Memorial Do Convento

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Análise literária do "Memorial do Convento"

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  • Memorial Do Convento

    1. 1. O Memorial do Convento , de José Saramago (1982) Apontamentos
    2. 2. apontamen tos
    3. 3. Linguagem e estilo <ul><li>Cada frase, ou discurso, ou o período, cria-se dentro de mim mais como uma fala do que como uma escrita . A possibilidade da espontaneidade, a possibilidade do discurso em linha recta, enfim, a direito, é muito maior do que se eu me colocasse na posição de quem escreve. No fundo, ao escrever estou colocado na posição de quem fala .” </li></ul><ul><li>José Saramago, in Conversas, Mário Ventura, Publ. Dom Quixote, 1986 </li></ul>
    4. 4. Linguagem e estilo <ul><li>Uma das características mais notórias de José Saramago é a utilização peculiar da pontuação. </li></ul><ul><li>Principal marca: nas passagens do discurso directo: </li></ul><ul><ul><ul><li>eliminação do travessão e dos dois pontos; </li></ul></ul></ul><ul><ul><ul><li>a substituição do ponto de interrogação e de outros sinais de pontuação pela vírgula; </li></ul></ul></ul><ul><ul><ul><li>sendo o início de cada fala apenas assinalado pela maiúscula. </li></ul></ul></ul><ul><li>Características do discurso (fotocópia). </li></ul>
    5. 5. LER EM VOZ ALTA <ul><li>&quot;Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.&quot; </li></ul><ul><li>[pág. 56] </li></ul>
    6. 6. ACÇÃO - estrutura <ul><li>A obra está dividida em 25 capítulos, apesar de estes não estarem numerados ou titulados </li></ul>
    7. 7. Narrador (quanto à participação) <ul><li>Geralmente, é HETERODIEGÉTICO (surge na terceira pessoa e não participa na acção); </li></ul><ul><li>PORÉM, por vezes, assume o ponto de vista de algumas personagens (assumindo a primeira pessoa do singular e até do plural) HOMODIEGÉTICO (p. 35); </li></ul><ul><li>Isso acontece porque o narrador assume o pensamento de algumas personagens ou identifica-se com elas. </li></ul>
    8. 8. NARRADOR (focalização) <ul><li>Geralmente, o narrador assume uma focalização omnisciente </li></ul><ul><li>Tem uma perspectiva transcendente em relação às personagens e move-se à vontade no tempo, saltando facilmente entre passado, presente e futuro. </li></ul><ul><li>- A localização temporal do narrador e suas consequências, p. 266, man. p.292, </li></ul>
    9. 9. Focalização omnisciente <ul><ul><li>&quot;Mas também não faltam lazeres, por isso, quando a comichão aperta, Baltasar pousa a cabeça no regaço de Blimunda e ela cata-lhe os bichos, que não é de espantar terem-nos os apaixonados e os construtores de aeronaves, se tal palavra já se diz nestas épocas, como se vai dizendo armistício em vez de pazes. &quot; [pág. 93] </li></ul></ul><ul><ul><li>&quot;Mas em Lisboa dirá o guarda-livros a el-rei, Saiba vossa majestade que na inauguração do convento de Mafra se gastaram, números redondos, duzentos mil cruzados, e el-rei respondeu, Põe na conta, disse-o porque ainda estamos no princípio da obra, um dia virá em que quereremos saber, Afinal, quanto terá custado aquilo, e ninguém dará satisfação dos dinheiros gastos, nem facturas, nem recibos, nem boletins de registo de importação, sem falar de mortes e sacrifícios, que esses são baratos. &quot; [pág. 143] </li></ul></ul>
    10. 10. Focalização interna Outras vezes, o narrador assume momentaneamente a perspectiva das personagens que vivem a acção, conferindo mais vivacidade e verosimilhança à narrativa ( p. 156 – descrição da procissão, p.295, diap. 11) <ul><li>Os encaixes das narrativas, p.239-243 ; </li></ul><ul><li>O ajuste vocabular à época, p. 253-254, 293-294, diap. 9 </li></ul>
