CATADORES DE LIXO:                 RENDA FAMILIAR, CONSUMO E TRABALHO PRECOCE                                             ...
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consumo em si mesmo5 e menos ainda se dedicaram ao que denominamos unidade deconsumo6. Se a lógica da unidade de produção ...
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trabalhos “domésticos”, no sentido estrito do termo, além de contribuir com o trabalho deseleção do lixo.      As despesas...
estratégias para ampliar este mercado (obsolescência planejada das mercadorias, produtosdescartáveis, redução do tempo de ...
Os pais reconhecem o valor da contribuição dos trabalhadores precoces, tal como sepode depreender da seguintes afirmações:...
trabalho, o cansaço derivado dele, baixa renda familiar etc.23. Mas além disso, as famílias decatadores de lixo, que não a...
nóis em paz aqui. A gente botava os meninos no estudo e eles            chegavam aqui, derrubavam o barraco, tocava fogo, ...
analfabetismo dos pais é elevado. Nas vinte famílias pesquisadas que possuem trabalhadoresprecoces observamos que há 70% d...
Relação entre Mudança e Escolarização de Trabalhadores Precoces                    em 20 Famílias de Catadores de Lixo em ...
BibliografiaBURSZTYN, Marcel & ARAÚJO, Carlos Henrique. Da Utopia à Exclusão: Vivendo nas    Ruas em Brasília. Rio de Jane...
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Catadores de lixo_renda_familiar_consumo_e_trabalho_precoce

  1. 1. CATADORES DE LIXO: RENDA FAMILIAR, CONSUMO E TRABALHO PRECOCE Nildo Viana A utilização de trabalho precoce, isto é, da força de trabalho de menores de dezoitoanos, pelas famílias de catadores de lixo, tem como causa fundamental a necessidade decomplemento da renda familiar, elemento indispensável para se realizar o consumo de bensnecessários para a sobrevivência da família. O trabalho precoce é necessário devido ao fato deque na relação despesa-consumo se cria a necessidade de aumentar a renda para compensar adespesa representada pelos indivíduos menores de idade. Isto tem entre outras conseqüências,como veremos mais adiante, um uso elevado de trabalho precoce. Mas existem diversasoutras conseqüências, tal como o caso da desescolarização dos menores de dezoito anos quevivem nestas famílias. Unidade Doméstica, Proletarização e Lumpemproletarização Por qual motivo determinadas famílias se tornam coletoras de lixo? O que engendraessa forma de buscar adquirir os meios de sobrevivência? Isto ocorre devido ao fato de queem nossa sociedade, desde a Revolução Industrial, criou-se uma separação entre trabalhadorese meios de produção. Sem meios de produção, ou seja, sem ter como produzir os seus meiosde sobrevivência, não resta outra saída a não ser vender sua força de trabalho em troca de umsalário. Porém, o mercado de trabalho não absorve toda a força de trabalho disponível. Destaforma surge ao lado do proletariado (força de trabalho efetivamente empregada e submetidaao salariato), o lumpemproletariado (força de trabalho potencial, sub-utilizada ou não-utilizada)1. O lumpemproletariado precisa, então, criar estratégias de sobrevivência. Isto decorre dofato de que na sociedade capitalista ocorre uma “mercantilização de tudo” (Wallerstein),inclusive dos meios de consumo2. A alimentação, o vestuário etc., se transformam em1 A definição de lumpemproletariado não é consensual. O conceito surgiu com Marx e ganhou diversas significações posteriores. Tal conceito vem sendo retomado na França, principalmente a partir do final da década de 80 (cf. MOREAU DE BELLAING, Louis. La Misère Blanche. Paris, L’ Harmattan, 1988). Aqui o significado deste conceito é equivalente ao de exército industrial de reserva, tal como este último termo foi definido por Marx (cf. MARX, Karl. O Capital. Vol. 2, 3a edição, São Paulo, Nova Cultural, 1988; cf. também discussão sobre este termo apresentada por NUN, José. Superpopulação Relativa, Exército Industrial de Reserva e Massa Marginal. In: PEREIRA, Luiz (org.). Populações Marginais. São Paulo, Duas Cidades, 1978).2 Cf. WALLERSTEIN, Imannuel. O Capitalismo Histórico. São Paulo, Brasiliense, 1984.
  2. 2. mercadorias e a única forma (dentro dos padrões convencionais, ou seja, excetuando-se o casodo roubo) de adquiri-las é através da compra efetivada por intermédio do dinheiro. Esta é umalógica bem diferente da existente nas sociedades pré-capitalistas, principalmente as de caráterrural. Nestas sociedades, a unidade doméstica era simultaneamente unidade de produção eunidade de consumo, ou seja, se fundamentava na produção de valores de uso, na auto-subsistência. Esta identidade entre unidade de produção e unidade de consumo na unidade domésticarompe-se com a ascensão do modo de produção capitalista. A produção mercantil exige nãosó a separação entre trabalhador e meios de produção como também entre unidade deprodução e unidade de consumo3. A produção mercantil capitalista possui a seguinte lógica: D-M-D (dinheiro-mercadoria-dinheiro), onde se usa o dinheiro para comprar mercadoria e vendê-la por umvalor superior ao que foi gasto. Desta forma, a produção capitalista visa a reproduçãoampliada do capital4. Ao lado da produção mercantil capitalista persiste existindo a produçãomercantil simples, que, por sua vez, possui outra lógica: M-D-M (mercadoria-dinheiro-mercadoria), onde se produz uma mercadoria para adquirir dinheiro para comprar outramercadoria (que não é produzida nesta unidade doméstica). Isto quer dizer que a produçãomercantil simples também precisa de garantir uma renda monetária para possibilitar a comprade mercadorias não produzidas na sua própria esfera. Porém, esta unidade doméstica é, ainda,unidade de consumo e unidade de produção, embora não seja auto-suficiente, ou seja, nãoproduz tudo que necessita para consumir e por isso precisa produzir um excedente paraadquirir dinheiro com sua venda e assim comprar as mercadorias que necessita. Assim, com exceção da produção mercantil simples subordinada à produção mercantilcapitalista, a distinção entre unidade de consumo e unidade de produção se generaliza em todaa sociedade capitalista. Mas tanto a produção mercantil simples quanto a produção mercantilcapitalista já foram objetos de extensas análises e estudos. Curiosamente, o mesmo nãoaconteceu com a unidade de consumo separada da unidade de produção, separação estainstituída pela produção mercantil capitalista. Poucos autores se dedicaram ao problema do3 Mas é necessário dizer que isto não ocorreu de forma imediata, pois foi um produto da paulatina constituição do capitalismo (cf. MOTTA, Fernando P. O Que é Burocracia. São Paulo, Brasiliense, 1985).4 Cf. MARX, Karl. O Capital. Vol. 1, 3a edição, São Paulo, Nova Cultural, 1988. 2
