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Notas

1 Os textos que integram essa coletânea são crónicas de campo,  rn-Llijçi as
entre Setembro de 2013 e Fevereiro de ...
nalmente da praia da Vieira,  em leiria,  para as margens do' -ju,  fugindo
da fúria do mar de invemo.  Com o tempo,  pass...
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Bilhete de Identidade da Ana

  1. 1. etes n - enú 'dos por quem os conhece do ginjmru. os B. I. dos Bichos e Quejandos revelam-nos quem somos - . m quo . Direcção de Ana Paula Cllímaruw. Já pubücadas: Atmlnun 1. Arm Paula Glumamus-Iã. l. x1n7x1›¡1¡vx'l7vu. 2 ›m lhmxx Inwu x Ana Mana Freitas-rã. I. rinArnnIt/ I. : w Iixxxxxxx r' xxxx . txíam Tx-rcsa Ixíuxrclcs-B. l. da Svr-¡Jrufux u. Mxxxxxx . v. x xxxxxx , AlL-dmlm Nlalus-H. I. :io Inlviioruvnr. 1"» [Xuxhv Vx -x H x . Ana Idria Freims-H. L . iu Pxxxurm. _m Llmln x xx « t Àlaíeílmssa Meirvla-B Miu çupLbu/ xüíx rwxxnfx¡ urñuu Lnpos-H. Lxlxwmíxmrus r rmmlmíxh 2*' Izmlxx xxxxx xx x x. María remsa Marchas-B. r. 4,1' Rxm» : x uxnxxxx x xxx. Rnnnhosx Ratãosu Rnmzunns. Mmuvxh u rH xxx'x 9. Nunnjúdice»lí. I. da Clqmrlnnho 'ur1rrul/ ¡x› ? U M m» x1- 1 m 'x 10. Ana Paiva ? xínrais-Rx l. ria l 017o. lênlxu . lx rx nuxx xx H. Maria de Lourdes 5031x6570. I. rim/ mim 'H Ixuxhx 'x1x~xx xxx ' x u¡ . A. 4) u L' 11115 Rrums. 'x 1 mxv x! W H1 12 Sam Diogo n 1 xiolxñn. rw r-xx» xr nmxaznaraa Hana _a J. xnx sxxuxxx. v xml . xxxx xx u. Tc-msa híanjamv du . Uau/ m x~ xxxxxx › x xxx 15. VlanuuIaPam-ira da sx1x~-. x_u. 1. mx x xmxlu : x xzxxxx. . v x x -HH *xx 16_ Rmardn Marques-rx. 1. . tn Ixgnum x- m» hga. x txxxsxxw x x 17. ÀLIrhIIÁxIe-lrlíx l. An Pñn, x Pxxnlxx' l x xx 1K. Natália Cundíulruv 4 I? l. :iu Fnxuxmxlxr 'xx'. I . L l› xx xx Almnln. 'Um x IU_ Rlranln Nimqur» ~ I›'. I ¡IurMuxnr/ hnx xlxr w ' . l . Ixx xx r x Iiulxrlu. m 'xlxxxx “x4 ? ll Nxxmlmxlm-. xanrux _ r: l ¡ÍHH I'xxxxxx¡x. ,x_. x x x x x x ruxxnxmxIxx-x ¡¡ ¡x, . x xx x 'v Iindldn Llnph A( r xrxx xxxx x x¡xx xxxxxxxxxx . . YI| |3lx| l|'| “|*HH*_| llHW x INLIIw Ana Veiga BI daAna ou como alguém se toma u/ furn)
  2. 2. Ana Veiga BI daAna ou como alguém se toma ÍÍ-'v/ (maí
  3. 3. Ana Paula Guimarães e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, e especia- lista em Literatura Tradicional; fundadora e directora do IELT. x, xx. .x. Ia. .,-. |.Ix. .› xx. x. «., -_. x . | l xxxix. .«. .ix› [nm-s, *I'/ ,."tllo. l750-l40 Lisboa Tel. 21758 22 85 apenaslivros2@gm¡ail. com Revisão de Luis Filipe Coelho Depósito legal n. ” 380291/ 14 ISBN: 978389618468-1 1' edição de B0 exemplares Julho de 2014 Publicação n" 578 Colecção BILHETES DE IDENTIDADE, 42 Dirigida por : Ana Paula Guimarães aanaguimaraes@sapoxpt Este traballio e apoiado por Fundos Nacionais atraves ui ici¡ Fundaçao par¡ a Ciência e Tecnologia no Ambito do proyecto visi-oi-x/ ¡ru / Bl DA ANA ou COMO ALGUÉM SE TORNA' Chegam com duas malas e uma valiso de mao. A paragem do comboio ficava a apenas dois quarteirões de ilistància do hotel, mas teve de apanhar um carro para poder transportar . i lvaigagem. [Iuas malas! Que exagero, ana! Sabia que . i nuli- tinha razao, era exagero. Duas malas e uma valise de mão. Os; espaços Mupazlos na sua maioria por livros. Não sabia 'e os usaria, queiso certo que não, mas não pode separar-se deles. llavia dois anos que eram a sua compa- nhia djária. Até então, os livros eram a sua pesquisa. Na manhã seguinte, apresentar-se-ia na universidade. Não tinha a certeza de como executar o projeto de campo. Conhecer as fiandei- ras que ainda atuavam artesanalmente era o plano. Existiriam? As informações que colhera diziam que sim, algumas ainda estavam a trabalhar. Que forças atuariam neste universo de sabeis tão antigos quanto a história? Como o contato com este mundo a afetaria? Como afetaria a pesquisa? Não há pesquisa, ana, apenas o pesqui- sar. Podia escutar a orienmdora a dizer-lhe na última vez que se reuniram. O que o doutoramento produz ('- um doutor, acrescentava ela, chamando a atenção para os fortes processos de subjetivação envolvidos no doutorado. Tudo já está dito, tudo já esta' sabido, o que implica é o modo como você se torna. Escutava-lhc a voz, enquanto o táxi parava em fronte ao hotel. Tomar-se, era isso. Como alguém se torna? Nesses últimos dois anos, havia se preparado para entrar em campo. Percorrera não só os livros, mas efetuara exercicios e experi- mentações na intençao de tornar-se SEDSIVEI ao que viria quando o que estava a acontecer começasse. A vontade era de dar voz aos movimentos invisíveis dos afetos. Invisíveis? Desde o projeto que submeteu ao processo seletivo que essa palavra a incomodava. Seria mesmo tornar visivel? Preferia pensar que o tomar visível era invenção. Invenção junto a. Pois, sendo assim, o que inventaria jun- to às fiandeiras que encontra. .e? Que inventos fariam da viagem uma visibilidade?
