O berço vazioHistória de Maria Rosa Monteiro, mãe de Honestino Guimarães                       Patrícia Cabri
In memoriam, ao meu amado avô Altamir Parreira de Brito.   Dedico este livro aos que tiveram coragem e lutaram.      Espec...
Só vos peço uma coisa: se sobreviverdes a esta época,    não vos esqueçais! Não vos esqueçais nem dos bons,     nem dos ma...
• Agradecimentos •    Agradeço a minha mãe por sempre caminhar ao meu lado, e poristo tornar esta realização possível. A m...
• Sumário •Introdução	    	       	     	       	   	   	   11O Passageiro 	 	       	     	       	   	   	   15Quase sem...
• Introdução •   Caro Leitor,    Peço, por gentileza, que tome muito cuidado com o exemplar que se en-contra neste momento...
de história geral e procurar. Os homens dominam o espaço público, políticoe social, como se as mulheres não fizessem parte...
contrei uma figura que chamou minha atenção e, inclusive, serviu de ins-piração: Zuleika Angel Jones, mais conhecida como ...
• O Passageiro •   A cidade de Brasília foi construída a partir do sonho de Dom Bosco, con-cretizado por Juscelino Kubitsc...
percorrer certos trechos. Não sei se faz parte do planejamento da cidade,mas aqui sempre é útil ter um carro, raramente as...
trabalho, privilégio dado porque ela foi diretora da escola onde o filho doComandante do Quartel estudava. Ela sempre levo...
Quando o pai de Honestino chegou em casa, estava tão alegre queabraçou e beijou o filho. Finalmente puderam dormir em paz....
• Quase sem querer •    Foram cerca de cinco telefonemas até marcar este encontro. Inicialmenteo grande desafio era locali...
e disse que precisava arrumar espaço no meio da mudança. Outra ligação,mais insistência, ela cedeu, entrevista sábado de m...
16 anos no curso “normal”, denominação antiga do magistério porqueera comum que as moças o fizessem. No ano seguinte casou...
Dois irmãos da Dona Rosa já moravam na cidade, Orion e Jurandir.   A capital ainda estava em construção quando chegaram. H...
• Canção do Senhor da Guerra •    Aquela era uma guerra silenciosa, começou de forma discreta. Muitosinteresses estavam en...
O fracasso do plano somado com a morte do presidente John Kennedymudou a política dos Estados Unidos para a América Latina...
suspender garantias constitucionais e tirar direitos políticos de quem querque fosse por 10 anos.   Em abril o Marechal Ca...
• O Descobrimento do Brasil •    Dona Rosa morou numa fazenda quando menina. Seu pai era comunis-ta. Ele gostava de acompa...
São várias as versões da invasão do Calabouço. Uma delas afirma queos estudantes estavam jantando, outra afirma que aconte...
Bateram na porta e ele foi atender e não voltou. O que era comum,afinal era a hora dele sair para a faculdade. Só à tarde ...
• Veraneio Vascaína •   Honestino sempre era vigiado, procurado ou detido, bastava que qual-quer manifestação, qualquer at...
Muitos amigos e parentes foram se afastando à medida que aumentavaa repressão. Era como se quem ficasse contra os militant...
• Proteção •   Neste ponto da história, Dona Rosa, que está sentada no sofá corde rosa à sua frente, olha para você e diz ...
soas após terem sido presas pelos órgãos de repressão política.         Além disso, esta ameaça pesa concretamente sobre v...
reagiria e como seria informada de qualquer coisa, dentro do menor tempopossível. Ela se despediu com um abraço.   Em julh...
• Brasil: Ame-o ou Deixe-o •   Três meses depois, Honestino foi ao encontro de um companheiro. Todosos seus passos eram co...
Patentes e mais patentes vinham, fizeram de tudo para que ela desis-tisse da idéia. Mas ela foi até o fim. Ela acreditava ...
queriam saber se os desaparecidos estavam vivos ou mortos.   Ela se lembra que o General, com os olhos rasos de lágrimas, ...
• Bibliografia •AVENTURAS DA HISTÓRIA: SÉRIE DOSSIÊ BRASIL – DITA-DURA MILITAR: Editora Abril, abril de 2005, São Paulo, S...
LAURETIS, Teresa de. “A tecnologia do gênero”. In: HOLLAN-DA, Heloísa Buarque de (org.). Tendências e impasses: o feminism...
Livro: Berço Vazio
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  1. 1. O berço vazioHistória de Maria Rosa Monteiro, mãe de Honestino Guimarães Patrícia Cabri
  2. 2. In memoriam, ao meu amado avô Altamir Parreira de Brito. Dedico este livro aos que tiveram coragem e lutaram. Especialmente às mulheres que sempre estiveram presentes nas nossas conquistas. Dedico também aos meus professores.
  3. 3. Só vos peço uma coisa: se sobreviverdes a esta época, não vos esqueçais! Não vos esqueçais nem dos bons, nem dos maus. Juntai com paciência as testemunhas daqueles que tombaram por eles e por vós. Um belo dia, hoje será o passado, e falarão numa grande época e nos heróis anônimos que criaram a História. Gostaria que todo mundo soubesse que não há heróis anônimos. Eles eram pessoas, e tinham nomes, tinham rostos, desejos e esperanças, e a dor do último entre os últimos não era menor do que a dor do primeiro, cujo nome há de ficar.Testamento sob a Forca. De: Júlio Fuchik Ed. Brasil Debates, 1980
  4. 4. • Agradecimentos • Agradeço a minha mãe por sempre caminhar ao meu lado, e poristo tornar esta realização possível. A minha avó por sempre medizer e convencer que sou capaz de superar minhas limitações. Aomeu irmão por me fazer rir e as vezes me distrair. A minha orientadora Prof. Dra Elen Geraldes, pessoa iluminada,que não me abandonou em nenhum momento, e acreditou nesteprojeto, muitas vezes, mais do que eu. A Dona Rosa, Mãe de Honestino, que gentilmente me recebeu edeu seu livro. Aos meus amigos. Em especial: Karol Militão, grande amiga, peloapoio que me deu, com nossas conversas sobre o tudo e o nadagarantiu minha sanidade; Luciana Alves pela força e companheiris-mo muito importantes nesta hora; Diego Oliveira, que me contagioucom sua paixão pelo cinema, o que deve ter influenciado na narrati-va deste livro, e pelas vezes em que escutou pacientemente minhasmaiores inseguranças; Angelina Guedes, não sei como no meio detoda correria revisou este texto do dia para noite; Magê, que tam-bém revisou o texto na versão final; Xan que revirou mundos e fun-dos para descobrir detalhes preciosos para contar esta história. Enfim, a todos aqueles que estiveram comigo, lembravam dotema e sempre chegavam com uma indicação de matéria ou livro,e deram dicas. Agradeço aqueles que acreditaram em mim.