  3. 3. consumo em si mesmo5 e menos ainda se dedicaram ao que denominamos unidade deconsumo6. Se a lógica da unidade de produção capitalista é D-M-D, resta saber qual é a lógicada unidade de consumo. Alguns aspectos da unidade de consumo são fáceis de se delimitar. A unidadedoméstica deixou de ser uma unidade de produção para os agentes envolvidos na produçãomercantil capitalista  a classe capitalista e a classe operária , para o conjunto dostrabalhadores assalariados improdutivos e para aqueles que só possuem sua força de trabalhomas que não conseguem vendê-la no mercado de trabalho formal. Porém, a unidade domésticacontinuou sendo uma unidade de consumo. Ora, se não é unidade de produção e é unidade deconsumo, então sua lógica é D-M (dinheiro-mercadoria). Em outras palavras, as unidadesdomésticas são apenas unidades de consumo e para o consumo se efetivar é necessário umarenda monetária. Este caso é mais grave no que diz respeito àqueles que possuem como únicapropriedade a sua força de trabalho e são constrangidos a buscar adquirir uma rendamonetária para garantir sua sobrevivência. Numa sociedade onde tudo (ou quase tudo) setransformou em mercadoria e que, por conseguinte, possui um valor de troca, então torna-senecessário para adquiri-las ter acesso ao meio de troca universal, ou seja, ao dinheiro. Neste sentido, a sobrevivência da unidade doméstica — que se transformou em umaunidade exclusivamente de consumo — depende da renda familiar. A renda familiar é o quepermite o funcionamento da unidade doméstica enquanto unidade de consumo. A rendafamiliar é o total em dinheiro adquirido pelo conjunto dos membros da família, embora elatambém possa ser adquirida por apenas um membro ou por uma parte deles. Porém, esta rendamonetária adquirida é revertida para o conjunto da família, independentemente de quantosparticipam da sua formação. Os membros da família que não participam da formação da renda familiardesempenham outras atividades delimitadas por uma divisão social do trabalho na qual os quese dedicam à tarefa de adquirir renda monetária geralmente não participam (com exceção dealgumas funções tais como consertos, construção e reforma de casa etc.). Estas atividades5 Um dos raros autores que se dedicou ao problema específico do consumo foi o economista norte-americano Thorstein Veblen (Cf. VEBLEN, Thorstein. A Teoria da Classe Ociosa. Col. Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1980) e tal tema vem recebendo atenção dos que se dedicam à questão da sociedade de consumo.6 Uma das raras exceções encontra-se em textos orientados por uma preocupação feminista sobre o trabalho feminino nas famílias proletárias (cf. HARRISON, John; SECCOMBE, Wally; GARDINER, Jean. El Ama de Casa Bajo el Capitalismo. Barcelona, Anagrama, 1975). 3
  4. 4. consistem principalmente em processamento de meios de consumo e de criação de condiçõespara a realização do consumo e para liberar membros para a busca da renda monetária. Estadivisão social do trabalho ocorre principalmente entre homens e mulheres, sendo quegeralmente, mas nem sempre, os homens se dedicam a busca de renda monetária e asmulheres cuidam da unidade doméstica, que inclui atividades como limpeza, preparação decomida etc. Em muitos casos as mulheres fazem estas atividades e ajudam na busca da rendamonetária e em casos mais raros os homens colaboram em tais atividades consideradas“domésticas”7. A formação da renda familiar ocorre de forma diferente em unidades domésticasdiferentes. Nas famílias proletárias, o principal meio (embora não seja o único, pois outrosmembros da família podem utilizar outros meios para complementar a renda) para a formaçãoda renda monetária é o trabalho assalariado. Nas famílias lumpemproletárias existem diversosmeios utilizados para se adquirir renda monetária: trabalho assalariado temporário, trabalhoindependente (também chamado de “trabalho autônomo” ou “por conta própria”), roubo,mendicância etc.8. Resta saber quais são os membros da família que são os responsáveis pela aquisição darenda monetária. Isto depende do período histórico e do contexto cultural mas podemos dizerque nas famílias proletárias com níveis salariais mais altos cabe ao indivíduo adulto do sexomasculino a tarefa de adquirir renda monetária. As mudanças históricas e culturais podemalterar este quadro. Durante a Revolução Industrial, por exemplo, mulheres e crianças foramjogadas no trabalho assalariado enquanto muitos homens eram vítimas do desemprego, talcomo ocorre hoje, no caso das crianças, em muitos países do chamado “terceiro mundo” e quevolta a ocorrer nos países da Europa Ocidental. Nas famílias proletárias com níveis salariais baixos a situação é diferente. A rendamonetária proporcionada pelo trabalhador adulto pode ser  e geralmente é  insuficientepara manter a unidade doméstica com suas necessidades de consumo. Isto pode provocartanto a desagregação desta unidade doméstica como a viabilização de alternativas paraaumentar a renda familiar, tal como o uso do trabalho precoce e/ou do trabalho feminino.7 Aliás, é este um dos motivos da desvalorização das atividades domésticas e, por conseguinte, das atividades femininas desempenhadas em tal lugar: a unidade doméstica passou a ser o locus do consumo e por conseguinte do que é “improdutivo”, ao contrário, por exemplo, da unidade doméstica no modo de produção escravista, que era o oikos e no modo de produção feudal, o feudo, onde não se limitava apenas ao consumo mas também à produção de bens. 4
  5. 5. Portanto, a renda monetária insuficiente adquirida pelo trabalhador assalariado adulto cria anecessidade de uso do trabalho precoce e/ou feminino. Nas famílias lumpemproletárias a renda monetária adquirida é geralmente insuficiente.Em determinados casos e momentos históricos de uma família, esta renda pode ficar aquémda necessidades de sobrevivência e em casos raros pode permitir uma relativa tranqüilidadena aquisição dos meios de sobrevivência. É claro que isto depende de qual segmento dolumpemproletariado se faz parte, pois na maioria dos casos a fome, a desnutrição, entre outrosaspectos que demonstram as suas condições precárias de vida, é o que predomina. Osresponsáveis pela aquisição da renda monetária e de recursos adicionais, são todos osmembros com condições de desenvolver estas atividades, ou seja, apenas as criançaspequenas (cuja idade varia dependendo da família ou do segmento do lumpemproletariado)estão em geral livres destas tarefas. Na sociedade capitalista, uma sociedade mercantil par excellence, a generalização damercantilização e, por conseguinte, do uso da moeda, cria o chamado “cálculo econômico” ou cálculo financeiro  como forma de organizar a relação entre despesas e renda9. Estecálculo financeiro