Cmc n185 jaimemacuane

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Cmc n185 jaimemacuane

  1. 1. publicidade de Moçambique www.canalmoz.co.mz Maputo, Quarta-Feira, 30 de Janeiro de 2013 30 Meticais Director: Fernando Veloso | Ano 8 - N.º 868 | Nº 185 SemanárioGrande Entrevista com o Prof. Jaime Macuane “Sucessão de Guebuza vai ser instável”Benvinda Levi e Khalau de costas voltadas Página 02 publicidade
  2. 2. Canal de Moçambique | Quarta-Feira, 30 de Janeiro de 2013 15 Grande Entrevista Grande Entrevista com o Prof. Jaime Macuane“Detractores internos de Guebuzasão incompetentes” “A Frelimo precisa de ter um líder que entenda que os mais de 20 milhões de moçambicanos não são militantes do partido Frelimo; que o partido só tem três milhões e qualquer coisa de membros; que há mais de 19 milhões de cidadãos que não são do partido Frelimo, e que estes mais de 19 milhões precisam de encontrar respostas para as suas necessidades e precisam de se sentir cidadãos de um País independente, em que os seus filhos derramaram sangue para libertá-lo” – Dr. Jaime Macuane. Matias Guente Foto: Sérgio Ribé O partido no poder, a Frelimo,é um partido maduro o suficien-te para entender que os níveisde contestação popular a quechegou, mostra que a sua formade fazer política é desajustadaao actual contexto. As grevesconstantes quer de populares ede classes profissionais mostraque o Governo já não está a sercapaz de satisfazer as neces-sidades das pessoas. Estas sãoconvicções do Professor e ex--Director do curso de Mestradoem Governação e Administra-ção Pública da UniversidadeEduardo Mondlane (UEM),Jaime Macuane, que aceitouconceder ao Canal de Moçam-bique uma longa entrevista emque o propósito foi medirmoso pulsar socio-político do País. Macuane, que é de resto umdos mais reputados analistas po-líticos da praça intelectual na- Jaime Macuane, Prof. e ex-Director do curso de Mestrado em Governação e Administraçãocional, embora muito reserva- Pública da Universidade Eduardo Mondlanedo, também nos falou do actualnervosismo que se vive dentro nal): Doutor, o ano começou passa a estruturar-se por inte- importante que eles comecem a envolvidas na política e que es-do partido Frelimo para encon- com a greve dos médicos. resses específicos identificados. se organizar e no meu entender tão revestidas de um mandatotrar o candidato ideal às eleições 2012 fechou com a greve dos Fico com a impressão de que estas greves todas que estão a para dirigir em nome da colecti-presidenciais. E para este acadé- funcionários da LAM e com depois de mais de trinta anos de haver, movimentos reivindicati- vidade, não conseguem captar amico, a razão para o actual cli- a greve geral nas cidades de uma adesão tácita dos cidadãos vos, manifestações, é uma certa essência do momento, é eviden-ma de mistério em torno do can- Maputo e Matola por causa a ideias abstractas de desenvol- ineficiência da política e dos po- te que há-de haver algum dese-didato da Frelimo é resultado da dos transportes. Se olharmos vimento, a ideias e objectivos líticos conseguirem captar aqui- quilíbrio. A minha impressãoforma como Guebuza combateu para o mandato do actual pre- colectivos abstractos, as pes- lo que são os seus interesses e é que os políticos em altura deas pessoas com algum capital sidente há só em Maputo, mais soas começam a ter uma preo- daí saírem as devidas respostas. entender o nível das necessida-político para fazer a diferença de três greves gerais no seu cupação muito mais específica des e interesses que existem nadentro do próprio partido. Em palmarés. O que se passa com dos seus interesses. Elas estão Canal: A sua resposta leva- sociedade, os processos nor-nenhum momento o nosso en- o mandato de Guebuza? Que a se dar conta que essas ideias -nos a fazer-lhe a seguinte mais e institucionais normais, játrevistado nos pediu para desli- análise política pode fazer? gerais não conseguem abarcar pergunta: as reivindicações não conseguem dar respostas àsgarmos os gravadores, para não aquilo que são os seus próprios são mais pela ineficiência necessidades das pessoas. É porregistarmos as suas declarações Jaime Macuane (Dr. Macu- interesses. E a política em si, da política ou pela eman- isso que há manifestações que“polémicas”. Nem nos pediu ane): A minha impressão em particularmente os