  5. 5. • Sumário •Introdução 11O Passageiro 15Quase sem querer 19Canção do Senhor da Guerra 23O Descobrimento do Brasil 26Veraneio Vascaína 29Proteção 34Brasil: Ame-o ou Deixe-o 31Bibliografia 37
  6. 6. • Introdução • Caro Leitor, Peço, por gentileza, que tome muito cuidado com o exemplar que se en-contra neste momento em suas mãos. Não sei ao certo se você é daquelesque enlouquecem com uma pequena dobra nas páginas ou se tanto faz oestado físico do livro, desde que ainda esteja legível. Porém este pedidoinicial tem mais a ver com o conteúdo que encontrará aqui. Sim, de fato este é meu primeiríssimo livro, um bom motivo para vocêter carinho por ele. Segundo... Bem, uma vez li que todo livro em que seconta uma história deveria ter uma parte dedicada a descrever como foi oprocesso de trabalho, e talvez este chame (ou não) um pouco a atenção. Curiosa que sou, sempre que leio um livro leio tudo, em busca de enten-der como aquele autor/autora construiu aquela história. Mas raras vezesobtenho esta explicação. Normalmente tenho de pesquisar para matar mi-nha curiosidade. Para escrever este trabalho final, muitas vezes tive de parar e pegaruma xícara de café, respirar fundo, e continuar montando este quebra-ca-beça de muitas peças. Lembro até hoje quando, depois das férias de julho, peguei meu projetosobre a “Invasão da Polícia Militar na Universidade de Brasília em 1968”.Olhei e pensei: “Não é ainda isso que quero para meu trabalho de con-clusão de curso”. Simplesmente não me reconheci naquele trabalho, eracomo se faltasse um detalhe mínimo, porém decisivo, que colocasse a mi-nha marca. O que seria? Comecei tudo de novo: pesquisar, ler, correr atrás de professores, pro-curar uma direção para saber o que faltava. Foi então que lembrei de umasérie de reportagens chamada “Elas contam os 40”, exibida em abril de2005, pelo Jornal da Globo, da Rede Globo de Televisão. A série, feita pela produtora Patrícia Carvalho, o cinegrafista DennisLeutz e a jornalista Ana Paula Padrão, entrevistou 22 mulheres, de dife-rentes idades e profissões, escolhidas para que representassem a suageração. Suas histórias de vida misturavam-se com a das últimas quatrodécadas no Brasil. Elas não eram meras testemunhas, mas protagonistas,participantes dos movimentos e transformações do seu tempo. Isto me chamou a atenção porque são raros os momentos em que ve-mos as mulheres como personagens da história. Basta abrir qualquer livro 11
  7. 7. de história geral e procurar. Os homens dominam o espaço público, políticoe social, como se as mulheres não fizessem parte deste universo fossem,meras coadjuvantes. Contando isso para uma professora, ela me provoca: “Então escrevaum livro-reportagem sobre a participação feminina, mulher!”, exatamenteassim, direta e simples. Foi como ver um clarão na absoluta escuridão.Descobri o que faltava no meu trabalho: a minha identidade, a representa-ção que talvez sempre busquei, mas com a confusão de idéias precisavade uma ajudinha para encontrar. Assim, tive mais alguns meses de muito trabalho até construir o proje-to atual, sobre a participação feminina na Ditadura Militar. Dificuldades?Muitas, afinal temos uma vasta bibliografia sobre Ditadura Militar Brasileira,porém, encontrei apenas um livro, no Rio Grande do Sul, que trata direta-mente da participação feminina durante este período. Sinal que este tra-balho não é em vão. A Ditadura Militar Brasileira sempre foi um assunto que me fascinou,pelos movimentos sociais e culturais que aconteceram neste período emtodo mundo. Para começar, o feminismo. Muitos consideram o feminismo como a grande revolução do século XXporque as mulheres neste momento viraram o mundo de cabeça para bai-xo. Simplesmente desistiram do seu papel secundário e exigiram ser vistase escutadas, muitas trocaram a segurança do lar pelo questionamento ea luta por seus direitos. O livro “1968. O ano que não acabou”, de ZuenirVentura, conta bem as transformações no fim dos anos 60. Isto me lembra de uma entrevista com o cineasta Bernardo Bertolucci,no DVD do filme “Os Sonhadores”, sobre o que se passava no mundo noano de 1968: “Não quero dizer que 68 foi um momento mágico, mas quase isso.O fato de estarmos, usemos a palavra “sonhando juntos”, cinema, po-lítica, música, jazz, rock´n roll. O sexo e a descoberta de como estascoisas poderiam se unir e interagir umas com as outras, como pode-riam combinar em um tipo de harmonia que não vejo mais (...) Acho quehouve mudanças importantes na sociedade principalmente quanto àposição da mulher. Há um tipo de lembrança ruim. E acho que isso aspessoas que participaram dos movimentos de 68, de modo geral, nãocontaram aos seus filhos a história daquele ano. Há um tipo de buraconegro para os jovens de hoje, eu acho que depende um pouco dos pais,que não gostam de falar daquela época”. Nesta seqüência de fatos, revoluções, manifestos, reivindicações, en- 12
  8. 8. contrei uma figura que chamou minha atenção e, inclusive, serviu de ins-piração: Zuleika Angel Jones, mais conhecida como Zuzu Angel. Estilistabrasileira que usou a moda como protesto contra a Ditadura Militar após odesaparecimento de seu filho Stuart Angel. Por sorte em 2006 o filme Zuzu Angel foi lançado, e por mais sorte es-tive presente em sua avánt premiere. Tenho de confessar que no períodoem que estive mergulhada nesta pesquisa, a oportunidade de presenciareste lançamento foi um dos momentos mais incríveis. Para começar, tudo aconteceu no Senado Federal, com a presença dovice-presidente do Brasil, José de Alencar, dos presidentes da Câmara dosDeputados e do Senado Federal. Há pelo menos vinte anos isto seria inima-ginável! Sinal da mudança dos tempos? Risos. Por muitos momentos recorri à história de Zuzu para compreender aluta e o papel de uma mãe, envolvida no movimento estudantil por amorao seu filho, numa tentativa de lhe proteger a vida. Todas as informações que você encontrar aqui foram embasadas emrelatos, entrevistas, matérias, livros (especialmente o que Dona Rosa es-creveu), enfim, tudo que se pode encontrar em pouco mais de dois anosde pesquisa, o que parece uma eternidade, quando se tem 23 anos, comoeu. No mais, talvez os nomes dos capítulos lhe pareçam familiares. Umahomenagem que resolvi fazer à produção musical de Brasília. Afinal, euescrevo de algum lugar do espaço, do tempo, da história. Por isto, Caro Leitor, entrego em suas mãos com todo cuidado estahistória. Boa leitura. 13
