DROGAS<br />– uma guerra perdida?<br />
Dos males da <br />modernidade,<br />talvez nenhum <br />se equipare <br />à ampla proliferação <br />das drogas.<br />
Vidas individuais <br />e famílias reduzidas <br />a farrapo e escombro <br />diante do flagelo do vício.<br />
Numa esquina qualquer, de uma cracolândia qualquer, de uma cidade brasileira qualquer, <br />um jovem acende um cachimbo d...
Quantas vidas ainda serão <br />reduzidas a farrapos, <br />quantos destinos ainda haverão  <br />de se perder para sempre...
Para se entender a devastadora epidemia <br />das drogas que assola a nossa sociedade, <br />é preciso analisar o tema sob...
Não se pode abordar o tema sem fazer referência <br />às nossas fronteiras nacionais.<br />
No cenário <br />da geopolítica global, o Brasil ocupa uma posição de relevância na complexa rede internacional <br />do n...
O país possui cerca de 15 mil quilômetros <br />de fronteiras,<br />com fiscalização muito deficiente ou mesmo inexistente...
...e alguns países vizinhos elencados <br /> entre os maiores produtores mundiais de drogas. <br />
Colômbia<br />Maior produtor mundial de cocaína, <br />com 68 mil hectares <br />de cultivo de coca.<br />
Colômbia<br />(68 mil hectares)<br />Peru <br />Segundo maior <br />produtor de cocaína, com 59,9 mil hectares.<br />Segui...
Colômbia<br />(68 mil hectares)<br />Peru <br />(59,9 mil hectares)<br />Bolívia<br />Terceiro maior produtor mundial de c...
Colômbia<br />(68 mil hectares)<br />Peru <br />(59,9 mil hectares)<br />Bolívia<br />(30,9 mil hectares)<br />Paraguai <b...
O que leva <br />os países <br />andinos a <br />produzir tanta <br />droga são<br />essencialmente<br />questões econômic...
A maior parte <br />dos que se dedicam <br />aos cultivos não são narcotraficantes,<br />mas produtores <br />rurais miser...
O processo de refino, transporte e comercialização <br />da droga tem <br />rendido aos narcotraficantes<br /> lucros astr...
Grande parte da cocaína produzida <br />nos países andinos atravessa as <br />fronteiras rumo ao território brasileiro,<br...
O mapa ao lado mostra a extensão do limite fronteiriço do Brasil com os três maiores produtores mundiais de cocaína <br />...
Este mapa mostra a dinâmica de distribuição <br />da cocaína produzida pelos países andinos.<br />
Grande parte da droga segue para a América <br />do Norte, enquanto outra parte segue, <br />via território brasileiro, pa...
Uma crescente parcela da cocaína produzida se destina ao mercado consumidor brasileiro, que tem crescido consideravelmente...
Num mundo globalizado, caracterizado pela <br />fluidez das transações comerciais, o crime organizado segue suas atividade...
Para ilustrar a dificuldade em se deter <br />a atuação do crime organizado transnacional, <br />vejamos o exemplo dos E.U...
Os E.U.A. têm enfrentado graves problemas de segurança na sua fronteira com o México, envolvendo principalmente organizaçõ...
Apesar de dispor de uma polícia federal dedicada exclusivamente ao combate ao tráfico, e de ter os soldados mais bem trein...
Até apelaram para a construção de um muro físico<br />que separa a divisa entre os dois países, noite e dia vigiado por um...
Mas, vira e mexe, túneis por onde volumosos carregamentos de droga continuam passando livremente são descobertos. <br />
Alguns especialistas sustentam que enquanto houver gente querendo consumir droga, os traficantes darão um jeito de garanti...
Se a superpotência mundial não consegue cuidar de uma fronteira seca com um único país, que é muito mais um corredor do qu...
A fronteira brasileira com a Bolívia sozinha é mais extensa do que toda a faixa entre México e E.U.A.<br />
Enquanto a fronteira entre México e E.U.A. é uma <br />fronteira seca e desértica, a brasileira inclui a densa floresta am...
O próprio ministro da Justiça reconheceu <br />recentemente que há um “nível elevado de vulnerabilidade” nas nossas fronte...
Outras autoridades apontam <br />as fronteiras brasileiras entre <br />as mais desguarnecidas do mundo.<br />
Em 2010, foi lançado <br />o livro-reportagem “Fronteiras Abertas – <br />Um retrato do abandono da Aduana Brasileira”. <b...
O livro – resultado de uma viagem de dez meses que os autores empreenderam por mais de 15.000 km <br />de fronteira seca –...