políticos, cipação dos próprios cida- em certo momento até chegamque lhe enviássemos a entrevis- relação a estas greves, ou fenó- não estão a ter a capacidade de dãos que, digamos, calha a sair do quadro institucional.ta antes de publicada. Tudo que menos reivindicativos, é que es- captar esses interesses específi- com Guebuza no poder?disse, gravámos. Reproduzimos tamos a entrar numa nova fase cos e transformá-los em projec- Canal: E por que é que es-já a seguir, no clássico pergunta em que a organização dos inte- tos concretos de acção, e terem Dr. Macuane: Olha, a políti- sas greves não acontecerame resposta. O aconselhável mes- resses na esfera pública passa a conta que a par de um interesse ca faz-se com pessoas, e essas no consulado de Joaquimmo é o estimado leitor investir o ser mais decisiva. Uma fase em nacional há interesses específi- pessoas relacionam-se num cer- Chissano?seu precioso tempo nesta Gran- que a política deixou de ser uma cos de grupo. Os cidadãos co- to contexto. Essas pessoas têm Dr. Macuane: Eu acho quede Entrevista até ao fim, que simples adesão de muitas ideias meçam a se dar conta que na interesses, necessidades, e cabe são duas coisas. É preciso en-valer-lhe-á seguramente a pena. abstractas de desenvolvimento, política passiva não conseguem à política encontrar respostas. Canal de Moçambique (Ca- planos, projectos nacionais, e encontrar essas respostas. Já é Então se as pessoas que estão (Continua na página seguinte)
  3. 3. 16 Canal de Moçambique | Quarta-Feira, 30 de Janeiro de 2013 Grande Entrevista(Continuação da página anterior)tendermos o contexto em que a a esta ideia de que nós temos espaço para a crítica, mas as tiva? Ou nem sequer existe? só a intervenção governamen-Governação do presidente Chis- que fazer um esforço colectivo pessoas criticam mesmo assim, Dr. Macuane: Há projectos tal não atinge a eficácia que sesano acontece. É o aumento da e temos um projecto nacional com obstáculos. As pessoas nacionais. Mas conforme nós espera, como também a esferademocratização, da liberaliza- e a ética dos dirigentes públi- amadureceram politicamente. sabemos, grande parte das es- alternativa, que é o mercado,ção política que está a iniciar cos estava em linha com isto. tratégias de desenvolvimento não está democratizada o sufi-quase com ele e que culmina O presidente Chissano quan- Canal: Disse que no reinado que estão em curso neste mo- ciente… não tem instituições,com a nova Constituição e de- do assumiu o poder, ele en- de Chissano houve uma espé- mento, com especial enfoque não está organizado para que aspois temos as eleições de 1994. contra uma esfera pública sem cie de projecto nacional em para estratégias de luta contra pessoas encontrem soluções porA cultura política das pessoas, cultura reivindicativa, mas a que as pessoas se concentra- a pobreza, têm falhado. A par esta via. Resultado: temos umano período pós-independência, isso junta-se também a sua for- ram e empenharam. Pergun- disso, penso que a esfera eco- ineficácia das estratégias gover-e ética pública em si, eram di- ma de ser. O seu histórico de to-lhe se agora os cidadãos nómica ainda é muito restrita. namentais, aliado a um merca-ferentes. Estávamos numa fase diplomata: mais pelo diálogo e olham o País como um certo Ora se as soluções não vêm das do incipiente e extremamenteem que esse espírito colectivista negociação. As pessoas também projecto colectivo em que se políticas públicas, dos projectos restrito e, consequentemente,era muito mais forte. As pes- amadureceram politicamente. podem empenhar e contribuir governamentais, a alternativa só as pessoas não encontram res-soas tinham aderido em massa Vemos hoje que há redução de para sua prossecução posi- pode ser o mercado. Só que não postas para os seus problemas. “Alguns militantes da Frelimo não sabem bem o que eles querem” Canal: Agora, com esse so foram extremamente inte- tal modo que indivíduos que têm Foto: Sérgio Ribé equívoco de conceitos e parâ- ressantes para nós entendermos uma história política, quando metros, assistimos, nos dias qual é o nível de participação e chegam momentos de discutir que correm, à proliferação reflexão, e da independência po- assuntos do partido, não o fazem. de universidades em todos lítica em que nós estamos. Nós Eu acho que o presidente Guebu- os