também é utilizado em unidades domésticas lumpemproletárias, embora deforma semiconsciente e assistemática. A relação despesas-renda varia de acordo com otamanho da família. O cálculo é simples: a renda deve ser superior às despesas e o equilíbrioorçamentário depende ou da diminuição das despesas ou de aumento da renda. Além disso,quanto maior a família, maiores serão as despesas, e, por conseguinte, maior é a necessidadede aumentar a renda familiar. O aumento das despesas leva à necessidade de aumentar arenda. De que forma se pode aumentar a renda e/ou os recursos adicionais? Há duas formasprincipais para se conseguir isto: sobrecarregando os membros ativos da família, quando istoé possível, ou incorporando mais membros nas atividades que geram renda ou recursosadicionais. Esta sobrecarga de atividades sobre os membros ativos geralmente ocorre quandoas crianças ainda estão demasiadamente pequenas para trabalharem e a incorporação de maismembros geralmente ocorre quando tais crianças já possuem condições de executarem taisatividades. Tendo em vista que geralmente a renda familiar das famílias lumpemproletárias8 OFFE, Claus. Problemas Estruturais do Estado Capitalista. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1984. 5
  6. 6. mal consegue satisfazer a necessidade do que o antropólogo Eric Wolf chamou de “mínimocalórico”10, então vê-se que, para estas famílias, o uso do trabalho precoce é indispensável.Neste sentido, podemos dizer que o aumento do tamanho da família — no caso decrescimento vegetativo — provoca um aumento de despesas que, à curto prazo, gera umaintensificação do trabalho dos membros ativos e, à longo prazo, a utilização do trabalhoprecoce. Mas, antes de continuarmos, devemos esclarecer por qual motivo utilizamos aexpressão lumpemproletarização ao invés de exclusão social11, termo que vem sendoamplamente utilizado. Ao nosso ver, o termo exclusão social apresenta limitações que nãoocorrem com o conceito de lumpemproletarização. A mais grave limitação que observamosno termo exclusão social é de caráter teórico-metodológico. A idéia de exclusão não temcomo pano de fundo uma teoria da totalidade da vida social enquanto unidade dinâmica econtraditória e sim uma visão dualista12: a sociedade estaria dividida em duas esferas: a dos“incluídos” e a dos “excluídos”, como se fossem duas unidades sociais que existissemindependentemente uma da outra. Podemos observar outros problemas teórico-metodológicos em torno da idéia daexclusão social. Em primeiro lugar, tal concepção nos fornece uma falsa impressão que nãohá uma divisão interna entre os considerados “incluídos” e também entre os considerados“excluídos”. Em segundo lugar, não disfarça a sua preferência pelo mundo dos “incluídos”(seja ele qual for, se lembrarmos que este não é homogêneo), que passa a ser vistoacriticamente e julgado como um mundo desejável pelos “excluídos” (o problema passa a9 “As pessoas que querem sobreviver contam todas as rendas que podem receber, não importa a fonte, e as calculam em termos das despesas reais que precisam fazer” (WALLERSTEIN, Imannuel. Ob. cit., p. 19).10 “Esse mínimo pode ser definido com bastante rigor, em termos fisiológicos, como o consumo diário de calorias alimentares exigido para compensar o desgaste de energia que o homem despende em seu rendimento diário de trabalho. Esse montante pode ser avaliado, aproximadamente, entre 2.000 a 3.000 calorias por pessoa em cada dia de trabalho. Não será errado afirmar que este mínimo ainda não se alcançou na maior parte do mundo. Cerca da metade da população mundial tem, em média, uma ração per capta diária de menos de 2.250 calorias. Essa faixa inclui a Indonésia (com 1.750 calorias), a China (com 1.800 calorias) e a Índia (com 1.800 calorias). Dois décimos da população mundial incluem-se na categoria que recebe, em média, uma ração de 2.250 a 2.750 calorias per capita; esse grupo inclui a Europa Mediterrânea e os países balcânicos. Somente três décimos da população mundial  os Estados Unidos, os domínios britânicos, a Europa Ocidental e a União Soviética  conseguem ficar acima de 2.750 calorias” (WOLF, Eric. Sociedades Camponesas. 2a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1976, p. 17).11 Sobre exclusão social, consulte-se: NASCIMENTO, Elimar. A Exclusão Social no Brasil: Algumas Hipóteses de Trabalho e Quatro Sugestões Práticas. In: Cadernos CEAS. No 152, Jul/Ago. de 1994; JUNCÁ, Denise. Ilhas de Exclusão: O Cotidiano dos Catadores de Lixo de Campos. Ano XVII, no 52, 1996.12 Tal crítica também foi endereçada à chamada “teoria da marginalidade” (em suas diversas versões), que também teria uma visão dualista da sociedade (cf. BERLINCK, Manoel. Marginalidade Social e Relações de Classe em São Paulo. Petrópolis, 6
  7. 7. girar em como “incluir” os “excluídos”). Em terceiro lugar, não trabalha de forma suficiente arazão de ser da chamada exclusão social, demonstrando, na maioria das abordagens sobre estetema, que é um processo sem agentes e sem contradição, sendo produto não se sabe do que,ou, em outras palavras, a idéia de exclusão social assume um caráter descritivo e nãoexplicativo. A idéia de lumpemproletarização, ao contrário, surge no interior de uma teoria dasclasses sociais e o lumpemproletariado não é um segmento social totalmente excluído  sehouvesse tal possibilidade  pois ele pode estar momentaneamente afastado do mercado detrabalho, dos direitos sociais (da cidadania) e marginalizado no mercado de consumo, masnão está definitivamente excluído de nenhum destes aspectos da vida social, pois existe tantomudanças que alteram sua situação quanto uma mobilidade entre lumpemproletariado eproletariado, entre segmentos do lumpemproletariado etc. Por conseguinte, consideramoscomo mais adequado o uso da teoria do lumpemproletariado ao invés do uso da concepção daexclusão social e por isso lançaremos mão dela no presente trabalho. Catadores de Lixo: Renda Familiar, Consumo e Trabalho Precoce O lumpemproletariado cria diversas estratégias de sobrevivência, tal como já havíamoscolocado. Aqui nos interessa a forma específica representada pela coleta de lixo. As famíliaslumpemproletárias que se dedicam à coleta de lixo e vivem desta coleta será o nosso foco deanálise daqui em diante. Os coletores de lixo (também chamados de “catadores de lixo” e “trabalhadores dolixo”) atuam em diversas cidades brasileiras. O que permite sua existência é a indústria dareciclagem do lixo que transforma os coletores em fornecedores de matérias-primas. O tipo deproduto que extraem do lixo é variado, sendo principalmente papel, garrafas, plásticos, latas ecobre. Segundo Bursztyn e Araújo, “o processamento industrial do papel coletado peloscatadores de Brasília é um bom negócio. Estima-se que para cada tonelada adquirida aempresa gasta igual valor no processamento, para depois vender a matéria-prima por 2,5vezes mais do que os custos”13. Vozes, 1975). Consideramos que tais críticas se aplicam também à concepção de exclusão social, tendo em vista suas características semelhantes.13 BURSZTYN, Marcel & ARAÚJO, Carlos Henrique. Da Utopia à Exclusão: Vivendo nas Ruas em Brasília. Rio de Janeiro/Brasília, Garamond/Codeplan, 1997, p. 39. 7