A fragilidade de <br />nossas fronteiras está diretamente relacionada à ampla circulação de drogas nas nossas cidades – um...
Um levantamento realizado pela Confederação Nacional dos <br />Municípios em 2010 constatou que 98% dos municípios do país...
Segundo o Centro Brasileiro de <br />Informações sobre Drogas <br />Psicotrópicas, <br />a droga é hoje <br />uma ameaça o...
Já que a produção e comercialização das drogas encontram-se longe de serem adequadamente combatidas, vamos refletir um pou...
O que é que leva uma <br />pessoa a embarcar <br />no risco suicida <br />que as drogas representam?<br />Os usuários pode...
De um lado, temos a categoria de usuários formada pela parcela “invisível”, excluída, esquecida e ignorada <br />da socied...
Nas décadas de <br />1980 e 1990, crianças<br /> de rua tinham <br />na cola de sapateiro <br />a principal droga <br />de...
A aspiração da cola de sapateiro causa euforia, desinibição, alteração <br />das percepções, insensibilidade à dor, fome e...
Na época, políticos e governantes se fizeram <br />de cegos diante<br /> do problema.<br />Disseram: “Não temos nada a ver...
Passaram-se <br />duas décadas <br />e o problema <br />se agravou <br />drasticamente.<br />
Crianças e adolescentes ao relento e expostos às mazelas e durezas da vivência de rua, que ontem cheiravam cola, hoje se t...
Crack/Oxi: subprodutos da cocaína misturados <br />a soda cáustica ou bicarbonato de sódio;  <br />– são cinco vezes mais ...
A fumaça chega ao cérebro com velocidade e potência extremas, causando problemas respiratórios agudos.<br />Produzem uma s...
A expectativa de vida dos usuários <br />gira entre quatro e oito anos,<br />– crianças e adolescentes que <br />não chega...
O tratamento para a recuperação de usuários <br />é muito complexo, e o completo descaso e <br />despreparo das instâncias...
A fuga. A ilusão de identidade,<br />de satisfação, de plenitude.<br />A sensação de preencher o vazio, <br />a fome e o a...
Além dos moradores <br />de rua, vítimas do <br />abandono e descaso social, <br />há uma outra <br />categoria de usuário...
Ao contrário da cruel invisibilidade social que acomete as camadas que sobrevivem à margem <br />da sociedade, <br />estes...
Tiveram acesso <br />a boas escolas e<br />a uma educação que teoricamente os <br />deveria ter prevenido  sobre a viagem ...
Não foi a <br />miséria material<br />que os empurrou<br />para o vício, <br />mas uma outra <br />forma de miséria, <br /...
Cristiane Gaidies, conhecida pelo apelido <br />de “Maçãzinha”, era uma jovem de cabelos cor de mel, olhos expressivos <br...
Aos 19 anos, abandona <br />os amigos e envolve-se <br />com maconha e crack. <br />A família tenta de tudo,<br />– diálog...
A ex-estudante de classe média torna-se aos 20 <br />anos uma andarilha <br />das ruas de São Paulo,<br />uma nômade urban...
O dono do veículo, <br />um jovem empresário, presencia a cena, <br />e do alto do seu apartamento no 12ºandar dispara con...
Ela ainda se arrasta por 30 metros antes de cair sem vida no asfalto manchado de vermelho.<br />No bolso traseiro de <br /...
A outrora adolescente de cabelos cor de mel, olhos expressivos e sorriso claro<br />passou seus últimos dias...<br />...nu...
Desde muito jovem <br />Nelson dal Poggetto sabia o que era sofrer.<br />Ao 12 anos começou sua aflitiva jornada pelo mund...
Internado duas vezes, volta a fumar o cachimbinho de crack pouco tempo depois <br />de receber alta. <br />Durante as reca...
Aos 19 anos, antes de cometer suicídio, deixa <br />um bilhete de despedida para a família:...<br />“Amei muito vocês <br ...
Adriana de Oliveira <br />era uma garota linda e cheia de sonhos, <br />tida por todos que a conheciam como uma<br />pesso...
A jovem de 20 anos, <br />de olhos azulados, <br />pele morena e cabelos escorridos pelos ombros<br /> iniciava uma promis...
No entanto, a vida de Adriana toma um outro rumo após o namorado, <br />um rapaz que cursa o 3º <br />ano de direito e fil...
Quão tênue e vulnerável <br />é a linha que separa <br />a experimentação <br />e o uso recreativo <br />do risco potencia...
Durante uma festa <br />numa chácara, <br />Adriana passa mal, <br />sente dificuldades para respirar e apresenta um quadr...