  4. 4. Subiu para o quarto. A janela dava para o rio. Eis o Tejo. lem› brou-se do poeta. «Pelo Tejo vai-se para o Mundo», Pessoa e seus múltiplos eus, Agora estava na sua aldeia, Como era mesmo o ver- so? «Para aqueles que vêem em tudo o que lá não esta», Outra vez o tornar visível, e a invenção se fez questão. Que veria neste mundo à beira-Tejo? Que inventaria? Escutou novamente a voz: o que impli- ra c» o tornar-se, ana, Olhou o rio, Como alguém se torna? ()Íiu do tempo¡ ltltlhl wuqm- . l ll| lpl'i"~. sd4t de que estava atrasada. Olhava as hu. . mm uma iivujlivlti lrl irrilanle, como se o seu olhar pudesse , in . .y . I- . .q-u I'm. m nao linha a rerleza se queria para-lo ou . l. .. .i , l I. . . .. um II . i nvnuagan ¡n-rniam Atrasada? É , , l 1,1 l_ i a. ai_ I- uq. .. u-I-. ..rrli-i- Masaleqiiaiidn? , . . . . . . t. .. um, ... mui¡ , ›,. -~. i.› que ¡zr se r. . . n, . . . . r. . Ir-¡ttu 4.. .~ i» u l [til , . i. .. N um. um ¡mum . . I| ||III qu. «Ii/ m : nua ¡nilavia 4m »u lill «uniu . i. _ilnua . In- Ian: II. ; nn um nau '›I'l i¡i| i~«~iij1i. ii_. i . lu Inn-im II'›Ii 1-, vii-il. . 'iillltlllYll lion-jon, rtlllllilin lwlll a hora, v . .u. ... . um . .uu-nu- . . . .›i. .,v_. .. Atua-nula' (jiiasvii-ilo! lvvalilmi w da lrlllUlfil e tullllllliltnl . ile ; i saida. Parou por um nioiiienlo, segurando a porla enlreaberta, como a decidir se sairia ou nao. Uosmva da sensação de estar no portal. Nem dentro nem fora: entre. Entrespaços, entretempos, entrecampos, enüe. Conti- nuou divagando, hipnotizada com 0 ritmo das palavras. Entre, entretudo, entremundos. Dava por si a falar sozinha, como a canta- , do u-anse. Atrasada! Olhou o relógio, batendo a porta. O ar frio que descia da montanha durante o ano todo já havia se transformado em vento forte desde o começo de novembro. Ha dias, sentia as pontas dos dedos cada vez mais rijas. Quando a minha mão esfria, neva antes do tiempo. Apressava o passo, senün» do o calor que o corpo produzia, aquecendo-lhe as mãos. O ai', a condensar-se a sua frente, fê-ia imaginar cavalos tratando. Quando miúda, nas manhãs frias de invemo, adorava levantar-se com o sol e ir ao cercado onde o pai dava trato aos animais, Subia no murado de pedras e ficava a ver o pai na lida. Os cavalos ventavzim, e ola via dragões. Dava gritinhos agudos, ao que o pa¡ liarafusiava: menina! cala-te ana! vais assustar aos animais Nunca pode eonler-se. Canta- rolava, gritava, suspirava e falava S( intra e ('l| | viv, alta . io gusto da sua imaginação. Mesmo agora, ja pa saila muito de moça, contininr va a imaginar e a falar imenso. Atrasada! 'Tinha l'i'l'll"l. cll Subiu a rua que levava ao lanifício q e a correr. Mivniado no cavalo-dragão viu o Carlos. Respirou l . ns fundo. (1 coraçao salta- va-lhe. Sonhava com o dia em que deixaria a lalnila da fiação, vesti- ria o fato negro, bordado de ínsígnias, e rireberia o litulo de licen- ciada em Letras. Carlos estaria lá, a farda cinza de lecelão converti- da num belo traje de lã merina. Sorriria para ela, amando-a como nem podia sonhar. Ouviu o apito, Atrasada! Tarde, mui tarde! Seria advertida. Levou a mão ao bolso, em busca do pequeno cademo. Nada. Procurou no outro lado. Não estava, Faltavam apenas poucos pas- sos. Ja podia ver a cara feia do capataz a marcar-lhe o atraso. Deses- perou-se. Não poderia manter-se lá sem a caderneta. Escrever era a única coisa que a fazia suportar. Metia o pequeno caderno entre as saias, o toco do lápis na orelha, escondido sob a touca e, sempre que a intrigante da Antónia distraía-se, anotava os seus versos. Foi quando teve a certeza, Retrocederia o tempo. Apalpou o relogio. Um calor bom de primavera aqueceu-Ilie os dedos. O cheiro da lã e do tabaco invadia-lhe as narinas, No curral, os homens f ziani a tosquia, as tesouras riscavam. Foi quando ele a viu. levantou-si' devagar, fitou-a, desapedemou a rês, acomodou o velo sobre o ten- dal esticado. O céu azul envolvia a montanha. O corpo dele pesava sobre si. Podia sentir o perfume da terra sob o campo verde que alimentava o rebanho. Sentia o seu hálito de tabaco e pensava em _ cômoda: lá estava o caderno. Os fios de Anal Há muito percebem que a solidão a fazia sentir-se estranha. Ria sozinha, pensava em coisas que, enquanto vivia em sua aldeia, jamais pensam, Um exemplo? Pensava em fios. Fins que escorriam
  5. 5. de si em direção a tudo o que via. Fios que deixavam rastros. Pensa- va em fios coloridos, mas também em fios de gelo, que derretiam, .issim que tocavam a terra, sem deixar vestígios. Talvez apenas um lónuu traço molhado que, em poucos momentos, desaparecia, línfim, a solidão havia-a tomado outra. justificava-se amiúde, «lim-ndo para si que era devido à prolongada estada num pais o-. lrungoiro, sem dominar a língua. Quando pensava nisso, de ime- tu, (antasitiva a própria lingua a sair-lhe da boca incontrolavel- nwnli' Divortiarsi- a princípio até ao dia em que, sentada no metro, ¡lvlxull qui' . i lingua se expressasse livremente e foi mal encarada p. I. . -wnluvln . r um tri-nto. Lcvantou-se ligeira, desceu na primeira u. .. , m 4- u nnlv-'II vnlhu . I p(- para casa. Resultado: perdeu-se. Pre- . . t» um n n ¡mmt mm . ~-. -.i--. ¡vi-usares! Repreendia-se em voz alta ¡v u - › . u . um -ul. u 4¡ ¡uivpflru mllm, ilospnchava-se. I. . num ml. . ¡-. .. . -I. ¡ Im 1.¡ nm . Ino uIllLldfrFSL' para o exterior. .. .. . n. . I.I. .. .. um- . ..uma u . um Imnuulon, .u Ii-nlur vida, fora da ¡« . m. ›¡iu . ..m I. .. lmlmllnl nm I n-¡gu . pu- r Iuvnuiu, uwu m» prono- uu. ¡› : Ia I- um¡ u uhnnm Lui. : . ruim. '~I'll| I-mu ^-| I|1"v^-l, vnquanln ¡um Ill-H . u u uquqgu Im ¡mmu Ii-uipu_ uu . uq-gnu II'lIl| lIII't'rI¡_. IU jun In . r um. : -nnlrnunu-. u l'¡| '-'nl*4| n nlm mlvnn -vu/ ¡nlm rm rasa, lmr «Luuln ¡vvilmnn . u-m WWÍIIÍHS Ill' Imih', t' w num vw, por somam in . I ¡mlum vntrc u' u Ioilu u apanhar ¡imis o que fazer. Aos poucos, .n runuxhula . m xiii-non, p( 'o d Llcsmtcrissar do curso e, enfim, saia apenas; às quintas-feiras. Apardiava o metro, viajava oito esta- (00,8, andava dois quarteirões. Na volta, com a paga, ia ao mercado o comprava sempre aquela lista: seis ovos, dois iogurtes, uma lata do atum, chá de menta, torradas, quatro maçãs, duas cenouras e três lmlatns. Era o que comeria até a próxima semana, quando repetiría u ¡ncsmo itinerário. Por isso, naquele dia, em que o atrevimento da língua a tez per- do , istranhou quando decidiu voltar a pé para casa, arriscando . iruiar por ruas desconhecidas. Saiu da estação e leu na placa o nome da rua. Nunca havia passado por ali. Viu o sol a pôr-se e con- cluiu o Norte. A casa talvez fosse lá, mas onde? Desconhecia. Por um momento o coração parou de bater. Sentiu uma vertigem. Sem u idioma, nada do que sabia lhe adiantava agora. A visão turvou-se. Fechou e abriu os olhos, piscando excessiva riu-nto. Sentiu cheiros. Comida de rua. Teve a impressão nítida dus seus pés no solo. Podia sentir n chão, mesmo estando calçada. Levou a mão ao bolso c notou qui' n gosto lho trazia sensações táteis e térmicas: o áspero quente da lã, o li › gelado da soda. Não saber, acordava-a. Percebia-sc estranhamento s . Diria quv viva. Estranhamente viva, falou alto. Voltou a pensar em fi Um fin Ullfrlflhltlil, mr dn- . mqçuv, que a ligava à sua casa no estrangeiro, qm- . i ligava . um didi-m. O fin vor- melho, surgido do túnel do nu-lru, lHdlCdVd-llK' n caminho - Norte. Tinha certeza. Deixou o fio guia-In. / pelo como bússola. Sentia o vento, ouvia o ruido da cidade. O corpo vilnmvr¡ suave L' intensa- mente. Semicerrou os olhos para vi-r uu-Ilwr. Virou uma run u outra e mais uma vez. U1 estava n 56. E A tricoteira do cárcere¡ Num convés bat-ido pelo vento. É noite. Uma mulher ainda bas- tante nova, de vestido até ao chão, vem do lado da proa a correi- e aos tropeções. Enrodilham-se-lhe as saias nas pernas pouco seguras. E ela avança pelo convés, amparando-se à parede, que tem portas, janelas, tudo fechado por dentro. Parece perseguida. Mas será só a grande ventania que a molesta e assusta. Ela corre, tropeça, tacteia com desespero. E acaba por encontrar uma porta que cede, entra rapidamente, fecha-a com toda força que tem, tal é o temporal. E deixa-se ficar encostada a essa mesma porta, de cabeça inclinada para trás, o queixo aponta-lhe para o ar, na con- tinuação da linha do pescoço invulgarmente esguio, cansada o ofLn gante. Sabia que corria perigo . w ¡icuítar a carta, !rms . i [1¡'l'SP| *CÍlVi| do ¡ , “ vada da razão. AlL. . d I'd/ ÃO! De qm- wrvo uma viiln arrazonda? Dc que serve conduzir-sv sempre . um gonziw? Ana estava com vinlc o lrôs, .roubam lll' ÍOTIIHIFSK' um Direito pela Universidade do Coimbra. Minlm fillm lmcliaircl I'll] Coimbra como Salazar! O sonho do pa¡ rcnlizntln. li n m0 ? (1 quo desejo não conta? Jamais gostei do Direito! Por mim, passava os dias a cnscr, a tecer, a bordar. Nada mu FM. ma ' Ír-liy. do qui' estar . r fazer malha.