  9. 9. • O Passageiro • A cidade de Brasília foi construída a partir do sonho de Dom Bosco, con-cretizado por Juscelino Kubitscheck em 1960. Desde o início paira sobrea cidade o estigma de ser a “terra prometida”. Não é preciso andar muitopara encontrar pessoas ou famílias que vieram para cá com a esperançade uma vida melhor. Brasília tem algumas peculiaridades. É basicamente dividida em seto-res: Setor de Indústrias e Abastecimento, Setor Hoteleiro Sul, Setor HoteleiroNorte, Setor de Administração Sul, Setor de Indústrias Gráficas, Setor deOficinas, de motéis e por aí vai, tudo devidamente “setorizado”. Também não temos bairros e sim cidades satélites. Para um nativo expli-car isto para pessoas de outros estados é uma tarefa árdua e complicada,principalmente quando temos que fazer isto por telefone. Porque a questãoé que assim foi convencionado, estudamos isto no ensino fundamental enão lembramos exatamente do que venha a ser uma satélite, talvez poristo nossas cidades satélites sejam objetos de estudos de universidadeslocais até hoje. É verdade que o Plano Piloto tem o formato de um avião. Dizem que seolhar a cidade por cima, você consegue ver as Asas Sul e Norte. No mapaisto fica bem claro. Temos poucas praças em Brasília, mas hoje temos muitos jardins. Ficamlindos na primavera. Cruzar de carro a Asa Sul e ir para Asa Norte é umaboa oportunidade de conhecer nossos jardins, normalmente localizadosnos canteiros centrais ou nos balões. Outra coisa que para as pessoas que não são daqui chega a ser emo-cionante e vertiginoso é fazer as tais “tesourinhas”. A primeira vez ninguémesquece. Tesourinha é uma espécie de retorno, só que com uma curva bemmais acentuada e em dois níveis. Dizem que é melhor que montanha russa,mas depois de se acostumar não chega a ser tão especial. A arquitetura da cidade transita entre o mais moderno e o nem tanto. OCongresso Nacional tem o formato de um “H” com uma bacia para cima eoutra para baixo. A Catedral às vezes à primeira vista desafia algumas leisda física. Por outro lado alguns prédios são o que poderia ser o modernonos anos 70. As distâncias aqui são relativas. Se você não é da cidade duvide se tedisserem que algo “é perto”. Em alguns casos chega a ser uma aventura 15
  10. 10. percorrer certos trechos. Não sei se faz parte do planejamento da cidade,mas aqui sempre é útil ter um carro, raramente as coisas são próximas àsoutras. Brasília ficou conhecida como a capital do rock. Tudo porque no fim dosanos 70, início dos 80, várias bandas surgiram na cidade, uma em especial“Aborto Elétrico” (o nome é uma referência aos cassetetes elétricos usadospela polícia contra as grávidas durante a Ditadura). Foi progenitora de ban-das como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Agora que você conhece o ambiente em que esta história se passavamos voltar um pouco no tempo. Estamos no ano de 1968, dia 29 deagosto. As pessoas que naquele dia precisassem ir à Asa Norte eram impedi-das. O exército havia tomado todas as vias de acesso com um arsenal deguerra. Uma equipe de Minas Gerais veio reforçar o grupo que naquele dia inva-dira a Universidade de Brasília (UnB), localizada no final da Asa Norte, com oobjetivo de prender pessoas que faziam campanha contra o Regime Militar. O campus universitário estava todo cercado. Alguns soldados se ocupa-vam de entrar e desocupar os alojamentos dos alunos. Outros perseguiamestudantes. Houve tiroteio. Num outro ponto da cidade um telefone toca. É o aviso para esta mulherde que tinham prendido seu filho. Ela morava em frente à Universidade,veio dirigindo como louca. Quando chegou e ouviu o tiroteio, começou a gri-tar com a possibilidade de que um daqueles tiros atingisse seu filho. Comosaber se estava ainda vivo? Alguns colegas viram o momento em que três homens perseguiram eprenderam Honestino Guimarães. Tiveram a impressão de que ele deixouos óculos caírem, mesmo assim ele resistiu como pode, mas foi levadonum camburão. As perseguições continuaram por toda universidade. Um estudante saiuda sala de aula para entender o que estava acontecendo. Foi baleado nacabeça, carregaram-no para dentro de uma sala de aula na tentativa desocorrê-lo. Soldados invadiram a sala, prenderam os que ali estavam e en-caminharam o estudante para o hospital. Dentre as pessoas retidas naquele dia, estavam muitos filhos de depu-tados. Seus pais foram até o campus tentar liberá-los, tentativa em vão,parece que ninguém saía impune. Honestino ficou preso por dois meses. Todos os dias sua mãe vinhavisitá-lo, inclusive em horários especiais, para não prejudicar sua rotina de 16
  11. 11. trabalho, privilégio dado porque ela foi diretora da escola onde o filho doComandante do Quartel estudava. Ela sempre levou muito a sério sua vidaprofissional, soube separar seus papéis de mãe, educadora e profissional. Foi uma verdadeira luta conseguir a liberdade condicional por meio dehabeas corpus para Honestino. No dia em que ele foi solto, próximo aoquartel vários companheiros de luta o aguardavam em seus carros. Foium verdadeiro desfile, uma carreata com aqueles que incomodavam asautoridades. Quatro dias depois da invasão da UnB, o Deputado Márcio Moreira Alvestomou a palavra na Câmara dos Deputados para condenar esta invasão.Ele perguntou: “Quando o Exército não será um valhacouto de torturado-res?”. Também fez acusações, respaldado na autoridade que conquistoudenunciando casos de tortura ocorridos no governo Castello Branco e aco-bertados pelos comandantes militares. Referiu-se às comemorações daSemana da Pátria e sugeriu um boicote às paradas. “Esse boicote, podepassar também (...) às moças, às namoradas, àquelas que dançam com oscadetes e freqüentam os jovens oficiais”. Dias depois o pai de Honestino ouvia a rádio lá pelas dez da noite vol-tando do trabalho para casa. Soube que o General Artur da Costa e Silvadecretou o Ato Institucional nº 5 (o AI-5), que dava recesso para o CongressoNacional, instituía a livre intervenção do governo nos estados e municípios,suspendia direitos políticos de qualquer cidadão por dez anos e o direito ahabeas corpus e preconizava o confisco de bens ilícitos. Assim que Honestino ficou sabendo, comunicou-se com seu irmãoNorton, avisando que iria “se mandar” antes da lei ser publicada. Começamaí seus cinco anos de clandestinidade. Já era do conhecimento de toda sua família que estavam sendo vigia-dos. No dia seguinte, a mãe de Honestino saiu com o marido para traba-lhar, deixando o filho Norton e duas primas menores. Pouco tempo depoismilitares invadiram a casa. Tiraram o filho dela da cama e adentraram pela casa à força. Tentaramarrombar a porta do quarto de Honestino, certos de que o encontrariam.Norton tentou resistir, mesmo sabendo o porquê da porta estar trancadaligou para mãe, para que esta explicasse aos soldados a razão. O que nãoadiantou. Pouco tempo depois a mãe recebeu mais um telefonema, destavez das sobrinhas, que avisavam da prisão do irmão de Honestino. Foram três dias na tentativa de encontrá-lo, a busca contou com a co-laboração de amigos e de organizações, como a Maçonaria. Neste meiotempo, receberam um telefonema do quartel onde Norton estava para irbuscá-lo. 17
  12. 12. Quando o pai de Honestino chegou em casa, estava tão alegre queabraçou e beijou o filho. Finalmente puderam dormir em paz. Apesar de toda a aflição e da possibilidade da casa ser novamente invadi-da, voltaram a seguir a rotina. Foi um dia de muito trabalho. No fim da tarde,o pai de Honestino veio buscar a esposa para que fossem ver juntos a lojaque estavam montando e seria inaugurada uma semana antes do Natal. Já em casa, a mãe de Honestino começou a se preocupar com a de-mora do marido chegar. Era norma da família sempre informar possíveiseventualidades, mas o telefone não tocava. Ela ia de uma janela à outra naesperança de ver o marido de volta, era impossível afastar os maus pensa-mentos. Até que finalmente batem à porta, são dois desconhecidos: - Aqui mora o Sr. Monteiro? - Sim. - É que vimos um acidente com ele e achamos que a senhora deveria estar preocupada... Foi grave. - Onde foi? Foi ele quem mandou avisar? - Não, passamos e vimos. Ele não estava mais lá. Levaram-no para o HDB (Hospital Distrital de Brasília). - Obrigada, vou já para lá. O filho, que havia ficado três dias retido, dormia. Foi acordado para queacompanhasse a mãe até o hospital. Ela nunca mais viu os estranhos. Chegando lá, choque. Seu marido veio a falecer com 43 anos de idade.Durante o velório, vários policiais estavam à paisana, aguardavam o mo-mento em que Honestino aparecesse para prendê-lo. Sabendo disto suamãe implorou que os familiares o segurassem onde ele estava. Ele queriavoltar para Brasília a todo custo. Para ela foi um dos momentos mais duros que enfrentou sozinha. Umfilho vivendo na clandestinidade, outro foi preso e o marido morto. Tudoisso naquela família feliz que se reunia para noitadas de gamão ou xadrez.Tudo acabou. 18