O laudo médico <br />revela a causa <br />da morte:<br />– uma mistura <br />fatal de álcool, <br />maconha e cocaína.<br ...
Diante das histórias <br />de Adriana, Nelson, <br />Cristiane e de tantos outros jovens, <br />talvez seja hora de reflet...
Uma sociedade de consumo voraz, que transformou a busca do prazer imediato e da satisfação numa condição existencial essen...
Jovens desorientados, <br />que buscam nos prazeres ilusórios uma forma de <br />se libertar do peso de <br />uma sociedad...
Tristes retratos <br />do fracasso dos laços <br />de sociabilidade familiar <br />e comunitária. <br />O desamor e o não-...
Que sociedade é <br />esta que construímos, <br />tão repleta de valores desvirtuados?<br />Talvez seja hora de,<br />enfi...
Anúncios que associam a felicidade e <br />o bem-estar ao consumo de bebidas alcoólicas.<br />(uma droga tão ou mais nociv...
Artistas com imenso apelo junto ao público infanto-juvenil servindo de “exemplo” para gerações de crianças e adolescentes....
Empresários, artistas, publicitários <br />e donos de emissoras de tv faturam bilhões.<br />E nós arcamos com os danos e c...
Programas que massacram<br /> a subjetividade e anulam<br /> o senso crítico, <br />banalizando e mercantilizando <br />a ...
“Vamos bisbilhotar”<br /> “Pode espiar à vontade”<br />“Pra que educação, arte ou cultura?”<br />“Vamos banalizar a existê...
A torrente abusiva de publicidade <br />que invade os lares e formata a <br />mente de crianças e adolescentes<br />desde ...
A mensagem impregnada em mentes indefesas, de que somos o que possuímos, <br />e que viver se resume a consumir.<br />
“Troque de carro, troque de celular, <br />beba mais cerveja, etc. etc. etc...”<br />
Uma vida centrada em bens materiais,<br />uma existência sem um sentido <br />ou propósito mais nobre.<br />
Nada melhor do que <br />a televisão para preencher <br />uma vida vazia, <br />carente de aspirações elevadas <br />e sem...
Não seria uma vida vazia de propósito, sentido e conteúdo <br />uma porta de fácil entrada para o <br />abuso do álcool, <...
Talvez seja hora de refletirmos sobre como <br />a atual programação televisiva está contribuindo para <br />solapar as ba...
Acreditar que as forças policiais conseguirão sozinhas algum dia resolver o problema das drogas <br />é ignorar as causas ...
O máximo que as forças policiais isoladamente conseguirão é prosseguir na sua heroica tarefa de “enxugar gelo”,...<br />.....
Para reverter a batalha <br />contra as drogas, devemos buscar novos paradigmas sociais e existenciais.<br />Buscar corrig...
Vejamos alguns componentes do nosso complexo <br />mosaico social <br />tão repleto de falhas, <br />que precisam ser <br ...
s<br />s<br />Corrupção Política<br />Graves Desigualdades Sociais<br />s<br />s<br />Baixa qualidade da Educação<br />Uso...
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“No Brasil, a educação das massas <br />ainda é uma utopia verde-amarela.”<br />Silviano Santiago<br />
Na guerra contra as drogas, <br />mais importante do que soldados e policiais são os professores e educadores.<br />
Uma educação plena, capaz de transmitir valores e virtudes, conduzindo<br />cada criança em direção à sua plenitude.<br />
Uma educação capaz de  <br />banhar de sentido, propósito <br />e bondade as vidas que iniciam <br />sua jornada pelos cam...
O legítimo anseio que todos trazemos no peito, de descobrir por que existimos, <br />e de revestir os nossos dias de belez...
O desejo de “ver com olhos livres”.<br />A “alegria dos que <br />não sabem e descobrem”.<br />
Há que se cuidar do broto,<br />para que a vida nos dê flor e fruto. <br />
Trocar o amargo reprimir e remediar<br />pela doçura de amar, ensinar, prevenir, <br />e juntos descobrir.<br />
“Só a participação cidadã <br />é capaz de mudar esse país.”<br />Betinho<br />
Um outro mundo é possível.<br />
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Drogas - Um problema de todos

  1. 1.