  8. 8. O comércio do lixo entre os catadores de lixo e as empresas de reciclagem geralmentepassa pela mediação dos “atravessadores”: “boa parte das compras não é feita diretamentepelas empresas. Também nesse setor a terceirização chegou, de forma que há intermediáriosentre os catadores e a indústria: são os ‘atravessadores’ do papel”14. A existência deatravessadores pode ser explicada por dois motivos principais. Em primeiro lugar, o fato deque existe dificuldade de locomoção dos catadores de lixo para entregar o material nasempresas compradoras15. Em segundo lugar, porque é mais vantajoso para as empresasutilizar o trabalho dos catadores de lixo  já que os catadores selecionam o material(separando os vários tipos de papel, que possuem preços diferentes, e outros materiais, taiscomo vidros, latas etc.)  do que recolherem diretamente o lixo e os atravessadores ocupamum papel importante neste caso, pois ao mesmo tempo que provocam um aumento do preçotambém diminuem as despesas das empresas com transporte e funcionários, o que não alteramuita coisa para elas. Portanto, é a indústria de reciclagem de lixo que permite a existência dos catadores delixo que comercializam o produto de sua coleta, ou seja, somente existindo aquele quecompra é que pode existir aquele que vende. É o lucro proporcionado pelo lixo que cria ocomércio do lixo e a relação mercantil e, consequentemente, é o que permite às famílias decatadores de lixo adquirir renda monetária. Qual é a origem dos catadores de lixo? Tal como é comum para uma grande parte dolumpemproletariado, a principal forma de produção de coletores de lixo é a migração, ou seja,o deslocamento da força de trabalho de um lugar para outro, seja do campo para a cidade oude uma localidade urbana (cidade, região ou país) para outra. Segundo Peliano, “se ocapitalismo, de um lado, ao separar o trabalho de suas condições de realização (pois as tornampropriedades de alguns), gera historicamente os contínuos e específicos deslocamentospopulacionais em busca de recomposição de novas condições de trabalho, de outro lado, aoseparar trabalho necessário e o trabalho excedente (pois vital à perpetuação do capital), geraprogressivamente trabalhadores excedentes ao processo imediato de produção e, emconseqüência, produz igualmente novos migrantes. Nessa perspectiva, é insuspeito afirmar14 BURSZTYN, Marcel & ARAÚJO, Carlos Henrique. Ob. cit., p. 38.15 “Por não dispor das condições mínimas para buscarem opções de venda desse material no mercado, em função dos limites de locomoção, a troca é estabelecida no próprio local de trabalho, via ‘atravessadores’. Estes encostam seus veículos e 8
  9. 9. que, sob o capitalismo, ou a partir da evolução das formações econômicas no caminhocapitalista, ocorrem o aumento e a intensidade dos deslocamentos populacionais no espaçoeconômico das sociedades, seja de forma absoluta (campo-cidade), seja de forma relativa(cidade-cidade ou cidade-campo). Assim, as migrações, enquanto deslocamentos naturais depopulação, se tornam deslocamentos determinados (provocados) de população, na medida emque se intensificam e aceleram no capitalismo quando, então, passam a ser produtosnecessários à forma capitalista de produção”16. A destruição de relações de produção pré-capitalistas e não-capitalistas, o que significa,ao mesmo tempo, a instauração de relações de produção capitalistas que não absorve toda aforça de trabalho liberada pelas formas não-capitalistas de produção, é uma das principaiscausas da migração, isto é, do deslocamento da força de trabalho na sociedade. Além disso, oprocesso de proletarização e lumpemproletarização que decorre daí é reforçado pelanecessidade do capital de diminuir os gastos com a força de trabalho, o que é realizadoatravés do aumento de produtividade e desenvolvimento tecnológico que provoca desemprego(lumpemproletarização) e redução dos gastos com salários através da implantação deindústrias em regiões onde o movimento operário é mais fraco, a força de trabalho inativa égrande e os níveis salariais são baixos. A migração é, portanto, o deslocamento da força de trabalho provocada pela destruiçãode relações de produção pré-capitalistas e não-capitalistas (campo-cidade) ou pelalumpemproletarização e baixos salários existentes em determinadas regiões ou países, cujoprincipal exemplo é o deslocamento de força de trabalho do “terceiro mundo” para a EuropaOcidental17. Os catadores de lixo são produtos deste deslocamento da força de trabalho. Os coletoresde lixo de Campos/RJ, por exemplo, “já residiram em diversas cidades do país, e retornarampara Campos por dispensa ou término dos contratos de trabalho, por salários insuficientes,pela desilusão com as contradições entre ganhos e gastos ou, ainda, em menor escala, por aguardam o que cada um tem a oferecer, impondo um processo de seleção, separando o que é ou não aproveitável e determinando o valor a ser pago” (JUNCÁ, Denise. Ob. cit., p. 110).16 PELIANO, José Carlos. Acumulação de Trabalho e Mobilidade do Capital. Brasília, UNB, 1990, p. 124.17 Exemplos deste tipo de migração se encontra em: MOREAU DE BELLAING, Louis. Ob. cit. 9
  10. 10. motivos pessoais ligados a casamentos, separações, doenças ou desejo de ficar perto dafamília18”. Podemos dizer que a razão da migração se deve a diversos fatores mas todos derivadosdo desemprego (lumpemproletarização) e de condições precárias de vida e, por conseguinte,da expectativa de conseguir melhores condições de vida e/ou emprego. Porém, depósitos delixo e grandes quantidades de restos consumidos pela população existem em diversas cidades,principalmente nas grandes, onde se destacam as capitais, e em menor grau, nas cidadesmédias. Por qual motivo, então, se escolhe determinada cidade? Que motivo há para escolherCampos/RJ, Goiânia/GO, São Paulo/SP, Brasília/DF e não qualquer outra cidade? Em outraspalavras, resta saber por qual motivo se escolhe determinado local para ir. A escolha pode sermotivada por informações, conhecimento prévio do local, proximidade entre moradia deorigem e o local escolhido, existência de parentes residindo no local escolhido etc. A “opção”  que é, na verdade, uma falta de opção  por ser catador de lixo decorrede condições sociais específicas. Muitos indivíduos passam por diversas atividades