cantos. Estará a acade- todos vimos, no encontro do za, como líder e como político, mia nacional preparada para Comité Central, que havia clara- fez a sua parte. Mas os seus de- emancipar o moçambica- mente um conjunto de posições tractores internos foram incom- no sob todas as vertentes? divergentes, inclusive alguns petentes. E não tiveram a cora- membros seniores contestaram gem suficiente, e nem tiveram a Dr. Macuane: Eu acho que a a ideia de poder existir um pre- ética de respeitar a sua história academia tem ainda muitos de- sidente do partido que não fosse política de explicitarem os posi- safios para chegar ao nível dese- Presidente da República. E ha- cionamentos e lutarem por eles. jado, devido a estas razões que via indicações de que existe uma aqui levantei. Se um académico massa crítica que não estava Canal: A que nos leva tal situ- aparece em público a defender alinhada com aquilo que eram ação de incompetência dos de- posicionamentos que não têm as ideias da direcção do partido. tractores internos na Frelimo? uma base científica sólida, que Mas quando chegamos ao Con- exemplo estará a dar aos seus gresso, tudo isso se esfumou. E Dr. Macuane: Isso nos leva estudantes? – É um mau exem- parece que de repente existem a uma situação em que, neste plo. Torna a academia ao serviço consensos. Mas ao mesmo tem- momento, retirando o topo, sob de qualquer expediente políti- po, continuamos a ouvir críticas. ponto de vista da sua competên- co ditado pelas conveniências cia política de exercício da polí- pessoais. Neste sentido penso Canal: Então o que aconte- tica, não temos liderança nenhu- que ainda estamos muito longe. ceu??? ma. Temos o topo, e não temos Mas é preciso ter em conta que mais ninguém. E isto é crítico existem círculos em que existem Dr. Macuane: Parece-me que sob ponto de vista da estabilida- pessoas que estão verdadeira- alguns militantes da Frelimo não de de um País, tendo em conta Canal: Doutor, quem fala estar envolvido em investiga- mente comprometidas com a sabem bem o que eles querem. que a Frelimo está no poder. Éde greves fala de cidadania, ção, em ensino, produção cien- academia e estão a contribuir Porque há um momento em que quando começamos a notar queemancipação, o que está mui- tífica e também ter uma pos- substancialmente para que pos- fazem críticas em relação a um afinal não surge liderança alter-tas das vezes ligado a instru- tura profissional deontológica. samos criar uma massa crítica certo estado de coisas, e há um nativa ao presidente Guebuza,ção e a liberdade de pensa- O que acontece no nosso con- neste País. De forma indepen- momento em que parece que es- credível. Mas é dentro do par-mento. Como é que olha para texto é que temos muitas pessoas dente e consciente estão a contri- tão todos de acordo. E o único tido que se deveriam mostrar.o papel das instituições de com curso superior e outras até a buir para uma sociedade melhor. argumento que eles têm é de queensino, principalmente su- dar aulas na universidade, mas “deixem a Frelimo trabalhar, Canal: E qual é a implicaçãoperior. Há quem diga que as dar aulas na universidade não O X Congresso da Frelimo porque só ela é que sabe o que desse tipo de organização amesmas estão ao serviço do re- faz de ninguém um académico. é melhor para ela”. Eu acho que médio e longo prazo?gime? Partilha dessa opinião? E são essas pessoas que es- Canal: Doutor, deixemos a as coisas não são bem assim. A tão a ser confundidas como academia e voltemos à polí- Frelimo é o partido que neste Dr. Macuane: A médio e Dr. Macuane: Primeiro temos parte de uma certa comunidade tica. O X Congresso da Freli- momento dirige o País, é da sua longo prazo a implicação é queque ter clareza sobre o que é a académica. Enquanto são pes- mo tinha sido visto como uma liderança que os nossos destinos a sucessão vai ser instável. Secomunidade científica ou acade- soas que chegam nas faculda- oportunidade para dissipar dependem. Nós temos situações estás numa situação em que nãomia. O que é hoje a academia? des dão aulas e vão-se embora. de uma vez por todas as dú- como estas em que parece que se abre espaço para que líderesEu acho que há um grande equí- E são essas pessoas que de- vidas em relação ao espírito haverá uma discussão profunda possam emergir e se fortalecervoco em relação àquilo que