  2. 2. DROGAS<br />– uma guerra perdida?<br />
  3. 3. Dos males da <br />modernidade,<br />talvez nenhum <br />se equipare <br />à ampla proliferação <br />das drogas.<br />
  4. 4. Vidas individuais <br />e famílias reduzidas <br />a farrapo e escombro <br />diante do flagelo do vício.<br />
  5. 5. Numa esquina qualquer, de uma cracolândia qualquer, de uma cidade brasileira qualquer, <br />um jovem acende um cachimbo de crack. <br />
  6. 6. Quantas vidas ainda serão <br />reduzidas a farrapos, <br />quantos destinos ainda haverão <br />de se perder para sempre?<br />
  7. 7. Para se entender a devastadora epidemia <br />das drogas que assola a nossa sociedade, <br />é preciso analisar o tema sob uma <br />perspectiva mais ampla.<br />
  8. 8. Não se pode abordar o tema sem fazer referência <br />às nossas fronteiras nacionais.<br />
  9. 9. No cenário <br />da geopolítica global, o Brasil ocupa uma posição de relevância na complexa rede internacional <br />do narcotráfico.<br />
  10. 10. O país possui cerca de 15 mil quilômetros <br />de fronteiras,<br />com fiscalização muito deficiente ou mesmo inexistente,...<br />
  11. 11. ...e alguns países vizinhos elencados <br /> entre os maiores produtores mundiais de drogas. <br />
  12. 12. Colômbia<br />Maior produtor mundial de cocaína, <br />com 68 mil hectares <br />de cultivo de coca.<br />
  13. 13. Colômbia<br />(68 mil hectares)<br />Peru <br />Segundo maior <br />produtor de cocaína, com 59,9 mil hectares.<br />Seguida a tendência atual, deverá superar<br />a Colômbia nos próximos anos. <br />
  14. 14. Colômbia<br />(68 mil hectares)<br />Peru <br />(59,9 mil hectares)<br />Bolívia<br />Terceiro maior produtor mundial de cocaína, <br />com 30,9 mil hectares <br />de cultivo de coca.<br />
  15. 15. Colômbia<br />(68 mil hectares)<br />Peru <br />(59,9 mil hectares)<br />Bolívia<br />(30,9 mil hectares)<br />Paraguai <br />Segundo maior produtor mundial de maconha, atrás apenas do México.<br />
  16. 16. O que leva <br />os países <br />andinos a <br />produzir tanta <br />droga são<br />essencialmente<br />questões econômicas. <br />
  17. 17. A maior parte <br />dos que se dedicam <br />aos cultivos não são narcotraficantes,<br />mas produtores <br />rurais miseráveis, vislumbrando um lucro superior <br />ao que obteriam <br />caso se dedicassem <br />a plantações tradicionais de hortifrutigranjeiros.<br />
  18. 18. O processo de refino, transporte e comercialização <br />da droga tem <br />rendido aos narcotraficantes<br /> lucros astronômicos. <br />Segundo a ONU,<br />o tráfico de drogas movimenta anualmente em <br />todo o mundo <br />cerca de 500 bilhões <br />de dólares.<br />
  19. 19. Grande parte da cocaína produzida <br />nos países andinos atravessa as <br />fronteiras rumo ao território brasileiro,<br />seja para envio posterior à Europa e América do Norte,<br />seja para distribuição no mercado nacional brasileiro.<br />
  20. 20. O mapa ao lado mostra a extensão do limite fronteiriço do Brasil com os três maiores produtores mundiais de cocaína <br />– responsáveis por praticamente 100% <br />da produção <br />mundial.<br />O mapa permite visualizar a <br />dimensão do problema que o Brasil enfrenta.<br />
  21. 21. Este mapa mostra a dinâmica de distribuição <br />da cocaína produzida pelos países andinos.<br />
  22. 22. Grande parte da droga segue para a América <br />do Norte, enquanto outra parte segue, <br />via território brasileiro, para a Europa. <br />
  23. 23. Uma crescente parcela da cocaína produzida se destina ao mercado consumidor brasileiro, que tem crescido consideravelmente nos últimos anos.<br />
  24. 24. Num mundo globalizado, caracterizado pela <br />fluidez das transações comerciais, o crime organizado segue suas atividades a pleno vapor. <br />
  25. 25. Para ilustrar a dificuldade em se deter <br />a atuação do crime organizado transnacional, <br />vejamos o exemplo dos E.U.A. <br />
  26. 26. Os E.U.A. têm enfrentado graves problemas de segurança na sua fronteira com o México, envolvendo principalmente organizações ligadas ao narcotráfico.<br />
  27. 27. Apesar de dispor de uma polícia federal dedicada exclusivamente ao combate ao tráfico, e de ter os soldados mais bem treinados e equipados do mundo, eles tem falhado sucessivamente em evitar o ingresso de carregamentos de drogas em seu território.<br />
