Auto da barca do inferno

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Auto da barca do inferno

  1. 1. Gil Vicente 7/3/2014 1
  2. 2. Auto da Barca do Inferno
  3. 3. Gil Vicente Auto da Barca do Inferno (1517, época do Humanismo em Portugal) 7/3/2014 3
  4. 4. Em Cena: Duas barcas governadas: pelo Diabo, pelo Anjo.
  5. 5. 1.ª alegoria: Diabo, o Arrais do Inferno (alegre e irônico) e companheiro 2.ª alegoria: Anjo, o Arrais do Céu (lacônico e severo)
  6. 6. Fidalgo D. Anrique (1.ª alma)
  7. 7. Fidalgo: - Esta barca onde vai ora que assi está apercebida? (...) Diabo: - Pera o Inferno, senhor. (...) Fidalgo: - E passageiros achais pera tal habitação? Diabo: Vejo-vos eu com feição pera ir ao nosso cais...
  8. 8. Diabo: - Em que esperas ter guarida? Fidalgo: - Que leixo na outra vida Quem reze sempre por mi. Diabo: - Quem reze sempre por ti?... Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!... E tu viveste a teu prazer, cuidando cá guarecer por que rezam lá por ti?
  9. 9. Anjo: - Vós ireis mais espaçoso com fumosa senhoria, cuidando na tirania do pobre povo queixoso; e porque, de generoso, desprezastes os pequenos, achar-vos-eis tanto menos quanto mais fostes fumoso.
  10. 10. Onzeneiro (2.ª)
  11. 11. Diabo : - Como tardastes vós tanto? Onzeneiro: - Mais quisera eu lá tardar... Na safra do apanhar me deu Saturno quebranto Diabo: - Ora mui muito m’espanto não vos livrar o dinheiro!... Onzeneiro: - Solamente pera o barqueiro nom me leixaram nem tanto...
  12. 12. Anjo: - Essa barca que lá está vai pera quem te enganou. Onzeneiro: - Por quê? Anjo: - Porque esse bolsão tomará todo o navio. Onzeneiro: - Juro a Deos que vai vazio! Anjo: - Não já no teu coração. (...) Ó onzena, como és fea e filha de maldição!
  13. 13. Diabo: - Entra, entra! Remarás! Nom percamos mais maré! Onzeneiro: - Todavia... Diabo: - Per forç’é! Que te pés, cá entrarás! Irás servir Satanás porque sempre te ajudou.
  14. 14. Parvo Joane (3.ª)
  15. 15. Diabo: - De que morreste? Parvo: - De quê? Samicas de caganeira. Diabo: - De quê? Parvo: - De cagamerdeira. má ravugem que te dê! Diabo: - Entra! Põe aqui o pé!
  16. 16. Parvo : - Hou da barca! Anjo: - Que me queres? (...) Quem és tu? Parvo: - Samica alguém. Anjo: - Tu passarás, se quiseres; porque em todos teus fazeres por malícia não erraste. Tua simpreza te baste pera gozar dos prazeres.
  17. 17. Sapateiro Jam Antão (4.ª)
  18. 18. Sapateiro: - Hou da barca! Diabo: - Quem vem í? - Santo sapateiro honrado! Como vens tão carregado? Sapateiro: - Mandaram-me vir assi... E pera onde é a viagem? Diabo: - Pera o lago dos danados.
  19. 19. Sapateiro: - Os que morrem confessados onde têm sua passagem? Diabo:- Nom cures de mais linguagem! Esta é tua barca, esta! (...) Sapateiro: - Como poderá isso ser, Confessado e comungado?
  20. 20. Diabo: - E tu morreste excomungado: nom o quiseste dizer. Esperavas de viver; calaste dous mil enganos. Tu roubaste bem trint’anos O povo com teu mester.
  21. 21. Frade, Frei Babriel (5.ª)
  22. 22. Frade : - Tai-rai-rai-ra-rã; ta-ri-ri-rã; (...) Diabo: - Que é isso, padre? Que vai lá? Frade: - Deo Gratias! Sou cortesão. Diabo: - Sabês também o tordião? Frade: - Por que não? Como ora sei! Diabo: - Pois entrai! Eu tangerei e faremos um serão. Essa dama, é ela vossa?
  23. 23. Diabo : - Fezestes bem, que é lindura! E não vos punham lá grosa no vosso convento santo? Frade: - E eles fazem outro tanto! Diabo: - Que cousa tão preciosa! (...)
