nãopodemos mudar a desatenção paraatenção; só a consciência dadesatenção pode tornar-se atenção.Perceber todo esse processo complexoé meditação, único meio por que viráa ordem a esta confusão. A ordem étão exacta e absoluta como a ordem damatemática; a partir disso há acção-atitude imediata. Ordem não éarranjo, planificação nem proporção;esses vêm muito mais tarde. A ordemvem de uma mente que não se achaabarrotada com as coisas do pensar.Quando o pensamento está silenciosoexiste um vazio, que é ordem.Estávamos ali sentados naquela praia a olhar ospássaros e o céu e a escutar o som distante doscarros que passavam. Estava uma manhã magnífica.Saímos com a baixa-mar e voltamos com o fluxo damaré; saímos longe para novamente voltarmos- esseeterno movimento para dentro e para fora... Podia-se vislumbrar o horizonte lá longe, onde o céuparece unir-se às águas. Era uma baía enorme deáguas azuis e brancas, com casas muito pequenas aoredor e cadeias e mais cadeias de montes pordetrás. Observávamos sem reacção nenhuma, semidentidade nenhuma, e observávamos de modoinfatigável, na verdade não nos encontrávamosdespertos mas de consciência ausente, num estado
  51. 51. 51de semi-presença. Não éramos nós que ali nosencontrávamos mas tão só a observação quedecorria. Observávamos os pensamentos que seerguiam e se desvaneciam, um atrás do outro,processo em que o próprio pensamento tomavaconsciência de si mesmo. Não existe nenhumpensador a observar o pensamento.Ali sentados naquela praia a observar as pessoasque passavam- dois ou três casais e uma mulhersolitária- parecia que a natureza e tudo o mais aoredor, desde o profundo mar azul até às elevadascadeias rochosas estavam em observação.Encontrávamo-nos a observar e não na expectativada ocorrência de alguma coisa, tão só num acto deobservação interminável. Essa observaçãoacarretava aprendizagem- não a acumulação deconhecimentos que se efectua com o aprender que équase inteiramente mecânico, mas uma observaçãominuciosa e profunda que possuía ligeireza eternura. Desse jeito não resultava observadornenhum. Quando o pensador está presente trata-seunicamente de uma acção do passado a observar mastal não corresponde a um observar e sim a umrelembrar, uma coisa sem vida. A observaçãocontudo é uma coisa tremendamente viva que tornacada momento puro ócio. Aqueles caranguejospequenos e gaivotas e restantes aves que voavam aoredor estavam todos a observar, à espera depresas, peixe, ou algo que possam comer; tambémeles estavam a observar.Mas passasse alguém por vós e interrogar-se-ia doque pudessem estar a observar. Não estávamos aobservar nada, contudo, nesse nada existia Tudo.
  52. 52. 52

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