  28. 28. Até apelaram para a construção de um muro físico<br />que separa a divisa entre os dois países, noite e dia vigiado por um forte esquema de segurança. <br />
  29. 29. Mas, vira e mexe, túneis por onde volumosos carregamentos de droga continuam passando livremente são descobertos. <br />
  30. 30. Alguns especialistas sustentam que enquanto houver gente querendo consumir droga, os traficantes darão um jeito de garantir o lucro auferido com a venda.<br />
  31. 31. Se a superpotência mundial não consegue cuidar de uma fronteira seca com um único país, que é muito mais um corredor do que produtor de drogas, <br />imagine a situação nas fronteiras brasileiras, <br />com suas dimensões continentais.<br />
  32. 32. A fronteira brasileira com a Bolívia sozinha é mais extensa do que toda a faixa entre México e E.U.A.<br />
  33. 33. Enquanto a fronteira entre México e E.U.A. é uma <br />fronteira seca e desértica, a brasileira inclui a densa floresta amazônica, com seus mil rios, lagos <br />e áreas pantanosas. <br />
  34. 34. O próprio ministro da Justiça reconheceu <br />recentemente que há um “nível elevado de vulnerabilidade” nas nossas fronteiras.<br />
  35. 35. Outras autoridades apontam <br />as fronteiras brasileiras entre <br />as mais desguarnecidas do mundo.<br />
  36. 36. Em 2010, foi lançado <br />o livro-reportagem “Fronteiras Abertas – <br />Um retrato do abandono da Aduana Brasileira”. <br />O trabalho aborda como<br /> a falta de vigilância e fiscalização permite a entrada no país de armas, drogas, munições e produtos contrabandeados, além de facilitar o ingresso e a saída<br />de criminosos, veículos roubados<br />e a remessa ilegal de dinheiro que abastece <br />toda rede de ilegalidades.<br />
  37. 37. O livro – resultado de uma viagem de dez meses que os autores empreenderam por mais de 15.000 km <br />de fronteira seca – <br />narra um cenário <br />de fronteiras <br />sem dono.<br />
  38. 38. A fragilidade de <br />nossas fronteiras está diretamente relacionada à ampla circulação de drogas nas nossas cidades – uma triste e dura realidade com <br />a qual convivemos <br />e que nos desafia <br />a buscar juntos <br />alguma saída.<br />
  39. 39. Um levantamento realizado pela Confederação Nacional dos <br />Municípios em 2010 constatou que 98% dos municípios do país enfrentam problemas de circulação e consumo de crack.<br />
  40. 40. Segundo o Centro Brasileiro de <br />Informações sobre Drogas <br />Psicotrópicas, <br />a droga é hoje <br />uma ameaça onipresente.<br />
  41. 41. Já que a produção e comercialização das drogas encontram-se longe de serem adequadamente combatidas, vamos refletir um pouco sobre a outra ponta do processo do tráfico: <br />o usuário.<br />
  42. 42. O que é que leva uma <br />pessoa a embarcar <br />no risco suicida <br />que as drogas representam?<br />Os usuários podem ser agrupados em duas categorias básicas.<br />
  43. 43. De um lado, temos a categoria de usuários formada pela parcela “invisível”, excluída, esquecida e ignorada <br />da sociedade. <br />Moradores de rua <br />e crianças e adolescentes <br />em situação de risco social,<br />que muitas vezes recorrem às drogas para amenizar <br />a vivência de rua, <br />e sua amarga rotina de fome e frio, abusos, privações, humilhações e violência. <br />
  44. 44. Nas décadas de <br />1980 e 1990, crianças<br /> de rua tinham <br />na cola de sapateiro <br />a principal droga <br />de escolha. <br />Cola de Sapateiro:<br />Solvente e inalante, cujas substâncias básicas são <br />o tolueno e o benzeno, depressoras do Sistema Nervoso Central. <br />
  45. 45. A aspiração da cola de sapateiro causa euforia, desinibição, alteração <br />das percepções, insensibilidade à dor, fome e cansaço.<br />Pode causar <br />alterações na respiração, culminando com a <br />morte do usuário.<br />
  46. 46. Na época, políticos e governantes se fizeram <br />de cegos diante<br /> do problema.<br />Disseram: “Não temos nada a ver com isso.”<br />A sociedade civil <br />também se fez de surda, tratando com frio descaso <br />o abandono social.<br />E dissemos: “Não é <br />problema nosso tampouco.”<br />