  6. 6. Foi por isso que aceitou a tarefa. Quando fosse presa, Lei n. 1091 de 21 de Maio de 1935, associação secreta (pelo menos para isso ser- viu-me o Direito), presa passaria o resto da vida a tecer meias, Ria para si mesmo do disparate da ideia e voltava a sentir falta de ar. Agora, que estava molhada e com a carta, começara a perceber a dimensão da sua ousadia. Ainda lembrava-se a voz: «Sempre vim, como vê». Mas era louco, arriscara-se muito. Sua voz era pausada, um falar mais tranquilo ninguém podia ter: «Nunca saberei dizer o quanto a agradeço. Não esquecerei isto nunca mais», Fitando-a 5em› pre, tirou do bolso a carteira, pegou na carta, passou-l. ha às mãos. Naquele uunueutn, sentiu a força da existência. As mãos dele hu . ll-lllt as suas ¡mr um instante que lhe pareceu eterno. O calor do lnqiln' ununliurllu- o ¡urpu inteiro: «Talvez um dia voltemos a m. nun. .. um i'm I i-. ln-an Varsn- embora, já arriscou-se imenso. l Im Ia . u sua m' Ialaunlu n- uu-¡gava se a acreditar. Se desejava que ele 1'llllll'll|0l'. l I. ... ›.-. . lamln-Iniln' ¡, n.¡. ¡a. -¡tans-. r l »Lua . i m». nlltu'. l Illllll 'a ¡s-. n Im. .v uu¡ l| I'l[| |, uma rarirla Nun- n n lllllhl I'| |lI| um muiulu . num aquele I la- vultuu a . iiu-rtar llu- a m, ... _an- uu¡ a. .. «m» , .l. --. ..¡›. a.-. .›. . III. . Iuaia a. › V. . ¡. ... -.a. -.. .a. i eu¡ meu» an qinlves, .| l1'l| ll1^. l «lim/ a lmti- : nun-gnu a ¡unllial Ilw a alma. lA-niluwuhse, ¡misz . I rarlal Saiu em kllSprlhlild, lutava umlra u vento, sentindo o curpu vibrar. Poderia ~ sim › . Igora ser ziprisionilr da para o restante de seus días. No cárcere, o calor das mãos dele moveriam as suas em cada fieira tecida, em cada volta e ponto que fizesse com a agulha. Um fio entre o atelier e a cozinha5 Gostava daquela dor, lembrava-lhe de que estava viva. Não a deixa~ va esquecer de que afrouxar as fronteiras entre ser dona de casa, empresária e artista da moda era quase sempre caótico, doía, custa- va, mas fazia-a sentir-se viva. Lutava para dar caimento a uma gola, mas a malha teimava em seguir outra direção. Há muito sabia que não adiantava o que fizes- se, a malha sempre vencia. Naquelas horas, atribuia a teimosia da gula ao curso de design que nunca frequentou. Tolice, dizia depois, de sí para si, as estagiárias das Ilelasw/ rles qu¡- x a estiveram, tinham desenhos perfeitos e elaborados, lia-las ideias, :nas : nau sabiam comu fazer para que saíssem do papi-l. I'm' isso, ri-spirnu fundo 4- ¡lt-¡xuu- -se levar pelo fluxo da malha. Qlll'l'li| Iauln a , gola ¡lc- um t'i'I'lU ¡Pllll ideias. Pudesse ela trabalhar sem lileias ¡vrevlas *luna-nte entrar em contato com os elementos e Lli-ixar--se uuuluy e, aí sim, abrir-se às ideias. .., Um cheiro forte invadiu n atelier Nllll4ltll| lnigu . iliaixo da ru/ iuha, na grande casa, em frente . serra tll' anlu Aulúniix (l amv! Às pressas, cuspiu os alfinetes ein rima «la nu-sa, :lx-mui a malha Ía/ .n-r o que bem quisesse e subiu as es¡ aulas, .lu um MIu-¡çn w tarrln- ¡li- mais! Pegou na panela fumegaulv ¡n-la . ilça, L| |II'ÍllhIlI¡lU um ¡vuum a mão. No sumiço repentino alo iaegailor, .uçairnu n ¡uann ; le ¡uraln e completou o trajeto até à pia. IuÍHÇUIÍ u¡ jato «Ix- . u-_ua sobre a pedra fria, pousou a panela quente sobre a poça que Chiado, com um misto de encautanu-nlu e dos¡ Tarde de mais! Outra vez o arroz. qiu-iinadn' H mai-nina linha razão: estás sempre com a cabeça a lua, ana' Aimla Iu-ulanilxu raspar a crosta escura do fundo da pamela, Ieinlirnu se «le que se havia esquecido de acrescentar ar* x a lista : Ie ¡Ulllpras Foi u ullilue. Faria macarrão. Um bom mararnllu iuslaiulaiienu resolve a u jaular. Então percebeu, no movimeuliv da . igua sobre a ¡vanc-Ia, a snlur ção: está lá! A gola! Sim, basta-me . o e a malha cairá de maneira especial. Desceu as escadas, rumo ao atelier, aos saltos de dois em dois, agarrou os alfinetes em cima da mesa, um deles espetou-a bem em cima do recém-queimado da mão. Sentiu dor, sentiu vida. Está cá: a gola caídinha, não do jeito que havia imaginado como ideal, mas ainda melhor: uma relação de intensidade entre o material e a ideia, o perfeito possivel. 'junlu au mnviuieuti¡ luruiuu ousculnu n . |u'l'u mantinha plena e viva. Cozinharia um macarrão chinês com legu- mes e shoyu para o jantar. E acenderia as velas. Uma grande noite! Se o marido perguntasse o que estavam celebrando, com o jantar especial, apenas sorriria. Ele não entenderia a alegria que se dá na mistura de um arroz queimado com gola de malha, queimadura e espetadas. Difícil explicar a potencia que sentia. o
  7. 7. 0 fio da escrita* «Se faz favor», o empregado de mesa colocou a meia de leite e o pãozinho integral com manteiga à sua frente. Estava sem fome, meu apetite é nada pela manhã. Abriu o pacote do açúcar, repetindo para si mesmo «Se faz favor». Tinha dificuldade em perceber o sen- tido daquele «se», ouvia-o como um leve sussurro. Estava muito atenta às palavras, era sempre assim em fase de escrita. Fase de osc ita? Estou sempre em fase de escrita. Desde a primeira etapa do projeto que não liavia parado de rea- Ii/ ..ir contínuas e variadas experiências de escrita. As experimenta- wm . h- tWlÍlt) eram treino intensivo para dar letra aos encontros que n tampo llt' ¡u-squisa traria. A questão era múltipla: abrir-se aos ou. unIuu. , ¡n-nnln-r os subtis movimentos do campo de pesquisa e Luv¡ Ill . v. uulvliln-/ us v-. ii tlll' lose. . . . m, a Iluu, ¡hlld w. nwn n nos, IlÍKPONlÍlVUN experimentais onde n uilvimvn ¡miiid . l|tll"vi'lll. ll w l| li“-II| I| . mim. da c-Iilinula em campo. sua val l'll4| linlm sn-iiipu' . nmuiniiilnulnn vam-a l-nmnlrnx n- dflhlVd que havia sim uinsn- uniu «lar vu/ (i l'llt'llt'llt m Nau. l mais iln leticia, v est' -vvr como Mperiviiria. llvu uma que dar vo/ . Ji exp¡ dentada no pão e ficou pensando no seu desafio de fazer da própria escrita acontecimento. O que é isso que venho escrevendo? Agora, após dois anos passados em treinos, os esperados encon› tros intensivos davam-se em visitas a oficinas, nas entrevistas com artífices, nas viagens aos lugares onde o fio era feito com as mãos. No entanto, para sua surpresa, as experiências e acontecimentos iam se transformando