Insurreição comunista de 1935 moisés

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Insurreição comunista de 1935 moisés

  1. 1. FUNDAÇÃO EDUCACIONAL UNIFICADA CAMPOGRANDENSE - FEUC FACULDADES INTEGRADAS CAMPO-GRANDENSES – FIC CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIAA INSURREIÇÃO COMUNISTA DE 1935: AS ASPIRAÇÕESDOS REVOLTOSOS E A PARTICIPAÇÃO DA POPULAÇÃO DO RIO DE JANEIRO. MOISÉS DE PAULA RODRIGUES Rio de Janeiro, 2010
  2. 2. FUNDAÇÃO EDUCACIONAL UNIFICADA CAMPOGRANDENSE - FEUC FACULDADES INTEGRADAS CAMPO-GRANDENSES - FIC CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA MOISÉS DE PAULA RODRIGUES Trabalho de conclusão do Curso de História das Faculdades Integradas Campo-Grandenses (FICs) como requisito parcial para o título de Licenciado. Orientadora: Vivian Zampa Rio de Janeiro, 2010
  3. 3. Dedicatória  À memória dos meus queridos e saudosos avôs, Jair Amário de Paula e OricoRodrigues de Carvalho que, mesmo ausentes fisicamente, me auxiliam na superação dosobstáculos que a vida nos impõe no cotidiano.                                          
  4. 4. Agradecimentos  À minha família, que tanto contribuiu em meu processo de formação pessoal eprofissional, estando ao meu lado em todos os momentos da minha vida.  Desejo expressar minha gratidão aos professores da instituição a qual estudo,que me orientaram positivamente nesses três anos de curso, como Oswaldo Bendelack,Márcia Vasconcelos, Rita de Cássia, Marcos Dias, Beatriz Martins, e, em especial, aminha querida orientadora Vivian Zampa.   Registro, sobremaneira, o apoio fundamental que me foi dispensado peladiretora da Escola Municipal Narcisa Amália, Maria José, que contribuiusignificativamente na construção de todas as fases dessa monografia. Também devoressaltar meus agradecimentos às professoras de história da mesma escola, YaraBarbosa e Patrícia Chaves, que estabeleceu, com muita sabedoria e perspicácia, umaesclarecedora discussão acerca do objeto pesquisado.  Por fim, agradeço o apoio dos meus colegas de turma, que, no decorrer dessestrês anos, estiveram ao meu lado, em especial, Jorge Luiz, Anderson Vieira, AlexMatias, Alessandra Araújo, Marcos Hilton, Alexandre Fonseca. A essa turma que meproporcionou uma vivacidade essencial para superar os obstáculos que se ergueram emmeu caminho, e o reconhecimento diante da amizade e cumplicidade que sefortaleceram durante esses anos de convívio.             
  5. 5. Resumo  A década de 1930 do século passado foi marcada pelo surgimento demovimentos políticos e filosóficos que transformaram a cultura e os costumestradicionais de diversos países da Europa. Esses movimentos, principalmente ocomunismo e o nazi-fascismo, se propagaram pelo mundo, modificando a estruturaburocrática e a dinâmica social de vários países. No caso do Brasil, a repercussão dessesmovimentos provocou a formação de manifestações políticas caracterizadas porconfrontos diretos. Esses confrontos eram proporcionados, por um lado, pela AliançaNacional Libertadora, sob a nítida influência do comunismo, e por outro, peloIntegralismo, organização defensora de ideais fascistas. Esses movimentos culminaramem tentativas de derrubada do governo instituído, e, por conseguinte, a estruturação deum novo aparelho estatal, enquadrado em moldes distintos.  Uma dessas tentativas foi a insurreição comunista de 1935, que tentouempreender sistematicamente um conjunto de medidas com o objetivo de derrubar oEstado varguista e impetrar um novo modelo de governo, enquadrado nas diretrizesimpostas pela Internacional Comunista de Moscou. Neste sentido, nossa monografiatem por objetivo analisar o movimento revolucionário de 1935 e como o mesmo seapresentam nos livros didáticos.            
  6. 6. SUMÁRIO Introdução 7Capítulo 1: Aliança Nacional Libertadora (ANL)1.1 O contexto nacional e internacional de meados das décadas de 1920 e 1930 91.2 Formação e propostas políticas da ANL 101.3 O contato de Luiz Carlos Prestes com o comunismo 111.4 O Programa de um Governo Popular Nacional Revolucionário 13Capítulo 2: A estruturação e fundamentação prática dos planos dos revoltosos de19352.1 A Internacional Comunista (IC) 172.2 Os planejadores do movimento de 1935 202.3 Os insurrecionais e a concretização de seus planos 212.4 Fatores que culminaram no fracasso do movimento de 1935 25Capítulo 3: A repressão do governo de Getúlio Vargas aos revoltosos3.1 O aparato constitucional 303.2 A trilha autoritária está lançada 323.3 O aparelho ideológico orquestrado pelo governo Vargas 353.4 A prisão de Luiz Carlos Prestes 39Capítulo 4: A Insurreição Comunista nos Livros Didáticos4.1 As versões tendenciosas acerca do movimento de 1935 424.2 A “Intentona” Comunista nos livros didáticos adotados pelo Município do Rio deJaneiro464.3 Os livros didáticos voltados para o Ensino Médio 484.4 Uma nova percepção sobre os episódios de novembro de 1935 51Conclusão 56Fontes 59Bibliografia 60   
  7. 7. 7   Introdução A presente monografia tem por objetivo analisar a Insurreição comunista de1935, mais precisamente no que concerne aos acontecimentos de novembro desse ano.Realizaremos uma discussão historiográfica acerca dos preparativos e projetos dosrevoltosos no seu âmago e como a mesma é tratada nos livros didáticos. Dentre as localidades nas quais se sucederam os eventos revolucionários, Natal,Recife e Rio de Janeiro, o recorte espacial dar-se-á na cidade carioca. A escolha desserecorte foi movida, mormente, pelo fato de que a cidade era a Capital Federal na época,e onde os planos foram efetivamente arquitetados. Os elementos que nortearão a monografia consistem em pesquisar a forma pelaqual o movimento se concretizou: a provável influência externa; a estruturação doslevantes; os objetivos e anseios dos revolucionários; bem como suas particularidadesideológicas. A problemática principal da monografia, todavia, centrar-se-á na maneirapela qual a população reagiu perante os acontecimentos de novembro 1935. Outras questões que farão parte do trabalho versarão sobre a conjuntura do país,isto é, se havia um ambiente propício para a implantação de um regime revolucionário;e se a massa estava realmente preparada e se existia uma consciência de classe queproporcionasse uma ação efetiva dos revolucionários no sentido de solidificar umarevolução comunista no país. No primeiro capítulo, investigaremos a formação e constituição da ANL(Aliança Nacional Libertadora), ressaltando sua contribuição para os acontecimentos de1935. Analisaremos, principalmente, os elementos característicos do movimentoaliancista, que se fizeram presentes nos planos dos revolucionários. Discorreremosacerca das camadas sociais presentes na organização, que possuíam aspiraçõesparticulares e elitistas, como o tenentismo. Nessa primeira etapa, ainda, esclareceremosa importância e a influência que Luiz Carlos Prestes exerceu no interior da Aliança. No segundo capítulo, o enfoque será o movimento propriamente dito.Esclareceremos sobre os objetivos dos revoltosos e, sobretudo, as suas propostaspolíticas e sociais. Debateremos acerca dos pressupostos essenciais que estruturarão asmassas populares no período referido. Vale ressaltar que investigaremos os contornosdos acontecimentos sob a ótica da população, isto é, partindo-se das elucidações e
  8. 8. 8  explicações que os revoltosos vulgarizaram entre o povo. Além disso, abordaremos oenvolvimento da IC (Internacional Comunista) no processo de preparação econcretização das revoltas no país. No terceiro capítulo, apresentaremos os principais mecanismos adotados porGetúlio Vargas no sentido de repreender os acusados de envolvimento com os eventosrevolucionários. Abordaremos a estruturação e atuação da polícia política orquestradapelo chefe do poder executivo, que contou com decisivo apoio de Filinto Müller.Debateremos sobre as principais características do aparelho repressor montado peloEstado varguista, cuja finalidade era prender os acusados de participarem dainsurreição. Por fim, investigaremos a forma pela qual o movimento vem sendo retratado noslivros didáticos. Discorreremos sobre as deficiências e avanços verificados em taislivros e a maneira pela qual os seus autores enfatizam o tema. Os pressupostosepistemológicos utilizados pelos escritores serão debatidos com o objetivo de conhecercomo os discentes entram em contato com esse objeto de estudo. Também analisaremosas relações de poder presentes na sociedade, que acabam influenciando decisivamentena abordagem do tema. Em outras palavras, se os livros didáticos são elaborados com ofito de atender os interesses de determinadas classes sociais. Vale enfatizar que a metodologia empregada será a análise dos livros e artigosproduzidos sobre o tema. Tais fontes passarão por um criterioso processo de avaliação ecomparação com outras publicações referentes ao assunto. Com isso, esperamos efetivaruma ampla análise sobre nosso objeto de pesquisa. Portanto, as concepções inverídicas concernentes ao tema, como os mitos ecalúnias que foram proferidos insultuosamente pelo governo Vargas aos insurgentes,serão debatidos no decorrer da pesquisa. Utilizando métodos e premissas teóricas decaráter científico, discutiremos sobre os acontecimentos de 1935, suas causas econseqüência para o país, além de seu significado para os movimentos de esquerda doperíodo, e que continuam a povoar a memória dos mesmos.