antes dese tornar catador de lixo enquanto que outros já chegam à cidade e adotam imediatamente estaatividade, como é o caso daqueles que possuem parentes trabalhando com o lixo. Aliás,existem resistências a este tipo de atividade, que é rejeitada por muitos. Mas a falta dealternativa e a existência de condições de sobrevivência através do trabalho com o lixoproporciona tal decisão. Para haver esta decisão é preciso que haja uma indústria dereciclagem que atue no local, empresas e/ou atravessadores que comprem o lixo coletado, umquantum razoável de lixo na cidade (o que pressupõe uma cidade no mínimo de médio porte),ou seja, é preciso haver certas condições externas que possibilitem e viabilizem a coleta dolixo. As condições internas são a lumpemproletarização, a falta de alternativas e umatrajetória individual e/ou familiar que torne conhecida esta possibilidade de adotar a coleta delixo como estratégia de sobrevivência. Além disso, determinadas alternativas ou “opções” sãorejeitadas por parecerem mais humilhantes ou desonestas. É comum ouvir, por exemplo, quecoletar lixo é “melhor que roubar”, onde se mistura vergonha e justificativa para a opção pelacoleta de lixo. A mendicância, embora seja praticada de forma subsidiária em alguns poucos casos,também é rejeitada como forma alternativa de sobrevivência, o que demonstra que os18 JUNCÁ, Denise. Ob. cit., p. 114. 10
  11. 11. coletores de lixo possuem uma mentalidade onde se mescla vergonha (da atividadedesenvolvida) e orgulho ferido, o que cria determinados “mecanismos de defesa”, parautilizar linguagem psicanalítica, que lhe fornece uma justificativa e conforto psíquico. Para explicar a questão específica do uso do trabalho precoce devemos considerartambém a questão da renda monetária que pode ser adquirida com a coleta de lixo. Semdúvida, a atividade de coleta de lixo proporciona uma renda monetária familiar insuficientepara atender as necessidades do mínimo calórico. Embora, em determinados casos, elaproporcione recursos adicionais, principalmente para aqueles que desenvolvem suasatividades em depósitos de lixo, tal como os restos de alimentos. Segundo Juncá, “aalimentação e saúde ganham, porém, novos contornos no lixão. Os restos de alimentosencontrados, ou mesmo as verduras, leite, carnes e frangos, em processo de deterioração, comprazos de validade vencidos ou embalagens violadas, que são regularmente trazidos para olixão, determinam a única possibilidade de variação e ‘enriquecimento’ de sua ‘dieta’básica”19. Desta forma observamos que a renda familiar é insuficiente e a necessidade do uso dotrabalho precoce se torna evidente, principalmente para as famílias que possuem crianças, oque aumenta suas despesas. Mas o uso do trabalho precoce já era uma realidade antes dacoleta de lixo para a maioria das famílias20. Nas famílias de catadores de lixo, as crianças emtorno dos dez anos passam a se dedicar a esta atividade. Sem o trabalho precoce o cálculofinanceiro apontaria para um volume de despesas elevado em contraste com uma rendafamiliar baixa. O caso dos catadores de lixo em Brasília, em muitos aspectos, não difere muito dos deoutras cidades. A renda familiar é baixa e o trabalho precoce é amplamente utilizado. A rendamonetária adquirida com a venda do lixo varia de um mês para outro, pois depende da19 JUNCÁ, Denise. Ob. cit., p 113. Porém, o trabalho precoce no lixo não é um problema só no Brasil e sim mundial, tal como ocorre na Etiópia, Zaire, Peru, Índia, Filipinas, Camboja etc. (cf. UNICEF. Situação Mundial da Infância, 1997. Brasília, 1997).20 “Descendentes de famílias oriundas de diferentes municípios do estado do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, os atuais catadores de lixo desde cedo começaram a conviver com o cotidiano de negatividade de possibilidades. Em função da necessidade de ajudar no sustento da família, por volta dos dez anos ingressaram no mundo do trabalho. Alguns executando tarefas auxiliares aos pais, predominantemente na zona rural, cuidando do gado, tirando leite, ou exercendo atividades de plantio e capina, principalmente na lavoura da cana de açúcar. Outros buscaram a área do trabalho doméstico, iniciando como babás, e encontrando uma vantagem adicional: a moradia e a alimentação. Mas nas duas situações não havia qualquer salário ou rendimento individual. Ajudando os pais, estes é que recebiam de seus patrões, e como domésticas tinha de retorno roupas, remédios ou pequenos objetos de higiene pessoal” (JUNCÁ, Denise. Ob. cit., p.110). 11
  12. 12. composição e do quantum de lixo que é coletado. Isto decorre do fato de que o preço variadependendo do quantum e do tipo do material. Segundo Bursztyn e Araújo, os produtos extraídos do lixo possuem preços variados, talcomo observamos em nosso trabalho de campo. Segundo estes autores, “cada um destesprodutos é objeto de uma operação diferente de comercialização. O que dá maior volume erenda é o papel. O branco é o mais valorizado, sendo vendido a R$ 0,08 o quilo. O ‘misto’,vale bem menos: R$ 0,02. O alumínio e o plástico rendem R$ 0,30 o quilo. Pelo papelãopode-se obter R$ 0,05 por quilo”21. A renda familiar adquirida geralmente é suficiente apenas para a sobrevivência,estando, pois, abaixo do mínimo calórico. A atividade com o lixo também é apresentada comoum “mal necessário”, devido a falta de opção. Em Brasília, tal como em qualquer outro lugardo país, a atividade de coleta de lixo é retratada pelos seus praticantes de forma auto-justificadora. O seguinte discurso, apresentado por uma catadora de lixo de Brasília, nos apresentauma visão que se tem desta atividade: “Se não fosse o papel a gente não tinha nada (...). A gente vai ajuntando de pouquinho. O papel não dá (...). O papel só dá prá comer e é mal. Tem dia que a gente come, tem dia que a gente não tem nada. Precisa esperar vender esse papelzinho para ganhar um dinheirinho pouco, pra gente fazer uma feirinha pra poder comer. E não dá. Por que o recurso que a gente tem aqui mesmo é só o papel velho. Se não fosse esse papel aqui a gente já teria até morrido de fome, senão estava com uma cuia na cabeça pedindo esmola”. A coleta de lixo é vista como uma atividade vital, como único meio de sobrevivência,que, porém, é insuficiente. Ele é apresentado como o único recurso possível e assim se vêjustificado, pois não há outra alternativa. Também é desqualificado pelos próprios catadores,pois no trecho acima vemos algumas expressões no diminutivo (“papelzinho”, “dinheirinho”,“feirinha”) que retratam esta desqualificação (desvalorização). Mas, independentemente deser uma atividade desqualificada, ela é necessária e única alternativa, sob pena de ter que21 BURSZTYN, Marcel & ARAÚJO, Carlos Henrique. Ob. cit., p. 39. 12