    11. 11. EXEMPLO <ul><li>&quot;Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham as mulheres debruçadas dos peitoris, alanzoam os frades, a procissão é uma serpente enorme que não cabe direita no Rossio e por isso se vai curvando e recurvando como se determinasse chegar a toda a parte ou oferecer o espectáculo edificante a toda a cidade, aquele que ali vai é Simeão de Oliveira e Sousa, sem mester nem benefício, mas que do Santo Ofício declarava ser qualificador, e sendo secular dizia missa, confessava e pregava, e ao mesmo, tempo que isto fazia proclamava ser herege e judeu, raro se viu confusão assim, (...) por toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola (...) </li></ul><ul><li>[págs. 52-53] </li></ul>
    12. 12. PERSONAGENS <ul><li>D. JOÃO V </li></ul><ul><li>D. João V representa o poder real absolutista que condena uma nação a servir a sua religiosidade fanática e a sua vaidade . </li></ul><ul><li>Cumpridor dos seus deveres de marido e de rei, D. João V assume apenas o papel gerativo de um filho e de um convento , numa dimensão procriadora, da qual a intimidade e o amor se encontram ausentes. </li></ul>
    13. 13. PERSONAGENS D. JOÃO V <ul><li>Amante dos prazeres humanos , a figura real é construída através do olhar crítico do narrador, de forma multifacetada: </li></ul><ul><ul><ul><li>é o devoto fanático que submete um país inteiro ao cumprimento de uma promessa pessoal (a construção do convento, de modo a garantir a sucessão) e que assiste aos autos-de-fé; </li></ul></ul></ul><ul><ul><ul><li>é o marido que não evidencia qualquer sentimento amoroso pela rainha , apresentando nesta relação uma faceta quase animalesca, enfatizado pela utilização de vocábulos que remetem para esta ideia (como a forma verbal&quot; emprenhou&quot; e o adjectivo &quot;cobridor&quot;); </li></ul></ul></ul>
    14. 14. <ul><ul><ul><li>é o megalómano que desvia as riquezas nacionais para manter uma corte dominado pelo luxo, pela corrupção e pelo excesso; </li></ul></ul></ul><ul><ul><ul><li>é o rei vaidoso que se equipara o Deus nas suas relações com as religiosas; é o curioso que se interessa pelas invenções do padre Bartolomeu de Gusmão; </li></ul></ul></ul>PERSONAGENS D. JOÃO V
    15. 15. <ul><ul><ul><li>é o esteta que convida Domenico Scarlatti a permanecer em Portugal; </li></ul></ul></ul><ul><ul><ul><li>é o homem que teme a morte e que antecipa a sua imortalidade , através da sagração do convento no dia do seu quadragésimo primeiro aniversário. </li></ul></ul></ul>PERSONAGENS D. JOÃO V
    16. 16. PERSONAGENS <ul><li>D. MARIA ANA JOSEFA </li></ul><ul><li>A rainha representa a mulher que só através do sonho se liberta da sua condição aristocrática para assumir a sua feminilidade. </li></ul><ul><li>D. Maria Ana é caracterizada como uma mulher </li></ul><ul><ul><ul><ul><ul><li>passiva , </li></ul></ul></ul></ul></ul><ul><ul><ul><ul><ul><li>insatisfeita , </li></ul></ul></ul></ul></ul><ul><ul><ul><ul><ul><li>que vive um casamento baseado na aparência , na sexualidade reprimida e num falso código ético, moral e religioso. </li></ul></ul></ul></ul></ul>
    17. 17. PERSONAGENS D. MARIA ANA JOSEFA <ul><li>A transgressão onírica é a única expressão da rainha que sucumbe, posteriormente, ao sentimento de culpa. A pecaminosa atracção incestuosa que sente por D. Francisco, seu cunhado, conduzem-na a uma busca constante de redenção através da oração e da confissão. - COMPLEXO DE CULPA. </li></ul><ul><li>A rainha vive num ambiente repressivo , cujas proibições regem a sua existência e para a qual não há fuga possível, a não ser através do sonho, onde pode explorar a sua sensualidade. </li></ul><ul><li>Consciente da virilidade e da infidelidade do marido (abundam os filhos bastardos), D. Maria Ana assume uma atitude de passividade e de infelicidade perante a vida . </li></ul>
    18. 18. PERSONAGENS <ul><li>BALTASAR SETE-SÓIS </li></ul><ul><li>Baltasar Mateus é um dos membros do casal protagonista da narrativa. </li></ul><ul><li>Representa a crítica do narrador à desumanidade da guerra , uma vez que participa na Guerra da Sucessão (1704-1712) e, depois de perder a mão esquerda, é excluído do exército. </li></ul>