  9. 9. 9   Capítulo 1: Aliança Nacional Libertadora (ANL)1.1 O contexto nacional e internacional de meados das décadas de 1920 e 1930 Este capítulo tem como objetivo apresentar os elementos que constituíram efundamentaram a ANL (Aliança Nacional Libertadora), com seus anseios e pretensõesdiante do regime vigente. Analisaremos a possível contribuição da organização naeclosão dos levantes comunistas de meados da década de 1930. Sob uma óticaestrutural, abordaremos criticamente a natureza do movimento, isto é, se os militantesestavam mais identificados com a massa populacional ou com setores da classedominante do país. Para se compreender a sociedade brasileira da década de 1920/30, é precisoavaliar o contexto internacional, mais especificamente a Europa e suas peculiaridades.Após a Primeira Guerra Mundial, diversos países europeus ficaram devastados, comperspectivas desanimadoras com relação ao futuro, e enfraquecidos em seus aspectoseconômicos, políticos e sociais. Para agravar ainda mais a situação, tivemos a quebra dabolsa de valores dos EUA, desarticulando expressivamente a já frágil estabilidadeeconômica dos países. Esses acontecimentos contribuíram para a ascensão de regimes totalitários.Verificamos a disseminação de ideologias fascistas, não só na Europa, mas em váriaspartes do mundo. Essa especificidade de regime político ganhou dessa forma, umasubstantiva dimensão organizativa, e até mesmo a aceitação da grande massa, queacreditava que assim poderia reestruturar o seu país. Esses regimes de extrema-direitatambém contaram com o apoio de setores da grande burguesia, que estavam temerososquanto ao avanço do “perigo vermelho”, e outros movimentos sociais esquerdistas. Com a subida de Hitler ao poder em janeiro de 1933, houve o fortalecimento domovimento, que se propagou consideravelmente para várias partes do mundo.Entretanto, tanto os comunistas e sociais-democratas quanto os anarquistas, seposicionaram desfavoravelmente aos ideais e propostas propaladas pelos nazi-fascistas.Portanto, esse ambiente tumultuado propiciou enfrentamentos e combates entre osdefensores dessas duas correntes políticas e filosóficas divergentes. Um dos episódios que contribuiu para a organização de movimentosantifascistas foi o incêndio de Reichstag – busca de um pretexto dos nazistas parajustificar a repressão aos comunistas. Diante da arrogância e prepotência do governo deHitler, e a intolerância com respeito aos comunistas, houve uma relativa mobilização de
  10. 10. 10  movimentos da esquerda no sentido de impedir o avanço fascista. E essa mobilizaçãoresultou na formação de frentes amplas com a finalidade de “libertar” o Estado doperigo da propagação do regime autoritário, e concretizar a democracia e respeito aosdireitos populares. No cenário nacional, verificamos a partir de 1932, a formação e fortalecimentodo Integralismo, movimento composto por setores da elite urbana e da juventude. Suaprincipal característica é a completa adesão aos ideais e valores defendidos pelosfascistas. Propunha dessa forma, a consolidação de um governo forte e autoritário, comoa única solução para os problemas da nação. Então, sob o comando do escritor PlínioSalgado, o Integralismo tornou-se a expressão máxima do fascismo no Brasil. Foi nesse contexto conturbado, marcado, sobretudo, por confrontações entremovimentos da extrema-direita e representantes da ativa organização esquerdista, quesurgiu a ANL. Com propostas alternativas e representando segmentos significativos dasociedade brasileira, mormente, os descontentes com os rumos do movimento de 1930,essa organização se estruturou com o objetivo de instaurar um governo democrático epopular.1.2 Formação e propostas políticas da ANL Com o intuito de lutar contra o avanço do fascismo no país e desestabilizaçãopolítico-econômica gerada pelo imperialismo, em 23 de março de 1935, surgiu aAliança Nacional Libertadora. Essa organização também pregava o combate àconcentração fundiária e defendia a idéia de não pagamento das dívidas externas. Com a ANL, verificamos que se difundiu pelo país uma intensa mobilizaçãopopular com a finalidade de fortalecer os princípios democráticos e libertação nacional.Uma das particularidades do movimento foi se posicionar radicalmente contra aspropostas integralistas. Com isso, se tornaram freqüentes os combates entre as duasfacções ideológica e politicamente distintas. Um dos acontecimentos que culminou na gênese e constituição do movimento,foi o envio ao Congresso Nacional, pelo presidente Getúlio Vargas, do projeto de Lei deSegurança Nacional (LSN). Esse projeto concedia ao chefe do poder executivo (GetúlioVargas), amplos poderes no sentido de garantir o funcionamento da máquina estatal.Em outras palavras, quaisquer manifestações que representassem perigo e ameaça à“segurança nacional”; como greves, mobilizações sindicais, movimentos políticosesquerdistas, dentre outras; seriam categoricamente repreendidas. Foi uma
  11. 11. 11  demonstração evidente das medidas autoritárias de Vargas, que com isso conquistou umimportante instrumento para a concretização do cerceamento das liberdades populares emanutenção centralizadora do seu governo. (...) A luta contra a guerra imperialista, a reação e o fascismo – proposta pelos comunistas -, naqueles últimos meses de 1934, conquistava novos setores com uma rapidez impressionante, numa situação em que crescia a ofensiva integralista e a reação policial (...) 1 Analisando-se a estrutura política do período, mais precisamente o aparelhoburocrático orquestrado por Vargas, tanto as elites quanto parte considerável das massaspopulacionais, vira bons olhos os ideais defendidos pela ANL. Ou seja, o movimento de1930 já não atendia os anseios populares e as pretensões da grande burguesia urbana. Aspropostas aliancistas, juntamente com um incipiente movimento de contestação aoregime varguista, fizeram com que a organização se expandisse e ganhasse umadimensão nacional substancial. Foi nesse amálgama de situações conflituosas que a ANL se organizou e seestruturou, consubstanciando elementos diversos, mas posicionamentos comuns, isto é,os membros que constituíram o movimento empreenderam suas ações com um objetivoespecífico. Não foi uma organização política, um partido político propriamente dito,mas uma associação de âmbito nacional e com diretórios implantados em várias regiõesbrasileiras. E, além disso, houve a participação de amplos segmentos da sociedade,principalmente os que estavam descontentes com os rumos da política nacional. Dessa forma, a ANL aglutinou representantes dos mais variados movimentossociais e políticos; como comunistas, socialistas, sociais-democratas, representantes dapequena e média burguesia, lideranças militares (tenentistas), etc. Contudo, valeenfatizar que o elemento comunista se sobrepujou aos demais representantes dos outrossetores. Através de suas articulações políticas, os membros do Partido ComunistaBrasileiro (PCB) conquistaram a liderança da organização.1.3 O contato de Luiz Carlos Prestes com o comunismo Para executar seus ambiciosos planos no processo de consolidação da“Revolução de 1930”, Getúlio Vargas e membros da organização Aliança Liberal,                                                            1 PRESTES, Anita Leocádia. ”70 anos da Aliança Nacional Libertadora” – Parte I. Disponível em:WWW.cecac.org.br. Atualizado em 27/07/2005. Acesso em : 18/08/2010. 
  12. 12. 12  buscaram concretizar o apoio dos tenentes para o movimento. Tornou-se evidente queuma aliança com o “Cavaleiro da Esperança”, cuja popularidade alcançava índicesextraordinários, daria uma maior sustentabilidade ao movimento. Essa aliança traria,através de Prestes, a população para o lado de Vargas e para a “Revolução” que estavase processando. Ainda no exílio, após o fim da Coluna, Prestes inicia seus estudos sobre ocomunismo, entrando em contato com o pensamento de K. Marx, F. Engels e V. Lenin.Um dos motivos pelos quais houve essa aproximação consiste no fato de tentarencontrar uma solução para os problemas sociais que tanto afligiam a populaçãodesprovida de maiores recursos e vivendo em condições subumanas. (...) Ao cabo de um duro processo de revisão de suas concepções ideológicas, Prestes encontraria no marxismo não só a explicação que buscava para suas indagações e inquietações, mas também a solução para os problemas que ele pudera detectar na vida brasileira. Prestes aderia de corpo e alma ao marxismo, ao socialismo e ao comunismo, e, principalmente, à proposta da revolução socialista no Brasil.(...) 2 Nesse sentido, Prestes se recusa a participar da Aliança Liberal, acusando-a deser uma representação que defendia os interesses oligárquicos, com objetivos limitadose voltados para a efetivação de interesses particulares. Além disso, acusava Vargas deoportunista e manipulador. Contrariando as pretensões dos ex-combatentes da “ColunaInvicta”, que acreditaram e se aliaram aos projetos políticos de Vargas, Prestes decidiuromper com o movimento tenentista e buscar alternativas para concretizar a revolução“democrática” e “popular” no Brasil. Um ano após a “Revolução de 1930” e do seu rompimento definitivo com ostenentes, Prestes recebe um convite da Internacional Comunista (IC). Com isso, teve apossibilidade de conhecer e vivenciar a construção do socialismo soviético. E, alémdisso, aprofundar seus conhecimentos sobre o marxismo e as lutas dos povos latino-americanos contra o imperialismo e propagação de movimentos de extrema-direita. Prestes tornara-se comunista, mas não fora aceito nos quadros institucionais doPCB, que o considerava um pequeno-burguês, ávido por saciar seus interesses políticos.Além da existência de grande temor, por parte dos dirigentes do partido, de que o                                                            2 PRESTES, Anita Leocádia. Luiz Carlos Prestes. Patriota, revolucionário, comunista. 1ª. São Paulo:Expressão Popular, 2006, p, 28. 