con- pois aparecem na esfera pú- de medo que alegadamen- dos assuntos, em que os vários a partir da prática política, osideramos como academia. Um blica a defenderem posições te reina dentro do partido, posicionamentos existem, mas partido Frelimo ao indicar umindivíduo pode ter um grau de de pouca cientificidade com o mas teve episódios que aca- em que pelo menos cá fora de candidato não vai ter tempo su-Doutor, PhD, e não ser acadé- rótulo de académico. Uma pes- baram por fazer crescer essa repente se esfumam. E come- ficiente para que este líder possamico. E muitas das vezes con- soa não pode aparecer a defen- apreciação. Na sua opinião, çamos a pensar que temos um ser sufragado, pela população.fundimos o grau de escolaridade der coisas sem fundamentos e a Frelimo é um partido aber- sério problema de liderança, E mesmo que ele seja eleito nãocom a essência académica. São ainda querer ser chamado de to a auto-crítica? E porquê? pelo menos aquele que está no faz dele um líder competentecoisas diferentes. Ser académi- académico. É isso que faz com intermédio abaixo de Armando para governar este país. Temosco implica uma certa postura, que haja ideia de que a acade- Dr. Macuane: Eu acho que as Guebuza. Parece que há um dé-uma certa prática profissional: mia está ao serviço do regime. vésperas, durante e pós congres- fice de “check-and-balance” de (Continua na página seguinte)
  4. 4. Canal de Moçambique | Quarta-Feira, 30 de Janeiro de 2013 17 Grande Entrevista(Continuação da página anterior)aqui um problema muito sério mília. Refiro-me à sua esposa, Foto: Sérgio Ribéde preparação de liderança. Veja sobre todo aquele debate do li-o caso do ANC (partido no po- mite da sua acção. E agora vemder na RSA). O ANC abre espa- a filha. Mas penso que a entradaço para quem quiser concorrer da senhora Valentina Guebuzapara a direcção do partido, con- tem, acima de tudo, um fundocorra. Aqui as pessoas insinuam- económico. Criou-se um sector-se e quando chega o momento específico para assuntos eco-retiram-se. O que acontece nes- nómicos no partido. Eu achote momento é que, retirando- que neste sentido, além, clara--se Guebuza, só ficam gestores. mente, da continuação da es-O próprio primeiro-ministro, tratégia do presidente Guebuzaneste momento, não é um líder para criar, dentro da sua famí-político. É um gestor. Este va- lia, pessoas com algum capitalzio sob ponto de vista de lide- político, agregam-se tambémrança política, no intermédio é questões de ordem económica,muito crítico para as sucessões. porque no contexto actual, com a restrição nas condições de Canal: Será este vazio polí- mercado, não é possível nestetico na intermediária que faz país alguém suceder economi-com que até hoje a Frelimo camente sem ligações políticas.não tenha candidato e vive Por isso, apesar do sucesso eco-com medo de indicá-lo publi- nómico que a senhora Valentinacamente? Guebuza tem, ela no futuro di- ficilmente poderá assegurá-lo, Dr. Macuane: (risos) …Cer- sem ter forte capital político.tamente que deve ser por isso. assim como não. Vai depender que faz com que apareçam duas disso candidata à PR. ComoPorque neste momento depois Canal: Mas Doutor, se do do espaço político que lhe vai candidaturas que de forma quase é que viu esse fenómeno? Erado esvaziamento de potenciais lado da filha é por questões de ser dado para construir o seu unânime acabam sendo eleitas. vista como uma figura capazlíderes que poderiam concorrer segurança do seu império eco- próprio capital. Porque cons- de ombrear com membrospara a sucessão e a sua descapi- nómico, qual é a motivação no titucionalmente e na prática o Luísa Diogo: da actual liderança e caiu…talização política no congresso, investimento no capital políti- posto de PM não constrói ca-neste momento nós não sabemos co da esposa? pital político. Pascoal Mocum- ingenuidade ou Dr. Macuane: É um poucoquem poderá vir a ser o próximo bi ficou lá por quase oito anos. incompetência? daquilo que dissemos há pouco.candidato. E falta quase um ano Dr. Macuane: (risos) …A Tudo depende do espaço dado A nossa política neste momen-e meio para as próximas elei- esposa do presidente é uma pelo Presidente da República. to… Ela tem uma dinâmica queções. E governar este País, acre- questão do presente. A filha é Canal: Desde a ascensão de embora tenha suas