Coletânea HADITHI NJOO 1

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Primeira coletânea de afrohistórias e outros escritos organizada pelo Festival Internacional de AfroContação de Histórias HADITHI NJOO. Mais informações em www.festivalhadithinjoo.blogspot.com.br.

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Coletânea HADITHI NJOO 1

  1. 1. HADITHI NJOO primeira coletânea de afrohistórias (e outros escritos) organização: Odé Amorim Projeto OFICINATIVA março 2013
  2. 2. _____________________________ Projeto OFICINATIVA Caixa Postal 73 Ribeirão Pires, SP CEP 09400 970 projetooficinativa@hotmail.com www.oficinativa.blogspot.com.br ____________________________ Aos poucos vamos conseguindo publicar e compartilhar os muitos materiais que temos por aqui. O grande e sincero desejo é que o Festival Internacional de AfroContação de Histórias HADITHI NJOO se espalhe e sensibilize a tod@s para que valorizemos ainda mais a comunicação interpessoal, as tradições orais e os valores civilizatórios que vieram do continente berço do mundo e que hoje estão em quase todos os cantos do planeta. A partir daqui, a ideia é lançar uma série de coletâneas com contos, lendas, provérbios, orikis, odús, poesias e outros tantos escritos afro e disponibilizar esse conteúdo livremente para que seja utilizado de inúmeras maneiras. E para que a proposta do festival (FESTA!!!) definitivamente nos convença que precisamos celebrar a vida... AfroAbraços Odé Amorim
  3. 3. materiais consultados: - livro Poesía anónima africana (tomo II), Rogelio Martinez Furé - livro Eté Utú (Cuentos de tradición oral), Agnés Agboton - livro El árbol de la palabra, Maritxell Seuba - livro Cuentos y leyendas populares africanos A árvore da palavra.............................................4 Por que o sol e a lua não saem juntos..............5 A história dos 3 surdos........................................7 Seetetelané.............................................................9 Provérbios............................................................11 Imagens dessa edição: Exposição GRAFFRICA na Casa África (Las Palmas de Gran Canaria); obras do grafiteiro Black-T (Córdoba). Registros de JULHO 2012
  4. 4. A árvore da palavra Era uma vez, num lugar distante, uma árvore estranha plantada no meio de um prado verde penteado pelo vento. Seus galhos, grandes e retorcidos, pareciam raízes que invadiam o céu. Durante o dia parecia uma árvore comum. Mas quando chegava a noite, quando o sol tirava seu contorno do céu e a lua começava a se esboçar, de seus galhos surgia um suave murmúrio. Cada uma de suas folhas, que tinham bocas, contava uma história única que o vento logo espalhava por toda a savana. Essa árvore conhecia todas as palavras, inclusive as que não foram pronunciadas pelos humanos. Conhecia todos os contos, inclusive aqueles que nunca foram explicados. Conhecia todas as lendas, inclusive aquelas que pertencem a povos que perderam a memória. Falava todas as línguas, inclusive as que falam os animais. Era a árvore da palavra. A árvore da palavra fascinava tanto os humanos como os animais da savana. Todos se reuniam debaixo de sua sombra e compartilhavam tempo e sentimento. Alguns pediam conselhos sobre um assunto que preocupava. Outros só sentavam para dialogar inquietudes. Os mais sonhadores confessavam seus desejos mais profundos. E os aventureiros falavam de viagens e histórias... Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 4 #