  13. 13. • Quase sem querer • Foram cerca de cinco telefonemas até marcar este encontro. Inicialmenteo grande desafio era localizá-la. A única lembrança que tinha era umaremota imagem feminina ao lado de um retrato ampliado de HonestinoGuimarães, no documentário Barra 68. Nem tinha a certeza de que setratava realmente dela. As tentativas foram muitas. Entre elas, procurar na assessoria de imprensada UnB, já que no site da Universidade havia uma entrevista com ela, num es-pecial sobre os 31 anos de desaparecimento de seu filho. Busca em vão. Nãotinham sequer o telefone da jornalista que fez a entrevista. Lista telefônica, última esperança, afinal com a velocidade da informa-ção este meio se tornou obsoleto. Puro engano, lá estava ela: Maria RosaLeite Monteiro. Com endereço e tudo que fosse necessário. Dias se passaram entre a insegurança de ser ela ou não, entre nãosaber como falar, o que falar, entre o medo característico da mínima expe-riência “jornalística”. 3, 2, 1... Antes agora do que nunca: - Bom dia! Esta é a casa da Dona Maria Rosa Leite? Mãe do Honestino? - É. - Ela está? - Sim. (Silêncio) - Alô? - Dona Maria Rosa? - Sou eu. - Mãe do Honestino? - Sim. Naquele momento era como se o mundo absolutamente parasse. Eraela. Disse que era uma estudante de jornalismo (quanta credibilidade) eestava fazendo um trabalho sobre Ditadura Militar, se havia a possibilidadede uma entrevista. - Estou me mudando. Você me ligou num momento em que estou ali separando as coisas. Você pode me ligar amanhã? A ligação foi feita, mas ela não estava em casa. Mais tarde ela atendeu 19
  14. 14. e disse que precisava arrumar espaço no meio da mudança. Outra ligação,mais insistência, ela cedeu, entrevista sábado de manhã, às oito. Ela mora no Guará, cidade satélite de Brasília, para quem não vive lá,é meio confuso encontrar o endereço. Durante todo o trajeto imaginavacomo seria esta mulher. No filme não tinha certeza se era ela, jamais tinhavisto sequer uma fotografia. Cheguei numa rua com construções bem modestas e aparentementeconfortáveis. Ela morava numa casa de dois andares, com janelas grandese um bom espaço na frente, com uma escada coberta com toldo que descena lateral esquerda. Ao tocar a campainha, ela avisou que iria descer para abrir o portão.Os pés calçados em chinelos azuis foram a primeira visão, eles desciamdevagar, mas com muita firmeza, a escada lateral. O portão abriu e ela meconvidou a entrar. A escada é a entrada para sua sala. Fotos da família e quadros pin-tados estão pendurados na parede. Completam a decoração do espaçoaconchegante. Dona Rosa tem o cabelo branco e olhos azuis. Olhos que impressionam,não por serem azuis, mas pela vivacidade e confiança que transmitem. Está de mudança e se preocupa com o conforto da visita. Ela tem seocupado nos últimos dias em separar e encaixotar os livros, alguns paradoação, talvez uma biblioteca pública, outros de valor inestimável que par-tirão para a nova casa. - Eu estou aqui arrumando esta mudança, vendi esta casa, estou me mudando daqui. Então é muito difícil. Você me pegou nuns dias de retorno, só de pegar, folhear estes livros, eu retorno... É possível que ainda demore pouco mais de um ano para ela se mudarem definitivo para o apartamento, que ainda está em construção, mesmoassim ela prefere organizar suas coisas. Separar, guardar tudo em caixas.“É muita coisa”, ela diz. Livros, fotografias, quadros, lembranças. Dona Rosa, como prefere ser chamada, nasceu na cidade de Itaberaí,no dia 16 de Junho de 1928 (ano de nascimento de Che Guevara). É a dé-cima primeira filha de uma família alagoana. Itaberaí fica há 90 km de Goiânia, hoje tem mais de 29 mil habitantes.Seu primeiro nome foi Curralinho. A cidade foi construída às margens doRio das Pedras. A entrada da cidade dá acesso à praça principal que ficapróxima à casa onde moravam os pais de Dona Rosa e Monteiro. Estudou no Colégio Coração Imaculado de Maria. Formou-se aos 20
  15. 15. 16 anos no curso “normal”, denominação antiga do magistério porqueera comum que as moças o fizessem. No ano seguinte casou-se comBenedito Monteiro Guimarães, inspetor escolar, que ela prefere chamar de“Monteiro”. Ele com 21 e ela com 17 anos. Um ano depois do casamento, nasceu seu primeiro, dos três filhos natu-rais, Honestino Guimarães, que recebeu esse nome em homenagem a umtio-avô de Monteiro. Era muito levado, “onde tinha uma confusão ele esta-va no meio”. Gostava de estudar, aprendeu a ler com seis anos de idade. - Alegre, gostava de estudar demais. O negócio dele era ler. Quando ele era pequenino eu lia para ele. A gente tinha aquela coleção “Monteiro Lobato”. Eu lia e ele só queria ouvir a leitura. Dona Rosa e Monteiro eram donos do Bar Umuarama, considerado pon-to chique de Itaberaí. Um estabelecimento de construção simples, porémmuito bonita, diferente das demais casas da cidade. Tinha o único serviço“a la carte” da região. O restaurante ficava de frente para a praça principal, onde também selocalizava o único cinema da cidade, que no momento era de propriedadede Monteiro e seu irmão. Dona Rosa e os três filhos cuidavam do bar e docinema. Os meninos tinham também uma banca de engraxate e vendiambalas no cinema. Monteiro se dedicava também ao trabalho no cartório.Era tabelião do 2º Ofício. Não era rico, mas a mesa era sempre farta, ascomidas eram preparadas com todo carinho por Dona Rosa. A personalidade de Monteiro e Dona Maria Rosa eram diferentes das “dopovo daquela época”, segundo Caramurú um amigo da família. Davam paraos filhos tudo o que queriam, mas também eram rígidos e exigentes, faziamquestão de que todos participassem de todas as atividades do lar. Forameducados para buscar sua independência. Este amigo conta que nunca viuDona Rosa de cara fechada, e que Monteiro era um homem brincalhão. Em 1955, o presidente Juscelino Kubitschek afirmou, num comício, queiria transferir a capital. Eleito, esta passou ser a meta de seu governo, umplano de desenvolvimento e modernização do país. A idéia era trazer a ca-pital para o coração do país, para que fosse o centro, o ponto de encontro,de todos os povos do Brasil. “Todos queriam morar na capital”. Seu Monteiro foi conhecer a novacidade, lá permaneceu por uns dois meses e voltou com a mudança já pre-parada. Em dezembro de 1960 a família deixou tudo para trás. Foram paraa nova capital cheios de esperança. - Brasília era uma terra que “prometia muito, principalmente na área da educação”. 21
  16. 16. Dois irmãos da Dona Rosa já moravam na cidade, Orion e Jurandir. A capital ainda estava em construção quando chegaram. Honestino foiestudar no colégio Elefante Branco e seus irmãos, Norton e Luiz Carlos, fo-ram matriculados no Caseb. Monteiro foi trabalhar no Núcleo Bandeirante,na época o centro comercial da cidade. Dona Rosa, que ainda não tinha emprego fixo, ficava sozinha em casana W3 Norte. Assim que pode começou a dar aulas particulares para pre-parar alunos para os exames de admissão ao ginásio. O que deu muitodinheiro, porque a procura era muita e havia pouca oferta de cursos dotipo na época. Ela gostou da cidade desde o primeiro momento. Terra e escavaçõeslogo viravam belos edifícios. Ela não entendia o que iria ser a cidade, po-rém sonhava em sintonia com JK. 22
