L1 texto - conceitos, questões e fronteiras [com]textuais

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L1 texto - conceitos, questões e fronteiras [com]textuais

  1. 1. APRESENTAÇÃO 17 PARTE I [RE]DISCUTIR TEXTO E GÊNERO
  2. 2. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 1 Anna Christina Bentes (UNICAMP) Renato Cabral Rezende (UNICAMP) 1. LINHAS GERAIS DE UMA NOÇÃO TÃO VASTA C onceito controverso, mote de disputa teórica de um campo, quando não de domínios teóricos diferentes, quiçá inconci- liáveis. Fenômeno com o qual lidamos cotidianamente em nossas práticas comunicativas, de tal forma que se pode afirmá-lo parte constitutiva (inalienável?) de nossas vidas. Fenômeno ainda cujas diversas manifestações nos são familiares e reconhecíveis, mas para o qual não consta haver uma definição teórica que satisfaça concomitantemente a todos os campos de pesquisa que o abordam. Texto2 . Noção que, como sói acontecer com fenômenos muito am- plos, e não raro complexos — veja-se noções como “língua” ou “comuni- dade de fala” —, não prescinde de certas máximas epistemológicas para uma reflexão sistemática a seu respeito. Uma delas deriva do fato de o texto prestar-se a ser objeto de estudo em diferentes disciplinas das ciên- cias humanas, tomadas em separado ou mesmo inter-relacionadas. Seja na filosofia, na lingüística, na sociologia, na filologia ou na antropologia, o objeto textual abre possibilidades de investigação sobre sua estrutura e seu funcionamento internos, sobre a natureza da relação entre texto e 1. Gostaríamos de agradecer as contribuições, os questionamentos e as sugestões de Inês Signorini, Ingedore Koch, Edwiges Morato e Marco Antônio R. Machado, que muito contribu- íram para o formato final deste capítulo. Este trabalho foi realizado com o paoio do CNPq- Processo no 141963/2005-0 2. Empregaremos neste trabalho a palavra texto em referência a textoverbal, nas modalidades oral e escrita.
  3. 3. 20 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende contexto e sobre um possível gap entre forma textual e intenção autoral, somente preenchido no momento de sua recepção pelo ouvinte/leitor. Assim, e se, segundo assinala Hanks ([1989]2008: 118), uma vasta gama de disciplinas subjaz a termos como “texto”, “textualidade”, “dis- curso” e “retórica”, parece-nos legítimo pensar o texto, ao menos no âmbito das ciências humanas, como uma espécie de “domínio público” de pesquisa. Por sua própria natureza multimodal e multifacetada, o fenômeno textual não admite “verdades” teóricas (ou políticas) que não raro insistem em lhe impingir. Em nosso entendimento, vale mais a percepção de Osman Lins: Os textos: em princípio, doação universal. Se sobre eles opinamos ou se os iluminamos de algum modo — se fazemos com que se ampliem em nós —, operamos sobre um patrimônio coletivo. Como corolário desta, a de texto como “domínio público” das ciências humanas, outra máxima epistemológica tão cara a uma reflexão sistemáti- ca acerca do objeto textual diz respeito à relação entre o objeto texto e a teoria que o propõe. Lidar com a inevitável, mas sempre bem vinda ques- tão “Afinal, o que é mesmo um texto?” não foge ao preceito saussuriano de que é o ponto de vista que constrói o objeto (Saussure, [1916] 2000: 15). Da mesma forma, trabalhar com o texto constitui-se numa tarefa theory dependent (Titscher et alii 2000: 20), ou seja, é uma tarefa que pode obter do esforço interdisciplinar para a integração de aspectos da produção, com- preensão e efeitos de sentidos a partir de textos, uma das possíveis chaves epistemológicas para seu empreendimento (van Dijk, 1983). Neste capítulo, pretendemos apresentar e problematizar o esforço teórico empreendido por alguns pesquisadores na elaboração do con- ceito de texto verbal no campo dos estudos da linguagem (Hjelmslev, 1943; Harris, 1952; Harweg, 1968; Beaugrande & Dressler 1981, 1997; Hanks, [1989] 2008, dentre outros)3 e no âmbito da lingüística antro- 3. Neste capítulo, procuraremos fazer uma discussão a partir de alguns autores que conside- ramos importantes para nossos objetivos, considerando sempre como um diálogo mais de apro- ximações do que de diferenças, a produção teórica brasileira no campo, representada principal- mente pelos trabalhos de Marcuschi (1983), Fávero e Koch (1988), Koch (1989, 1990, 1997, 2002, 2004), Marcuschi (2001), que criaram e desenvolveram caminhos e reflexões originais no contexto brasileiro sobre o objeto textual.
  4. 4. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 21 pológica (Hanks, [1989, 2006] 2008; Bauman, 2004). Nosso objetivo é refletir acerca do status do texto enquanto artefato lingüístico e en- quanto produto/processo sociocultural (Hanks, [1989] 2008: 119). Para tal, enfocaremos as contribuições de autores em duas frentes. A primeira dirá respeito às modificações pelas quais passou o conceito de texto no interior do campo da lingüística, a partir de perspectivas que (i) consideram apenas os fatores lingüísticos internos ao próprio texto como essenciais e suficientes para a definição do objeto textual; (ii) postulam o conceito de textualidade de forma a dar conta do fenômeno textual e (iii) conciliam uma abordagem formalista, que lida com elementos constitutivos de textos enquanto artefatos fechados, com uma abordagem sociológica do fenômeno, cujo foco central reside no campo da produção, distribuição e recepção de textos em larga escala. Em um segundo momento, dando continuidade à última aborda- gem apresentada, trataremos da possibilidade de discutir, a partir de um exemplo, os diversos níveis de interpenetração entre texto e contexto, considerando principalmente (i) a postulação de um modelo de contexto que auxilie na compreen- são das aproximações e afastamentos entre estes dois conceitos e (ii) o entendimento de que há um contínuo movimento de “descontextualização/recontextualização” dos textos, ou seja, a existência do potencial de os textos circularem e serem fala- dos e/ou lidos em outros contextos diferentes daquele em que foram produzidos, potencial este que parece dizer algo funda- mental sobre a própria natureza do objeto textual. 2. LÍNGUA, TEXTO E TEXTUALIDADE Um entendimento satisfatório do fenômeno textual, em qualquer arcabouço teórico, requer que a relação entre teoria e objeto se faça a mais clara possível. A imprescindibilidade dessa relação reside no fato de
  5. 5. 22 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende que o entendimento das diferentes concepções de texto se dá em função de que a postulação e o reconhecimento dos elementos constitutivos do fenômeno textual estão previstos nessa relação; é ainda em função dela que a possibilidade de ampliação, ou mesmo de deslocamento, do concei- to se faz plausível. No entanto, torna-se imperativo frisar que a referida relação se sustenta em função do conceito de língua que subjaz à plata- forma teórica mobilizada para o trabalho de investigação. De um ponto de vista epistemológico, a língua circunscreve a concep- ção de texto, “mais ou menos como o céu, o solo e a sua unção desenham para o homem um habitat familiar” (Barthes, 1953: 9). A língua, ainda acrescenta Barthes, “é muito menos uma provisão de materiais do que um horizonte, isto é, ao mesmo tempo um limite e uma estação”. Em outras palavras, num dado arcabouço teórico, uma concepção “X” de texto só é possível e concebida tal como este arcabouço a prevê em virtude de um entendimento de língua que favoreça a mobilização, a organização e a pro- pagação de alguns recursos lingüísticos (e/ou de outra natureza) na cons- tituição de uma unidade lingüística de sentido (Koch, 2002). Em Hjelmslev ([1943] 1975), a relação língua x texto é propositada- mente marcada em virtude de estes conceitos coordenarem a elabora- ção dos objetivos de pesquisa da teoria hjelmsleviana, quais sejam, (i) a formalização e a descrição exaustiva das relações que estruturam os sistemas lingüísticos e (ii) ponto fundamental da teoria, a superação dos limites do siste- ma e a compreensão do funcionamento “dessa totalidade glo- bal que é a linguagem” (Hjelmslev, 1975: 23). Herdeiro do estruturalismo saussuriano, Hjelmslev, no entanto, acres- centa-lhe um avanço teórico-analítico. Apesar de ter como foco a langue, uma teoria da linguagem para o autor deve também abordar a parole saussuriana como fonte de fenômenos de observação e análise. Hjelmslev postula a possibilidade de que fenômenos do uso lingüístico tidos como heteróclitos em Saussure, possam ser analisados teoricamente com vistas a sua sistematização. Sua proposta consiste em encontrar em toda mani- festação empírica da língua princípios de regularidade organizacional e combinatória dos elementos em uso que reflitam a própria regularidade destes elementos no interior da estrutura do sistema lingüístico:
  6. 6. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 23 A teoria da linguagem se interessa pelo texto, e seu objetivo é indicar um procedimento que permita o reconhecimento de um dado texto por meio de uma descrição não contraditória e exaustiva do mesmo (Hjelmslev, 1975: 19). A relação entre língua e texto em Hjelmslev consiste em uma deter- minação direta: é impossível a existência de um texto — qualquer mani- festação verbal empírica com certa regularidade organizacional e combinatória dos elementos em uso — sem a existência de uma língua que fundamente essas relações (Hjelmslev, 1975: 44). A partir de dada seleção de textos, o analista desenvolve um “fundo de conhecimentos” que dizem respeito aos processos ou aos textos aos quais eles se aplicam, de modo que, a partir desses conhecimentos, torne-se possível explicar o “sistema ou a língua que preside à estrutura de todos os textos de mesma natureza, e que nos permite construir novos textos” (Hjelmslev, 1975: 20). Mais do que isso, acrescenta o autor, “é preciso, ainda que, sobre a base de um conhecimento da linguagem, ela [a teoria da linguagem] pos- sa fazer o mesmo para os textos de qualquer língua” (ibidem). Não obstante sua preocupação em, a partir da relação texto x língua, entender a linguagem como um todo, Hjelmslev não foca, e não define diretamente, o texto como uma unidade lingüística. Qualquer ato de linguagem — incluindo-se aí textos empíricos, os diferentes gêneros textuais — é um texto para Hjelmslev. O autor chegou a considerar que o conjunto de todos os enunciados emitidos por um indivíduo em sua vida seria um texto. Como assinalam Fávero & Koch (1988: 30), para Hjelmslev, o texto é uma “mera forma de existência da língua”, de for- ma que, se se pensar em termos da relação língua e texto, “o texto é uma estrutura sintagmática, ao passo que a língua é uma estrutura paradigmática” (ibidem). Há, portanto, uma correlação estrutural en- tre texto e língua no pensamento hjelmsleviano. Todo texto é tido como uma manifestação estruturada, cujas partes são dependentes entre si na composição do todo, semelhantemente à língua. Como diz o autor, “tanto quanto suas partes, o objeto examinado só existe em virtude desses relacionamentos ou dessas dependências [mútuas entre as par- tes]” (Hjelmslev, 1975: 28). Duas observações se fazem necessárias acerca dos postulados hjelmslevianos. Apesar da observação de Fávero & Koch (1988: 30) so-
  7. 7. 24 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende bre o conceito de texto hjelmsleviano, é interessante também observar que o autor prevê a existência de algum princípio organizacional interno a essas manifestações de língua (textos), princípio que os categoriza em classes a partir de seus fatores estruturais. A segunda observação vem na esteira da anterior: embora se saiba que tanto a língua quanto o texto são constituídos por relações de ordenação e/ou dependência entre suas par- tes, a escolha de Hjelmslev pelo texto como ponto de partida analítico revela um fator de pioneirismo do autor ao iniciar uma reflexão teórica sistemática sobre língua em uso, denominada por ele de texto. De igual importância para a construção de um estatuto teórico para o texto é o artigo de Z. Harris, Discourse Analysis (1969 [1952]). Harris propõe a aplicação do método distribucionalista — análise de ocorrên- cias e distribuição de morfemas4 — não apenas à frase, mas ao énoncé suivi, ao discurso, considerado como um todo específico. Esse ponto de partida teórico é determinante para a construção do texto como unida- de singular. Harris pressupõe a linguagem em uso como fonte de obser- vação: “A linguagem [langue] não se apresenta por palavras ou frases independentes, mas em discurso concatenado [discours suivi], seja um enunciado reduzido a uma palavra ou uma obra de dez volumes, um monólogo ou uma discussão política”. Dado que não há outra via pela qual a linguagem intermedeies as relações entre os sujeitos que não sob a forma de textos, Harris discrimina o texto, atribuindo-lhe fenômenos próprios em meio aos demais fenômenos da língua. Em vez de propor a análise de uma frase isolada, como já dito, uma expressão lingüística independente (independent linguistic expression), Harris propõe o texto como unidade distinta da frase, e privilegiada, portanto, para a aplicação do método distribucionalista: [o texto] “com- põe-se de uma seqüência de expressões ou sentenças ligadas, podendo ir desde sentenças de uma só palavra até uma obra em vários volumes” (Harris, 1952 apud Marcuschi, 1983: 5). 4. Diz o autor: “Buscamos estabelecer empiricamente como eles [elementos lingüísticos no texto] aparecem — quais são os que sempre se encontram próximos de outros, ou no mesmo ambiente que outros —, quer dizer, a ocorrência relativa desses elementos uns com relação aos outros. Neste sentido, nosso método se aproxima mais daquele utilizado na elaboração da gramática de uma língua (que estabelece as relações distribucionais entre os elementos) do que aquele utilizado na elaboração de um dicionário” (Harris, 1969: 14).
  8. 8. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 25 Nota-se nesta definição a vontade de especificar elementos textuais em relação mútua. Em Hjelmslev, como visto, prevêem-se relações entre “partes do texto”; em Harris, são contempladas as ligações entre as fra- ses/orações do objeto textual, constituindo procedimentos que assegu- ram ao objeto sua existência enquanto fenômeno lingüístico organizado e limitado extensionalmente. Definitivamente, em Harris, aprofunda-se a relação do texto com seus elementos constitutivos, tornando-a mais or- gânica e independente do sistema lingüístico, o que o diferencia de Hjelmslev. Não significa a total negação da relação língua e texto, mas não mais a determinação direta do sistema sobre o processo — a “ocor- rência de elementos no texto só é feita em função deste próprio texto; quer dizer, em função dos outros elementos deste mesmo texto, e não em função do que existe alhures na língua” (Harris, 1969: 11). Em Harweg (1968 apud Fávero & Koch, 1988) prevalece o interes- se pela investigação da existência de elos necessários entre frases na constituição do fenômeno textual. O texto, no entendimento do autor, consiste numa sucessão de unidades lingüísticas constituída mediante uma concatenação pronominal ininterrupta. Segundo explica Koch (2004: 4), nos termos de Harweg, o termo “pronome” significa toda expressão lin- güística (substituens) que retoma outra expressão lingüística correfe- rencial (substituendum), de modo que um texto resulta de um “múlti- plo referenciamento”. São os pronomes, portanto — entendidos segun- do a concepção do autor —, os mecanismos que estabelecem relações de correferência no interior do texto, convertendo uma seqüência de frases em uma estrutura coesa na qual os mesmos objetos, lugares ou pessoas são retomados e referidos mediante expressões diversas. É notável nos autores um percurso comum, qual seja, a busca de certa noção de “coesão” entre partes de um texto. Seminal em Hjelmslev, essa organicidade necessária entre partes do texto se especifica em Harris (por meio das ligações entre palavras e sentenças) até ser filigranada em Harweg. Não é gratuito o fato de este autor definir o texto como complexo lingüístico que dispõe de recursos de retomada, antecipação ou reelaboração da informação, recursos que condicionam sua consti- tuição enquanto objeto lingüístico dotado de sentido. Revela, ao con- trário, a disposição para a formulação e a investigação de fenômenos
  9. 9. 26 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende especificamente textuais. Como explica Koch (2004), as relações referenciais, a correferência, a seleção do artigo, concordância dos tem- pos verbais, relações entre enunciados não ligados por conectores ex- plícitos, todos estes (e outros) fenômenos foram elencados para a in- vestigação das relações que visam à estruturação interna de texto(s) — os mais diversos possíveis —, na tentativa de construção de uma coe- são relacional entre suas partes constitutivas e uma coerência para o objeto. Aqui, o objeto textual é, segundo Hanks ([1989] 2008), uma text-language, que, numa perspectiva lingüística, como as apresentadas acima, é vista como a realização da língua por meio de uma manifesta- ção (oral ou escrita) coerente e contextualmente interpretável. Para o aprofundamento das reflexões acerca de fenômenos textu- ais, é de inegável valor o projeto coletivo de elaboração, descrição e formalização de regras inerentes a um dado sistema lingüístico que per- mitam a geração de textos. Trata-se de um projeto investigativo coleti- vo de elaboração de gramáticas textuais5 . Análogas às gramáticas da frase propostas por Chomsky, as gramáti- cas textuais definem o conjunto finito de regras que os falantes nativos de dada língua possuem, um conhecimento de natureza intuitiva (uma competência textual, semelhante ao conceito de competência lingüísti- ca), que gera a estrutura subjacente de todos os textos, os não-textos ou os textos agramaticais (Beaugrande, 1997). Ainda segundo Beaugrande (1997), a visada do projeto é em prol da reconstrução do texto como um sistema uniforme, estável e abstrato. Significa dizer que mais do que en- tender o fenômeno textual da maneira como o compreendia Harweg, “simplesmente como uma seqüência de cadeias significativas” (Koch, 2004: 6), busca-se, com essa tentativa, entender o conceito de texto como a “unidade lingüística mais alta, superior à sentença”; o “signo lingüístico primário”, cujos componentes são tidos como signos parciais (Hartmann, 1968 apud Koch, 2005: 7). Em contrapartida, Beaugrande & Dressler (1981) avaliam que o projeto das gramáticas textuais é tributário da pro- posta de Harris (1952) e argumentam que com as gramáticas textuais 5. Para uma história do campo, cf. Beaugrande & Dressler (1981), Fávero & Koch (1988), Bentes (2001), Koch (2004).