  5. 5. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 5 # Por que o sol e a lua não saem juntos Esse conto voa e retorna a tempos passados, bem longínquos quando Hue (o sol) e Sun (a lua) eram amigos. Amigos sinceros que sempre estavam juntos. Fossem onde fossem, quando aparecia um o outro sempre acompanhava. Se a lua queria sair ia buscar o sol. E se era o sol que queria sair ia buscar a lua. Hue e Sun eram inseparáveis. Mas certo dia Sun, a lua, foi visitar Hue, o sol, para contar uma ideia que estava virando sua cabeça há algumas semanas. E lhe disse: - Concorda comigo que temos muitos filhos, não é verdade? - Verdade, são muitíssmos. - E eles nos dão muito trabalho, sempre estão brigando, nunca quietos, são muito atrevidos e, além de tudo, é bastante duro dar comida a todos. - Sim, tem razão. Mas por que me expõe tudo isso agora? - Bom, ia propor que esta noite, aproveitemos que estarão dormindo, lhes agarremos e lhes atiremos ao mar. Deste modo, pelo menos, podemos descansar um pouco e estar em paz. - Deseja realmente isso? O sol se mostrou pensativo. A ideia não o convencia por completo. Mas passadas algumas horas, disse finalmente à amiga lua: - Você é minha amiga e não lhe posso negar nada. Assim que anoitecer e eu veja que estão dormindo, pegarei todos e lançarei ao mar. - E eu farei o mesmo. Ficaram juntos até que o dia começou a declinar e foram aparecendo as sombras. Quando se fez completa noite, o sol deu o jantar aos numerosos filhos e lhes colocou para dormir. Ficou espreitando e quando notou que já dormiam, embalados por sono doce e profundo, se dispõe a cumprir sua parte. Foi buscar um enorme saco no qual coubessem todos os filhos e foi recolhendo um a um. Logo conseguiu um suporte para transportar aquele peso até o destino. Quando chegou às margens do mar, esvaziou devagar o conteúdo saco. Os filhos seguiam em profundo sonho e a medida que os infelizes iam caindo na água, se transformavam imediatamente em pequenos peixes. Hue regressou a sua casa. Faltava bastante para que amanhecesse ainda, a noite reinava. Foi então que o sol, que começava a sentir falta dos filhos, levantou os olhos ao céu e viu como brilhavam na escuridão milhares de minúsculas luzes.
  6. 6. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 6 # - Ah, ah! O que aconteceu aqui? O que veem meus olhos? Muito surpreso, foi correndo até a casa de sua vizinha a lua para lhe fazer a mesma pergunta. - São meus filhos, respondeu Sun. - Como que são seus filhos? Então o que tanto brilha no alto são seus filhos? Essas jóias reluzentes são seus filhos? Então não lançou eles ao mar como tínhamos combinado? Então mentiu, me enganou? A lua começou a rir muito e quando recuperou o fôlego respondeu: - Sim, meu querido sol. Eu estava com ciúme da beleza de seus filhos, de seu brilho, de sua perfeição, de seu fulgor. Principalmente quando olhavam os meus com suas peles escurecidas e pouco brilho. Por isso quis que lhes matasse com suas próprias mãos e então propus o pacto. A lua continuou zombando do sol. Desesperado o astro chorou, chorou e chorou. Regressou logo a sua casa, fugindo das risadas da lua e seguiu chorando de pena por sacrificar com as próprias mãos suas crias. Decidiu então se afastar para sempre de sua cruel amiga, rompendo a amizade que lhes unia. Por essa razão, há muitos e muitos séculos, os homens de um tal povoado africano chamam os peixes de huevi – filhos de Hue – que nadam por rios e lagoas, fazendo sulcos nas águas, às vezes fugindo dos pescadores, e a lua segue desfrutando dos sunvi – os filhos de Sun – as estrelas. Por vezes, um deles mete o nariz na casa do outro e então podemos vê-los juntos em feroz combate, o que provoca os eclipses. Esses momentos são chamados de hwele-sun – o sol agarrado a lua – que fazem lembrar as antigas confusões da dupla. Quando isso ocorre, os homens saem às ruas fazendo ruídos com instrumentos, ferramentas, panelas, para que Hue e Sun de novo se separem. E, a partir de hoje, quando comerem peixes não deixem de dedicar um breve pensamento ao astro do dia cujos filhos, sacrificados, são seu alimento.