  13. 13. optar por uma atividade ainda mais desqualificada e vergonhosa: pedir esmola (ou, comocolocou o marido desta catadora, catar papel “é melhor do que roubar”). Desta forma, a coletade lixo é vista como necessária, porém não é motivo de orgulho e ainda por cima é visto comoinsuficiente. Como disse outro catador, “a renda é pouca, só dá prá gente passar mesmo namarra”. As despesas com alimentação, vestuário e remédios formam os gastos básicos dafamília, embora, como veremos mais adiante, também existam outros gastos com bens deconsumo duráveis. Neste contexto de renda familiar limitada, o uso do trabalho precoce setorna uma necessidade. As crianças com mais de dez anos geralmente trabalham e contribuemcom a formação da renda familiar, embora existam muitos casos em que os trabalhadoresprecoces com menos de dez anos também trabalhem, mas em outras atividades, tais como a deengraxate, vigia de carros etc. Estimamos que a contribuição dos trabalhadores precoces para a formação da rendafamiliar gira em torno de 25 a 60% do seu total. Esta contribuição e seu quantum dependemdo tamanho da família, do número de trabalhadores precoces, bem como de sua idade e sexo.As famílias grandes podem adquirir uma renda monetária per capita maior desde que onúmero de não-trabalhadores (geralmente crianças menores de dez anos) seja pequeno ou nãoexista e que os trabalhadores precoces tenham um bom desempenho. O número de trabalhadores precoces também interfere na formação da renda familiar,embora também interfira nas despesas. Podemos supor também que a idade dos trabalhadoresprecoces também interfere na formação da renda. Por exemplo, uma família com trêstrabalhadores precoces de 10, 12 e 13 anos tem uma renda inferior em aproximadamente 40%em relação a uma família com três trabalhadores precoces de 11, 14 e 17 anos. Alguns casosreforçam esta hipótese, que, no entanto, é apenas uma hipótese que somente com umapesquisa mais abrangente poderá ser confirmada ou não. O sexo dos trabalhadores precoces também interfere na formação da renda, já que aparte do trabalho dedicada à coleta do lixo é mais importante para a formação da renda egeralmente fica a cargo dos trabalhadores precoces do sexo masculino, enquanto que otrabalho de seleção do lixo é desenvolvido geralmente pelos trabalhadores não-precoces epelos trabalhadores precoces do sexo feminino. A contribuição do trabalho precoce de sexofeminino, devido a isto, é inferior. Algumas meninas menores de dezoito anos se dedicam aos 13
  14. 14. trabalhos “domésticos”, no sentido estrito do termo, além de contribuir com o trabalho deseleção do lixo. As despesas das famílias grandes também é maior. O cálculo financeiro que podemosextrair destas informações é o seguinte: as famílias grandes com poucos (ou nenhum) não-trabalhador e com um número superior de trabalhadores precoces e não-precoces possuemuma renda per capita superior à das famílias na mesma situação só que com um númeromaior de não-trabalhadores, embora, desde que estes não-trabalhadores sejam menores de dezanos, a tendência, com o passar do tempo, é esta última elevar o seu nível de renda e a outraestagnar. As famílias com um número maior de trabalhadores do sexo masculino (precoces ounão) tendem (pois isto também depende do número e idade dos trabalhadores ativos) a teruma renda familiar per capita mais elevada. Enfim, podemos dizer que a formação da rendafamiliar depende do tamanho da família, da idade, sexo e número de trabalhadores ativos edos inativos. As despesas são maiores quanto maior for a família e, portanto, o aumento darenda pode apenas acompanhar o aumento das despesas. A renda per capita somente aumentanas condições anteriormente citadas. Os trabalhadores precoces (do sexo masculino) desempenham a atividade maisimportante para o processo de coleta de lixo, que é a própria coleta. As outras atividades, taiscomo a seleção e a venda, são dependentes desta. É a atividade de coleta que determina oquantum e a qualidade do material coletado e, portanto, é o que determina o valor a serarrecadado, ou seja, é a atividade que determina a formação da renda familiar. A renda familiar se reverte principalmente para a satisfação das necessidades básicas,porém, o consumismo muitas vezes provoca a substituição (e, por conseguinte, devido aobaixo nível de renda dos catadores de lixo, a precarização) do consumo vital pelo consumoconspícuo22. O consumismo é um produto simultaneamente cultural e psíquico da sociedadecapitalista mercantil, onde se produz uma forte insatisfação dos indivíduos frente à vidaalienada e, conseqüentemente, a busca de sublimação (Freud) e, ao mesmo tempo, cria-seuma cultura que vê no consumo o caminho para a felicidade. O modo de produção capitalistarealiza uma constante ampliação da produção (reprodução ampliada do capital) que gera anecessidade de constante ampliação do mercado consumidor. As empresas criam várias 14
  15. 15. estratégias para ampliar este mercado (obsolescência planejada das mercadorias, produtosdescartáveis, redução do tempo de vida útil dos produtos, as sucessivas modas etc.) mas sedestaca a estratégia de criar necessidades fabricadas, principalmente através da publicidade. As mercadorias são apresentadas como símbolos de status e de estilos de vida e oindivíduo passa a ser valorizado pelo que tem e não pelo que é. Assim, o consumo conspícuo,que é o consumo ligado à aparência, ao supérfluo, se torna uma “necessidade” e o consumovital (alimentação, remédios etc.) se torna secundário, ocorrendo assim uma transubstanciaçãodo consumo conspícuo em consumo vital. A maioria das famílias de catadores de lixopossuem televisão e aparelho de som, comprados à prestação e retirando da renda familiaruma parte que deveria ser revertida para o consumo vital (melhor alimentação, por exemplo).O nível da alimentação de 20 famílias pesquisadas  que possuem trabalhadores precoces é, na maioria dos casos, abaixo do mínimo calórico. A dieta básica é constituída por arroz efeijão para 30%; arroz, feijão e mais um alimento (carne, frango ou verdura) constitui a dietabásica de 45%; apenas 25% tem como dieta básica arroz, feijão e mais dois alimentos. Oconsumo conspícuo ocorre em outro sentido: 52% possuem aparelho de som; 51% possuemtelevisão; e 50% possuem ambos. Constatamos que a compra de bens supérfluos tem uma demanda incentivada pelostrabalhadores precoces, pois estes estão mais envolvidos pela cultura dominante, de caráterurbano, mercantil  ao contrário da cultura rústica dos pais, que também buscam o consumode bens supérfluos mas de forma menos intensa. Em muitas casas se vê aparelhos de som etelevisão, entre outros eletrodomésticos e outros bens de consumo supérfluos, e não se vêcondições de moradia e alimentação adequadas, só para citar o contraste entre a substituiçãodo consumo vital pelo consumo conspícuo. Portanto, a renda familiar precisa da contribuição do trabalho precoce sob pena de nãoconseguir garantir a reprodução da família. As famílias lumpemproletárias dos catadores delixo são constrangidas a usarem o trabalho precoce e este é de fundamental importância para aformação da renda familiar e reprodução das condições de existência da família.22 Sobre consumismo e substituição do consumo vital pelo consumo conspícuo, veja-se: PIETROCOLLA, L. Ob. cit.; FROMM, Erich. Ter ou Ser? 4a edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1987; veja-se também sobre consumo conspícuo: VEBLEN, Thorstein. Ob. cit. 15