    19. 19. PERSONAGENS BALTASAR SETE-SÓIS <ul><li>Construído enquanto arquétipo da condição humana , Baltasar Sete-Sóis é um homem pragmático e simples , que assume o papel de demiurgo na construção da passarola (ao realizar o sonho de Bartolomeu de Gusmão). </li></ul><ul><li>Participa na construção do convento e partilha, através do silêncio, a vida de Blimunda Sete-Luas. Sucumbe às mãos da Inquisição. </li></ul>
    20. 20. PERSONAGENS <ul><li>BLIMUNDA SETE-LUAS </li></ul><ul><li>Blimunda é o segundo membro do casal protagonista da narrativa. Mulher sensual e inteligente , Blimunda vive sem subterfúgios, sem regras que a condicionem e escravizem . </li></ul><ul><li>Dotada de poderes invulgares , como a mãe, escolhe Baltasar para partilhar a sua vida, numa existência de amor pleno, de liberdade, sem compromissos e sem culpa. </li></ul>
    21. 21. PERSONAGENS BLIMUNDA SETE-LUAS <ul><li>Blimunda representa o transcendente e a inquietação constante do ser humano em relação à morte, ao amor, ao pecado e à existência de Deus. </li></ul><ul><li>O seu dom particular (ecovisão) transfigura esta personagem, aproximando-a da espiritualidade da música de Scarlatti e do sonho de Bartolomeu de Gusmão. </li></ul><ul><li>Ao visualizar a essência dos que a rodeiam, Blimunda transgride os códigos existentes e percepciona a hipocrisia e a mentira. </li></ul>
    22. 22. PERSONAGENS <ul><li>FREI BARTOLOMEU LOURENÇO DE GUSMÃO </li></ul><ul><li>O padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão representa as novas ideias que causavam estranheza na inculta sociedade portuguesa. </li></ul><ul><li>Estrangeirado , Bartolomeu de Gusmão tornou-se um alvo apetecido do chacota da corte e da Inquisição , apesar da protecção real. </li></ul><ul><li>Homem curioso e grande orador sacro (a sua fama aproxima-o do padre António Vieira). </li></ul>
    23. 23. PERSONAGENS BARTOLOMEU DE GUSMÃO <ul><li>Bartolomeu de Gusmão evidenciou, ao longo da obra, uma profunda crise de fé , a que as leituras diversificadas e a postura &quot;antidogmática &quot; não serão alheios, numa busca incessante do saber . </li></ul><ul><li>A sua personagem risível - era conhecido por &quot;Voador&quot; - torna-o elemento catalisador do voo do passarola , conjuntamente com Baltasar e Blimunda. </li></ul><ul><li>A tríade corporiza o sonho e o empenho tornados realidade , a par da desgraça, também ela, partilhada (loucura e morte, em Toledo, de Bartolomeu de Gusmão, morte de Baltasar Sete-Sóis no auto-de-fé e solidão de Blimunda). </li></ul>
    24. 24. PERSONAGENS <ul><li>DOMENICO SCARLATTI </li></ul><ul><li>Scarlatti representa a arte que, </li></ul><ul><li>aliada ao sonho , </li></ul><ul><li>permite a cura de Blimunda e possibilita a conclusão e o voo da passarola. </li></ul>
    25. 25. <ul><li>O POVO </li></ul>PERSONAGENS
    26. 26. PERSONAGENS O POVO <ul><li>O verdadeiro protagonista de Memorial do Convento é o povo trabalhador. Espoliado, rude, violento , o povo atravessa toda a narrativa, numa construção de figuras que, embora corporizadas por Baltasar e Blimunda, tipificam a massa colectiva e anónima que construiu, de facto, o convento. </li></ul><ul><li>A crítica e o olhar mordaz do narrador enfatizam a escravidão a que foram sujeitos quarenta mil portugueses, para alimentar o sonho de um rei megalómano ao qual se atribui a edificação do Convento de Mafra. </li></ul>
    27. 27. PERSONAGENS O POVO <ul><li>A necessidade de individualizar personagens que representam a força motriz que erigiu o palácio-convento , sob um regime opressivo, é a verdadeira elegia de Saramago para todos aqueles que, embora ficcionais, traduzem a essência de ser português: </li></ul><ul><li>GRANDES FEITOS, COM GRANDE ESFORÇO E CAPACIDADE DE SOFRIMENTO </li></ul>