  17. 17. • Canção do Senhor da Guerra • Aquela era uma guerra silenciosa, começou de forma discreta. Muitosinteresses estavam envolvidos. A partir de 1964 uma onda de ditaduras militares tomou conta daAmérica Latina. Começou pelo Brasil, depois veio o Peru em 68, com ogeneral Omar Herrera que tomou o poder no Panamá, depois veio a Bolíviacom o general Juan Torres, em 73 a ditadura chega ao Chile com AugustoPinochet e em 76 na Argentina e no Uruguai. Dois fatores foram decisivos para esta onda: a Guerra Fria e a RevoluçãoCubana. O mundo pós Segunda Guerra Mundial se dividiu, quem não estava comos Estados Unidos, potência que levantava a bandeira de que o capitalis-mo e a democracia eram chaves para a liberdade, estava com a UniãoSoviética, que via a solução para os problemas sociais no socialismo. Foi uma disputa tensa, ganhava quem tivesse mais armas. Ao mesmotempo vieram a conquista espacial, muitas inovações tecnológicas e oavanço nas telecomunicações. Os Estados Unidos avançavam como superpotência enquanto a UniãoSoviética era a força da resistência. Idéias marxistas começaram a se es-palhar pela América Latina, foram o pilar em que as lutas contra o impérioamericano se sustentavam. Era como se essas idéias fossem a soluçãopara o fim das injustiças e desigualdades sociais, agravadas com o aumen-to populacional que veio depois da Segunda Guerra Mundial. Para os revolucionários não adiantava somente derrubar o governo, erapreciso uma nova estrutura social. Che Guevara era o símbolo da resis-tência, da luta contra o imperialismo norte-americano. Ele e Fidel Castro,foram figuras importantes na Revolução Cubana em 1959, que derrubou ogoverno de Fulgêncio Batista. Os Estados Unidos tentaram de várias formas derrubar o novo governo.Vencidos, optaram por excluir Cuba do sistema interamericano e bloqueá-la economicamente. Diante desta situação, Cuba pediu ajuda para a União Soviética e sedeclarou socialista. Como resposta, os EUA lançaram o programa “Aliançapara o Progresso,” em toda a América Latina, oficialmente para promover aindustrialização e reformas sociais, mas na prática um efetivo mecanismode controle do continente. 23
  18. 18. O fracasso do plano somado com a morte do presidente John Kennedymudou a política dos Estados Unidos para a América Latina. Voltando alguns anos, no Brasil, o vice-presidente João Goulart foi in-dicado para substituir Jânio Quadros, que havia renunciado ao cargo depresidente após Carlos Lacerda, governador do estado da Guanabara, de-nunciar seu plano de golpe. Jânio anunciou sua renúncia, certo de que oCongresso não aceitaria que um ativista do movimento trabalhista, comoJoão Goulart, assumisse o governo. O país estava dividido, de um lado eraimportante a independência dos Estados Unidos, de outro era defendida aabertura da entrada do capital estrangeiro. Houve uma tentativa de golpeque falhou pela divisão de opiniões nas forças armadas. A população de-fendia que a Constituição fosse obedecida, quem assumiria o governo nafalta do presidente era o vice. Se não bastasse isto, Jango (apelido de João Goulart) herdou sériasdívidas, fora os gastos com a crise militar, foi necessário pedir ajuda parao FMI. Ele começou a ser acusado pela Igreja Católica, e a imprensa re-forçava, de envolvimento com o movimento comunista. O que era sério,afinal nesta época era promovida uma verdadeira caça aos comunistas noEstados Unidos. A opinião pública ficou dividida e os militares começarama armar o golpe. Na tentativa de permanecer no governo, Goulart tendeupara um governo de centro-direita, o que não convenceu. O presidente Kennedy mandou agentes para convencer os militaresde que era necessária uma ação contra o governo. O interesse americanonão era em vão, eles consideravam o Brasil como peça-chave na AméricaLatina: para onde o país fosse os outros seguiriam. No dia 13 de março de 64, um movimento conhecido como “Marcha daFamília com Deus pela Liberdade” reuniu cerca de 200 mil pessoas, pedin-do a saída de Jango. A ala conservadora do Congresso ameaçava bloquearos projetos de reforma mandados pelo governo. João Goulart duvidava da força do golpe, acreditava na proteção de um“dispositivo militar” esquematizado pelo seu chefe de Gabinete Militar, ogeneral Argemiro de Assis Brasil. O dispositivo assegurava uma lealdade,nunca antes vista, nos quartéis, para segurar qualquer tentativa de golpe.Mas de outro lado, os militares se organizavam para tomar o governo aqualquer momento, tinham apoio americano e pessoas certas para que ogolpe desta vez funcionasse. Assim, no dia 31 de Março de 1964, começou o Regime Militar. O briga-deiro Correia de Melo e o almirante Augusto Rademaker publicaram o pri-meiro Ato Institucional que estabelecia eleições indiretas para presidenteda república e dava aos comandantes o poder de decretar estado de sítio, 24
  19. 19. suspender garantias constitucionais e tirar direitos políticos de quem querque fosse por 10 anos. Em abril o Marechal Castelo Branco, chefe do exército e coordenadorda trama contra João Goulart, é eleito presidente. Como primeiras medidasanulou os atos do governo Jango e reprimiu os possíveis opositores; im-plantou o bipartidarismo; suspendeu os direitos políticos de 375 pessoas,dentre elas Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart; demitiu10 mil funcionários públicos, instaurou cinco mil investigações contra 40mil pessoas e rompeu qualquer relação com Cuba. Começa oficialmente aDitadura Militar. 25
  20. 20. • O Descobrimento do Brasil • Dona Rosa morou numa fazenda quando menina. Seu pai era comunis-ta. Ele gostava de acompanhar tudo, recebia jornais de São Paulo que de-moravam até quinze dias para chegar, às vezes lia para os filhos. Ela ficavano quarto ao lado ouvindo as notícias que o pai ouvia alto pelo rádio. Ela acompanhava de forma passiva o envolvimento do filho mais velho,Honestino, com a política. Quando veio para Brasília não tinha nenhum ou-tro interesse além do estudo dos filhos. Era o estudo deles que realmenteimportava. Passou no concurso público da Fundação Educacional do DistritoFederal e em 1961 dava aula para alunos do primeiro grau. Depois de doisanos passou a ser Diretora, cargo que exerceu por mais de trinta anos. Os filhos foram crescendo em Brasília. Quando menos se viu lá estavaela, apreensiva, vendo o resultado do vestibular de Honestino. Começou aver o resultado a partir do último nome da lista, à medida que ia se apro-ximando do início aumentava seu nervosismo, o nome dele não aparecia.Quando chegou no primeiro nome lá estava: Honestino Guimarães, primei-ro lugar na Universidade de Brasília em Geologia. Levou um susto. Levou outro susto parecido quando foi chamada à escola onde ele cur-sava a 4º série do primário, e lá ficou sabendo que o resultado do testede QI dele deu “inteligência-médio superior”. Desde muito pequeno ela ovia como uma enciclopédia ambulante, Honestino transmitia tudo o queaprendia. Como dizer quando começou a relação dele com a política? É realmentedifícil. Na cidade de Itaberaí a política era forte, a disputa era entre doiscoronéis poderosos. Honestino acompanhava tudo desde muito pequeno,“nasceu político”. Acompanhava e até brigava por seus candidatos. Queriasaber quem era o prefeito, o governador, o presidente. Assistia aos comí-cios e assim começou a dizer que um dia seria presidente do Brasil. Ele cresceu entre a política da cidade onde nasceu e seus compromis-sos de criança. O pai era seu companheiro, mas era também muito exigen-te, porque sempre onde tinha uma briga Honestino estava no meio. A família estava reunida para comemorar o vigésimo primeiro aniversáriode Honestino. Antes de servir o jantar ficaram sabendo pela TV que o estudanteÉdson Luiz foi morto no restaurante universitário Calabouço, no Rio de Janeiro.Honestino saiu imediatamente de casa, revoltado, foi direto para a UnB. 26
