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Carta fundamental a_escola_festa_fev_2013

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Carta fundamental a_escola_festa_fev_2013

  1. 1. R E P O RTAG E M A escola que é uma festa Localizada em um dos bairros mais violentos de São Paulo, a Escola Municipal Zacaria consegue melhorar o ambiente, envolver a comunidade e se reinventar POR ISABELA MORAIS E TORY OLIVEIRA N a quadra da Escola Municipal ves Filho, 16 anos, confessa que derramou al- Mauro Faccio Gonçalves, mais gumas lágrimas no momento em que se de- conhecida como Zacaria, na parou com a festa: “Chorei porque vou sentir zona sul de São Paulo, cerca de saudades da Zacaria. Aprendi muito aqui”. cem alunos do 9º ano aguar- Há 16 anos, a situação era diferente. A es- dam a vez para assinar um dos documentos cola fica no entroncamento de três bairros exigidos para a formatura. O diretor, Rober- periféricos da zona sul: Parque Santo Antô- to Wagner Carbonari, chama aluno por aluno nio, São Luiz e Chácara Santana. O primei- em ordem alfabética. Os formandos já estão ro começou a ser ocupado na década de 1970 impacientes, quando professoras fantasiadas e abriga cerca de 270 mil moradores. Hoje, surgem na quadra ao som de Dancin’ Days. carrega também a marca de o mais violen- Em seguida, os professores e o diretor dan- to da capital. Dados do 92º DP, responsável çam uma coreografia de Village People, gru- por atender o bairro, já contabilizava 52 ho- po norte-americano dos fortões fantasiados, micídios dolosos até outubro de 2012, o maior conhecidos pelos hits Macho Man e Y.M.C.A. contingente da cidade. Levando em conta as Espantados, os alunos entendem o que está estatísticas dos DPs do Capão Redondo e acontecendo: as assinaturas eram um pretex- Campo Limpo, também localizados na re- to para reunir todos em uma festa-surpresa. gião sul da capital, o número salta para 137, No pátio, um DJ aguarda os adolescentes por volta de 12% de todos os homicídios re- com comidas, bebidas não alcoólicas, luzes e gistrados na capital no ano passado. música eletrônica. Alunos, professores e fun- Rebatizada pela comunidade em 1991 de cionários se juntam e arriscam passos na pis- Zacaria em homenagem ao comediante de ta de dança improvisada no local onde usu- Os Trapalhões, a escola e seus alunos tinham almente é montado o refeitório. O clima é de poucos motivos para sorrir. O espaço era de- alegria entre a equipe e os alunos que estão gradado, cheio de pichações e marcado pe- dando adeus à escola. Denilson Oliveira Al- la violência. “No meu primeiro mês como 58 CARTA FUNDAMENTAL••CFReportagemZacaria45.indd 58 16/01/13 15:23
  2. 2. mismo da diretora encontrava coro entre os professores. Dispensa de aulas, faltas e expul- sões de alunos da sala eram comuns. Além da violência, a falta de professores era outro problema. O bairro, até hoje, não é de fácil acesso e era comum que a escola servis- se apenas como local de passagem para os do- centes que esperavam por uma oportunidade de trabalho melhor. “Já tive de dar aulas pa- ra duas turmas por quase um ano inteiro. Eu não tinha quem desse as aulas nem ha- via previsões para a chegada de alguém”, afir- ma o diretor. Assim, a escola tinha dificulda- des de envolver alunos e comunidade. O quadro começou a mudar com uma de- cisão da equipe gestora. Ao lado da ex-coor- denadora pedagógica Olgair, Wagner Carbo- nari decidiu permanecer. Ele disse: “Eu sou diretor e vim para ficar, mas a escola não é minha”, lembra a professora Maria do Socor- ro Lacerda, há 17 anos na Zacaria. A sala do diretor, antes inacessível aos alunos, passou a ficar aberta a todos. Aos poucos, espalhou- -se, entre os estudantes, a noção de que esta- diretor, estourou uma bomba na entrada da vam abertos ao diálogo. Mais democrática, a PAT R Í C I A S TAV I S GESTÃO DEMOCRÁTICA escola, em seguida explodiu um hidrante e, escola deu início aos projetos que existem até Para engajar a segundos depois, outra bomba no banheiro comunidade, escola hoje e passou a lutar por melhorias. que destruiu todas as lâmpadas”, lembra Car- apostou em medidas bonari. O diretor filmou tudo e passou de sa- como diálogo aberto e Pequenos gestos promoção de eventos la em sala mostrando para os alunos e expli- A primeira grande mudança foi democrati- cando que o objetivo dele não era atuar como zar as decisões no Conselho Escolar: da gra- policial, mas que era necessário descobrir o de curricular até o gasto do dinheiro prove- responsável. Uma aluna contou ao educador niente da Associação de Pais e Mestres, tu- que suspeitava do irmão, aluno da oitava sé- do era decidido em conjunto. Outra inovação rie na escola. Carbonari foi até a casa do ra- foi o Programa de Valorização do Educador paz e afirmou que não faria boletim de ocor- (Prove), idealizado por Olgair em 1998, que rência se o menino concordasse em conver- passou a oferecer, todos os meses, cursos de sar com