    28. 28. Espaço <ul><li>São dois os espaços físicos nos quais se desenrola a acção: Lisboa e Mafra . </li></ul><ul><li>Lisboa, enquanto macroespaço, integra outros espaços: </li></ul><ul><li>TERREIRO DO PAÇO, </li></ul><ul><li>ROSSIO </li></ul><ul><li>E SÃO SEBASTIÃO DA PEDREIRA </li></ul>O espaço físico
    29. 29. Espaço físico <ul><li>Terreiro do Paço </li></ul><ul><li>Local onde Baltasar trabalha num açougue , após a sua chegada a Lisboa. É onde decorre a procissão do Corpo de Deus. </li></ul><ul><li>Rossio </li></ul><ul><li>Este espaço aparece no início da obra como o local onde decorrem o auto-de-fé e a procissão da Quaresma ou dos penitentes. </li></ul><ul><li>S. Sebastião da Pedreira </li></ul><ul><li>Trata-se de um espaço relacionado com a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão, ligada, assim, ao carácter mítico da máquina voadora. No época, S. Sebastião da Pedreira era um espaço rural , onde existiam várias quintas que integravam palacetes. </li></ul>
    30. 30. Espaço físico Mafra <ul><li>Mafra é o segundo macroespaço. Até à construção do convento, a vida de Mafra decorria na vila velha e no antigo castelo , próximo da igreja de Sto. André. </li></ul><ul><li>A Vela foi o local escolhido para a construção do convento, que deu lugar à vila nova, à volta do edifício. Nas imediações da obra, surge a &quot;Ilha da Madeira &quot;, onde começaram por se alojar dez mil trabalhadores, ascendendo, mais tarde, a quarenta mil . </li></ul><ul><li>Além de Mafra, são ainda referidos espaços como Pêro Pinheiro, </li></ul><ul><li>a serra do Barregudo, Monte Junto e Torres Vedras . </li></ul>
    31. 31. O espaço social <ul><li>O espaço social </li></ul><ul><li>o espaço social é construído, na obra, através do relato de determinados momentos (ou episódios) e do percurso de personagens que tipificam um determinado grupo social , caracterizando-o. </li></ul><ul><li>Ao nível da construção do espaço social, destacam-se os seguintes momentos: </li></ul><ul><ul><ul><ul><li>PROCISSÃO DA QUARESMA </li></ul></ul></ul></ul><ul><ul><ul><ul><li>AUTOS-DE-FÉ </li></ul></ul></ul></ul><ul><ul><ul><ul><li>A TOURADA, (p.101 e ss) </li></ul></ul></ul></ul><ul><ul><ul><ul><li>PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS </li></ul></ul></ul></ul><ul><ul><ul><ul><li>O TRABALHO NO CONVENTO </li></ul></ul></ul></ul>
    32. 32. O espaço social Procissão da Quaresma <ul><li>Procissão da Quaresma </li></ul><ul><ul><ul><li>excessos praticados durante o Entrudo (satisfação dos prazeres carnais) e brincadeiras carnavalescas - as pessoas comiam e bebiam demasiado, davam &quot;umbigadas pelas esquinas&quot;, atiravam água à cara umas das outras, batiam nas mais desprevenidas, tocavam gaitas, espojavam-se nas ruas. </li></ul></ul></ul><ul><ul><ul><li>penitência física e mortificação da alma após os desregramentos durante o Entrudo (é tempo de &quot;mortificar a alma para que o corpo finja arrepender-se”) </li></ul></ul></ul>
    33. 33. O espaço social Procissão da Quaresma, p.28 <ul><li>descrição da procissão (os penitentes à cabeça, atrás dos frades, o bispo, as imagens nos andares, as confrarias e as irmandades) </li></ul><ul><li>manifestações de fé que tocavam a histeria (as pessoas arrastam-se pelo chão, arranham-se, puxam os cabelos, esbofeteiam-se) enquanto o bispo faz sinais da cruz e um acólito balança o incensório; os penitentes recorrem à autoflagelação </li></ul><ul><li>o narrador afirma que, apesar da tentativa de purificação através do incenso, Lisboa permanecia uma cidade suja , caótica e as suas gentes eram dominadas pela hipocrisia de uma alma que, ironicamente, este define como &quot;perfumada“. </li></ul>
    34. 34. O espaço social Autos-de-fé