em crónicas de campo que a assustavam pelo elevado grau de ficção que apraentavam. É tudo mentira! , queixa- va-se ao telefone com a orientadora. Só dez por cento e mentira, numa experiência de trmisformuçao da ¡vrúpriu est-rita e consequen- temente, do que se pensa e do que si- m, / fome . ilnmdomiira de vez: Preparar-me imenso, ums não ¡iotlin imaginar' uma escrita assim. .. Lembrou-se de um Iidt' . i n-xpi-rn iria o algo que unir» passa, porque o lugar da expor¡ nem ú umh- n- quando . ilgimm mim nos passa, com nossas palavras, mm ums-sus sabores, projetos, m. " "m. sa vida. A bordadeira viajante7 Sentada nos fundos do carruagem, ia pensando em quantas vezes havia feito aquela mesma viagem no último ano. Uma rotina que se repetia semana após semana: levantar antes do sol, vestir-se em silêncio, ir à casa de banho sem acender as luzes para não acor› dar runguém. Depois, andar pela rua escura até à estação, aguardar na plataforma fria que o comboio chegasse e embarcar rumo ao conhecido. Se pelo menos o itinerário variasse, pOnSiIVH ela, um pouco rabugenta, esquecendwse, por um momento, que estava rea_ lizando um sonho há muito desejado, que estava a fazer exatamente o que mais gostava. Repetia aquela viagem todas as semanas nos últimos anos, ia de Lisbpa ao Porto, no primeiro comboio e, doze horas depois, voltava no ultimo. Chegava à casa, exausta, depois de ter passado o dia todo e parte da noite a dar aulas de bordado na histórica Loja dos Bordados do Porto ana, o restante é fãbulação. Sempre que começava a escrever a tese, o texto académico era invadido por personagens que ecoavam vozes ouvidas e lidas. Mulheres de um mundo de fazeres manuais, que atravessavam indiretamente as questões da pesquisa: a idealidade da escola como redenção, a menos-valia das artes manuais, o interdita de um viver, n tempo, o real. .. Ha tempos, ela mesma já havia escrito: «Bcreven abrindo-s¡- pzira uma escrita do fora, no encontro do si e do outro, consistiriu As rap. ni¡v_. is vllillliulil¡ m» Iuuilln salm- mw fundos da loja, mm as suas caixas . lv iuulum uln-xivtmla'. Illiftllllli' 1-. nl¡ . ipi iuivm. peias parents . pu- lI. |I. IHV . ..m . .mv zlllmnlu' u mn-uuuln . h- . um semana, entre um. : . Htlnu . uniu '. Hllmm m_- I. .i lh- . › , I. u. . . .|. . mento do trabalho liunmn¡ n lr¡ 11.0.». I. n m. pl_ r. . _I_ m_ . .. ¡., as madeiras cirrii| .¡r4--. Wu ¡u-. uu 1mm. . uu ¡_, ¡.. . “n, , , ,,_ coloridas, que, n. i lthlilnm . Im. t: . ¡_. .. l. , ¡, ,_ _, _ fazia. QIIHHdKLHUlI| VI"vtl1'llI_III_ . .. . .. , HI _ l , , 1,, num bastidor, .ilguma mpu n ul . m . r . 4 , 1 de, não Conseyilln wvilm . . , u _m . n x
  8. 8. neutralidade da sua expressão, com um meio sorriso que compri- mia o canto direito da boca e a fazia, irresisüvelmente, morder de leve o lábio inferior. Era sempre assim, não conseguia evitar. As alunas mais antigas já a conheciam suficientemente para perceber os seus trejeitos e cochichavam quando acontecia. Naquela manhã, havia se comprometido consigo ntesmo que ficaria atenta para que isso não acontecesse. Precisava manter a apa- rência de instrutora compenetrada e neutra. Não deves nunca levantar a voz, dissera-lhe o contratante, Sr. Coutinho Ventura, ao instrui-la sobre os hábitos e práticas da Escola Oficinal Feminina, orgulho da Loja de Bordados de Porto, desde 1743. A família Ventu- ra tem formado moças prendadas desde o Império, para nós uma instrutora de bordados é o mesmo do que uma religiosa. Deve edu- l ar, win jamais tlemonstrar os humores. Ana tinha iuanlido a ronipostura desde então, já iam quase nove anos, exn-Io por . iqm-It' tlisrrettw morder de lábio. Era impossível para ela mantn-r--a- indiferente . io perceber que a genialidade, o gos- ln e . i vontade de viver haviam jvermeatlo, ao mesmo tempo, o bor- dado de uma . iprend Mordia o lábio tll5(| 'L'ldIl| L'l| lL', mas o que e tnnava mono fa/ ,er era pular de alegria e gritar: estão vendo, estao vendo? É possivel fazer sangrar o tecido! É possível vibrar o corpo entre linhas e agulhas. Nesses momentos sentia o corpo aquecer, a respiração entrecor- tava, o coração descompassava. A emoção que sentia era a mesma, sim, a mesma, de quando Carlos a beijou daquela única vez. Era como se o tempo parasse, como conhecer de perto a etemidade. Naquela manhã, uma jovem novata, com um coque impecável, aproximou-se pela primeira vez da sua mesa para receber a avalia- ção semanal. Pedia internamente que, acontecesse o que aconteces- se, não expressasse nenhuma emoçao. to¡ quando viu a incrivel e terrível mancha entre um rocccó e um nó francês. Desculpe-me, professora, magoei-me com a agulha ao fazer o ponto haste. Logo abaixo da mancha, um ponto novo, indescritível, formado por uma miscelãnea de fios entrelaçados. Uma composição única. Uma forma original. Sabia que não havia sido descuido, sabia que não tivera sido acidental. Era pura criação, inventividade e originalida- de. instintivamente, cobriu o rosto com as mãos. Só assim, evitaria que lhe vissem a expres. o, (7 que seria de sua carreira de instru- tora de bordados quando irao mais pudesse esconder-se? A epifania de Anal Sem que houvesse dado conta, estava hipnotizada por aquele movimento de corpo. Bem a sua frente, a mulher, de traços grossei- ros e mãos grandes, curvava-. st- em Llireçan) a roda. Movin-se ritma- damente, repetindo sempre o ¡nesnuu jjesto, enqnaitto talavii, expli- cando sobre o seu ofício. Ana não prestava atençao as jmlavras, o corpo dizia tudo o quanto ela conseguia ouvir. As palavras eram como ruídos, um ruí- do a mais em meio a muitos: o sapato da mulher a bater na tábua do chão, a tábua rangendo uma ou outra vez, a engrenagem do fuso sem óleo, a roda assobiando ao girar. Aquele som fazia-a lembrar de quando o irmão e ela bríncavam com a bicicleta coxa do trio António. Viravam-na com a única roda para cima, e dando impulso, ora com a mão no pneu ora com o pedal, faziam-na girar o mais depressa que podiam. Logo, a mãe escutando o barulho do giro, gritava da cozinha, vão perder os dedos nessa brincadeira! Lembrava-se disso, enquanto o zunido da roda de fiar cortava o ar, em meio às palavras de Dona Vitorina Fiandeira, naquela tarde de maio, na visita em que fez, com a prima noiva, a encomendar manta para o enxoval, É de pura lã, ana, feita soh medida, a da loja nem se compara. .. Foi quando . tconteceu. Anos mais tarde, tjuandnv lhe pergunta- ram o porquê, ela não soube explicar bem, nuas sabia qm' tinha sido an, entre palavras surdas e o lllllltlu da roda. lá se passavam mais de de¡ . uma e a imagen¡ . iinda lhe era clara, via a cena completa à sua lrente: enquanto nina alas IIhÍtUS da mulher pegava o manelo de lã do resto, a outra parava a roda de liar. Em seguida, ajeitava o fio torcido no luso, unindo a ponta solta da maçaroca a um novo chumaço. ilño, ainda curvada, dava um ; grande passo para trás e fazia a roda girar, enquanto o manelo de lã na sua mão desaparecia, fazendo surgir o fio. Cada manelo rendia- lhe uma boa metragem de fio fino, surgido de um movimento con- [3