  13. 13. 13  prestígio e capacidade de liderança do líder da “Coluna Invicta” modificassem aestrutura organizacional do partido. Enquanto Prestes sistematizava uma série de práticas e conceituações teóricasconcernentes ao marxismo, no Brasil crescia o descontentamento com o governo deVargas. Os “revolucionários de1930” sentiram a necessidade de se recorrer a medidasautoritárias, com a finalidade de manter o regime vigente, e, mormente, garantir“segurança nacional” Em contrapartida, a figura do eterno “Cavaleiro da Esperança” ganhavaconotações míticas e “salvacionistas” entre os diversos segmentos da sociedade,principalmente entre os que apoiaram a ação de Vargas. (...) Ele não é o “chefe” ou o “líder”. Testemunha uma situação e, ao mesmo tempo, simboliza sua vitalidade. A junção entre a esperança e a revolução se faz em sua pessoa e através de sua pessoa como um dado do movimento histórico das classes trabalhadoras. Por isso, ele surge como um termo de referência e um elo de atração magnética. Aquele que não vergou repete a história dos proletários e antecipa o desfecho. 3 Somente em agosto de 1934, após sofrer uma pressão da IC, o PCB decidiu incorporarPrestes nos quadros da organização. Com isso, ele acreditava que conseguiria preparar esolidificar seus planos revolucionários para o país de uma maneira favorável. Já em março de 1935, Prestes é aclamado presidente de honra da ANL. Esse fato semostrou importante no sentido de que houve uma aglutinação de vários segmentos da sociedadeem torno da associação, em virtude da onipresença imagem do “Cavaleiro da Esperança”. Depois de negociações e elaboração de estratégias de ação específicas, Luiz CarlosPrestes regressa ao Brasil, acompanhado pela comunista judia alemã Olga Benário. O motivopelo qual decidiu voltar ao país foi o de concretizar a revolução no mesmo. Seu retorno foiarquitetado com muita precaução, pois o governo Vargas já havia elaborado uma série demedidas no sentido de conter o avanço do “perigo vermelho” no país.1.4 O Programa de um Governo Popular Nacional Revolucionário Num espaço de tempo relativamente curto, a ANL se estruturou nacionalmente,aumentando o número de seus militantes e fundando núcleos expressivos em diversasregiões do Brasil. Na fase inicial de sua consolidação, a organização não apresentara umprograma de governo específico. Inexistia uma definida caracterização do protótipo de                                                            3 FERNANDES, Florestan. Luiz Carlos Prestes. “Esperança e Revolução”. Disponível em:www.ilcp.org.com.br Atualizado em: 30/12/2009. Acesso em 19/08/2010. 
  14. 14. 14  governo que seria implantado após a materialização da revolução. A sociedade de umaforma geral desconhecia os mecanismos que seriam adotados no regime político entãoproposto. Através do lema “Pão, Terra e Liberdade”, os militantes da ANLconsubstanciaram um conjunto de idéias e propostas no sentido de concretizar adeposição de Vargas. Com o decorrer dos acontecimentos, verificamos o gradativo fortalecimento doscomunistas na direção da organização. Esse fortalecimento tornou-se perceptível com aadesão de Prestes, que se tornara o símbolo da luta pela implantação do comunismo noBrasil. Vale ressaltar que estrutura organizacional do PCB estava condicionada àsresoluções impetradas pela IC. E esse fator culminou na vinculação direta entre aorganização partidária brasileira e os dispositivos administrativos inferidos pela cúpulado partido comunista de Moscou. Com o objetivo de esclarecer os interesses da ANL, juntamente com suaspropostas políticas para o país, tivemos o lançamento de seu programa de governoGPNR (Governo Popular Nacional Revolucionário). Um de seus primeirosesclarecimentos se referiu à forma pela qual seu governo se estruturaria. Seria, segundoo programa, representado por todas as camadas sociais, isto é, desde os setores da classemédia até as camadas mais desfavorecidas, como os camponeses e operários. Mas osustentáculo do Estado seriam as organizações sindicais, as associações camponesas emovimentos de caráter estritamente popular. E o comando desse governo seriaassumido por Prestes, cuja popularidade e capacidade de liderança eraminquestionáveis. De uma forma conjuntural, o programa discutia os problemas enfrentados pelostrabalhadores, como as exaustivas jornadas de trabalho, as péssimas condições dehigiene, a precariedade das condições de trabalho e a baixa remuneração dos operários.Também defendia o direito de organização sindical e de mobilização em busca pelaelevação de seu padrão de vida. Ao apresentar esse programa, os aliancistas acreditavam que conseguiriamangariar um maciço apoio da classe operária. E isso proporcionaria um fortalecimento àorganização e uma sistematização de forças contra o governo impetrado por GetúlioVargas.
  15. 15. 15   (...) O GPNR não significará a liquidação da propriedade privada sobre os meios de produção, nem tomará sob seu controle as fábricas e empresa nacionais. O referido governo dando início no Brasil ao desenvolvimento livre das forças de produção não pretende a socialização da produção industrial e agrícola, porque nas condições atuais do Brasil só será possível com a implantação da verdadeira democracia, liquidar o feudalismo e a escravidão, dando todas as garantias para o desenvolvimento livre das forças de produção do país. Mas, como os pontos estratégicos estão em mãos do imperialismo, o GPNR, desapropriando e nacionalizando revolucionariamente tais empresas, terá desde o início grandes forças de produção em forte fator ao lado do desenvolvimento livre das forças de produção do país, que garantirá o ulterior desenvolvimento progressivo do país. (...) 4 Analisando as propostas do GPNR, percebemos que há certa tolerância com relação aossetores da classe média urbana. Mesmo o PCB exercendo uma substancial liderança sobre osdemais membros constitutivos da ANL, não houve uma preocupação imediata em abolir apropriedade privada, caso a revolução saísse vitoriosa. Esse dispositivo foi retirado do programaem decorrência do temor de alguns dirigentes aliancistas em perder o apoio das classes médias.Seria preciso nivelar esse radicalismo popular no sentido de manter a dinâmica interna dessegoverno, ou seja, sistematizar todos os elementos da sociedade sob uma única bandeira. Seriapreciso promover uma centralização política para que todos os segmentos da sociedadevivessem em harmonia. O programa do GPNR também apresentava uma inclinação à burocratização do Estado,onde existiriam pastas ministeriais e uma estrutura política, cujo responsável maior pelaadministração do país, seria um Presidente democraticamente eleito. E essa burocracia seestenderia aos Estados e Municípios, que seriam comandados por pessoas de prestígio popular edentro dos padrões estabelecidos pelo governo revolucionário. Em meados de 1935, Prestes decide lançar um manifesto radical, acreditando que haviachegado a hora de concretizar a revolução. Procurava aumentar o apoio da população e dosoperários ao movimento e mobilizá-los em prol da derrubada de Vargas. Analisando aconjuntura política do período, Prestes acreditava que o governo de Getúlio tinha alcançado oauge da instabilidade, e que os aliancistas estavam amadurecidos o suficiente para tomar opoder. E essa crença de que a revolução seria uma questão de tempo se solidificou emdecorrência da grandiosidade da ANL, que organizava suntuosas manifestações no período, e seespalhara pelos quatro cantos do país, fundando agremiações de núcleos expressivos, queorganizavam protestos e reivindicando melhores condições trabalhistas.                                                            4 Arquivo de Getúlio Vargas – doc. 88 – Vol. XX. Apud: SILVA, Hélio. 1935 – A revolta vermelha. 1ªed.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1969, p. 446.  
  16. 16. 16   Semelhante aos revolucionários russos quando concretizaram as modificaçõesestruturais na sociedade, Luiz Carlos Prestes, em seu manifesto, lançou consignas extremamenteradicais; como por exemplo, “Todo poder à ANL!”. (Criação da IC e do secretariado Sul-Americano). Também realizou críticas veementes ao governo de Vargas, declarando, “Abaixo ogoverno odioso de Vargas!”. Entretanto, essa atitude se evidenciou totalmente precipitada e inexeqüível quanto àtomada do poder, pois a população se manteve apática e não se organizou no sentido colocar emprática os planos de Prestes e dos aliancistas. Sem contar que Getúlio, utilizando-se dosdispositivos da LSN, efetuou o fechamento da ANL, isto é, colocou- na ilegalidade. (...) O diário da tarde, publicou uma nota no dia 13/07/1935, na primeira página, sobre o fechamento da ANL, onde dizia: ‘O Governo Federal assinou um decreto mandando fechar (...) todos os postos da Aliança Nacional Libertadora (...) por motivo de ordem pública’. E este motivo é explicado logo abaixo, segundo o periódico, a justificativa era de que existia ‘um plano comunista elaborado na Rússia e destinado a execução no Brasil através dos núcleos aliancistas. 5 Com isso, a ANL inicia suas atividades na ilegalidade. Todavia, tornou-seperceptível que houve um relativo enfraquecimento da entidade, pois vários de seusmembros aceitaram passivamente a ilegalidade. Tudo isso resultou no fortalecimentodos valores e estratégias políticas defendidas pelos comunistas no interior da ANL. Istoé, a organização perdeu parcialmente o seu caráter popular e sistematizadora defilosofias políticas de diversos setores da sociedade.                                                                5 ARAUJO, Alvaro Souza. “Discurso e prática autoritária no Brasil: o combate à ANL através daimprensa periódica regional”. Disponível em: www. uesb. br. Atualizado em: 30/09/2005. Acesso em:20/08/2010. 