  47. 47. Passaram-se <br />duas décadas <br />e o problema <br />se agravou <br />drasticamente.<br />
  48. 48. Crianças e adolescentes ao relento e expostos às mazelas e durezas da vivência de rua, que ontem cheiravam cola, hoje se tornaram escravos de <br />drogas muito mais devastadoras: o crack e o oxi. <br />
  49. 49. Crack/Oxi: subprodutos da cocaína misturados <br />a soda cáustica ou bicarbonato de sódio; <br />– são cinco vezes mais potentes que a cocaína, <br />produzindo dependência com muita facilidade. <br />
  50. 50. A fumaça chega ao cérebro com velocidade e potência extremas, causando problemas respiratórios agudos.<br />Produzem uma sensação de confiança, poder e excitação, seguida por um período de depressão, paranoia, com alucinações e delírios.<br />Não raro, <br />tornam o usuário <br />violento e suicida <br />em potencial. <br />
  51. 51. A expectativa de vida dos usuários <br />gira entre quatro e oito anos,<br />– crianças e adolescentes que <br />não chegarão à idade adulta. <br />
  52. 52. O tratamento para a recuperação de usuários <br />é muito complexo, e o completo descaso e <br />despreparo das instâncias públicas no trato da questão faz com que a reabilitação psicossocial <br />seja uma possibilidade bastante remota.<br />
  53. 53. A fuga. A ilusão de identidade,<br />de satisfação, de plenitude.<br />A sensação de preencher o vazio, <br />a fome e o abandono social.<br />
  54. 54. Além dos moradores <br />de rua, vítimas do <br />abandono e descaso social, <br />há uma outra <br />categoria de usuários,<br />formada por jovens <br />que tiveram condições sociais privilegiadas. <br />
  55. 55. Ao contrário da cruel invisibilidade social que acomete as camadas que sobrevivem à margem <br />da sociedade, <br />estes jovens têm<br />nome e sobrenome,<br />possuem lares, <br />álbuns de fotografias, <br />pais e famílias.<br />
  56. 56. Tiveram acesso <br />a boas escolas e<br />a uma educação que teoricamente os <br />deveria ter prevenido sobre a viagem <br />geralmente sem volta <br />que é o mundo <br />do vício.<br />
  57. 57. Não foi a <br />miséria material<br />que os empurrou<br />para o vício, <br />mas uma outra <br />forma de miséria, <br />a existencial e afetiva.<br />
  58. 58. Cristiane Gaidies, conhecida pelo apelido <br />de “Maçãzinha”, era uma jovem de cabelos cor de mel, olhos expressivos <br />e sorriso claro.<br />Filha de uma psicóloga <br />e um dentista, dormia até os 18 anos abraçada <br />ao ursinho de pelúcia.<br />Como tantas jovens de sua idade, gostava de ir a shopping centers, festas e shows de rock. <br />
  59. 59. Aos 19 anos, abandona <br />os amigos e envolve-se <br />com maconha e crack. <br />A família tenta de tudo,<br />– diálogos, terapeutas, psiquiatras, mudanças, internação numa clínica especializada.<br />“Ela sumia de casa, ficava vagando pelas ruas fumando crack e depois reaparecia parecendo uma mendiga”, lembra a mãe. <br />
  60. 60. A ex-estudante de classe média torna-se aos 20 <br />anos uma andarilha <br />das ruas de São Paulo,<br />uma nômade urbana, praticante de pequenos furtos para alimentar <br />seu vício.<br />Numa noite, tenta roubar <br />um toca-fitas, exigido por <br />um traficante que a abastece.<br />É o preço da droga.<br />
  61. 61. O dono do veículo, <br />um jovem empresário, presencia a cena, <br />e do alto do seu apartamento no 12ºandar dispara contra o estacionamento do prédio com o objetivo de afugentar os ladrões.<br />O tiro, que era para ser de advertência, atinge em cheio a frágil jovem pelas costas.<br />
  62. 62. Ela ainda se arrasta por 30 metros antes de cair sem vida no asfalto manchado de vermelho.<br />No bolso traseiro de <br />sua calça levava <br />um cachimbo de crack,<br />feito de uma tampa de tubo de pasta de dente <br />e uma antena oca <br />de rádio de carro.<br />
  63. 63. A outrora adolescente de cabelos cor de mel, olhos expressivos e sorriso claro<br />passou seus últimos dias...<br />...num casarão abandonado, <br />sujo e úmido, em companhia <br />de prostitutas, travestis,<br />mendigos e viciados.<br />