  9. 9. oosecaosanampossi as . 1a, tínuo, de uma certeu de corpo que a hipnotizara. Aquele corpo, aqueles gestos, algo ali fez desaparecer o tempo. Não sabe quanto permaneceu nesse devaneio, mas o instante tornou-se sempre. Quando a prima, sinalizando o momento de embora, tocou-lhe de leve o braço, despertando-a do transe, ela soube. Tivera uma epi- fania. Soube o que faria por toda vida. Soube que nada mais a inte- ressaria dali para frente a não ser descobrir como aqueles gestos eram capazes de plasmar-se corpo. Como aqueles movimentos se deixavam conduzir pelo material. A campainha soou avisando que faltavam cinco minutos para o primeiro ato. Precisava terminar de maquilhar-se e aquecer-se. l4 Amarvou as sapatilhas ainda ouvindo o Chiado da roda. A vendedora de panos” | -'. r.i uoile de Natal. Poderia sentir i so, mesmo senão o soubesse. (k rIu-Iros dos . maridos vinlunn das inoiuulns [i volta. O de borrego . to torno ¡varecia vir pelo lado do Senhor (Itrlox, do 43. t) tender, esse tinha certeza, chegava do anular de baixo. Dona Carminha fazia com calda de damasco, sentia o doce no ar. Havia também peru e uma torta de maçã e nozes. Quase os podia tocar. Na mesa, o rendilhado da toalha branca como a neve e, sobre ela, o fino serviço de jantar, com rosas miúdas a decora-lo. Um gan- so assado fumegava, recheado de maçãs e ameixas pretas. Estava sentada a mesa, perto de uma brilhante árvore de Natal. Velas ardiam nos verdes ramos. Era a maior e mais enfeitada árvore que jamais houvera visto. Mantinha os olhos fechados, no lusco-fusco do fim da tarde. Os dizia de si para si, ainda sob o efeito da magia aromática. Mas o pensamento ácido dispersou o encanto e obrigou-a a abrir os olhos e ver ao redor. O quarto conjugado estava as escuras. Sempre desli- gava a luz, quando cessava de bordar. Por economia, justificava, em pensamento, ao severo amigo, Damião, vi ' te em todas as horas. Com os olhos abertos, sentiu os aromas atiçarem-lhe a fome. Não havia comido e já eram mais de cinco da tarde. Saiu debaixo das cobertas e foi então que percebeu o quanto o gás lhe fazia falta. Impossivel ficar de camisola, neste frio do Norte. Vestiu o casacão e deu poucos passos em tlireçào . to [rigor ico desligado. Se duvidar, deve estar mais quente lá (lültltt) do que aqui, dizia a amiga, Matil- da, no seu sorriso largo. A risada do . imiga animou-a até abrir a porta e ver duas maçãs l' uma porem¡ de papas de sarrabulho. Ain- da tem duas, pensou aliviada. lH-¡çou uma e cortou-a ao meio. Sei que havia um resto de papel . un. unleip_tult› por aqui. Vasculhou o armario e acabou de. . llulo. t 'tuna-rei inteira, ;nos pouquinhos, durará até à ceia. Não pode ll| 'l-| l tll' ru' Mnlilda abriu um novo sorriso largo. Ela sempre . i . iprovnvu quando 'n' . ilegmvil, ficas linda quando te alegras, Ann. list. : Ilinli', 1l| 't Lu-ou, teremos Innçãs em todas as mesas, do núnwru no, nn ¡-. -,¡-. V. I/, Irt-; gtu-. sin dos Para- nhos, zona do Porto. Voltou para a cama. Nao «oii i. : pm. : llnlmlluu' Nluguelu compra panos de pratos bordados no iuute Ill' Noinl, t) ntovimt-ntt¡ nos cafés da Ribeira diminui nluilo uo lllvvllltl, .tuulu umis nessa epoca de mesas fartas e gomes I uuultr. , lI'II| l›It›| | . to ¡IlI'l| lÚ lhuuiào, Ii. acrescentou: hoje, chego . n- uu po¡ . outplt-Io Olhou paraa estante e aorriu, ¡mln . u . tpumu AU inn-dial. : lll' Matil- da, arir o seu riso frouxo N. ; Into, .z lIlI'Il| l|›l, Mam do Aiupuro, futu- ra cientista pela Universidmlt- do Ponto, tugulhtnu m' l. ltt'lltl da ¡uela Faculdade de Ciências d. : Nutriçmv v tl. : Almlotllngntl. lz-. ln . i frequen- tar o mestrado integrado, iuloruuuu, eu¡ l| |l| '|_¡| || . n Ihnuino, logo . sera doutora. Estuda muito, por isso : mo a--, t.i l . i, 'llhllllllltl Havia de ter forças para ¡uuiloa pw. Ill' Ilon, a-npiuhn l' nua-ido, necessários para os intima-rir, l'll| UlIlll| |'l| ll)'v do . tnulemin (lula pano bordado e escudo ecouoiui/ ..ulo emu¡ , garantiu «ln- qua' . u iilha jauuais precisaria pegar numa . igullio A ltlllltlit : mo um. : . i song r os «todos ao oficio antigo. Aconclu-gou w um ponto . m soh o pt sudo col›er› tor. l-echou os olhos e procurou 1 om vutnn 'u' O conceito de Anal" Pensava em figuras de proa. l laviu umis de duas horas que luta- va com a redação de um conceito para o artigo que teria de entregar na manhã seguinte, 111.15 só conseguia pensar' om figuras de proa. Puxou o cortinaclo da janela. São os barcos! estão d tirar-me a con- IS