    35. 35. O espaço social Autos-de-fé <ul><li>Autos-de-fé (Rossio) Neste relato, são de salientar os seguintes aspectos: </li></ul><ul><li>o Rossio está novamente cheio de assistência; a população está duplamente em festa , porque é domingo e porque vai assistir a um auto-de­fé (passaram dois anos após o último evento deste tipo) </li></ul><ul><li>o narrador revela a sua dificuldade em perceber se o povo gosta mais de autos-de-fé ou de touradas, evidenciando com esta afirmação a sua ironia crítica perante um povo que revela um gosto sanguinário e procura nas emoções fortes uma forma de preencher o vazio da sua existência </li></ul>
    36. 36. O espaço social Autos-de-fé <ul><li>a assistência feminina , à janela, exibe as suas toilettes , preocupa-se com pormenores fúteis relativos à sua aparência (a segurança dos sinaizinhos no rosto, a borbulha encoberta), e aproveita a ocasião para se entregar a jogos de sedução com os pretendentes que se passeiam em baixo </li></ul><ul><li>a proximidade da morte dos condenados constitui o motivo do ambiente de festa ; esta constatação suscita, mais uma vez, a crítica do narrador - na realidade, o facto de as pessoas saberem que alguns dos sentenciados iriam, em breve, arder nas fogueiras não as inibia de se refrescarem com água, limonada e talhadas de melancia e de se consolarem com tremoços, pinhões, tâmaras e queijadas; </li></ul>
    37. 37. O espaço social Autos-de-fé <ul><li>sai a procissão - à frente os dominicanos; depois, os inquisidores </li></ul><ul><li>distinção entre os vários sentenciados (através do gorro e sambenito), assim como o crucifixo de costas voltadas, para as mulheres que irão arder na fogueira; </li></ul><ul><li>menção dos nomes de alguns dos condenados (inclusivamente,o de Sebastiana Maria de Jesus, mãe de Blimunda) </li></ul><ul><li>início da relação entre Baltasar e Blimunda </li></ul><ul><li>punição dos condenados pelo Santo Ofício - o povo dança em frente das fogueiras </li></ul>
    38. 38. O espaço social Tourada
    39. 39. O espaço social Tourada <ul><li>Tourada (Terreiro do Paço) </li></ul><ul><li>o espectáculo começa e o narrador enfatiza a forma como os touros são torturados , exibindo o sangue, as feridas, as &quot;tripas“ ao público que, em exaltação, se liberta de inibições (&quot;os homens em delírio apalpam as mulheres delirantes, e elas esfregam-se por eles sem disfarce” </li></ul>
    40. 40. O espaço social Tourada <ul><li>dois toiros saem do curro e investem contra bonecos de barro colocados na praça; de um saem coelhos que acabam por ser mortos pelos capinhas, de outro, pombas que acabam por ser apanhadas pela multidão </li></ul><ul><li>A ironia do narrador é ainda traduzida pela constatação de que, em Lisboa, as pessoas não estranham o cheiro a carne queimada, acrescentando ainda numa perspectiva crítica, que a morte dos judeus é positiva, pois os seus bens são deixados à Coroa. </li></ul>
    41. 41. O espaço social Procissão do Corpo de Deus <ul><li>descrição dos &quot;preparos da festa” feita pelo narrador, que assume o olhar do povo (as colunas, as figuras, os medalhões, as ruas toldadas, os mastros enfeitados com seda e ouro, as janelas ornamentadas com cortinas e sanefas de damasco e franjas de ouro), que se sente maravilhado com a riqueza da decoração (uma reflexão do narrador leva-o a concluir que não se verificam muitos roubos durante a cerimónia, pois o povo teme os pretos que se encontram armados à porta das lojas e os quadrilheiros , que procederiam à prisão dos infractores) </li></ul><ul><li>preparação da procissão: </li></ul>
    42. 42. O espaço social Procissão do Corpo de Deus <ul><li>referência do narrador às damas que aparecem às janelas, exibindo penteados , rivalizando com as vizinhas e gritando motes </li></ul><ul><li>à noite, passam pessoas que tocam e dançam, improvisa-se uma tourada </li></ul><ul><li>de madrugada, reúnem-se aqueles que irão formar as alas da procissão, devidamente fardados </li></ul><ul><li>preparação da procissão: </li></ul>