  10. 10. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 27 não se provou nada, exceto que as sentenças partilham propriedades es- truturais tanto no texto quanto na gramática da língua. Não foram des- cobertos padrões para distinguir os textos dos não-textos. A partir de então, o esforço dos autores passa a se concentrar na busca de uma propriedade distintiva do texto, a textualidade. A noção de textualidade de Beaugrande & Dressler (1981), pensada em termos de procedimentos que asseguram ao objeto textual sua existência en- quanto fenômeno lingüístico estruturado, orientado para o estabeleci- mento de relações de sentido, conjuga elementos lingüísticos e extralin- güísticos em sua composição, como veremos. Antes, esclareça-se que esse deslocamento teórico — de ampliação da relação língua x texto para língua x texto x contexto — a partir do qual emerge a noção de textualidade, proposta por Beaugrande & Dressler (1981), é caudatário do desenvolvimento de uma nova percepção teóri- ca sobre a própria noção de linguagem, fato que culmina em uma nova abordagem do fenômeno textual, a partir das influências da teoria da atividade verbal e da teoria dos atos de fala. Na avaliação de Koch (2004: 14), estas teorias constituíram os “impulsos decisivos” no desenvolvi- mento dos novos programas de pesquisa sobre o texto. Grosso modo, a linguagem, no arcabouço teórico de ambas, é en- tendida como uma forma de atividade humana construída nas/pelas interações sociais estabelecidas por interlocutores dotados de objeti- vos comunicativos. A linguagem é uma atividade interacional, estabelecida segundo as intenções de seus participantes e realizada por/através de um conjunto de operações verbais. Como já propunha Schmidt (1973 apud Koch, 2004: 16), a língua é menos “um sistema de signos, denotativo, mas um sistema de atividades ou de operações, cuja estrutura consiste em realizar, com a ajuda de um número aberto de variáveis e de um repertório fechado de regras, determinadas ope- rações ordenadas, a fim de conseguir dado objetivo, que é informa- ção, comunicação, estabelecimento de contato”. Se a língua pode ser vista como um sistema de atividades e operações, é possível atribuir aos textos a qualidade de formas de ação verbal? Schmidt (1973) res- ponde afirmativamente:
  11. 11. 28 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende Texto é qualquer expressão de um conjunto lingüístico num ato de comunicação (no âmbito de um jogo-de-ação comunicativa), sendo tematicamente orientado e preenchendo uma função comunicativa reconhecível, ou seja, realizando um potencial ilocutivo reconhecível (Schmidt, 1973 apud Marcuschi, 1983: 9). Não é gratuito, portanto, que Beaugrande & Dressler (1981) postu- lem a textualidade como um princípio organizacional e comunicativo do texto. Se, como escrevem, “a questão mais urgente é como os textos funcionam na interação humana”, o “status de texto” só é alcançado mediante a satisfação de sete padrões para seu funcionamento, os pa- drões de textualidade6 : (i) coesão (ii) coerência, estes dois centrados no texto; (iii) intencionalidade, (iv) informatividade, (v) aceitabilidade, (vi) situacionalidade (vii) intertextualidade, estes dois centrados nos interactantes. Contemplados como uma totalidade, os sete padrões aliam a organi- zação interna a uma função comunicativa do texto. Um texto será definido como uma OCORRÊNCIA COMUNICATIVA que satisfaz a sete padrões de TEXTUALIDADE. Se qualquer um desses padrões não é considerado, o texto não será comunicativo. Portanto, textos não-comunicativos são tratados como não-textos (Beaugrande & Dressler, 1981). Ambas as definições de Schmidt (1973) e Beaugrande & Dressler (1981) revelam a força teórica da teoria da atividade verbal e da teoria 6. “Estes padrões funcionam com princípios constitutivos (depois de Searle, 1969: 33s.) da comunicação textual: eles definem e criam a forma de comportamento identificável como comu- nicação textual e, se desafiados, aquela forma de comportamento não mais funciona. Devem existir princípios reguladores (novamente seguindo Searle) que controlem a comunicação tex- tual mais do que a definam. Vislumbramos pelo menos três princípios reguladores: a eficiência do texto depende de seu uso em comunicar com o mínimo de esforço por parte dos participantes; a efetividade do texto depende de ele conseguir deixar uma forte impressão e de criar condições favoráveis de forma a atingir o objetivo desejado; a adequação de um texto diz respeito à concordância entre o contexto e as formas por meio das quais os padrões de textualidade são sustentados” (Beaugrande & Dressler, 1981).
  12. 12. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 29 dos atos de fala em mostrar a natureza actancial da linguagem, por meio da qual os sujeitos podem interagir socialmente e assim atingir suas finalidades comunicativas. Mais do que afirmar que o texto é estruturado lingüisticamente, as definições valorizam o fato de que a estrutura tex- tual — “qualquer expressão de um conjunto lingüístico” — é determi- nada por aspectos pragmáticos, visto que deve atender a uma função comunicativa, a realizar “um potencial ilocutivo reconhecível”. Ora, o desafio da proposta conceitual de Beaugrande & Dressler (1981) está em proceder para que ela — na qual se inclui a noção de textualidade — seja uma continuidade, mais do que uma confrontação, ou mesmo refutação, de teorias e métodos que a antecederam. Ao mesmo tempo, como proceder, valendo-nos de uma indagação de Hanks ([1989] 2008: 130), para que a textualidade não seja concebida apenas como uma pro- priedade de objetos simbólicos (textos), mas também como um instru- mento, um produto e um modo de ação social por meio de textos? De fato, não escapa aos autores a preocupação de assegurar em suas reflexões espaço para a unidade composicional do texto. Das definições de texto até agora vistas, como as de Harris ou Harweg — e, mais distan- ciadamente, de Hjelmslev —, advém uma percepção de “organicidade” semântica e lingüística entre as partes do texto que Beaugrande & Dressler (1981) nomeiam como o princípio da coesão textual. A coesão depende de relações gramaticais entre os elementos da superfície textu- al e diz respeito aos “procedimentos por meio dos quais os componen- tes da superfície do texto são mutuamente conectados no interior de uma seqüência” (Beaugrande & Dressler, 1981). Para os autores, é a coesão que oferece “estabilidade ao texto enquanto sistema, via a continuida- de de ocorrências”7 . Já em Beaugrande (1997), o duplo caráter do texto enquanto arte- fato lingüístico e processo sociocultural é aprofundado. Resta claro por que o autor concebe a textualidade então como um princípio de duplo alcance. Por um lado, não é negada à textualidade o status de “qualida- 7. A noção de “continuidade”, como empregada pelos autores, baseia-se na suposição de que as várias ocorrências no interior de um texto e sua situação de utilização estão relacionadas umas às outras. (...) Ao usar o termo “coesão” (“junção”), os autores querem enfatizar essa função da sintaxe na comunicação (Beaugrande & Dressler, 1981).