  10. 10. lo centração. Morava à beira-cais, nos conjugados que a Câmara havia construido onde antes ficavam as moradas dos avieiros e onde a sua familia habitava desde o tempo em que, todo inverno, desciam o Tejo, vindos da praia de Vieira de leiria. O mar leva e não devolve, concluía a avó, ao contar-lhe do dia em que o avô desapareceu nas ondas frias do inverno e que enfim decidiu juntar-se aos que troca- ram em definitivo o mar pelo rio. E foi ali, à beira-Feio, nas palafitas de madeira improvisadas, que a avó criou os cinco filhos, somente com a ajuda dos vizinhos e dos mais crescidos. A avó sempre lhe vinha. As mãos atacadas pela artrite a tecer longos fios de crochê, enquanto, sentada na banqueta em frente à casa recem-erguida, perdia o olhar no Tejo. A velha pescadora sen- tiu forte a itemolição das antigas moradias. Ficou boa parte do dia a olhar o trahalho das máquinas a derrubar-lhe a vida. No final da tarde, retirou-su para a nova casa, subiu as escadas com dificuldade, .u t'l| tll'| l o logo, .iqiu-reu a sopa, serviu os pratos, mas a voz só foi «air-Ilw, dim. :Ii-pois As ionslrnçoi-s ei. m parte da requalificação l'll3t'll'lltll4l das vilas do Ribatejo. Reqiialifin . mui, jiuis. Desde que entrara para frequentar Antropologia na llll/ 'l'ltlil(lt“ di- Lisboa, teucionava inv gar a sua gente e . irinar voy, para questoes assim. Ver a avó entristecer em silêncio, depois que o projeto de melhoria da margem fora implantado, era a sua ferida. lndig-nara-se com essa mentalidade que promove a higienização cultural. Dez e quinze! Devia apressar-se. Só tinha conseguido escrever duas laudas. Emperrara no conceito de nomadismo Perdia-se em memórias. Era impossivel separar-se do escrito. Objetívidade, isenção de ânimos, qualidade requeridas pelo orientador. Impossivel! Como falar de nomadismo sem se lembrar de si? re acostumou-se a ser chamada, na escola, de Ciga- na do Tejo. Agora, sabia-se parte de uma das mais peculiares migra- ções internas a que Portugal assistiu, mas quando miúda desejava ser apenas ana. O desejo de normalidade que sentia cravou-se-lhe no corpo como falta. Mesmo que sua gente já estivesse sedentária há gerações, continuou para sempre cigana e ainda podia ouvir a professora a dizer: Vê lá se te arranjas com essa tabuada, Cigana! O dêitico maldito configurou-se em marca e definiu-lhe a escolha da carreira e a meta da vida. Era por isso que se esforçava na redação do artigo a dissertar sobre a potência do conceito de l| t|l| li| lll. '"|0. Queria fazer Ver estruturas de poder-saber e os modos de subjetivaiçao no processo de sedentarização dos avieiros. Assim, conse ; iiiii . ilastar-si- um pouco a si mesmo da escrita e seguiu parafraseanitia o . Iulnr tll' referencia como tanto apre- ciava seu orientador: uma pa rdllklfàt* hein leila torna o texto consistente e integre, dizia, ao assinalar a vermelho as. oxpressía-s que deixavam à mostra sua opinião. Livra-le do v io da tloxa, Ana! Voltou a pensar em figuras tll' proa. Ilalancou . i cabeça¡ e concen- trou-se na leitura: «Aciiado entre dois ¡iolos da soln-riiuia jiolitica, o homem de guerra pilrun' ultrapassado, roiuli-nmlo, sem futuro, reduzido ao próprio furor que l'lt' volta para s¡ int-sim». Lembrou- -se do pai, Onde estaria . iqui-Ia Into? Vasciilliou a gaveta da como- da. A mão tremeu um pouco. la l tava, I-Zla devia ti-r uns cinco anos na época, aparecia ao lado do pai v do Antonio, Ulv min quase qua- iID. Estavam em frente ao harnuuii» nncli- w guardava a tralha e se consertavam as redes nos dias Lll' iliiiva torto. Construcao de madeira sem pintura, chão tll' . irvia do rm. l-'oi no ano da ; grande tempestade. .. Precisava voltar ao texto, mas ouviu a voy. do pa' ' 'n- tado no barracão, tinha as maos ocupadas a tecer rede. t) Iio corria ligeiro entre os dedos e a agulha. O cigarro apagado no canto da boca. A voz grave cantava uma canção do mar: Ó musa encantada. .. figura de proa da minha embarcação. .. Cheiro de lã" Quando a penumbra não lhe permitia mais enxergar, ela acen- deu a lamparina com um gesto que a fazia lembrar da avó, Parecia ver, pensava, a mão da avó, magra e enrugada, a riscar o fósforo e a proxima-lo da mecha com um movimento levemente tróinulo. Agora, ela mesma era a avó. Olhava a sua mão a gesticular e não entendia como aquelas mãos fortes, .icostumailas ao trabalho, haviam se tornado assim, tão magras, enrugailas e treniulas. O tempo é sonho, dizia de si para sonho, repetia, enquanto a luz bruxuleante da lamparina encliia o quarto onde, desde muito miúda, via a avó c a mãe a fiar. A vida toda acostumou-se a ouvir as I7
  11. 11. t8 vozes das mulheres de sua familia, reunidas naquele quarto peque- no e entulhado, a cuidar da lida do fio. Quando o velo chegava do campo, trazido pelo pai ou pelo tio, o cheiro forte do rebanho preenchia o quarto. A mãe e as tias logo tratavam de lavar a lã na velha tina de madeira que ficava no quin- tal de trás. Depois de seca, batiam-na para terminar de soltar os cis- cos, esguedelhavam-na com os dedos ágeis e arrumavam-na em camadas no chão, em cima da lona amarela, para o banho de óleo. Ainda podia ver o riso da avó quando ralhava com a tia Matilda por deixar manchar o vestido ao untar de azeite a lã. Foi a tia Matilda a primeira a deixar a lida. Um dia gritou com a avó, lembrava-se bem, coração ainda aos pulos; «Vou-me embora estudarl». A ria bateu a porta atrás de si e só voltou, tempos depois, para apresentar o tio António e o bebé Jessé. Tambem as outras tias se foram. Por muito tempo, só se ouvia o lmrulho da carda da mãe e da avo. Passados anos, a cardação da . Ivo ileneiou. líla iicava Ia', quieta, olhando a mãe passar a lã de uma pá . I outra e a arnur/ enztr no colo u . inlontoadnx das nuvens que se tornariam fio. O cheiro da lã, o ruido das cardas e o girar da roda envolviam- -na. Quando mais jovem, também ela intentou ir, mas o quarto não a deixava. Não podia imaginar a vida fora dali. Assim, desde muito, estava só entre a lã e os fios. A varina do Tejo” Uma réstia de luz atravessa o madeiramento da janela, avisando que o tempo passou. Por um breve momento, assusta-se, pensando » . ~› . . a. ---a : ›;. --; _^garganta doía-lhe e um leve calafrio percorria-lhe a espinh . Estava na cama, sob as cobertas, mas o corpo sentia falta do ven- to e do rio. Acostumou-se a acordar antes do sol e ir para a margem esquerda do Tejo, no cais da freguesia, aguardar as pequenas barcas e faluas que trariam os xarrocos, bogas, douradas, corvinas e parde- lhas, que vendia, no ponto em frente ao liceu, desde que era miúda e tranzina. c . :¡m. -n. . Todos os dias, nos últimos . '15 . unos, ;ju-ando a vila ainda desper- tava, já estava ela, com seu o avental de lnuret, sentada em seu cai- xotinho de madeira, ordenando me pen s por tamanho e espécie, na padiola que Sr. António, lviseateiro, .Ijudava-. i a montar por cinco escudos. Virou-se na cama e juenson, estava velha, o corpo tloia-lhe intei- ro. Além disso, continuam¡ . I divnjçur, Imvia de aproveitar o tempo na cama para treinar as letras A t '. u1ninIit› do *to estava a ensiná-la. Há mais de dez anos . Iealentavtu n 'utIttlto de . iju-einlei' . i escrever, mas a lida continuada e . n. urjgttiu¡ : lo ¡lm . u «Im . uliavaixi o sonho sempre para mais tarde. Quem «alu- . iv. uu_. w.i um porno Iioj Deixa-te de tolices, anal, nl¡ v, ¡lululu um ruspnneli' . i u¡ nun-una, agora deu para bacorar? lista | ., que nan vn Iralmlllar, uma . iprovei- te o tempo para dormir ou ia/ el' u npu' o vnllm tF-. Ias velha de mais para aprender. Riu hU/ Iltllnl, em mm. . ollvil . i vw. tl. : mae, sempre a chibar. 