    43. 43. O espaço social Procissão do Corpo de Deus <ul><li>o evento começa logo de manhã cedo. </li></ul><ul><li>DESCRIÇÃO DO APARATO: </li></ul><ul><li>à frente, as bandeiras dos ofícios da Casa dos Vinte e Quatro, em primeiro lugar a dos carpinteiros em honra a S. José; atrás, a imagem de S. Jorge, os tambores, os trombeteiros, as irmandades, o estandarte do Santíssimo Sacramento, as comunidades (de S. Francisco, capuchinhos, carmelitas, dominicanos, entre outros) e o rei, atrás, segurando uma vara dourada, Cristo crucificado e cantores de hinos sacros </li></ul><ul><li>realização da procissão: </li></ul>
    44. 44. O espaço social Procissão do Corpo de Deus <ul><li>crítica do narrador às crenças e interditos religiosos ; </li></ul><ul><li>visão oficial da procissão como forma de purificação das almas, que tentam libertar-se dos pecados cometidos </li></ul><ul><li>CRÍTICA DO NARRADOR: </li></ul>
    45. 45. O espaço social Procissão do Corpo de Deus <ul><li>Censura ao luxo da igreja e à luxúria do Rei </li></ul><ul><li>histeria colectiva das pessoas que se batem a si próprias e aos outros como manifestação da sua condição de pecadores </li></ul><ul><li>CRÍTICA DO NARRADOR: </li></ul>
    46. 46. EM SÍNTESE <ul><li>As procissões e os autos-de-fé caracterizam Lisboa como um espaço caótico , dominado por rituais religiosos cujo efeito exorcizante esconjura um mal momentâneo que motiva a exaltação absurda que envolve os habitantes . </li></ul><ul><li>A desmistificação dos dogmas e a crítica irónica do narrador ao </li></ul><ul><li>clero subjazem ao ideário marxista que condena a religião enquanto &quot;ópio do povo&quot;, isto é, condena-se a visão redutora do mundo apresentada pela Igreja , que condiciona os comportamentos, manipula os sentimentos e conduz os fiéis a atitudes estereotipadas. </li></ul><ul><li>A violência das touradas ou dos autos-de-fé apraz ao povo que, obscuro e ignorante , se diverte sensualmente com as imagens de morte, esquecendo a miséria em que vive. </li></ul>
    47. 47. O TRABALHO NO CONVENTO <ul><li>Mafra simboliza o espaço da servidão desumana a que D. João V sujeitou todos os seus súbditos para alimentar a sua vaidade . </li></ul><ul><li>Vivendo em condições deploráveis, os cerca de quarenta mil portugueses foram obrigados , à força de armas, o abandonar as suas casas e a erigir o convento para cumprir a promessa do seu rei e aumentar a sua glória. </li></ul>
    48. 48. Espaço psicológico <ul><li>o espaço psicológico é constituído pelo conjunto de elementos que traduz a interioridade das personagens. Nesta obra, o espaço psicológico é constituído fundamentalmente através de dois processos : os sonhos das personagens , que funcionam como forma de caracterização das mesmas ou que, num processo que lhes confere densidade humana, traduzem relações com as suas vivências; e os seus pensamentos . </li></ul>
    49. 49. TEMPO
    50. 50. TEMPO O tempo diegético (tempo da história ) <ul><li>Trata-se do tempo em que decorre a acção. </li></ul><ul><li>O tempo da história é constituído por algumas datas fundamentais. </li></ul><ul><li>A acção inicia-se em 1711 . D. João V ainda não fizera vinte e dois anos e D. Maria Ana Josefa chegara há mais de dois anos da Áustria. </li></ul><ul><li>O fluir do tempo , mais do que através da recorrência a marcos cronológicos específicos, é sugerido pelas transformações sofridas pelas personagens e por alguns espaços e objectos ao longo da obra . </li></ul>
    51. 51. <ul><li>O tempo histórico </li></ul><ul><li>Logo no início do romance, podemos inferir que a acção tem início no ano de 1711 , através da seguinte referência do narrador: </li></ul><ul><li>&quot;(. ..) S. Francisco andava pelo mundo, precisamente há quinhentos anos, em mil duzentos e onze (. . .)&quot; </li></ul>TEMPO O tempo diegético (tempo da história )