  24. 24. Diabo: - Pois dada está já a sentença! (...) Frade: - Como? Por ser namorado e folgar com ua mulher se há um frade de perder, com tanto salmo rezado? Diabo: - Ora está bem aviado!
  25. 25. Alcoviteira Brísida Vaz (6.ª)
  26. 26. Brisida: - Hou lá da barca, hou lá! Diabo: - Quem chama? Brisida: - Brísida Vaz. (...) Diabo: - Que é o qu’havês d’embarcar? Brísida: - Seiscentos virgos postiços e três arcas de feitiços que não podem mais levar.
  27. 27. Três almários de mentir, e cinco cofres de enlheos, e alguns furtos alheos, assi em jóias de vestir guarda- roupa de encobrir, (...) A mor cárrega que é: Essas moças que vendia.
  28. 28. Brisida: - Eu sô aquela preciosa (...) A que criava meninas pera os cônegos da Sé... (...) Diabo: - Ora entrai, minha senhora, e sereis bem recebida; se vivestes santa vida, vós o sentirês agora.
  29. 29. Judeu Semifará (7.ª) – é atrelado à Barca do Inferno
  30. 30. Judeu: - Que vai cá? Hou marinheiro! Diabo: - Oh! Que má-hora vieste! Judeu: - Cuj’é esta barca que preste? Diabo: - Esta barca é do barqueiro. Judeu: - Passai-me por meu dinheiro. Diabo: - E esse bode há cá de vir? Judeu: - Pois também bode há-de ir. Diabo: - Que escusado passageiro!
  31. 31. Corregedor (8.ª)
  32. 32. Corregedor: - Hou da barca! Diabo: - Que quereis? Corregedor: - Está aqui o senhor juiz? (...) Nom é de regulae juris, não! (...) Diabo: - Quando éreis ouvidor nonne accepistis rapina?
  33. 33. Diabo: - Quando éreis ouvidor nonne accipistis rapina? (...) A largo modo adquiristis Sanguinis laboratorum Ignorantes peccatorum. (...) Ora, entrai nos negros fados!
  34. 34. Procurador (9.ª)
  35. 35. Procurador : - Beijo-vo-las mãos, Juiz! Que diz esse arrais? Que diz? Diabo: - Que sereis bom remador. (...) Procurador: - Bacharel som... Dou-me ò Demo! (...) Parvo: - Hou, homens dos breviairos, rapinastis coelhorum et pernis perdiguitorum e mijais nos campanairos (...)
  36. 36. Anjo: - A justiça divinal vos manda vir carregados porque vades embarcados nesse batel infernal.
  37. 37. Enforcado Pero de Lisboa (10.ª)
  38. 38. Diabo: - Venhais embora, Enforcado! Que diz lá Garcia Moniz? Enforcado: - (...) que fui bem-aventurado em morrer dependurado (...) e diz que os feitos que fiz me fazem canonizado.
  39. 39. 7/3/2014 39
  40. 40. Cavaleiros (vêm quatro, cantando, com a cruz)
  41. 41. Diabo: - Cavaleiros, vós passais e nom perguntais onde is? Cavaleiro: - Vós, Satanás, presumis? Atentai com quem falais! (...) Diabo: - Entrai cá! Que cousa é essa? (...) Cavaleiro: - Quem morre por Jesu Cristo Não vai em tal barca como essa!
  42. 42. E nós, para onde embarcaremos?
  43. 43. Até mais ... Você decide ...
  44. 44. -AUTO de moralidade (alegoria, religiosidade) - farsa (painel social da época) - versos redondilhos maiores -disposição das rimas: ABBAACCA -estrutura: único ato; cenas com diálogos -linguagem: típica de cada grupo social 7/3/2014 44
  45. 45. 1.ª alegoria: Diabo, o Arrais do Inferno (alegre e irônico) e companheiro - Fidalgo D. Anrique (1.ª alma) - Onzeneiro (2.ª) - Sapateiro Jam Antão (4.ª) - Frade, Frei Babriel (5.ª) 7/3/2014 45
  46. 46. - Alcoviteira Brísida Vaz (6.ª) - Judeu Semifará (7.ª) – é atrelado à Barca do Inferno - Corregedor (8.ª) - Procurador (9.ª) - Enforcado Pero de Lisboa (10.ª) 7/3/2014 46
  47. 47. 2.ª alegoria: Anjo, o Arrais do Céu (lacônico e severo) - Parvo Joane (3.ª) - 4 Cavaleiros (11.ª) E assi embarcam. 7/3/2014 47
  48. 48. 7/3/2014 48

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