  16. 16. Os pais reconhecem o valor da contribuição dos trabalhadores precoces, tal como sepode depreender da seguintes afirmações: “Aqui nós todos trabalha. Eles [os 03 trabalhadores precoces] contribuem talvez com a metade, pois são eles que puxam o papel. São o meu braço direito; eles me ajudam demais”. “A minha renda com a minha família está na faixa de 250 reais por mês. Nessa renda ele [o filho, que é trabalhador precoce] vai ficar com essa faixa de 100, porque ele trabalha mais que nós, pois se trabalha na rua faz mais que nós. Se fosse para dividir, então a maior parte era dele”. Destas afirmações pode se ver que o trabalho precoce é reconhecido pela família e nãosó isto como também se observa uma certa divisão social do trabalho que confere aostrabalhadores precoces a parte mais importante da coleta de lixo, que é a própria coleta dolixo na rua, ou seja, a atividade que define o quantum e a qualidade do lixo coletado, e,portanto, o seu valor. Esta divisão social do trabalho privilegia a atividade de coleta do lixo narua para os trabalhadores precoces de sexo masculino devido a facilidade que eles possuem decircular na cidade. Os pais e as filhas trabalhadoras (inclusive as trabalhadoras precoces, ouseja, menores de dezoito anos) trabalham principalmente com a seleção do lixo. Isto deixaentrever que o trabalho precoce é fundamental para as famílias catadoras de lixo. Muitas famílias irão utilizar o trabalho precoce sob outra forma, ou seja, irão utilizar otrabalho precoce não na coleta de lixo e sim em outras atividades, tais como as de engraxate,vigia de carro etc. Estes trabalhadores precoces também irão contribuir de forma bastantesignificativa com a formação da renda familiar, tornando-se uma contribuição tambémnecessária. No entanto, isto traz diversas conseqüências para os trabalhadores e trabalhadorasprecoces. Em primeiro lugar, tal como ocorre em diversas outras famílias tanto proletáriasquanto lumpemproletárias, se promove uma desescolarização das crianças e adolescentes quese dedicam ao trabalho, devido a diversos fatores relacionados a ele, tal como o tempo de 16
  17. 17. trabalho, o cansaço derivado dele, baixa renda familiar etc.23. Mas além disso, as famílias decatadores de lixo, que não atuam no lixão, possuem um problema adicional: as constantesmudanças e a distância das escolas. Algumas afirmações colocam as dificuldades envolvidasem qualquer tentativa de fornecer escolarização para os trabalhadores precoces: “Não estão [os três filhos, todos trabalhadores precoces] estudando. Eles não estudam por que escola aqui é difícil. A gente não sossega num canto que vem eles, o povo da Terracap, chegam e arrancam a gente do lugar. Eles não deixam a gente quieto num lugar. A gente muda muito. Vai de um lugar para o outro. Aí fica difícil manter os meninos na escola”. “Ela [a filha, trabalhadora precoce] tava estudando, ela tava estudando aqui, passou uns três anos estudando. Três anos aqui estudando. Aí, depois, a Terracap tirou nóis daqui, jogava nóis prá outro lado, jogava prá acolá. Aí não consegui mais continuar ela na escola porque prá deixar ela ir de noite, por causa das horas, ela saía depois das onze da noite, aí não dava. É longe, lá na Vila [Planalto]. O senhor sabe, né? Tem gente boa e tem gente ruim. A gente não sabe. As estradas é tudo perigosa, tudo cheio de mato. Aí ele [o pai] saía daqui dez horas prá chegar onze horas aqui com ela. Aí não conseguimos mais. Tava ela e um menino de dez anos na escola. O menino estudava até as seis horas. Aí ela ia buscar ele, quando chegava aqui já era dela voltar prá escola. O pai ia buscar de noite. Aí não continuou. Eu não botei eles mais na escola. Mas ela estudou muito, estudou até bastante. Ela tem memória boa, sabe? Sabe fazer quase tudo. Ela estudou até a terceira [série]. Estudou um bocadozinho. Se ela tivesse lá esse tempo todinho que eu tô aqui [em Brasília], se não tivesse a Terracap, se eles não tivessem tirado nóis, jogado aí prá debaixo dos pés de paus, minha filha estava bem estudada. Mas por causa deles, por causa que eles não quer deixar23 Cf. CAMPOS, Maria Machado. Infância Abandonada  O Piedoso Disfarce do Trabalho Precoce. In: MARTINS, José de Sousa (org.). O Massacre dos Inocentes. A Criança sem Infância no Brasil. 2a edição, São Paulo, Hucitec, 1993. 17
  18. 18. nóis em paz aqui. A gente botava os meninos no estudo e eles chegavam aqui, derrubavam o barraco, tocava fogo, tocava fogo no papel, tocava fogo no barraco, jogava a gente prá debaixo desses pés de pau. Sofrendo aqui direto, durante o tempo que eu moro aqui dentro de Brasília, é sofrendo direto, direto, por causa da Terracap”. O fato de morarem em locais públicos cria confrontos constantes com a Terracap, órgãodo governo responsável por estes locais, que ao retirá-los dos locais onde se estabelecem,provoca mudanças permanentes de moradia, o que cria uma dificuldade adicional para oprocesso de escolarização dos trabalhadores e trabalhadoras precoces. Isto, obviamentereforça a tendência de reprodução de pertencimento de classe e de segmento social destesindivíduos. Neste sentido, a falta de escolarização é extremamente grave do ponto de vista dodesenvolvimento individual, pois dificulta a inserção dos indivíduos que são trabalhadoresprecoces em outro segmento social. Mas o discurso acima traz mais alguns elementos interessantes. Em primeiro lugar, aincompreensão do papel da escola como um dos meios de manutenção ou alteração dopertencimento de classe ou segmento social. Isto se vê quando se considera que ter estudadoaté a terceira série é “estudar muito”, “bastante” e que “sabe quase tudo”, pois “tem boamemória”, o significa que a percepção da escola é a de uma instituição que fornece ensino útil(ler, escrever, fazer conta) e não um meio de ascensão social (concepção dominante, que,muitas vezes se revela ilusória). Assim, a visão da escola é a de que ela tem um caráterutilitário. Em segundo lugar, vê-se uma valorização da escolarização, o que já apresenta umindício de transformação cultural, na qual a cultura rústica perde espaço para a cultura urbana.Isto se pode ver no grau de emoção (que não pode ser transmitido pela via escrita mas queestá presente na fala) quando ela se refere ao sofrimento provocado pelas constantesexpulsões realizadas pela Terracap, que, embora não se deva apenas ao problema criado parao acesso à escola pelos filhos, como também pela destruição de sua moradia. Mas, dequalquer forma, existe um dose de emotividade também relacionada ao fato de não poder tergarantido a escolarização dos filhos. Neste caso, o problema criado pela existência do trabalho precoce para a escolarizaçãoé reforçado por estas constantes mudanças. Também se pode dizer que tal baixo nível deescolarização se deve ao elevado grau de analfabetismo dos pais. Sem dúvida, o grau de 18