  17. 17. 17   Capítulo 2: A estruturação e fundamentação prática dos planos dos revoltosos de 19352.1 A Internacional Comunista (IC) O objetivo desse capítulo é estabelecer um debate acerca dos acontecimentos denovembro de 1935. Analisaremos a natureza do movimento em sua perspectiva social,política e econômica, ou seja, se os revoltosos estavam mais identificados com ascamadas dirigentes, ou com a classe operária e camponesa. Partindo-se de uma óticaestrutural, abordaremos questões relacionadas às estratégias incorporadas pelosinsurretos e, num âmbito internacional, a articulação da Internacional Comunista (IC) naorganização de movimentos socialistas no mundo. Analisando-se o contexto europeu de meados da década de 1930, percebemos aadoção e sistematização, por parte dos comunistas, de uma série de mecanismos práticose ideológicos, no sentido de defender a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas(URSS) diante do avanço do fascismo e solidificação do sistema capitalista em váriaspartes do mundo. Os congressos realizados pelos comunistas tinham a finalidade de avaliar asituação européia, e, mormente, as possibilidades de se concretizar a revolução emoutros países. Essa inclinação “expansionista” da URSS só foi viabilizada perante oavanço significativo dos regimes autoritários de extrema-direita, e também por causa danecessidade de se efetivar um sustentáculo para o regime soviético a nível internacional. Nos quadros institucionais estabelecidos pela IC, houve a elaboração de umainfinidade de elementos de intervenção direta nos partidos comunistas de diversasnações do mundo. Isso propiciou a considerável perda de autonomia desses partidos.Sem contar que os componentes da internacional não possuíam uma noção racional econsistente sobre a verdadeira situação dos militantes do partido e o papel que elesdesempenhavam na sociedade. Além disso, estavam completamente desprovidos docontato com a massa populacional e a classe operária. Isso gerou uma diversificação depreceitos e concepções equivocadas no que concerne ao potencial da população para seconcretizar a revolução comunista brasileira. Identificamos uma considerável desarticulação do Partido Comunista Brasileiro(PCB), e, sobretudo, de seus militantes ao inferir expectativas precipitadas acerca dasituação do Brasil, pois as ordenações emanadas pela IC não condiziam com a realidadedo país.
  18. 18. 18   Com a declaração de Ilegalidade da ANL, os comunistas conquistaram aliderança na organização, principalmente em suas atividades clandestinas. Foi nessemomento que houve a nítida interferência da internacional na elaboração sistemática deprojetos revolucionários para outras regiões do mundo. Sem hesitar, o PCB passou aestreitar seus contatos com a organização comunistas mundial, com a finalidade deangariar apoio logístico e financeiro para o movimento. Em julho de 1934, Antonio Maciel Bonfim (o “Miranda”) assumiu a direção dasecretaria-geral do PCB. Miranda procurou atrair a internacional para o movimentocomunista, através de discursos e relatórios onde afirmava existir uma condição propíciapara a revolução no Brasil. (...) Miranda, ao substituir Bangu na secretaria-geral, já iniciou seu mandato interpretando as lutas que ocorriam no país a partir do seu desejo do que elas fossem: qualquer manifestação popular era considerada luta armada, consciente ou potencialmente revolucionária, quer se tratasse de esparsos protestos camponeses, quer se referisse ao cangaço. Outro traço marcante dessa direção foi sua simpatia pelos militares. Escrevendo, por exemplo, sobre os aliados nas grandes lutas que diziam estar se aproximando, a direção falava em ‘solicitar e mesmo procurar o apoio de oficiais do Exército que quisesse se aliar ao proletário. (...) 6 A cúpula organizativa do PCB estava inclinada a deturpar a realidade brasileiracom o propósito de conseguir o suporte estratégico e financeiro da IC para a revolução.Vale frisar que Luiz Carlos Prestes, que estava aprofundando seus conhecimentos sobreo marxismo na URSS, acreditou nas proposições inferidas pelos dirigentes comunistasbrasileiros. Importante ressalvar que a intenção norteadora dos militantes do PCB eraafirmar com veemência, diante da internacional, que a grande massa populacionalestava desejando concretizar a revolução no Brasil. Entretanto, tanto a classe operáriaquanto as camadas médias urbanas, não estavam devidamente preparadas paraconcretizar transformações tão radicais na estrutura burocrática e administrativa doEstado brasileiro.                                                            6 VIANNA, Marly. “Revolucionários de 1935. Sonho e realidade”. 1ªed. São Paulo: Expressão Popular,2007. p, 74. 
  19. 19. 19   Aos poucos, o PCB foi conseguindo seduzir a organização comunistainternacional para a concretização se seus projetos político-sociais para o país. Sob aótica dos marxistas soviéticos, seria extremante significativo para a URSS que um paísde proporções continentais como o Brasil se transformasse numa nação socialista. Issoproporcionaria uma sustentação estratégica positiva para o movimento comunista nocontinente americano, tornando-se um importante aliado na luta contra o capitalismonorte-americano. Sem contar que desestruturaria manifestações de características nazi-fascistas nas regiões americanas. Ainda em 1934, a IC decidiu organizar um aperfeiçoado esquema de auxílio aosprojetos dos militantes comunistas brasileiros, com a clara finalidade de sustentar arevolução no país. Dentro de uma perspectiva organicista, a internacional elaborou umaestratégia de ação com o objetivo de amparar o PCB em suas lutas pelo país. (...) No final de 1934, quando o Komintern decidiu apoiar a planejada insurreição no Brasil, Victor Allen Barron foi escolhido para uma missão específica: montar uma poderosa estação de rádio clandestina para que os revoltosos pudessem comunicar-se no Brasil. (...) Para cuidar das finanças da operação vieram os belgas Léon-Jules Vallée e sua mulher Alphonsine. Uma atribuição perigosa ficaria a cargo de um alemão, Paul Franz Gruber – lidar com explosivos e sabotagem (...). 7 Portanto, verificamos que um complexo plano orquestrado pelo PCB e pela IC,estava sendo elaborado com o fito de derrubar o governo de Getúlio Vargas, e instituirum Estado dentro dos moldes do sistema socialista. Com isso, esse fato contraria emdemasia o que alguns escritores, como Marly Viana, vêm ressaltando sobre aparticipação do órgão comunista internacional no movimento revolucionário brasileiro.Segundo essa corrente de análise histórica, a interferência da Internacional não foiimportante para os insurgentes brasileiros. Todavia, como bem enfatizou WilliamWaack, o auxílio estratégico e financeiro oferecido pelos comunistas internacionais foiprovidencial para a concretização dos planos dos militantes insurgentes brasileiros. 8                                                            7 MORAIS, Fernando. Olga. 1ªed. São Paulo: Alfa - Omega Ltda. 1985, p, 77. 8 WAACK, William, Op. Cit. p, 84 
  20. 20. 20  2.2 Os planejadores do movimento de 1935 Em meados de 1935, os planos dos insurretos já estavam em andamento. Nessemomento, Prestes inicia um contato mais assíduo com seus ex-companheiros da”Coluna Invicta”. Ele acreditava que os tenentes, principalmente os que apoiaram a“Revolução de 1930” e que estavam completamente descontentes com o Estado,apoiariam qualquer movimento em nome da bandeira da ANL: “Pão, Terra eLiberdade”. Na elaboração e sistematização de seus projetos revolucionários, Prestes e seuscolaboradores decidiram trabalhar com as Forças Armadas, que fora considerada maispreparada e melhor equipada para viabilizar a “revolução”. Com isso, as classesoperárias, consideradas pelos marxistas tradicionais como uma “classe revolucionária”,não participou ativamente da elaboração dos planos de derrubada do governo varguistae instalação do Governo Popular Nacional Revolucionário (GPNR). Somando-se os profissionais da IC e do PCB aos operários, veremos que “as grandes massas proletárias não passaram de 11% do total dos rebeldes do Rio, frente a 65% de militares. (...) O fato de quase 90% dos revolucionários do Rio de Janeiro pertencerem às camadas médias urbanas fala por si só do caráter do movimento. Num total de 721 pessoas (100%), temos: burguesia, 17 (2%); profissionais liberais, 92 (11,5%); estudantes, 21 (2,5); oficiais, 77 (10%); militares subalternos, 404 (51%); operários, 69 (9%) (...). 9 A inclinação de Prestes em aglutinar diversos setores da sociedade sob abandeira da “revolução comunista” gerou uma diversificação de idéias e objetivosincomuns. Isto é, o marxismo não fora a única ideologia empregada na aglutinação deforças em prol das agitações. A elite sócio-econômica estava representada peloTenentismo, que ganhava um espaço substancial na sistematização de ideais propagadospor Prestes e demais conspiradores. (...) A presença dos comunistas na direção do movimento, aliados à tradição militarista e golpista dos egressos do Tenentismo, determinou a via insurrecional. No caso dos comunistas, apesar de a tendência unitária das frentes antifascistas começarem a tomar vulto no seio da Internacional                                                            9 Marly Vianna. Op. Cit. p, 362. 