  7. 7. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 7 # A história dos 3 surdos Essa é a história de uma mulher que era surda, tão tão surda que não ouvia nadinha. Todas as manhãs colocava o filho nas costas e ia trabalhar no campo. Tinha um imenso campo de painço. Uma manhã, enquanto trabalhava tranquilamente apareceu um homem. Um homem que também era surdo, tão tão surdo que não ouvia nadinha. Esse homem buscava suas ovelhas e perguntou à mulher: - Senhora, não terá visto umas ovelhas por aqui? Sumiram mas as suas pegadas me trouxeram até aqui. Uma delas está ferida. Se me ajudar a encontrá-las, posso lhe dar esta ferida e sempre pode servir para algo. A mulher, que não havia ouvido nada, pensou que o homem perguntava onde acabava seu campo e respondeu: - Meu campo acaba ali embaixo. O homem que também não tinha ouvido nada acreditou que a senhora estava indicando a direção por onde havia escapado suas ovelhas e foi para lá. Por coincidência, encontrou os animais pastando tranquilamente atrás de uns arbustos. Muito contente, retornou até onde estava a mulher para lhe dar a ovelha ferida como havia prometido. Contudo, como a mulher não ouvia nada, imaginou que o homem estava a acusando de ter machucado sua ovelha. Ficou irritada e disse: - Senhor, eu não fiz nada com sua ovelha. Vá pedir explicações a outro. O homem, quando viu a irritação da mulher, pensou que ela não queria a ovelha ferida e sim uma saudável e mais gorda. E também irritado replicou: - Senhora, essa é a ovelha que lhe havia prometido. Não vou dar nenhuma outra. E os dois foram ficando mais e mais nervosos até o ponto que chegaram aos tribunais. Naquele tempo, na África, os tribunais aconteciam na praça central dos povoados, à sombra de uma grande árvore: a árvore da palavra. E o juiz era o chefe da comunidade rodeado de pessoas conhecidas como notáveis. Perante o juiz e os notáveis, a mulher e o homem expuseram a situação: - Senhor juiz – começou a mulher – esse senhor se apresentou a mim enquanto eu trabalhava e perguntou onde terminava o meu campo. Eu mostrei e segui trabalhando. Depois, ele voltou com uma ovelha ferida e me acusou como culpada pelo dano. Por isso estou aqui, senhor juiz.
  8. 8. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 8 # Quando chegou sua vez, o homem explicou a situação: - Estava buscando minhas ovelhas extraviadas e suas pegadas me levaram ao campo dessa senhora. Disse a ela que se me ajudasse a encontrá-las, lhe daria uma e especifiquei bem que seria a que estava ferida. Acreditam que daria a ela uma ovelha mais gorda? Por isso estou aqui, senhor juiz. O fato é que o juiz era mais surdo que uma parede e não tinha ouvido nada. Quando viu o menino nas costas da mãe pensou que se tratava de uma pequena disputa caseira. Então dirigiu-se ao homem: - Senhor, essa criança é seu filho. Veja como é parecido. É um mal marido e um mal pai. E você senhora, não deveria vir na frente de todos falar sobre esses pequenos problemas. Retornem a sua casa e espero que se reconciliem em breve. Ao ouvir essa sentença, todos romperam em gargalhadas. E a risada contagiou o juiz. E a mulher e o homem, mesmo sem ter ouvido nadinha de nada, ao ver todos rindo, também começaram a rir. E aqui me pergunto: qual dos 3 era mais surdo?
  9. 9. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 9 # Seetetelané Era uma vez um homem pobre, tão pobre que carecia de família e se alimentava apenas de ratos silvestres, cujas peles se transformavam em calção curto que ia até os joelhos e era sua única vestimenta. Certo dia que saiu para caçar roedores, logo tropeço num ovo de avestruz. Levou- o para sua casa e o colocou num ninho. Novamente saiu e quando regressou, com fome e cansado pela dura jornada – já que só havia conseguido caçar 2 miseráveis ratos – encontrou a mesa arrumada e, sobre ela, um apetitoso bolo de farinha de painço e carne de cordeiro. Assombrado, exclamou: - Casei-me sem saber? Esta comida, sem dúvida nenhuma, é obra de uma mulher. E onde está essa cozinheira? Naquele momento, se abriu o ovo de avestruz que havia recolhido e saiu dele uma donzela belíssima. - Meu nome é Seetetelané, dizia ela com a voz doce, e permanecerei ao seu lado até que, num instante de embriaguez, me chame filha do ovo de avestruz. Se o fizer, sumirei e não voltará a me ver nunca. O caçador de ratões selvagens prometeu não mais se embriagar em sua vida e, durante vários dias, desfrutou de uma existência maravilhosa em companhia de sua bela esposa, que lhe narrava contos fantásticos e cozinhava pratos especiais. Um dia vendo, que ele estava aborrecido, a jovem disse: - Gostaria de se transformar no chefe da aldeia e ter súditos, animais e serviçais?