'ntia lui t, .u tu-. Iunnuu w . uv. raspaneles da velha. Ainda muito novinha, un Vl'l IMP-MH m. uni-numa do liceu, com as suas fitas engomattas e w. ~ -. lwiw. .Ie Intlht dura, ¡mtuInava dizer à mãe: um dia tlestes, ¡In- nonto . u j-. uluola e vou me . t escola. Não ia, a mãe sabia e rallmvn (I n lu-uo : lu ¡wnw m¡jnru-¡giiava-llrt- . I vida. Nunca seria menina «Ie Iila lnrilluurtn- e *ullUlU plen-. ulu E, assim, a vontade de deixar a luuu . r to¡ . unamnudo, o tempo passando. A vida ("+C¡)t'l u junto . t . uma ¡lu lhtllll' que usava para lavar a calçada ao fim da tarde quando . u venda u u-uuav. : llllt vspirro trouxe-a de volta ao tempo do dia I'm l'-. tv. t levanto¡ - e preparar alguma coisa para comer. Nao deu jeito I'u nn l uma, entre dores presentes e passadas. Variaiulo . e. nle entre w. h-iupo-a do . ijgora e do ontem. Depois de tudo, o que vem? ” Andava vagando pela casa, luzes . ipajgatlas, ¡uupilas ililatatlas, leito Zi gata que fitava-a do alto da froutaria. Ia devagar, fazendo tempo, sentindo os pés tocarem o chao Írio da lijoleira. U pensamento preenchia-se em ecos, como sonho. Estava enfadada, já ¡Iitentara dormir imenso. Desde que ouvira o hadalo das duas é quo se remexia na cama de lado a lado, sem con- t9
  12. 12. 20 seguir perceber o sono. Agora, levantara-se e estava a vagar Iem- branças. Vivia sozinha na casa de pedra que havia abrigado a família por gerações, desde antes dos espanhóis. Ouvia o vento lá fora. Lembra- va-lhe a avó a entoar o cante no bater manta ao tear. A voz da avó era msmo o vento da planície alentejana, rasgava o ar c invadia a alma. Mesmo agora, sssenta anos de outrora, podia ouvir a caiu-linha percorrer a cala, soltando o fio na trama e o bater do pente a com- por-se com o monótono triste do cante. A avó olhava o vazio toda vez que batia a trama contra a parte já tecida. Que pensava a avó? Nunca soube. O olhar triste percorria cada fio do carapulo atentamente. As colchas da avó eram procura- das em toda Peninsula, até por gentes da margem direita do Gua- diana. A mãe contava que o avô fazia a travessia do rebanho, dos cam- pos de Ourique para as Iongiiiquas pastagens de verão do listrela- -Gredo5, quando conheceu a avó. O pastor romproii-Ilu* um . igaszi- lho para a longa estadia fora de casa. lira a Montanha( mais bem trabalhada e decorada de toda aldeia. O avô iIpEllXlJHOU-SL' primeiro pelas mãos da avó, depois pelos olhos tristes da rapariga tecedeira, completava a mãe, para o desagrado da avó, que batia ainda mais firme a trama e, sem perceber, voltava a perder o olhar no vazio. A gata deixou a frontaria de azinheira num salto, assustou-a, trazendo-a de volta a madrugada. Entrou no quarto de tecer e acen- deu a lâmpada. A luz fraca trouxe-lhe um cheiro de querosene à memória. Quantas mulheres de sua família já haviam habitado aquele quarto? Quantas madrugadas frias como aquela, à luz de velas ou lamparinas, mulheres doiam peito e costas a fazer manta? avia um pñIlO 110 › . . Mesmo hoje em dia, com a vista fraca, ainda punha a teada, vez a vez. Nunca pôde deixar o tear a nu. Era como se faltasse uma parte de si. Pensou em trabalhar um pouco, mas as costas ardiam-lhe. Sen- tou-se na cadeira de faia defronte à dobadoira. Os novelos acalma- -la-iam. Dobar sempre lhe dava sono. Enrolou uma meada à volta dos dedos e começou a girar a peça de castanho, entalhada pelo iIVU. A voz da avó fez-sv ouvir: atas-l. : fuit, domum servit, lanam fecít». Hoje, entendia a Iagriixia qm- caia na face da avó quando entoava o cante. Sim, havia sido custa, cuidado da casa e fiado a lã. Depois de tudo, o que win?
  13. 13. Notas 1 Os textos que integram essa coletânea são crónicas de campo, rn-Llijçi as entre Setembro de 2013 e Fevereiro de 2014, durante o estágio do : doutora- mento intercalar em Educação, na Universidade de Lisboa, como parlt' da investigação para a tese: Fiar a escrita: um modo de existir artífiro (titulo provisório), da investigadora do IELT e da Universidade Federal do juiz de Fora, Ana Lygia Vieira Schil da Veiga. A discussão Clã identidade v produção de subjetividade (como alguém se torna) é tema que alravvssa a tese. Aqui, a questão se apresenh indiretamente, através da multipliraçatu das anas do texto, graíadas sempre em minúsculo. As notas abaixo são apontamentos feitos durante as viagens de pesquisa o as sessões de investigação documental que inspiraram a redação das a nicas. 2 Crónica ambientada na Covilhã, cidade portuguesa encravada na serra da slrola, região de pastoril e neve, que há oitocentos anos dedica-se an Iani- Apesar da forte crise gerada em parte pela globalização, fechando importante. indústrias, .. cidadv continua a sor um dos principais cmums produtora-s dv tecido do l “A porsonagmn desta crónica pmrulul nulmnu' u. .. ¡juvklmv . . pair-n. .a au um saber out-ro. Na Initnlogia l' na literatura, muita». YW/ US, mw sahm' t" aiunlwnr lizado por um dia», como, por oxcmplo, o fio klt' Anadm- n' ns (ms vox-mo- lhos nas tradições da cabala, na lenda chinesa, no Irinduísmn o no hudise mo tibetnno. 4 Esta cronica e uma brinmdeira séria. Envolve um momento político dos mais importantes na conturbada biografia portuguesa: a resistência ao Estado Novo, a mais longa ditadura da Europa. Vila Fmnca de Xira, onde moro, foi um dos porões da resistência. O meu apartamento é justamente numa ma que hoje se chama 75 de Abril. Por ela, caminharam, nas déca- das de 30 a 70 do século passado, alguns dos escritores neo-realistas que fizeram da literatura uma arma contra a opressão. Entre eles, ?viário Dinnie sio, que inspirou a escrita com sua heroína. Transformei-a em tricoteira lí primeiros dois parágrafos e mais alguns pequenos trechos são cimção direta do autor em A Marte É para os Oulms, de 1987. 