ele. “Nunca mais teve bomba, por- formação. A cada fim de ano é realizado um que isso pegou entre as pessoas.” seminário e os professores publicam seus re- Olgair Garcia, ex-coordenadora pedagógi- latos em uma revista editada por eles. Com o ca da escola, também se recorda de casos de tempo, o programa foi incorporado por ou- vandalismo. A antiga diretora, que mantinha tras escolas da região. uma relação conflituosa com os alunos, ex- Após se aproximar da comunidade, a esco- pulsou seis deles, considerados problemáti- la também conseguiu resolver o problema da cos. A situação era, nas palavras da coordena- falta de professores. Direção e moradores se dora, terrível. “Quando entrei, principalmen- mobilizaram e levaram cerca de 700 pais e te à noite, tinha umas brigas horríveis”, diz a responsáveis até a prefeitura, no centro da ci- educadora, ex-aluna de Paulo Freire, que saiu dade, para cobrar a contratação de docentes. de uma universidade privada porque queria “No dia seguinte, o Diário Oficial publicou a trabalhar na rede pública. Na época, o pessi- inscrição para professores”, afirma Wagner. CARTA FUNDAMENTAL 59••CFReportagemZacaria45.indd 59 16/01/13 15:23
  3. 3. R E P O RTAG E M servir a merenda: os pratos de plástico foram trocados por outros de vidro, com garfo e faca no lugar da colher, e os alimentos, antes ser- vidos pelas cozinheiras, passaram a ser ofere- cidos em um esquema de self-service. As mu- danças tornaram o refeitório um lugar mais limpo e menos barulhento. Outra ação que agregou identidade à esco- la e aproximou a instituição dos alunos foi o Projeto Aniversário, criado em 2000. A ideia é simples: realizar, a cada três meses, uma festa coletiva para todos os estudantes que fa- çam aniversário naquele período. Antes, to- dos os professores trabalham com um deter- minado tema em sala. No dia da comemo- ração é servido um cardápio especial e são ALUNOS De acordo com o diretor, a falta de profes- apresentados os resultados do trabalho de- TÊM VOZ sores diminuiu: “Em vista do cenário de 15 senvolvido ao longo dos meses. Como as fes- Escola mudou anos atrás, hoje é uma maravilha. Temos até tividades são frequentes, a escola adquiriu, a pedido dos professor substituto”, conta. Segundo dados com o dinheiro da Associação de Pais e Mes- estudantes, e agora merenda é servida da Secretaria Municipal de Educação, hoje a tres, máquinas de algodão-doce, sorvete, cre- como self-service escola Zacaria abriga 911 alunos do 1º ao 9º pe, pipoqueira e um forno para pizza. ano do Fundamental. Há também turmas de A formatura do 9º ano também foi rein- Educação de Jovens e Adultos. ventada. Antes, os alunos pagavam por ceri- A estrutura física da escola também mu- mônias fora da escola. A maioria não tinha dou. A primeira alteração começou com o ba- condições financeiras para bancar e a festa nheiro. A reforma levou em conta as reivindi- acabava restrita a poucos. Hoje, todos parti- cações dos alunos, como a instalação de sa- cipam da formatura com suas famílias e nin- bonete líquido e do suporte para o papel hi- guém paga nada. A festa acontece no pátio da giênico nos boxes. Um espelho foi fixado na escola e é financiada com o dinheiro arreca- parede, assim como ar quente para enxugar dado nos eventos realizados durante o ano. as mãos e uma cantoneira para apoiar o ma- Há ainda um balanço avaliativo com pro- terial escolar. O local foi arrumado, as picha- fessores, alunos e gestores. Em uma espé- ções apagadas e assim permanece até hoje. cie de assembleia, todos se reúnem no pátio “As pessoas entenderam que têm o direito de da escola para definir, juntos, quais serão as possuir uma escola limpa”, explica Socorro. normas vigentes no próximo ano. “Isso cria Os alunos também foram atendidos em ou- uma consciência de que você está num espa- tra solicitação, aparentemente banal. A pedi- ço público, mas que é seu, que é você quem o do dos estudantes, mudou-se a maneira de constrói”, analisa Olgair. Incompatibilidade com as avaliações Embora as melhorias na da rede pública paulistana, não sendo captados pelas ainda os alunos aprovados Zacaria sejam notáveis, a no caso do 5º ano, e inferior avaliações externas. “Houve em universidades públicas escola não apresenta um (3,7), entre os alunos do 9º uma melhora nas relações ou ganhadores de bolsas grande avanço em (4,3). O diretor, Wagner de convivência da nas privadas, o assunto é I S A D O R A PA M P L O N A avaliações externas, como o Carbonari, afirma que, comunidade com a escola debatido entre os Prova Brasil. O desempenho apesar da insatisfação com que dificilmente se traduz professores, que cogitam da instituição no Ideb é igual os resultados atingidos, numa nota”, defende. criar um indicador (4,8) ao da média das escolas muitos elementos acabam Segundo o diretor, que cita próprio da escola. 60 CARTA FUNDAMENTAL••CFReportagemZacaria45.indd 60 16/01/13 15:23

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