  10. 10. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 10 # - Seria capaz de me proporcionar isso? Perguntou ele sem acreditar muito. Seetetelané sorrio. Em um segundo, deu um pontapé no solo e a terra se abriu, surgindo uma caravana de súditos com camelos, cavalos, mulas, carneiros e cabras, assim como grande número de homens e mulheres que, de imediato, começaram a aclamar o caçador de ratos, gritando com muita energia: - Viva nosso chefe! Viva nosso chefe! O homem beliscava as bochechas para se convencer de que não era um sonho. Seetetelané, sorrindo, fez com que se olhasse no reflexo das águas de um riacho e então ele se deu conta que estava jovem e formoso e que seu calção de pele de roedores havia se transformando num riquissímo vestido de pele de chacal de pelos largos e que protegia muito. Quando voltaram à palhoça, esta havia se transformando numa casa de pedra e madeira com 4 cômodos e seu quarto estava cheio de peles de pantera, zebra, chacal e leão. O caçador de ratos estava a ponto de desmaiar ao ver tanta riqueza. Durante 2 semanas se portou como um verdadeiro chefe, fazendo justiça entre os seus e dando exemplos de sabedoria. Ensinando a todos a trabalhar a terra, a caçar e a erguer casas de troncos e folhas. Mas uma noite, foi feita uma festa para celebrar o nascimento de um menino e o esposo de Seetetelané não conseguiu controlar a tentação e acabou bebendo. Depois de haver tragado 4 copos de milho fermentado, os olhos enturvaram, a língua se soltou e assim começou a insultar os pais de família que estavam na reunião. Seetetelané, decepcionada, quis que ele recobrasse a razão. Mas ele lhe deu um empurrão e disse com voz pastosa de bêbado: - Saia da minha frente, miserável filha de um ovo de avestruz! Aquela noite, o bêbado sentiu frio. Se levantou para buscar uma pele de chacal e não encontrou nenhuma. Saiu a porta para chamar um súdito e percebeu que retornara a sua antiga habitação, totalmente só e vestido com seu calção de pele de ratos selvagens. O bem estar desfrutado durante aquelas semanas fez dele um homem menos resistente a temperaturas rigorosas. Também bastante preguiçoso. Morreu poucos dias depois de fome e de frio, mais sozinho que um doente contagioso, praguejando até o último suspiro sua fraqueza em não resistir à tentação da embriaguez, aquela que causou a sua desgraça.
  11. 11. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 11 # Provérbios "Quando não se tem anciãos, o povo está estragado" Iorubá, Nigéria "A noite fechada se torna clara, a profunda lagoa é sondável, a vala se preenche, mas o mal realizado é irreparável' Malgache, Madagascar "Um mentiroso frequentemente tem de mudar de lugar" Congo "Ponha sua mão sobre seu coração: ele falará e você compreenderá" Cabila, Argélia "Vale mais uma pequena habilidade que muita força" Ambárico, Etiópia "Mais vale passar a noite irritado por uma ofensa, que se arrependendo por uma vingança“ Tuareg, Saara
  12. 12. “Os pais que não contam contos a seus filhos vão ficar carecas...“ "Hadithi Njoo" significa "história vem" ou "que venha a história". É uma expressão em suaíle (swahili / kiswahili) utilizada no leste africano - Quênia, Uganda, Tanzânia, Congo - por contadores tradicionais quando iniciam suas intervenções: hadithi, hadithi, hadithi njoo! (história, história, eles dizem, que venha a história, responde o público). _____________________________ www.festivalhadithinjoo. blogspot.com.br ____________________________

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