raízes histó-dito que não seja algo fácil. E uma questão do futuro. Sendo Canal: Há vozes que de- Guebuza ao poder, entrou na ricas que desestimula a autopro-acho que essa forma de escolher a filha a principal gestora dos fendem que a recondução de ordem do dia o debate das alas moção de indivíduos, ela acabafuturas lideranças não parece negócios da família, é evidente Guebuza e o actual Secretário- que para algumas vozes ficou estando desenquadrada daquiloque seja uma forma segura. As que tem um longo futuro e numa -Geral da Frelimo sem ad- nítida em Muxara (Pemba). que é a dinâmica actual. Pensopessoas têm que ter oportuni- situação em que estamos num versários e com muitos votos Acha que essa questão tem que existe a crença errada – quedade para construir o seu capi- País em que quem não está li- é uma espécie de conformis- tido repercussão a nível de dis- há alguns anos atrás fazia senti-tal político. A esfera partidária gado à Frelimo não tem ganhos mo que se instalou dentro do tribuição de poder e de rela- do – de que qualquer candidatodeve dar espaço para emergirem económicos, é importantíssi- partido Frelimo por parte de cionamento dentro do próprio que a Frelimo possa colocarnovas lideranças e ideias para mo que ela tenha esse capital. pessoas que podiam, se calhar, partido Frelimo? as eleições já estavam ganhas.exactamente resolver a ques- concorrer com essas pessoas… Acho que ainda existe essa cren-tão da incapacidade de a polí- Vaquina não tem Se bem que há pouco faláva- Dr. Macuane: Isto requer uma análise muito mais profunda so- ça. Mas isto é um risco muitotica resolver questões do novo mos do vazio intermédio. Con- grande. Isto funcionou até aqui.contexto. Quando os processos capital político corda? bre quem são essas alas. E eu Não estou certo que funcionaráde substituição são extrema- acho que não tenho informação por mais tempo, devido a essamente controlados limita a veia Canal: Há pouco falávamos Dr. Macuane: Eu acho que há suficiente para essa análise. Mas cultura política dentro da Fre-criativa que a política deve ter. do PM e da ausência de capital pessoas na Frelimo, a este nível a impressão que eu tenho em re- limo, de que os indivíduos não político nele. Depois do X Con- intermédio e com capital históri- lação a isso é que a despeito de se podem mostrar ambições polí-Guebuza sempre gresso em Pemba vimos Alber- to Vaquina a ser PM. Estava co, que por alguma razão abdi- falar de uma certa concentração de poder nas mãos do presidente ticas. A ambição é vista como caram do seu papel de continuar negativa enquanto do meu pon-promoveu pessoas nas suas leituras tal ascensão? com essa ideia de que dentro da Guebuza, acho que olhando para to de vista é importante que as da sua família Frelimo há “checks and balan- a história da Frelimo e daquilo pessoas exponham o seu capital. Dr. Macuane: Existem aqui ce”. Eu não estou convencido que dizia antes, não é possível Faz com que qualquer indivíduo Canal: Como é que olha dois tipos de capital político. que o nível de consenso que foi encontrar-se esses tipos de con- que apareça fora dos interessespara entrada de Valentina Há um capital político partidá- transmitido e que muitos analis- senso sem haver compromissos. estratégicos das lideranças doGuebuza, filha do actual che- rio interno, e há aquele que se tas escrevem a respeito disso, Não estou a crer que o presiden- momento seja visto de forma ne-fe de Estado para o Comité ganha na sociedade. Há pessoas só funciona quando você não te Guebuza possa ter esse apoio gativa. Foram vistos como pes-Central da Frelimo? Qual é a que podem ter um capital políti- lê nem fala com as pessoas que sem que haja compromisso. Há soas que quebraram uma espécieleitura que faz? Que sinal quis co muito alto dentro do partido, estão dentro do próprio partido alguma forma de acomodação. de código de conduta interno…dar Guebuza a seus aliados e mas não o terem na sociedade. Frelimo. Eu não acredito que (risos). E porque isso tem umadetractores internos? Eu imagino que o Dr. Vaquina haja esse nível de consenso. Não Canal: A “queda” de figuras espécie de laços históricos mais na sua prática, ao menos a nível acredito! Assumindo que as mi- como Luísa Diogo, da Comis- ou menos rígidos, Luísa Diogo Dr. Macuane: A primeira local, tenha ganho algum capital