  64. 64. Desde muito jovem <br />Nelson dal Poggetto sabia o que era sofrer.<br />Ao 12 anos começou sua aflitiva jornada pelo mundo das drogas,<br />iniciando com álcool e maconha, para em seguida passar para cocaína <br />e crack. <br />
  65. 65. Internado duas vezes, volta a fumar o cachimbinho de crack pouco tempo depois <br />de receber alta. <br />Durante as recaídas, <br />troca celular e outros pertences por droga, <br />mergulhando num ciclo <br />de depressão e arrependimento.<br />
  66. 66. Aos 19 anos, antes de cometer suicídio, deixa <br />um bilhete de despedida para a família:...<br />“Amei muito vocês <br />e vou tranquilo. <br />Isso vai ser <br />um alívio”. <br />
  67. 67. Adriana de Oliveira <br />era uma garota linda e cheia de sonhos, <br />tida por todos que a conheciam como uma<br />pessoa meiga, doce, brincalhona e <br />amante da vida.<br />Era boa aluna na escola, <br />e tocava piano.<br />
  68. 68. A jovem de 20 anos, <br />de olhos azulados, <br />pele morena e cabelos escorridos pelos ombros<br /> iniciava uma promissora carreira como modelo. <br />Parecia ser uma dessas pessoas abençoadas, para quem nada dá errado na vida.<br />
  69. 69. No entanto, a vida de Adriana toma um outro rumo após o namorado, <br />um rapaz que cursa o 3º <br />ano de direito e filho de um bem-sucedido advogado,<br />a apresentar ao <br />mundo das drogas.<br />
  70. 70. Quão tênue e vulnerável <br />é a linha que separa <br />a experimentação <br />e o uso recreativo <br />do risco potencial que <br />as drogas representam.<br />
  71. 71. Durante uma festa <br />numa chácara, <br />Adriana passa mal, <br />sente dificuldades para respirar e apresenta um quadro convulsivo. <br />Ao ser transportada <br />para o pronto-socorro <br />já é tarde demais. <br />
  72. 72. O laudo médico <br />revela a causa <br />da morte:<br />– uma mistura <br />fatal de álcool, <br />maconha e cocaína.<br />Mais uma precoce partida, aos 20 anos.<br />Mais uma história <br />interrompida pelo álcool, <br />pela maconha e cocaína. <br />
  73. 73. Diante das histórias <br />de Adriana, Nelson, <br />Cristiane e de tantos outros jovens, <br />talvez seja hora de refletirmos sobre os valores que norteiam <br />a nossa sociedade.<br />
  74. 74. Uma sociedade de consumo voraz, que transformou a busca do prazer imediato e da satisfação numa condição existencial essencial. <br />
  75. 75. Jovens desorientados, <br />que buscam nos prazeres ilusórios uma forma de <br />se libertar do peso de <br />uma sociedade que desumanizou o homem e humanizou o dinheiro <br />e os bens materiais.<br />
  76. 76. Tristes retratos <br />do fracasso dos laços <br />de sociabilidade familiar <br />e comunitária. <br />O desamor e o não-reconhecimento afetivo <br />servindo de pilares para uma vivência vazia.<br />
  77. 77. Que sociedade é <br />esta que construímos, <br />tão repleta de valores desvirtuados?<br />Talvez seja hora de,<br />enfim, refletirmos com <br />mais atenção sobre <br />o impacto devastador <br />da nossa atual <br />programação televisiva, <br />que golpeia especialmente, com cruel violência, crianças, jovens e adolescentes.<br />
  78. 78. Anúncios que associam a felicidade e <br />o bem-estar ao consumo de bebidas alcoólicas.<br />(uma droga tão ou mais nociva que as ilícitas)<br />
  79. 79. Artistas com imenso apelo junto ao público infanto-juvenil servindo de “exemplo” para gerações de crianças e adolescentes.<br />
  80. 80. Empresários, artistas, publicitários <br />e donos de emissoras de tv faturam bilhões.<br />E nós arcamos com os danos e custos sociais decorrentes.<br />
  81. 81. Programas que massacram<br /> a subjetividade e anulam<br /> o senso crítico, <br />banalizando e mercantilizando <br />a existência.<br />
  82. 82. “Vamos bisbilhotar”<br /> “Pode espiar à vontade”<br />“Pra que educação, arte ou cultura?”<br />“Vamos banalizar a existência”<br />“Viva a futilidade!”<br />
  83. 83. A torrente abusiva de publicidade <br />que invade os lares e formata a <br />mente de crianças e adolescentes<br />desde a mais tenra idade.<br />
  84. 84. A mensagem impregnada em mentes indefesas, de que somos o que possuímos, <br />e que viver se resume a consumir.<br />
  85. 85. “Troque de carro, troque de celular, <br />beba mais cerveja, etc. etc. etc...”<br />