  21. 21. 21   Comunista, persistia ainda a idéia do ‘assalto ao poder’ com apoio das ‘massas populares’(...) 10 Mesmo sendo os comunistas os líderes do movimento de 1935, outrossegmentos da sociedade estavam representados na elaboração e sistematização dosprojetos insurrecionais. Elementos importantes da sociedade civil demonstraramsimpatia pela iniciativa dos revoltosos, como o Pedro Ernesto e Caio Prado Jr. Entretanto, o objetivo de Prestes, que se tornara o principal articulador domovimento, foi cooptar as lideranças das Forças Armadas para a “revolução”. Existiauma crença muito sólida nesse segmento da sociedade, principalmente no tocante à suacapacidade de organizar e preparar mobilizações de grande expressividade. Isto é,acreditava-se que os militares estariam mais bem preparados, e que por isso, seriam osresponsáveis pela estruturação dos levantes e, posteriormente, pela instalação do novogoverno. Esse governo se enquadraria nos moldes do programa do GPNR, isto é,nacionalização das empresas estrangeiras, reforma agrária e completa desarticulação doaparelho burocrático orquestrado por Getúlio Vargas. Percebemos que existia uma diversificação de concepções e anseios peculiaresno interior do movimento, representados por vários segmentos da sociedade. E essessegmentos estavam ávidos por defenderem seus interesses particulares, dentro de umnovo modelo de governo proposto pelos insurgentes. No que concerne às classes populares, percebemos nitidamente o seuafastamento da construção dos projetos “revolucionários”. Os revoltosos acreditavamque poderiam contar com o apoio incondicional das massas e camadas operárias nomomento de pegar as armas e derrubar o governo instituído.2.3 Os insurrecionais e a concretização de seus planos Com a condição de ilegalidade imposta à ANL em meados de 1935, aorganização empreendeu uma série de atividades no sentido de materializar a tãoesperada “revolução”. Sob o comando de Prestes, juntamente com vários e importantessegmentos da sociedade brasileira, houve a articulação e preparação para a derrubada doregime vigente e instituição do GPNR. Verificamos que o “Cavaleiro da Esperança”entrou em contato com as principais lideranças políticas de praticamente todas asregiões do país.                                                            10 PENNA, Lincoln. República Brasileira. 3ªed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1999, p, 180. 
  22. 22. 22   Na região nordestina, mais precisamente em Natal, Rio Grande do Norte, oclima estava intensamente conturbado, pois existia um crescente descontentamento comrelação ao governo local. Como era de praxe das principais lideranças comunistas, essaconturbação foi considerada uma evidência de que existia uma “consciência de classe”prontamente inclinada à solidificação da “revolução”. No entanto, essa postura doscomunistas ganhou contornos de precipitação, principalmente nos acontecimentosposteriores. Tornou-se observável que os “revolucionários” de Natal estavam tão-somentepreocupados em defender interesses particulares. No âmbito relacionado a questõesnacionais, como as medidas outorgadas pelo Estado varguista, os insurgentesdemonstraram completo desinteresse no sentido de derrubá-lo. Inexistia um plano degoverno consistente, e a massa populacional desconhecia a essência do movimento, umavez que sua organização e estruturação ficaram a cargo da classe da classe militar. (...) O levante de Natal foi uma revolta de cabos, sargentos, operários, funcionários públicos. A maioria nada sabia de comunismo. Nem mesmo os dirigentes do movimento, os poucos declaradamente comunistas, tinham formação marxista. Eram revoltosos simplesmente. 11 Os revoltosos de Natal conseguiram instalar um governo provisório esistematizar esforços no sentido de transformar radicalmente a estrutura político-administrativa da sociedade. Houve o confisco dos recursos disponíveis por parte dogoverno e iniciativas que tinham como função reformar o setor fiscal e tributário.Todavia, a organização das tropas getulistas foi rápida e eficiente, pois conseguiramdesarticular rapidamente o movimento, prendendo os revoltosos e garantindo o poder doEstado na região. Em Recife, um movimento de características parecidas se iniciou. Partindo-se deaspectos relacionados aos “descaminhos” da “Revolução de 1930”, isto é, odescontentamento de parte da comunidade com o posicionamento de Vargas comrespeito à população desprovida de recursos, houve uma mobilização de caráterreivindicatório contra o governo. Também inexistia um projeto de substituição dogoverno instituído e poucos revoltosos conheciam os valores e a filosofia marxista.                                                            11 SILVA, Hélio. Op. Cit, p, 280. 
  23. 23. 23   Entretanto, para os principais líderes da organização comunista, que residiam nacidade do Rio de Janeiro, esses fatos simbolizavam a existência de uma estruturada“consciência de classe” no país. Era a constatação de que a população estava preparadapara se levantar contra o regime político impetrado e proclamar a construção do GPNR. Não obstante, vale ressalvar que, mesmo os nomes das instituições ANL e PCBsendo lembrado em tais acontecimentos com muita radicalidade, o elemento comunistanão tinha expressividade. Os ideais marxistas eram ressaltados, principalmente no queconcerne ao seu sentido igualitário, os insuflados tinham superficiais conhecimentossobre a essência constitutiva do movimento. Os revoltosos estavam interessados tão-somente na legitimação e preservação dos seus interesses e privilégios, e que estavamseriamente ameaçados pelos governantes locais. Enquanto alguns Estados do Nordeste organizavam movimentos demanifestação ao poder vigente, no Rio de Janeiro, Prestes reforçava seus contatos comos militares, vinculando o projeto à categoria de uma maneira consubstanciada. Paradificultar a ação repressora do governo, Prestes objetivava deflagrar a “revolução” emconcomitância com outros Estados. (...) O plano da revolução foi detalhado rapidamente. Prestes despacharia mensageiros de confiança a todas as guarnições onde havia oficiais à espera de orientação e os navios da Armada onde o Partido tinha bases comprometidas com o levante. O 3° Regimento de Infantaria, do capitão Agildo Barata, se levantaria e suas tropas se dividiriam em três colunas: uma marcharia ruma ao Arsenal da Marinha; outra ao palácio do Catete, sede do governo, prenderia o presidente Getúlio Vargas e quem estivesse com ele; uma terceira retornaria ao palácio Guanabara, residência oficial do presidente do Presidente da República (...) 12 Vale enfatizar que houve uma concentração de esforços na cidade do Rio deJaneiro por parte dos revoltosos, pois as principais decisões administrativas do paíseram efetuadas no local. Em outras palavras, era o centro político do Brasil. Ossediciosos acreditavam que se dominassem a capital brasileira, a “revolução” estaria,por conseguinte, vitoriosa nos outros Estados da Federação.                                                            12 MORAIS, Fernando. Op. Cit. 1985, p, 95. 
  24. 24. 24   Existia a crença de que as tropas legalistas e o poder instituído por Vargasestavam consideravelmente enfraquecidos. Além disso, a IC continuava financiando eauxiliando os insurgentes brasileiros na preparação e sistematização dos ideaisrevolucionários. Tudo isso, juntamente com a confiança extremada na organizaçãomilitar, isto é, em sua capacidade de mobilizar e equipar os revoltosos nodesencadeamento dos fatos dava a impressão de que os empreendimentos dos militantesdo PCB obteriam êxito. Todavia, o governo varguista já havia montado um esquema de espionagemvisando conhecer as articulações dos comunistas no território nacional. Vale salientarque a equipe de Getúlio obteve sucesso nessa iniciativa, uma vez que tinham umaconsciência prévia sobre a organização de greves e passeatas orquestradas peloscomunistas. (...) Quanto à colaboração do ‘Intelligence Service’, era feita por intermédio do Ministério das Relações Exteriores. A polícia de Filinto Muller tinha, realmente, um serviço de infiltração no PCB, que não alcançou os escalões superiores. Sabia o que se passava, podia prever os acontecimentos, sem influir nas decisões do partido. 13 Em meados do mês de novembro de 1935, Prestes intensificou seus contatoscom os quartéis e comandos militares da Capital Federal, principalmente o 3° RI, naPraia Vermelha. Ele também procurou organizar uma série de paralisações emanifestações orquestradas pela grande massa e pela classe operária, que ocorreriamsimultaneamente em todo território. Com isso, o “Cavaleiro da Esperança” acreditavaque desestruturaria as forças repressoras do governo Vargas. A cúpula do PCB, sob nítidas influências, não só de Prestes como também da IC,decidiu acertar a concretização dos projetos para as primeiras horas do dia 28 denovembro. Apoiados na certeza de que a sociedade civil, as classes trabalhadoras erepresentantes da pequena e média burguesia urbana descontentes com os contornosassumidos pela “Revolução de 1930”, apoiariam o movimento, os revoltosos serebelaram na cidade do Rio de Janeiro. Eles tinham tanta confiança no sucesso daempreitada, no apoio maciço das chamadas “classes subalternas”, na desestruturação                                                            13 SILVA, Hélio. Op.Cit. p, 306. 