nhas crenças são plausíveis, quer são Política da Frelimo, é vista sofreu, pagou por isso, o que éimpressão que eu tive é que há, por lugares onde passou. Agora dizer que alguma coisa falhou como parte de uma limpeza na muito mau. Mas também come-claramente, uma necessidade o capital político nacional, na no nível intermédio e nível dos ala “Chissaniana”, numa altu- teu o erro de não se ter prepara-que Guebuza sempre teve de sociedade mais ampla, é evi- históricos e lideranças mais re- ra em que era apontada como do o suficiente e arranjado apoiocriar algum capital político para dente que ele não o tem. Pode centes. Esta abdicação do exer- possível sucessora na presi-promover as pessoas da sua fa- ganhá-lo no posto em que está, cício do seu poder institucional é dência da Frelimo e por via (Continua na página seguinte)
  5. 5. 18 Canal de Moçambique | Quarta-Feira, 30 de Janeiro de 2013 Grande Entrevista(Continuação da página anterior) Canal: Pergunto-lhe se con- que as coisas terminem assim. Foto: Sérgio Ribé segue ver dentro da Frelimo Canal: Está a querer dizer alguém com essas característi- que são legítimas as questões cas que acabou de indexar? levantadas pela Renamo? Dr. Macuane: (risos e longa Dr. Macuane: Existem ele- pausa) …Não quero arriscar! mentos mais do que claros de que a Renamo tem a sua razão. “Dizer que o O que para mim fica envol- to de muita política é mistu- AGP está rar reivindicações específicas encerrado é com questões gerais e sociais. O Acordo Geral de Paz tem enganarmo-nos questões exclusivas sobre a Re- a nós mesmos” namo. Questões como a defesa e segurança são questões plas- Canal: Falemos agora da madas no acordo e tem a ver oposição. Recentemente o Go- directamente com a Renamo. verno esteve reunido numa Eu acho que dentro de ques- das estâncias hoteleiras de tões muito mais amplas como a Maputo, com a Renamo, para questão da partidarização do Es- tratar da vida político-social tado, que sabemos que é real e do País. O governo chamou a que é preciso acabar com ela por isso “audiência” enquanto a uma questão de justiça e desen- Renamo chamava “negocia- volvimento, é preciso que entrem ções”. Porquê, essa concepção mais actores. É importante que divergente em termos de no- o Estado seja despartidarizado. menclatura do evento? Agora a forma como a Rena- mo elabora essa partidarizaçãopara no momento da verdade en- e chegam mesmo a aventar a tem alguns elementos que são de Dr. Macuane: O governo e é que tira mérito às questões.contrar pessoas que aceitassem hipótese de Guebuza ficar com extrema importância e que já há a Renamo não estão no mesmo A questão da despartidariza-o seu projecto político. Foi uma o partido e lançar um candi- alguns sinais. Temos a questão diapasão. Enquanto a Renamo ção é um desafio para todos osgrande ingenuidade para não dato da sua confiança para regional e questão económica. diz que é preciso renegociar os actores sociais. Indivíduos quedizer incompetência política. disputar as eleições. Qual é O próximo presidente se não for acordos gerais de paz, o Gover- pagam impostos e têm cidada- sua opinião neste particular? ele (NR: o candidato eleito) pelo no diz que não porque o acordo nia moçambicana que cumpram Comiche e Dr. Macuane: Olha, o poder menos a sua equipa deve estar em condições de liderar um País já está incluído no nosso quadro institucional. Ora, um dos ele- com seus deveres, não devem ser condicionados a serem de Mulémbwè conquista-se, ninguém dá o poder com grandes perspectivas eco- mentos fundamentais de uma um partido para terem aces- de bandeja. Quando se conquista nómicas, não sob ponto de vista negociação é o reconhecimen- so às oportunidades públicas. Canal: Não se pode falar de deve ser exercido. O Presidente nacional apenas, mas sob ponto to da legitimidade do outro e É uma questão fundamentalLuísa Diogo sem falar de ou- Guebuza encontrou um parti- de vista das elites políticas deste do ponto a negociar. Aceitando sob ponto de vista da construçãotras duas ilustres figuras. Há do enfraquecido. Revitalizou-o País. Tem que ser uma figura ca- que é uma negociação seria um de um País e da nossa cidadania equem diga que figuras como e hoje é a máquina que está ai. paz de garantir os interesses eco- recuo do próprio governo em consolidação da nossa indepen-Eneias Comiche