  13. 13. 30 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende de de todos os textos”. Por outro, acrescenta-lhe Beaugrande a condi- ção de “um empreendimento humano quando o texto é textualizado, isto é, quando um ‘artefato’ de sons ou marcas escritas é produzido ou recebido como um texto”: Percebemos que a textualidade não é apenas uma propriedade ou traço lingüístico (a), ou ainda, um conjunto desses, mas um modo múltiplo de cone- xão ativado toda vez que eventos comunicativos ocorrem. (...) Fomos impeli- dos a restaurar a conexão social do texto com o contexto e dos produtores e receptores do texto com a sociedade, formalmente eclipsadas por nosso foco convencional no autor e no indivíduo (Beaugrande, 1997: I.41-43, II. 5). Resta claro, sobretudo, que a guinada teórica, como já dito, advinda da teoria da atividade verbal ou da teoria dos atos de fala empreendida no interior do campo dos estudos textuais revela a saudável inquietação do campo em não aceitar uma suposta vocação para análise de elementos estritamente semântico-formais em detrimento de fatores pragmáticos. A mudança na concepção de textualidade, de propriedade interna a um “texto-artefato” para “princípios de textualidade” como empreendimen- to conjunto entre interactantes (em Beaugrande 1997, como visto aci- ma), é um passo decisivo da pesquisa nos estudos textuais para o estabe- lecimento de uma ligação visceral entre língua x texto x contexto. Ainda assente na idéia de textualidade ou tessitura (e da própria noção de texto) como empreendimento conjunto, é também de inesti- mável valor teórico para o campo dos estudos textuais a passagem, pro- posta por autores como Mondada (1994), Mondada & Dubois (1995), Marcuschi e Koch (1998), Marcuschi (2000), Koch (1997, 2002, 2004), da noção de referência (tão cara à semântica formal) para a noção de referenciação. No lugar de uma relação referencialista do “texto-obje- to” com o mundo empírico, esses autores teorizam sobre a construção de relações discursivas, nas quais os referentes “situados” no mundo ganham existência discursiva própria; uma relação de texto-processo, portanto, em que “objetos de discurso” são criados e (re)categorizados no fluxo discursivo com vistas ao estabelecimento de relações de senti- do. Em Koch (2002, 2004), por exemplo, procede-se a uma reformulação completa do conceito de coesão textual, sendo que, atualmente, para a autora, o texto deve ser pensado nos termos de dois “grandes movi-
  14. 14. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 31 mentos” — o de retroação (os processos de referenciação)8 e o de pros- pecção9 (os processos de progressão textual) — que “presidem à cria- ção da tessitura textual” (Koch, 2002: 121). Partindo para uma perspectiva que leve em conta as relações entre os processos de produção e de recepção de textos como inescapavelmente imbricados, Hanks ([1989] 2008: 119-120) assume que “texto” e “textualidade” são termos pertencentes a uma “família de conceitos li- vremente interconectados”. Conforme argumenta o autor, texto, ainda que definido de modo pouco preciso, pode ser designado como “qual- quer configuração de signos coerentemente interpretável por alguma comunidade de usuários”. De tal formulação, explica Hanks, se obtêm alguns pontos-chave para o entendimento da natureza do objeto. O termo “signo”, por exemplo, abre questões tais como tipologia textual, meio e unidades composicionais; já o qualificador “coerentemente” distingue o texto de um amontoado de fenômenos não textuais ou antitextuais; por fim, a interpretabilidade por uma comunidade de usuários desloca, segundo o autor, a reflexão sobre o fenômeno de uma preocupação com a estrutura imanente do discurso para a matriz social em que o discurso é produzido e compreendido, des- tacando o texto como um fenômeno comunicativo. Hanks ([1989] 2008: 118-168), por seu turno, se propõe o desafio de conciliar uma abordagem formalista, que lida com elementos constitutivos de textos enquanto artefatos fechados, com uma aborda- gem sociológica do fenômeno, cujo foco reside no campo da produção, distribuição e recepção de textos em larga escala, assumindo a posição de que se as propriedades formais e funcionais de signos complexos podem auxiliar no estabelecimento da textualidade, é o ajuste entre a forma do signo e algum contexto mais amplo que determina sua coe- rência fundamental. 8. Os estudos sobre a problemática da referenciação têm tido um grande desenvolvimento no Brasil. A esse respeito, cf. as obras de Koch (2002, 2004) e as obras organizadas por Cavalcan- te, Rodrigues e Ciulla (2003) e por Koch, Morato e Bentes (2005). 9. A respeito dos estudos desenvolvidos no Brasil sobre, por exemplo, os processos de progressão tópica (um dos procedimentos da progressão textual), cf. Koch (1992, 2002, 2004), Pinheiro (2005), Jubran (2006) e Koch, Bentes e Rezende (2006).
  15. 15. 32 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende Assim, para o autor, a noção de “con-texto” é constitutiva das e cons- tituída pelas noções de texto e textualidade, estando ambas em diálogo ainda com outras noções como “co-texto”, “meta-texto”, “pré-texto” e “sub-texto”. Diz Hanks que a nuança semântica precisa e a extensão do termo ‘texto’ mudam segundo quais porções desta gama de conceitos se escolhe abranger. Uma pergunta torna-se inevitável então: como proce- der para que a textualidade seja concebida não como uma propriedade de objetos simbólicos (textos), mas sim, e ao mesmo tempo, como um ins- trumento, um produto e um modo de ação social por meio de textos? (Hanks, [1989] 2008: 130). Fica evidente nessa perspectiva teórica o vigor da alteridade na cons- tituição da unidade textual. A interação10 — escutar/ler um texto — dos sujeitos com o texto torna-se de fundamental importância para con- ferir completude ao fenômeno textual. Recorreremos ao argumento da teoria fenomenológica do texto literário, apresentada por Ingarden (1973 apud Hanks, [1989] 2008: 131), para explicar a interação entre aspec- tos concretos e aspectos potenciais dos processos de produção e de re- cepção dos textos. Hanks explica que, segundo Ingarden, a obra literária pressupõe dois momentos; o primeiro, abstrato, esquemático11 e potencial; o segundo, concreto, atual e totalmente especificado. Na base do primeiro momen- to, está a concepção de que toda representação é inerentemente incom- pleta, plena de espaços de indeterminação; estes últimos são espaços em branco em que detalhes são omitidos, conexões são elididas e conheci- mentos de mundo são requeridos, de forma a se chegar de forma mais completa a uma especificidade semântica. Abstrato e incompleto, por- tanto, o texto só adquire especificidade semântica, “concretude” (como o próprio autor designa), quando esses detalhes são (re)construídos pelo 10. Koch & Travaglia (1989) e Koch (1990), com base em autores como Michel Charolles, já discutiam esses aspectos da interação entre sujeito, texto e leitor com base na postulação de que a coerência textual é um “princípio de interpretabilidade.” 11. Hanks ([1989] 2008) chama a atenção para o fato de que a idéia de estruturas esquemáticas apresentada por Ingarden (1973) pode ser também encontrada em outras reflexões tais como as produzidas nas teorias do discurso (Brown & Yule, 1983; Cicourel, 1985; Hanks, [1987] 2008; Lakoff, 1987), assim como nas teorias literárias da recepção (Jauss, 1982), nos estudos etnográficos sobre os gêneros (Bauman & Sherzer, 1974).