  21. 21. São várias as versões da invasão do Calabouço. Uma delas afirma queos estudantes estavam jantando, outra afirma que acontecia uma manifes-tação pelo mau funcionamento do restaurante, pelas condições precáriasde higiene. Mas em ambas as versões, os soldados entraram atirando enquantoo tenente Alcindo Costa gritava pelo mega-fone “parem de atirar, eu nãodei ordem para ninguém atirar”, pouco depois o mesmo tenente sacou orevólver e deu o tiro que acertaria o peito de Édson. Os estudantes tentaram socorrê-lo, levaram-no para Santa Casa deMisericórdia, onde chegou sem vida. Eles impediram que os soldados seaproximassem do corpo, ergueram-no e o levaram até a sede da AssembléiaLegislativa, queriam mostrar o que o Regime havia feito. Chegando lá as autoridades informaram que era necessário levar o cor-po para autópsia, os estudantes acharam que aquela era uma manobrapara sumir com ele e assim nada poderia ser provado. Por sorte, um dosestudantes lembrou de um fato histórico: o corpo de Getúlio Vargas nãoprecisou ser removido para autópsia. No dia seguinte uma estranha cena era vista pelas ruas do Rio deJaneiro. Com o Regime Militar, qualquer grande aglomeração de pessoasera rapidamente dispersada, mas neste caso a única coisa que fizerampara reprimir foi desligar as luzes dos postes que ficavam no trajeto até ocemitério, o que de fato não foi um problema. As pessoas que participavamdo cortejo fúnebre improvisaram velas. À medida que caminhava o movi-mento tinha mais adeptos. Foram mais de 12 mil pessoas ali reunidas.Uma faixa improvisada dizia: “Podia ser o seu filho”. Voltando a Brasília... Não se sabe ao certo se estes detalhes vieram aoconhecimento de Honestino, mas ele sentiu que algo tinha de ser feito.Assim que chegou na UnB, avisou a todos que encontrava pelo caminho doque tinha acontecido no restaurante universitário carioca. Conseguiu reu-nir mais de quinhentos estudantes e juntos resolveram fundar uma praçaem homenagem a Édson Luiz. Pouco tempo depois aconteceu a primeira prisão de Honestino. Era comum ter em casa muitos jovens para estudar, ver futebol, ou con-versar. Naquele dia a casa estava cheia de garotos. Alguns primos esta-vam hospedados lá para prestar vestibular. A sala de estudos estava cheia.Dona Rosa e seu marido, Monteiro, foram dormir um pouco mais cedo.Assim que puderam, Honestino e os amigos saíram para comemorar aaprovação dos primos no vestibular. No dia seguinte, ela sentiu o filho umpouco mais preocupado no café da manhã. 27
  22. 22. Bateram na porta e ele foi atender e não voltou. O que era comum,afinal era a hora dele sair para a faculdade. Só à tarde Dona Rosa teve oconhecimento de sua prisão e dos primos. Policiais civis vieram a sua casae fizeram uma busca, colocaram tudo de ponta cabeça, procurando o quenão se sabia, só se sabe que não encontraram. Dona Rosa foi para Taguatinga pedir ajuda a um sobrinho que era advo-gado. A família ficou muito abalada com as prisões. Os primos de Honestinoforam presos em flagrante por participarem de pichação nas ruas. Comonão conheciam bem a cidade, não conseguiram fugir. Esta prisão foi amplamente divulgada nos jornais. Faziam questão queela se tornasse pública, para que as pessoas se sentissem acuadas dian-te daquela demonstração de força militar. A partir dessa primeira prisão,Honestino passou a ser considerado um importante líder estudantil. 28
  23. 23. • Veraneio Vascaína • Honestino sempre era vigiado, procurado ou detido, bastava que qual-quer manifestação, qualquer ato contra o Regime Militar acontecesse. DonaRosa conversava muito com o filho, tentava entender o motivo dele estarenvolvido com o movimento. Os argumentos eram fortes, aquela luta eranecessária. Muitas vezes acompanhava o filho nas manifestações, nuncaentendeu por que não era presa, mas na realidade sabia que fazia aquiloporque ele era uma das coisas mais preciosas que tinha. Com toda repressão, ele resolveu não morar com os pais. Depois dasegunda prisão, quando achava que a poeira tinha abaixado, foi visitá-los,afinal fazia muito tempo que não os via. Antes de terminar o jantar foram avisados que o bloco estava sendovigiado, foi preciso que alguém descesse para despistar os agentes eHonestino fugiu pelo mato. Era caçado como bandido, foi perseguido por toda noite, dispararamtiros, ele acabou conseguindo chegar na casa de um tio. Depois de terpassado a madrugada esperando por notícias, Dona Rosa recebeu um te-lefonema dele pela manhã avisando que estava bem. Mesmo no meio de tudo o que acontecia, Honestino decidiu se casar nosegundo semestre de 1968, ano em que também terminaria a faculdade.A notícia correu por toda imprensa e começou a perseguição em torno dacasa dos pais, carros eram vigiados e revistados. Assim, o casal resolveufazer uma cerimônia bem discreta numa igrejinha da Asa Norte. A noiva,Isaura, se vestiu na sacristia, foi uma cerimônia bonita. Judicialmente tudofoi formalizado por uma procuração que ele passou para o pai. Depois da morte do pai, Honestino partiu para a clandestinidade. Foramseis meses sem que sua mãe recebesse qualquer notícia, até que final-mente chegou uma carta. Os contatos eram por cartas, telefonemas ourecados. Foi assim que Dona Rosa ficou sabendo que Isa estava grávida.Ficou feliz mas ao mesmo tempo pensava em como aquela criança cresce-ria no meio de tudo aquilo. Mais ou menos naquela época ela adotou Mary,uma criança que trouxe novamente alegria para a casa. Depois do nascimento de Juliana, ela foi até São Paulo conhecer a neta.Lá se hospedou na casa de uns amigos onde ficou um mês com o filho e anora. Mais ou menos neste período eles se mudaram para uma casa simples,com três cômodos, sem móveis, só Juliana tinha o seu berço. Cada vez queHonestino saía, Isaura ficava aflita, esperando, sem ter certeza, a sua volta. 29