  25. 25. 25  das tropas legalistas, que qualquer movimentação “contra-revolucionária” nãoapresentaria maiores dificuldades na implantação do GPNR. (...) A artilharia legalista despejava seus projéteis sobre o quartel, provocando incêndio. Vários alojamentos invadidos por gases lacrimejantes, em conseqüência de granadas, foram abandonados pela soldadesca em pânico. (...) Com a sucessão de bombardeios deu-se o incêndio do pavilhão central, o qual se propagou imediatamente em ambos os lados do prédio (...) 14 Tornou-se prontamente perceptível que o poderio bélico das tropas legalistas erasuperior se comparado com os revoltosos. Vale ressaltar que algumas unidades dasForças Armadas, como o 1° Exército, o 2° RI, o Batalhão de Engenharia e o Batalhão deTransmissores, não conseguiram se levantar. Essa desestabilização se estendeu à EscolaMilitar e algumas guarnições da Marinha, que não apresentaram nenhum movimento deapoio aos revoltosos do 3° RI. Além da falta de apoio do setor militar, os segmentos da sociedade civil queestavam comprometidos com o movimento, não ofereceram perigo às tropas do governoe seu poder instituído. As transformações radicais pregadas pelos comunistasmostraram-se completamente inexeqüíveis. Não existia um aparato espesso para asustentação dos projetos dos insurgentes, muito menos uma estratégia de ação eficaz naluta contra o Estado varguista.2.4 Fatores que culminaram no fracasso do movimento de 1935 Após a derrota dos revoltosos no 3° RI, o movimento no seu aspecto global,ficou desarticulado. Os “revolucionários” perceberam, posteriormente, que houve umainfinidade de falhas na elaboração de seus planos. As estratégias adotadas; o trabalhocom as massas; a conduta da cúpula do PCB, mais precisamente o secretário-geral, o“Miranda”; foram alguns elementos que evidenciaram a debilidade dos projetos dosrevoltosos. Um dos pontos discutidos sobre as estratégias utilizadas pelos insurgentes foi asua extremada concentração no âmbito militar. A sustentação pragmática e ideológicaficou vinculada aos ideais, valores e aspirações das Forças Armadas. O Tenentismo,com todo o seu elitismo, ganhou uma dimensão sobrepujante no desencadear dosacontecimentos. Em contrapartida, as camadas populares e as classes operárias, ficaram                                                            14 SILVA, Hélio. Op. Cit. pp. 353 – 363. 
  26. 26. 26  marginalizadas no que concerne ao seu papel no movimento, e na sua real participaçãono GPNR. “(...) A influência do radicalismo pequeno-burguês na direção do partido, sob a forma específica do chamado Golpismo ‘tenentista’, levou-nos a cometer o grave erro de precipitar a insurreição quando eram ainda débeis nossas forças na classe operária e, por falta de apoio na massa camponesa, quase inexistente a aliança operário-camponesa. Para o triunfo da insurreição popular, é indispensável ganhar o apoio de soldados e marinheiros, mas reduzir a insurreição a uma luta quase de quartéis é grave erro que teria de levar, como de fato levou, à derrota do movimento de novembro de 1935(...)”. 15 Analisando o comportamento da população de todas as áreas revoltosas, maisprecisamente da cidade do Rio de Janeiro, percebemos que ínfima parcela da sociedadesabia o que realmente estava se sucedendo. Não existia uma consciência clara e objetivana grande massa no que concerne às propostas e preceitos defendidos pelos sediciosos.A tão propalada “consciência de classe” ganhou contornos de utopia e subjetividade. Asociedade não se uniu em torno de desígnios comuns, ou seja, não se efetivou umamobilização popular em busca pela materialização de interesses um prol de uma únicabandeira. Esse fato ocorreu em decorrência de dois motivos principais. Primeiramente, osesforços dos revoltosos em trabalhar preponderantemente com os militares, resultaramnuma falta de maiores esclarecimentos junto à população, no que diz respeito à essênciaconstitutiva do movimento. Além disso, existia uma aceitação popular substancial comrelação às medidas impetradas por Getúlio Vargas, isto é, a grande massa não estavacompletamente descontente com o poder instituído. Esses motivos resultaram na totalpassividade da população, tanto na ocasião de fechamento da ANL quanto nosacontecimentos de novembro de 1935. (...) E as massas, é claro, assistiram na mais absoluta indiferença o bombardeio e a destruição do 3° Regimento de Infantaria na praia vermelha. As pessoas ficaram nas janelas vendo as balas passarem e não tomaram absolutamente conhecimento do                                                            15 Luiz Carlos Prestes, “Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do PartidoComunista do Brasil”. In Problemas, n° 64, dez. 1954 – fevereiro 1955, PP. 90-91. Apud: DULLES, JohnW. F. Anarquistas e Comunistas do Brasil”. 2°ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977. p. 427.  
  27. 27. 27   movimento. Quer dizer, foi um negócio que não teve nada a ver com o povo, nem com operário, nem com coisa nenhuma. (...) 16 Outra falha verificada no desenrolar dos episódios diz respeito aos ideaisdefendidos e vulgarizados pelo líder do movimento. Prestes pensou que poderiaimplantar no Brasil um regime político semelhante ao impetrado na URSS dosbolcheviques. Em outras palavras, não houve o respeito às especificidades culturais esociais do Brasil. Quando o “Cavaleiro da Esperança” lançou em julho a insígnia de“todo o poder à ANL”, ele acreditava que a população se mobilizaria imediatamente embusca pela implantação do governo revolucionário, como ocorrera na Rússia de Lênin epartidários. A sociedade brasileira, com suas tradições e particularidades, não estavapreparada para tomar o poder, pois as condições e o contexto eram distintos. Portanto, esse elemento é importante para explicar os fracassos do movimento,pois existia a equivocada crença, por parte dos comunistas insurgentes, de que no paísexistia um clima favorável à implantação do socialismo. Fortaleceu-se a errôneaconcepção de que existia uma “consciência de classe” no Brasil, e que todos osoperários e camponeses estavam mobilizados em busca de um objetivo comum, e quepor isso pegariam as armas para defender a “revolução” e derrubar o governo varguista.Esse pensamento mostrou-se completamente evasivo e sem uma estrutura lógica eracional. Esse sustentáculo que os insurgentes acreditavam existir contribuiu para adesestruturação do movimento. Vale enfatizar que essas concepções dos revoltosos brasileiros chegaram à IC.Através de relatórios e discursos reticentes, as lideranças do PCB fantasiaram arealidade do país com o único objetivo de conseguir o suporte financeiro e estratégicooferecidos pela internacional para a tomada do poder. (...) As informações enviadas a Moscou pelos partidos comunistas eram recicladas a um alto grau de generalização e devolvidas aos próprios partidos sob a forma de diretrizes. Mas a realidade construída nessas avaliações muitas vezes somente existia na cabeça dos comunistas. (...) Essa avaliação equivocada talvez ajude a explicar o engajamento de alguns dirigentes da IC com a revolta militar d e1935, engajamento esse baseadas em falsas expectativas, alimentadas por sua vez por                                                            16 LACERDA, Carlos. Depoimento. 2ªed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, p. 41. 
  28. 28. 28   informações dos próprios comunistas brasileiros (e, mais tarde, muito provavelmente, por informações de Luiz Carlos Prestes), os quais por sua vez reproduziam os mesmos esquemas interpretativos do II Congresso da IC. O centro do movimento comunista mundial se entusiasmava com uma versão de segunda mão de suas próprias concepções. (...) 17 No que diz respeito à vinculação direta do PCB com a IC, percebemos que oresultado não fora positivo para os comunistas brasileiros. Em outras palavras, aorganização partidária nacional perdeu sua autonomia de ação no país, pois obedeciasem questionamentos as resoluções advindas da internacional. Levando-se emconsideração que a IC desconhecia as peculiaridades do Brasil, principalmente comrelação às tradições culturais da sociedade, este fator desestruturou consideravelmenteas ações dos comunistas brasileiros na solidificação de seus projetos. Tornou-se prontamente perceptível que a maioria dos insurgentes não estavampreocupados com questões de âmbito nacional, mas sim com a defesa de interesses eprivilégios de uma determinada categoria. Os anseios populares não foram colocadosem primeiro plano pelos revoltosos, que por sua vez se concentraram na resolução dequestões de caráter privado, como a falta de espaço dos militares nas decisões políticasdo país e exacerbada concentração de poderes nas mãos do presidente. Outra falha identificada no movimento, que também contribuiu para adesarticulação das ações dos insurretos, foi a desconexão de tempo entre os focos“revolucionários”. Isto é, os levantes não ocorreram em concomitância no país, comoestava previamente combinado. Verificamos que houve um grave erro de comunicaçãoentre as zonas de conflito, gerando uma confusa precipitação entre as principaislideranças das revoltas. Isso facilitou a ação do governo Vargas no sentido dedesestruturar as rebeliões e prender seus organizadores. (...) Quando o movimento no nordeste já tinha praticamente se extinguido, eis que explode a insurreição na capital federal – Rio de Janeiro – autorizada por Luiz Carlos Prestes. Como o governo já estava de prontidão, o levante no Rio não causa grandes surpresas; e os rebeldes são logo dominados em quase todos os focos de revoltas, somente o 3° Regimento de Infantaria, da Praia Vermelha teve algum sucesso temporário. 18                                                            17 PINHEIRO, Paulo Sérgio. Estratégias da ilusão. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. pp.328 – 330. 18 ARAUJO, Álvaro Souza. “Discurso e prática autoritária no Brasil: o combate à ANL através daimprensa periódica regional”. Disponível em: www. uesb. br: 30/09/2005. Acesso em: 08/09/2010. 
  29. 29. 29   Esses elementos, que evidenciam a precipitação dos revoltosos, sãofundamentais para se explicar o fracasso da “Revolução Comunista de 1935”. Não foium movimento de massa, apoiado na classe operária e segmentos da camadacamponesa, mas uma manifestação de repúdio ao poder impetrado por Getúlio Vargas.E foi uma manifestação que ficou restrita à classe militar, marcada pelo seucorporativismo e voltada exclusivamente para questões de âmbito particular.             