  16. 16. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 33 ouvinte/leitor; ou quando ele se engaja no estabelecimento de conexões entre idéias; ou ainda, quando seu conhecimento de mundo é requerido. O foco no status esquemático do artefato textual nos força a repen- sar a idéia de que os limites entre o que pertence e o que não pertence ao texto é fixo. Assim, ainda segundo Hanks ([1989] 2008), a idéia de que a estrutura do trabalho textual é apenas parcialmente determinada também contradiz a noção formalista-estruturalista de texto como um sistema funcional e completo internamente e traz, como conseqüência, uma visão do status do texto como uma realidade inescapavelmente histórica, já que recepções concretas ocorrem em contextos sócio-his- tóricos e encontram-se sujeitas a convenções interpretativas. Neste sentido, Hanks afirma que as fronteiras textuais podem ser dialeticamente constituídas na interpenetração entre os momentos esquemáticos e aqueles concretizados, entre os elementos intratextuais e os extratextuais. Ou ainda, alternativamente, pode-se conceber, segundo o au- tor, que essas fronteiras são gradientes, mostrando que existe um leque de fatores que dependem das combinações de possíveis traços esquemáticos e de traços específico-concretos, ou seja, que as fronteiras do texto são mais bem concebidas se as considerarmos como extremamente permeáveis, in- completas e momentaneamente estabelecidas (Hanks, [1989] 2008: 132-3). Por fim, a incompletude do texto devido à indeterminação é apenas um dos sentidos propostos por Ingarden. Se a incompletude textual relativa à indeterminação consiste em ser parcial, conforme comenta- do acima, a incompletude textual devido à constante revisão das suces- sivas concretizações que fazem a história desse objeto consiste justa- mente em ser provisória. Assim, segundo Hanks ([1989] 2008: 134), o que é relativamente permanente em um texto é necessariamente par- cial, ou seja, apenas parte daquilo que se deseja como completude, en- quanto a totalidade assumida nos modelos estruturais é apenas uma realização momentânea, um preenchimento provisório dos espaços em branco. Hanks ([1989] 2008) dá continuidade a essa discussão fazendo a seguinte pergunta: como um intérprete/leitor faz para derivar uma completa ou, pelo menos, adequada recepção de um texto? Para o au- tor, uma resposta (mesmo que parcial) pode ser dada: “Embora qual- quer fragmento de texto possa ser interpretado de múltiplas formas (por
  17. 17. 34 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende meio de centrações alternativas), a gama de possibilidades nunca é infi- nitamente aberta no mundo social real. Ao contrário, ela se encontra em parte inscrita na forma textual, e também é em parte debatida pelos atores” (Hanks, [1989] 2008: 136). É sobre essa maneira dialética de perceber o texto que discorreremos na próxima seção. 3. TEXTO E CONTEXTO: UMA RELAÇÃO CONSTITUTIVA Até aqui, fizemos um percurso que procurou centrar-se na apresen- tação do(s) conceito(s) de texto e, por conseqüência, na construção do que o campo acabou por denominar textualidade. Nesta seção, faremos, em um primeiro momento, uma breve discussão do conceito de contexto a partir de reflexões recentes no campo da lingüística antropológica. Em um segundo momento, apresentaremos uma breve análise de um dado, de forma a exemplificar as interpenetrações entre texto e contexto e para que possamos compreender o contínuo entextualização/descontextualiza- ção /recontextualização postulado por Bauman (2004). Segundo Hanks ([2006] 2008), um dos focos principais na pesquisa em linguagem nas últimas décadas têm sido as relações entre linguagem e contexto. Vários trabalhos têm demonstrado uma ampla variedade de formas por meio das quais a linguagem é “formatada” ou mesmo “mol- dada” por contextos sociais e interpessoais no interior dos quais os even- tos comunicativos ocorrem. Para o autor, o foco no contexto, seja como um fator de restrição/delimi- tação da produção do discurso, seja como um produto mesmo do próprio discurso, levou ao desenvolvimento de abordagens detalhadas da produção de linguagem, já que é principalmente na elaboração de enunciados falados e/ou escritos que linguagem e contexto se articulam (Hanks, [2006] 2008). Goodwin e Duranti (1992) concebem o contexto como um frame que envolve um determinado evento/objeto, mas que, principalmente, fornece subsídios para uma interpretação adequada deste evento. Con- forme analisa Koch (2002), para esses autores, a idéia de contexto deve recobrir tanto o entorno sociocultural no qual a atividade comunicati- va se desenvolve (macrocontexto), quanto seu cenário imediato de
  18. 18. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 35 ocorrência (microcontexto). Além disso, os conhecimentos prévios dos participantes (contexto sociocognitivo) e a própria linguagem (co-tex- to) — “o modo como a fala mesma simultaneamente invoca contexto e fornece contexto para outra fala” (Koch, 2002: 23) — também são en- tendidos como elementos contextuais. Schiffrin (1994) afirma que os lingüistas freqüentemente assumem que a produção de enunciados se dá nas/através de interações entre dois tipos diferentes de informação, a saber: 1) informação semântica ou informação textual, isto é, o con- junto estável de enunciados significativos transmitidos pela própria língua; 2) informação contextual, que, conforme a autora, é sempre identificada como secundária, pois está ligada a algum elemen- to de maior evidência e que, por este motivo, atrai a atenção do ouvinte/leitor. Para a autora, contexto é entendido como um conjunto heteróclito de elementos, podendo “alterar-se conforme o foco de nossa atenção”. O contexto não é dado a priori, mas construído segundo as negociações efetuadas pelos sujeitos durante sua própria atividade comunicativa. Trata-se de um conceito dinâmico, portanto, cuja determinação é ininterruptamente reconstruída nas/por atividades lingüísticas a serem realizadas ou interpretadas pelos sujeitos: Contexto é, portanto, um mundo preenchido por pessoas produzindo enuncia- dos: pessoas que possuem identidades sociais, culturais e pessoais, conheci- mento, crenças, objetivos e necessidades, e que interagem entre si em várias situações definidas socialmente e culturalmente (Schiffrin, 1994: 364). De acordo com Hanks ([2006]2008), determinadas abordagens12 teóricas desenvolvidas no campo dos estudos da linguagem, incluindo as exemplificadas acima, possuem em comum o fato de tratarem o con- texto como uma estrutura radial, cujo ponto central é o enunciado ver- 12. Cf. Hanks ([2006] 2008: 169-203) para uma melhor compreensão das diferentes abor- dagens do contexto pressupostas pela teoria dos atos de fala, pelas abordagens griceanas à con- conversação, pela teoria da relevância, pela etnometodologia e pela análise da conversação, consi- deradas pelo autor, conforme veremos adiante, como abordagens “individualistas“ do contexto.
  19. 19. 36 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende bal. Ainda para o autor, elas compartilham um compromisso com o individualismo metodológico, que prioriza o individual acima do coleti- vo, e procuram reduzir as estruturas sociais a comportamentos indivi- duais. Essas abordagens partem sempre da perspectiva dos produtores do discurso, derivam “contexto” de “relevância” (que diz respeito ao problema do “foco” apresentado por Schiffrin acima) e da emergência momentânea da situação comunicativa. Nessa perspectiva, contexto é um concomitante local da fala e da interação, efêmero e centrado em processos discursivos emergentes. Continuando sua discussão sobre a noção de contexto, Hanks afir- ma que outros autores desenvolveram abordagens13 sobre a linguagem e o discurso nas quais o contexto não é nem local, nem efêmero, mas global e durável, apresentando um escopo social e histórico maior do que qualquer ato localizado. Enquanto as primeiras abordagens encon- tram-se baseadas na lingüística, na psicologia e na microssociologia, denominadas pelo autor como “individualistas”, outras abordagens ba- seiam-se em teorias sociais e históricas de larga escala, abordagens de- nominadas “globais”. Neste sentido, A produção de enunciados não é tomada como sendo o centro gerador do contexto, como o é para as abordagens individualistas. Ao invés disso, os sistemas de referência explicativos são as condições sociais e históricas ante- riores à produção do discurso e que o restringem. A descrição lingüística convencional é um exemplo porque postula que os usos individuais da lin- guagem, para sua inteligibilidade, dependem dos sistemas lingüísticos (gra- matical e semântico) que sejam logicamente anteriores a qualquer ato de fala. Na medida em que estas perspectivas tratam da produção do discurso como um todo, as unidades relevantes são ou abstrações analíticas (o falante idea- lizado da lingüística) ou coletividades (comunidades, classes, redes sociais, tipos de agentes definidos por sexo, idade, profissão, local onde moram etc.) 13. Hanks ([2006]2008) chama a atenção para o fato de que há várias abordagens globais. Como exemplos, ele apresenta a perspectiva foucaultiana de discurso, a perspectiva bourdiesiana de mercados lingüísticos e de capital simbólico e cultural e a perspectiva da Critical Discourse Analysis (CDA), esta última envolvida principalmente com três questões: poder, exploração e desigualdade. Podemos ainda incluir aqui como exemplo de abordagens gerais sobre o contexto a teorização de van Dijk (1977, 1981, 1983), apresentada ao grande público por meio do livro Cognição, discurso e interação, organizado por Koch (1992). A chamada “virada cognitivista”, muito tributária das reflexões desenvolvidas pelo autor, é postulada por Koch (2004).
  20. 20. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 37 Do mesmo modo, o quadro temporal da produção do discurso não é o desen- rolar momentâneo dos enunciados que os defensores do individualismo cha- mam de tempo real, mas o tempo conjuntural dos sistemas coletivos e dos processos históricos (Hanks, [2006] 2008: 171-175). Na busca por uma integração do que chama de diferentes níveis de análise, Hanks chama a atenção para o fato de que as abordagens “indi- vidualistas” são, em grande medida, complementares às abordagens “glo- bais”. Uma primeira motivação para a tentativa de integração dessas duas abordagens reside no fato empírico de que as práticas de lingua- gem (incluindo-se aqui, a produção e a recepção de textos) são “formata- das” pelos contextos e ajudam a formatá-los em vários níveis. O outro é a patente inadequação de todas as abordagens dicotômicas que, segun- do o autor, inevitavelmente distorcem a significação dos traços contextuais e produzem um vácuo entre um nível e outro. A partir do posto de observação da lingüística antropológica, que o autor assume ser uma empreitada interdisciplinar, Hanks ([2006] 2008) afirma que o foco na linguagem requer uma análise detalhada de fatos locais emergentes, tanto os lingüísticos como os etnográficos (micro), enquanto o foco em sistemas socioculturais e lingüísticos requer uma análise igualmente cuidadosa das regularidades formais e funcionais, cujas motivações encontram-se bem distantes dos indivíduos e de suas ações (macro). Assim, a busca de uma articulação entre esses diferentes níveis é o que nos leva necessariamente a uma rejeição dessas divisões familia- res (micro & macro) no curso de qualquer investigação sobre o contexto que procure dar conta, ao mesmo tempo, das especificidades formais das práticas enunciativas e da sua incorporação14 social. Sabemos que não há uma única definição de quais tipos de e do quanto do contexto se fazem necessários para o enfrentamento do de- safio de uma descrição lingüística adequada. No entanto, sabemos tam- bém que existem princípios e tipos de relações que recorrentemente organizam contextos. É esse tipo de conhecimento que possibilita a emergência de perguntas teóricas tais como as feitas por Hanks: ‡‡‡‡‡‡ 14. O termo utilizado por Hanks ([2006] 2008) é embedding, e foi traduzido ao longo deste capítulo e de Hanks (2008) como incorporação e/ou encaixamento.