    52. 52. <ul><li>Referências cronológicas </li></ul><ul><li>As referências cronológicas mais importantes são as seguintes: </li></ul><ul><li>Em 1716 , tem lugar a bênção da primeira pedra do Convento de Mafra </li></ul><ul><li>em 1717 , Baltasar e Blimunda regressam a Lisboa para trabalhar na passarola do padre Bartolomeu de Gusmão </li></ul><ul><li>em 1719 , celebra-se o casamento de D. José com Mariana Vitória e de Maria Bárbara com o príncipe D. Fernando (VI de Espanha) </li></ul><ul><li>em 1730 , mais propriamente no dia 22 de Outubro, o dia do quadragésimo primeiro aniversário do rei , realiza-se a sagração do Convento de Mafra </li></ul><ul><li>a acção termina em 1739 , no momento em que Blimunda vê Baltasar a ser queimado em Lisboa, num auto-de-fé . </li></ul>TEMPO O tempo diegético (tempo da história )
    53. 53. <ul><li>Muitas vezes, a passagem do tempo é anunciada por situações precisas &quot;Para D. Maria Ana é que lhe vem chegando o tempo. A barriga não aguenta crescer mais por muito que a pele estique (.. .)&quot; ou por referências temporais que se integram em marcações referenciais – por exemplo: </li></ul><ul><li>&quot;(…) tendo partido daqui há vinte meses (…)&quot; p. 72 </li></ul><ul><li>&quot;Meses inteiros se passaram desde então, o ano é já outro&quot; p. 77 </li></ul><ul><li>&quot;Entretanto, nasceu o infante D. Pedro (...)&quot; p. 88 </li></ul><ul><li>&quot;Bartolomeu Lourenço foi à quinta de S. Sebastião da Pedreira, três anos inteiros haviam passado desde que partira (. .)” p. 117 </li></ul><ul><li>&quot;(...) é certo que há seis anos que vivem como marido e mulher (…)&quot; p. 130 </li></ul><ul><li>&quot;(...) se não ficou dito já, sempre são seis anos de casos acontecidos (…) &quot; p. 134 </li></ul><ul><li>&quot;(…) e já vão onze anos passados (...)&quot; p. 162 </li></ul><ul><li>&quot;(...) passaram catorze anos (…) “ p. 214 </li></ul><ul><li>&quot;Desde que na vila de Mafra, já lá vão oito anos, foi lançada a primeira pedra da basílica (…)&quot; p. 231 </li></ul>TEMPO O tempo diegético (tempo da história )
    54. 54. TEMPO O tempo do discurso <ul><li>O tempo do discurso é revelado através da forma como o narrador relata os acontecimentos . Este pode apresentá-los de forma linear , optar por retroceder no tempo em relação ao momento da narrativa em que se encontra ou antecipar situações. </li></ul>
    55. 55. TEMPO O tempo do discurso <ul><li>As analepses (recuos no tempo) </li></ul><ul><li>As analepses explicam, geralmente, acontecimentos anteriores, contribuindo para a coesão da narrativa . </li></ul><ul><li>É de assinalar, anteriormente ao ano do início da acção (1711 ), a analepse que explica, em parte, a construção do convento como consequência do desejo expresso, em 1624, pelos franciscanos , de possuírem um convento em Mafra. </li></ul>
    56. 56. TEMPO O tempo do discurso <ul><li>. a crítica social - é o caso das prolepses que dão a conhecer as mortes do sobrinho de Baltasar e do infante D. Pedro, de modo a estabelecer o contraste entre os dois funerais , ou a morte de Álvaro Diogo , que viria a cair de uma parede, durante a construção do convento, assim como a informação sobre os bastardos que o rei iria gerar , filhos das freiras que seduzia </li></ul><ul><li>. a visão globalizante de tempos distintos por parte do narrador (o tempo da história e, num tempo futuro, o do momento da escrita) - cabem aqui as referências aos cravos (outrora, nas pontas das varas dos capelães; muito mais tarde, símbolos da revolução do 25 de Abril), a associação entre os possíveis voos da passarola e o facto de os homens terem ido à Lua, no século XX , a alusão ao tipo de diversões que se vivia no século XVII e ao cinema, entre outras </li></ul><ul><li>As prolepses (acções futuras) </li></ul><ul><li>A antecipação de alguns acontecimentos serve os seguintes objectivos: </li></ul>

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