  30. 30. 30   Capítulo 3: A repressão do governo de Getúlio Vargas aos revoltosos3.1 O aparato constitucional Este capítulo tem o objetivo de apresentar os principais mecanismos, tantofísicos quanto ideológicos, adotados por Vargas no sentido de punir os participantes dosacontecimentos de novembro de 1935. Discutiremos acerca dos instrumentosempregados pelo governo com a finalidade de se atribuir uma série de conceituaçõespejorativas aos insurgentes. Além disso, analisaremos a forma pela qual a políciapolítica do Estado suprimiu todas as liberdades democráticas da população. Mesmo antes da fundação da ANL, e de sua estruturação no cenário nacional, ogoverno de Getúlio já articulava alguns elementos objetivando garantir a “segurançanacional” diante da ameaça do chamado “perigo vermelho”. Essa postura culminou naaprovação, pelo Congresso Nacional, sob pressão do presidente, de uma lei que visavasistematizar um conjunto de medidas com o intuito de aniquilar com qualquermanifestação de contestação ao governo. Foi a primeira evidência do caráter autoritáriodo Estado varguista, que, no porvir, alcançou o auge com a implantação do EstadoNovo em 1937. A institucionalização da Lei de Segurança Nacional serviu, com isso, como maisum instrumento de repressão a movimentos de caráter revolucionário. Tudo issoimplicou numa série de penalidades dirigidas aos insurretos de 1935, que sofreramprisões, deportações e perseguições empreendidas pela polícia política de FilintoMüller. Após o sucesso do Estado varguista no sentido de sufocar os levantespromovidos pelos insurgentes no país, o chefe do poder executivo e seus fieiscolaboradores foram extremamente irredutíveis na ação punitiva perante os revoltosos.Em outras palavras, o Estado foi implacável na repressão e punição direcionada aosarticuladores do movimento. Nas palavras de Leôncio Basbaum, “a reação que se desencadeou a seguir não encontra paralelo em nossa história, nem mesmo nos tenebrosos tempos do estado de sítio de Artur Bernardes... Foram feitas milhares de prisões. Foram presos não somente comunistas ou
  31. 31. 31   simpatizantes. Até mesmo parentes e vizinhos, assim como membros e dirigentes da ANL, que nada sabiam do levante. 19 Respaldados juridicamente pela LSN, os organizadores da estrutura estatalorquestrada por Vargas, tinham completa autonomia no sentido de repreender osamotinados. O objetivo do Estado fora demonstrar toda sua onipresença diante dasociedade, ou seja, que ninguém poderia contestar o regime vigente. Valendo-se de suas prerrogativas constitucionais, o Congresso Nacional, apedido de Getúlio Vargas, autorizou a legitimação do estado de sítio em 25 denovembro, isto é, antes mesmo da queda do governo revolucionário implantado noNordeste, e os subseqüentes acontecimentos na cidade do Rio de Janeiro. Com isso,Getúlio obteve sucesso no processo de consubstanciação de forças no sentido deinviabilizar uma maior mobilização popular em prol de transformações radicais erevolucionárias na sociedade. Portanto, Vargas conseguiu angariar um consistente apoio na estruturaburocrática e administrativa que ele próprio ajudou a consolidar. Isso o proporcionouuma considerável autonomia no desencadear de toda a repressão, e também nadesarticulação de movimentos reivindicatórios, como as rebeliões de novembro de1935. Sem contar que essas medidas foram extremamente importantes para se efetivar amanipulação da opinião pública, que evidentemente sofreu um “bombardeio” denotícias favoráveis concernentes à ação do governo contra os supostos provedores dadesordem e da destruição. Invariavelmente não se pode negligenciar a importância da LSN no processodesestruturação dos focos de revolta. Deve-se ressaltar que o chefe do poder executivoconseguiu construir um amplo aparelho repressor, bem equipado e competente com oobjetivo de desmantelar manifestações de rebeldia contra o Estado. Sob o comando dogermanófilo Filinto Müller, a polícia política do governo de Getúlio Vargas conseguiudesestabilizar e repreender qualquer movimentação de característica ameaçadora àordem sócio-política imperante. 20                                                            19 BASBAUM, Leôncio. “História sincera da República, III”, p, 66. Apud: DULLES, John W. F. Op. Citp, 426. 20 TOTA, Antônio Pedro. O Estado Novo. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1989, p, 84 
  32. 32. 32  3.2 A trilha autoritária está lançada Após o fracasso dos episódios de 1935, o Estado varguista iniciou umaimplacável perseguição aos comunistas e outros indivíduos que representassem perigo à“segurança nacional”. Com isso, a prática da tortura ganhou contornos de legalidade nosporões dos prédios sedes da polícia política, comandada por Müller. Milhares depessoas acusadas de ligação com o PCB sofreram seções de tortura, com o objetivo dedesmantelar o suposto esquema, através da delação, que acreditavam estar sendoelaborado para “tomar o poder”. Na verdade, tudo não passava de um artifícioempregado com a finalidade de justificar a violência desproporcional utilizada nos“julgamentos” dos policiais. Vale enfatizar que o chefe de polícia contou com o apoio tanto da IntelligenceService - serviço secreto britânico - quanto da Gestapo, a temida polícia da Alemanhanazista. Com esses poderosos órgãos de repressão, o processo de apuração e condenaçãodos envolvidos nos episódios de 1935 tornou-se prontamente estruturado, isto é,fundamentou-se um eficiente plano, cuja finalidade maior era desarticular qualqueriniciativa contestatória por parte dos comunistas e colaboradores do PCB. Em agosto de 1936, o governo criou o Tribunal de Segurança Nacional, para centralizar o julgamento de todos os crimes políticos. (...) A esmagadora maioria dos que compunham o TSN era de adeptos e entusiastas do nazismo. (...) Procurava-se encobrir as torturas e os assassinatos praticados pela polícia e pelo exército, manipulando-se a opinião pública para que apoiasse o governo, a partir de uma verdadeira histeria anticomunista. 21 Ficou constatado o quanto a repressão do governo Vargas sobre os insurretosderrotados foi sangrenta e covarde. Basta enfatizar que até mesmo quem não tinhafundamentalmente ligação com a revolta acabou sofrendo diante da implacável ação deFilinto Müller. 22                                                            21 VIANNA, Marly. Op. Cit, p. 355 22 A herança institucional da política repressiva da “Era Vargas” remonta ao início do século, em 1922,quando foi criado a 4ª Delegacia Auxiliar, que tinha o objetivo de manter a ordem e a “segurançanacional”. Contudo, em 10 de janeiro de 1933, pelo decreto n° 22. 332, a 4ª Delegacia Auxiliar foitransformada na DESPS (delegacia Especial de Segurança Política e Social). A DESPS serviu deprotótipo para a criação de delegacias estaduais, que estavam diretamente vinculadas ao Distrito Federal,onde o chefe da polícia política, Filinto Müller, centralizava as decisões visando consolidar o controlesocial, ou seja, estruturar o aparelho repressor, que garantiria o pleno funcionamento da máquina
  33. 33. 33   Aproveitando-se do estado de sítio pelo qual o país perpassava, a polícia políticado governo varguista conduziu todos os acusados de envolvimento com os motins denovembro para o quartel-general, no morro Santo Antônio, no centro da cidade do Riode Janeiro. Esse local foi palco de diversas atrocidades cometidas por agentes a serviçodo Estado, e seguindo ordenações impetradas pela polícia nazista. Um dos argumentos verificados nos discursos de Müller para justificar arepressão e ludibriar a opinião pública, diz respeito às supostas ligações assíduas doscomunistas com os dirigentes da IC (Internacional Comunista) de Moscou. Isso setornava, segundo o pensamento do chefe de polícia, uma séria ameaça à estrutura sócio-política orquestrada por Getúlio Vargas. A “ordem” estaria sumariamentedesestabilizada em virtude do perigo apresentado pelos militantes do PCB e demaiscolaboradores. A evidência do quanto foi brutal o tratamento dispensado aos presos políticos,foi o caso de Arthur Ewert e Elise Saborowsky. Ativos participantes dos acontecimentosde novembro de 1935, o casal foi preso e torturado impiedosamente pela polícia deFilinto. O objetivo da tortura era conseguir maiores informações concernentes aoparadeiro de Prestes e os demais envolvidos na conspiração. Entretanto, a ação dostorturadores se mostrou inútil, uma vez que eles não cederam nenhuma informação notranscorrer das sofridas seções de espancamento e humilhações. Ewert e Elise apanharam da polícia de Filinto Müller durante uma semana inteira, sem que lhe fosse dirigida uma só pergunta. (...) A polícia primeiro queria quebrar o moral dos presos, para depois começar os interrogatórios. (...) Nem mesmo os piores suplícios foram suficientes para arrancar qualquer informação de Ewert e Elise. 23 Gradativamente os envolvidos na chamada “Intentona Comunista” foram presos,pois os órgãos de repressão conseguiram descobrir os locais em que se escondiam. Valeressaltar que foi através das práticas nefastas da tortura que os comandados de Müllerconseguiram prender os acusados de participação nos levantes. Com isso, a estrutura                                                                                                                                                                              burocrática orquestrada pelo governo. Vale ressaltar que em 1944 houve uma reformulação do poderjudiciário. Com isso, pelo decreto n° 6. 378, a DESPS tornou-se a Divisão de Polícia Política e Social,com duas delegacias, uma responsável pelas questões sociais e outra que respondia pelos assuntos decaráter políticos.  23 MORAIS, Fernando. Op. Cit, p, 129. 