  19. 19. analfabetismo dos pais é elevado. Nas vinte famílias pesquisadas que possuem trabalhadoresprecoces observamos que há 70% de pais analfabetos e apenas 30% alfabetizados. Tambémconstatamos que 75% dos trabalhadores precoces de 7 a 14 anos não estão na escola e apenas25% freqüentam a escola. Por conseguinte, o número de pais analfabetos e o número decrianças de 7 a 14 anos sem acesso à escola parece reforçar esta hipótese. Porém, outros números refutam tal conclusão. Em primeiro lugar, devemos considerarque a influência da educação e valorização da escolarização deve levar em conta não apenas opai mas também a mãe e em muitos casos esta possui escolarização enquanto que o maridonão. Nestas famílias, os pais e mães que são simultaneamente analfabetos são 45% e não70%. Em segundo lugar, os casos em que o pai e a mãe são ambos alfabetizados é bastanterestrito, chegando a 20%. Em terceiro lugar, a diferença entre os filhos de pais analfabetos epais alfabetizados que estudam é pequena, sendo que no primeiro caso se conta 10% e nosegundo 0,5%. No caso dos que não freqüentam a escola os números são os seguintes: 40%para os analfabetos e 15% para os alfabetizados. Porém, como os pais analfabetos são quase odobro dos alfabetizados, esta diferença é pequena. Se contarmos apenas as famílias de paisalfabetizados teremos 25% dos trabalhadores precoces freqüentando a escola e 75% semacesso à escola e nas famílias de pais analfabetos teremos 20% freqüentando a escola e 80%sem acesso a ela. Diferença que é praticamente irrelevante. O fator mais importante, além dos específicos derivados do trabalho precoce (questãoda jornada de trabalho, cansaço, renda insuficiente etc.), é representado pelas constantesmudanças que os catadores de lixo são geralmente obrigados a fazer. 20% destas famíliastiveram que mudar mais de 10 vezes (há casos em que se fala de 20 e de até 50 mudanças,embora este último caso parece ser mais força de expressão do que afirmação literal) e 25%mais de 5 vezes desde que se mudaram para Brasília. As famílias que mudaram menos de 5vezes formam um total de 55% (sendo que dentre estas a maioria teve que mudar três vezes).O gráfico abaixo relaciona o número de mudanças com o número de filhos na escola e foradela. 19
  20. 20. Relação entre Mudança e Escolarização de Trabalhadores Precoces em 20 Famílias de Catadores de Lixo em Brasília 10 8 6 4 2 0 Famílias com 5 Mudanças ou mais Famílias com 4 Mudanças ou Menos Com Acesso à Escola 1 4 Sem Acesso à Escola 9 6 Com Acesso à Escola Sem Acesso à Escola O que se pode ver no gráfico acima é que as famílias que mudam mais possuem menoscondições de manter os filhos na escola. Apenas uma destas famílias consegue ter filhos naescola (10%) enquanto que nove (90%) não conseguem manter os filhos na escola. Entre osque mudaram menos de cinco vezes a situação é diferente, pois quatro famílias conseguem teros filhos na escola (40%) enquanto que seis não conseguem (60%). Neste sentido, asconstantes mudanças que as famílias catadoras de lixo são forçadas a fazer é uma dificuldadeadicional que torna bastante difícil a escolarização dos menores de idade. Isto aumenta maisainda a dificuldade dos trabalhadores precoces em ter acesso à educação formal. Por fim, podemos colocar que as famílias de catadores de lixo vivem em condiçõesprecárias de vida e que possuem uma renda familiar baixa, o que provoca o uso do trabalhoprecoce  uso necessário, pois sem ele a renda familiar per capita não seria nem próximo aomínimo calórico  e cria toda uma situação de vida desfavorável para os trabalhadoresprecoces não só no presente como também no seu futuro, tal como no caso dos obstáculoscriados à escolarização, o que dificulta mais ainda suas possibilidades de passagem para umsegmento social ou classe com melhores condições de vida.Artigo publicado originalmente na Revista Estudos (Goiânia), Goiânia, v.27, n. 3, p. 509-537, 2000. 20
  21. 21. BibliografiaBURSZTYN, Marcel & ARAÚJO, Carlos Henrique. Da Utopia à Exclusão: Vivendo nas Ruas em Brasília. Rio de Janeiro/Brasília, Garamond/Codeplan, 1997.CAMPOS, Maria Machado. Infância Abandonada  O Piedoso Disfarce do Trabalho Precoce. In: MARTINS, José de Sousa (org.). O Massacre dos Inocentes. A Criança sem Infância no Brasil. 2a edição, São Paulo, Hucitec, 1993.FROMM, Erich. Ter ou Ser? 4a edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1987.HARRISON, John; SECCOMBE, Wally; GARDINER, Jean. El Ama de Casa Bajo el Capitalismo. Barcelona, Anagrama, 1975.JUNCÁ, Denise. Ilhas de Exclusão. O Cotidiano dos Catadores de Lixo de Campos. In: Serviço Social e Sociedade. Ano XVII, No 52, Dezembro de 1996.KAUTSKY, Karl. A Questão Agrária. Rio de Janeiro, Proposta, 1980.MARX, Karl. O Capital. 5 vols. 3a edição, São Paulo, Nova Cultural, 1988.MOREAU DE BELLAING, Louis. La Misère Blanche. Paris, L’Harmattan, 1988.MOTTA, Fernando P. O Que é Burocracia. São Paulo, Brasiliense, 1985.NASCIMENTO, Elimar. A Exclusão Social no Brasil: Algumas Hipóteses de Trabalho e Quatro Sugestões Práticas. In: Cadernos CEAS. No 152, Jul/Ago. de 1994.NUN, José. Superpopulação Relativa, Exército Industrial de Reserva e Massa Marginal. In: PEREIRA, Luiz (org.). Populações “Marginais”. São Paulo, Duas Cidades, 1978.OFFE, Claus. Problemas Estruturais do Estado Capitalista. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1984.PELIANO, José Carlos. Acumulação de Trabalho e Mobilidade do Capital. Brasília, UNB, 1990.PIETROCOLLA, L. A Sociedade de Consumo. São Paulo, Global, 1985.UNICEF. Situação Mundial da Infância, 1997. Brasília, 1997.VEBLEN, Thorstein. A Teoria da Classe Ociosa. Col. Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1980.WALLERSTEIN, Imannuel. O Capitalismo Histórico. São Paulo, Brasiliense, 1984.WOLF, Eric. Sociedades Camponesas. 2a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1976.

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