  21. 21. 38 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende (i) quais unidades contextuais e que níveis de contexto precisa- mos distinguir de forma a dar conta da língua como prática? (ii) quais são as relações e os processos que permitem o estabeleci- mento de diferentes níveis e unidades contextuais? (iii) como se pode analisar contextos atuais sem se deixar levar por uma grande quantidade de particularidades? (Hanks, [2006] 2008: 175). Para construir um pano de fundo teórico a partir do qual começa a formular as respostas para as perguntas elaboradas, o autor enfoca, em primeiro lugar, o que ele chama de duas grandes dimensões do contexto: a emergência (emergence) e a incorporação/encaixamento (embedding). Assim, a emergência diz respeito a aspectos do discurso que surgem no interior dos processos de produção e de recepção em curso, inserindo-se, portanto, no campo das atividades, das interações, das temporalidades, da co-presença verbais mediadas, em contextos “rápidos”, mostrando-se como uma atualidade ao mesmo tempo fenomenológica, social e históri- ca. A incorporação ou encaixamento (embedding) designa a relação en- tre aspectos contextuais que pertencem ao enquadramento, centração ou embasamento do discurso em quadros sócio-históricos mais amplos. Uma primeira diferenciação postulada por Hanks entre os diferen- tes níveis contextuais é aquela entre uma situação (situation) e um cenário (setting). Para ele, uma situação é um espaço de possibilidades de monitoramento mútuo, no interior do qual todos os indivíduos co- presentes têm acesso sensorial uns aos outros por meio de seus senti- dos. As seguintes condições se aplicam a uma situação: (i) há pelo menos duas partes que co-ocupam o mesmo tempo objetivo no interior do qual as percepções e os gestos expressi- vos ocorrem seqüencialmente; (ii) cada parte da situação encontra-se presente corporalmente, ambas perceptíveis e percebendo o outro; (iii) a situação é um campo de possibilidades de mútuo monitoramento, que permite que seus co-ocupantes notem uns aos outros. É importante perceber, segundo Hanks ([2006] 2008), que uma si- tuação não é um campo atual de mutualidade, reciprocidade e co-ocu- pação, mas um campo nos quais essas características são potenciais;
  22. 22. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 39 ela também é minimamente estruturada e naturalmente anterior a qual- quer enunciado, sendo que estão ausentes quaisquer objetos além das partes co-presentes. De uma forma resumida, Hanks afirma que a situa- ção provê um tipo de “exterior a priori” no interior do qual a fala e a linguagem são projetadas por meio de atos de enunciação. No entanto, Hanks afirma que, como um mero campo de co-presen- ça, uma situação não tem uma estrutura significativa em si. Sendo as- sim, de forma a não nos deixar levar por um “mar”de particularidades, se faz necessário acrescentar à situação social os julgamentos dos parti- cipantes sobre o que é relevante e sobre “o que está acontecendo aqui e agora”. Isto ilustra a mudança de uma situação para um cenário social. Para o autor, introduzir o conceito de relevância é transformar funda- mentalmente a idéia de contexto porque, se por um lado, os julgamentos de relevância implicam um tema ou um ponto focal de interesse a partir do qual a relação de relevância é estabelecida, por outro, a relação de relevân- cia estabelecida encontra-se ancorada nas experiências prévias dos sujei- tos, à luz das quais ela emerge. Isto implica que qualquer contexto no qual a relevância temática opera é uma estrutura com dois níveis: um temático e um de conhecimento prévio (foreground/background, ou theme/horizon). Em relação aos tipos de relevância, Hanks defende o ponto de vista de Schutz, para quem há três tipos de relevância: topical, interpretativo e motivacional. A combinação desses três tipos de relevância tem como prin- cipal efeito criar um sistema de relevância multifacetado, pertinente para o cenário e suficiente para enfatizar que o contexto interativo, mesmo no nível relativamente primário, é hierárquico ao longo de várias dimensões, tanto as co-presentes locais como as não-locais. Para incorporar um componente de natureza semiótica ao modelo de análise de contexto que elabora, Hanks ([2006] 2008), com base na teoria de Karl Buhler (1990 [1934]) sobre o contexto, postula um campo semiótico, de natureza simbólica e indexical/demonstrativa, constituído de todos os traços do cenário (setting) que, por sua vez, são transformados imediata- mente por signos (simbólicos, indiciais e icônicos), pelas relações entre estes signos (sintáticas, semânticas e pragmáticas), pela manutenção de objetos e por várias funções, incluindo a referência e a diretividade indivi- duais (orientação da atenção do interlocutor por meio de palavras e ges-
  23. 23. 40 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende tos). Sendo assim, o campo semiótico converte o cenário interativo em um campo de signos que inclui os gestos e outros aspectos perceptíveis dos participantes, tais como a postura, o apontar, os olhares diretos e o som da voz do falante, tudo isso orientando o foco de atenção subjetiva dos parti- cipantes. No interior desse cenário, os enunciados (ou os textos), em suas dimensões simbólica e indicial, refletem e transformam o contexto. Eles orientam a atenção dos participantes, tematizam os objetos de referência, formulam, invocam e constroem o contexto, operam sobre os sistemas de relevância, em resumo, produzem o contexto. Assim, para o autor, a situação, o cenário e o campo semiótico são emergentes no sentido de que se desenvolvem no tempo. A existência des- sas diferentes formações contextuais não implica nem a existência de uma seqüência temporal entre elas, nem tampouco um conjunto de relações de inclusão. Vejamos como o autor nos explica o relaciona- mento entre esses níveis: A progressão da situação para o cenário e deste para o campo demonstrativo não é nem uma seqüência temporal nem um conjunto de relações de inclusão. É um problema de ordenamento lógico, a partir de um nível relativamente primitivo da esfera da consciência perceptual através do campo demonstrativo semioticamente complexo. O cenário herda os traços de co-presença da situação, transformando-os por meio de relações de relevância e de unidades de ação socialmente reconhecidas. O campo demonstrativo simbólico herda do cenário um sistema de relevância interperspectival, mas o transforma por meio de siste- mas semióticos multifuncionais (sendo a linguagem o mais notável). O modelo de contexto implícito no campo demonstrativo é ponto de partida mínimo para oestudododiscurso.Oquequerquesejaverdadeirosobreocontextodiscursivo, então, engloba corpos e campos perceptuais, sistemas de relevância, tipos de atos e as expectativas que eles engendram, sistemas semióticos e as transformações que eles produzem (Hanks, [2006] 2008: 183-184). É importante chamar a atenção para o fato de que o campo semiótico seria para Hanks a unidade contextual mínima, a partir da qual se pode produzir qualquer análise de fenômenos de linguagem que considere o contexto. Outro aspecto importante a ser acentuado é o que diz respeito ao fato de que as três formações (ou níveis) contextuais distintas(os) (situação, cenário e campo semiótico/simbólico) encontram-se combina- das(os) entre si de tal forma que, no curso da vida social, não há situação
  24. 24. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 41 que não esteja ligada a um cenário e não há cenário que possa ser separa- do das semioses. É essa relação ordenada de envolvimento e de ligação entre os níveis que o autor denomina incorporação (embedding). Para ele, estudar as relações entre a produção de linguagem e o contexto, é estudar essas relações de incorporação social. Faz-senecessáriaumaúltimaobservaçãoantesdepartirmosparaaanálise de um exemplo que tem por objetivo principal procurar demonstrar como a produção e a recepção de textos, em suas dimensões simbólica e indicial, refletem e constroem o contexto: nenhum campo semiótico existe em um vácuo social. Se assumirmos que os níveis se interpenetram e herdam as propriedades uns dos outros, propiciando transformações no nível contextualizador (aquele que herda as propriedades do que foi por ele incorporado), sendo que este último funciona como um horizonte operativo a partir do qual o nível incorporado é compreendido, poderemos dizer que qualquer campo semiótico pode ser incorporado/contextualizado por um ou mais campos sociais15 . Vamos agora a nosso exemplo. Há algum tempo, eu e uma colega pesquisadora fomos a uma conferência jun- tos. Nós tínhamos dado entrada no hotel e eu, assim que entrei no meu quarto, descobri que este tinha uma sacada [balcony] que permitia uma bonita visão de uma parte da cidade. Meia hora depois, eu e minha colega nos encontramos no saguão do hotel e saímos para jantar. Enquanto caminhávamos para fora do hotel, eu perguntei a ela: “Você tem uma sacada tão bonita assim também?” O termo balcony, em nossa língua nativa, o holandês, é, entre outras coisas, um termo rude e profundamente machista/sexista usado para se referir aos seios femininos. Enquanto fazia a pergunta, eu não observei uma mulher que vinha caminhando na direção oposta a nossa, usando um “top” de verão bem decota- do, expondo parte de seus seios. Infelizmente, minha colega pesquisadora no- tou essa mulher — minha colega percebeu uma pista de contextualização — e o termo balcony rapidamente adquiriu um significado muito sugestivo, sexual- mente ofensivo, que me demandou uma explicação detalhada e tentativas de reparo pela ofensa feita (Blommaert, 2005: 42). 15. Hanks ([200] 2008: 187) assim define campo social: “O termo ‘campo social’ tal como é usado aqui é adaptado da sociologia da prática e designa um espaço delimitado de posições e de tomadas de posição por meio das quais valores circulam, no interior do qual agentes possuem trajetórias ou carreiras e se engajam em vários footings (a saber, competitivos, colaborativos, estratégicos etc.). Assim definido, o campo social não é nem radial, nem baseado no discurso (embora o discurso circule na maioria dos campos), existindo sim cenários interativos incorpo- rados em qualquer campo social.