  34. 34. 34  sistematizada pelos comunistas para a “revolução” no Brasil foi sendo desmantelada emdecorrência da ação avassaladora do Exército e da polícia do Estado. No início do ano de 1936, verificamos que os insurretos foram sumariamentetraídos. O responsável pela armação dos explosivos, Paul Gruber, era na verdade umespião a serviço da Intelligence Service, o aparelho repressor britânico. Numa de suasincursões, os policiais chegaram a um dos esconderijos dos comunistas, onde tambémse localizavam documentos, dinheiro, cartas enviadas pelo Komintern e endereços dosparticipantes das revoltas. Esses escritos comprometedores estavam alocados num cofreque deveria explodir ao ser violado. Como Gruber era um agente da Intelligence, asdinamites não explodiram, e, conseqüentemente, os policiais tiveram acesso ainformações importantes concernentes não só sobre a localização dos revoltosos, comotambém sobre os mecanismos empregados pela IC na preparação de focos de rebeliãopelo país. 24 Importante registrar que esse fato proporcionou aos membros da polícia políticavarguista uma maior desenvoltura no processo de apuração e prisão dos comunistas e osoutros participantes dos eventos de novembro de 1935. Pois basta lembrar que, a partirdaquele momento, Filinto e seus comandados tinham total conhecimento acerca dofuncionamento das células do PCB e de sua organização a nível nacional. Além disso,sabiam dos nomes, codinomes e endereços completos de seus militantes e participantesda revolta. Contudo, duas prisões desestabilizaram as ações clandestinas dos insurretos, a de“Miranda”, secretário-geral do PCB, e a do argentino Adolf Ghiold. Ambos nãoresistiram aos horrores das seções de torturas promovidas pelos policiais, e com isso,acabaram relatando o que sabiam. Não obstante o reconhecimento de seu envolvimentonos acontecimentos de novembro de 1935, eles também discorreram sobre os outroscomponentes que articularam o evento e os locais onde se escondiam. Portanto,utilizando métodos totalmente sádicos, que provocavam sofrimentos e mortes, osaliados de Müller alcançavam sucesso em seu objetivo principal, ou seja, a prisão detodos os acusados de ligação com a rebelião.                                                            24 MORAIS, Fernando. Op. Cit. p, 101 
  35. 35. 35   Politicamente dizendo, o beneficiário das articulações dos órgãos de segurançano processo de prisão dos revoltosos, foi o presidente Getúlio Vargas. Discorrendo deuma maneira mais objetiva, os principais inimigos do governo foram sumariamenteextinguidos, foram exauridos em suas fundamentações pragmáticas e ideológicas.Verificamos a significativa inexistência de uma sistematização de medidas, por partedos combatentes, no sentido de resistir à brutal e covarde ação dos defensores do Estadovarguista. Por outro lado, vale ressaltar que não houve nenhuma manifestação popularfavorável aos militantes acusados de envolvimento com os motins de novembro, que,porventura, pudesse viabilizar uma sustentação na tentativa de resistência ao que estavase sucedendo. É impressionante como o governo respondeu à tentativa de tomada do poder pelos aliancistas. Em pouco tempo se vê uma verdadeira ditadura implantada no país, pois o governo decretou o estado de sítio e entre “25 de novembro de 1935 e 15 de março de 1936, fizeram 3.250 investigações; 441 buscas domiciliares; 901 prisões de civis e 2.146 militares, entre oficiais e soldados. (...) Assim, Getúlio se aproveita deste momento para enfraquecer e desbaratar as restantes forças que lhe fazem oposição. (...) 25 Portanto, Vargas conseguiu consolidar e fortalecer seu poder no comando dopaís, pois os principais segmentos da sociedade brasileira, tais como os grandesempresários, os interventores de outros Estados da Federação, intelectuais burgueses eimportantes personalidades da classe majoritária do país, o apoiaramincondicionalmente. O presidente construiu um sólido alicerce para materializar a suasoberania no território nacional, principalmente após a vulgarização da idéia deexistência de um “perigo vermelho”, e de concepções visando consolidar a centralizaçãopolítica em torno de sua imagem.3.3 O aparelho ideológico orquestrado pelo governo Vargas Uma das características marcantes do governo de Getúlio Vargas foi acontundente aceitação popular, em decorrência, mormente, de suas concessões à classetrabalhadora e promessas de suprimento das injustas condições as quais estavamsubmetidos. Pelo aspecto econômico, a inclinação do Estado em favorecer odesenvolvimento industrial do país, também contribuiu para a considerável sustentação                                                            25 CARONE, Edgar. Revoluções do Brasil Contemporâneo. 4ªed. São Paulo: Ática, 1989, p, 111.  
  36. 36. 36  política e social que ele acabou solidificando para o funcionamento da máquina estatal.Diante disso, tanto as classes trabalhadoras quanto a elite econômica, visualizavam naspretensões de Vargas, a oportunidade de conquistarem uma melhor posição nasociedade. Seria a chance de consolidar melhorias financeiras, mais direitos sociais euma maior representação política. Esses fatores contribuíram consideravelmente para a concretização de umaprojeção política do presidente nunca vista outrora. Portador de característicaspopulistas 26 , Vargas conseguiu legitimar suas ações diante da população. Com isso, asmobilizações da grande massa não encontravam eco no âmago da sociedade, isto é, nãoganhavam uma adesão consubstanciada das camadas mais desfavorecidas, pois estasestavam esperançosas perante as promessas do presidente. Não obstante a aceitação que obteve a nível nacional, Getúlio e os demaismembros, que compunham sua estrutura burocrática de governo, utilizava determinadosinstrumentos objetivando viabilizar a manipulação ideológica. Através da imprensa, queem sua quase totalidade se aliou ao Estado, o governo varguista articulou um amplo esofisticado aparato propagandístico contrário aos “ameaçadores da ordem”, oscomunistas. A finalidade era atribuir uma infinidade de proposições pejorativas comrelação aos militantes e partidários do PCB, visando desmoralizá-los diante da opiniãopública. Através de discursos eloqüentes, o chefe do poder executivo procurava unirtodos os segmentos da sociedade; como a igreja; as organizações civis; a imprensa;além do próprio governo, na luta contra a propagação do “credo russo” no Brasil. Emtais discursos existia um apelo muito grande à manutenção da ordem, que seria obaluarte da “segurança nacional”, e, conseqüentemente, a provedora dodesenvolvimento nacional                                                            26 Por populismo entende-se a consubstanciação de práticas e medidas institucionais empreendidas porum líder carismático, no sentido de legitimar seu governo. Através da repressão direcionada aosoperários, controle absoluto dos sindicatos e de discursos eloqüentes voltados à grande massa, ogovernante populista legitima seu aparelho estatal e desarticula movimentos de caráter reivindicatório.Com o fito de manipular a opinião pública a seu favor e atender seus interesses particulares, verificamosque Vargas, considerado um populista tradicional, concedeu certas benesses ao trabalhador, e orquestrouuma aproximação com as massas, com a finalidade, mormente, de garantir a ordem e viabilizar asustentação da chamada “Segurança Nacional”. TOTA, Antônio Pedro. Op. Cit. p, 63. 
  37. 37. 37   Forças do mal e do ódio campearam sobre a nacionalidade, ensombrando o espírito amarável da nossa terra e da nossa gente. Os acontecimentos lutuosos dos últimos dias de novembro permitiram, felizmente, reconhecê-los antes que fosse demasiado tarde para reagirmos (...). Padrão eloqüente e insofismável do que seria o comunismo no Brasil tivemo-lo nos episódios de baixa rapina e negro vandalismo de que foram teatro as ruas de Natal e de Recife, durante o surto vergonhoso dos implantadores do credo russo, assim como na rebelião de 27 de novembro nesta capital (...). Os fatos não permitem mais duvidar dos perigos que nos ameaça. Felizmente, a nação sentiu este perigo e reagiu com todas as suas reservas de energias sãs e construtoras. 27 Os elementos que seriam os responsáveis pela manutenção da ordem seriam asociedade civil e o setor militar. Cabe frisar que a imagem de Getúlio foi comumenteassociada a noções de “salvacionismo” e legitimação do “desenvolvimento nacional”. Ea imprensa assumiu uma importância colossal no processo de construção dessa imagem,através, sobretudo, da propaganda substantiva sobre os ideais e valores que o presidenteconsiderava conveniente disseminar. Verificamos que a mídia cumpriu o papel de legitimação da ordem sócio-políticaimpetrada. Estava nitidamente a serviço do Estado, na luta contra o comunismo eorganizações cuja finalidade era derrubar o governo estabelecido. Vale ressaltar que osmeios de comunicação exerceram suas atividades objetivando manipular a opiniãopública a favor sistema político imperante. Em outras palavras, sob uma ótica de relaçãode poder, a propaganda assume a função de concretizar a dominação de um determinadogrupo sobre os outros. Não obstante o respaldo que Getúlio obteve do Congresso Nacional no queconcerne à apuração dos fatos, a imprensa, invariavelmente a serviço dos grandes emédios burgueses, apoiou de uma forma incondicional os projetos do presidente. Aimagem dos comunistas esteve sempre associada a proposições de barbárie, destruição eatraso. Preceito e valores religiosos eram ressaltados com veemência pelos periódicosvulgarizados pelo Estado, onde a finalidade era tão-somente denegrir as pretensões eidealizações dos militantes do PCB e demais aliados. Existia o objetivo óbvio de                                                            27 VARGAS, Getúlio. “A Nova Política do Brasil”, 1°ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora,1938, p, 139. Apud: ARAUJO, Álvaro Souza. Op. Cit. p, 12 

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