  24. 24. Muitos amigos e parentes foram se afastando à medida que aumentavaa repressão. Era como se quem ficasse contra os militantes tivesse umadoença fatal e contagiosa, o que dificultava os encontros entre a mãe e ofilho, que se davam de forma esporádica, mas ela sempre dava um jeito. Uma vez ela foi a São Paulo visitar os pais de um amigo que havia fale-cido num acidente, queria também encontrar Honestino, já que fazia muitotempo que não tinha notícias suas. Não fazia idéia de onde procurá-lo, elasabia de um amigo dele que morava na cidade, mas também desconheciaonde ele estava. Juntos, foram perguntando para um e para outro, até en-contrarem alguém que sabia onde ele estava. Chegaram numa casa de chá. Dona Rosa sentou numa mesa, de cos-tas para a porta de entrada. Passado um tempo, sem que esperasse, foiabraçada por trás, levou um susto, mas foi afagada de um jeito que sóHonestino sabia fazer. Foi uma grande felicidade. Assim eles levavam a vida, graças ao companheirismo das famílias eamigos conseguiam passar algum tempo juntos. Apesar de entender asrazões do filho para se envolver na militância contra o Regime Militar, al-gumas vezes Dona Rosa propôs que ele saísse do país, mas ele sempredizia que estaria mais morto se estivesse no exterior sem fazer nada peloBrasil. Ela também se preocupava com a situação de Isaura, não sabia seagüentaria se estivesse no seu lugar, vivendo uma vida instável com umafilha pequena para cuidar. Assim foi a última vez que esteve em São Paulo.Na viagem de volta seu ônibus se envolveu num acidente e ela quase per-deu a vida. Dois meses depois ficou sabendo que Honestino iria se separar e que-ria saber se ela poderia ficar com a neta por um tempo, até que Isaura seestabelecesse. O cuidado de Honestino com a filha era tamanho que se arriscou levan-do-a até a avó em Goiânia. Foi um pouco complicado para ela cuidar deduas crianças e ao mesmo tempo conciliar o trabalho e os estudos univer-sitários à noite. Mas também foi um período que curtiu muito. Quando Juliana completou dois anos, ela preparou uma festa, foi quan-do ficou sabendo que Isaura tinha um novo companheiro e iria buscar afilha. Dona Rosa teve dificuldades de aceitar que a neta teria um novo pai,mas a posição de Honestino, que se referia a Gusto, o companheiro deIsaura, como uma pessoa maravilhosa, a fez repensar e tomar uma outraposição. 30
  25. 25. • Proteção • Neste ponto da história, Dona Rosa, que está sentada no sofá corde rosa à sua frente, olha para você e diz que escreveu um livro sobreHonestino. Diz que com a mudança não se lembra exatamente onde está,mas que lembra ter alguns exemplares. Depois de alguns minutos ela volta, fica em silêncio e começa a falar: - Então... Quando eu fiz este livro, porque eu tinha que fazer, é um registro... Porque eu sabia que chegaria uma hora que eu não pode- ria agüentar mais. Então eu tô aqui arrumando esta mudança, vendi esta casa, e eu estou me mudando daqui, então é muito difícil... Ela lhe mostra a estrutura do livro, folheia, mostra cartinhas que eletinha escrito quando criança, fotos de família, ele com o pai, ele com osirmãos, uma foto dele com a filha. Por fim, procura pelo atestado de óbitodele emitido em 12 de março de 1996, que também está no livro. Bem, chegou a hora de você conhecer o fim da história. No início do ano de 1973, Dona Rosa foi para o Rio de Janeiro, ondese hospedou com Gusto, Isaura e a Ju, que moravam em Botafogo, e lá seencontrou com Honestino. Depois de passar o dia com eles, à noite ela e o filho saíram para con-versar e encontrar uns amigos. Ele contou para a mãe que as ameaçasde morte tinham se intensificado e por isto tinha escrito o “Mandado deSegurança”, ainda inacabado, que seria distribuído em lugares e mãos es-tratégicas. Ele leu para mãe: MANDADO DE SEGURANÇA POPULAR 1. Apresentação Por diversas vezes, fui ameaçado de morte pelos chamados serviços de Segurança Militares, desde pelo menos 1971. Através de diversos fones de vários estados, chegou a mim esta ameaça para quando eu fosse apanhado. A minha situação não é única. O passado recente da História de nossa terra infelizmente está repleto desses crimes, de vários exemplos de tiroteios simulados e de “atropelamentos” de pes- 31
  26. 26. soas após terem sido presas pelos órgãos de repressão política. Além disso, esta ameaça pesa concretamente sobre várias ou- tras pessoas que, como eu, são consideradas perigosas. Acredito firmemente que estes dias de violência fascista serão superados pela luta democrática de nosso povo e em especial dos trabalhadores, do operariado. Ao mesmo tempo não me iludo em relação ao teor da violência erigida em Estado Policial-Militar. Por isto lanço mão deste texto-denúncia, um verdadeiro “Mandado de Segurança” em relação às ameaças sofridas. Esta denúncia à consciência democrática dentro e fora do país é a única arma de que me disponho, mas não deixarei de lutar, es- teja onde estiver, por uma democracia efetiva para a maioria de nosso povo. No documento, ele conta que desde 1964, quando entrou naUniversidade de Brasília, começou a se manifestar contra o golpe militar,primeiro por causa de sua consciência política, que vinha desde sua infân-cia, depois por ver uma nova concepção de ensino, em fase experimental,pautada pela preocupação com os reais problemas do país e pelo diálogoverdadeiro entre aluno e professor, vir a ser destruída com a demissãocoletiva de vários professores. Assim começaram suas manifestações deestudantes. Ele fala também de suas prisões, da vida clandestina que levava hácinco anos, dos processos, da perseguição de que era objeto. Que não seentregava por não considerar legítimos os tribunais militares. Esta “jus-tiça” que criou tribunais militares, fazia julgamentos onde a participaçãoda imprensa era impossibilitada, e exercia pressão sobre os advogados,vários deles perseguidos. Equiparava os tribunais brasileiros com os tribu-nais nazistas. Ele denunciou também as prisões e confissões arrancadasde forma cruel pela tortura, e das mortes conseqüentes por esta forma demanter a ordem. Ele acreditava que a justiça era a consciência popular e democrática,na força da atuação do povo, especialmente dos trabalhadores. E não seintimidava diante da perseguição que sofria, se defendeu do título que re-cebeu de “terrorista” pois com a vivência que tinha, sabia que ações arma-das, assaltos, atentados e seqüestros somente revelavam um radicalismoque não levava a nada. Ele disse que os verdadeiros “terroristas” estavamno poder, porque estes usavam o terror para ali se manter. Assim, Dona Rosa recebeu aquele ato como uma preparação do queestava por vir, Honestino também se preparava. Ela passou mais dez diascom ele, passeavam pelo Jardim Botânico e combinaram a forma como ela 32
  27. 27. reagiria e como seria informada de qualquer coisa, dentro do menor tempopossível. Ela se despediu com um abraço. Em julho daquele mesmo ano, Norton foi ao Rio de Janeiro entregar umpassaporte falso para que o irmão deixasse o país. Lá mesmo, no meio dapraia onde o encontro tinha sido marcado, Honestino disse que não iriaporque seu povo era este, que ele iria lutar até o fim. Norton argumentoudizendo que iriam matá-lo, mas seu irmão perguntou: - Você sabe por que um relógio funciona? Porque tem uma mola no meio que faz assim... E com a mão imitou o movimento do balancim dos relógios. Foi a últimavez que Norton viu seu irmão. 33