  25. 25. 42 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende Antes de iniciar uma análise das relações entre texto e contexto a partir da narrativa acima, é importante reafirmar um princípio básico da perspectiva teórica postulada por Hanks (1996: 1): a linguagem hu- mana não é nem a causa nem a medida do mundo tal como o vivenciamos. Nessa perspectiva16 , apesar do reconhecimento de que o fenômeno lingüístico permeia nossas vidas em todos os seus aspectos, é preciso reconhecer também que, para estudar a maneira como as diferentes dimensões contextuais formatam a produção, a circulação e a recepção da linguagem/dos textos, dever-se-ia considerar que os enunciados e/ ou textos não são os elementos a partir dos quais todo o contexto se organiza, mas verdadeiramente constituem a interação entre a lingua- gem, a cultura e o mundo individual vivido pelos sujeitos. A história contada e analisada por Blommaert pode nos levar a um bom exercício de análise do modelo de contexto postulado por Hanks ([2006] 2008), de sua contribuição para a compreensão do fenômeno textual e das relações de mútua constitutividade entre texto e contexto. Em um primeiro nível de análise, devemos considerar que o texto acima — a narrativa produzida pelo personagem masculino, TEXTO 1A — descreve uma situação, ou seja, “um espaço de possibilidades de monitoramento mútuo no interior do qual todos os indivíduos co-pre- sentes têm acesso sensorial aos outros por meio de seus sentidos”. O fato de dois colegas de trabalho, um homem e uma mulher (que estão viajando juntos a trabalho) se encontrarem no lobby do hotel em que estão hospedados, dirigindo-se a um jantar em um restaurante, é uma situação porque pelo menos duas partes co-ocupam o mesmo tempo objetivo no interior do qual as percepções e os gestos expressivos ocor- rem seqüencialmente e porque cada parte da situação encontra-se pre- sente corporalmente, ambas perceptíveis e percebendo o outro. Em um segundo nível de análise, podemos focar no enunciado ou TEX- TO 1B “Você tem uma sacada tão bonita assim também?” (se considerarmos 16. Hanks (1996, [1987, 1989, 2006] 2008) postula uma teoria da prática comunicativa que procura articular as duas principais tradições de estudo da linguagem: as teses internalistas, ou da irredutibilidade do fenômeno lingüístico, e as teses externalistas, ou da relacionalidade. Uma tentativa de unificar e de transcender esses aspectos é o que o autor procura fazer em sua obra LanguageandCommunicativePractices(1996). No Brasil, o debate sobre as teses externalistas e internalistas é feito por Morato (2002, 2004), Salomão (2003), Koch e Cunha-Lima (2004).
  26. 26. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 43 as definições de texto de Harris, 1952; Schmidt, 1973; Hanks, [1989] 2008; Beaugrande, 1997; Koch, 2002) proferido pelo personagem masculino da narrativa. Além disso, podemos considerar a pergunta feita como um texto em função da definição de Bauman (2004: 4), para quem todo texto pres- supõe uma operação de descontextualização porque, ao retirar um trecho do discurso de seu contexto, tornando-o internamente coerente, procede- mos de forma a objetivá-lo como uma unidade textual discreta, à qual po- demos nos referir, e que podemos descrever, nomear, citar, exibir, tratan- do-a como objeto. Para o autor, essa operação de descontextualização pres- supõe necessariamente uma nova recontextualização, o que revela o po- tencial dos textos de serem (re)produzidos em outro contexto, no caso em questão, um contexto de análise. Se uma das características da textualidade apontadas por todos os autores é a conectividade, podemos perguntar: com que se conecta o TEXTO 1B,”Você tem uma sacada tão bonita assim também?”, produzido pelo personagem masculino? Podemos dizer que, em termos co-textuais, al- guns outros enunciados devem ter sido pronunciados antes (nem que tenham sido as fórmulas típicas de início de encontros), mas como eles não foram descritos, inferimos que devem ter existido, tanto da parte do professor quanto da parte da pesquisadora. No entanto, o que mais nos interessa descrever é justamente como o TEXTO 1B, ao ser enunciado, re- vela a mudança de uma situação, tal como a que o TEXTO 1A descreve, para um cenário social, já que a enunciação do TEXTO 1B revela justamen- te que uma relação de relevância é estabelecida: um dos participantes julga o que deveria ser um tema ou ponto focal de interesse de ambos (no caso, a vista bonita propiciada pela sacada do apartamento do professor). Voltando à questão da conectividade, nosso ponto aqui é o de que a conectividade do TEXTO 1B “Você tem uma sacada tão bonita assim tam- bém?” parece não ocorrer com o que foi enunciado antes (o co-texto), mas com o conhecimento prévio do ator sobre o tema enfocado (sua experiência ao chegar ao quarto do hotel e se deparar com a bonita vista propiciada pela sacada) e com o tipo de pressuposição que o ator tinha de que sua colega teria tido a mesma experiência que ele. A enunciação do TEXTO 1B, neste sentido, seria apenas um “pretexto” para que, por exem- plo, ambos pudessem comentar essa experiência (a de cada um ter um quarto com uma bonita vista propiciada por uma sacada).