e Eduardo É o mérito da liderança dele. nómicos nacionais e das elites relação àquilo que tem dito. dência como um País de iguais.Mulémbwè (os chamados so- E chega ao X Congresso forta- políticas. Tem que ser também Chamando àquilo de “audiên-breviventes do Congresso) po- lecido, mesmo apesar das vozes alguém com capacidade de lide- cia” é importante sob ponto de Canal: Depois do fenómenodem jogar papel importante discordantes. Fez com que parte rança cada vez mais inclusiva. vista de negação da necessida- “Manuel de Araújo” em Que-na luta pelo poder dentro do substancial dos seus aliados se fi- Porque apesar de se estar a de de negociação do acordo. limane, e mais recentemente opartido. Concorda? zessem eleger nos órgãos do par- dizer que há falta de diálogo Congresso do MDM na Bei- tido. Acha mesmo que ele vai dei- a Frelimo é um partido ma- Canal: Sem reconhecimento ra, vê-se alguma capacidade Dr. Macuane: Pareceu-me ser xar esse poder em mos alheias? duro suficiente para entender por parte do Governo e pe- de mobilização por parte doo tal arranjo de compromisso de Eu tenho sérias dúvidas!.. que aos níveis de contestação, rante a insistência da Renamo MDM principalmente na alaque falei. O tal consenso não foi a que chegou, a sua forma de conjugada com a divergência jovem. O que se pode esperarum consenso do tipo cheque em Canal: Há coisas que muitos fazer política neste momen- em termos do tipo de reuniões, deste partido nos próximosbranco. É um consenso constru- gostariam que acontecessem to é desajustada. Precisa-se de ainda se pode esperar algo des- pleitos?ído na base de compromissos. na Frelimo. Mas a Frelimo um político que tenha a capa- ses encontros?Mesmo que o presidente tenha tem a sua própria dinâmica cidade de negociar, capaz de Dr. Macuane: O MDM é umtido um capital político pelo de grupo, que lhe é muito pe- incluir cada vez mais grupos. Dr. Macuane: Este assun- partido que, como vimos depoispapel que exerceu na revitali- culiar. Nessa ordem de ideias, E precisa-se ter um políti- to é extremamente importante. do seu congresso, foge daqui-zação da máquina partidária, qual é a personalidade que, co que entenda que os mais de Todos estão conscientes disso lo a que estamos habituados anão há como Guebuza Gover- pela lógica das dinâmicas in- 20 milhões de moçambicanos apesar dessa oratória política se- ver. É um partido com algumanar sem esses arranjos. Mesmo ternas da Frelimo, será o can- não são militantes do partido gundo a qual não há nada para organização e está a ter suces-que Guebuza tenha sido o prin- didato? Frelimo; que o partido só tem se negociar. Estão conscientes so na sua experiência Governa-cipal maestro do X Congresso três milhões e qualquer coisa de que este assunto não está en- tiva que pelos visto é positiva.esta vitória se fez na base de Dr. Macuane: Às vezes, caí- de membros e há mais de 19 cerrado. Mas nós todos sabemos Acho que é um partido commuito compromisso, de pesos mos na tentação de fazer exercí- milhões de cidadãos que não que o assuno em si, pelo menos grande potencial e sobretudo,e contra pesos, onde enquadro cios de futurologia. Eu não quero são do partido Frelimo. E estes como está a ser colocado, não um partido que não está presoessas duas figuras. [Eneias Co- entrar nisso. Conforme eu disse mais de 19 milhões precisam está encerrado. Seria um exercí- à lógica em que a Renamo estámiche e Eduardo Mulémbwè] antes, neste momento é mui- de encontrar respostas para as cio dilatório e estaríamos a nos de um confronto com a Freli- to complicado nós antevermos suas necessidades e precisam enganar a nós mesmos querendo mo. Isso faz com que tenha uma Canal: Há vozes que vati- qual vai ser o candidato do par- de se sentir cidadãos de um colocar uma pedra sobre esse as- perspectiva mais ampla das coi-cinam que Guebuza fará de tido Frelimo porque justamente País independente, em que os sunto. Eu acho que essas nego- sas. Tem grandes perspectivastudo para não perder o contro- esta parte intermédia está esva- seus filhos derramaram sangue ciações vão continuar e poderão de crescer nas próximas elei-lo do poder dentro da Frelimo ziada. Agora eu acho que exis- para libertá-lo. Isso é crucial!!.. produzir resultados. Não creio ções. (Canal de Moçambique)

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