  28. 28. • Brasil: Ame-o ou Deixe-o • Três meses depois, Honestino foi ao encontro de um companheiro. Todosos seus passos eram controlados pelo sério esquema de segurança do gru-po a que pertencia e seu desaparecimento foi rapidamente constatado. Ao que tudo indica este amigo que ele foi encontrar pode tê-lo conduzidopara uma emboscada. Naquele momento o cerco da repressão estava maisrígido, Honestino estava virando presa fácil, muitas denúncias foram feitas,todos que tinham qualquer ligação com ele podiam ser alvo de ameaças. Como combinado na última vez que Dona Rosa viu seu filho, recebeuum telegrama e alguns telefonemas com o código: “Seu filho foi internadono Rio”, isto é, ele tinha sido preso no Rio de Janeiro. Por onde começar? Ela contratou uma advogada para tentar o habeascorpus, pedido rapidamente negado. Então resolveu ir imediatamente parao Rio, para procurar pistas. Visitou todos os quartéis, perguntou a várioscomandantes, mas ninguém sabia de nada. Achou melhor procurar apoio na Comissão dos Direitos Humanos, naCNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Maçonaria. Contratou umnovo advogado, mas a causa foi entregue para Dra. Dyrce, que conhecendopresídios de Brasília e São Paulo orientou Dona Rosa, que não perdia umminuto a esperança. Fez muitas viagens de Brasília para o Rio de Janeiro oua São Paulo, todas feitas graças à colaboração de parentes e amigos. Depois de tentar por todos os lados seguir qualquer pista que encon-trasse, e seguir cada orientação de amigos e advogados, conseguiu umlaborioso contato com um General Comandante do 1° Exército de Brasília,foi encontrá-lo na Esplanada dos Ministérios. - Bom dia! Quero falar com o General. - Mas a senhora não pode falar com o General. Mas nós podemos lhe atender com toda presteza. - Agradecida. Sei que poderia contar com sua diligência, porém sou mãe do Honestino e quero falar com o General. - O que a senhora gostaria de falar com o General? Pode falar conos- co e nós levaremos o caso a ele. - Por que não posso eu mesma falar? Por acaso ele não é um ser humano como eu? Não está a serviço do povo? Portanto, ao meu serviço? Quero falar-lhe diretamente. Caso não possa, irei aos jor- nais e pela imprensa falarei. 34
  29. 29. Patentes e mais patentes vinham, fizeram de tudo para que ela desis-tisse da idéia. Mas ela foi até o fim. Ela acreditava que Honestino estavaem Brasília. Chegando ao gabinete luxuoso do General e aproveitando que estavamperto do Natal, foi direto ao assunto e pediu para visitar seu filho. Ele orde-nou que trouxessem documentos, que foram rapidamente analisados. Elanotou que alguns eram bem recentes, o que reforçava a constatação deque ele estaria na cidade. Saiu de lá, e logo depois recebeu permissão para visitá-lo e levar osfamiliares que quisesse. Ela queria levar tudo que poderia estar fazendo falta para ele. Dividiua tarefa dos preparativos com vários familiares, todos queriam participar.Até que chegou o dia. A cada chamada para visita, vinha uma expectativa angustiante porquenunca chegava a sua vez. Depois de muito tempo, ela resolveu questionaro motivo da demora: - Ele não está aqui. - Por favor, verifique, é muito importante. O Oficial foi prestativo e verificou. Honestino não estava lá, nem sabiaonde ele estava. Ela saiu de lá com o filho Luiz, foram dar uma volta no Lago Paranoá,numa tentativa de encontrar um lugar onde coubesse a dor que ela sentia.Ela se acolheu no cenário que encontrou: o céu estava colorido, típico dosfins de tarde em Brasília, e as águas, calmas. Se sentiu pequena, incapaz...Voltaram para o início, sem caminhos para perseguir. Mas tinha que encon-trar o filho a qualquer custo. No início do ano que se seguiu, começou a tomar força um boato vindode São Paulo de que Honestino teria morrido. Ela começou a ser muito visi-tada, porém era firme, não aceitava aquele comentário, precisava acreditarno filho vivo para que sobrevivesse. Recomeçou a busca. Voltou ao ponto de partida, mas sentiu que as portas gradativamenteestavam se fechando. Todos a recebiam com muito carinho, foi recebidapor Dom Evaristo (Cardeal Arcebispo de São Paulo), defensores dos DireitosHumanos, a Ordem dos Advogados do Brasil. Procurou qualquer pessoaque pudesse ajudá-la, ia para qualquer cidade que tivesse uma chance. Então foi realizada em Brasília uma reunião organizada por Dom Evaristocom o General Golbery, homem forte do governo e familiares dos desapa-recidos. Foi feito um círculo, e um por um os parentes eram ouvidos. Todos 35
  30. 30. queriam saber se os desaparecidos estavam vivos ou mortos. Ela se lembra que o General, com os olhos rasos de lágrimas, pediu oendereço dela e prometeu, diante de todos, que procuraria uma resposta ea buscaria em casa. Foi a última vez que ela o viu. A partir dali só silêncio. Amigo Leitor, não tenho certeza de suas convicções políticas ou religio-sas, mas os fatos que seguem têm a ver com a fé de Dona Rosa. Foi dessaforma que sua busca chegou ao fim. Ela é espírita, e tentava encontrar abrigo nas suas preces. Ela partici-pava de um grupo mediúnico que fazia um trabalho chamado “desdobra-mento”, é quando o espírito se afasta do corpo, para visitar outros lugarese fazer orações pelos que precisam. Uma vez estava em oração, se preparando, e sentiu que iria fazer umtrabalho importante. Ela foi conduzida até um lugar onde encontrou umcorredor comprido com pequenos compartimentos, como se fossem celas,ela entrava, fazia a prece, e à medida que caminhava ia encontrando al-guns companheiros de Honestino. Quando chegou à última cela ela o encontrou, ele estava encolhido nocanto, como se dormindo. Ela fez o mesmo trabalho, e Honestino desper-tou como se estivesse num sono profundo, abriu os olhos, sorriu e abraçoua mãe. Tudo aconteceu em poucos segundos, porém, quando ela retornou,chorou compulsivamente, mas consolada. Seu filho estava bem. O berçonão estava mais vazio. 36
  31. 31. • Bibliografia •AVENTURAS DA HISTÓRIA: SÉRIE DOSSIÊ BRASIL – DITA-DURA MILITAR: Editora Abril, abril de 2005, São Paulo, SPBARRA 68 SEM PERDER A TERNURA Direção: Vladimir deCarvalhoCÁRCERES, Florival História da América, 2ª Edição - EditoraModerna, São Paulo, 1992CAROS AMIGOS: ESPECIAL. São Paulo, SP: Editora Casa Ama-rela, número 19, março de 2004CARTA CAPITAL, São Paulo, SP: Editora Confiança, número 389,19 de abril de 2006CASTRO Gustavo, Alex Galeano Jornalismo e Literatura: ASedução da Palavra. Escrituras Editora, São Paulo, 2002CHASTEEN, John Charles América Latina: Uma história deSangue e fogo. Tradução de Ivo Korytwsk. – Editora Campus, Riode Janeiro, 2001FUCHIK, Júlio Silva Testamento sob a forca. Ed. Brasil Debates.Disponível em http://www.torturanuncamais.org.br/mtnm_tes/tes.htm Acesso em 17 de novembro de 2006GASPARI, Élio. A Ditadura Derrotada. Companhia das Letras, SãoPaulo, 2003GASPARI, Élio. A Ditadura Escancarada. Companhia das Letras,São Paulo, 2002GASPARI, Élio. A Ditadura Envergonhada. Companhia das Le-tras, São Paulo, 2002 37
  32. 32. LAURETIS, Teresa de. “A tecnologia do gênero”. In: HOLLAN-DA, Heloísa Buarque de (org.). Tendências e impasses: o feminismocomo crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 206-242LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas: o livro reportagem comoextensão do jornalismo e da literatura. Manole, Barueri-SP, 2004MONTEIRO, Maria Rosa Leite. Honestino: O bom da amizade é anão cobrança. Da Anta Casa Editora, Brasília-DF, 1998OS SONHADORES. Direção: Bernardo Bertolucci Título original:The Dreamers. França: Fox Searchlight Pictures, 2004SILVA Gustavo de Castro e. O que é jornalismo literatura. INSTI-TUTO HERMEUM, Brasília. Disponível em http://www.instituto-hermeum.com.br/text_01.asp Acesso em 3 de junho de 2005SILVA, Hélio 1964 Vinte anos de golpe militar, LPM Editoras,Porto Alegre, 1985SCHWANTES, Cíntia, Espelho de Vênus, Disponível em: http://www.amulhernaliteratura.ufsc.br/artigo_cintia.htm Acesso em: 7de junho de 2006TALESE, Gay Fama Anonimato; Tradução: Luciano FerreiraMachado, 2ª Edição – Companhia das Letras, São Paulo, 2004.VENTURA, Zuenir. 1968, o ano que não acabou. Editora NovaFronteira, Rio de Janeiro, 1988VENTURA, Zuenir. Um voluntário da pátria. Companhia das Le-tras, São Paulo, 2004WIKIPEDIA, a enciclopédia livre, Edson Luiz de Lima Souto, Dis-ponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Edson_Lu%C3%ADs_de_Lima_Souto Acesso em: 7 de junho de 2006 38

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