  27. 27. 44 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende Mas se considerarmos em nossa análise a descrição feita no TEXTO 1A do campo semiótico no qual os participantes estão inseridos no mo- mento em que o TEXTO 1B é enunciado, veremos como os sentidos pro- duzidos pelo TEXTO 1B são modificados, assim como também são modifi- cadas as expectativas dos participantes em relação ao que foi dito. Isto ocorre em função tanto da forma lingüística utilizada (o uso do termo “balcony”, que tem duplo sentido, e a mobilização de uma estrutura sintática também ambígua, que pergunta se a interlocutora “tem” um “balcony” “bonito assim”), como do campo de signos no qual os parti- cipantes estão imersos, o que inclui o direcionamento do olhar do per- sonagem feminino na direção de um objeto (uma mulher que caminha em direção a eles portando um generoso decote), objeto que não foi percebido pelo personagem masculino que produziu o TEXTO 1B. Em outras palavras, o sentido do TEXTO 1B, para a interlocutora, se dá no ajuste entre o que é lingüística e concretamente estruturado e sua per- cepção de determinados índices de contextualização/indexicalização da palavra balcony enunciada por seu interlocutor. Por fim, é esse ajuste produzido na recepção do TEXTO 1B que faz emergir um campo social diferenciado daquele no qual inicialmente os dois parti- cipantes pareciam estar inseridos, já que nenhum campo semiótico exis- te em um vácuo social. Assim, conforme Bloomaert (2005), o campo social no qual os dois interlocutores pareciam estar imersos aprioristica- mente seria o campo profissional, hierarquizado e amistoso. No entanto, a enunciação do TEXTO 1B e o tipo de indicialidade a ele associado promo- ve uma mudança da esfera/campo anteriormente descrito para uma esfe- ra sexualizada, masculina e baseada em relações de poder. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta última parte do capítulo, tentamos exemplificar, por meio da análise de um exemplo, que as fronteiras dos textos são extremamente permeáveis, complexas e momentaneamente estabelecidas e reafirmar que, dentre as tantas definições de texto aqui mencionadas, a formula- da por Koch (2002), mantém o espírito da busca de uma melhor com- preensão desse objeto, como diz a autora, multifacetado e complexo:
  28. 28. TEXTO: CONCEITOS, QUESTÕES E FRONTEIRAS [COM]TEXTUAIS 45 ...o texto como lugar de constituição e de interação de sujeitos sociais, como evento, portanto, em que convergem ações lingüísticas, cognitivas e sociais (Beaugrande, 1997), ações por meio das quais se constroem interativamente os objetos-de-discurso e as múltiplas propostas de sentidos, como função de esco- lhas operadas pelos co-enunciadores entre as inúmeras possibilidades de orga- nização que cada língua lhes oferece... construto histórico e social, extrema- mente complexo e multifacetado... (Koch, 2002: 9). Além disso, acreditamos ter mostrado algumas das importantes mu- danças pelas quais passou a compreensão do objeto textual no interior do campo da lingüística textual e da lingüística como um todo ao longo do tempo. Neste texto, apresentamos um primeiro momento, onde o mais importante era descrever a chamada text-language, principalmente consi- derando fenômenos e recursos que permitissem observar a conectividade entre as partes internas que constituem o texto. Apesar dessa generaliza- ção, como vimos, vários tipos de estudo e de objetos foram desenvolvidos no campo dos estudos do texto, desde os primeiros estudos sobre fenôme- nos co-referenciais, chegando até a proposta de gramáticas textuais. Em um segundo momento, o conceito de texto passou a estar necessariamente associado ao de textualidade, pressupondo assim uma concepção de língua como ação e ou atividade e o texto como um lugar de construção de rela- ções e de objetos-de-discurso de naturezas diversas e dependentes do con- texto histórico e social mais amplo. Nossa contribuição mais específica re- side na apresentação de um modelo de contexto que pode ser mobilizado para o desenvolvimento de análises fundamentalmente voltadas para a consideração das relações de mútua constituição entre texto e contexto, relações que deixam entrever, por exemplo, que as interpretações múlti- plas de uma porção textual encontram-se parcialmente inscritas na forma textual e são quase sempre parcialmente contestadas pelos atores sociais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARTHES, R. (1953/2004). O grau zero da escrita. São Paulo: Martins Fontes. BAUMAN, R. (2004). AWorldofOthers’Words:Cross-CulturalPerspectivesonIntertextuality. Oxford: Blackwell Publishing. BEAUGRANDE, R. & DRESSLER, W. (1981). Introduction to Text Linguistics. London: Longman. BEAUGRANDE, R. (1997). New Foundations for a Science of Text and Discourse, in: http: // www.beaugrande.com/new_foundations_for_a_science.htm. Acesso em 25 de agosto de 2006.
  29. 29. 46 [RE]DISCUTIR TEXTO, GÊNERO E DISCURSO | Anna Christina Bentes e Renato Cabral Rezende BENTES, A. C. (2001). “Lingüística textual” , in: BENTES, A.C. & MUSSALIM, F. (orgs). Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez. ____ (2006). Relatório final do projeto de pós-doutorado “Linguagem como prática social: a elaboração de estilos de fala por jovens rappers brasileiros”. Berkeley: University of California (processo no 2005/03186-1), mimeo. BLOMMAERT,J.(2005).Discourse.KeyTopicsinSociolinguistics.Cambridge:CambridgeUniversityPress CAVALCANTE, M. M.; RODRIGUES, B. B.; CIULLA, A. (2003). Referenciação. São Paulo: Editora Contexto. GOODWIN, C.; DURANTI, A. (1992). Rethinking Context: an Introduction, in: DURANTI, A.; GOODWIN, C. (orgs.). RethinkingContext:LanguageasanInteractivePhenomenon. Cambridge: Cambridge University Press. DIJK, T. A. van (1983). La ciencia del texto. Un enfoque interdisciplinario. Barcelona: Paidós. FÁVERO, L. L. & KOCH, I. G. V (1988). Lingüística textual: introdução. São Paulo: Cortez. HANKS, W. (1989). Texto e textualidade, in: BENTES, A. C., REZENDE, R. C. e MACHADO, M. A. (orgs.). Língua como prática social: das relações entre língua, cultura e sociedade a partir de Bourdieu e Bakhtin. São Paulo: Cortez, 2008. _____ (2006). O que é contexto?, in: BENTES, A. C., REZENDE, R. C. e MACHADO, M. A. (orgs.). Língua como prática social: das relações entre língua, cultura e sociedade a partir de Bourdieu e Bakhtin. São Paulo: Cortez, 2008. HARRIS, Z. (1969). Analyse du discours, in: Langages: l’analyse du discours, nº 13, orgs.: J. Dubois e J. Sumpf. Didier-Larousse, pp. 8-45. HJELMSLEV, L. (1975). Prolegômenos a uma teoria da linguagem. São Paulo: Perspectiva. JUBRAN, C. A. S. (2006). O tópico discursivo, in: JUBRAN, C. A. S. & KOCH, I. G. V. Gramática do português culto falado no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp. KOCH, I. G. V., TRAVAGLIA, L. C. (1989). Texto e coerência. São Paulo: Cortez. KOCH, I. G. V. (1989). A coesão textual. São Paulo: Contexto. _____ (1990). A coerência textual. São Paulo: Contexto. _____ (1992). A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto. _____ (1997). O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto. _____ (2002). Desvendando os segredos do texto. São Paulo: Cortez. _____ (2004). Introdução à lingüística textual. São Paulo: Martins Fontes. KOCH, I. G. V., CUNHA-LIMA, M. L. A. (2004). Do cognitivismo ao sociocognitivismo, in MUSSALIM, F., BENTES, A. C. Introdução à lingüística: fundamentos epistemológicos. São Paulo: Cortez. KOCH, I. G. V. (2006). Lingüística textual hoje: questões e perspectivas, in: SILVA, D. E. G. da (org.). Língua,gramáticaediscurso. Goiânia: Cânone Editorial/Grupo de Estudos da Lingua- gem do Centro-Oeste, p. 20-42. KOCH, I. G. V., BENTES, A. C., REZENDE, R. C. (2006). Cadernos de Estudos Lingüísticos. O Tópico Discursivo. Campinas, no 48 (1). KOCH, I. G. V., MARCUSCHI, L. A. (1998). Processo de referenciação na produção discursiva. D.E.L.T.A. 14, pp. 169-190, número especial. LINS, O. (1976/2005). A rainha dos cárceres da Grécia. São Paulo: Cia. das Letras. MARCUSCHI, L. A. (1983). Lingüística textual: o que é, como se faz. Mestrado em Letras e Lingüís- tica. Série Debates 1. Recife: UFPE. MORATO, E. M. (2002). O impasse internalismo & externalismo e suas influências sobre os estudos neurolingüísticos. Veredas. Lingüística e Cognição. Juiz de Fora, vol. 6, no 1- p. 131-139. _____ (2004). O interacionismo no campo lingüístico, in: MUSSALIM, F., BENTES, A. C. Introdu- ção à lingüística: fundamentos epistemológicos. São Paulo: Cortez. PINHEIRO, C. L. (2005). Estratégias textuais-interativas: a articulação tópica. Maceió: EDUFAL. SALOMÃO, M. M. M. (2003). Razão, realismo e verdade: o que nos ensina o estudo sociocognitivo da referência, in: MORATO, E. M.; BENTES, A. C.; LIMA, M. L. C. (orgs.). Cadernos de estudos lingüísticos. Campinas, no 44, p. 71-84. SAUSSURE, F. (1916/2000). Curso de lingüística geral. São Paulo: Cultrix. SCHIFFRIN, D. (1994). Approaches to Discourse. Cambridge/Oxford: Blackwell Publishers. SILVERSTEIN, M. & URBAN, G. (1996). Natural Histories of Discourse. Chicago: The University of Chicago Press. TITSCHER, S; MEYER, M; WODAK, R & VETTER, E. (2000). Methods of Text and Discourse Analysis. London: SAGE Publications.

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