5 Em Lisboa, bem ao lado da se Catedral, no centro histórico da cidade, há uma loja de peças de lã de aameiro que faz parte do meu iünerário de pesquisa: a ChiCoração -Sé. A proprietária, Otilia Santos, é uma daquelas mulheres que conseguem agendar a vida-viva em sua plenitude sem dei- xar de afirmar o caos cotidiano de uma vida de empresária, artista e dona de casa. Esta crónica é uma ficção inspirada no seu cotidiano e será a cha- mada do capitulo da tese que trata dos processos metodológicos que ado- to. A saber: COnÍalD-ÍtilprovÍmtgdu (nlvlXdF-M' c nduzir pelo movimento inesperado do outro), Fui au armar' lin (j um ' ao, o movimento junto ao material; depois a inicia) u lísquilhll' (a A-_squina como o avesso do canto, uma proposta sli- Uxpnl* o . il-riu 4. l urjm . m nnmnlro). "Investir na experiência o [hllvw u-u-. .ij Nvjn uma das suas formas de se escrever, como experiônriu. lim wvx-x umul i-xpl-riónl , aln 'loan dizer do outro, ao pathos da o. ta. ^| V4IIl| llt| l|lU -. ¡- ¡wla w. a Construindo um corpo-escrita estranho, .ill-Lulu ¡u-lu . ..qm I"-t ula null-I qu¡- dr 1- d Abrira escuta para oulm lhrpu, .tlun ¡Innljul par. . . umnlorjui, pura «sm que não sou eu. Esso «quuI1.t¡›^. nun-li-›¡Inx. ¡lu¡¡u-. .¡ -ajgmlil . l qm »outra coisa diferente de Inini», nun- . un-nv. «him-nt l. i-. qun i'll lulu, ;lift-run- tes das que eu sei, dilcrvnlw. il. ljm' nu ulnln, ¡Illüll . llllw 11m, |llÍl'I'I'l| lt' do que eu posso, do quv vu qum u 7 Escrevi essa crónica ainda ¡num- . tlvluiln jun uma I'IIllx' m. : i'm' . nalm do realjzar na cCidade du Purln _w «uma n. «um . l ¡m-«m . Im unu-nlrii-i-. ta, Alice Bernardo, autora do lirnjvllv'. tjllt' . Im IImu-nlan¡ u -. ..I---n lan-I, Irmlxn' inquietações múltipla : u qm' la¡ u . uniu. - . jun-u IAM-I hmm? Quais potências que operam expressão da vida viva? -ilw . . . ... .., ›_. v.. . . ... ... ... u.. . a. . ¡. ... a.. a.-u. . . - . . ¡ru-. ulvvl, nnwnln u. . . uh naum, naqluh. qm' mu» oralmente é desqualiliradnv vnquanln . uh . n mjm . -.. ¡-- Ill' tjualnçlailvx artísticas que produzam um ¡Iunln «ln tlvjrln . u-, m ¡In : num u' *A crónica dessa semana mu. . . lu uma . ln. .,~_. .u. .l 1.. ... . ruin' . ..qm . - nmlv rial. Assunto dos nhtisnlrnuu'. u. . minha¡ uqma. . «lrnlnllluvluutvlllu rms. . que exige estudo v ulvsi-rvagan- . *lI| |lt|1 INI Inny . Iv ¡vmln ill/ Pl . Iv-mv imbricado agenciamento. I'm um, '›t*j'_lll' . quim. .u n. nuu_. ¡n talvula¡ ilu- alguns efeitos passivo¡ A pur-mu. m u Inm-. ..ta mu¡ | | . .u . lv hllupn, realimda em Portugal, .rum-sulla «lr uma Lmlm Imm- naj¡ m a lhllltlrllhl perfonner Ludmila Mama. . . v. . .4.. ..-. .I. › -. .~. . ¡. .u. -¡. ..¡. ..-. Ia/ vm j-. .no de um video quv . irumjnnilia mm¡ . umjçu. n: : | I| n I-nlnn- ¡ntllpn-. uovw formação, corpo n- vlluragau. t) - Iu-Lnulul, .i ¡nutn ai. : uilvnjuvlagan» : Iv Cada uma das açocs ; lv tralvalluu tim. Ihuulvlta'. Ilulllnl uma Ivutura illllfl' mica da gestualidadv l¡| Srl| lllllI"<1l. I ll. n_. n› . . . . . | . .n1w1'n. ..i' . I. whujtw-kvuil Pequena Vendido/ u¡ ill' I'ma/ nn». J Iu-. Iuua «lu lIan-. t lui-. lmn Anderson apresenta como valor moral ¡nuanvn ju-. Lnnu-nlx- uquili¡ qm- . um dn- referência da tese, entre vlw. Ni«-I/ ~.nIu~ x- Iwuuatlll, ajuil. : n a pn-Iwlvn-r como jogo de poder. A rrún a nh- lllllljilr . unlru-nm w m¡ ulmirsfvra do conto para dizer de ¡nunnlos v valun--. a ¡ujçailuw uu ida-arm do l. .or manual. E põe em questão . Is ¡nii-rujvixlili. .v. unvolviilas na dinâmua de valores ligados à educaçao. l" Uma das características da vilu um qm- mnru, as. ¡narjgt s do Tejo, é a presença da comunidade dm dvl( m», |N': »¡'¡| Ll0|'¡'s qm- migravam sazcr
  14. 14. nalmente da praia da Vieira, em leiria, para as margens do' -ju, fugindo da fúria do mar de invemo. Com o tempo, passaram a residir per ¡men- temente na borda-d'água ribatejana, em casas de madeira jralafitntlas. Esta crónica inventa uma personagem no cenário dessa trama para dizer das implicações e angústias do pesquisador diante da escrita e de uma certa mentalidade que acredita na higienização da mcrita académica. " Dona Vitorino Maria, a última fiandeira em atividade na região de Mérto- la, Alentejo portugues, foi a minha primeira entrevistada na serie que tenho planejada para a fase portuguesa da minha pesquisa de : lirulura- mento. Dona Vitorina aprendeu o ofício com a mãe. Dona Perpe ra Marin, hoje com 94 anos, pennanece atenta à lida da filha: «Fui ou quem ensinei». Orgulhosa do oficio, ela mesma não sabe como aprendeu. 24 «Estava lá, com a mãe, desde pequena, fazia uma coisa e outra, apmrrdioe -se na lida». Ainda hoje, está Dona Perpétua a fazer as meadas no sarri- lho. ¡UHá pacaaaada liiinda! Há cachuuuuucho liiiindooo! Há cá peeeiiixe espaaadal». A voz da varina invade a manhã. A vendedora de peixes do Tejo é figura conhecia na freguesia em que mora. Quem a escuta, costu- ma dizer-lhe: «Tens voz mais maviosa do que um rouxinol de beiral. Vinha eu nas vielas e já te ouvia a apregoarl» (Rosa Maria, lama! da Mnume ria, edição n. 4, 2012). Ainda agora, voltando do supermercado, passei pela varirra, sentada em frente à estação, com seu caixote de isopor, a oferecer-me viuvinhas e camarões. Nunca comprei, provavelmente, nun- ca comprarei, condicionada que sou pela vigilância sarútária, mas admi- rei a solitária vendedora, concorrente direta dos legalizados mercados municipais e dos potentes frigoríficos das corporações varejistas. Fazer questao das quase invisíveis micropolíticas do cotidiano faz parte do exercício de investigação. '3 A região do Alentejo portugués é rica em história e cultura. Foi palco de rebeliões, guerras e raistência política. A monotonia e a aridez da paisa› gem refletemse na marcação do ritmo de vida e na arte. A música tradicio» nal, o cante, muito similar ao canto gregoriano, herança de romanos e ára› alentejano. Muitas das personagens da nunha pesquisa habitam as plani- cia daertas, nas casas de pedra caiadas, em aldeias de difícil acesso.

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