  86. 86. Uma vida centrada em bens materiais,<br />uma existência sem um sentido <br />ou propósito mais nobre.<br />
  87. 87. Nada melhor do que <br />a televisão para preencher <br />uma vida vazia, <br />carente de aspirações elevadas <br />e sem padrões <br />morais firmes...<br />
  88. 88. Não seria uma vida vazia de propósito, sentido e conteúdo <br />uma porta de fácil entrada para o <br />abuso do álcool, <br />a maconha, a cocaína, <br />o crack e todas as demais drogas que entorpecem <br />a mente? <br />
  89. 89. Talvez seja hora de refletirmos sobre como <br />a atual programação televisiva está contribuindo para <br />solapar as bases éticas <br />e morais necessárias <br />para que crianças, jovens <br />e adolescentes possam resistir às falsas promessas que as drogas (lícitas e ilícitas) oferecem.<br />
  90. 90. Acreditar que as forças policiais conseguirão sozinhas algum dia resolver o problema das drogas <br />é ignorar as causas reais <br />que alimentam a degradação moral, <br />e o tráfico e vício subsequentes.<br />
  91. 91. O máximo que as forças policiais isoladamente conseguirão é prosseguir na sua heroica tarefa de “enxugar gelo”,...<br />...entupindo cada vez mais e mais e mais<br />as já desumanas e superlotadas prisões.<br />
  92. 92. Para reverter a batalha <br />contra as drogas, devemos buscar novos paradigmas sociais e existenciais.<br />Buscar corrigir as causas estruturais que<br />conduzem ao vício que alimenta o tráfico.<br />
  93. 93. Vejamos alguns componentes do nosso complexo <br />mosaico social <br />tão repleto de falhas, <br />que precisam ser <br />discutidas e sanadas <br />caso queiramos <br />construir uma sociedade <br />soberana e livre:... <br />
  94. 94. s<br />s<br />Corrupção Política<br />Graves Desigualdades Sociais<br />s<br />s<br />Baixa qualidade da Educação<br />Uso de <br />Drogas Ilícitas<br />s<br />Criminalidade <br />e Violência<br />s<br />Consumo de Bebidas Alcoólicas <br />Pobreza Moral <br />e Cultural<br />Individualismo Exacerbado<br />Programação Televisiva<br />Materialismo<br /> e Consumismo<br />s<br />
  95. 95. s<br />s<br />Corrupção Política<br />Graves Desigualdades Sociais<br />s<br />s<br />Talvez seja hora <br />de acordarmos <br />para o fato de que<br />a epidemia <br />das drogas é apenas <br />um dos sintomas <br />de um problema <br />muito mais amplo,<br />Baixa qualidade da Educação<br />Uso de <br />Drogas Ilícitas<br />s<br />Criminalidade <br />e Violência<br />s<br />Consumo de Bebidas Alcoólicas <br />Pobreza Moral <br />e Cultural<br />Individualismo Exacerbado<br />que encontra sua origem <br />no grave descaso <br />com a Educação <br />e a Infância no país. <br />Programação Televisiva<br />Materialismo<br /> e Consumismo<br />s<br />
  96. 96. O escritor <br />José Saramago dizia: <br />“Para se acabar com as velhas prisões,<br />É necessário construir novas escolas.” <br />
  97. 97. “No Brasil, a educação das massas <br />ainda é uma utopia verde-amarela.”<br />Silviano Santiago<br />
  98. 98. Na guerra contra as drogas, <br />mais importante do que soldados e policiais são os professores e educadores.<br />
  99. 99. Uma educação plena, capaz de transmitir valores e virtudes, conduzindo<br />cada criança em direção à sua plenitude.<br />
  100. 100. Uma educação capaz de <br />banhar de sentido, propósito <br />e bondade as vidas que iniciam <br />sua jornada pelos caminhos do mundo.<br />
  101. 101. O legítimo anseio que todos trazemos no peito, de descobrir por que existimos, <br />e de revestir os nossos dias de beleza, poesia, <br />propósito e dignidade.<br />
  102. 102. O desejo de “ver com olhos livres”.<br />A “alegria dos que <br />não sabem e descobrem”.<br />
  103. 103. Há que se cuidar do broto,<br />para que a vida nos dê flor e fruto. <br />
  104. 104. Trocar o amargo reprimir e remediar<br />pela doçura de amar, ensinar, prevenir, <br />e juntos descobrir.<br />
  105. 105. “Só a participação cidadã <br />é capaz de mudar esse país.”<br />Betinho<br />
  106. 106. Um outro mundo é possível.<br />
  107. 107. Projeto “Compaixão e Cidadania”<br />Um espaço para refletirmos sobre temas essenciais.<br />compaixao_cidadania@hotmail.com <br />

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